domingo - 13/09/2020 - 07:32h

Estação da saudade

Por Paulo Menezes

O cantor Nelson Ned tinha razão: o domingo é um dia triste.

Melhor é a sexta feira e mais gostoso ainda é o sábado. O dia em que o grande Vinicius de Moraes ( viveu intensamente 150 anos ) sempre reverenciou como sendo o dia do amor.

Pois bem. Após um dia de confraternização com amigos do meu bem querer, afastando um pouco o estresse desses dias de pandemia, regado a um bom e reconfortante vinho, estou no silêncio do meu quarto a meditar e relembrar fases da minha vida.

Estação da Rede Ferroviária do Nordeste, depois Rede Ferroviária Federa S/A (RFFSA)

O filme passa e me vejo, no fulgor dos meus 19 anos, na Estação Ferroviária, hoje Estação das Artes Eliseu Ventania, mala pronta, feita com muito carinho, no embarque do trem para Sousa, vizinho estado da Paraíba, para assumir meu primeiro emprego, que seria o único, na condição de concursado do Banco do Nordeste do Brasil.

Tempo em que bancário “era gente”.

As maiores autoridades da cidade de então eram o prefeito, o padre, o juiz e o gerente do banco. Hoje, das autoridades de outrora, a meu juízo, só tem o padre. Parti, ao meio-dia. Cheguei às 20 horas.

Deixei em Mossoró, um namoro apaixonado que este ano completou 57 anos de um convívio harmonioso e feliz. Nesse tempo de vida em comum contabilizo no balanço de lucros e perdas um saldo positivo onde as receitas superaram as despesas.

O HD ainda perfeito, me lembra com cristalina imagem, a hora da chegada no hotel, a posse no banco com gravata, camisa  “volta ao mundo” (ai novo!), a admissão na república dos bancários, onde fui muito bem acolhido.

A saudade de casa e da namorada distante, tempo de difícil comunicação, enfim, tudo era novidade para o começo de uma vida, pela primeira vez longe de meus familiares.

Na lembrança desse tempo distante, me interrogo numa dúvida existencial. Por ter perdido o contato com os colegas bancários, a pergunta que não quer calar: quantos e quais os que permanecem entre nós?

Pelo tempo decorrido, com certeza, alguns estão em outra dimensão. Outros, assim como eu, continuam na luta, a viver feliz e
intensamente, a sonhar, recordar como faço agora um passado distante e ditoso.

Afinal como dizia Carlos Drummond de Andrade “Ser feliz sem motivo é a forma mais autêntica de felicidade”.

Paulo Menezes é meliponicultor

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domingo - 02/08/2020 - 07:20h

À sombra de uma mangueira

Por Paulo Menezes

Plantei essa mangueira há 42 anos. Não sabia se ela vingaria nem se eu alcançaria sua trajetória de vida. O fato é que todos sobrevivemos.

Ela ainda viçosa, florindo e dando frutos doces e saudáveis todos os anos. Eu, já mais pra lá do que pra cá. Com certeza, vou partir para outra dimensão e ela vai continuar sua vida.

O fato é que recebo sua sombra e seus frutos no dia a dia, e isso para mim já compensa o investimento, já que sou um naturalista convicto.

Hoje, no meio dessa pandemia louca que nos afasta dos filhos, noras, netos e amigos, todos do bem querer, é ela, que como sempre e ao longo do tempo tem me dado abrigo e reconforto.

Agora mesmo, estou  usufruindo de sua sombra benfazeja, tomando uma aguardente mineira, ouvindo Roberto Carlos da Jovem Guarda dos anos 60 (precisamente 1965) anos dourados da minha juventude, vivida com a intensidade de quem está com a morte para acontecer no dia seguinte. E o bom disso tudo, é que de repente me sinto bem, apesar do noticiário terrorista da imprensa televisiva.

Não sei se é o álcool o que me deixa assim, pois, via de regra, uma pinga bem dosada nos deixa relaxado, leve e até mesmo um pouco esquecido.

O fato é que na vida, sempre temos que encontrar  uma saída para enfrentar os problemas que ela nos apresenta. Para mim, graças a Deus, eu encontrei essa válvula de escape que foi a sombra dessa árvore frondosa e uma boa caninha para amenizar as vicissitudes da vida.

Afinal, não foi sem motivo que o ator e cineasta norte-americano Jordan Peele afirmou: “Sinto que estamos numa época onde o público precisa escapar do horror da realidade”.

Paulo Menezes é meliponicultor

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domingo - 12/07/2020 - 09:22h

Exercício do bem comum e culto à felicidade na quarentena

Por Paulo Menezes

“Como não conheço nenhum escrito sob Jandaíra, fui obrigado a frequentar a escola das Jandaíras, observar seus hábitos, seu trabalho, sua família, sua casa, sua organização, manias e travessuras. Isto por mais de trinta anos. Serviu de aprendizado, lazer, higiene mental e reconstituinte, passatempo, espanta tédio e sobretudo é o segredo de manter-me em contato com Deus.” (Padre Huberto Bruening no livro “Abelha Jandaíra”)

A pandemia que atingiu toda a humanidade, ceifando milhares de vidas e transformando totalmente o nosso cotidiano num vale de lágrimas, alvejou de forma arrasadora nosso dia a dia, principalmente no que se relaciona com o distanciamento social. O afastamento da família, dos filhos, netos e amigos, entretanto, me alcançou numa proporção um pouco menor, graças a Deus e às minhas abelhas.

É que apesar de aposentado do Banco do Nordeste, empresa à qual dediquei 24 anos de minha vida laboral, adotei, em paralelo, uma atividade que além de prazerosa, serviu de terapia ocupacional, lazer e espanta tédio como afirma o padre Huberto no livro que citei. Sou meliponicultor desde o distante ano de 1983.Dedico-me com muito amor ao manejo da abelha Jandaíra. Tenho colmeias na minha residência e na zona rural. E como essa atividade tem me ajudado nessa quadra de dificuldade que atravessamos! Administro meu tempo dividindo-o entre o quintal da minha morada e a zona rural, sempre dedicado ao manejo das abelhas.

Na residência, além de acompanhar o desenvolvimento dos enxames, que vai da multiplicação de colônias até à coleta do mel, pratico também um pouco de marcenaria na confecção das caixas racionais, morada das fazedoras do saboroso mel.

O trabalho vai da serragem das tábuas, montagem, até à pintura.

O tempo dedicado à zona rural começa manhãzinha cedo e ocorre duas ou três vezes por semana, onde me desloco ao Meliponário situado no campo. Lá a Covid não chegou, pois só tem a natureza ainda em festa com a mata florida e cheirosa, fruto da quadra chuvosa e as queridas jandaíras. Nem de máscara necessito.

Vivo uma manhã diferente, em outro mundo, somente com as polinizadoras da natureza. O tempo passa rápido sem mesmo senti-lo. Não há o que pensar em outra coisa senão no nascimento de uma nova princesa que será entronizada como rainha e que conduzirá um novo enxame garantindo a perpetuação da espécie.

No manuseio, o que vemos é o milagre da criação onde uma família com castas bem definidas desempenha com perfeição a vida de cada colônia. Cada abelha tem uma função específica a partir da limpeza corporal na hora do nascimento, depois a alimentação da rainha, o controle da temperatura do ninho, a desidratação do mel e finalmente a saída para o campo a partir do décimo sexto dia, visitando milhões de flores até a morte, em busca do néctar que transformará em mel.

Abelha não tem infância, já nasce trabalhando do nascimento até o último dia de vida.

A existência de uma colônia de abelhas é de uma perfeição admirável.

Diferentemente de nós humanos, todas trabalham pelo bem comum.

Quanta diferença !

Paulo Menezes é meliponicultor

* Meliponicultura é a criação racional de abelhas sem ferrão.

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domingo - 22/03/2020 - 07:28h

Mel de abelha – remédio ou alimento?

Por Paulo Menezes

O mel de abelha é considerado um dos alimentos mais deliciosos e puros encontrados na natureza. É produzido a partir da coleta do néctar de diversas flores feita pelas abelhas campeiras. Por conter, principalmente glicose e frutose, é absorvido com muita rapidez pelo nosso organismo, fornecendo energia sem engordar tanto quanto os açucares comerciais comuns.

Nos dias de hoje é muito utilizado como adoçante, sendo também bastante usado na medicina caseira.

Em artigo publicado na revista “American Bee Journal”,  o Dr. Robert Berthold recomenda contra a insônia a ingestão de duas colheres de sopa de mel, misturado num copo de leite morno, antes de dormir.

Segundo ainda o Dr. Robert, deve ser ingerido para aliviar dor de garganta e combater a tosse.

Na revista médica inglesa “Lancet” há um artigo que afirma ter o mel poder de restaurar e fortalecer o desempenho do coração. Seus efeitos no organismo humano são: imunológico, antibacteriano, anti-inflamatório, expectorante e regenerativo.

Para se ter ideia do seu valor como alimento natural orgânico e suas excepcionais qualidades, basta pesquisar um pouco a história da humanidade, e constatar que desde a mais remota antiguidade, há milhares de anos este produto exercia grande poder curativo entre os medicamentos da época.

No Egito, ocupava lugar de destaque entre os produtos alimentares e terapêuticos. Num dos mais antigos documentos da medicina egípcia, um velho papiro de 3.500 anos descreve várias receitas tendo o mel como um dos ingredientes. Esse papiro contém até uma descrição de doenças graves como o câncer do estômago e certos tumores, para cujo tratamento recomenda-se bebidas e lavagens à base de mel para uns e aplicações para outros.

Os hieróglifos, baixos-relevos de pedras, tumbas de faraós, são documentos que fazem referências ao seu uso como alimento e remédio. Na sala egípcia do Museu de História Natural de Berlim pode ser visto um baixo-relevo que data de 5.000 anos atrás, sobre sua colheita e extração.

O célebre Papiro Ebers, conservado na Biblioteca de Leipzing, Alemanha, relata que os egípcios 1.600 anos A.C. alimentavam suas crianças com mel, e naquela época, já domesticavam abelhas.  Na China era empregado habitualmente na medicina caseira.

Pitágoras, em seus escritos sobre medicina, afirmava ter o precioso líquido propriedades notáveis sendo que ele e seus discípulos seguiam um regime alimentar exclusivamente à base de vegetais e mel.

Encontramos informações que os Sumérios, povos que se estabeleceram na Mesopotâmia – atual Iraque – por volta de 5.000 anos A.C.   , tinham por costume seu uso na dieta alimentar.

Homero, o poeta, na sua consagrada Odisseia, fala sobre uma mistura de mel e leite (chamada melikraton) que era considerada uma excelente bebida.

Na Bíblia encontramos 38 citações e referências ao doce alimento: “Se o Senhor nos for propício, introduzir-nos-á nela e no-la dará; é uma terra onde corre leite e mel”.  O Alcorão, a Bíblia dos Mulçumanos, recomenda seu uso como alimento e remédio: “Azeite por fora e mel por dentro”.

No Brasil, no entanto, é importante ressaltar que o produto não é inspecionado pelo Ministério da Saúde, e sim pelo da Agricultura, o que lhe confere status de alimento e não de remédio. Na realidade, faltam mais pesquisas na área e são poucos os médicos que prescrevem receitas recomendando sua aplicação. Preferem ficar ao lado da indústria farmacêutica que é poderosa e não aceita concorrentes.

O seu consumo no mundo ainda é muito baixo por falta de incentivo e da divulgação das qualidades nutritivas e medicinais que ele contém, o que não falta para os adoçantes artificiais e industriais. A média por pessoa não passa de 300g/ano, sendo que o Brasil consome abaixo deste número.

A comunidade europeia consome uma média de 700g/ano, sendo que na atualidade aumenta muito a procura do produto, principalmente na Alemanha, por ser um país mais exigente em defesa da saúde de seu povo.

Em nossa região é preciso ter cuidado ao adquirir o produto, tanto o consumidor, como aquele que compra para revender, pois é muito falsificado, principalmente, quando raro e de alto preço comercial. A fraude consiste em misturar ao mel puro, certa quantidade de um produto com características semelhantes e que tem um preço bem inferior ao verdadeiro. Quem compra para consumo próprio deve conhecer a idoneidade moral de quem vende.

Há algum tempo, enviei ao Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), para análise,  mel da espécie Melípona Subnitida (Jandaíra) coletado por mim, no Meliponário Monsenhor Huberto Bruening, em Mossoró, onde manejo 300 colmeias. O laudo do Prof. Eduardo Augusto da Silva Gurgel fez a constatação de que em uma porção de 20ml (medida caseira) havia um valor calórico de 55,84 Kg/cal, representando apenas 2,49% de valores diários de referência base em dieta de 2.500 calorias. Portanto, bastante “light” o seu uso.

O mel para Virgílius, era a “Dádiva do Céu”; para Plínio, a “Saliva dos Deuses”, mas não resta dúvida que para o homem ele é um magnífico, saudável e gostoso alimento… e remédio.

Paulo Menezes é apicultor

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domingo - 08/03/2020 - 10:56h

Uma saudade a mais

Por Paulo Menezes

Há 18 anos, Antônio Menezes, o Tota, meu querido pai, partiu desta para outra dimensão. Nesse sábado (7 de março de 2020), completaria 102 anos. Viveu 84, bem vividos, com grande intensidade.

Feneceu deixando um legado aos 7 filhos, qual seja, um pai à toda hora presente, criando sua prole com a dificuldade de um orçamento apertado, mas dando aos filhos a educação necessária e um exemplo de vida.

Dele, guardo inúmeras e boas recordações, pois além do convívio doméstico, foi com ele que a partir dos 14 anos iniciei minha vida laboral na empresa “Menezes & Irmão”. Depois, o auxiliei como motorista do Jeep Toyota em nossas viagens semanais à salina de Jorge Moyse França, que ele gerenciava.

Antônio Menezes (Foto: arquivo da família)

O ajudei também na loja “A Preferida”, tendo sido ele o primeiro agente da Loteria Federal e Esportiva da cidade.

Nas férias escolares, conduzia toda a família para a encantadora praia de Tibau. Ali, no fulgor da juventude, vivi um período mágico de minha vida, construindo memórias afetivas tão profundas que nem o tempo conseguiu apagar.

O Tota, era amante das vaquejadas, e eu, pra variar, apesar de não gostar do esporte, estava sempre ao seu lado. Fui também seu companheiro das inenarráveis caçadas de nambu e avoete. Na verdade, nosso passatempo era mais um acampamento de amigos do que a caça propriamente dita.

Para ser franco, deixamos poucas nambus e avoetes viúvas em nossos finais de semana em que passávamos arranchados por esses sertões afora, sempre protegidos pela sombra de um juazeiro copado, uma catingueira florida ou uma oiticica de folhas largas e fria.

Chegávamos sábado à tarde, armávamos nosso rancho, uma lona de 10 x 8 metros, banheiro adaptado numa lata de querosene Jacaré, com direito a chuveiro e a um banho frio e reparador, após a caminhada matinal na caatinga verdejante e esplendorosa com o início da quadra chuvosa.

Estirávamos as redes, abríamos a garrafa de um bom vinho e o papo rolava noite adentro numa confraria em que limpávamos nossa mente do estresse da cidade grande, conturbada e violenta. Manhãzinha cedo, parafraseando o poeta e repentista Ivanildo Vila Nova, acordávamos com a natureza em festa, “pois no sertão quando rompe a alvorada, na floresta desperta a passarada, canta uma canção tão afinada que parece uma orquestra universal, num concerto de música diferente da orquestra sinfônica que Deus fez”.

Tendo como componentes o pio admirável das inhambus xintã e chororó, o canto sonoro das sabiás, galos de campina e corrupiões, o arrulho soturno da juriti, o cantar melancólico do anu-branco, cadenciado da rolinha fogo-apagou, belo e estridente da seriema, deixando a todos nós extasiados com tanta beleza.

Entre os participantes do lazer semanal havia um pescador arremessando a tarrafa e trazendo para a margem, do açude, curimatã, piau, tilápia e tucanaré, que cozidos ou fritos no fogo de chão, faziam parte do cardápio do almoço dominical. Final da tarde, hora de desarmar a barraca e regressar para nos prepararmos para a nova jornada na semana seguinte.

Dezoito anos se passaram de sua partida e em mim sua lembrança continua forte e muito presente.

Agora, com a chegada das chuvas e o prenúncio de um bom inverno, o vejo na calçada, início da noite, cadeira de balanço, rádio sobre o colo, olhar atento para os últimos raios do sol poente em fogo, afirmando:

– Hoje só me recolho quando o relâmpago “cortar” o céu do sertão.

Tempos bons. Saudades. Muita.

Paulo Menezes é apicultor

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domingo - 19/01/2020 - 05:40h

Tibau (uma imensa saudade)

Por Paulo Menezes

Estou hoje, início de 2020, na varanda do meu “cantinho” na Praia do Meio em Natal, com uma vista privilegiada da ponte Newton Navarro, estuário do rio Potengi, dunas de Genipabu e das águas verde-azuladas do mar.

Curto uma boa leitura e sinto suave brisa numa rede branca com lençol bastante usado, bem macio, cheirando a guardado. A visão panorâmica de uma beleza sem par do majestoso oceano sempre me leva à Tibau dos meus sonhos. Esteja eu onde estiver.

Pois Tibau foi e sempre será a primeira sem segunda, musa dos meus encantos, razão maior dos meus devaneios.

De repente, incontinenti, surgem algumas interrogações motivadas pela grande desolação que senti. Por onde andam as falésias que na minha juventude eram conhecidas por “morros dos urubus” ?

E os pingas d’água doce?

Cadê as areias coloridas ?

E as redes três maio arrastando milhares de peixes e camarões para a praia nas primeiras chuvas de janeiro?

Qual terá sido a causa de não mais serem vistos os papagaios de papel que ao sabor dos ventos coloriam o céu e faziam a festa da criançada?

Para onde foram as velas brancas da mais frágil das embarcações?

Por onde andarão os vendedores de grude e de gelé?

Ainda há o galanteio das serenatas?

E as tertúlias no início das noites?

Os forrós no final delas?

É verdade que foram substituídos pelo barulho ensurdecedor e infernal dos “paredões de som?”

As reuniões no morrinho? Será que ele ainda existe?

As inúmeras mesas com panos verdes onde rolavam disputadas partidas de pif-paf ainda estão sendo formadas?

E as “peladas” antes do banho de mar?

Por que sumiram da areia branca da praia os caranguejos grauçás com seus deslocamentos laterais à procura de suas moradas?

A misteriosa “Furna da Onça” foi aterrada?

E os coqueirais, porque diminuíram tanto?

Será que foi o motivo do desaparecimento das graúnas com seus maviosos cantos nas frias madrugadas?

A luta para acabar com tanta coisa boa de um passado ditoso e feliz na linda praia tem sido grande. Vão terminar conseguindo. E para quem viveu como eu os anos dourados da antiga e encantadora vila, verdade seja dita: sente falta e saudade de tudo isso.

Sei que faz parte do progresso, mas até a areia fina e fria em que pisávamos nas caminhadas noturnas, trajeto de nossas inenarráveis serestas, foi substituída pela tarja negra e quente do asfalto.

Resistindo, mesmo assim um pouco desgastada pelas altas cíclicas das marés e intempéries inexoráveis, restou apenas a “Pedra do Chapéu”, símbolo maior e cartão postal da orla esplendorosa.

Apesar disso, Tibau continua sendo minha querida e preferida praia. As lembranças aqui relatadas vêm acompanhadas de uma imensa saudade. Muita. Incomensurável. Prazerosa.

Paulo Menezes é apicultor

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domingo - 15/01/2017 - 04:04h

O mar, os amigos e a saudade em Tibau

Por Paulo Menezes

Antes de mais nada, devo confessar que sou um saudosista incorrigível. Quando estou em frente ao mar, como ocorre no momento, ouvindo o barulho das ondas quebrando na praia, fecho os olhos por um segundo e de repente me vem à lembrança dos tempos áureos de minha juventude vividos com muita intensidade.

Tibau (a 42 quilômetros de Mossoró) foi palco desses anos dourados e que por isso mesmo se torna sempre presente nos meus constantes devaneios.

O “misto” de Isidoro era o transporte que nos levava à bela praia. A estrada era carroçável, com trechos muito arenosos, onde o caminhão necessitava muitas das vezes de nossa intervenção empurrando a condução afim  de que a mesma transpusesse a areia e prosseguisse viagem.

Após mais ou menos uma hora de percurso enxergávamos o coqueiral de Gangorra, aumentando nossa ansiedade em avistarmos as falésias vermelhas da encantadora vila. Era grande a emoção sentida quando o veículo subia o morro de Tibau ao fim do qual, maravilhados vislumbrávamos a beleza verde azulada do mar.

Ali, passávamos dois meses inesquecíveis de veraneio como se fora uma só família.

Manhãzinha cedo, íamos a pé, até à granja de Pergentino, distante mais ou menos um quilômetro, tomar leite de vaca, quentinho, tirado na hora. Antes do banho de mar, tinha a turma da “pelada”, onde com times definidos travávamos disputadas partidas de futebol.

No início da tarde seguíamos fagueiros esperar a chegada das jangadas onde ajudávamos a rolar com toras de carnaúba, a levar a embarcação até à praia, maneira artesanal de conduzir o paquete até o porto seguro. Assistíamos com admiração a partilha do pescado entre o mestre e demais pescadores.

Em dias chuvosos, participávamos como parte integrante dos arrastões, onde aos gritos de Tidó e Ananias, víamos milhares de peixes e camarões serem trazidos pela rede para a beira da praia.

Antes do entardecer ainda tinha as rodadas de pif-paf que entravam pela noite. Não faltavam ao carteado, eu, dona Odete Mendes, Nonato de Ananias, Funela, Pançudo, Dois de Ouro e Josefina.

Depois dos lampiões “Coleman” serem acesos para alumiar a noite, era chegada a hora da boemia. O ponto de encontro era o “morrinho” onde havia a reunião de jovens debutando seus primeiros namoros.

Quando as meninas recolhiam-se às suas casas, os mancebos então partiam para, noite adentro, oferecer-lhes a serenata que com muito romantismo quebrava o silêncio da fria madrugada.

Visitávamos os alpendres de casas da praia do Ceará, e de Tibau, da “Pedra do Chapéu” até a “Furna da Onça”, indo até as cercanias da distante casa de Joaquim Borges.

Finalizando a noite, reuníamos no bar de Manoel Marreira, onde tomando “umas e outras” tirando o gosto com sardinha e mortadela, comentávamos o sucesso da noite criança.

Terminava assim mais um dia de imensa felicidade para no dia seguinte começar tudo de novo.

Aqueles dois meses passavam num minuto. Duraram no entanto uma eternidade.

Não é à toa que Mário Quintana afirma: “A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo”.

Daquele tempo feliz, inesquecível, distante e de mudanças tão profundas, só restaram o mar, amigos e muita saudade.

Paulo Menezes é apicultor e ex-bancário

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Categoria(s): Crônica
quarta-feira - 20/05/2015 - 19:28h
Mossoró

Selos serão lançados valorizando abelhas

Desde a década de 70, graças ao estudo, pesquisa, dedicação e preservação das abelhas jandaíras na região de Mossoró pelo saudoso Monsenhor Huberto Bruening, a cidade passou a ser referência nacional quando se fala no assunto.

Questões como meio ambiente, preservação, ecologia e principalmente abelha jandaíra têm Mossoró no “mapa”.

Por isso que na sexta-feira (22), às 10h, a Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos estará lançando na Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) seis selos comemorativos relacionados com as abelhas brasileiras sem ferrão, dentre as quais a querida abelha jandaíra.

A informação é repassada por Paulo Menezes, estudioso e produtor com respeitabilidade em todo o país.

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Categoria(s): Economia / Gerais
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