domingo - 02/09/2018 - 07:30h

O Cristo e a pedra

Por François Silvestre

Essas mal traçadas linhas, no bico de pena do computador, olhando para a Pedra Rajada. A mesma que avistei ainda menino na primeira vez que subi a Serra, com noção sub rudimentar das coisas.

Na garupa do cavalo Petróleo, preto mesclado de branco, sob o comando do padre Alexandrino Suassuna de Alencar. Nem lembro qual era o meu tempo de vida. Com certeza, antes dos oito anos. Pois que com essa idade, eu vi seu corpo inerte, estirado num velório improvisado na casa da minha avó.

Minha avó. A memória mais suave, alegre, feliz, vestida de flores, banhada de vida, que o regresso à infância consegue me levar.

A lembrança do padre, tio e pai adotivo, é confusa. Misto de admiração, afeto e medo. Relação de uma criança peralta com um pai ciclotímico. Ora, de agasalho afetuoso. Ora, de rigorosa punição. Havia na parede da sua biblioteca uma palmatória, chamada Vitória, que impunha pavor.

A casa da minha avó era o paraíso. E eu o Adão inexpulsável. Um quintal de frutas e flores. Uma casa vasta, que ela imitava, em Martins, sua casa de jovem em Maranguape.

Filha de um Juiz do Exu, João Antunes de Alencar, aqui ficada por acerto de casamento com um filho de Bisinha Suassuna. Juntava-se aí o sertão de Pernambuco, do Exu; o da Paraíba, de Catolé do Rocha; com a Chapada do Apodi, Gomes e Pintos espalhados pelas Serras do Martins e Portalegre.

Mas não é de genealogia que esse texto trata. Tenta tratar, se possível, desta tarde daqui defronte da Pedra Rajada.

Não defronte do Promontório da Lucárnia onde, nas águas de Antemusa, reinavam Agláope, Teossíope e Partênope, as líderes Sereias encantadoras dos navegantes.

Apenas no amparo de uma tarde modorrenta, como assim definiu Cláudio Santos, ao dizer do medo de enfrentar as tardes. Para quem não teme tormentas, acho que foi uma desculpa para descer a Serra.

Pois bem. Estou defronte da Pedra Rajada. Vista do Mirante Mãe-Guilé, cujo nome tenta aproximar pela paisagem a inimitável figura da avó. A inapagável imagem resistente de uma criança esperneante da memória.

NA PEDRA CHAPADA SOBRE A GROTA VEEM-SE DUAS FIGURAS DE COMPLEIÇÃO HUMANA. Uma de perfil, serena, cuja mancha preta das águas, ao longo dos séculos, lhe ornamenta uma vasta cabeleira. Outra, acima e à direita, mostra um rosto sofrido, com olhos macerados, parecendo tortura.

A imaginação popular diz que são figuras do Cristo. E que a dificuldade de identificá-las acusa impureza no observador. Muitos se apressam na identificação, como os conselheiros daquele rei que exigia admiração por uma roupa inexistente.

O Cristo visto ou não de qualquer pedra continua a saga de ser pregado na cruz. E quem o prega é ateu? Não. São os nominados cristãos que O penduram e O pregam na cruz. Quando vendem milagres, quando O evocam para justificar mentiras, quando prometem o que não cumprem.

Nesse ano de eleições e julgamentos, de mentiras expostas nos templos, das igrejas e tribunais, o Cristo é o expulso. Debaixo de chicotadas da mais fina hipocrisia.

Não há Pilatos, posto que nem água com sabão, mexido de soda cáustica, consegue lavar as mãos dos centuriões romanos dessa Roma devastada, posta no hemisfério latino da sul América.

Nessa escrita, chega gente de longe. Uma família de Cajazeiras, com parentes de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. O chefe do clã fala alto: “Quero ver se daqui se vê luzes de treze cidades. E comer galinha caipira com arroz de puta-rica”.  Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 23/07/2017 - 09:44h

Aqui, à tarde

Por François Silvestre

Essas mal traçadas linhas, no bico de pena do computador, olhando para a Pedra Rajada. A mesma que avistei ainda menino na primeira vez que subi a Serra, com noção rudimentar das coisas.

Na garupa do cavalo Petróleo, preto mesclado de branco, sob o comando do padre Alexandrino Suassuna de Alencar. Nem lembro qual era o meu tempo de vida. Com certeza, antes dos oito anos. Pois que com essa idade, eu vi seu corpo inerte, estirado num velório improvisado na casa da minha avó.

Minha avó. A memória mais suave, alegre, feliz, vestida de flores, banhada de vida, que o regresso à infância consegue me levar.

A lembrança do padre, tio e pai adotivo, é confusa. Misto de admiração, afeto e medo. Relação de uma criança peralta com um pai ciclotímico. Ora, de agasalho afetuoso. Ora, de rigorosa punição. Havia na parede da sua biblioteca uma palmatória, chamada Vitória, que impunha pavor.

A casa da minha avó era o paraíso. E eu o Adão inexpulsável. Um quintal de frutas e flores. Uma casa vasta, que ela imitava, em Martins, sua casa de jovem em Maranguape.

Filha de um Juiz do Exu, João Antunes de Alencar, aqui ficada por acerto de casamento com um filho de Bisinha Suassuna. Juntava-se aí o sertão de Pernambuco, do Exu; o da Paraíba, de Catolé do Rocha; com a Chapada do Apodi, Gomes e Pintos espalhados pelas Serras do Martins e Portalegre.

Mas não é de genealogia que esse texto trata. Tenta tratar, se possível, desta tarde daqui defronte da Pedra Rajada.

Não defronte do Promontório da Lucárnia onde, nas águas de Antemusa, reinavam Agláope, Teossíope e Partênope, as líderes Sereias encantadoras dos navegantes.

Apenas no amparo de uma tarde modorrenta, como assim definiu Cláudio Santos, ao dizer do medo de enfrentar as tardes. Para quem não teme tormentas, acho que foi uma desculpa para descer a Serra.

Pois bem. Estou defronte da Pedra Rajada. Vista do Mirante Mãe-Guilé, cujo nome tenta aproximar pela paisagem a inimitável figura da avó. A inapagável imagem resistente de uma criança esperneante da memória.

Na pedra chapada sobre a grota veem-se duas figuras de compleição humana. Uma de perfil, serena, cuja mancha preta das águas, ao longo dos séculos, lhe ornamenta uma vasta cabeleira. Outra, acima e à direita, mostra um rosto sofrido, com olhos macerados, parecendo tortura.

A imaginação popular diz que são figuras do Cristo. E que a dificuldade de identificá-las acusa impureza no observador. Muitos se apresam na identificação, como os conselheiros daquele rei que exigia admiração por uma roupa inexistente.

Nessa escrita, chega gente de longe. Uma família de Cajazeiras, com parentes de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. O chefe do clã fala alto: “Quero ver se daqui se vê luzes de treze cidades. E comer galinha caipira com arroz de puta-rica”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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terça-feira - 02/08/2016 - 03:49h
Ah, tá!

Alcoolismo seletivo

Por François Silvestre

Chegando a Martins, encontro uma amiga de longo tempo, no Mirante Mãe-Guilé. Abração e cheiros. Ela pergunta: “François, você já foi alcoólatra”?.

Respondi de pronto: “Não. Eu sou alcoólatra”. Não consigo viver sob abstemia de álcool.

Porém, como em tudo tem porém, ou entretanto mas porém, como dizia Zé Limeira, meu alcoolismo é seletivo. Só tomo cerveja. E só tomo cerveja muito gelada. Ou chopp com pressão. E tem as marcas preferidas.

Na ausência da cerveja, não tomo pinga nem uísque nem vinho. Quando muito, no meu alpendre em Cajuais da Serra, um vinho do Porto com queijo de coalho maturado, envelhecido fora de geladeira.

Na praça Floriano, do Rio de Janeiro, tomo chopp com salmão grelhado.

No bar da esquina da Cândido Mendes, na Glória, chopp com frango acebolado.

No Catete, defronte do Palácio de mesmo nome, chopp com bolinho de bacalhau.

É ou não é um alcoolismo afrescalhado?

Na Colônia Penal eu tomava até refresco de maracujá com álcool.

Gazaneo Cabral trazia álcool da oficina e nós o misturávamos numa proporção de uma garrafa de álcool para três de suco do maracujá.

Mas hoje é democracia. Para esse regime de bosta, melhor do que a merda milicada, nada como uma frescura alcoólica.

Fui, forçado pelas molecas, a uma psiquiatra. Ela lá pras tantas me perguntou: “Por que o senhor insiste na cerveja”?

Respondi: “Pra não ter de gastar dinheiro com a senhora”!

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/02/2015 - 11:33h

Num é da conta de ninguém

Por François Silvestre

Depois de muita conversa furada, que é o jeito de abastecer informações sobre assuntos “sérios”, vou tratar hoje de assuntos amenos,”suaves”, que se abastecem com conversa séria.

Até por que a seriedade no mundo de hoje é pra não ser levada a sério.

Aqui na chã da Serra sempre houve, em cada geração, uma quantidade enorme de figuras humanas que deixam marcas do seu rastro nas veredas do seu tempo.

Isso vai de agricultores, papudinhos, comerciantes, doidos, andarilhos, carolas e até autoridades. A geografia humana de cá de cima é um universo riquíssimo nesses figuraços que se distinguem e se diferenciam.

Martins possui algumas características especiais nessa coisa de psicologia coletiva. Tradicionalmente, uma cidade pacata. Porém, quando ocorre algum homicídio aqui é quase sempre de forma extravagante, para dizer o mínimo. Alguns são de arrepiar.

Há poucos minutos, enquanto estava escrevendo este texto, ouço um barulho que parecia a queda de várias folhas de zinco jogadas num lajedo. Era bala. Ocorria um velório, aqui na vizinhança da minha casa, quando um sujeito, ainda não identificado, invadiu a sala onde se velava a morta e disparou vários tiros, matando um parente da defunta.

Convenhamos que não seja comum matar alguém num velório. A cena que se formou e perdurou por toda a tarde diz tudo: A falecida no caixão, quase abandonada, e um morto, no chão, varado de balas, à espera dos peritos de Mossoró.

Martins é assim. Estranhamente pacata. Mas voltemos ao tema do texto, após o susto do tiroteio.

Luiz de Lulu, assim chamado, tendo como sobrenome o apelido do seu pai. Eu conheci, ainda criança, seu Lulu. Proprietário de um grande sítio e de uma das mais famosas casas de farinha da região.

Pois bem. Luiz de Lulu herdou a semelhança física e o gênio do pai. Quando bebia, coisa que deixou de fazer há anos, agia diferentemente do comum das pessoas. Bêbado, era profundamente educado. Chamava a todos de “doutô” ou “icelença”.

Chegava a ser cerimonioso. Estando sóbrio, como vive hoje, o tratamento é ríspido. “Diga aí, fí duma égua”. É assim que cumprimenta, seja quem for.

Casado há cerca ou mais de meio século, faz mais de vinte anos que não fala com sua mulher. Moram na mesma casa. “Nem um bom dia”, diz ele.

Interrogado por Jaílton, do Mirante Mãe-Guilé, respondeu rispidamente algumas perguntas. “Quem cozinha”?

Resposta: “Eu faço minha comida e ela faz a dela”.

Pergunta: “Vocês comem juntos”?

Resposta: “Cada um come no seu canto”.

Pergunta: “Quem lava a roupa”?

Resposta: “Eu deixo lá num canto; ela lava, engoma e deixa no mesmo lugar”.

Pergunta: “Quem compra a comida”?

Resposta: “Cada qual compra a sua, do que gosta”.

Pergunta: “E de noite, como é”?

Resposta: “Pode parar de pergunta; já sei o que você quer saber e isso num é da conta de ninguém”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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