domingo - 01/12/2019 - 09:46h

A tragédia anunciada

Por Inácio Augusto de Almeida

Dizer o quê? Que só nos resta rezar pela salvação das nossas almas?

Ou, quem sabe, conscientemente, perder a razão?

Meio paradoxal, mas talvez a única saída inteligente que nos é permitida.

Hemingway e Nava fizeram outra opção. Faltou-lhes a paciência de Jó.Dotados que eram de uma aguçada percepção, pressentiam, anteviam, sem serem pitonisas, baseando-se apenas em análises lógicas, em deduções, para eles simples, o que fatalmente sucederia no amanhã. E, consequentemente, sofriam mais, sofriam duas vezes.

O saber, antecipadamente, sem nada poder fazer para evitar o mal a caminho, gerava nos seus espíritos uma sensação de impotência. O assistir à tragédia, passivamente, enchia as suas almas de uma angústia aniquiladora.

Nada é mais destruidor do que a sensação de impotência.

Quando não se tem vocação para o cinismo, caso em que o compartilhamento social se torna difícil sob todos os aspectos, a vida passa a se assemelhar a um exercício de sobrevivência.

O sentir-se parte de uma massa sem conseguir a ela nivelar-se, sem idiotizar-se e passar a acreditar em tudo, é algo terrificante.

Mas, afora concluir que Nava e Hemingway estavam certos, dizer o quê?

Dizer que Deus resolveu entrar no gozo de uma longa e merecidas férias?

Ou que Ele, cansado de tanta sodomorrice, resolveu tal qual Pilatos, lavar as mãos?

Aonde encontrar a chance derradeira de se fugir à tragédia maior?

Aonde encontrar-se consigo mesmo e ter o direito de ser eu mesmo?

Tornar-se imbecil?

Então, dizer o quê? Que só nos resta rezar pela salvação das nossas almas?

Inácio Augusto de Almeida é escritor e jornalista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/09/2013 - 12:45h

Se eu soubesse brincar

Por Pedro Nava

Si eu tivesse seis anos si soubesse brincar
pedia ao Menino Jesus que viesse me dar
seus brinquedos coloridos

E ele dava mesmo dava tudo
dava brinquedos variados de todas as cores
brinquedos sortidos
dava bolas lustrosas pra eu soltar de noite e
mandar todas pro céu com minha reza

Dava bolas dava quitanda dava balas
e havia de ficar melado, todo doce de minha baba.

E dava homenzinhos, arvinhas, bichinhos, casinhas e
em minhas mãos ingênuas eu tirava o mundo novinho,
cheiroso de cola e verniz, das caixas nurembergue
pra recomeçar deslumbrando a brincadeira da
vida

O Menino Jesus dava tudo si eu fosse menino
si soubesse brincar pra brincar com ele.

Pedro Nava (1903-1984) – Médico mineiro que se inclinou para a pintura e a literatura com rara maestria

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Categoria(s): Poesia
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