domingo - 21/09/2025 - 06:44h

O Efeito Casulo – Dia 17

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Entrega. Abnegação. Perseverança. Altruísmo. Não é fácil a gente pensar em literatura, em arte da palavra escrita, quando o que temos pela frente é uma sentença de morte, um futuro de cinco ou seis meses; isto raciocinando com certo otimismo. Portanto, em um confronto cuja derrota é inevitável, e como quem se vinga da cruezadeste momento desferindo uma zombaria, um deboche perante o fim, esta minha almacondoreira se nega a ajoelhar-se. Porque escrever, mesmo à beira do abismo, é a segurança e conforto que ainda me restam. Não vou simplesmente cruzar os braços e aguardar o apagar definitivo das luzes. O corpo ainda luta. A mente não se verga ao carrasco absoluto. Afrontando o destino, exibindo um acinte, um escárnio, seguirei osacerdócio do meu verbo até minhas últimas fibras de vigor e lucidez. Que se dane a Moça da Foice; que espere esgotar-se o derradeiro hálito de oxigênio que eu possua.

Eis meu epitáfio. A busca do vocábulo exato, justo, medido, seguirá como um ato de rebeldia e provocação. Já não importam (nunca importaram) as futricas, os engodos das igrejinhas literárias. Minha mensagem é de resiliência, um tapa na cara do próprio tempo. É isto. Esse tempo escasso, tão mesquinho e insensível, corre contra mim. Sobretudo nesta terminante quadra dos meus anos. É preciso cumprir a jornada, manter o passo. Desistir da carpintaria das letras não é uma opção. Necessito seguir com esta manufatura da linguagem desejosamente artística. É o que ambiciono. Então continuo com este tear solitário e silencioso sem recompensa, sem aplauso nenhum. Um senso de compromisso com este mister da língua portuguesa não pode parar, acovardar-se, morrer de véspera. Não. O artesanato da linguagem, obscuro e quase sempre inglório, não vai entregar os pontos sem que haja luta. Jogar a toalha? Não! Ainda há um rito a se cumprir, um ciclo a se fechar. Parodiando Guimarães Rosa, o que a literatura quer da gente é coragem. Uma duvidosa e improvável coragem que desponta subitamente como uma grande tocha afugentando as trevas. Desistir, repito, não é opção.

Morrer escrevendo não é derrota, é conquistar a posteridade. Não tenho alternativa nem desejo outro fim. Escrever é um exercício de imortalidade. Um diaqualquer alguém haverá de ler estas linhas e, respirando fundo, dirá consigo próprio: “Esse escritor maldito não morreu, apenas trocou de pele. Ele é uma espécie de cobra. Ainda ouviremos falar a respeito desse indivíduo. Não hoje. Talvez não amanhã nem depois, contudo não se enganem; esse dia chegará mais cedo ou mais tarde. Percebem?!Já não me sinto mais derrotado. Não ao menos no tocante ao presente.

Venham, palavras! Tantas e de tantos. Símbolos gráficos que equivalem a tijolos do meu edifício de letrinhas, do meu castelo de sílabas e sons, cores e caminhos. Aqui estão elas. Sempre estiveram ao nosso alcance. Disponíveis como uma fruta madura na ponta de um galho acessível. Ei-las! Algumas são ásperas; outras, adocicadas. Têm pétalas, perfume, espinhos. Oferecem sumo e doçura, dão água na boca e cócegas nos nossos olhos e ouvidos. Benditas sejam! Cada uma com o seu tamanho, relevo e literariedade. Como são diversas e difusas, repletas de encantamento e significado!Basta tão só que as colhamos das árvores do idioma com o visgo de nossos neurônios,inventividade e reverência que elas nos ofertam. Que isto façamos com calma, sem atropelo, sem descuido, sem precipitação. Quem sabe uma por uma, de maneira que possamos sentir-lhes o peso, a textura, gosto e aroma. Tais verbetes, além de tijolos na edificação de ideias pétreas, de mensagens duras, comportam delicadeza. Ainda mais sereunidas em uma “página branca de susto”, como naquele aforismo de Quintana.

Sim! O insigne poeta maior Mario Quintana, rejeitado pela politiqueira Academia Brasileira de Letras. Que vergonha para aqueles supostos imortais! Logo oQuintana, que, segundo ele próprio, nunca escreveu uma vírgula que não fosse uma confissão. O que diria (latifundiário de um vasto plantio de verbetes) acerca destes meus relatos impróprios para consumo interno, conforme escrevi certa feita. É isso! Sou um autor pungente, nada bem-comportado. Minha verve (ou estômago) não consegue comungar com essa pompa dos grupelhos intelectuais, uma turma que se autopromove e se reveste com seus fardões acadêmicos, espadas e medalhas de falso brilho.

Retomemos o verbo. Deixemos os imortais com sua ilusão de imortalidade artística. A verdade, porém, é que o ofício de literato nesta pátria de chuteiras nunca foi tão maltratado e banalizado como hoje em dia. Aqui tanto quanto além, os impostores lotam as rodinhas do elogio mútuo; todos se masturbam com recíproca bajulação e gozam no final. Isto não tem a ver com inveja ou despeito. Trata-se de bom senso, de enxergar os embustes, as farsas que permeiam essas patotinhas. Há gente por aí escrevendo demais sem dizer coisa alguma. É uma malversação, um desperdício de letras que, por exemplo, acomete metade dos escritores deste município. Melhor não mexer no vespeiro. Todos são adultos e responsáveis por suas produções. Não sou o sujeito mais indicado para dar palpites acerca dessa literomania presunçosa do País de Mossoró. Antes que comece a chover canivetes sobre a minha cabeça, retorno ao meu casulo. Acho que coloquei o dedo na ferida, e isso por aqui é algo imperdoável.

Vejo que cheguei ao final de mais um relato concebido a duras penas, um registro desses dias agônicos e desesperançados. Os medicamentos vão se tornando cada vez menos eficazes. Mas que se foda o meu câncer! Apesar do meu estadodebilitado, precário, da gravidade de minha doença, sei que ainda tenho muito o que debater, confrontar e expor ao longo dessa época de revoltas e padecimentos. Isto não representa, que fique bem claro, nenhuma forma de escapismo, de autopiedade ou vitimismo. Não! Exponho neste blogue, ao longo de algumas semanas, um relatohonesto, nu e cru do meu cotidiano. Os amigos já têm conhecimento da minha sentença de morte. O telefone não para de tocar. Querem me ver, ouvir pessoalmente tudo o quanto o meu editor segue gentilmente e pacientemente publicando. Muito obrigado.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 14/09/2025 - 06:50h

O Efeito Casulo – Dia 16

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Madrugada. Quase duas horas. Despertei com fortes dores na barriga e nas costas. Levantei-me a custo. Repeti a dose dos remédios, aguardei e suportei alguns minutos na expectativa de que minha agrura cessasse, contudo não arrefeceu; continuei com o mal-estar intenso. O estômago estava embrulhado. Abri a porta da cozinha e vomitei no quintal com abundância. A minha testa e os cabelos logo ficaram ensopados. Aliás, o meu corpo inteiro suava excessivamente. Os achaques seguiram.

Decidi que precisava rumar para o pronto-socorro do Hospital Tarcísio Maia. Não tinha condições de ir pedalando. Descartei a opção da bicicleta. Peguei o celular e recorri ao serviço de um carro de aplicativo. Foram longos e agônicos quinze minutos até que o motorista chegasse. O trajeto levou menos de dez minutos. Deitei-me encurvado no banco de trás. Apesar do horário, paguei apenas trinta reais pela corrida. Desci com a ajuda do condutor. O rapaz me acompanhou até o guichê da recepção. Encontrei duas pessoas na minha frente. Estas, porém, vendo a minha agonia, deixaram que eu fosse atendido primeiro.

Precisei, no intuito de agilizarem o atendimento, revelar que tenho câncer e que me encontrava em uma forte crise. Citei todos os quase impronunciáveis nomes dos remédios que tomo pela manhã e antes de dormir. O uso contínuo desses fármacos me permitiu decorar, além da posologia, as suas denominações com precisão. Quanto ao socorro no Tarcísio Maia, para ser justo e grato, não tenho do que me queixar. Quando cheguei ao corredor, amparado por uma enfermeira que me pôs em uma cadeira de rodas, topamos com o médico de plantão, que vinha com um copinho de plástico com café. Não me recordo do nome desse profissional, mesmo ele tendo se identificado, entretanto me recebeu com sensibilidade quanto educação. Não é em toda parte que encontramos gente assim no serviço público.

Sem demora, portanto, aquele indivíduo de jaleco branco, de estatura mediana, pele morena, olhos e cabelos negros, logo me encaminhou para um leito da enfermaria onde havia outras duas camas com pacientes. Ali, após as minhas explicações, ele tomou conhecimento do meu caso. Explicou-me que naquela unidade de saúde dispunham de um aparelho de ressonância e providenciou o uso da máquina. Como eu esperava, disse que minhas condições são críticas. Acrescentou, enfim, que o que estava ao alcance dele era aplicar uma injeção de morfina.

Isso foi o que me livrou daquelas dores terríveis. Cerca de uma hora depois recebi alta e novamente solicitei um carro de aplicativo, que demorou menos que o primeiro. Dessa vez não precisei de ajuda para entrar, e fui no banco dianteiro. Em casa, depois de um banho, visto que havia suado bastante, usufruí de um resto de noite tranquilo e reparador. Só deixei a cama por volta das nove horas. A seguir preparei um café, comi um pão com manteiga e uma fatia de queijo. Tomei os medicamentos prescritos para esse período do dia. Até este instante, enquanto relato a via crucis da madrugada, não sinto nenhum desconforto. São precisamente dezessete horas e dois minutos deste sábado. Todas as janelas e portas estão abertas, enquanto um vento agradável percorre a casa. Essa possibilidade de chuva sempre me deixa feliz.

Hoje não tenho a menor condição de tocar a faxina adiante, porém espero que amanhã, embora que aos poucos, bem devagarinho, eu consiga limpar mais algumas partes desta residência. Especialmente a cozinha, visto que a sala já consegui pôr em ordem. A expectativa de receber Leopoldo Nunes na próxima terça-feira é um estímulo que parece renovar os meus ânimos. Neste momento, para não forçar muito a coluna sentado nesta cadeira, devo findar a narrativa por aqui.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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