domingo - 23/06/2024 - 10:52h

Lutas e vitórias

Foto ilustrativa

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Por Odemirton Filho

No Pingo da Mei Dia uma multidão dançava, bebia e ia “atrás do trio elétrico”; eram pessoas de todas as idades e classes sociais. Os camarotes estavam lotados, com atrações dos mais variados gêneros musicais. Pelo menos, por algumas horas, as pessoas estavam felizes, esquecendo os seus trabalhos e as dificuldades cotidianas.

Enquanto isso, numa rua lateral, ao lado da empresa Socel, um senhor montou a sua barraca e comercializava chapéus dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Esperando uma neblina parar de cair, eu fiquei sob a barraca, e puxei dois dedos de prosa. Ele não estava muito animado com as vendas e perguntou:

– O povo daqui não gosta muito de chapéu, né?

– Só quem gosta mais é o prefeito – respondi, em tom de brincadeira.

Ele sorriu. Falou-me que era da região do Seridó, das bandas de Caicó, e há anos viajava por esse mundão de meu Deus, vendendo chapéus. Durante toda a sua vida tirou o seu sustento por intermédio desse ofício. Era acostumado a viajar por várias cidades do Nordeste, participando de festas de padroeiro, de emancipação política, de vaquejadas, de São João.

– Consegui formar dois filhos: um engenheiro, o outro, nutricionista, disse-me, com uma ponta de orgulho.

E aí fiquei a imaginar a luta diária do nosso povo pela sobrevivência. Quantos pequenos comerciantes, ou empreendedores, para usar o termo da moda, não labutam dia a dia pelo sustento? Quantas pessoas não estão melhorando a renda vendendo seus produtos nesta época de festas juninas? São muitas, milhares, milhões.

Eu, particularmente, sinto um nó na garganta ao ver idosos e crianças, à noite, tentando ganhar um dinheirinho, quando poderiam estar em casa. Enquanto isso, os artistas recebem cachês de alto valor; não tenho nada contra os artistas (contrata quem quer), apenas quero ressaltar a histórica desigualdade social existente em nossa sociedade, mas isso é outro assunto.

O fato é que, quando a garoa parou de molhar a terra de Santa Luzia, o vendedor desmontou a sua barraca e arrumou os chapéus. Eu e a minha mulher acompanhamos o trio elétrico, ele tomou o rumo de outras cidades, carregando na mala as suas mercadorias e, na alma, as suas lutas e vitórias.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/06/2024 - 05:20h

No tempo de Deus

Por Odemirton Filhocorreria, trânsito, pessoas, faixa de pedestre,

“Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou”. (Eclesiastes 3:1-8).

Assim é a vida. Tenho esse versículo bíblico como um dos meus princípios. No tempo certo tudo ocorrerá. Ou não. Para quem espera no Senhor, no tempo de Deus, o que tiver de ser, será. A vida açodada na qual vivemos nos leva para o imediatismo. Queremos para ontem aquilo que somente virá amanhã.

No mundo no qual estamos inseridos, a correria é uma constante. São múltiplas as obrigações para dar conta; o trabalho, o estudo, a família, “o social”, levam-nos a uma vida agitada, repleta de compromissos. Queremos atender a tudo e a todos.

Quando chegarmos ao entardecer da vida as consequências virão. Tomaremos remédios para recuperar uma saúde debilitada pelo estresse e pela correria do dia a dia. Vale a pena? Faça o leitor a sua reflexão.

É claro que devemos lutar pelos nossos objetivos, pela concretização dos nossos sonhos, não devemos ficar acomodados, “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, porquanto a vida exige atitudes e batalhas diárias.

Aliás, há uma história interessante, escrita por Liev Tolstói, que passo a narrar para o leitor:  Havia um homem que, no desejo de amealhar uma grande quantidade de terras, caminhou por um longo período, sem parar, pois, a terra que ele percorresse antes do pôr do sol, seria de sua propriedade.

“Ele corria, a camisa e a calça ensopadas de suor grudavam em sua pele, a boca estava seca. Os músculos trabalhavam como o fole de um ferreiro, o coração martelava dentro do peito, e as pernas pareciam se mover como se não lhe pertencessem. O homem foi dominado pelo terror de morrer de tanta tensão”.

O homem, sentindo que não chegaria antes do sol chegar na borda do horizonte, gritou: “há muita terra, mas Deus permitirá que eu viva nela? Eu perdi minha vida, perdi minha vida!  Nunca chegarei…”

E morreu.

Algumas pessoas que ali estavam, pegaram uma pá e cavaram uma sepultura de tamanho suficiente para que o homem coubesse deitado lá dentro, e o enterraram. Um metro e oitenta, da cabeça aos pés, era o que bastava.

Pois é, não adianta correr. Tudo acontecerá no tempo de Deus.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 09/06/2024 - 10:20h

Entre o som e o silêncio

Por Odemirton Filho

Ilustração Web

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Há dias eu pensava em escrever uma crônica sobre o silêncio. Faltava-me, porém, inspiração ou talento para tal mister. Entretanto, após ler um artigo sobre o maestro João Carlos Martins, o caminho desanuviou. O artigo em tela falava sobre resiliência, de como o maestro conseguiu superar os limites impostos por uma doença e, com uma mão biônica, continuou a tocar piano. “Entre o som e o silêncio o necessário é a coragem”, disse.

A história do pianista me lembrou, ainda, de um livro que estou lendo, do escritor Rafael Gallo. O livro trata de um pianista virtuoso, o qual sofre um acidente quando estava na iminência de ser reconhecido como um dos maiores intérpretes do compositor húngaro Franz Liszt.

Pois bem. A palavra é prata e o silêncio é ouro, não é isso, meu caro editor? É no silêncio que encontramos o caminho a ser trilhado. Depois de estarmos em íntima reflexão com o nosso eu, talvez encontremos as respostas. Muitos falam demais, e escutam de menos, perdendo-se no vazio de suas palavras. Falar menos, escutar mais, é princípio de sabedoria.

“Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta”, disse o poeta Fernando Pessoa. Em certos momentos, ensarilhar armas, não é ato de covardia, ao contrário, é preparar-se para enfrentar batalhas que realmente valem a pena; observem como nas redes sociais existem discussões e comentários agressivos e desnecessários.

No decorrer da vida, o som dos nossos problemas nos impede de seguir adiante. Caímos aqui; tropeçamos acolá. O barulho do mundo nos afasta dos nossos propósitos, e deixamos de compor a letra da música da nossa vida. Nessas horas de balbúrdia, precisamos ficar em silêncio e ouvir a sinfonia da alma, sentindo o coração bater num lento compasso, à espera de respostas.

Não por acaso, diz a sabedoria popular: “a melhor resposta é o silêncio”. Discussões acaloradas nos levam a agir de forma impensada sem o necessário discernimento. Conduzir-se com prudência, medindo palavras e atitudes, sempre é de bom tom, apesar de nem sempre conseguirmos, pois, felizmente, ainda somos humanos. Todavia, é na toada do silêncio que temos as respostas aos nossos questionamentos e, sobretudo, paz de espírito, algo imensurável.

Lembrem-se das Sagradas Escrituras: “Até o insensato passará por sábio se ficar quieto e, se contiver a língua, parecerá que tem discernimento”. (Provérbios 17:28).

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/06/2024 - 07:24h

Sempre é tempo

Por Odemirton FilhoDois caminhos, já teve, passado e presente, escolha, passado e presente, terra arrasada

Li um texto que dizia assim: “é na velhice que os fantasmas do arrependimento e da culpa costumam aparecer com mais frequência. Quando se chega a um tempo no qual o que ainda falta viver é muito menos do que o que já se viveu, o passado, as memórias e as escolhas que não foram feitas invadem o presente e exigem uma injusta prestação de contas para a qual dificilmente nos preparamos”.

Realmente, o passar do tempo nos faz refletir sobre o que vivemos. E fizemos. Não, não se trata de remoer o passado, pois este deve ficar devidamente guardado lá atras; é preciso virar a página do livro da vida, como se diz. No entanto, tenho certeza que a maioria de nós faz essa reflexão. Às vezes, nos perguntamos: e se tivesse enveredado por outros caminhos, a vida teria sido diferente? Fiz a escolha certa naquela ocasião? Enfim, são inúmeros os questionamentos, poucas as respostas.

Decerto, muitos devem carregar no peito uma ou outra culpa pelo que fez. Por vezes, uma atitude irrefletida nos leva para o abismo do arrependimento. Fazemos mea-culpa. Se dá para remendar o malfeito, ótimo, senão, resta-nos carregar pelo resto da vida o peso da culpabilidade. Para o Direito Penal, a culpabilidade é o juízo que se faz sobre a reprovabilidade da conduta do agente. Somos ao mesmo tempo, no tribunal de nossa consciência, o juiz, o promotor, o advogado e o réu.

Entretanto, não podemos conduzir a nossa vida carregando o peso de arrependimentos. A vida impõe escolhas, temos que decidir. Talvez, acertemos, talvez, erremos. Não importa. Faz parte da jornada. Porém, não dá para conviver com essa angústia. É preciso viver, pois o passado está morto, e o futuro é incerto. O que temos é o presente, porquanto a vida é um instante, dizem por aí.

Muitos acreditam na “lei do retorno”, uma vez que pagaremos os erros cometidos por aqui, não na outra vida, para quem acredita, claro. Colhemos hoje o que plantamos ontem. Semeamos amor ou ódio? Fomos bons filhos? Fomos bons pais? Cultivamos amizades? Fizemos o bem?

Quem sabe, não devemos esperar chegar ao crepúsculo de nossa existência para fazermos uma reflexão sobre o que estamos a fazer, mesmo porque não sabemos quando será o ocaso da vida. Creio que sempre é tempo para revermos valores, principalmente, atitudes.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 26/05/2024 - 06:50h

Ao mestre José Nicodemos

Por Odemirton Filho

José Nicodemos faleceu à semana passada (Foto: Arquivo)

José Nicodemos faleceu à semana passada (Foto: Arquivo)

Na travessia da balsa, vindo das bandas da cidade de Grossos, vislumbram-se montanhas de sal.  Nas margens do rio que desagua na imensidão do mar, aves e alguns barcos pesqueiros ornam a paisagem. Ao aportar no cais, deparamo-nos com a Igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Areia Branca.

Eis alguns versos do Hino da cidade salineira:

“Areia Branca, terra amada,

Terra do sol, terra do sal,

És a sereia majestosa,

Rindo esmeralda ao litoral.”

O Hino foi composto por José Nicodemos de Souza, falecido no último dia dezoito, demonstrando todo o amor e carinho por sua cidade. Conheci Nicodemos, escritor, cronista e revisor dos jornais de Mossoró, por meio de suas crônicas diárias. Na época dos jornais impressos, era a minha primeira leitura. Deleitava-me com sua inteligência privilegiada, com os seus textos escorreitos.

Tempos depois, salvo engano ali pela lanchonete Oitão, em frente à banca de Jornal de Zé Maria, tive a satisfação de conhecê-lo. Sempre o encontrava pelo centro da cidade e, por várias vezes, trocamos um dedo de prosa. Falava-me sobre Areia Branca, sobre alguns causos que aconteceram há muitos anos na cidade; causos impublicáveis, diga-se, que jurei segredo. Era um homem de vasta cultura, dominava a língua portuguesa como poucos.

Houve um tempo em que eu recortava as suas crônicas dos jornais, guardava para ficar lendo, relendo, apreciando, aprendendo, pois ele redigia com a alma. Vez em quando, escrevia sobre sua terra querida, denotando sentimentos de alegria, tristeza, decepções. Outras vezes, entretanto, era um crítico da classe política, sobretudo, da corrupção que grassa no meio.

José Nicodemos de Souza foi umas das pessoas mais cultas que conheci, agradeço por ter tido a oportunidade de privar um pouco de sua amizade e consideração. Para um admirador do gênero literário crônica, como eu, ele sempre será uma referência. Os meios literários de Areia Branca e Mossoró, quiçá do Estado do RN, devem a Nicodemos uma justa e merecida homenagem.

Na semana passada, reli o livro A Velhinha de preto, uma coletânea de crônicas de sua autoria; livro que adquiri há vinte anos. Para o nosso regozijo, transcrevo um fragmento da crônica, De repente, Agosto, na qual ele derrama-se em lirismo e saudades:

“E porque é agosto, há festa de luz e cores no ar. Na minha terra das areias brancas. O mar copia a leveza diáfana do azul dos horizontes acesos por um sol de ouro novo, no verde profundo das suas águas em festa a Nossa Senhora dos Navegantes. Os coqueiros de suas praias, como transformados em visões lendárias, tocam na brisa do mar uma canção diferente. E eu cá, a distância, sinto-me convidado a lembranças e recordações. Das festas de agosto de antigamente”.

Ficarão eternizadas em minhas lembranças as suas belas crônicas e as nossas agradáveis conversas.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/05/2024 - 10:30h

Confraria do café

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

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O poeta Mario Quintana disse certa vez que “o café é a bebida da amizade, o companheiro das reflexões solitárias, o refúgio dos pensamentos inquietos.” Sim, é bom saborear um café para começar o dia; um gole de café nos faz despertar para a labuta diária. E, como bem disse o poeta, é o companheiro das reflexões solitárias. Às vezes, ao tomar um café, refletimos sobre o nosso eu, muitas vezes tão repleto de dúvidas e angústias.

Entretanto, degustar um café ao lado de boas companhias faz toda diferença. Assim é com a confraria do café, lá na casa do nosso dileto escritor, Marcos Ferreira. Ele nos recebe de braços abertos, com um sorrisão estampado no rosto. Já tive o prazer de fazer parte dessa reunião de pessoas do bem, juntamente com Rocha Neto, do excelente restaurante Prato de Ouro. É um momento para dar boas risadas, sem o formalismo de alguns ambientes cheios de frescuras.

Por lá, aparecem pessoas dos mais variados estratos sociais, e o melhor é que não há hierarquia entre os convivas, todos ficam à vontade. É um espaço plural, no qual as conversas são leves, sem o radicalismo que tem dividido o país nos últimos tempos.

O fato é que sempre gostei de visitar Cafés. Há mais de dez anos, semanalmente, vou tomar um cafezinho em Duarte´s Café, de propriedade de Dona Toinha e Rafael Arcanjo, professor aposentado da Uern. Já conversei com muita gente boa no local. Aliás, foi onde conheci o advogado e escritor Bruno Ernesto, colaborador deste Blog.

Vez ou outra, acompanhado da minha mulher, visitamos alguns Cafés da cidade, já conhecemos quase todos. Alguns ambientes são mais requintados, outros, simples. Não importa, o que vale é o calor da companhia, além do café, claro.

Durante os quinze anos que lecionei na Universidade Potiguar, no intervalo das aulas, convivia com professores de vários cursos e, ao tomarmos um café, trocávamos experiências, era um momento aprazível. No Fórum da Comarca de Areia Branca, onde trabalho há quase dezenove anos, sempre tem a pausa para o cafezinho, ocasião para ficar atualizado das fofocas.

Pois é, da próxima vez que for à casa de Marcos Ferreira, na confraria do café, levarei umas saborosas bolachas da padaria de Sinval e, entre um gole e outro, vamos colocar a prosa em dia. Mesmo porque, segundo Quintana, “o café é a poesia dos encontros, o elo que une pessoas e histórias.”

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

 

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 12/05/2024 - 07:22h

A vida é pra quem sabe viver

Ilustração Web

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Por Odemirton Filho

Todos os dias, religiosamente, recebo por meio do Aplicativo WhatsApp mensagem do amigo Rocha Neto. São mensagens carregadas de esperança na vida e fé em Deus, inspiradas pelos melhores dos sentimentos, vindas do coração. Sem dúvida, quem as recebe, fica com a alma aquecida e renovada.

Diariamente, também, num grupo criado exclusivamente para oração, uma colega do trabalho envia áudios adorando e agradecendo a Deus pelo dom da vida, além de hinos de louvor. Um grupo de “zap” no qual somente ela, administradora, pode enviar mensagens.

Eis uma das vantagens do mundo tecnológico no qual vivemos: interagir com diversas pessoas, de forma rápida, ao mesmo tempo. Mas como encaramos a vida? Se, por um lado, há pessoas positivas, por outro, sempre existem pessoas negativas, com uma energia ruim.

Nem tudo na vida são flores, é certo. Porém, é preciso oxigenar o espírito com pensamentos positivos, dando-nos força para vencer os inúmeros obstáculos. Sempre reclamar de tudo, e de todos, não faz bem. Aliás, ao escrever, procuro transmitir aos leitores uma mensagem positiva, que resgatem do fundo do peito as lembranças, as saudades e os bons sentimentos.

Sua vida tá difícil? Agora, pense na tragédia do Rio Grande do Sul. Pensou? Pois é, percebeu como existem pessoas em situação pior? Por isso, devemos agradecer, sempre.

Guardar algum bem material para ser usado num momento singular pode não ser a melhor escolha. Não sabemos se chegará esse momento. Hoje ou amanhã tudo pode acabar. Uma canção interpretada pelo sambista Diogo Nogueira diz assim:

’A vida é pra quem sabe viver, procure aprender a arte pra quando apanhar não se abater; ganhar e perder faz parte…”

Se hoje perdemos, amanhã, ganharemos. Se hoje choramos, amanhã, sorriremos. Aqui ou acolá levamos umas rasteiras da vida, é verdade. Contudo, não podemos desistir.

Tristezas e preocupações? Sim, é claro que tenho. Entretanto, “Deus é maior! Maior é Deus, e quem tá com Ele nunca está só”.

Ah, e tenho alegrias. Muitas.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/05/2024 - 11:02h

Antes das redes sociais

Por Odemirton Filho

Ilustração Web

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Lá pelo ano de 2005, portanto há quase vinte anos, a forma pela qual tínhamos notícias dos fatos era diferente. Já existia a internet, é certo. As notícias circulavam instantaneamente em sites e blogs de conteúdos diversos. Este Blog, por exemplo, deu as caras em 03 de maio de 2007; porém, à época, ainda não vivíamos com os olhos grudados nas telas dos computadores e smartphones.

Entretanto, a partir de 2007 com o Facebook no Brasil, e o Instagram e WhatsApp entre 2009/2010, a forma como nos relacionarmos com outras pessoas passou a ser diferente. Amigos que há tempos não víamos, ficaram próximos. Se antes eram com as fofocas nas calçadas e nas reuniões de famílias que sabíamos sobre a vida alheia, agora, não.

QUASE TODO MUNDO EXPÕE SUA VIDA nas redes sociais; tão nem aí. Agora, sabemos onde as pessoas estão. Se estão num barzinho tomando umas; se estão numa festa, viajando pelo Brasil ou pela Europa. Sabemos até o que estão comendo. Servidos?

É claro que não direi que o mundo era melhor antes das redes sociais e da internet, pois a violência, as mazelas sociais e as dificuldades já existiam. A vida sempre foi difícil, e sempre será. Falo é sobre as relações interpessoais. Mas, cá pra nós e a torcida do Mengão, mentiras, fofocas, inveja, ostentação, sempre fizeram parte de nossas vidas. As redes sociais apenas deram visibilidade, com rapidez.

Ah, agora as notícias falsas levam o epíteto de fakes news. Todavia, as notícias falsas e o jornalismo parcial sempre existiram. A diferença é que antes da internet e das redes sociais os fatos e fakes demoravam um pouco mais para se tornarem conhecidos. Político acusando o adversário de meter a mão nos cofres públicos? Não é novidade.

E político que gosta de aparecer na mídia? Ora, ora, sempre existiu. Há exemplos aqui e alhures, de ontem e de hoje. Contudo, não podemos dizer que a internet e as redes sociais não legaram coisas boas. Temos o conhecimento à disposição, basta pesquisar no Google. Por outro lado, infelizmente, há o submundo da Deep web.

Pois é, existia vida antes das redes sociais. Mas, agora, cabe-nos utilizá-las da melhor forma, filtrando o que há de bom. Principalmente, sem esquecer que o mundo real é melhor do que o virtual.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 28/04/2024 - 07:16h

Os doces anos da infância

Por Odemirton FilhoDia Nacional do Abraço

O tempo não apaga as lembranças; no máximo, o entardecer da vida faz arrefecer o calor de um coração inundado de saudades. Mas apagar? Apaga não. Assim foi com Arlindo, quando retornou à casa de seus avós depois de muitos, muitos anos. A velha casa estava fechada há tempos. A briga pela herança de pouca monta impedia que o processo de inventário terminasse. Recursos, embargos, impugnações e chicanas de toda sorte faziam a marcha processual emperrar. Os autos do processo sempre estavam conclusos para o juiz prolatar alguma decisão.

Ele fora criado pelos avós maternos desde a mais tenra idade. Toda vez que ouvia a música Avôhai, de Zé Ramalho, sentia um nó na garganta. Vinha à memória a figura de seu avô-pai. “Um velho cruza a soleira de botas longas, de barbas longas”. De sua avó lembrava-se do carinho. De vê-la ao seu lado quando ele estava doente; dos intermináveis “sermões”. Sentia o gosto do arroz de leite e da carne de sol preparados por ela.

Quando completou dezoito anos de idade, mudou-se para a casa de um tio, numa cidade grande, em busca de um futuro promissor. Lembrava-se do dia de sua partida. O seu avô já tinha falecido à época. Contudo, a sua avó, já avançada em anos, despediu-se com lágrimas nos olhos. Deram-se um abraço apertado, daqueles que aquecem a alma.

Infelizmente, tempos depois, quando sua vó faleceu, ele não pode comparecer ao velório, pois morava longe e o dinheiro era contado. Penitenciava-se por essa imperdoável falta. Entretanto, na primeira oportunidade, voltou à sua cidade; foi rever o local onde viveu os doces anos da infância.

Parafraseando a bela canção de Roberto Carlos, ele foi abrindo a porta devagar, mas deixou a luz entrar primeiro, todo o seu passado iluminou-se, e entrou. Em cada canto da casa, lembranças. Os móveis, deteriorados pelo tempo, estavam cobertos por lençóis empoeirados. Foi até a cozinha, os utensílios ainda estavam lá, do jeitinho que sua avó gostava de arrumar. No seu antigo quarto, os brinquedos permaneciam na estante.

Ao olhar a máquina de costura que sua avó trabalhava, incansavelmente, emocionou-se. Lembrou-se que, quando era criança, gostava de ficar ao pé da máquina, brincando, enquanto sua avó preparava o almoço, contando histórias e estórias. E riam, riam, riam.

Arlindo se sentou no chão, próximo à máquina, tecendo na mente um passado de inúmeras memórias afetivas.

Por um instante, o seu corpo arrepiou-se. E sentiu, mais uma vez, o abraço carinhoso da sua vó.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/04/2024 - 10:48h

Direito à liberdade de expressão

Por Odemirton FilhoLiberdade de Expressão

Ultimamente, o debate sobre o direito à liberdade de expressão tem ganhado relevância no meio político e jurídico. Há uma gama de ardorosos defensores de parte a parte. Discussões acaloradas, por vezes, agressivas, têm sido a tônica dos últimos tempos; todos são os donos da razão.

De um lado, os defensores da liberdade de expressão alegam que não se pode cercear o direito de dizer o que se pensa, com fundamento no que prescreve a Constituição Federal:

“É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. (Art. 5º).

E mais:

“A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição; é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. (Art. 220).

Diz o professor de direito Constitucional, Dirley da Cunha Júnior: “a liberdade de opinião, portanto, constitui-se em direito fundamental do cidadão, envolvendo o pensamento, a exposição de fatos atuais ou históricos e a crítica”.

Por outro lado, há quem afirme que nenhum direito é absoluto. Existem limites que devem ser respeitados. O direito à liberdade de expressão não alberga o direito à liberdade de agressão. Não se pode, dizem, usar o direito de se expressar para a prática de crimes, como, por exemplo, a injúria, a calúnia e a difamação.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, acusado por alguns de estar instaurando uma ditadura do Poder Judiciário, diz que a liberdade de expressão não é liberdade de agressão, não é liberdade de ofensa, de ameaça. “Esse discurso de que (com a regulação das redes) o que se quer limitar é liberdade de expressão, é um uma narrativa construída pela extrema direita no mundo todo. Porque é um discurso fácil”.

Percebe-se que há argumentos razoáveis de ambos os lados. A nossa Constituição Republicana garante à liberdade de dizer o que pensamos, pois “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.

E se alguém nos ofender? Nesse caso, é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem, sem prejuízo das ações penais quando praticados crimes contra a honra, garantindo-se o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.

Ressalte-se que não é liberdade de expressão, e sim crime previsto no Art. 286 do Código Penal, quem incitar, publicamente, a prática de crime, bem como, quem incita, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade.

Acrescente-se que o debate sobre o limite da liberdade de expressão não é hoje. O filósofo britânico John Stuart Mill, em livro publicado no ano de 1859, Sobre a liberdade, já dizia:

“O mal particular em silenciar a expressão de uma opinião é que constitui um roubo à humanidade; à posteridade, bem como à geração atual; àqueles que discordam da opinião, mais ainda do que àqueles que a sustentam. Se a opinião for correta, ficarão privados da oportunidade de trocar erro por verdade; se estiver errada, perdem uma impressão mais clara e viva da verdade, produzida pela sua confrontação com o erro – o que constitui um benefício quase igualmente grande”.

E continua:

“Nunca podemos ter a certeza de que a opinião que procuramos amordaçar seja falsa; e, mesmo que tivéssemos, amordaçá-la seria, ainda assim, um mal.

Assim, diante de tudo o que foi exposto, é possível afirmar que, atualmente, há cerceamento do direito à liberdade de expressão no Brasil?

Tirem as suas conclusões, se possível, sem as amarras do radicalismo político-ideológico que viceja no país e no mundo.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Artigo
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 07/04/2024 - 08:30h

Palavras de motivação

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa IA

Foto ilustrativa IA

Quando os caminhos de algumas pessoas se cruzam, talvez, seja a mão de Deus, talvez, o destino. Não sei. Mas, de vez em quando, esses encontros podem mudar a vida de uma pessoa; pode ser o início de uma nova caminhada, de um olhar diferente para um horizonte que, às vezes, encontra-se nublado.

Pois bem. Na semana passada, ao intimar uma jovem lá na cidade de Grossos, tive uma grata surpresa. Ela me disse que há algum tempo se encontrava triste, pois a sua família estava atravessando dificuldades financeiras, numa situação delicada, além do que, a sua mãe tentara suicídio.

Disse-me que na ocasião, ao intimá-la, eu conversei um pouco com ela, dizendo-lhe para levantar a cabeça, seguir em frente, com fé, e que nunca deixasse de estudar.

Ela me agradeceu, emocionada, dizendo-me que eu tinha sido um instrumento nas mãos de Deus para que não desistisse de tentar concretizar os seus sonhos. Disse que atualmente está cursando Pedagogia, prestando alguns concursos públicos e, se Deus quiser, mudará a sua vida e da sua família.

Confesso que fiquei encabulado com as palavras de agradecimento. Não lembrava de tal fato. Por outro lado, fiquei bastante feliz por ter, de alguma forma, ajudado àquela moça. Nunca pensei que algumas palavras de motivação, de forma despretensiosa, pudessem realmente ser um farol a iluminar caminhos. Com certeza, o mérito é todo daquela jovem, pois a sua força de vontade a fez trilhar outro rumo.

Contudo, fiquei a pensar como as palavras podem ser fundamentais para ajudar uma pessoa. É claro que um gesto concreto tem a sua importância. Todavia, em certos momentos da vida, as palavras certas podem aplacar um coração que se encontra dolorido. Quem não gosta de ouvir um elogio? De uma palavra de conforto? De esperança?

Num mundo marcado pelo ódio e o radicalismo, sobretudo nas redes sociais, as palavras de motivação devem fazer parte do nosso vocabulário. Palavras que inspirem pessoas, dando-lhes força para mudar de vida e seguir em busca de seus objetivos.

Vez ou outra as palavras que dissemos nos servem também. Muitas vezes, o que estamos a dizer é uma resposta aos nossos questionamentos e angústias.

Se é assim, façamos a nossa parte, sejamos mensageiros da esperança e da fé.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos.

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Categoria(s): Blog
domingo - 31/03/2024 - 08:22h

Tudo demais é veneno

Ilustração Freepick

Ilustração Freepick

Por Odemirton Filho

Há tempos procurava seguir por outro caminho, pois estava cansado da vida. O trabalho o consumia, mal sobrava tempo para curtir a vida ao lado de quem amava. Era preciso trabalhar para pagar os boletos. A vida se resumia a trabalhar? Seria um viciado no trabalho? Um workaholic? Pensava. Ao sair em férias nunca relaxava. Tinha medo de ser mandado embora quando voltasse.

O ambiente no trabalho era tóxico. A competitividade entre os colegas saltava aos olhos, desconfiavam uns dos outros; sem falar nos “puxadores de tapetes”. Os chefes sempre pediam o cumprimento das metas, e as metas nunca acabavam. Precisava era dar outro rumo à vida; aproveitar os poucos momentos para se distrair.

Os filhos cobravam a sua presença. “Sente um pouquinho aqui, papai, brinque com a gente”, diziam. E ele nunca podia, pois estava sempre ocupado, pensando nos relatórios a serem entregues. Já tinha visto colegas com vários anos de empresas serem demitidos por qualquer motivo.

Em dez minutos, após a comunicação do desligamento (um eufemismo para demissão), as senhas de acesso aos sistemas estavam bloqueadas. Consideração pelos anos dedicados à empresa? Rsrsrsrs.

Ficava a pensar: pedir demissão e ir vender coco na praia é coisa de filme ou novela. Não podia ter esse luxo, pois as contas de água, luz, prestação da casa, do carro, colégio dos meninos e a feira não esperavam. Porém, lembrou-se do livro de Aristóteles, filósofo grego.

O pensador considerava que os “impulsos humanos podem levar o indivíduo a extremos em termos de comportamento, e esses extremos representam o vício (o contrário da virtude). Por outro lado, a virtude estaria no equilíbrio, no controle sobre esses impulsos na busca pelo ideal de equilíbrio”.

A partir de então começou a não levar trabalho para casa. Sempre encontrava um tempinho para namorar a sua mulher; tirava meia hora por dia para brincar com os seus filhos.

Nos finais de semana não atendia aos telefonemas dos colegas da empresa para falar sobre trabalho. Aos pouquinhos foi encontrando o meio-termo. Nada de excessos. “Tudo demais é veneno”, diz a sabedoria popular.

A virtude está no meio.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 24/03/2024 - 08:40h

Um fio de esperança

Por Odemirton Filho  

Foto ilustrativa Viver Sem Drogas

Foto ilustrativa Viver Sem Drogas

Um dia desses, no centro da cidade, encontrei um daqueles inúmeros moradores de rua, ali, no entorno da Catedral de Santa Luzia. Um jovem magro e maltrapilho. Sentado numa calçada, ele fumava uma pedra de crack, de forma despreocupada. Já o vi várias vezes pelas ruas, sempre pedindo alguma coisa para comer.

Ele me pediu uns trocados e disse:

– “Doutor, a pedra só custa R$ 5,00, a inflação não atingiu o mercado negro, nunca roubei ou furtei pra sustentar o meu vício”.

Se é verdade o que ele disse, não sei, mas impressionou-me o seu linguajar. Muito embora, como sabemos, pessoas das mais variadas classes sociais e grau de instrução caiam no vício.

Contudo, qual a história de vida daquele rapaz de apenas 28 anos de idade? Onde está a sua família? Cansou de ajudá-lo a sair do mundo das drogas? Não sabemos o que o levou a entrar nessa vida.

Fiquei a imaginar o número de pessoas, sobretudo jovens, que envereda por esse caminho, muitas vezes, sem volta. Eu tenho um primo, um excelente profissional, conhecido na cidade por fazer a locução de comícios. Ele, segundo dizem, caiu nas drogas e sumiu no mundo, há tempos não temos notícias.

Certa vez, eu procurei uma senhora lá em Areia Branca. Tinha uma intimação para dois netos seus. Ela, com lágrimas nos olhos, disse-me:

– “Meu filho, meus netos não moram mais aqui, tive que colocá-los pra fora de casa, pois eles venderam até as minhas calcinhas pra comprar drogas”.

Lá na comunidade de Logradouro, em Porto do Mangue, uma mãe, toda vez que vou à procura de seu filho para intimá-lo, começa a chorar. Diz que não tem notícia dele. Outra mãe, que teve os dois filhos vítimas de homicídio, quando pedi para que me apresentasse as certidões de óbito para juntar ao processo, chorou copiosamente.

São muitos os casos, muita dor e sofrimento envolvidos, principalmente para os pais.

Que fique bem claro: não estou a defender “bandidos”, pessoas que optaram por esse mundo, fazendo do tráfico de drogas um meio de vida, bem como daqueles que usam as drogas como justificativa para cometerem os mais variados crimes, pois já destruíram a vida de muitas famílias. Esses devem ser punidos na forma da lei.

Falo é nos dependentes químicos, nas pessoas que estão nas “cracolândias” da vida, precisando de um tratamento adequado para se livrar do vício, como aquele jovem rapaz que encontrei pelas ruas do centro da cidade. É uma triste realidade do nosso tempo.

Não há outro destino para eles? Quero crer que ainda existe um fio de esperança, e que possam trilhar outros caminhos.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/03/2024 - 07:44h

Amigos virtuais, amigos reais

Redes sociais IIPor Odemirton Filho

Vi que nas minhas redes sociais tenho quase cinco mil amigos/seguidores. Cinco mil, vejam só. Fiquei impressionado com a quantidade, pois sou um simples mortal, sem fama e grana. Mais impressionado fiquei com a facilidade de hoje em dia fazermos amigos de forma instantânea, vapt vupt.

Por ter sido professor por quinze anos, creio ser a razão de tantos amigos virtuais. Talvez, se fizer uma triagem desses amigos, não atinja 1% por cento com os quais já sentei à mesa para tomar um café e jogar conversa fora. A maioria destes cinco mil amigos mal me conhece; e eu mal os conheço. Digo, conhecer de vera.

Não é preciso, é certo, uma ruma de tempo para uma amizade se firmar, pois há amizades formadas de chofre. Entretanto, para mim, amigos são aqueles forjados no dia a dia, no compartilhar de sonhos e dificuldades. Amigos, não somente de mesa de bar, mas amigos sempre à disposição para nos ouvir e ajudar. Amigos reais choram e riem ao nosso lado. Ora, nem alguns membros de nossas famílias são garantia de uma verdadeira amizade.

Como sabemos até os amigos de infância se distanciam. Cada um vai para um lado. A vida, por vezes, encarrega-se de afastá-los. Poucas amizades conseguem vencer o tempo. Contudo, quando conseguem, são amizades sólidas. As relações humanas na modernidade líquida são marcadas pela brevidade e pela fragilidade, substituindo laços duradouros por conexões passageiras, como bem disse Zygmunt Bauman.

Nas postagens das redes sociais, somente observamos fotos de momentos felizes, viagens, festas, entre outras ocasiões agradáveis. Poucos expõem suas angústias, dores da alma, pois, naquele universo virtual, só alguns estão prontos a ajudar. Não tenho nada contra os meus cinco mil amigos virtuais, é claro, estou apenas a dizer da superficialidade dessas relações. São muitos os amigos virtuais, poucos, os reais.

Aliás, li uma postagem nas redes sociais que dizia mais ou menos assim: “um dia você saiu com seus amigos de infância para andar de bicicleta e nem percebeu que foi a última vez”. Dos amigos com os quais andava de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente ainda restaram alguns “gatos pingados”.

Pois é, contam-se nos dedos de uma mão os amigos reais.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 10/03/2024 - 08:34h

A felicidade de um pai

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativo do Diário da Mamãe

Foto ilustrativo do Diário da Mamãe

E a menina cresceu. Tornou-se uma linda mulher; decidida, inteligente, firme na busca de seus objetivos. O pai, orgulhoso, lembrava-se quando a pegou nos braços, tão pequenina, frágil. Vinha à memória a filha correndo pela casa e algumas de suas peraltices, como jogar o aparelho de celular dentro do aquário e correr pelo quarteirão de onde ficava a sua casa; a mãe tentando alcançá-la.

Contudo, o tempo voa. Ao voar, traz lembranças para aquecer o coração. É a vida seguindo o seu fluxo. O pai torce para a filha pavimentar o seu caminho com as pedras da humildade, do amor e da honestidade. Roga a Deus que a abençoe. Daqui a algum tempo, quem sabe, virão os netos, e a menina dos lindos cabelos cacheados, hoje adulta, educará os seus filhos.

Com a vitória dos filhos os pais se sentem realizados. Qual o pai ou a mãe que não fica feliz com o voo dos seus filhos? Somente alguns não nutrem esse belo sentimento. O pai tentará deixar como herança valores imateriais, os quais são a verdadeira riqueza de uma pessoa.

Com o tempo, passamos a contemplar a vida de outra forma. A serenidade nos visita, e ficamos cada vez mais conscientes de nossa finitude. Tanta correria pra quê? O que nos espera? Será o fim ou o começo? Perguntas que somente a crença de cada um responderá.

Por isso, a felicidade de um pai ao observar os filhos seguirem o seu caminho, pois sente a sua vida se eternizar, vez que a sua melhor parte, seus filhos, começam a construir a sua própria história de vida.

Sem dúvida, os filhos encontrarão muitas dificuldades, as quais todos enfrentamos. Nem tudo são flores; há os espinhos que machucam a alma. Mas o tempo, caso não cicatrize, pelo menos será um bálsamo para aliviar os arranhões causados pela vida.

E o pai, emocionado, dirá: “vá em frente, filhasiga o seu caminhoSorria, chore, ame, dance, rodopiando pelos salões da vida, feliz. Seja independente, seja você, seja o que quiser.

Enquanto eu estiver por aqui, continuarei ao seu lado em todos os momentos de sua vida, alegres e tristes. E quando estiver no outro lado do caminho, no plano espiritual, continuarei te protegendo, amando-te.

Eternamente”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/03/2024 - 06:30h

Sobre causos e diligências

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

No último domingo, o editor deste Blog publicou uma crônica sobre a visita de um oficial de Justiça em sua residência (veja AQUI). Segundo ele, à época da publicação do texto, estava acostumado a receber esses servidores públicos em sua casa, o fazendo com a educação que qualquer pessoa merece.

Pois bem. Lembrei-me do dia a dia do nosso ofício, dos perrengues que atravessamos para cumprir algumas diligências. Há, infelizmente, uma falsa ideia que o oficial de Justiça somente leva notícias ruins. Todavia, apenas cumprimos as determinações judiciais para fazer valer o que foi decidido pelos magistrados. Quem “ganhou a ação” fica feliz com nossa visita, quem a perdeu, não. É natural.

Entretanto, nesta crônica, pretendo falar sobre alguns causos e diligências. Aqui ou acolá acontecem situações que depois nos fazem rir. Eu, por exemplo, já tive que fechar rapidamente uma porteira de uma fazenda, pois um boi “cismou” e veio em minha direção. Outro dia, uma senhora conhecida por ser “desbocada”, disse-me que não tinha bens para serem penhorados, e mandou que eu penhorasse as suas partes íntimas.

Existem aqueles que pedem para eu dizer que não os encontrei. Já subi dunas, andei por ruas enlameadas, atolei o carro, percorri assentamentos de difícil acesso, tive que empurrar o carro da polícia que “deu o prego”, com um preso sendo conduzido na viatura.

Às vezes, algumas pessoas ao serem abordadas perguntam “o que estão devendo à Justiça”, fazendo cara de poucos amigos. Há pessoas que “passam mal”, ficam nervosas, quase sem voz. Em alguns casos, já aconteceu dos intimandos serem levados de ambulância para o hospital.

Contudo, bom que se diga, nem sempre é tranquilo. Dia desses, um colega oficial de Justiça foi agredido, tendo que se abrigar em uma casa próxima enquanto esperava a polícia comparecer ao local para acompanhá-lo. Há, também, diligências mais complexas e delicadas, como a reintegração de posse de um imóvel, a busca e apreensão de veículos, a penhora de bens e a guarda do filho menor de idade, por vezes, sendo necessário retirar a criança dos braços do pai ou da mãe.

Recentemente, uma senhora fechou a cara quando me viu chegar a sua casa. Porém, quando eu lhe disse que era uma intimação para receber uma quantia em dinheiro, por meio de um alvará judicial, abriu um sorriso e me ofereceu até café com bolachas.

Existem outras situações hilárias que aconteceram comigo e outros colegas. Quem sabe, volto a mencionar em outra oportunidade. Além disso, há os bons e maus profissionais, como em toda e qualquer atividade. Faz parte.

Enfim. Mas feliz, feliz mesmo, é o colega oficial de Justiça Otacílio, sempre recebido com todo apreço pelo editor deste Blog.

Valeu, Carlos Santos!

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 25/02/2024 - 09:50h

Lá vem a chuva

Área litorânea, região metropolitana, são pontos mais críticos no período (Foto ilustrativa Elisa Elsie)

Foto ilustrativa de Elisa Elsie/Arquivo

Por Odemirton Filho

O velho sertanejo olhava para o céu. Estava no período do inverno, e rogava a Deus que a chuva molhasse o chão esturricado. Todo ano era a mesma peleja, o homem do campo fia-se em Nosso Senhor e nas benções de São José para que o inverno seja chuvoso. A esperança não morre, renova-se ano a ano. Assim é a vida do povo do sertão, calejado pela constante falta d`água.

Com o velho sertanejo não era diferente. Passou a vida trabalhando naquelas terras. Herdou-as do seu pai e, desde pequeno, ajudava-o na roça, aprendendo o ofício que vinha de geração em geração. Daquele chão seco conseguiu tirar o sustento dos cinco filhos.

Hoje, moravam somente ele e a sua mulher, também avançada em anos. Os filhos foram morar numa cidade grande em busca de melhores condições de vida. Entretanto, nunca pensou em sair do seu torrão. Ali nasceu, ali morrerá.

Levavam uma vida simples. A sua mulher preparava o café cedinho, antes do sol raiar; barria o terreiro, depois, ia limpar a casa e preparar o almoço. Ele ajeitava alguma cerca que estava quebrada; alimentava os poucos animais que tinham; limpava a sua pequena roça. Na hora do almoço, normalmente comiam feijão, farinha e, quando tinha, alguma mistura. Tomava umas doses de cachaça para “espaiar o sangue”.

À noite, ao lado de sua velha, assistiam ao noticiário na televisão e escutavam umas cantigas no rádio. Gostavam de ouvir o rei do baião: “Sem chuva na terra descamba janeiro, depois fevereiro e o mesmo verão; apela pra março que é mês preferido do santo querido senhor São José (meu Deus, meu Deus)”; dormiam antes das 21h, religiosamente.

Recebia o dinheirinho do governo, mas o “aposento” mal dava para as despesas. Há anos que escutava a conversa mole dos políticos que a vida vai melhorar. Neste ano de eleições municipais, os candidatos a prefeito e a vereador deverão passar pela sua casa prometendo mundos e fundos, mas gostava de dizer que já tinha plantado “um pé de cá te espero”.

Agora, via as nuvens carregadas, os raios rasgando o céu. Estava capinando a roça e gritou para a sua mulher: lá vem a chuva! Lá vem a chuva!

E sentiu o suor do trabalho, as lágrimas da esperança e os pingos da chuva enviada por Nosso Senhor escorrerem em seu rosto.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/02/2024 - 04:32h

Inspiração para uma crônica

Por Odemirton Filho

Ilustração da Enciclopédia Humanidades

Ilustração da Enciclopédia Humanidades

Dia desses encontrei o doutor Roncalli Guimarães, colaborador do Nosso Blog, num restaurante à beira-mar, pelas bandas da praia de Pernambuquinho, na cidade de Grossos. Estávamos em mesas próximas, com o “marzão” à nossa frente, e, lá para as tantas, Roncalli me falou:

– “Uma paisagem dessa merece uma crônica, hein?”

Concordei e, desde então, fiquei matutando. Para escrever uma crônica basta olhar as coisas simples do cotidiano que, muitas vezes, não percebemos. Reunir-se com os amigos ou com a família, tomar um café, “tomar umas”, viajar, ir ao sítio, à praia; relembrar fatos do passado, ficar sozinho em casa, curtindo a nossa companhia, tudo é inspiração para uma crônica.

Toda vez que escrevemos mostramos um pouco de nossa alma, nossas poucas virtudes e inúmeros defeitos. Entregamos ao leitor um pouco do que carregamos na vida; dividimos ideias, momentos, alegrias, tristezas, lembranças, saudades.

Creio ser na simplicidade da vida que encontramos o que realmente tem valor. É tão prazeroso ficar ao lado de quem amamos; curtir a infância de nossos filhos, dos netos; vê-los crescer pessoal e profissionalmente; abraçar um filho que vem nos visitar; a felicidade de ter os nossos pais ainda vivos e, dentro das limitações naturais da idade, com saúde, tudo isso não tem preço.

Segundo o Dicionário online de Português, a crônica é um gênero literário que consiste na apreciação e narração pessoal dos fatos da vida cotidiana; cronologia, narrativa, prosa. Embora muitos a considerem um gênero menor, não vejo assim. De acordo com a professora Beatriz Resende, “as crônicas devem ser envolventes, sedutoras, comoventes, provocantes e divertidas”.

Além disso, recomenda-se usar um vocabulário simples. Observar os detalhes que muitas vezes passam despercebidos, deve ser a marca da crônica. O leitor deve encontrar familiaridade ao ler o texto, refletindo, muitas vezes, o que também viveu e sentiu, acompanhado uma narrativa leve, que faça bem a sua alma, suavizando o corre-corre do cotidiano. Todavia, cada cronista tem o seu estilo, o que devemos respeitar.

Pois é, meu caro Roncalli, a sua pergunta inspirou-me. Devemos ter cuidado para não deixar passar sem perceber as coisas simples da vida que são, na verdade, extraordinárias.

Valeu pela dica.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 04/02/2024 - 15:48h

Lembranças de um pretérito imperfeito

Ilustração Psicoonline

Ilustração Psicoonline

Por Odemirton Filho

De vez em quando, ao encontrar um dos vários leitores deste Blog, tenho uma grata surpresa. Alguns me dizem que leem minhas crônicas, e gostam de lembrar fatos do passado que, aqui ou acolá, trago a este espaço. Segundo me dizem, revivem um pouco a infância e juventude.

Como sabemos, o ato de escrever não é fácil. Contudo, para não faltar ao nosso compromisso dominical com os leitores, buscamos no fundo da alma algo que faça despertar bons sentimentos e lembranças, quiçá algumas saudades.

Ora, até o nosso querido escritor Marcos Ferreira, vez ou outra, diz que enfrenta uma peleja medonha para escrever, imagine. Só que Marcos, mesmo quando afirma estar sem inspiração, consegue escrever de modo genial. De minha parte, entretanto, procuro resgatar aquilo que vivi, pois, além de lembrar bons momentos, sei que muitos dos fatos coincidem com o que foi vivenciado por alguns leitores.

Por vezes, nas conversas com os meus pais, procuro saber sobre o passado. E vejo que seus olhos brilham ao lembrar das festas do Clube Ipiranga e da ACDP; quando falam sobre o Cine Jandaia, o Cine Cid, o Caiçara, o Cine Pax; dos carnavais de tempos passados. Meu pai lembrou do Pavilhão Vitória e da lanchonete de seu Fenelon, na qual se servia a famosa “bananada”; do restaurante Umuarama e da sorveteria Oásis. Falou-me que, quando criança, brincava no horto florestal e tomava banho no rio Mossoró, à época, não poluído.

Entre os momentos dos quais me lembro, vem à memória o forró chique na ACDP, as festas da AABB, o Clube Realce, o Ferrão, o Burburinho, as vaquejadas nas cidades circunvizinhas, a pizzaria de Patrício português, a sorveteira do Juarez, os vesperais no Cine Pax, os comícios no largo do Jumbo e da Cobal. Além das brincadeiras com os meus primos na casa de nossos avós; das brincadeiras com os amigos no patamar da igreja de São Vicente e do veraneio na praia de Tibau, onde vivi doces dias da minha infância e juventude.

Por outro lado, não devemos ficar remoendo o que passou; “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Das lembranças de um pretérito imperfeito que todos vivemos, talvez, seja de bom tom extrair lições para não cometermos os mesmos erros. O edificante, creio eu, é carregar no peito boas lembranças e algumas saudades para aquecer o coração.

Para mim, lembrar fatos do passado é ver a fotografia da nossa vida, feita de ângulos diversos, certos ou errados. Sendo assim, transcrevo algumas palavras de um texto rabiscado por mim e publicado neste Blog, em 2018:

O passado sempre visita o presente na vã tentativa de reviver. Esqueçamos o pretérito imperfeito. Resgatemos, do passado, somente os melhores momentos.

Agradeço, de coração, aos leitores que embarcam comigo nessas viagens aos tempos de outrora.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/01/2024 - 11:32h

O último gole

Por Odemirton Filho

Ilustração Freepik

Ilustração Freepik

Corria o mês de janeiro de 2022.

Sentado à mesa com um amigo apreciávamos a bela paisagem, ornada por coqueirais e pelo mar de Tibau.

Conversávamos sobre tempos idos; sobre a nossa infância e juventude que ficaram lá atrás.

Tomávamos umas. O amigo insistiu para que tirássemos uma foto. Talvez, pressentisse que seria o nosso último encontro.

Entre um gole e outro, brindávamos à vida. Cada um carregava no peito as suas alegrias e tristezas. Ríamos dos arroubos da juventude; dos porres homéricos; dos sonhos que sonhávamos.

É a vida com seus encantos e desencantos; erros e acertos. Era um amigo querido, que sempre fazia questão de me visitar durante o veraneio, ocasião que resgatávamos alguns momentos do junho de nossas vidas.

Ao chegar, muitas vezes “triscado”, trazia uma dose de alegria. Para ele, a vida era pra ser vivida.

Naquele janeiro de 2022 a nossa preocupação era encaminhar os filhos e netos, pois sabíamos que o caminho a percorrer era menor que o percorrido. Tínhamos razão. Infelizmente, o amigo nos deixou em outubro de 2022. Nem imaginávamos que estávamos tomando o nosso último gole.

Agora, corre o mês de janeiro de 2024. Tomo umas. Continuo a vislumbrar do alpendre da velha casa dos meus pais uma belíssima paisagem, sentindo o gosto amargo da saudade.

Entretanto, as lembranças permanecem vivas, pois, segundo o poeta Mario Quintana, “a amizade é um amor que nunca morre”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Fevereiro de 2026
domingo - 14/01/2024 - 06:48h

O que vale a pena

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Tudo vale a pena, se alma não é pequena”.

(Fernando Pessoa)

Caminhavam na areia com a brisa tocando os seus rostos, como se fosse um beijo suave. Diariamente, à tardinha, gostavam de andar na beira da praia, com o mar molhando os pés.

Há anos tinham largado a cidade grande. Mudaram-se para a comunidade-praia e desfrutavam a paz do local. Buscavam sossego, pois já estavam aposentados.

A rotina raramente mudava. O marido acordava cedo, o sol nunca o encontrou dormindo, como diria Rui Barbosa. Preparava um café coado e tapiocas. A mulher se levantava um pouco mais tarde. Conversavam sentados à mesa, sem pressa. Depois cumpriam as tarefas da casa e faziam o almoço.

Algumas vezes, pela manhã, esperavam uma jangada vindo do alto mar e compravam peixes, já eram conhecidos dos pescadores e moradores da pequena localidade. As compras da casa eram realizadas na mercearia de Zé de Niel, que ficava próximo, ainda no sistema da “caderneta”.

Antes do almoço o marido gostava de tomar uma “pra lavar”.  Depois, deitavam-se nas redes e iam curtir a “sesta”. No meio da tarde tomavam um “pingado”, acompanhado com pães e bolo.

À noite, após o jantar, deitavam-se juntos no alpendre com o vento balançando a rede, embalando os momentos mais íntimos.

Tinham um filho e dois netos que os visitavam uma vez por ano, nas férias, pois moravam longe, lá pelas bandas do sul do país. Para não ficarem incomunicáveis possuíam um telefone celular.  Assistiam a televisão, de vez em quando, para verem o noticiário.

Liam muito. Sobretudo, os romances, contos e as crônicas do bruxo do Cosme Velho. A sós, conversavam sobre a vida. Lamentavam-se. Eram para ter dançado mais. Viajado mais.

Entretanto, a correria do dia a dia e o trabalho fizeram com que consumissem boa parte da vida. O tempo passou depressa. Os anos avançaram e olhavam para trás, com saudade, principalmente, daquilo que não viveram. Agora, já não tinham o viço da mocidade.

Somente o tempo nos faz amadurecer. Os valores da vida são repensados. Valeu a pena correr tanto em busca de bens materiais? Perguntavam-se. Vivemos tempos da economia do desejo, não da necessidade.

Infelizmente, ou felizmente, ninguém transfere sua experiência ao outro. Erros e acertos precisam fazer parte da vida de cada um. Se pudessem voltariam no tempo e viveriam de outra forma. Mais leves. Mais soltos.

Final da tarde. Era hora de ir à praia, caminhar na areia e sentir a brisa. Juntos, viram o pôr do sol refletir sobre as águas do mar.

Descobriram que nunca é tarde para viver o que vale a pena.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/01/2024 - 07:06h

Um alpendre e uma rede

A red hammock hangs in the shade of a porch in summer.

Foto extraída da Web (sem identificação de autoria

Por Odemirton Filho

Não, não se trata de uma resenha do livro da escritora alencarina Rachel de Queiroz, Um alpendre, uma rede, um açude. Apenas tomei por empréstimo parte do título para compor esta crônica.

Na verdade, quero resgatar sentimentos de um tempo passado que, volta e meia, invade-me a alma e o coração.

Uma casa com alpendre, como se sabe, é um convite para se jogar conversa fora, seja em uma fazenda ou numa praia.

Em um alpendre se fala sobre tudo e, principalmente, da vida alheia, só escapando quem voa alto. Em outros tempos, do alpendre da casa de Tibau, ouvia-se: “olhe a tapioca, o grude”.  Tomava-se um café acompanhado de um pedaço de bolo de leite. Ou fofo.

Na minha época de menino o alpendre da casa ficava lotado de adultos e crianças. Não tínhamos medo de dormir fora da casa. Muitos preferiam dormir sentindo o vento frio da madrugada e tendo a lua com lamparina.

Na infância falávamos sobre histórias de casas mal-assombradas, contos de pescador (se sentir cheiro de melancia, não entre no mar, tem tubarão por perto). Demorávamos a dormir. Ninguém queria “pegar” no sono e ser motivo de chacota. Corria-se o risco de ter o rosto pintado com uma pasta de dente.

Os mais traquinos armavam a rede de modo que quem fosse se deitar levasse uma queda. O riso era geral. Aquele que caiu, por vezes, levantava-se “brabo”, doido para “ir nas orelhas” de quem fez a brincadeira de mau gosto.

Já adolescentes, quando voltávamos das festas de madrugada, ficávamos resenhando. Quem “descolou” ou quem somente encheu a cara. Alguns chegavam bêbados e, com o balanço da rede, vomitavam pra valer.

Mas é claro que um alpendre tem os seus momentos de calmaria. A rede é um convite à leitura. Um cochilo. Sim, eu sei caro leitor, a rede também é um convite para o aconchego dos casais.

Pois é. Um alpendre e uma rede oferecem agradáveis momentos. E boas, boas lembranças.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
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