sexta-feira - 25/03/2022 - 14:24h
Da luta

Poesia sem caráter

Por François Silvestre

Foi o que pensei ao imaginar este verso fotográfico, ajustando a câmara, para registrar a fisionomia deste tempo de trevas. Aí descobri que não é hora de poesia.chuva, vidro embaçado, inverno, parabrisa de carro,

Não é. Mesmo a aroeira parindo brotos de futuras flores, informando que suas raízes começam a sugar a seiva doce do massapê, mesmo a moita do mofumbo soltando as primeiras flores que só cheiram ao nascer, mesmo o riacho descendo em busca de uma foz raquítica, mesmo as águas do baixio no aluvião convidando ao plantio do milho e do feijão, mesmo o canto da mãe-da-lua informando que a madrugada não tem destino, mesmo o correr do calango fugindo da baladeira do moleque ainda existente, mesmo a jitirana enfeitando a subida das grotas, mesmo a espingarda de pederneira pendurada inútil num armador do alpendre, mesmo o sonho de uma mãe que esperou do filho retirante uma carta ou um mimo, mesmo a desmama de um bezerro preso à pata traseira da vaca para oferecer leite à mama do filho do tirador do seu leite, mesmo o som do trovão informando o desgosto de Tupã.

Não dá pra fazer poesia. Não dá.

É hora de arregaçar mangas, não de colhê-las. O momento é de luta e luta feroz. Dizer abertamente que vamos vencer e quem não aceitar a derrota que se prepare pra luta.

Se perdermos, aceitaremos. Se vencermos, venceremos sem medo de arreganhos ou ameaças.

O Brasil impõe o desafio: É vencer ou vencer!

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 04/02/2016 - 08:00h
Pendências

Prefeito é processado por pagar obras incompletas

O Ministério Público Federal (MPF) em Assu ingressou com uma ação contra o prefeito de Pendências, Ivan de Souza Padilha; a Construtora Cageo Ltda.; e seu sócio-administrador, Carlos Henrique de Oliveira Dantas. O gestor é acusado de repassar recursos para construção de casas populares, à empresa, sem que a obra tivesse sido efetivamente concluída.

Um convênio firmado entre o Departamento Nacional de Obras Contras as Secas (Dnocs) e o Município de Pendências previa repasse de R$ 600 mil para construção de 40 casas populares e teve vigência de janeiro de 2009 a janeiro de 2012. Desse total, R$ 200 mil foram efetivamente transferidos à Prefeitura e o restante do repasse foi suspenso porque não houve conclusão sequer da etapa paga.

As casas seriam destinadas a famílias das comunidades Ilha de São Francisco, Massapé, Boa Vista, Pedrinha e Amargoso. A Cageo foi contratada, porém não construiu todos os imóveis e ainda utilizou material de baixa qualidade na obra, deixando diversas residências com problemas estruturais.

De acordo com a ação, assinada pelo procurador da República Victor Queiroga, fiscalizações da Controladoria Geral da União (CGU) apontaram que em algumas casas faltavam portas ou janelas e muitas apresentavam rachaduras.

O próprio Dnocs, em visita técnica ao local, constatou que apenas onze foram concluídas e nove apresentavam somente a alvenaria com cobertura de telha de cerâmica.

Veja matéria completa AQUI.

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Categoria(s): Administração Pública / Justiça/Direito/Ministério Público
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domingo - 02/03/2014 - 08:32h

A seiva doce do massapê

Por François Silvestre

Mesmo a grafia indicando som aberto, a sonoridade do mato consagrou o som fechado, massapê. Mais bonito e mais próximo da sua compleição. Até porque cada palavra acaba incorporando na sonoridade da pronúncia o formato da coisa nominada.

Quando no sertão, vítima das secas e dos teóricos distantes, que se arvoram em conhecedores das dores daqui, as primeiras chuvas do ano adocicam a seiva dos tabuleiros e recepcionam a maciez colorida do capim de seda, o plantador de feijão remexe com as mãos a umidade do massapê. Depois, põe a mão em forma de aba sobre os olhos e paquera as torres do Nascente.

Os primeiros brotos da cebola braba animam-se nos quintais anunciando mais uma espera. Junta-se a eles o cantar dobrado do sabiá, que só canta assim nas vésperas de chuva. Em ano de seca fechada, o sabiá trina uma toada linear, sem dobra, sem risco do desafino. Ele não quer iludir as sementes guardadas num frasco de plástico, longe do gorgulho, que semearão a terra molhada para a colheita no tempo das fogueiras.

Quem sabe disso tudo é Tico de Quinola, habitante da ponta do banco de cumaru, na parte oeste do balcão da bodega de Priquitim, onde ele se aboleta desde cedo, a receber agrados de cachaça, acompanhada de pequenos pedaços de laranja ou mais raramente um naco de queijo de coalho.

Fala pouco, como toda gente sabida. Ouve primeiro, para não desagradar a opinião do freguês passante. Pode lhe custar uma dose perdida. Já foi aluno do “Almino Afonso”.

“Tão falando numa seca verde”, diz Leon de Amância, puxando conversa. Não foi suficiente pra Tico manifestar-se. Aguardou mais alguma extensão da fala. “Nem sei o que danado é isso, seca verde”? Essa observação meio pergunta de Leon foi a deixa pra ele expor sua opinião sem medo.

“Seca verde é o governo. Nós aqui só conhecemos secas cinza”. Falou animado, já recebendo uma boa bicada do visitante, acompanhada duma lasca de queijo. E aí deitou lição: “Mostrar juazeiro verde, mesmo na seca, não é vantagem. Nem floração do mofumbo. Nem pingos nas rochas da Casa de Pedra. Pra isso não se precisa das promessas calejadas do governo. E quem enricou com promessa foi São Severino dos Ramos”.

Nas telas das TVs do Sudeste, o Nordeste aparece muito rapidamente, nas previsões do tempo. E o Rio Grande do Norte inexiste. A moça passa a mão depressa pelo mapa daqui, enquanto se detém demoradamente nas nuvens de cada pedaço dos Estados de lá.

Mesmo assim, o furabarreira continua animando o matuto. O inchu e o inchuí tão nem aí. Enchem de mel claro suas capas, como a dar o dedo aos “sertanistas” de longe. Não conhecem nem as cidades onde moram e exibem cultura, querem conhecer o Sertão, que não permitiu ainda suas entranhas a ninguém. Quando muito, uma brecha à linguagem.

Enquanto isso, Tico de Quinola toma mais uma no cumaru de Priquitim. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Crônica
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