domingo - 20/10/2019 - 05:40h
Dinheiro e voto

Empréstimo de Rosalba é cartada político-eleitoral decisiva

Negociação antes de nova disputa lembra tentativa frustrada dela, quando tentou reeleição em 2014

Por Carlos  Santos

A pouco menos de um ano das eleições 2020, quando vai enfrentar certamente o pleito mais difícil dos que participou à municipalidade, a prefeita Rosalba Ciarlini (PP) dá uma cartada decisiva no campo político-eleitoral: vai obter empréstimo “de até” R$ 150 milhões através do programa de Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento (FINISA) do Governo Federal, via Caixa Econômica Federal (CEF).

A mensagem com o Projeto de Lei de número 1214 de 15 de outubro de 2019 foi protocolada na Câmara Municipal de Mossoró no último dia 16 (quarta-feira) – veja AQUI. Impôs à Casa a apreciação da matéria em regime de “urgência”, para que possa investir os recursos logo nos primeiros meses de 2020.Com ampla maioria no Legislativo, é pouco provável que a prefeita tenha sobressaltos para aprovar a matéria já esta semana. Será do seu jeito.

Mas a justificativa para buscar tanto dinheiro extraordinário passa longe das mais primárias necessidades dos munícipes. Segundo a mensagem da prefeita, a dinheirama visa “dotar o Município de recursos para realização de importantes obras de infraestrutura urbana, com ênfase na pavimentação e saneamento além de construção e reformas de prédios públicos, a fim de melhorar a qualidade da prestação dos serviços públicos e de melhores condições de vida aos cidadãos mossoroenses”.

O empréstimo deve ensejar um elenco de obras físicas de grande visibilidade (calçamento a paralelepípedos e asfalto, principalmente), que não deixam de ter importância à vida dos munícipes, visto que cerca de 7% das vias urbanas são carroçáveis (segundo a própria prefeitura). Contudo conflita com um elenco de prioridades que a gestão da prefeita não tem conseguido atender, tornando-a pífia e sem uma marca capaz de projetá-la eleitoralmente. Eis a questão.

Empréstimo não alivia déficit

Mesmo com todo esse dinheiro em caixa, o governo municipal seguirá asfixiado financeiramente, inclusive comprometendo cotas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) para cobrir a dívida. Não deve ser esquecido que até hoje é questionado com base na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) – veja AQUI, quanto aos excessos de cargos comissionados.

A prefeita não fez o dever de casa para dar autonomia financeira ao município. Recusou-se a promover uma reforma administrativa e tomar decisões austeras, como prometeu em campanha, porque o empreguismo tinha que ser mantido como moeda política, em detrimento do administrativo-financeiro.

Rosalba apoiou Robinson e deixou empréstimo como "herança bendita" para ele, mesmo sem querer (Foto: arquivo)

A PMM tem dívida milionária com o Instituto Municipal de Previdência Social dos Servidores de Mossoró (Previ-Mossoró), servidores enfrentam problemas com empréstimos consignados, municipalidade tem reduzida capacidade de investimento, professorado reclama de não atendimento a direitos salariais, unidades de saúde pública convivem com desabastecimento de remédios e de outros insumos, bem como sucateamento estrutural e deficiências de equipamentos.

Várias obras com recursos federais podem ser paralisadas (veja AQUI) por falta de atendimento de algumas exigências (como contrapartida financeira), e a própria folha de pessoal é paga de forma fatiada, além de contabilizar impiedosos atrasos a terceirizados. Muitas pequenas obras de recuperação de praças, ruas e outros equipamentos públicos arrastam-se há meses, devido débitos com as terceirizadas.

Em sua propaganda institucional e personalista, o governo se jacta de estar alcançando um feito com a viabilização do empréstimo. Retrata um mundo de imaginação fértil. “A negociação com a Caixa representa o esforço em quitar dívidas e reorganizar as contas públicas, recuperando a capacidade de endividamento do município”, diz texto oficial.

Dinheiro bilionário

No dia 10 de julho de 2013, pouco mais de um ano antes do pleito de 2014, em que pensava na reeleição, a então governadora Rosalba Ciarlini (DEM, hoje no PP) obtinha do Senado votação favorável para empréstimo de 540 milhões de dólares (à época, o equivalente a mais de R$ 1 bilhão).

O empréstimo em muito se assemelha àquele encaminhado com o Banco Mundial, à época em que era governadora do RN (2011-2014), como grande aposta à sua reeleição, mas que ela não pode operacionalizar. Sequer conseguiu ser candidata, vetada por seu partido.

Virou herança “bendita” para o sucessor Robinson Faria (PSD), a quem Rosalba apoiou na campanha de 2014 como vingança contra o então deputado federal Henrique Alves (MDB), que concorreu ao governo estadual e era visto pelo rosalbismo como um dos mentores do veto à sua candidatura à reeleição pelo DEM.

A própria governadora atual, Fátima Bezerra (PT), reconheceu recentemente esse esforço de Rosalba para viabilizar recursos no Banco Mundial. Afinal de contas, chega à sua gestão (veja AQUI) o “bendito” empréstimo, mesmo que não consiga minimizar o monstruoso déficit fiscal (incluindo bilionário rombo previdenciário) do Estado, herança “maldita” da própria Rosalba e Robinson.

Patrimonialismo e obras

O dinheiro levantado para ser despejado justamente num ano eleitoral, é o sonho de qualquer político aboletado numa cadeira executiva. Qual oposicionista não gostaria de estar com esses meios à mão?

O problema é que essa dinheirada não resolve ou atenua qualquer dos graves problemas do mossoroense comum e do erário. Pode ser remédio político para salvar Rosalba, seu grupo e a vida de dezenas de pessoas que dependem de seu êxito eleitoral.

Dix-huit e seu irmão Vingt Rosado, pai de Sandra Rosado, em 1992 (Foto: arquivo)

Em 1992, espalhar obras (praças, calçamento e asfalto por toda a cidade) era a fórmula do rosalbismo para vencer o pleito municipal. “Se obra vencer eleições, nós venceremos”, chegou a afirmar o então deputado estadual Carlos Augusto Rosado (PFL, hoje no PP) ao jornal Gazeta do Oeste. Não deu certo.

Uma inusitada chapa ideológica apoiada por Rosalba – vice-prefeito Luiz Pinto (PFL)-professor João Batista Xavier (PCB) – acabou derrotada por Dix-huit Rosado (PDT)-Sandra Rosado (PMDB).  Placar de 37.188 (47,79%) a 32.795 (42,15%).

Maioria pró-Dix-huit Rosado/Sandra Rosado de 4.393 (5,64%) votos.

Rosalba e seu marido Carlos sabem (ô, como sabem!), que uma derrota em 2020 não será apenas seu fim político, mas colapso de um sistema patrimonialista que há décadas depende da política como meio de vida para si e os seus. É uma modalidade de meritocracia planificada para atender a poucos sobrenomes.

Sua legitimação acontece pelo voto de uma maioria feliz por poder botar os pés no calçamento à porta de casa, mas que só depois descobre que não tem direito a um simples Voltaren na Unidade Básica de Saúde (UBS) do seu bairro, segurança ou educação básica.

Essas nuances não aparecem em nenhum dos parágrafos do contrato de empréstimo com a CEF. Estão nas filigranas.

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Categoria(s): Política / Reportagem Especial
domingo - 09/06/2019 - 09:42h

Elite do atraso

Por Odemirton Filho

A leitura do livro de Jessé Souza, que tem o título deste artigo, leva-nos a refletir sobre uma nova abordagem que autor faz sobre temas recorrentes no meio intelectual e acadêmico.

Temas como patrimonialismo, populismo, homem cordial e jeitinho brasileiro são abordados noutra perspectiva, fazendo-nos sair do quadrado que estamos acostumados a ficar.

Segundo o autor, o patrimonialismo tem em Marx Weber o seu expoente, tendo bebido na fonte Weberiana alguns de nossos intelectuais, a exemplo de Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda.

Conforme discorre, Weber pensou a dinâmica interna às esferas sociais, ou seja, a esfera social responsável pela política que se articula e define enquanto tal a partir do peso relativo da relação triádica entre o líder, o quadro administrativo e os dominados.Por outro lado, para Faoro, o patrimonialismo é engendrado em um estamento incrustado no Estado – a tal elite, como se ela estivesse até hoje no Estado, e não no mercado, o qual se apropria do aparelho de Estado e usa o poder deste de modo a assegurar a perpetuação de seus privilégios.

O populismo, tema caro nos debates acadêmicos, segundo o autor, se disfarça de leitura crítica da manipulação das massas, aparentemente em favor de uma organização consciente delas, assumindo o controle do próprio destino.

Para Jessé Souza o termo populismo é usado de forma a obscurecer quem, efetivamente, luta pelas demandas legítimas da classe social menos favorecida, com o objetivo de diminuir a desigualdade social que há muito grassa em nossa sociedade.

Em relação ao homem cordial, abordado por alguns de nossos intelectuais, seria típico de nossa sociedade, porquanto forjada na herança cultural lusitana.

Em razão desse legado estaríamos fadados a ser um povo com base em relações de afetividade, paixão ou sentimento, nascendo daí o jeitinho brasileiro.

Há, entretanto, outros aspectos abordados na mencionada obra.

O autor considera a classe média como o capataz moderno da elite ou uma verdadeira tropa de choque, sendo usada pela elite para legitimar os interesses dessa.

Enquanto a elite detém o capital econômico, a classe média possui o capital cultural, destilando ódio e preconceito contra a “ralé de novos escravos”, ou seja, as classes menos abastadas.

Todavia, sem adentrar em algumas questões suscitadas, é inegável a segregação econômica e social vivenciada pela maioria da população brasileira ao longo do tempo.

O Brasil tem sua linha social delimitada pela Casa Grande e Senzala, sobrados e mucambos e, atualmente, pelos condomínios e favelas.

Não se nega que há corrupção nos diversos níveis de poder do Estado, vicejando privilégios para poucos.

Contudo, a corrupção não é praticada somente por alguns políticos, como ressalta o autor. Há uma corrupção que se encontra invisível, que coordena e manipula a opinião pública em seu favor: o mercado de capital.

Vale acrescentar, um verdadeiro “mecanismo” que age de forma articulada, conforme uma série apresentada por uma provedora global de filmes.

Essa elite, que talvez represente 1% por cento da sociedade brasileira, usufrui do capital, vivendo à custa de rentismo e juros extorsivos.

Se é certo que não se pode criminalizar a elite do capital econômico que produz riqueza, gerando empregos e renda, não se pode fechar os olhos, por exemplo, para os dividendos exorbitantes de acionistas de grandes empresas que, sequer, são taxados.

É de se indagar: somente existe corrupção na classe política? Quando o presidente da República compartilhou um texto nas redes sociais sobre ser o país ingovernável, em face dos interesses corporativistas e em razão dos conchavos, a quem estava se referindo? Somente aos políticos?

Portanto, para o citado autor, “o patrimonialismo aponta o dedo acusador apenas às elites aparentes, ligadas ao Estado, mas que no fundo só fazem o trabalho sujo da verdadeira elite do dinheiro, que manda no mercado e permanece invisível”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 17/09/2017 - 09:42h

A hora do espanto

Por Paulo Linhares

As grandes mudanças políticas ocorrem mais pelos desacertos entre membros da elite governante do que a partir da tradicional noção de que “as massas fazem a História”.

No Brasil, desde o período colonial, construiu-se e se consolidou ao longo de séculos um sistema político de forte base patrimonialista, tendo como característica marcante a relação de dependência das lideranças políticas em face dos detentores do capital, o “patronato brasileiro”, tudo para contextualizar graves vícios que vão do enriquecimento de grupos empresariais às custas do Estado, o desrespeito generalizado ao patrimônio público, alvo de vultosas expropriações privadas, ao abuso do poder econômico e político que materialmente ilegitima a representação políticas nos diversos níveis de governo.

Aliás, parece ser este um padrão seguido, em graus variados, por países outros da América Latina. No entanto, nas duas últimas décadas o Brasil tem sido cenário de crise causada pela revelação intensa das “tenebrosas transações” entre lideranças políticas, autoridades públicas e os grandes grupos econômicos sempre nutridos à sombra do Estado.

A partir de duas reflexões fundamentais para  compreender este país que, coincidentemente, vieram a lume no mesmo ano de 1958: a de Celso Furtado, no clássico Formação econômica do Brasil, e a de Raymundo Faoro, na obra não menos renomada Os donos do poder, é possível entender o que se passa atualmente.

Essas visões interpretativas da sociedade brasileira se completam. Enquanto Furtado busca as raízes dos problemas que entravam o desenvolvimento do Brasil, a partir da análise dos ciclos econômicos que perpassam cinco séculos da História brasileira, Faoro mostra que a formação do Estado patrimonialista, no Brasil,  deita raízes no período colonial, quando foram transpostas para a colônia a corrupção e estrutura burocrática do Estado absolutista português, algo que a sociedade brasileira não conseguiu superar, contrariamente do que ocorreu em outros países de formação assemelhada. E o patronato brasileiro foi gestado no seio das estruturas de poder colonial, se desenvolveu e vive sob o pálio do Estado.

Ora, o desenvolvimento brasileiro marcado, ainda, por profundas desigualdades sociais e regionais, produz o Estado patrimonialista que tem como insuperáveis vocações uma exacerbada estrutura burocrática e a sua irmã siamesa, a corrupção que aparece sob múltiplas formas, muitas das quais vestidas de engenhosos disfarces formais: quando Pero Vaz de Caminha, o escrivão-mor da frota comandada por Pedro Álvares Cabral, redigiu a famosa carta ao rei português, Dom Manuel, o Venturoso, inseriu nesse documento, que é a certidão de nascimento do Brasil atual, um infame parêntesis para rogar a El-Rei que conseguisse empregos para dois de seus sobrinhos. E isso inaugurou a prática do nepotismo, por estas bandas, uma das modalidades de apropriação do público pelo privado.

Aliás, isso se assemelha àquele argumento de servidores públicos encastelados em postos relevantes da burocracia estatal, onde auferem alguns privilégios imorais que classificam apenas como “legais”, como se o carimbo da legalidade fosse suficiente para resolver a questão.

É maldita, sem dúvida, a herança do Estado patrimonialista, excessivamente burocrático, corrupto e anti-republicano que as gerações presentes receberam. E por mais que dê aparência  de conformação modernizada, a exemplo da adoção de mecanismos eletrônicos de governo (e-Government) ou mesmo de alguns elementos de governança pública, a feição patrimonialista do Estado se alastra perigosamente, aliada a arranjos superestruturais iníquos como é o caso das diversas ‘promessas, consignadas no texto generoso da Constituição (do tipo, “A saúde é direito de todos e dever do Estado…,” “A educação, direito de todos e dever do Estado…”, “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional…”  etc.), incapazes de realização nos marcos da estrutura econômica e social vigente.

Inegável que essas consignas não deixam de ser legítimas, porquanto o espírito da Constituição – se é que tem um! – finda sendo o desejo da felicidade social, embora cada ideologia política agasalhe um modo próprio de atingir esse objetivo e noutros casos até mesmo no que consistiria essa felicidade. E esses ‘programas’ político-ideológicos (que se transformam nas tais “normas programáticas”, em sede constitucional) são, em grande medida, descoladas da realidade e como tal irrealizáveis.

Nas asas de qualquer das modalidades de populismo – aqui genericamente entendido como práticas políticas que não se preocupam com o bem-estar coletivo nem com o progresso de um país, mas, objetivam apenas conseguir a aceitação popular para aquisição e permanência no poder, inclusive, com desprezo às instituições democráticas e republicanas – essas propostas se transformam em belas antevisões de paraísos e utopias que não resistem ao mais leve sopro de realidade.

Esta reflexão ligeira (para não sair da bitola estreita das redes sociais…) decorre a perplexidade generalizada que causa a marcha dos acontecimentos políticos, no Brasil, em que uma avalanche de casos graves de corrupção vem sepultando os princípios partidos, destacadas autoridades públicas e lideranças políticas brasileiras de todos os credos da política, tendo como consequências o enfraquecimento de algumas instituições republicanas que têm esteio na soberania popular e o indesejável empoderamento de outras que, numa forma sofisticada de populismo, se arvoram de guardiães da moralidade pública e defensoras dos supremos interesses da nação quando, em verdade, não passam de biombos usados por uma poderosa aliança de corporações de servidores das carreiras jurídicas  do Estado, que não têm origem no voto popular,  para se impor como força hegemônica no comando do aparelho de Estado. E Isso cheira mal.

O Brasil vive um pesadelo de suas instituições jurídico-políticas, a sua  terrível e  particular “hora do espanto”.

Paulo Linhares é professor e advogado

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Categoria(s): Artigo
segunda-feira - 18/01/2016 - 16:06h
Prefeito de Mossoró

Tudo muito mais difícil

O prefeito mossoroense Francisco José Júnior (PSD) vive um momento difícil, que tem relação direta com escolhas feitas lá atrás.

Priorizou o patrimonialismo;

Deixou a gestão pública em segundo plano;

Agora corre atrás do político.

Equação difícil.

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Categoria(s): Política
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quinta-feira - 27/08/2015 - 08:57h
Nosso tempo

A luz no fim do túnel e o túnel roubado

Vivemos um período de pobreza de nomes na política.

De Mossoró a Brasília.

Pouca gente revela espírito público.

Os nomes mais graduados que aparecem e, os antigos, são siamês em sua natureza política e modus operandi.

Temos uma manada de gente arrogante, patrimonialista e de comportamento cesarista.

Fica difícil encontrar uma saída, uma luz no fim do túnel.

Pelo visto, roubaram o próprio túnel.

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Categoria(s): Opinião da Coluna do Herzog
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