domingo - 17/12/2017 - 03:28h

Uma noite, na casa de Radir Pereira

Por François Silvestre

* Para Honório de Medeiros

Campanha para senador em 1978. Uma espécie de substituição democrática, posto que o “governador” era “eleito” pelo “colégio eleitoral”, sob o controle do regime militar. “Governador” era apenas o delegado da Ditadura, nos Estados.

O que todos esperavam era uma chapa do MDB imbatível, após a vitória, quatro anos antes, de Agenor Maria sobre o candidato da Arena, Djalma Marinho. Nessa eleição, de 1974, eu estava preso. A chapa dessa espera, em 1978, seria formada por Odilon Ribeiro Coutinho, Radir Pereira e Varela Barca.

Seria um banho de água gelada na fervura do regime de mentira, aqui no jerimunzal. Ficou na ilusão. O MDB, sob o comando da Família Alves, mesmo com três irmãos cassados, resolveu fazer um acordo com o regime que os punira.

Nesse acordo, o MDB aluizista lançou, para a convenção, três candidatos ao Senado, tudo de faz de conta. Olavo Montenegro, Paulo Barbalho e Chico Rocha. Os três renunciariam e o MDB apoiaria a candidatura de Jessé Freire, candidato da Ditadura. A motivação desse acordo será tratada noutro texto.

O grupo autêntico do MDB potiguar, sob a liderança de Roberto Furtado e Odilon Ribeiro Coutinho, não se resignou e lançou as candidaturas de Odilon e Radir Pereira. A luta teria desfecho na convenção.

Contando os votos dos delegados, chegamos à constatação de que, mantidas as duas postulações, os autênticos não indicariam ninguém. O desprendimento de Odilon, retirando a candidatura, garantiu a candidatura de Radir Pereira contra o acordão. (Autêntico foi o nome dado ao bloco emedebista, no Congresso, em oposição ao bloco Moderado).

Resultado da convenção: saíram candidatos Radir Pereira, Olavo Montenegro e Chico Rocha. Olavo Montenegro cumpriu o acerto do acordo e renunciou. Chico Rocha manteve a candidatura.

Radir perdeu as eleições para o Senado, mas venceu em Natal por quase quinze mil votos de maioria. Contra tudo e todos. Governo federal, governo estadual, prefeitura da Capital, federação de indústrias, de comércio, Alves e Maias no mesmo palanque.

Os Maias não tinham votos naquele momento, a invenção de Aluízio Alves os colocou no patamar de liderança. E o inventor pagou caro por isso.

Quatro anos depois foi derrotado para governador. O voto vinculado explica a derrota no interior; mas na Capital, em que ele fora o eleitor maior, desde os anos Sessenta, apenas empatou com o candidato dos Maias.

Radir teve melhor desempenho.

Na casa de Radir, após a conquista da candidatura insurgente, reunimo-nos, naquela noite, para comemorar e montar “estratégias”.

Casa lotada. Todos os ambientes cheios. Delegados do partido, assessores, jornalistas, lideranças municipais, puxa-sacos, espiões, o escambau.

Numa mesa larga, dona Alda, mulher de Radir, nos colocou. O Próprio Radir, o ex-governador Cortez Pereira, primo e concunhado de Radir, Odilon Ribeiro Coutinho, Júnior Targino, Rubens Lemos, Agenor Maria e eu.

Essa mesa ficava o tempo todo cercada de perus. Como se estivessem peruando um jogo de cartas.

Muito uísque Bells, vinho, caipirinhas. E tome papo. Não me lembro do começo da confusão que deu. Ocorre que Cortez Pereira, num certo momento, dirigiu-se a mim. Tínhamos referências anteriores de afetos e brigas.

Tarcísio Maia e Cortez Pereira em 1974 (Foto: arquivo)

Ele fora meu professor. Eu fizera aquele discurso na Casa do Estudante, em que Dona Aída Cortez fez uma visita de proselitismo político para o marido governador.

Estraguei a festa e fui preso no dia seguinte. Não fui preso pelo governo estadual, que não tinha força para prender nem prestígio para soltar. Tempos do torturador Médici. A Polícia Federal me prendeu, sob as ordens do DOPS.

Pois bem. Cortez dirigiu-se a mim e disse: “Nós fomos punidos pelo mesmo regime”. Hoje, eu ficaria caldo. Naquela noite, fui grosseiro e respondi: “Fui punido por um regime que sempre combati. Você foi punido pelo mesmo regime ao qual serviu da forma mais torpe”. Desse jeito.

Eu era muito cabeludo. Meus cabelos desciam sobre os ombros. Ele respondeu: “Só desculpo a infâmia da sua fala porque a inteligência contida nela não tem a mesma dimensão da sua cabeleira”.

Confusão ao redor da mesa. Eu maneirei: “Tudo bem. Eu retiro o torpe”. Cortez aceitou as desculpas. Mas Odilon interveio: “Retire não. Foi muito bem colocado”.

Cortez vira-se para Odilon: “Você declarou que a ditadura se redimira, no Rio Grande do Norte, quando me escolheu governador”.

Radir Pereira (Foto: arquivo)

Odilon rebate: “É verdade, mas depois eu fiz autocrítica e disse que você entrara no Palácio pela porta dos fundos”. Cortez retruca: “Eu li e respondi que entrara pela porta dos fundos para abrir a porta da frente do Palácio a empresários mal sucedidos como você”.

Aí a confusão tomou conta. Todos os ambientes da casa vieram para esse local. Dona Alda, coitada, pedia quase gritando: “Vocês estão de que lado? Do lado dos adversários”? Radir pedia calma. Rubens Lemos cofiava o bigode e ria. Targino sugeriu: “Vamos enchiqueirar eles”.

Serenados os ânimos, houve o enchiqueiramento. Puseram uma mesa ao lado oeste do quintal, longe da festa, onde ficamos Odilon, Cortez, Targino e eu. Varamos a madrugada, entre reflexões de direito, filosofia, história e muita birita.

Cortez e eu, por sugestão de Odilon, combinamos a abertura de um escritório, em Natal, de advocacia criminal. Targino faria parte. Tempos depois, Targino me disse que nunca acreditou naquele empreendimento.

Ele estava certo. O “escritório” nasceu e morreu naquela madrugada. O tempo passou, como é imposição do destino, não ampliou a inteligência da minha fala, mas engoliu a minha cabeleira. Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Artigo
quarta-feira - 13/09/2017 - 10:56h
Política

“Marcar posição” é estratégia de sobrevivência para salto futuro

Aluizio Alves sabia de derrota certa em 1982, mas manteve candidatura para puxar representativade

Num quarto de hotel, em Recife-PE, o infatigável candidato a governador Aluízio Alves (PMDB) resolve relaxar na cama. Acomoda a cabeça no travesseiro, empalma as mãos com os dedos em feixes entrelaçados e faz deles um anteparo à própria nuca. Em tese, relaxa.

Olha para o teto, pros lados…

– O que é isso?Animem-se – provoca. Mexe com assessores e outros aliados que dividem o espaço. Cabisbaixos, monossilábicos ou com olhos e cenho que denunciam o próprio desânimo, ninguém “obedece” o maior líder político populista/popular do RN em todos os tempos.

Aluízio tinha estrutura partidária mínima, adversário forte e casuísmos legais limitando avanço; ocupou espaço (Foto: arquivo)

O ex-governador potiguar Aluízio Alves retorna de longo período de amputação de seus direitos políticos, em face de alcance do Ato Institucional número 5 (AI-5) em 1969, que o impediu de ser candidato a qualquer cargo eletivo por mais de dez anos. Era outra vez concorrente ao governo do Estado.

Sua episódica estada em Recife era para participar de debate eleitoral numa emissora de televisão. Vivia o ano de 1982. Ano de eleições gerais, de vereador a governador, menos à Presidência da República, o que só aconteceria em 1989.

Aluízio enfrentava especialmente o nome de José Agripino Maia (PDS), ex-prefeito biônico do Natal, engenheiro e filho do ex-governador Tarcísio de Vasconcelos Maia.

A poucos dias do pleito marcado para 15 de novembro, desabafa e justifica sua postura, sem esconder que teria uma derrota iminente. Justifica o sacrifício: “Eu preciso marcar posição”.

Pós-ditadura

Já sentado na cama, ele esclarece qual sua missão como provável derrotado: puxar o PMDB à formação de bancadas estadual e federal, manter espaço na oposição e trabalhar as condições políticas para um projeto nacional peeemedebista de conquista do poder, pós-ditadura.

Nas urnas, Aluízio foi derrotado por maioria de 106.352 votos, mas sua candidatura puxou a eleição de três dos oito deputados federais – Henrique Alves (seu filho), Antônio Câmara e Agenor Maia. Ensejou ainda a eleição de uma bancada com nove dos 24 deputados estaduais.

Quanto à única vaga ao Senado, acabou sendo eleito o radialista Carlos Alberto de Sousa (PDS), ligado a Agripino, enquanto que os concorrentes peemedebistas Roberto Furtado, Odilon Ribeiro Coutinho e Olavo Montenegro ficaram em segundo, terceiro e quinto lugares, respectivamente.

Eleições ao Governo do RN em 1982

José Agripino (PDS) – 389.924 (57,58%);
Aluízio Alves (PMDB) – 283.572 (41,88%);
Rubens Lemos (PT) – 3.207 (0,47%);
Vicente Cabral de Brito (PDT) – 441 (0,07%);
* Foram apurados 677.144 votos nominais (90,36%); 56.537 votos em branco (7,54%) e 15.717 votos nulos (2,10%), resultando no comparecimento de 749.398 eleitores.
* À ocasião, a legislação contabilizava os votos em branco no cômputo do quociente eleitoral para as eleições proporcionais, o que foi extinto em 1997.

Vencer Agripino e a máquina do estado era quase impossível. Um emaranhado de dispositivos casuísticos da legislação eleitoral foi feito também para impedir a ascensão oposicionista, em qualquer parte dos 23 estados da federação.

Os militares impuseram o instituto do voto vinculado (eleitor tinha que votar em candidatos do mesmo partido), a sublegenda (partido podia ter mais de um candidato para o Senado e prefeito). No pleito, não tinha ainda a prerrogativa de se formar coligação partidária.

O PMDB só possuía 13 prefeitos e menos de 40 vereadores no estado àquela ocasião.

Devido sua maior organização e estrutura no poder, o PDS “passou por cima” de Aluízio e seus candidatos. Porém a expressão “não ficou pedra sobre pedra” é inconsistente para o caso.

A história mostrou adiante que Aluízio estava certo ao “marcar posição”.

Em 1985 o PMDB venceu as eleições à Prefeitura do Natal (Garibaldi Filho), a primeira nas capitais brasileiras com disputa pelo voto direto desde o período de exceção iniciado em 1964; em 1986 ganhou o governo estadual com o ex-vice-governador Geraldo Melo e antes disso, pela via indireta, teve José Sarney (PMDB-MA) ascendendo à Presidência da República em 1995, com a morte do presidente eleito (no Congresso Nacional) Tancredo Neves (PP).

* No boxe constante dessa postagem, o Blog Carlos Santos reproduz a “Lambada do Tibúrcio”, ou “Melô do Tibúrcio”, como também é conhecida, composta e gravada pelo grupo paraense “Os Populares de Igarapé-Miri”, ainda na década de 1970, que se transformou na locomotiva musical da campanha de 1982 da campanha de Aluízio Alves.

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Categoria(s): Política / Reportagem Especial
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