sábado - 03/07/2021 - 23:02h
Domingo, 4

Missa de 30º dia de Paulo Roberto de Menezes

Missa de 30º Dia de Paulo Roberto de Menezes - 04-07-21Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI e Youtube AQUI.

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Categoria(s): Gerais
domingo - 06/06/2021 - 13:08h

Éramos felizes!

praia, litoral, areia da praia, beira-marPor Odemirton Filho 

Acordávamos pertinho das cinco horas da manhã, os raios de sol começavam a lumiar o dia. Eu levantava-me com uma preguiça danada, mas não podia perder a “aventura”. Os meus primos mais velhos iam pegar passarinhos em Tibau. Menino inventa qualquer motivo para sair de casa e ficar brincando pelas ruas, nas casas dos familiares e vizinhos.

Chegando ao local escolhido, meus primos armavam o alçapão. Ficávamos à espreita. Aqui ou acolá conseguíamos pegar um cabeça-vermelha, um Golinha, um Azulão ou, o pássaro mais cobiçado, uma Graúna. Às vezes não conseguíamos. Uma tristeza. Não tínhamos medo da Polícia. No outro dia estávamos lá, de novo, cometendo mais um crime ambiental. Éramos crianças. Não existia o Estatuto da Criança e do adolescente, nem pensávamos nisso.

Outras vezes, ainda no arrebol, íamos à praia. Cavávamos um buraco na areia e colocávamos os caranguejos para brigar. Depois, tomávamos banho de mar. A água gelada doía nos couros. Também gostávamos de ir pescar lá na pedra do chapéu ou apanhar búzios. Ficávamos “tostando no sol” boa parte da manhã, grudentos de sal e areia. Jogávamos bola, muita bola. De vez em quando um menino pisava no ferrão de um bagre. Era uma dor dos diabos.

Houve uma época na qual a moda dos meninos era andar de jumento na cidade pra lá e pra cá. Como não tinha habilidade para “laçar” algum jumento na rua, meu pai comprou um para mim. Eu andava puxando o bichinho, como se fosse um cachorro. Minha alegria durou pouco, pois o arisco do jumento fugiu. Contentei-me, então, em brincar com os cachorros da casa.

À tardinha íamos ao morro do labirinto, brincar de esconde-esconde e jogar pedras de areia uns nos outros. Pense numa brincadeira sadia? Um bocado de primos, sujos e suados. Ficávamos por lá até a boquinha da noite e depois íamos à “casa do morro”, como chamávamos a casa dos nossos avós. Comíamos pão, molhando na sopa. Quanta saudade de vó Placinda e Vô Vivaldo.

Quando em vez íamos ver as jangadas, com suas velas brancas, retornando do alto-mar. Achava bacana a jangada deslizando lentamente sobre as águas, até bater na areia da praia. Na maioria das vezes trazia uma ruma de peixes, fresquinhos. Algumas pessoas compravam, ali mesmo, os peixes de seu agrado. Também ali, na beira do mar, conheci o velho pescador Tidó.

Às vezes, depois de lavarmos o alpendre lá de casa, ficávamos deitados no chão frio, conversando “conversas de criança”, e comendo a polpa dos cocos tirados do nosso quintal. Esperávamos o bolo de leite ou fofo sair do forno, quentinho, quentinho. Era a paga pelo nosso trabalho. E, claro, aguardávamos o menino passar na rua vendendo grude. Sempre havia um café fumegante, preparado por nossa querida Socorro. Eu tomava era leite Alimba com achocolatado.

Gostava de ir comprar umas revistas em quadrinhos num prédio localizado na rua principal, próximo ao restaurante Brisa. Às vezes ia fazer uma ligação no Posto da Telern para o meu pai em Mossoró, a fim de que trouxesse alguma coisa que minha mãe pedia. Há alguns anos as ruas de Tibau não eram calçadas. Andávamos com os pés descalços. Uma camisa e um calção “surrados” estavam de bom tamanho. Conhecíamos cada rua, cada viela, cada beco da cidade.

À noite, no alpendre, deitávamos nas redes. Os mais velhos gostavam de contar histórias mal-assombradas. Quase sempre faltava energia, eu me agarrava com um lençol velho, cheirando a guardado. As mãos ficavam geladas e os olhos arregalados. Assistir à televisão era peleja medonha. Colocávamos um pedaço de Bombril na antena para melhorar a imagem, pois o sinal de transmissão não era lá essas coisas. Não, não existia antena parabólica, gentil leitora.

Eu ficava ansioso pelo final de semana para que o meu pai nos levasse à praia, para passear no seu Jipe azul. Sentíamos o cheiro da maresia e a brisa batendo no rosto. Quando tinha alguma bebedeira no alpendre da minha casa ouvia o meu pai cantar “O Calhambeque”, de Roberto Carlos, acompanhado pelo violão do meu saudoso tio Albeci, da Banda Bárbaros. Ainda hoje, graças a Deus, tenho o privilégio de, aqui ou ali, ouvir o meu velho pai soltar a voz, cantando a sua música preferida.

Eu vejo-me, caro leitor, pela praia, açodado, com dinheiro na mão para comprar um picolé, mergulhando no mar, fazendo um castelo de areia ou deitado em uma pocinha d’água. Ainda tenho, como lembrança daquele tempo, uma cicatriz no pé, fruto de um corte, quando brincava na areia “pegando fogo”. Nem ligava. O importante era brincar, brincar, brincar…

Enfim.

Foram doces momentos. Momentos de uma família como qualquer outra, com virtudes e defeitos. Eram as “curtições” das nossas férias. Crianças que brincavam, aprontavam, levavam umas chineladas, choravam e sorriam. São retalhos de um tempo recheado de saudades.

Ah, como éramos felizes. E não sabíamos.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

P.S. – Perdemos Paulo Menezes (veja AQUI e AQUI) e as suas belas crônicas, simples e verdadeiras. Infelizmente, não deu tempo tomarmos um café e prosear. As abelhas, certamente, levaram a sua alma para o céu. Enquanto Deus nos permitir, Paulo, continuaremos por aqui escrevendo crônicas, que são frutos d’alma.

O nosso time ficou desfalcado. Perdemos um excelente esgrimista das palavras. “O Nosso Blog” sentirá a sua falta. Muita.

Como sei de sua paixão por Tibau, Paulo, a crônica de hoje é em sua homenagem. Deus o acolha. Eternamente.

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 06/06/2021 - 04:14h

Vivendo um pesadelo

Paulo Menezes olhando o marPor Paulo Menezes

Estou hoje, recolhido no meu “cantinho”, na praia do meio, em Natal. Isolado do mundo. Diferente de tantas outras vezes, em que do meu pequeno,  porém aconchegante apartamento, me mostrava um cenário de uma beleza sem par.

Ao fundo a ponte Newton Navarro, o estuário do rio Potengi e a beleza do majestoso oceano, que em dias ensolarados, como hoje, limpava a vista, extasiado com a beleza da cor verde azulada do sagrado mar.

Só que hoje, o que vejo é um cenário totalmente diferente. Triste, interrogativo e indefinido. Mesmo assim, esperançoso, pois sou um homem de fé.

É que apesar de ter tomado duas doses da vacina para a Covid-19, o cuidado de sempre usar dupla máscara, preocupado com o distanciamento social, até por pertencer ao grupo de risco, para minha surpresa, após um exame laboratorial, na tarde de hoje (sexta-feira, 6), testei positivo para  a horrível praga.

Como a viagem não estava prevista, fui convocado de última hora por meus filhos e noras em caráter de emergência, alegando os mesmos que aqui teriam mais condições de me darem uma assistência maior. E é o que tem ocorrido.

Nessa mudança de endereço, que com a graça de Deus, creio, será temporária, deixei em Mossoró, meus livros de cabeceira, que nessas horas difíceis, serve como um verdadeiro bálsamo para o espírito. “Dias de Domingo” e “Veredas do meu Caminho” do mestre Dorian Jorge Freire, que segundo o professor Vingt-Um Rosado, era o gênio da raça mossoroense.

Esses companheiros que sempre conduzo comigo, no atropelo da viagem, deixei na terrinha e está me fazendo muito falta. Mas, como dizia no início dessa narrativa, hoje o que se apresenta para mim é um misto de dúvida e interrogação. A doença é cruel e traiçoeira.

Entra em nossa vida sem pedir licença, para infernizar nossos dias e nos privar de ver nossos entes mais queridos, razão maior de nossa vida nos dias atuais.

Deus, me deu a graça de ter Simone, minha companheira há 57 anos, dois filhos maravilhosos, duas noras admiráveis e quatro netos que todo avô gostaria de ter. Por isso mesmo, tendo a família formidável que tenho, acometido da terrível doença, me vejo questionando sobre a vida.

E sobre o tema, alguém usando o anonimato afirmou que: “A vida é imprevisível e é isso que a torna bonita. Não podemos saber o que o futuro reserva, portanto, tudo é possível. Não somos a mesma pessoa a cada acontecimento em nossa vida. Nos reinventamos constantemente depois dos tropeços, das dores, das feridas, dos dissabores, buscando na fé e na vontade de seguir, um motivo a mais para continuar nossa caminhada”.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

Nota do Blog – Vai dar tudo certo, Paulo! Estamos todos na torcida e na fé!

Amém!

*Crônica (e Nota do Blog) publicada no dia 9 de maio último (veja AQUI), quando o autor revelou estar com a doença que acabou provocando sua morte no dia passado (veja AQUI). É uma singela homenagem do Nosso Blog, local que abrigou inúmeras crônicas e artigos seus.

Descanse em paz, Paulo.

Veja AQUI série de textos publicados por Paulo Menezes em nossa página.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 09/05/2021 - 05:18h

Vivendo um pesadelo

mar e sol, águas do mar, oceano,Por Paulo Menezes

Estou hoje, recolhido no meu “cantinho”, na praia do meio, em Natal. Isolado do mundo. Diferente de tantas outras vezes, em que do meu pequeno,  porém aconchegante apartamento, me mostrava um cenário de uma beleza sem par.

Ao fundo a ponte Newton Navarro, o estuário do rio Potengi e a beleza do majestoso oceano, que em dias ensolarados, como hoje, limpava a vista, extasiado com a beleza da cor verde azulada do sagrado mar.

Só que hoje, o que vejo é um cenário totalmente diferente. Triste, interrogativo e indefinido. Mesmo assim, esperançoso, pois sou um homem de fé.

É que apesar de ter tomado duas doses da vacina para a Covid-19, o cuidado de sempre usar dupla máscara, preocupado com o distanciamento social, até por pertencer ao grupo de risco, para minha surpresa, após um exame laboratorial, na tarde de hoje (sexta-feira, 6), testei positivo para  a horrível praga.

Como a viagem não estava prevista, fui convocado de última hora por meus filhos e noras em caráter de emergência, alegando os mesmos que aqui teriam mais condições de me darem uma assistência maior. E é o que tem ocorrido.

Nessa mudança de endereço, que com a graça de Deus, creio, será temporária, deixei em Mossoró, meus livros de cabeceira, que nessas horas difíceis, serve como um verdadeiro bálsamo para o espírito. “Dias de Domingo” e “Veredas do meu Caminho” do mestre Dorian Jorge Freire, que segundo o professor Vingt-Um Rosado, era o gênio da raça mossoroense.

Esses companheiros que sempre conduzo comigo, no atropelo da viagem, deixei na terrinha e está me fazendo muito falta. Mas, como dizia no início dessa narrativa, hoje o que se apresenta para mim é um misto de dúvida e interrogação. A doença é cruel e traiçoeira.

Entra em nossa vida sem pedir licença, para infernizar nossos dias e nos privar de ver nossos entes mais queridos, razão maior de nossa vida nos dias atuais.

Deus, me deu a graça de ter Simone, minha companheira há 57 anos, dois filhos maravilhosos, duas noras admiráveis e quatro netos que todo avô gostaria de ter. Por isso mesmo, tendo a família formidável que tenho, acometido da terrível doença, me vejo questionando sobre a vida.

E sobre o tema, alguém usando o anonimato afirmou que: “A vida é imprevisível e é isso que a torna bonita. Não podemos saber o que o futuro reserva, portanto, tudo é possível. Não somos a mesma pessoa a cada acontecimento em nossa vida. Nos reinventamos constantemente depois dos tropeços, das dores, das feridas, dos dissabores, buscando na fé e na vontade de seguir, um motivo a mais para continuar nossa caminhada”.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

Nota do Blog – Vai dar tudo certo, Paulo! Estamos todos na torcida e na fé!

Amém!

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 02/05/2021 - 09:46h

De pai para filho

Pai e filhoPor Paulo Menezes

Parece que foi ontem. E já se passaram 50 anos. Era o mês de junho de 1970.

Pelé, encantava o mundo em Guadalajara e na Cidade do México, com seu futebol majestoso disputando e vencendo a Copa do Mundo, que o consagraria definitivamente em todo o planeta terra.

Nossa televisão, ainda em preto e branco, trazia para assistir aos jogos e torcer conosco, nosso vizinho, meu querido e saudoso pai Antônio Menezes (Tota).

Estávamos à sua espera há oito meses. Após o resultado triunfal da Copa, a vida seguia sua trajetória incessante e com ela a grande e ansiosa expectativa para o nascimento do primogênito.

Dia primeiro de agosto, houve uma grande festa no clube social, Associação Cultural e Desportiva Potiguar (ACDP), tendo como principal atração a presença do caboclinho querido do Brasil, Sílvio Caldas. Dançamos, eu e sua mãe (Simone), praticamente a noite toda, madrugada adentro. A farra, com certeza, antecipou o parto, pois você nasceu no dia seguinte, 02 de agosto de 1970.

O tempo passava rápido.

O primeiro choro, os primeiros passos, as primeiras palavras, a alfabetização no Colégio Dom Bosco, depois  o  ginásio no Colégio Diocesano Santa Luzia, sequenciando com a conclusão do segundo grau no Colégio Marista em Natal. Partiu para a capital, com 13 anos. Uma criança!

Em Mossoró, sentíamos muito sua falta e uma imensa saudade. Naquele tempo,  Natal era “distante”.  Lembramos das transferências constantes de numerário para as xerox do material escolar. Na verdade, depois viríamos a saber que parte da mesada para as cópias, servia também para, em finais de semana, tomar umas cervejas com amigos, no bar “O Chefão”.

Chegou o grande dia do vestibular. Recordamos sua saída do Cefet, balançando a cabeça, mordendo a caneta BIC, descontraído e dizendo:

– Tudo bem.

O resultado, saiu quando estávamos na varanda da casa de veraneio da família, em Tibau. A esperança era grande. Você encostado numa coluna do alpendre, garrafa de cerveja na mão e o grito de vitória quando o locutor leu seu nome! Os abraços pela conquista. Um sonho realizado. A velocidade do tempo é relativa.

Testemunhamos o dia da graduação em engenharia elétrica. Orgulho para toda a família. A vida prosseguia seu curso permanente. Sua primeira atividade empresarial. Seu primeiro emprego. A transferência para Natal e o coroamento de sua vida profissional, incluindo no seu currículo, a aprovação num concorrido concurso público.

Antes um pouco, tornou-se senhor ao escolher para companheira, nossa querida nora Karine. Chegaram os filhos com açúcar. Os netos que nos tornaram novamente pais com uma responsabilidade menor. Por isso são doces.

Enfim, após resgatar tantas lembranças boas armazenadas na memória amiga e como nossos filhos “nunca envelhecem”, só resta agradecer ao Divino Mestre, e pedir que continue protegendo “meu menino” de 50 anos para os embates da vida.

É para você, Sílvio Walério. Meu filho.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
sexta-feira - 30/04/2021 - 15:20h
Domingo, 2

Ney Lopes estreará no Blog Carlos Santos

Ney: Revolução do Liberalismo Social (Foto: arquivo)

Ney vai abordar a “A revolução do Liberalismo Social” na sua chegada ao Nosso Blog (Foto: arquivo)

Quem vai estrear em Nosso Blog no domingo (2) é o advogado, jornalista e ex-deputado federal Ney Lopes.

Abordará o tema “A revolução do liberalismo social”. Está supimpa. Meninos, eu vi!

Reforçará nosso time que já tem uma turma ótima. E chegando mais.

No domingo passado, a estreia foi do escritor e procurador federal Marcelo Alves.

Com eles, gente há mais tempo conosco dominicalmente, como Paulo Menezes, Odemirton Filho, Honório de Medeiros, Josivan Barbosa, Marcos Pinto, François Silvestre, Eduardo Cavalcanti, Phabiano Santos, Paulo Linhares, Gutemberg Dias, Marcos Araújo e Zildenice Guedes.

Mais recentemente, a chegada de Marcos Ferreira e Lúcia Rocha.

Além dos bissextos David Leite e Francisco Edilson Leite Pinto Júnior.

Esses estão devendo, que se diga, ora!

Domingão promete.

Até lá!

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Categoria(s): Artigo / Comunicação / Política
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domingo - 25/04/2021 - 10:00h

Assim, de repente, volto a Martins

Matriz de Nossa Senhora da Conceição em MartinsPor Paulo Menezes

Diz a sabedoria popular que a vida é curta e o mundo é pequeno. Estou na praia de Pirangi do  Norte, reunido com filhos e netos, na comemoração de aniversário do dileto amigo José Fernandes, esposo de dona Vânia Pinto. Meu  vizinho de mesa era alguém que, acho, conhecia, não sabia de onde.

Entre uma dose e outra, conversa vai, conversa vem, nos apresentamos. Eu, um saudosista obstinado. Ele se apresenta como José Câmara Filho. Aí não me contive :

– Não me diga que seu pai foi coletor federal em Martins nos anos sessenta!

Após a afirmativa, a lembrança chegou rápida. Pois foi nesse tempo que minhas férias escolares eram gozadas na fria e encantadora Serra de Martins. O “hotel” era a casa do meu tio, corretor de algodão em pluma naquela cidade. O “misto” de Edivaldo era o transporte que nos conduzia até ao destino.

Partíamos de Mossoró na madrugada e chegávamos à serra por volta de meio dia. Saíamos de um clima de trinta e cinco graus para a amenidade dos vinte. A subida da serra era uma aventura. A estrada, carroçável, com muitas curvas e abismos a se perderem de vista, era um misto de temor e beleza.

A festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade, era comemorada no final de dezembro até os primeiros dias de janeiro. Muito animada, com direito a parque de diversão, jogos de roleta, bozó, tiro ao alvo, barraca, quermesse, leilão, novena, banda de música e ciranda de fogos.

Zé Câmara, na época, a pessoa mais importante da cidade. Mais do que o padre, o juíz e o delegado. Era ele quem organizava o campeonato de voleibol, os bailes no Centro Lítero Esportivo Martinense (CLEM), a festa da padroeira, os encontros culturais, enfim, era o “cara”.

Passamos o filme de longa metragem sobre aquele tempo maravilhoso.

Recordamos das visitas aos mirantes do Canto e da Carranca, da Casa de Pedra, da Fonte da Bica, das trilhas percorridas. Foi muita prosa pra pouco tempo.

O filho de Zé Câmara e o novo amigo que acabara de conhecer era a cara do pai. Falou que seu genitor foi coletor por curto período em Mossoró quando saiu de Martins e antecedeu a “Chico de Lalá” na coletoria da Capital do Oeste.

Lamentei não ter lhe encontrado nessa época. O fato é que, sem querer nem está programado, relembrei mais uma fase importante da minha vida.

Tempos bons que foram lembrados num dia agradável com enorme prazer e imensa saudade.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/04/2021 - 11:20h

Haja água, haja água!!!

Por Paulo Menezes

O fato ocorreu no ano de 1985. Tempo de chuva intensa em todo nordeste, muito acima da média histórica. Em Mossoró não foi diferente. A zona ribeirinha totalmente alagada, desalojando e desabrigando grande parte da população mossoroense.

Os bairros ilha de Santa Luzia e  grande Alto de São Manoel ficaram isolados da cidade. Os munícipes em sua totalidade estavam apreensivos com notícias dando conta de mais chuvas no Alto Oeste, que desaguariam no leito já comprometido do rio Apodi/Mossoró.

Enchente de 1985 em Mossoró - Bradesco, Rua Santos Dumont com Vicente Saboia, CentroO comércio do centro da cidade, com suas portas fechadas, causavam aos comerciantes muitas preocupações e grandes prejuízos.

Na época, eu era funcionário do Banco do Nordeste com função de chefia, responsável pela tesouraria da agência. Com a elevação considerável do nível do rio, a unidade bancária foi totalmente inundada.

Tivemos então que transferir todo o dinheiro existente na caixa-forte, em malotes, para o Banco do Brasil. A canoa foi o transporte utilizado para levar o numerário de uma para a outra agência.

As chuvas, tão desejadas e esperadas pelo sertanejo, foram naquela quadra invernosa motivo de aflição para todos os habitantes da terra de Santa Luzia.  Com apenas uma exceção: no percurso fluvial conduzindo o dinheiro entre os estabelecimentos de crédito, em meio à tragédia, surgiu o cômico.

NAVEGANDO NA CORRENTEZA DO RIO, deitado numa câmara de ar, imensa, girando em torno de si mesmo, aparece a figura folclórica de João Fernandes. Comerciante muito querido, de grande conceito na cidade, muito equilibrado nas finanças, mas como já descrito por esse escrevinhador de província, em outros relatos (veja AQUI), muito presepeiro quando em farras semanais.

Ao cruzar com nossa embarcação, tomando uns goles de cachaça na boca da garrafa, só vivo, olhos já bastante vermelhos, nos fitando com um largo sorriso e indiferente à calamidade, João repetia sem parar:

– Haja água, haja água…

De repente, o que era uma travessia tensa, por motivos óbvios, acabou se transformando numa viagem divertida.

– Haja água, haja água!!

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 11/04/2021 - 15:30h

O escrivão de polícia, direto do “Boteco do Pituca”

Telefone antigo, telefone com discadorPor Paulo Menezes

Havia em Mossoró, num tempo a perder de vista, uma figura hilariante e pitoresca de nome Odílio Pinto. Apesar do clima da terrinha ser constantemente abrasador, Odílio era visto sempre em conversas amistosas com amigos comuns, de paletó, gravata borboleta, chapéu de massa. Quase sempre, também, com um cigarro de palha no canto da boca.

A rotina era de constante diversão. Os participantes das rodas de bate-papo tinham a garantia de uma conversa leve, descontraída e de muitas gargalhadas, graças ao jeito brincalhão do amigo. Dominava os encontros por ser, além de alegre, muito espirituoso.

Auxiliado por Waldir Uchôa e Valdeci dos Santos (Vavá do Banco do Nordeste), era o principal apresentador, na Rádio Difusora, de um programa político bem humorado, de grande audiência, denominado “Boteco do Pituca”.

O pico de ouvintes se dava com a proximidade dos pleitos eleitorais.

Radialista nas horas vagas, seu trabalho primeiro, no entanto, era de escrivão da Polícia Civil. E na sua atividade de servidor da segurança pública, Odílio Pinto não cumpria outro papel. Simplificando: não tinha outra cara e jeito de ser. A verve era a mesma.

No seu ofício na delegacia, ao receber o depoimento do participante de uma briga entre “amigos”, telefonou para o hospital com a finalidade de saber como estaria o outro contendor. A informação preliminar era de que tinha saído muito ferido à faca.

– Aqui quem fala é Odílio Pinto, da delegacia. Gostaria de saber o estado de saúde de um cidadão que levou 6 cutiladas de faca peixeira na noite de ontem.

Da recepção do nosocômio lhe informaram que o paciente estava “passando bem”. Isso mesmo: “Passando bem”.

Odílio, com seu humor e grande presença de espírito, retrucou:

– Não acredito de jeito nenhum. Eu não levei nenhum arranhão e não estou passando bem, quanto mais um infeliz que está aí todo esfaqueado.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/04/2021 - 08:46h

O sabor colorido de Geraldo Azevedo

O cronista/meliponicultor e o artista encantado com o doce mel (Foto: arquivo do autor)

O cronista/meliponicultor e o artista encantado com o doce mel (Foto: arquivo do autor)

Por Paulo Menezes

As emoções muitas das vezes são grandes e inesquecíveis. Principalmente,  como dizia o mestre Dorian Jorge Freire, “quando  é muito maior o sentimento trágico do mundo e muito menor a resistência às emoções”.

A foto que ilustra essa crônica marca uma dessas emoções. O cantor, compositor e musicista Geraldo Azevedo em passagem por Mossoró para cumprir contrato de show artístico,  acabou nos fazendo uma visita. Esteve no Meliponário Monsenhor Huberto Bruening, instalado em nossa residência.

Esteve presente toda uma manhã em nossa companhia, numa prosa muito agradável e descontraída querendo saber detalhes  com muita curiosidade sobre o manejo da abelha jandaira.

Na oportunidade, Geraldo Azevedo falou que ao admirar aquele ambiente bucólico numa região urbana, todas aquelas colmeias dispostas sob as árvores, voltava no tempo. Relembrava passado distante e feliz vivido por ele em sua Petrolina-PE, no sítio de seus pais.

Um pouco antes da espetacular exibição musical, à noite, em seu camarim, a conversa continuou animada, ainda sobre abelhas e natureza, regada a um bom vinho. Em sua alta performance, o espetáculo ia se desenrolando com grande participação de inúmeros admiradores que superlotavam as dependências do teatro em festa. Ele nunca decepciona com sua arte.

Foi quando senti então um novo abalo emocional, no momento em que o grande astro da Música Popular Brasileira dedicou a esse meliponicultor a música “Sabor colorido”, cuja letra tem tudo a ver com árvores, abelhas, flor e mel.

Durante o show que brindou os presentes ao Teatro Municipal Dix-huit Rosado, ele fez um relato pormenorizado de sua visita à nossa casa na manhã daquele dia. Dando sequência a turnê que realizava pelo Nordeste, quando de sua apresentação no Teatro Riachuelo em Natal, prestou idêntica homenagem ao nosso nome.

Dessa visita e homenagens nasceu uma grande amizade que perdura até os dias de hoje e da qual muito nos honra.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 21/03/2021 - 11:04h

“O Touro”, “o Capim” e o quase apoio de Quincas Bem

Campanha política nos anos 60, em MossoróPor Paulo Menezes

Vez por outra me vem à lembrança a figura estimada de João Fernandes, cidadão de bem, comerciante importante, muito equilibrado financeiramente, querido por todos e muito conceituado em toda cidade de Mossoró.

Ocorria que em finais de semana, principalmente, gostava de tomar “umas e outras” e quando bebia, era o rei das presepadas. Nos bares por onde andava, ao  ser atendido pelo garçom sempre pedia “seis abertas”.

Seus companheiros de farra mais frequentes eram Mário Paula e Lenilton Moreira Maia.

Houve uma época, final da década de 1960, em que o mestre de obras e construtor Joaquim Alexandrino Saraiva, conhecido popularmente por Quincas Bem, resolveu ser candidato a prefeito de Mossoró. Os outros postulantes com real chance de vitória eram Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia (O Touro), candidato da tradicional família Rosado e Antônio Rodrigues de Carvalho (O Capim), que já havia sido prefeito da cidade no período de 1958 a 1962.

Nessa nova campanha, Toinho, o Capim, teve o apoio decisivo de Aluízio Alves, grande líder político do estado e ex-governador.

A campanha de Quincas Bem não empolgou as massas. O ajuntamento de pessoas para ouvi-lo era cada vez menor. Seus eleitores eram sempre quatro “gatos pingados”. Nada mais que isso.

Num desses “comícios”, vindo de uma grande farra se aproximaram do palanque três amigos do candidato: João Fernandes, Lenilton Moreira Maia e  Mário Paula. Todos, logicamente, “daquele jeito”.

Foi quando o locutor anunciou com forte vibração a mais nova adesão a Quincas Bem. Ele mesmo… João Fernandes. Seria um apoio à candidatura esvaziada do candidato que concorria em faixa própria na campanha daquele ano de 1968.

João Fernandes foi anunciado como o próximo orador. Com rosto fechado, cara de estadista, subiu ao palanque e pegou o microfone com o fervor de quem manuseava um copo de cerveja.

Suas palavras foram curtas e definitivas:

– Mossoroenses, temos três candidatos a prefeito na eleição que se avizinha, dentre os quais a figura do meu amigo Quincas Bem. Homem digno, trabalhador e honesto. Apesar disso, comunico a todos que vou votar no “Touro”, mas quem vai ganhar é o “Capim”.

Foi aquele alvoroço e espanto no palanque e entre partidários do candidato, que acompanhavam a movimentação política.

O “Capim” realmente ganhou a disputa eleitoral por 98 votos de maioria, na campanha política mais acirrada de todos os tempos na terra de Santa Luzia.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/03/2021 - 11:42h

Enfim, uma atividade prazerosa!

Por Paulo Menezes

Na década de 2000, após 30 anos de trabalho em um banco de rotina exaustiva e estressante, explorador de funcionários, com muitos números, balancetes e agiotagem oficial, entrei em uma nova fase da minha vida. Ufa, até que enfim, férias.

Definitiva.abelha jandaíra

A aposentadoria  chegou.

Sair de um trabalho intenso e parar de repente podia com isso entrar num estado depressivo por me sentir inútil ainda relativamente jovem. Pensando dessa maneira, pouco antes de “pendurar as chuteiras”, me preparei para exercer outra atividade qualquer.

Resolvi abrir uma empresa para preencher meu tempo e auferir algum lucro. “Som Laser” foi a firma criada para vender equipamentos de som e cds, que à época, era o que de melhor perspectiva se apresentava para o que almejava.

A falta de capital e a chegada de grandes grupos empresariais do mesmo segmento fez com que “Som Laser” tivesse vida curta.

Fechada e empresa, parti para outra opção dentro do mesmo ramo e fundei uma locadora de vídeos e cds. Nascia a “Som Laser Locadora”, que teve também uma existência breve. A nova firma foi detonada com a “febre” da pirataria dos produtos que a empresa ofertava aos clientes.

Parece que não nasci mesmo para o comércio. Novo insucesso no ramo empresarial. E agora? O que fazer?

Como se diz que três é a conta certa, a terceira empreitada felizmente deu certo. Me dediquei com afinco ao manejo de abelhas sem ferrão da espécie Jandaíra, iniciado no distante ano de 1983, e que por falta de tempo não dava a assistência necessária para aludida atividade.

O amor e a dedicação pela abelha sertaneja só cresceu mais e mais com o decorrer do tempo. Passei então a participar de congressos nacionais e até internacionais relacionados à apicultura e a  meliponicultura, em busca do conhecimento  sobre a arte prazerosa de criar abelhas.

Manejando a “rainha do sertão”, expandi o meliponário e com o apoio da Prefeitura Municipal de Mossoró e Sebrae, implantei alguns projetos de reinserção da abelha Jandaíra em regiões degradadas pela ação predatória do homem e  em áreas de assentamentos rurais no Rio Grande do Norte e Ceará. Colaboramos na capacitação de grande número de crianças e pequenos produtores rurais.

Nesse trabalho gratificante que desenvolvia no campo, dava também minha  contribuição à mãe natureza. Devemos destacar que a criação da abelha Jandaíra tem que ser considerada uma atividade para o desenvolvimento sustentado. Ela inclui restauração ambiental, através da preservação e plantio de árvores que servem de locais para nidificação, além do importante papel que elas desenvolvem com a polinização na mata nativa, tão ameaçada de extinção nos dias atuais.

Com o aumento do número de colmeias e da produção da colheita do mel, um produto, nobre, raro e de alto valor comercial, unindo o útil ao agradável, surgiu então a empresa “Mel Menezes”, que diferente dos afazeres pregressos, terminou sendo para mim uma grande terapia ocupacional.

Na meliponicultura tudo que faço é com enorme prazer. Diverso dos trabalhos anteriores, rotineiros e estressantes que felizmente ficou na poeira do tempo que o vento levou.

A empresa tornou-se conhecida e conceituada a ponto de hoje comercializar o delicioso e saudável mel de Jandaíra para todo o país. A propósito, Miguel de Cervantes em sua famosa obra “Dom Quixote de La Mancha”, assim se refere ao mais útil dos insetos:

-“Nas quebradas dos penhascos, no recôncavo das árvores, formavam suas repúblicas as solícitas abelhas, oferecendo  a qualquer mão, sem interesse algum, a fértil colheita do seu dulcíssimo trabalho”.

Paulo Menezes é cronista e meliponicultor

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domingo - 07/03/2021 - 14:32h

Cochilou, cachimbo cai!

Por Paulo Menezes

Em uma quadra de um passado distante, havia em Mossoró uma confraria no bar “A Brasa”, de propriedade de “Doutor”, administrado pelo seu sobrinho Olímpio Rodrigues, instalado à  rua Alfredo Fernandes em uma esquina que dava acesso à ponte Jerônimo Rosado.

o cachimbo de ouroSábado era o dia em que o encontro contava com o maior número de participantes. Fazia parte da reunião, entre os mais assíduos, eu, Chico Leite, João Pinto, Anastácio Freitas, Irineu Leite, Chico Duarte, Chico Pinto, Pedro Câncio, Fabiano Paula, Maia Pinto e Guido Leite.

Ocorreu fato interessante num dia em que a seleção brasileira de futebol disputava jogo de Copa do Mundo. Bem antes, João Leôncio Maia Pinto havia comunicado aos presentes a compra de um cachimbo folheado a ouro e que usava no mesmo um fumo importado que exalava um aroma muito agradável.

Fez tantos elogios sobre a aquisição recente que despertou na turma a curiosidade de ver a peça valiosa. Após muita insistência de Guido Leite, Maia Pinto foi até sua residência pegar o cachimbo para mostrar aos confrades.

O bem realmente era muito bonito.

Aos poucos, a peça rara foi sendo passada de mão em mão para que todos pudessem ver a beleza do pito. Terminada a revista por todos, Maia Pinto então, com esnobismo, parecendo um lorde inglês, cachimbava vaidoso e feliz da vida soltando fumaça e perfumando  o ambiente.

Foi quando o Brasil marcou um gol. “Goooool”, esgoelava o narrador e todos nós, na mesma toada.

Chico Pinto ao tempo em que pulava e gritava repetidamente o gol, brasileira, arrebatou o cachimbo da boca de Maia Pinto e rodopiou em volta de si por várias vezes, empunhando aquele objeto sob o olhar atônito dos demais amigos.

Num desses rodopios, acabou arremessando o cachimbo contra a parede. Foi caco para todos os lados.

A turma do “deixa disso” entrou em campo e conseguiu segurar a fúria do ‘descachimbado” Maia Pinto, que ameaçava acertar as contas com Chico Pinto.

De repente bateu saudade desses encontros inesquecíveis e até dos arranca-rabos. Tempo que o vento levou mas não apagou da memória amiga.

Felizmente.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 28/02/2021 - 08:00h

Nos tempos do Trio Mossoró e de Oséas Lopes

LP do Trio Mossoró (Foto: reprodução)

LP do Trio Mossoró (Foto: reprodução)

Por Paulo Menezes

Sábado de preguiça, sem álcool, curtindo uma rede e um lençol “cheirando a guardado”, mexendo no controle da TV, eis que surge na telinha o nosso conterrâneo Oséas Lopes, de nome artístico Carlos André.

Como que num passe de mágica, com o HD ainda em ordem, me transportei para minha adolescência e me vi tomando banho com alguns amigos nas águas despoluídas do rio Mossoró. Ficava a admirar Oséas Lopes com seus quase 2 metros de altura, pulando da ponte e seguindo pela correnteza do rio até “descer a barragem”, com suas braçadas longas e cadenciadas.

Nossa casa era na praça do Coração de Jesus, a dele na rua detrás, esquina com o paredão do rio Mossoró. Lembrei-me também da despedida dele e de seus irmãos João e Hermelinda, que formavam o Trio Mossoró. Seguiriam carreira artística no Rio de Janeiro.

Caso não esteja enganado, a despedida dos mossoroenses ocorreu no distante ano de 1960 tendo como palco o auditório da Rádio Tapuyo de Mossoró, sendo o locutor à época o radialista Canindé Alves.

Na cidade maravilhosa, os irmãos, após algum tempo, partiram para a carreira solo. Ozéas passou a ser Carlos André. Tornou-se além de músico, cantor, compositor renomado, também produtor musical.

Produziu vários artistas famosos dentre os quais o rei do baião Luiz Gonzaga. Hermelinda, gravou grandes sucessos da música nordestina destacando-se a canção de protesto, Carcará, grande composição de João do Vale e José Cândido.

Quanto ao João Batista fez-se João Mossoró, cantando, brilhando e levando  o nome de sua cidade por esse Brasil afora e além fronteiras, chegando até Portugal com suas magníficas interpretações do fado.

Ozéas nunca esqueceu a terrinha cuja recíproca não foi verdadeira. Nunca foi prestigiado como devido pela cidade que ele sempre amou. Pelo que levou aos vários rincões do país, cantando os sertões, a terra de Santa Luzia, seu povo bravo, merecia e merece um tratamento melhor dos seus concidadãos.

Recentemente numa entrevista dada ao chargista caricaturista Túlio Ratto (veja AQUI), externou “mágoas de como é tratado em Mossoró, diferente do reconhecimento fora dos limites da cidade e divisas do Rio Grande do Norte. E avisa que não quer ser lembrado depois de morrer”.

Até a “praça dos seresteiros”, que fizeram em homenagem ao seu irmão Francisco de Almeida Lopes, o grande seresteiro, chamado carinhosamente por Cocota, foi desprezada, abandonada e hoje é só saudade. Somente. Nada mais.

Essas lembranças que vez por outra me ocorre é fruto de uma adolescência e juventude vividas com muita intensidade no querido chão mossoroense e que por isso mesmo me tornei um saudosista de plantão.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 14/02/2021 - 09:40h

Um Carnaval que não será igual ao que passou

Cristina dos Pimpões, um símbolo do carnaval de rua de Mossoró (Foto: Web)

Cristina dos Pimpões, um símbolo do carnaval de rua de Mossoró (Foto: Web)

Por Paulo Menezes

O período carnavalesco teria início nessa semana. Mas, por conta dessa terrível pandemia que apavora a todos nós, para evitar aglomerações, pelo menos patrocinado pelos poderes públicos, não ocorrerá. Ajuntamento de pessoas só em campanhas políticas, tempo em que a Covid-19 sempre se encontra de férias.

De repente, com a memória ainda em ordem, afastado do fantasma do alzheimer, vem em mim uma lembrança com imagens fortes e cristalinas de um passado ditoso e feliz. Incontinenti, me transporto para os carnavais de outrora.

Pois em tempos que não voltam mais, infelizmente,  o carnaval em Mossoró tinha inúmeros blocos de salão, confetes e serpentinas, arlequins, pierrôs  e colombinas, corso automobilístico pelas ruas da cidade, blocos de rua onde se destacavam Salinistas, Pimpões e Baraúnas, o Homem  do Chocalho, Rei Momo e Rainha do Carnaval, vários ursos,  muita música e grande animação.

Nos clubes sociais ACDP e Ypiranga, os blocos eram anunciados como atração das festas de Momo. Havia assaltos carnavalescos em casas de amigos com agendas previamente programadas. Era um privilégio a casa escolhida para receber os foliões.

Os blocos de salão mais famosos da época eram: Hi-fi, Sky e Os Vips. A recepção era com muita bebida e salgadinhos de finos paladares. Não faltava também o “Lança-Perfume Rodouro”, aromatizando o ambiente e embriagando-nos ao tempo em que nos transportava para um mundo de sonhos e fantasias.

Um grupo de amigos que fazia parte de uma turma feliz e animada compunha Os Vips. Eu, Joãzinho de Neco Carteiro, Raul Caldas, Bira Menezes, João Vieira, Guga Escóssia, Rogério Dias, José Bezerra, Raimundo Nonato, Nitola, Emery e Elery Costa formavam esse time da alegria.

Desse pequeno grupo de doze amigos e foliões, cinco deles, lamentavelmente, já não estão entre nós.

Vivíamos um mundo fantástico, onde só o presente a nós interessava. E ele era bom. Sem a violência dos dias de hoje e sem pensar num amanhã que por certo chegaria.

Hoje, no meu devaneio que gosto de ter, relembro com imensa recordação daquele tempo vivido com muita intensidade, e que se pudesse, ah se pudesse, vivia tudo de novo. Não é à toa que um pensador anônimo afirmou num momento de inspiração: “a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”.

Quanta saudade!!!

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/02/2021 - 10:48h

Um ‘craque’ quase consagrado

Por Paulo Menezes

No tempo em que nosso estádio de futebol era na rua Benjamin Constant,  houve uma acirrada disputa do “esporte bretão” entre as equipes do Potiguar e Baraúnas, (Time Macho e Leão do Oeste) já grandes rivais àquela época, mas ainda sem serem conhecidas como protagonistas do chamado clássico  “Potiba”.Bola-murcha

O técnico interino do Potiguar era uma figura muito conhecida em Mossoró de nome João de Seu Né, sapateiro de profissão com especialidade em remontes de chuteiras e bolas de couro. Antes, tinha sido jogador de futebol defendendo as cores do Potiguar na posição de lateral-esquerdo.

Naquele tempo o piso do campo era de areia, sem o tapete verde do gramado e por isso mesmo muito irregular.

A competição se desenvolvia com grande participação dos torcedores, com direito a bandeiras, charangas, fogos e muita animação. Era um dia de festa na cidade.

O jogo permanecia empatado sendo que o time vermelho e branco contava no banco de reservas apenas com o concurso de Lenilton Moreira Maia.

Já ao apagar das luzes, faltando pouco tempo para o apito final, um jogador do Potiguar foi expulso forçando o técnico a introduzir  Lenilton como substituto, já que era o único “artilheiro” disponível.

Por não confiar nas qualidades do atleta, João de Seu Né relutou em fazer a substituição devida, preferindo ficar com um jogador a menos na peleja, mas pressionado pela torcida, mesmo contra sua vontade, eis que o reserva entra em campo na partida decisiva do grande clássico do futebol mossoroense.

No primeiro lance com a participação do estreante, após um cruzamento perfeito, ficou o desportista na pequena área adversária, só ele e o goleiro. Lenilton então “encheu o pé”. Só que ao invés de chutar a bola chutou o chão. A poeira levantou, a vaia comeu no centro e o técnico sem hesitar retirou imediatamente o ‘craque’, optando por ficar com 10 jogadores a correr o risco de infartar.

Foi a última vez que o atleta vestiu a camisa do alvirrubro, deixando frustrados seus amigos e admiradores.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 31/01/2021 - 07:16h

Histórias de jogatina, amizades e “uma boa morte”

Por Paulo Menezes

Há um tempo já bem distante, eu fazia parte de uma turma alegre e divertida com a qual me reunia sempre em finais de semana, na residência de Tereza Leite, para jogarmos um carteado que varava a noite. Na verdade, quase sempre entrava pela madrugada.

Tereza, a anfitriã, sempre dizia que teria “uma boa morte” se ela acontecesse numa mesa de pif-paf. Que seja feita sua vontade. Amém! Foi num final de tarde desses que seu desejo foi atendido plenamente, como se obedecesse a um enredo teatral.cartas, carteado

O jogo se desenvolvia normalmente, quando Tereza com as nove cartas na mão, se inclinou levemente sobre o pano verde e sem nenhum grito de dor deu o último suspiro, após o infarto fulminante.

Como em algumas tragédias, às vezes ocorre o lado cômico.

Auri Leite, que fazia parte da jogatina e era perdedora contumaz, logo perguntou aos participantes:

– E agora? Quem vai prestar contas? Quem vai me pagar as fichas?

– Mas amiga, num momento desse você vai pensar nisso? – questionou um dos presentes.

Sem pestanejar, Auri retrucou:

– Eu sou muito mole mesmo! No dia que eu estou ganhando uns trocados aí acontece isso.

Nessa ocasião, eu não estava presente e quando tomei conhecimento da perda de uma amiga tão querida, logo me dirigi ao velório. Ao chegar,  a primeira pessoa que encontrei foi Lenilton Moreira  Maia, companheiro sempre presente no jogo das pintadas e perguntei sobre o fatídico acontecimento:

– Como foi isso, Lenilton?

Encobrindo a boca com a mão em concha, ele encostou a cabeça em meu ombro com ar pesaroso e desfiou a narrativa para o campo da jogatina, o que verdadeiramente não era o foco de meu interesse:

Tava armada num par de nove com um dez encostado, toda enramada…

Bem, não me contive o suficiente. Com enorme esforço administrei um riso travado titanicamente por lábios dobrados e presos entre os dentes.

Enfim, a mesma tragédia gerava outro quadro cômico.

Nossa amiga Tereza Leite há de entender e deve estar também dando boas gargalhadas.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 24/01/2021 - 06:44h

Saudade (muita e prazerosa) que não passa

Por Paulo Menezes

Estou hoje, início de 2021, na varanda do meu “cantinho” na Praia do Meio em Natal, que como se vê na foto maior nessa crônica, tem uma vista privilegiada da ponte Newton Navarro, estuário do rio Potengi, dunas, e das lindas águas verde-azuladas do mar.Praia do Meio, Ponte Newton NavarroCurtindo uma boa leitura e sentindo suave brisa numa rede branca com lençol bastante usado, bem macio, cheirando a guardado. A visão panorâmica de uma beleza sem par do majestoso oceano sempre me leva a Tibau. Retorno aos meus sonhos. Esteja eu onde estiver.

Tibau foi e sempre será a primeira sem segunda, musa dos meus encantos, razão maior dos meus devaneios. De repente, surgem incontinenti algumas interrogações motivadas pela grande desolação que senti.

Por onde andam as falésias que na minha juventude eram conhecidas por “morros dos urubus”? E os pingas d’água doce ?

Cadê as areias coloridas?

E os arrastões sobre o comando de Tidó e Ananias, trazendo milhares de peixes e camarões para a praia nas primeiras chuvas de janeiro? Qual terá sido a causa de não mais serem vistos os papagaios de papel que ao sabor dos ventos coloriam o céu e faziam a festa da criançada? Para onde foram as velas brancas da mais frágil das embarcações? Ainda há o galanteio das serenatas?

E as tertúlias no início das noites? Os forrós no final delas? É verdade que foram substituídos pelo barulho ensurdecedor e infernal dos “paredões de som”? Ousaram fazer isso? As reuniões no morrinho? Será que ele ainda existe?

As inúmeras mesas com panos verdes onde rolavam disputadas partidas de pif-paf ainda estão sendo formadas ? E as “peladas” antes do banho de mar? A misteriosa “Furna da Onça” foi aterrada?

E os coqueirais, porque diminuíram tanto? Será que foi o motivo do desaparecimento das graúnas com seus maviosos cantos nas frias madrugadas?

A luta para acabar com tanta coisa boa de um passado ditoso e feliz na linda praia tem sido grande. Vão terminar conseguindo. E para quem viveu como eu os anos dourados da antiga e encantadora vila, verdade seja dita, sente falta e saudade de tudo isso.Tibau - Fotos antigas

Sei que faz parte do progresso, mas até a areia fina e fria em que pisávamos nas caminhadas noturnas, trajeto de nossas inenarráveis serestas, foi substituída pela tarja negra e quente do asfalto.

Resistindo, mesmo assim um pouco desgastada pelas altas cíclicas das marés e intempéries inexoráveis, restou apenas a “Pedra do Chapéu”, símbolo maior e cartão postal da orla esplendorosa.

Apesar disso, Tibau continua sendo minha querida e preferida praia.

As lembranças aqui relatadas vêm acompanhadas de uma imensa saudade. Muita.

Prazerosa.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 17/01/2021 - 07:24h

O médico e o enfermeiro

Médico e enfermeiro - ilustração corretaPor Paulo Menezes

Vassimon Negreiros e Lenilton Moreira Maia foram contemporâneos nos estudos e hóspedes no mesmo hotel na famosa rua Senador Pompeu, em Fortaleza. Tanto um quanto o outro gostava de “aprontar”.

Final do mês o dinheiro de Lenilton ainda não tinha chegado quando Vassimon o convidou para uma cervejada nos cabarés situados na zona portuária da capital alencarina.

– Estou liso, afirmou Lenilton.

– Meu dinheiro esse mês veio com sobra. Não se preocupe, é tudo por minha conta, garantiu Vassimon.

E lá se foram os dois para mais uma aventura.

Por volta das 17 horas, quando já tinham tomado todas as cervejas a que tinham direito, chamando Jesus de Genésio, Vassimon disse a Lenilton que como ele, também estava liso de pegar verniz.

A reação do colega de manguaça foi desoladora. Nem titubeou nas palavras e no destino que previa para ambos:

– Pois hoje não escapamos do camburão.

Nesse ínterim, eles notaram uma movimentação além do normal em um dos quartos do bordel. Perguntaram então ao garçom o porquê daquela situação estranha.

– É que uma mulher está passando mal. Ela está com umas dores na barriga e chegou a desmaiar. Vendo aquela situação, Vassimon vislumbrou se livrar do fantasma do xadrez. Avisou logo que era médico e poderia intervir em socorro àquela pessoa. Lenilton, aquele cara a seu lado, era enfermeiro.

Se dirigiram ao cômodo e mandaram que todos se retirassem do recinto. Pediu que lhe trouxessem uma bacia com água fervendo e uns cinco panos limpos. Ao chegar o material solicitado, submergiu o pano na água quente, segurou numa ponta e mandou o “ajudante” segurar na outra.

Ato contínuo rolaram o pano quente na barriga da mulher com movimentos subindo e descendo. Imediatamente a mulher diminui o gemido dizendo que a dor estava passando. O fato é que antes de ser aplicada a quinta compressa, a paciente se disse completamente curada.

Foi quando o ‘doutor’ se aproveitou da situação e pediu a conta. O garçom começou a contar os vasilhames, a coisa foi se complicando, um olhando para o outro, quando de repente vem o alívio.

A proprietária do “estabelecimento” avisou que a conta ficava para a “casa”. Assumiu as despesas e consequentemente livrou os aventureiros do temível camburão.

Já que a coisa estava boa, Vassimon resolveu abusar, pedindo a saideira de lambuja, para dividir com o amigo e ‘enfermeiro’ Lenilton.

Depois, saíram lépidos e fagueiros de volta para o hotel. Nem ressaca tiveram.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 10/01/2021 - 09:22h

“O prato do dia” na resenha política

Jaime: prato crítico (Foto: web)

Jaime: prato crítico (Foto: web)

Por Paulo Menezes

Jaime  Hipólito Dantas, natural de Caicó, escolheu o chão de Mossoró para viver, trabalhar e fazer amigos. Promotor de Justiça, professor, escritor,  prosador brilhante, crítico literário, grande intelectual da terrinha, era redator de um programa político veiculado na Rádio Tapuyo de Mossoró de nome “O Prato do Dia”.

Era campeão de audiência no horário, graças à ironia picante do grande escritor caicoense.

Era apresentado por Souza Luz, que motivado pelo sarcasmo de sua voz, era detestado pelos adversários de sua corrente política.

Por ser seguidor fiel de Vingt-Rosado, (à época inimigo de Aluízio  Alves), o programa tinha uma linha editorial sempre voltada para detratar Aluízio e mostrar as virtudes de Vingt. Isso  durante muito tempo até enquanto durou o afastamento político de ambos, tão grande que transformou adversários em ferrenhos inimigos.

Com o passar do tempo e o amadurecimento político dos desafetos, aconteceu o que era tido como praticamente impossível: Aluízio  e Vingt fumaram o cachimbo da paz.

Com o fato ocorrido, o “Prato do Dia”, passou a encontrar em Aluízio grandes qualidades até então desconhecidas.

Questionado sobre o porquê da mudança tão brusca no programa, por que Jaime Hipólito vivia esculhambando Aluízio Alves e de repente passou a elogiá-lo, diariamente, o redator não titubeou:

– Mandamos apurar e descobrimos que era tudo mentira.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

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domingo - 22/11/2020 - 06:34h

Um grito contra a destruição

Por Paulo Menezes

Há no organograma da administração municipal uma secretaria que cuida do Meio Ambiente e que me faz lembrar de um problema que se agrava a cada dia que passa. Refiro-me a devastação de nossa mata nativa tão ameaçada de extinção nos dias atuais, onde o homem destrói a natureza de forma cruel pelo imediatismo do lucro fácil, esquecendo que caminha para sua própria destruição. Assim é que árvores como imburanas, catingueiras, aroeiras, pereiros, juazeiros, antes abundantes na região, passam a ser raridades na paisagem sertaneja.

Juazeiro é uma árvore tradicional do sertão nordestino, com grande importância ao homem e animais (Foto: reprodução)

Com o desaparecimento da mata nativa da caatinga nordestina, sucumbirão com ela também nossas abelhas indígenas sem ferrão, dentre elas a Jandaíra, a rainha do sertão,  considerada como sendo o mais útil dos insetos, nos fornecendo  mel,  própolis e o pólen tão importantes em nossas vidas, apresentando duas características de uso, servindo como alimento e remédio. Ocorre que a nidificação das abelhas indígenas sem ferrão se dá predominantemente nas árvores imburanas e catingueiras ainda existentes no nosso ecossistema.

Estes insetos sociáveis são encontrados em todas as regiões do planeta terra, sendo a sua preservação de grande importância pelo que ela representa na evolução eterna da natureza no que se relaciona com o que o filósofo norueguês Arne Naess definiu na década de 1970 como a “ecologia profunda” – cuja influência é hoje cada vez maior – e expressa a percepção prática de que o homem é parte inseparável, física, psicológica e espiritualmente, do ambiente em que vive.

Para Arne Naess,  a expressão ecologia profunda se opõe ao que ele chama de “ecologia superficial” – isto é, a visão convencional segundo a qual o meio ambiente deve ser preservado apenas por causa de sua importância para o ser humano. O homem coloca-se como o centro do mundo e quer preservar os rios, o oceano, a fauna, a flora porque são instrumentos do seu próprio bem-estar. Quando olha para o meio ambiente com esta preocupação, o homem só enxerga os seus próprios interesses, já que inconscientemente, se considera a coisa mais importante que há no universo.

A criação da abelha nativa tem que ser considerada uma atividade para o desenvolvimento sustentado porque inclui restauração ambiental através da preservação e plantio de árvores que servem de locais para nidificação, além do importante papel que elas desenvolvem na polinização da mata nativa, pois algumas plantas só conseguem se reproduzir com a intervenção deste inseto, devido sua adaptação durante milhões de anos.

A professora Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, do Instituto de Biociências da  Universidade de São Paulo – USP,  lançou uma ideia para darmos o primeiro passo a fim de solucionar o problema. Seria criar um grupo de artistas da terra que prepararia uma peça teatral para falar da importância de plantar árvores de nossa flora, trabalhando com roteiristas para fazer disso uma diversão educativa.

Assim, o grupo se apresentaria em escolas, nas praças e na zona rural.

Paralelamente ao evento, a Secretaria Municipal de Infraestrutura, Meio Ambiente, Urbanismo e Serviços Urbanos, destinaria no programa de arborização da cidade um percentual  para o plantio com árvores de nossa mata nativa, erradicando o danoso NEEM, que inclusive tem o  princípio ativo de um cupinicida (se mata cupim mata abelha), e substitui-lo por árvores acima relacionadas. Com essa assertiva, a cidade ficaria com o clima mais ameno, sua paisagem mais diversificada, verde, bonita e a natureza  mais agradecida.

Seria uma grande contribuição para a preservação de árvores e abelhas, despertando com certeza uma maior conscientização em nosso povo no resguardo do meio ambiente.

Afinal o saudoso Monsenhor Huberto Bruening em seu grito contra a destruição já dizia:

– “O homem está destruindo as derradeiras casas – imburanas e catingueiras – que ainda restam no sertão. Nada escapa à sanha dos carvoeiros, caçadores de mel, caçadores de “madeira” etc. Até o raríssimo cumaru é cortado e serrado em fatias – sem cerne ainda – para fabricar caixas. E a Imburana é desfiada para cepilho…Nossas abelhas estão fadadas à extinção, mais cedo do que se pensa. Sem casa para morar quem é que trabalha? Se ao menos cuidassem os homens, de replantar, reflorestar… ou ainda se parassem de destruir. A terra mesmo se reveste, recupera e recobre.”

Paulo Menezes é meliponicultor

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domingo - 04/10/2020 - 12:10h

De volta às boas lembranças

Por Paulo Menezes

Quando não estou no mundo fascinante das abelhas Jandaíra, atividade que adoro e tenho como uma terapia ocupacional, sem querer, vivo muitas vezes mais do passado que do presente. Acho que é devido à violência dos dias atuais comparado com a tranquilidade de um passado cheio de paz, felicidade e, que por isso mesmo, é sempre motivo de muita saudade.

Ao romantismo de uma época de ouro confrontado com a selvageria do mundo presente. Violência e droga, naquela época, nem pensar. Na minha juventude, por sinal muito bem vivida, quando em Mossoró reinava harmonia, afeto, benquerença, bate papo nas calçadas, tínhamos uma turma de amigos que se autodenominava os 7 cabeludos.

Eu, Bira Menezes, Emery Costa, João Vieira, Guga Escóssia, Raul Caldas e Joãozinho de Neco Carteiro, formávamos o que se poderia chamar de um grupo de “bons vivants.” Emery Costa, Raul Caldas e Joãozinho de Neco Carteiro, infelizmente, já partiram e estão numa outra dimensão.

O nosso encontro diário era à noite no coreto da praça da Catedral de Santa Luzia. Lá funcionava a rede social da época. Estávamos sempre atualizados.

O rádio era o meio de comunicação mais eficiente.

Alí, vivíamos  os tempos dourados dos anos sessenta. Todos muito jovens, tínhamos muitos sonhos e fantasias. Tempo em  que nascia  na distante Liverpool, os  Beatles que iriam revolucionar toda uma geração. Revolução essa, que até hoje, me impressiona pelo fato de ver meus netos ao ouvir “I Want to Hold Your Hand” dizerem: – “vozinho, que música bonita, como o senhor tem bom gosto musical.”

Imagine nós que vivemos àquela época.

Recordo também, que com exceção de Joãozinho, os demais componentes de grupo prestaram no mesmo ano, o serviço militar no glorioso “Tiro de Guerra 188”. Sargentos Leite e Maurílio eram os instrutores.

Já naquela época se usava o cargo para benefício próprio, misturando o público com o privado.(esse país não tem jeito). Explico: um dos sargentos, além da farda, explorava um bar vizinho à sede do Tiro de Guerra. Num festivo dia de sábado, nosso grupo tomou 96 cervejas (não havia a Long Neck) ouvindo o sonoro violão de Wellington Couto, que também fazia parte da tropa militar e da boemia.

Dinheiro que era bom, ninguém tinha.

Ao perceber que não ia receber o valor do produto vendido, não deu outra. Na primeira instrução o sargento foi curto e grosso:

– Em 48 horas se vocês não pagarem a conta serão todos excluídos do serviço militar. Não tinha razão o enganado nem os enganadores.

O fato é que na pressão, o dinheiro apareceu e entre mortos e feridos escaparam todos.

Assim é que com pontas de saudades acabei de assistir e narrar mais um filme de um passado glorioso e extremamente feliz. Sobre o tema assim se expressou Bob Marley: “Uma das coisas mais belas da vida é olhar para o céu, contemplar uma estrela e imaginar que muito distante existe alguém olhando para o mesmo céu, contemplando a mesma estrela e murmurando baixinho: “

Paulo Menezes é meliponicultor

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