domingo - 22/02/2026 - 06:50h

Força e fé

Por Odemirton Filho

Ilustração da Biblioteca do Pregador

Ilustração da Biblioteca do Pregador

De vez em quando converso com um amigo sobre o seu estado de saúde. Ele vem atravessando um momento delicado na vida, pois, há algum tempo, foi diagnosticado com uma séria doença, necessitando de tratamento e acompanhamento constantes para debelar o mal.

Porém, o que me deixa admirado é a sua força e a sua fé. Apesar de aqui e acolá ter momentos de fraqueza, o que é natural, ele continua a lutar, a rogar a Deus pela sua plena recuperação. E o faz, diga-se, com uma energia contagiante; não desanima, acredita piamente que sairá dessa. E sairá, se Deus quiser.

Lembro-me de uma passagem do Evangelho na qual Jesus segura na mão de um discípulo e lhe diz: “homem de pouca fé, por que duvidaste? E levantando-se repreendeu o vento e o mar, e se fez calmaria”. (Mateus 14:31).

Com efeito, quem de nós, às vezes, não fica temeroso ao enfrentar uma tempestade na vida? Todos, creio. É comum vacilar, tremer, fraquejar. Entretanto, para quem tem fé, o fardo fica mais leve. Encontra-se força de onde nem se imagina; levanta-se a cabeça e segue-se em frente, firme e forte.

O fato é que ninguém sabe o que o outro está enfrentando. As batalhas da vida muitas vezes são silenciosas, e precisamos de força interior para digladiar com os problemas. Vez outra, como sabemos, perdemos uma batalha. No entanto, o que realmente importa é levantar, bater a poeira, erguer a cabeça e seguir adiante. Se hoje não deu certo, amanhã, certamente, dará.

Por falar nisso, noutro dia eu vi uma carreata pelas ruas de Mossoró que me deixou bastante emocionado. Uma mulher, dentro de um carro, acenava para as pessoas nas ruas e nas calçadas, feliz da vida, pois tinha conseguido vencer a luta contra o câncer. Por onde ela passava, as pessoas acenavam de volta, vibrando com a sua vitória, emanando boas energias.

Bom, não sei quais batalhas você está enfrentado. Só sei que eu tenho as minhas e procuro enfrentá-las com força e fé, tal qual o meu querido amigo. Desistir, decerto, não é uma opção.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/02/2026 - 08:00h

Sobre o cotidiano

Por Odemirton Filho

A retratada em pose com o autor da crônica (Foto: Marcos Ferreira)

A querida “Juju”, cria do escritor Marcos Ferreira, já foi retratada por ele em crônicas diversas (Foto: Marcos Ferreira)

Entregar aos webleitores um bom texto, por vezes, torna-se uma difícil missão, hercúlea, diga-se. Até o nosso competente cronista, contista, romancista e poeta, Marcos Ferreira, padece da falta de inspiração, vez ou outra, como já confidenciou. Sei que me faltam o conhecimento jurídico do professor Marcos Araújo, a bagagem histórica do advogado Bruno Ernesto, os textos reflexivos do escritor Honório de Medeiros e a sensibilidade literária do Procurador da República, Marcelo Alves. Sem esquecer do editor deste Blog, exímio jornalista e cronista.

Desse modo, eu escrevo sobre o cotidiano e, de vez em quando, resgato fatos do passado. Escrevo sobre o que parece banal, o simples da vida. Às vezes, quando estou andando pelas ruas, vejo algo que me chama atenção, inspirando-me, a exemplo de um voo de um pássaro, como faziam as andorinhas da Igreja de São Vicente, ou um homem que caminha, apressado, rumo ao seu destino, como se não tivesse tempo a perder.

Por falar nisso, ao parar em um posto de combustível, lá em Areia Branca, terra do saudoso cronista José Nicodemos, pedi um pouco de chá ao frentista. Ele me olhou e disse: “você sabe trabalhar o tempo, né”? Confesso que fiquei espantado com a afirmação. Creio que ele quis dizer que eu não perdia tempo, pois eu estava esperando pra abastecer o carro, conferindo os mandados judiciais a serem cumpridos e tomando chá num pequeno copo descartável.

Eu gosto de escrever sobre o cotidiano, sobre sentimentos, sobre o passado. Na verdade, ao escrever neste Blog cada colaborador deixa um pouco de si. Desnudamos nossa alma, entregamos textos que refletem um pouco de nós, o que somos e pensamos.

Enfim, “o professor Antônio Cândido definiu o cronista como um cão vira-lata, livre farejador do cotidiano, e a crônica como a vida aos rés do chão, pela sua busca ao comum. Exige-se estilo, graça, uma voz própria e todos os demais adereços inerentes à insustentável leveza de ser crônica”. (prefácio do livro Um século em cem crônicas, por Joaquim Ferreira dos Santos).

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 08/02/2026 - 09:28h

Entre um conde e um passarinho

Por Odemirton Filho

Imagem ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Uma das mais famosas crônicas de Rubem Braga foi a que tem como título o conde e o passarinho, escrita em fevereiro de 1935. Eis um fragmento:

“Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O conde não sabe gorjear nem voar. O conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares (…) o passarinho não é industrial, não é conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é ser gentil, ser um passarinho”.

O que será que o velho Braga quis dizer? O que está escrito nas entrelinhas que somente a sensibilidade da alma pode desvendar? Penso eu, que é o contraste entre a riqueza e a simplicidade. Na verdade, o texto nos dá a oportunidade de fazer inúmeras interpretações ao gosto do freguês.

A vida de um conde, cercada pelo luxo e pela riqueza, contrasta com a simplicidade de um passarinho ou, se inferindo o que o autor da crônica quis dizer, das pessoas que vivem na simplicidade e que, na maioria das vezes, lutam para sobreviver.

É certo que as pessoas com tem um bom poder aquisitivo enfrentam vários problemas, haja vista ninguém está imune às dificuldades do dia a dia. Todos, absolutamente todos, deparam-se com problemas, sejam de saúde, financeira ou algum membro da família envolvido com drogas ou atos ilícitos. É essa, infelizmente, a realidade vivenciada por milhões de pessoas.

Na vida, creio eu, é preciso buscar o equilíbrio entre o ser e o ter. Quem não quer ter uma boa renda financeira, uma boa casa, um bom carro? A maioria das pessoas, decerto. Entretanto, há quem não ambicione além do mínimo para viver dignamente.

A virtude está no meio, já disse o filósofo. Talvez, buscar o equilíbrio se evitando o excesso, “sabendo cantar”, “sabendo voar”, enquanto conduzimos nossa vida, deve ser o ponto crucial para se viver bem e em paz.

Bom, para finalizar o texto, Rubem Braga escreveu que o conde viu quando o passarinho voou em sua direção, bicou o seu peito, e saiu voando com a fitinha e a medalha que ele exibia à lapela.

“O passarinho a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do conde, varando as fábricas do conde, sobre máquinas de carne que trabalham para o conde, voai, voai, voai, voai, passarinho, voai”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/02/2026 - 08:34h

Conhecendo o mar

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

As ondas do mar batiam em suas pernas, e ele ria, afastando-se, com medo, daquela ruma de água. Foi a primeira vez que Pedrinho foi à praia. Contava, então, com dez anos de idade. Era um menino nascido e criado na zona rural, lá pelas bandas do Alto Oeste das terras potiguares. Tão emocionado ficou, que talvez dissesse como a personagem da escritora Ana Maria Gonçalves, no livro Um Defeito de Cor, “eu achei que o mar era da cor do pano de Iemanjá, só que mais brilhante e mais macio”.

Desde novinho, ele desejava conhecer o mar. Os seus pais, no entanto, eram pessoas humildes, viviam de lavrar a terra, trabalhando de sol a sol, com pouco dinheiro. Por isso, o menino Pedrinho sonhava com esse dia. E, finalmente, chegou.

Ele ficava correndo pra lá e pra cá pela praia; fazia castelo de areia; jogava bola com o seu pai e um irmão mais novo. Antes de entrar no mar, fazia o sinal da cruz, rogando proteção a Deus. Como não sabia nadar, ficava no raso, fazendo as mãos em concha e molhando a cabeça. “Tocado pelo vento, o mar ia de um lado para outro, fingia que ia e voltava”. Os pais riam do seu jeito, e ficaram imensamente felizes por terem oportunizado um momento tão especial.

Para muitos ir à praia é algo banal, trivial. Contudo, para o menino Pedrinho, aquele dia foi um verdadeiro presente. Para uma pessoa humilde, criada em meio a tantas dificuldades, o simples se transforma em algo mágico, grandioso. Cada um tem o seu sonho, é certo. Uns sonhos podem ser grandes; outros, podem parecer pequenos. Entretanto, todos são sonhos, dependem do coração.

Ali, na praia, ele conheceu Maria Clara, também com dez anos de idade. Ela, vindo da cidade grande, conhecia o mar desde pequenininha. Logo, eles firmaram amizade e começaram a conversar. O menino contou sobre a sua vida; era do interior do estado do Rio Grande do Norte, estudava numa escola pública e os pais eram agricultores. A menina disse-lhe que era da capital potiguar e já estava acostumada em conhecer lindas praias e que os seus pais eram médicos.

Apesar de cada um viver em seu mundo, com condições financeiras diferentes, eram crianças. Juntos, brincaram, sorriram, tomaram banho de mar, chuparam picolé, fizeram castelos de areia; ainda estavam imunes à arrogância e à vaidade humana.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 25/01/2026 - 08:30h

Nos alpendres de Tibau

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Corre o mês de janeiro.

Nos alpendres de Tibau, resenhas, churrasco e cerveja. E, claro, política, muita política. Os anfitriões recebem os convivas para lautos almoços. Abraços, sorrisos, conversas e cochichos. É ano eleitoral. Os interesses precisam ser afinados, as rotas precisam ser traçadas.

Porém, dos alpendres de Tibau vem à memória a minha infância. A família reunida, uma ruma de redes armadas, conversas e risadas dos primos. Contavam-se histórias de “trancoso”, de alma penada, tudo pra nos fazer medo.

Já na adolescência, recordo-me dos churrascos. Meu pai, tios e amigos bebendo, com força. Não conto as vezes que fui comprar cerveja na rua do restaurante Brisa. No finalzinho da tarde, as minhas tias chegavam da casa dos meus avós maternos pra jogarem conversa fora com minha mãe.

O alpendre sempre estava repleto de pessoas. O bate-papo adentrava noite adentro, regado a café coado, pães e bolo fofo ou de leite e, claro, o grude, iguaria tradicional da cidade praia.

Vale salientar que escrevo sobre os alpendres de Tibau, “porque o passado me traz uma lembrança do tempo que eu era criança”. No alpendre de Tibau os meus filhos também brincaram e fizeram peraltices, como um dia eu fiz.

No tocante aos arranjos político-eleitoral, em uma crônica datada de 16 de janeiro de 2023, o editor deste Blog escreveu que “é coisa do passado a lenda sobre a influência dos alpendres de Tibau. Subsiste no imaginário popular e em escassas resenhas políticas”.

“E em nada pesa, segundo ele, pro destino de Mossoró e do estado o que se conversa por lá. Some ao vento nos escassos alpendres que ainda não viraram muro de condomínios fechados”.

Creio que é verdade, uma vez que o dileto editor é versado no assunto. Aliás, eu conheço um alpendre em Tibau que já não recebe ninguém. Encontra-se vazio. O que é natural, ressalte-se, pois o poder é efêmero. É vã a crença na eternidade do poder e do prestígio.

Embora, para mim, já não tenham o brilho de outrora, vez ou outra, ainda fico nos alpendres de Tibau sentindo o vento que vem lá das bandas do Porto-ilha. Vislumbro o azul do mar, o horizonte e algumas jangadas, as quais trazem, além do carcomido cesto onde se colocam os peixes, boas lembranças. Nada é como antes. E nunca será.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/01/2026 - 09:30h

O coração ainda bate

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Certa vez, lá na cidade de Areia Branca, cheguei à casa de uma senhora e bati à porta. Ela estava escutando música gospel, “nas alturas”, e tive que esperar o intervalo entre uma música e outra para chamá-la novamente. A senhora, então, veio me atender, mas não abriu a porta. Identifiquei-me. Disse-lhe que era oficial de Justiça e estava à procura de fulano de tal. Pelas rótulas, ela disse que a pessoa que eu estava procurando não morava naquele endereço.

Contudo, após agradecer pela informação, o que me espantou foi o seu choro compulsivo. Perguntei se estava tudo bem, a qual respondeu que sim, estava apenas pensando na vida e chorando. O que aquela senhora estava a enfrentar? Só Deus sabe. Cada um de nós, diariamente trava uma batalha interior renhida. São tantas dificuldades que a alma, às vezes, transborda lágrimas.

No cotidiano do meu ofício é comum encontrar situações, as quais me deixam comovido. Muitos aproveitam a minha presença para desabafar. Falam que o pai não quer pagar a pensão da criança, que dá uma “mixaria” e acha que está “abafando”. Outros, alegam que não pagaram a dívida, pois estão atravessando uma difícil situação financeira. Já fui recepcionado por pessoas arrogantes, mas, doutro lado, também já presenciei homens e mulheres com os olhos marejados.

Uma vez, tive que proceder à busca e apreensão de um veículo, o qual era usado por um cidadão para fazer a linha entre Areia Branca e Mossoró. Disse-me que atrasou as prestações do carro, pois somente conseguia fazer uma ou duas corridas por dia. Percebi que, ao retirar os seus pertences de dentro do automóvel, ele ficou cabisbaixo. Creio que deve ter pensado: como ganhar o pão a partir daquele momento?

Sabemos que há má-fé aqui e ali. Muitas pessoas, por exemplo, vendem o carro, e o comprador não transfere a titularidade junto ao Detran, cometendo várias infrações de trânsito e, por conseguinte, uma enxurrada de multas. E há os maus pagadores, os que vivem de dar golpes, aqueles que dão o passo maior que a pena e depois ficam “aperreados”. Nessa vida, existe de tudo e mais um pouco.

Assim, apesar de cumprir os mandados judiciais sem questionar a justiça ou a injustiça das decisões, pois não me cabe, compadeço-me diante da fragilidade e dificuldades humanas. Graças a Deus, o coração ainda bate.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 11/01/2026 - 10:42h

Boa romaria faz, quem em sua casa está em paz

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Na época da minha juventude, lá pela década de oitenta, comecinho dos anos noventa, qualquer coisa era motivo para sair de casa, fosse um bate-papo na calçada de um amigo, fosse uma festa, eu fazia tudo para comparecer. No entanto, com o passar dos anos, percebemos que pouquíssimos lugares valem o aconchego do nosso lar. Na verdade, não sei se ficamos ranzinzas ou seletivos com o tempo.

Contudo, para garantir o devido processo legal, deixe-me apresentar defesa. Hoje, nem todo lugar me apraz. Penso duas ou três vezes antes de sair de casa. Explico:

As festas de hoje em dia raramente têm mesas e cadeiras para que a gente possa descansar um pouco. Do início ao fim da festa, somos “obrigados” a ficar em pé, com os pés e a lombar doendo, ou seja, uma verdadeira tortura. Compramos a entrada da festa e ainda temos que pagar por uma mesa para colocar a bebida.

Além disso, as filas para se comprar bebidas e tira-gostos são intermináveis. Os banheiros? Ora, ora, são químicos.

Se estamos na praia, principalmente nesse período de veraneio, as barracas e restaurantes estão sempre lotados. Normalmente, esperamos uma eternidade para ser servidos, e ficamos rezando pra cerveja não está quente; e nem vou falar sobre os preços. É claro que existem exceções, há locais com bom atendimento, preço justo e festas organizadas.

Nunca é demais lembrar que a insegurança e a violência são outros motivos pelos quais pensamos com redobrada cautela antes de sair de casa.

Sim, eu sei deve que ser a idade, pois, quando era jovem, todo e qualquer lugar me agradava. Pra se ter ideia, já tomei cerveja quente numa vaquejada; dormi dentro de um carro a noite inteira, e normalmente somente saía das festas quando “pegava o sol com a mão”.

Atualmente, na maioria das vezes, prefiro ficar em casa, tomando umas doses de uísque, acompanhado de tira-gostos. Ao lado da minha mulher, dos meus filhos e neto, escuto as músicas do tempo da minha juventude.

Quando não tô a fim de sair ou beber, deito na minha rede, “curiando” as redes sociais ou assistindo a Netflix, porque, como diz o ditado popular, boa romaria faz, quem em sua casa está em paz.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/01/2026 - 10:40h

Dias de aventuras

Por Odemirton Filho

Foto de Jânio Rêgo (Arquivo)

Tibau e suas “naus”, em foto de Jânio Rêgo (Arquivo/2018)

O barco estava ancorado. Seria o barco do velho pescador Tidó? Quem sabe.

O que sei é que eu e alguns primos estávamos na adolescência, e ficávamos conversando sobre a possibilidade de irmos até lá. Tomávamos coragem, e íamos. Eram cinco ou seis meninos púberes. Vez ou outra, um tio ou um primo maior de idade ia nadando à frente. Nadávamos o mais rápido que podíamos.

Medo? Sim, tínhamos. No entanto, o desejo de se aventurar era maior. Para um menino entrando na primeira adolescência o medo é de somenos importância. O que realmente importava era desbravar o novo, fazendo-se homem, com uma coragem inabalável; nenhum de nós queria ser tachado como um frouxo.

Não foi uma ou duas vezes. Inúmeras vezes fomos aos barcos que estavam ancorados na praia de Tibau, pois o mês de Janeiro era o momento de se libertar dos compromissos escolares. Era o momento de curtir as férias; de nadar, de jogar bola na areia; de “pegar ondas”, principalmente no período da lua cheia, quando o mar ficava agitado e perigoso. Não conto as vezes que nadava para sair da água, e o mar me puxava, como se tivesse mãos.

Quando chegávamos ao local, subíamos na embarcação e ficávamos mergulhando, sob um sol de rachar o juízo. Conversávamos sobre as próximas aventuras, sobre as paqueras que já começavam a despontar, enfim, conversávamos sobre assuntos de adolescentes.

Depois de um certo tempo, nadávamos de volta pra areia da praia. Estávamos exaustos, queimados pelo sol e com sede. Comprávamos um picolé e íamos para casa, à espera do almoço. À tarde, ficávamos deitados nas redes, no alpendre, jogando conversa fora e aguardando passarem na rua vendendo grude e gelé.

No dia seguinte, tudo de novo. Eram dias de imensa alegria. Sem pressa. A areia da praia e o mar eram nossos amigos inseparáveis.

Hoje, entretanto, “o mar não está pra peixe”. Quando estou à beira-mar, apenas vislumbro o horizonte e os barcos ancorados, mas já não tenho coragem, nem fôlego, de nadar até lá. Então, recordo-me da minha juventude; são lembranças açucaradas, ou melhor, salgadas, daqueles dias de aventuras.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 28/12/2025 - 03:46h

Gratidão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

É lugar-comum dizer que a gratidão é a memória do coração. No entanto, ao finalizar o ano de 2025, eu não posso deixar de agradecer por tudo que vivi neste ano que se encerra.

Como todo e qualquer ano de minha vida, enfrentei desafios, preocupei-me com as dificuldades do cotidiano. Chorei. Sorri. Ao lado da minha família vivenciei momentos de imensa felicidade; o nascimento do meu primeiro neto encheu o meu coração de amor, trazendo mais alegria ao nosso lar.

Não há nada melhor para os pais do que presenciar os filhos trilhando os seus caminhos, lutando e alcançando objetivos. Nesta vida, não se consegue nada sem uma batalha diária; viver, sabe-se, é uma peleja medonha.

Vencer na vida, entretanto, não é somente conseguir um bom emprego ou ser realizado profissionalmente. Vencer na vida, sobretudo, é ser um homem e uma mulher de bem, com caráter e honestidade, pautando-se por valores, cultivando-se bons sentimentos. “Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que vale a pena viver”, disse o escritor Antoine de Saint Exupéry.

Assim, viver o presente é o que importa. Se ontem erramos o caminho, que hoje possamos mudar o rumo e seguir por uma nova rota. O futuro? Coloque-o nas mãos Deus.

Em um mundo repleto de desamor, intolerância, vaidade, egoísmo e violência, é preciso sabedoria e serenidade para se blindar e conduzir a vida. Cada um sabe muito bem o que enfrentou este ano. Com certeza, foram inúmeras batalhas, dificuldades de todos os tipos.

Porém, apesar dos pesares, estamos vivendo, construindo e narrando a nossa história e, o mais importante, com saúde.

Gratidão. Que 2026 seja repleto de bênçãos para todos nós.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/12/2025 - 09:24h

Um conto de Natal

Por Odemirton FilhoImagem natalina, natal, festa de natal, luzes, brilho - 5

O clássico livro do escritor inglês, Charles Dickens, que tem o título desta crônica, inspirou-me a escrever o presente texto. O romance tem como personagem principal o senhor Scrooge, um velho rabugento que odeia o Natal e tudo que o envolve. Ele trabalha em um escritório em Londres com o seu empregado, Bob Cratchit.

No entanto, o fantasma de um falecido sócio de Scrooge aparece para ele, dizendo-lhe que três fantasmas irão acompanhá-lo em uma viagem ao passado, presente e futuro, a fim de que o velho repense a sua vida e seus valores.

Eis, em breves palavras, o resumo do mencionado livro.

De fato, a época do Natal é momento de inúmeras confraternizações, trazendo lembranças e saudades. Muitas famílias e amigos se reúnem nesse período para trocarem presentes e degustarem uma deliciosa ceia, além de sorrisos, abraços e discursos com palavras bonitas e reflexivas.

Por outro lado, entretanto, celebrar o Natal não é a realidade de milhões de pessoas. Para quem não tem o que comer, um teto para se abrigar e um lençol para se cobrir, a Noite do Natal é somente mais uma. Há, também, quem ache essas confraternizações uma verdadeira hipocrisia, pois no ambiente de trabalho, e até mesmo no seio das famílias, existem aqueles que adoram “puxar o nosso tapete”.

De toda forma, a época do Natal, para quem acredita no “clima natalino”, é a oportunidade de repensar atitudes e valores. O que fizemos? Em que posso melhorar enquanto pessoa? Talvez, fazer mea-culpa seja fundamental para se tentar uma mudança na forma de pensar e, sobretudo, de agir.

Certa vez, o escritor José Lins do Rego disse que “não há mais ninguém, neste mundo de Deus, que acredite em sentimentos humanos, em grandeza de alma, em boas intenções”. Eu, todavia, creio que não devemos deixar de acreditar na criatura, porque se assim for, deixaremos de acreditar no Criador.

Enfim, caro leitor, eu não sei se você credita no espírito do Natal. Porém, desejo-lhe muita saúde, sossego e uma ruma de coisas boas.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 14/12/2025 - 12:02h

Almoço aos domingos

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Segundo o cientista político e escritor Felipe Nunes, no livro Brasil no Espelho, “o hábito do almoço aos domingos – seja na casa da mãe, da sogra ou de outro familiar – é uma instituição nacional, um rito quase sagrado, que há décadas influencia desde piadas até a programação da televisão, os horários do futebol e o comportamento de consumo”.

Certamente, alguns leitores devem lembrar dos almoços em família, nos quais se reuniam uma ruma de gente. Eram os avós, pais, filhos e netos que conversavam sem parar. Às vezes, parecia que estavam brigando, de tão alto que falavam. Já as crianças faziam uma zoada danada, brincavam e corriam pra lá e pra cá. Talvez, em alguns momentos, palavras, sorrisos e lágrimas se misturassem. Era desse jeitinho, nera não, caro leitor?

Puxando os fios de minha memória, lembro-me que em tempos idos não havia uma grande quantidade de restaurantes na cidade. Era costume almoçar em casa, também aos domingos. Com os meus pais e minhas irmãs, ficávamos em casa, jogando conversa fora, enquanto a nossa querida Socorro preparava o almoço.

Normalmente, o menu variava entre galinha, carne de sol, arroz de leite, feijão, picadinho e lombo. Como, na maioria das vezes, eu não gostava de almoçar, preferia comer ovo com arroz e um copo com leite. A sobremesa quase sempre era um delicioso doce de goiaba ou de leite.

Estando à mesa, meu pai, que sempre foi de poucas palavras, de quando em vez comentava algum assunto e, ao final da refeição, fazia o sinal da cruz, em agradecimento. Conversávamos coisas do cotidiano, de como estávamos na escola, do meu boletim com notas vermelhas ou das brigas com minha irmã mais nova. Por outro lado, minha mãe sempre gostou de falar sobre a sua juventude; contava muitas histórias, sobretudo, sobre o meu avô.

Claro que como quase todo menino/adolescente eu achava aqueles momentos um “saco”. Ficava doido para que a refeição terminasse logo, para me trancar no meu quarto ou ir à casa de algum amigo. No entanto, não me dava conta que aqueles momentos passariam, e ficariam guardados em minha memória.

O tempo passou. Casei. Vieram os filhos e o neto.

Os almoços aos domingos viraram uma ocasião especial, nos quais eu sinto uma profunda alegria. Entre sorrisos e histórias, ao lado da minha mulher, dos meus filhos, nora e neto, encontro o verdadeiro sentido da vida. Aqui e acolá, como aperitivo tomo duas ou três doses de cachaça, enquanto meu filho toca violão.

Na verdade, não há nada melhor do que estar ao lado de quem amamos e nos sentimos amados. Ver o sorriso do meu neto, ao se lambuzar com a sua comida, arrastando-se pela casa, aprendendo a andar e balbuciando, aquece o meu coração.

Pois é, de uns tempos pra cá percebi que a felicidade também está nesses singelos momentos; entre os quais, os almoços aos domingos.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/12/2025 - 09:36h

Vida boa é a dos outros

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Um dia desses, eu tomava um café lá em Duart´s, de propriedade dos amigos Toinha e Rafael Arcanjo, no centro da cidade de Mossoró. Como de costume, papo vai, papo vem. Depois de um certo tempo, chegou ao estabelecimento, uma senhora, de uns setenta e poucos anos. Sentou à mesa, pediu um café e perguntou quanto custava uma fatia de bolo.

Ao saber o valor (que não é caro), recusou. Então, pedi aos proprietários que lhe servissem. Ela me olhou, agradecida, e conversamos um pouco. Falou-me que tinha vindo ao centro da cidade para receber o seu “aposento”.

Após tomar o café e comer o pedaço do bolo, a senhora abriu a sua bolsa, retirando uma cédula de vinte reais. Porém, como eu tinha lhe oferecido o desjejum, não deixei que efetuasse o pagamento.

Ela, para o meu espanto, começou a chorar, lágrimas escorreram pelo seu rosto. Eu pedi para que se acalmasse, pois o que fiz foi apenas um ato de gentileza.

Ela agradeceu, guardou o dinheiro em sua bolsa e se despediu. Foi cuidar da vida, como me disse. Quando fiquei sozinho, fiquei a imaginar quais os problemas àquela senhora estivesse atravessando. Talvez, fosse arrimo de família, e precisasse economizar os vinte reais para findar o mês.

Com se sabe, cada um de nós enfrenta inúmeras batalhas. São problemas emocionais, de saúde, financeiros ou com algum membro da família. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue mensurar as lutas que o outro está enfrentando.

“Vida boa é a dos outros”, costuma-se dizer. No entanto, é no fundo da alma, na solidão dos nossos pensamentos, que digladiamos dia e noite com os nossos problemas. A vida não é fácil. Nunca foi. Nunca será.

Por isso, um ato de gentileza pode ser um lenitivo para alguém. No mais das vezes, não precisa ser dinheiro. Quem sabe, apenas uma palavra de conforto, um sorriso, um abraço, ou um simples café, sejam suficientes.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Repet
quarta-feira - 03/12/2025 - 08:38h
Ufersa Mossoró

Festival Literário tem bate-papos, música, livros e diversidade

Banner de divulgação

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Aberta no fim da tarde dessa terça-feira (02), a segunda edição do Festival Literário Macambira tem sequência nesta quarta-feira (03). Promovido no Campus de Mossoró da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), o evento é promovido pela Editora da Universidade (EdUfersa) e o Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Neste segundo dia, a programação seguirá bastante diversificada. Veja abaixo:

17h – Batuques do DM

17h20 – Airton Cilon (Atração musical)

18h – Lançamentos de livro EdUFERSA

Periodicamente (Livia Cabral Maia)

A técnica como potência do humano (Fátima de Lima)

Saúde versus adoecimento psíquico no trabalho (Agostinha Mafalda)

O Educação para cuidar e saúde mental para aprender (Aridenise Fontenelle)

Educação infantil currículos e linguagens
(Elaine Sobral)

18h30 – Violões – NAC

18h50 – Bate-papo

(“O lugar do excluido na literatura”)

Mediação: Cícera Cajazeiras
Convidado: Octávio Santiago

Octávio Santiago é uma das atrações desta quarta-feira Foto: Rierson Marcos/Arquivo)

Octávio Santiago é uma das atrações desta quarta-feira (Foto: Rierson Marcos/Arquivo)

19h40 – Alex (Atração musical)

20h20 – Bate-papo

(“Suportes Alternativos da Literatura”)

Mediação: José Roberto Alves Barbosa
Convidados: Ayala Gurgel, Carlos Santos e Odemirton Filho

21h20 – Cabocla de Jurema (Atração Musical)

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Categoria(s): Cultura
domingo - 30/11/2025 - 11:36h

Amanhã é dezembro

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Mais um mês de dezembro pra conta. De muitos.

Em minha memória, inúmeras lembranças. Eu ficava ansioso pelo início das férias, na praia de Tibau. No entanto, como quase sempre ficava em recuperação na escola, era preciso esperar alguns dias. Enquanto isso, começavam-se pequenos reparos na casa de veraneio, faziam-se reboco e pintura por causa da maresia, consertavam-se alguns móveis; eu ficava mais animado do que “pinto em beira de cerca” com esses preparativos.

Para mim, o mês de dezembro sempre foi envolto em boa aura. Havia algo de mágico. Lá de casa, no centro da cidade, ouvia o badalar dos sinos da Catedral de Santa Luzia, anunciando os festejos da padroeira; era hora de ir comprar uma roupa e sapatos novos, acompanhado por minha mamãe.

Sobre a Festa de Santa Luzia, vale transcrever um fragmento de um texto escrito pelo historiador Geraldo Maia:

“Essa tradição de celebrar a Virgem de Siracusa só deixou de acontecer três vezes ao longo dos anos. Em 1860 e 1865, a igreja passou por uma grande reforma, e o padre da época achou melhor não realizar a festa. E a última vez que a festa não aconteceu foi 1935, quando Padre Mota achou melhor não fazer a festa por causa dos conflitos gerados pelo movimento conhecido como Intentona Comunista”.

No meu tempo de menino/rapaz, à noite, vez ou outra, ia assistir as novenas celebradas por Monsenhor Américo. Depois, gostava de andar pra lá e pra cá na rua da Catedral, onde havia uma ruma de gente, lotada de barracas. Logo após as novenas, o burburinho profano varava noite adentro. Cadê A Mais Bela Voz?

Eu, então, parava na barraca de minha tia, Socorro de “Puca”, pra degustar uma generosa fatia de bolo de leite. Com o passar dos anos, já na qualidade de pai, levava os meus filhos pra passear; comprava aquelas bolas grandes que, no primeiro chute, furavam. Eles jogavam argolas para ganhar uma prenda ou brincavam de pescaria, e sorriam, alegres, pois para as crianças o singelo é sinônimo de felicidade.

No dia 13, o ponto culminante. Uma enorme procissão, com milhares de fiéis, num misto de fé e devoção. Ali, tradição e fé se entrelaçam, com pessoas das mais variadas classes sociais; alguns caminham com pedras na cabeça, outros, vestem-se com as cores da roupa da Santa, e há aqueles que acompanham a procissão com os pés descalços. Sem falar nos milhares de pessoas que ficam nas esquinas, à espera da passagem do andor. Tudo isso, é claro, acompanhado por orações, cânticos e muita, muita emoção.

Sim, amanhã é dezembro, aproveito para garimpar lembranças. Recordo-me da ceia de Natal, na casa dos meus avós, na rua Seis de Janeiro. Um bocado de primos e primas, amigo secreto, mesa farta. Era tão bom. À tarde, ia à casa dos meus primos, jogar bola, na rua ainda de areia. Outras vezes, ia brincar e saborear seriguelas na casa de tia Adna e tio Chico Espínola.

Pois bem. Há quem não goste do mês de Dezembro por ser carregado de lembranças e saudades, com ares de melancolia. Eu, porém, sempre gostei. E ainda gosto.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 23/11/2025 - 08:50h

O Grande Hotel

Por Odemirton Filho

Grande Hotel em foto de 1971 e mais abaixo nos anos 50, no Centro de Mossoró (Fotomontagem do BCS a partir de fotos do //blogdetelescope.blogspot.com/)

Grande Hotel em foto de 1971 e mais abaixo nos anos 50, no Centro de Mossoró (Fotomontagem do BCS a partir de fotos do //blogdetelescope.blogspot.com/)

Na Mossoró das antigas um majestoso prédio embelezava a cidade. Foi palco, segundo os historiadores e pessoas de ontem, de inúmeros encontros sociais, festas e tardes/noites badaladas. Era o famoso Grande Hotel, inaugurado em 1908.

Localizava-se na esquina da rua Bezerra Mendes com a avenida Augusto Severo, próximo ao Mercado Central. O prédio era dividido em três partes: uma casa de hospedagem, um cineteatro e um bar-restaurante.

“O cineteatro, o principal centro de lazer familiar da cidade, estava instalado numa área semiaberta do prédio do Grande Hotel, local que recepcionava a nata da sociedade nos grandes eventos. Este espaço, também foi palco de histórias, fatos pitorescos e confusões do cotidiano  local. Durante as projeções, ocorria um intervalo de 15 minutos para permitir a plateia fazer um pequeno lanche, tomar um café, um refresco ou apenas tomar um ar fresco na área livre”(…) (Disponível em //blogdetelescope.blogspot.com/2014/11/o-grande-hotel-e-o-cine-teatro-almeida.html).

Segundo se comenta, nessas sessões cinematográficas houve inúmeros fatos inusitados, como a proibição de uso de chapéus com plumas por parte de algumas mulheres, haja vista dificultar a visão de quem estava assistindo aos filmes. Além disso, várias figuras públicas, entre os quais cantores de vulto nacional, e políticos hospedaram-se no Grande Hotel.

Eram outros tempos. Tempos de uma Mossoró que ficou para trás. Fico a imaginar o cotidiano das pessoas daquela época; as roupas com as quais se vestiam, quais os assuntos do dia, os costumes, o que era relevante nas rodas de conversas entre familiares e amigos.

É claro que eu não conheci o Grande Hotel em seus áureos tempos. Talvez, meus avós e bisavós tenham vivenciado àquelas tardes/noites. Eu ainda cheguei a ver o prédio, bastante deteriorado, lá pela década de mil novecentos e oitenta.

Hoje, restou-nos, tão somente, um pouco de sua rica história.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/11/2025 - 09:32h

Da janela lateral

Por Odemirton Filho

Foto de produção própria do BCS

Foto de produção própria do BCS

“Vejo uma igreja, um sinal de glória, vejo um muro branco e um voo pássaro, vejo uma grade, um velho sinal” (…)

Na bela e antiga canção de Lô Borges (falecido recentemente) e Milton Nascimento abre-se passagem para a licença poética, uma vez que podemos viajar, interpretar e inundar a nossa alma de uma leve brisa. Dizem que os “elementos como igreja, muro branco e voo pássaro, reforçam o clima contemplativo e nostálgico, lembrando a infância e a vida no interior, mas também apontam para o desejo de liberdade e esperança em tempos difíceis”. (Disponível em //www.letras.mus.br/lo-borges/47027/significado.html).

Sim. Da janela do meu quarto eu posso ver o mundo de muitas formas e cores. Posse enxergar uma igreja e tê-la como um local no qual encontro conforto para o meu coração, aumentando a minha fé. Dependerá da crença de cada um. Nessa sentido, em cada vitória ou derrota que encontro no decorrer da vida, pode ser um sinal de glória para o meu crescimento pessoal.

De longe, também, eu posso enxergar um muro branco, e nele, começar a desenhar e escrever a minha história de vida, fazendo-a colorida e pulsante.

Lembro, quando era criança, ali pelos arredores da Igrená de São Vicente, ao cair da tarde, eu gostava de ver o voo das andorinhas, que bailavam lindamente no ar. Hoje, no bairro onde moro, inúmeras vezes escuto o cantar de várias espécies de pássaros, chamando-nos para viver. No entanto, há quem fique chateado com a sinfonia dos pardais.

Da janela de minha vida, posso enxergar grades que aprisionam, que me impedem de correr em busca dos meus objetivos. Posso, em consequência, fica preso ao meu medo, a minha angústia, ao meu desalento perante o mundo. Muitas vezes, é de bom tom procurar ajuda profissional para abrir as grades da prisão do nosso eu.

Doutro lado, ao olhar pela janela da alma, posso vislumbrar múltiplas possibilidades para a minha vida. É claro que não se pode julgar ninguém, pois cada pessoa sabe o peso que carrega sobre os ombros.

Assim, da janela do meu quarto eu posso ver um velho sinal. Ele pode estar verde, nos mandando seguir avante nos nossos sonhos; pode estar amarelo, para que tenhamos cautela ao tomar alguma decisão na vida. O sinal, enfim, pode estar vermelho, alertando-nos que é o momento de colocar o pé no freio, esperar e refletir; somente depois devemos seguir o nosso caminho.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 09/11/2025 - 07:02h

Um pouco de ontem

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

“A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; mas hoje, vendo que o que sou é nada, quero ir buscar quem fui onde ficou”. (Fernando Pessoa).

Vez ou outra, lembro-me da criança que fui; de poucas palavras, poucos amigos. Vivi os dias da minha infância na rua Tiradentes, no centro de Mossoró. Ali, o adulto de hoje foi forjado.

Os dias corriam devagar, quase parando, divididos entre a casa onde morava, a padaria dos meus pais e o colégio. À noitinha, gostava de jogar bola com os meninos da rua e ouvir histórias de “trancoso”. As férias, como já escrevi em inúmeras oportunidades, era na praia de Tibau, meu xodó.

Lembro que os dias na padaria começavam ainda de madrugada. Meu pai, por inúmeras vezes saiu de madrugada para ir buscar outro funcionário, porque o padeiro do turno, depois de tomar umas, faltava ao serviço. Então, era um aperreio para conseguir um substituto e conseguir começar o dia com uma nova fornada de pães.

Durante o período da manhã, depois de fazer o dever de casa, eu corria pra padaria a fim de ver os funcionários, literalmente, com a mão na massa, trabalhando incansavelmente com o cilindro. Recordo-me muito bem do padeiro João Camilo, um mestre em sua arte.

A massa depois de pronta era colocada em um enorme forno a lenha. Ao sair do forno, em alguns pães, passava-se um pincel com uma espécie de melaço, transformando-o no famoso “pão doce”. Maria Arimar Braga, funcionária antiga da padaria, fazia os bolos e doces.

O que mais apreciava, entretanto, era a bolacha sete capas, enquanto ajudava a encher os pacotes, saboreava algumas.

Cheguei, algumas vezes, a atender no balcão. O final da tarde era o horário de maior movimento, quase não dava conta atender a freguesia. Outra vezes, porém, quando tinha mais idade, ficava no caixa, recebendo dinheiro e passando troco. Nada de cartão de débito, crédito ou PIX. Era dinheiro “vivo”.

Duas ou três Kombis faziam a entrega dos pães em alguns pontos de revenda nos bairros mais afastados da cidade. Às vezes, vendia-se muito; a sobra, chamávamos de “boia”. Final de semana, normalmente no sábado à tarde, fazia-se o pagamento dos funcionários. Inúmeras vezes, restava-nos uma quantia mirrada de dinheiro.

Havia um senhor, não lembro o nome, que toda tarde passava para comprar pão. Ele chegava no seu carro potente, descia, comprava e ia embora. Criança, eu ficava sentado na calçada, vendo-o, e dizia a mim mesmo que, um dia, teria o meu carro pra ir comprar pão em uma padaria e levar para minha mulher e meus filhos. Um inocente sonho de criança. Mas, quem não teve um sonho quando era criança? Eu tive. Muitos. Não deixei de sonhar, é claro, no entanto, sonho com os pés no chão.

Por isso, aqui e acolá, ao buscar a criança que um dia fui, lembro um pouco do ontem. Dos meus medos e sonhos; das minhas alegrias e tristezas. E hoje, agradeço a Deus pelo pão nosso de cada dia.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos 

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/10/2025 - 09:48h

Meditando o tempo

Por Odemirton Filho

Pavilhão Vitória ficava na Praça Rodolfo Fernandes, sendo ponto de encontro durante muitos anos (Fotomontagem BCS)

Pavilhão Vitória ficava na Praça Rodolfo Fernandes, sendo ponto de encontro durante muitos anos (Fotomontagem BCS)

Benfazejas são algumas lembranças; fazem-nos recordar momentos e pessoas especiais. Sim, aprecio e fico feliz quando os leitores navegam comigo nesse mar de tempos idos.

Por quê? Porque o cotidiano é tão repleto de dificuldades, sobretudo de silenciosas batalhas subjetivas, que reviver momentos singulares acalma o coração. Quem não gosta de relembrar pessoas queridas? Pessoas que se foram, deixando uma lacuna imensa em nossas vidas? Pois bem, sempre procuro trazer a este blog textos livres, leves e soltos.

Sei que aqui e acolá faço alguma crítica. Contudo, faço de forma geral, sem ofender a honra de quem quer que seja. Já bastam a intolerância e o ódio disseminados diariamente nas redes sociais.

No entanto, cada pessoa tem o seu estilo de escrever, o que respeito, diga-se de passagem. Mas prefiro cultivar na alma, paz, apresentando aos leitores uma crônica suave, que aqueça o coração.

Assim, inspiro-me em crônicas que falam sobre o simples da vida. Exemplo? Um trecho de uma das belas crônicas do inigualável Jornalista Dorian Jorge Freire, a seguir transcrito:

Procurar a Mossoró de ontem, procurei (…), tirei do baú o meu terno de linho irlandês diagonal, branco, passado com muita goma, mandei engraxar por Chico Doidinho os meus sapatos Fox de bicos finos, passei Glostora nos ralos e raros cabelos e subi a 30 de Setembro a procura da Vigário Antônio Joaquim. (…) Digam onde estão os charutos de padre Mota, a gargalhada de Motinha, o riso bom de Manuel Leonardo, o cafeísmo de Negus, os comícios do velho João Leite? Benício Gago, seu reco-reco e seu jumento”?

E continua o mestre Dorian:

A praça Pé Duro, depois Praça do Pax, virou Rodolfo Fernandes e perdeu sua dignidade. Porque perdeu, na avalanche, o Pavilhão Vitória, a voz de Jorge Pinto anunciando deslumbrantes tecnicolors, o bozó do Bar Suez, onde se vendia a cerveja mais gelada do mundo”.

Percebe-se que ele escreve sobre um tempo distante, do dia a dia de uma Mossoró ainda com ares de cidade interiorana. Talvez, poucos leitores tenham vivido esses momentos e conhecidos referidas pessoas.

Ademais, costuma-se dizer que antigamente o tempo passava devagar, quase parando, porquanto as pessoas tocavam a vida sem a correria dos dias atuais. Sentavam-se nas calçadas, na boquinha da noite, para jogar conversa fora e falar da vida alheia; aos domingos, reuniam-se em família para saborear um lauto almoço.

Por isso, veio-me à memória um texto do poeta Mario Quintana: “havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio da parede. Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo”.

O tempo deve ser um aliado; jamais, inimigo.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 19/10/2025 - 06:26h

Compromisso semanal

Por Odemirton Filho

Rubem Braga para o BCS, em arte impressionista com uso de Inteligência Artificial, a partir de foto de O Globo

Rubem Braga para o BCS, em arte impressionista com uso de Inteligência Artificial, a partir de foto de O Globo

Certa vez, Rubem Braga, um dos nossos melhores cronistas, escreveu: “fazer crônica não dá trabalho! Eu poderia estar ouvindo música, lendo um bom livro, batendo um papo com algum amigo e estou aqui há três, quatro horas, lendo jornal, pensando umas coisas vagas, procurando um assunto qualquer pra escrever”.

Pois bem. Pegando carona nas palavras do velho Braga, acrescentarei: eu poderia estar sentado à mesa com Marcos Ferreira, Carlos Santos, Bruno Ernesto, Rocha Neto e Marcos Araújo, saboreando um café coado, caprichosamente preparado pelo dileto anfitrião da “casa branca”. Aproveitaria para aprender com cada um deles, ouvindo as suas histórias e dando gargalhadas.

Ou, quem sabe, poderia ir à praia com minha mulher, meus filhos e meu neto. E lá estando, tomaríamos uma água de coco; eu e o meu primogênito iríamos saborear uma “loira gelada”, apreciaríamos o azul do mar, o vai e vem da maré. Eu brincaria com o meu lindo neto, faríamos um castelo de areia, e esperaríamos as ondas para desmanchá-lo.

Talvez, eu ficasse em casa, balançando-me na rede. Abriria um livro para ler, folheando cada página com vagar e atenção. Aqui e acolá, acessaria as redes sociais para me inteirar do besteirol do dia. Também acessaria os blogs e portais pra saber a quantas andam o Brasil e o mundo. Eu até sei, vivemos tempos de intolerância política, guerras pelo mundo afora e corrupção, praga que há anos corrói as entranhas do nosso país.

Aproveitaria, de igual modo, para estudar algo sobre a Ciência do Direito, sobretudo Processo Civil e Eleitoral, minhas paixões desde os bancos da faculdade. Na docência, foram quinze anos lecionando referidas matérias e, com certeza, eu aprendi mais do que ensinei. Amadureci; fiz bons amigos.

Eu também poderia ir à casa dos meus pais para conversar. Ouviria as histórias do meu genitor sobre as brincadeiras no antigo horto florestal, quando ele e seus amigos tomavam banho nas águas (ainda salubres) do rio Mossoró, principalmente na época das enchentes. Escutaria as histórias emocionantes de minha mãe sobre o meu avô, Vivaldo Dantas de Farias, e da fé inabalável da minha vó Placinda.

Enfim, poderia fazer muitas coisas. Entretanto, cá estou, “enchendo linguiça”, com receio de não cumprir o compromisso semanal que há sete anos tenho com os leitores deste Blog. Isso dito, peço desculpas pelo texto mal-ajambrado. Até o próximo domingo.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 12/10/2025 - 08:42h

Pela estrada afora

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

O tempo, como se diz, voa. Anda a galope. Passa tão rápido que não percebemos. Eu, por exemplo, há vinte anos trabalho na região da Costa Branca, entre as cidades de Tibau, Grossos, Areia Branca e Porto do Mangue.

Aproveito o ensejo para apreciar as lindas praias do nosso litoral. Por outro lado, visito o “sovaco da cobra”, em Grossos; o Mocó, em Areia Branca; o assentamento Brilho do Sol, em Porto do Mangue.

No meu mister de oficial de diligências, já me deparei com inúmeras situações agradáveis e desagradáveis. Ninguém, ou quase ninguém, gosta de receber em sua casa um Oficial de Justiça com um mandado judicial. Às vezes, são diligências simples, como a intimação de uma sentença ou para comparecer a uma audiência.

Outras vezes, no entanto, as diligências são executórias, como uma penhora de bens, busca e apreensão de veículos, uma reintegração de posse ou a guarda de um menor de idade. São atos processuais mais complexos, os quais exigem cautela no seu cumprimento.

Infelizmente, a maioria das pessoas não entende o trabalho do oficial de Justiça, age com desrespeito e, em alguns momentos, com agressividade. Não entende que apenas cumprimos as ordens judiciais, não nos cabendo emitir juízo de valor sobre a justiça ou a injustiça das decisões.

Entretanto, até aqui, nos ajudou o Senhor. Raramente eu encontrei uma situação mais delicada, que exigiu um posicionamento firme. Nesses casos, sempre contei com o inestimável apoio da nossa gloriosa Polícia Militar.

É claro que existem situações hilárias e delicadas, como correr por medo de um cachorro; meter o pé na lama, subir e descer dunas sob um sol escaldante, percorrer ruas e becos sem saída. Além disso, é comum encontrar pessoas que aproveitam para desabafar sobre os seus problemas, sobre um filho ou neto que estão envolvidos com as drogas.

Um dia desses, lá pra bandas da cidade de Porto do Mangue, conversei com uma mãe que perdeu dois filhos, ambos envolvidos com o mundo da criminalidade. Ela chorou. Eu, que ainda sou feito de carne, osso e, principalmente, de coração, fiquei emocionado.

Ainda tenho sonhos? Sim, tenho, pois “os sonhos não envelhecem”. Contudo, “viver é melhor que sonhar”. A maturidade me trouxe a certeza que ser feliz é fazer o que se gosta e estar ao lado de quem amamos. Simples assim.

Pois é, o tempo passou, e eu tive que me adaptar às mudanças. Fomos do processo físico ao Processo Judicial Eletrônico (PJE), das intimações pessoais as intimações por meio do aplicativo WhatsApp, das audiências presenciais as audiências por videoconferência.

E, talvez, ainda tenha um longo tempo pela estrada afora. Por isso, rogo ao bom Deus para que continue a ser a minha proteção e companhia nessas andanças.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 05/10/2025 - 09:48h

Sobre Luiz Gama e a abolição da escravatura em Mossoró

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Estou lendo o livro Luiz Gama contra o Império, do advogado e historiador do Direito, Bruno Rodrigues de Lima. Na obra, o autor destaca a luta de Gama pelo Direito no Brasil da escravidão. É uma leitura densa, fazendo-nos enveredar pelos tortuosos caminhos da escravidão brasileira. Luiz Gama nasceu em Salvador, na Bahia, em 21 de junho de 1830, e foi uma voz incansável na defesa dos direitos dos escravos.

Por coincidência, em um dia 30 de setembro, só que de 1871, ele escreveu:

“A minha missão única, missão de que orgulho-me, não é provar forças com assassinos, que desprezo; é prestar auxílio e proteção a pessoas livres, que sofrem cativeiro ilegal; é arrancar as vítimas das mãos dos possuidores de má-fé, é vencer a força estúpida e a sórdida cavilação, perante os tribunais, pelo direito, e com a razão. Minhas armas são as da inteligência, em luta pela vitória da justiça, e só pararei quando os juízes tiverem cumprido o seu dever”.

A leitura do livro despertou a minha curiosidade para saber um pouco mais sobre a história da abolição da escravidão em Mossoró, ocorrida em 30 de setembro de 1883. Infelizmente, não damos o devido crédito ao passado de nossas cidades, pois cada comunidade, e seu povo, tem uma história que merece atenção, muitas vezes com vários aspectos desconhecidos da sociedade. Creio que poucos mossoroenses ouviram falar em Rafael Mossoroense da Glória, que foi um dos alforriados.

Segundo dados que pesquisei, em 1861 existiam em Mossoró “somente” 153 cativos para uma população de 2.493 habitantes. Vale ressaltar, que no dia 06 de Janeiro de ano de 1883 foi criada a Sociedade Libertadora Mossoroense, a qual tinha por objetivo lutar pelo fim da escravidão no município; naquele ano, Mossoró contava com 86 escravos.

Destaque-se que ao lado da Sociedade Libertadora Mossoroense estava o Clube dos Spartacus (referência a Espártaco, líder das revoltas de escravizados na Roma Antiga), composto principalmente por ex-escravizados que, diferentemente dos membros da Libertadora, utilizavam-se de sua força braçal na luta pela emancipação dos escravizados. (Fonte: Cartilha didática, curso de História, UERN/Campus Mossoró).

Conta-se que no dia 30 de setembro “a cidade amanheceu em festa. Ao meio-dia, a Sociedade Libertadora Mossoroense se reúne na Câmara Municipal (onde atualmente funciona o Museu Lauro da Escóssia). O Presidente da Sociedade, Joaquim Bezerra da Costa Mendes, abre a sessão, e se inicia a leitura de cartas de alforria dos últimos escravos da cidade. Com a liberação oficial, ele declarou: “livre o município de Mossoró da mancha negra da escravidão”.

Eis, portanto, um breve relato sobre Luiz Gama e a abolição da escravatura em Mossoró. Existiram, é claro, vários interesses sociais, políticos e econômicos que permearam esse fragmento da nossa história. No entanto, o objetivo deste texto foi tão somente apresentar uma visão geral sobre o tema.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 28/09/2025 - 08:26h

O calhambeque

Por Odemirton Filho

Roberto Carlos e o seu "Calhambeque" (Foto: reprodução da Web)

Roberto Carlos e o seu “Calhambeque” (Foto: reprodução da Web)

Das lembranças que eu trago na vida, parafraseando Roberto Carlos, uma delas marca profundamente a minha alma: o meu pai cantando a música O calhambeque, do “rei” Roberto. Inúmeras vezes ele cantou essa música, enquanto tomava uns goles de cerveja. Ao violão, quase sempre estava o meu saudoso tio Albeci, da banda Bárbaros; seja em Mossoró, na rua Tiradentes, seja no alpendre da casa de Tibau, eram momentos de pura nostalgia e descontração.

Esses momentos são “de vera” o que importam no decorrer de nossas vidas. Nada como estar ao lado de familiares (alguns, é claro) e amigos queridos. Por isso, tentemos viver de forma leve, apesar dos pesares e das dificuldades cotidianas.

Pois bem, ao cantar O calhambeque, acho que o meu pai viajava ao passado, resgatando tempos idos. Talvez, lembre da sua lambreta, quando passeava pelos arredores do Cine Pax, flertando com as moças da época. Certa vez, um amigo dele me disse que ambos pilotavam as suas lambretas e, às vezes, empinavam o pneu para impressionar os “brotos”.

E logo uma garota fez sinal para eu parar, e no meu calhambeque fez questão de passear, não sei o que pensei, mas eu não acreditei, que o calhambeque, bi-bi, o broto quis andar no calhambeque”.

Ou, quem sabe, ao cantarolar essa e outras músicas, ele lembre das festas no clube Ypiranga, da ACDP, dos festejos de Santa Luzia, da União Caixeiral (onde conheceu a minha mãe e, logo depois, iniciaram o namoro; poucos dias após, casaram-se).

Hoje, somente vez ou outra papai entoa algumas canções. Todavia, quando o escuto cantar, a minha memória afetiva é ativada, o meu tempo de menino/rapaz vem à tona, fazendo-me reviver, sobretudo, as agradáveis e inesquecíveis tardes/noites no alpendre da casa de Tibau.

Quem não traz no coração uma música que faz lembrar bons tempos? Pois então, o Calhambeque fez parte dos dias da minha infância e juventude; dias de um tempo danado de bom.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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