segunda-feira - 27/03/2017 - 16:44h
Abril

Juiz da Vara Criminal lançará dois livros em Natal

O juiz da Vara Criminal da Comarca de Currais Novos, Ricardo Antonio Menezes Cabral Fagundes, vai lançar dois livros. Será no próximo dia 7 de abril, das 15h às 19h, no Restaurante Santa Maria, localizado na Rua Rodolfo Garcia, 2147-C, Lagoa Nova, Natal-RN.

Um dos títulos é “O Sistema Prisional Brasileiro Frente à Omissão Estatal e ao Estado de Coisas Inconstitucional” – resultado de sua dissertação de Mestrado em Ciências Jurídicas, dentro do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do RN (UFRN).

Nele, o magistrado faz uma análise do controle jurisdicional das políticas públicas aplicadas à questão.

O outro livro é “Diálogos”, um trabalho em que ele envereda pelo campo da poesia.

Ambos livros saem pela Editora Caravela Selo Cultural.

Acompanhe nosso Twitter AQUI. Notas e comentários mais ágeis.

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Categoria(s): Cultura / Justiça/Direito/Ministério Público
domingo - 11/09/2016 - 11:00h

A Velha, o Mar e a Política

Por Dodora Silva Maia

Depois de cinco décadas acreditando na política que transforma
Comprei quatro redes novas e vou me balançar com o pé na parede
Sinto tédio da velha política de sempre
Dos olhares e abraços que não eram meus.
Da esperança desconfiada da jovenzinha candidata.
A Velha continua sentindo pena
Da crença resistente nas velhas promessas
E fica com os olhos arregalados
Sabendo que as mesmas promessas voltarão um dia
E encherão os olhos e o coração de uma leva de teimosos.
A Velha tem chorado muito com saudade, mas viu uma passeata por acaso e chorou de novo.
Os políticos de plantão deveriam filmar as suas passeatas
E no dia seguinte procurar saber quem era aquele eleitor estropiado
Da camisa surrada e suada insistindo com seu olhar de esperança
Puro contraste com as engomadas blusas de seda das damas invulgares.
E os dedinhos levantados?
Ninguém adotou o mindinho e nem seu vizinho
Já mexeram com o maior de todos, o fura bolo e o mata piolho
E ainda faltaram dedinhos e o jeito foi partir para a outra mão, até dos outros.
E o voto secreto? “Custodi secreto ou portare segreto”.
Tornou-se tão insecreto quanto o olhar indisfarçável do eleitor escabreado.
“Ô promessa desgraçada, ô promessa sem jeito”, como diria Chicó no Auto da Compadecida.
Mas a Velha fica olhando emocionada a firmeza das criancinhas que acreditam nas cores, nos amores e até nos abraços e beijos dos políticos suados que lutam pelo voto.
A Velha já viu políticos bons sendo obrigados a relegar sentimentos
E acredita numa geração que se forma para mudar esse mundo
Nem que seja pela fé num Deus que jamais será infiel
E como diria o Poeta: “Pode-se cortar todas as flores, mas não se pode impedir a primavera.”
E Setembro chegou.

Dodora Silva Maia é escritora apodiense

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Categoria(s): Poesia
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domingo - 28/08/2016 - 21:27h

A concretude do abstrato

Por François Silvestre

“A poesia é a única prova concreta da existência do homem”. Coloquei, na placa da Praça da Poesia, esta citação e o nome do seu autor: Luis Cardoza y Aragón.

Minha surpresa foi o quase completo desconhecimento da existência de Aragón, no universo intelectual da província. Um poeta famoso da terrinha olhou a placa, fez uma careta, e perguntou: “Quem é”?

A Praça da Poesia é um pequeno espaço, na área do Palácio Potengi, onde se aboleta a Pinacoteca do Estado. O prédio estava em estado de risco. Além de maltratado nas estruturas, havia uma linha na armação principal que ameaçava desabar sobre o sistema geral de climatização.

Era o risco iminente de desastre elétrico. Imagine um acidente na eletricidade de um prédio recheado de madeira, tecidos e tintas. Telas, molduras e materiais de exposição. Era como acender um fósforo num recipiente de gasolina. Decidi restaurar e recuperar o imóvel histórico. E o fiz.

Volto à pracinha da poesia. Atendi a um apelo de Alexandre Dunga Garcia, líder da bela e nobre pobreza do Beco da Lama. Nem sei se a Praça ainda existe. O que não foi abandonado foi destruído, sob o olhar complacente e omisso dos ditos órgãos de controle.

E pus na placa da Praça a citação corajosa de Aragón, de que o homem só se prova existente pela invenção da poesia. E não pela pompa das edificações monumentais.

Um intelectual renomado, numa praça de shopping, perguntou se a citação não era de Octávio Paz. Ele não conhecia, mas achava pouco provável ser de um desconhecido seu. Essa coisa que só a vaidade explica. Respondi marotamente que o grande pensado Mexicano jamais furtaria o crédito.

Luis Cardoza y Aragón foi poeta, diplomata e resistente democrata na Guatemala dos meados do Século Vinte. Viveu mais tempo no exílio do que em casa.

Num dos intervalos da exceção, ele foi designado embaixador na Colômbia. E estava lá, numa noite de terror do mês de Abril de 1948. O líder populista Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, o que provocou uma onda de terror pelas ruas de Bogotá.

Muitos dos perseguidos, naquela noite, buscaram refúgio na embaixada da Guatemala. Gabriel Garcia Marques, no seu livro de memórias, quase depoimento, conta o episódio e diz que a Colômbia entrou no Século Vinte naquele dia.

E foi o autor dos “Cem Anos de Solidão” quem fez um retrato falado do caráter de Luis Cardoza y Aragón. O caráter político e o talento poético.

Ele repetiu a frase que, surpreendentemente, eu descobri ser desconhecida de alguns dos nossos intelectuais cadastrados. É isso mesmo. Nós temos um cadastro de intelectuais. Jenicleide já pediu o cadastramento de Florentino Vereda. Vai ter licor de mangaba e conhaque de araticum-cagão.

No meio da concretude estúpida dos novos tempos, a suave abstração da poesia.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

 

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Categoria(s): Artigo
domingo - 14/08/2016 - 03:30h

Vindo da ida

Por François Silvestre

Quem chega em casa aos setenta/

Vindo do ermo da ida,

Arrastando as armas que pendem da cintura,/

Na ferrugem de todas as perdas,/

Apenas vê as ruínas das paredes/ da velha casa

Que ainda lhe oferece abrigo./

Feita de tristeza? Não. De solidão? Menos ainda./

Há todo um encanto de chegada/ que faz dos setenta/

Uma triste alegria de quem nunca saiu dali/.

Esteve sempre preso nas cinzas amareladas da

Espera. /

E se não esperou chegar/ também não partiu./

Imita o rei dos celtas ante o conquistador romano:/

Joga as armas no chão/ procurando um vencedor inexistente!

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Poesia
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domingo - 15/11/2015 - 22:56h

O apanhador de desperdícios

Por Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros era poeta sul-mato-grossense, falecido aos 97 anos, em novembro do ano passado.

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domingo - 03/05/2015 - 06:44h

Mundo pequeno

Por Manoel de Barros

I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II

Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Língua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VII

Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

Manoel de Barros (1916-2014) –

* Extraído da publicação “O Livro das Ignorãças”.

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domingo - 03/05/2015 - 04:55h

Aos da minha geração (À memória de Juan Ponce de León)

Por François Silveste

Você não é velho do olhar de dentro,/ do que mantém interno o sentir-se jovem./ Sua velhice é do olhar dos outros,/ dos espelhos que você não quebra./

As murrinhas do corpo são de todos os tempos./ Sarampo, caxumba, bexiga, rubéola, vacina./ Depois; polução, convulsão, broxura, paixão./

Da vez de amadurecer,/ vem junto do duro a dureza./ Rinite, colite, hepatite, trombose, oração./

Do que fora osso duro/ vem torcicolo, reumatismo, comunismo, ganância, militância,/ ressaca e depressão./

Alheios olhos dos detetives da desgraça,/ a oferecer de graça os serviços de informar:/ “você tá ótimo”./

Não creia, você não tá ótimo./ Tá jovem nos seus olhos de dentro./ Esqueça os olhos de fora,/ ignore os espelhos,/ deixe que a espuma acaricie os pelos camaleões ./ Furta-cores./

Encontrei dona Etelvina Gato/ na Praça de Umarizal./ “cabelos negros, dona Etelvina”?/ Ela responde:/ “Pois é; na cabeça, onde só teve atropelo,/ tá tudo preto./ Lá embaixo tá tudo branco, e só foi diversão”./

A vida é assim./ Nem sempre o preto tá no branco ou o branco no preto./ Somos, na vida, os cabelos ou os pentelhos de dona Etelvina./

Que tempos vivemos?/ jovens ou velhos tempos,/ a imitar a repetida velhice./ Ou tempos de repetir a mocidade,/ deixando para o relógio o tiquetaquear das horas./

Minha geração foi tudo, menos velha./ Teve caxumba, catapora, gonorreia e esperança./

Onde anda o código de cada geração,/ de que falou Paulo Francis? A de hoje deve uma promissória ao seu tempo./ E não se entende./ Falta-lhe um código./ Ou a decodificação.

E você é que é velho?/ Exiba suas rugas ante a lisura da pele dos que se negam a enrugar sua mocidade triste./ Será que é preciso a repressão para despertar o entusiasmo?/

Não. Não precisa./ Pague o preço do seu tempo,/ enfrente os demônios,/ pois toda época possui hospedeiros do inferno./

Na Bíblia, há as bestas do apocalipse./ Coisa para luta de heróis./ Não é tarefa pra nós./ Agora, são os jegues do eucalipto./

Na minuta daqui do tempo confuso,/ entre mofumbos e parafusos,/ são três os jegues do monturo./ Velhos, fantasiados de jovens./ Imundos e pousados de limpos./

Assim enumerados,/ sem números, não se conta./ O primeiro é o jegue moralista,/ que rincha./ Do barulho, não deixa a vizinhança da liberdade dormir./

O segundo é o fundamentalista, que escoiceia./ Aos gestos estúpidos da violência,/ confunde coragem com histeria./

O terceiro é o intolerante, que bufa./ Emprestado dos outros,/ nada ouve além do rincho,/     murcha as orelhas, mas falta-lhe o coice./

Vivam todas as idades/Todos os afetos/Todas as saudades!

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 22/02/2015 - 10:12h

Sextilhas românticas

Por Manuel Bandeira

Paisagens da minha terra,
Onde o rouxinol não canta
– Mas que importa o rouxinol?
Frio, nevoeiros da serra
Quando a manhã se levanta
Toda banhada de sol!

Sou romântico? Concedo.
Exibo, sem evasiva,
A alma ruim que Deus me deu.
Decorei “Amor e medo”,
“No lar”, “Meus oito anos”… Viva
José Casimiro Abreu!

Sou assim, por vício inato.
Ainda hoje gosto de *Diva*,
Nem não posso renegar
Peri, tão pouco índio, é fato,
Mas tão brasileiro… Viva,
Viva José de Alencar!

Paisagens da minha terra,
Onde o rouxinol não canta
– Pinhões para o rouxinol!
Frio, nevoeiros da serra
Quando a manhã se levanta
Toda banhada de sol!

Ai tantas lembranças boas!
Massangana de Nabuco!
Muribara de meus pais!
Lagoas das Alagoas,
Rios do meu Pernambuco,
Campos de Minas Gerais!

Manuel Bandeira (1886-1968) poeta, crítico de arte e literário, tradutor e professor de literatura pernambucano

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domingo - 04/01/2015 - 10:35h

Poesia e magistratura

Por Marcos Mairton

Certa vez, fui perguntado
Sobre como eu conseguia
Dedicar-me à poesia
Sendo eu um magistrado.
Vivendo tão ocupado,
Com as questões do Direito,
Como é que dava jeito
Para escrever rimando,
E também metrificando,
Fazendo verso perfeito?

Eu, antes de responder,
Calado, pensei assim:
Quem pergunta isso pra mim
Não conhece o “métier”
De quem tem que resolver
Toda sorte de conflito.
Que de perto escuta o grito
Da nossa sociedade,
Clamando por igualdade,
Pedindo pena ao delito.

Ser poeta e ser juiz
O que há de estranho nisso,
Pra quem tem o compromisso
De ouvir a parte o que diz?
Que vê o olhar feliz
De quem ganhou a questão
E tem a satisfação
De sentir que fez Justiça
Reparando a injustiça
Que atingiu o cidadão?

Eu penso que a poesia
Está em todo lugar,
E quem vive a julgar
A encontra todo dia:
Quando o parquet denuncia
Quando o réu faz sua defesa
Quando a polícia traz presa,
Gente por ela detida,
É a poesia da vida
Que me chega de surpresa!

A poesia aparece
Quando o advogado
No pedido formulado
Diz: – Doutor, ela merece,
Todo dia sobe e desce
A ladeira da “Queimada”
Carregando uma enxada
Para trabalhar na roça
Não é justo que não possa
Ser agora aposentada.

A poesia é presente
No olhar do acusado
Seja quando é culpado,
Seja quando é inocente.
Na testemunha que mente,
E na que fala a verdade.
Na imparcialidade
Que todo juiz queria.
Veja quanta poesia
Em nossa realidade.

Por isso eu acho normal
Que todo bom magistrado
Venha a ser considerado
Poeta em potencial.
Incorre em erro fatal
Quem quiser fazer sentença
Somente com o que pensa
Sem revelar o que sente.
Um juiz desse, é urgente
Que se afaste, de licença.

Tulio Liebman lecionava,
Que a sentença é assim,
Vem de “sentire”, em latim,
E, dessa forma, ensinava:
Que na sentença se grava
Não somente o pensamento,
Mas também o sentimento
Do juiz que a profere.
Que ninguém desconsidere
Esse grande ensinamento.

Se o poeta, realmente,
Não é mais que um “sentidor”.
Que chega a sentir que é dor
“A dor que deveras sente”,
Juiz não é diferente
Quando cumpre sua função.
Mesmo quando a decisão
Em versos não se transforma
Na aplicação da norma
Há uma carga de emoção.

Fique tranqüilo, portanto,
Meu colega, magistrado,
Se, agora, aí sentado,
Lhe surpreender o pranto.
Pois não será por encanto,
Magia ou maldição.
É só manifestação,
Que nesse instante sentiste,
Do poeta que existe
Dentro do seu coração.

Marcos Mairton é juiz federal nascido em Fortaleza-CE, escritor, músico e poeta

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Categoria(s): Poesia
domingo - 07/12/2014 - 06:38h

O aeroplano

Por Ivan Junqueira

Quando eu fiz cinco anos,

Meu pai deu-me de presente um aeroplano

Que ele próprio construíra

Com finas hastes de bambu e papel de seda.

Tão leve quanto uma libélula,

O frágil engenho voou até desaparecer

Por detrás do muro do quintal

E dos últimos reflexos de um poente de verão.

Ninguém mais o encontrou.

Eu ia na cabine. Eu e minha infância,

Que nunca mais voltou.

Ivan Junqueira (1934-2014) – foi poeta carioca, crítico literário, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL)

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Categoria(s): Política
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domingo - 12/10/2014 - 09:38h

Meus brinquedos

Por Clarice Pacheco

De repente
Ao lembrar dos brinquedos queridos
Que ficaram esquecidos
Dentro do armário
Me bate uma saudade
Me bate uma vontade
De voltar no tempo
De voltar ao passado
Mas nada acontece
Nada parece acontecer
E eu choro
Choro como o bebê que fui
E a criança que quero voltar a ser
Não quero crescer!

Clarice Pacheco (1989-2002) foi uma jovem escritora brasileira

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Categoria(s): Poesia
domingo - 21/09/2014 - 06:03h

Rocas-Quintas

Por Paulo de Tarso Correia de Melo

Vive no subúrbio, a moradia
alugada, o trabalho extraordinário,
o ônibus, o dia a dia
e a aventura do crediário.

A novela-poesia
ao alcance do salário.
A televisão-fantasia
e a mágica do mobiliário.

Restos de infância e graça:
cinema de bairro, carrossel na praça
e o mar, quatro festa do ano.Mas o corpo é belo e passa:
frágil alvenaria, perecível massa.
Hoje te amo.

Paulo de Tarso Correia de Melo é poeta potiguar

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domingo - 07/09/2014 - 11:45h

O mapa

Por Mario Quintana

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

Mario Quintana (1906-1994) poeta, escritor, jornalista e cronista gaúcho

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Categoria(s): Grandes Autores e Pensadores / Poesia
domingo - 31/08/2014 - 08:21h

Antes da primavera

Por Aluísio Barros

Quero brincar com teus olhos
e tentar reencontrar cantigas
com cheiro de lençol guardado.

Quero entrar nos teus olhos
e deixar-me por eles ser varado
feito sol e manhã, chuva e vento.

Quero  ganhar-me em teus braços
e acordar rejuvenescido e viçoso
tal a flor que nasce e se entrega,
corpo e alma, para o dia,
sem perturbar-se com a tarde
a lhe roubar o viço,
fechando-lhe os olhos para a nova manhã
que sera varada pelo sol, chuva e ventania.

Quero perder-me dentro de ti.
E, se nada sobrar desta fantasia,
contentar-me-ei com estes versos
feitos sobre este sopro que me trouxestes
numa tarde em que tudo parecia perdido.

Aluísio Barros é professor e poeta

* Extraído do livro “Dos amores que beiram os meus caminhos e outros poemas.”

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Categoria(s): Poesia
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domingo - 24/08/2014 - 10:05h

Do nada

Por Fátima Feitosa

Você incendiou uma chama
E a minha carne inflama.
Agora, ardo em brasas da paixão,
Louco desejo carnal, puro tesão!

Você, com cara de anjo de candura,
Com palavras, encadeadas, faz loucura!
Revira o avesso da realidade imaginada
E promete-me a emoção sonhada.

Você olha e aspira outros sabores,
Almeja degustar n ovos odores…
Tem gula no olhar de criança,
Desfruta o play-ground, avança.

De gangorra e cavalinho passeia,
Degusta fruta saborosa, incendeia!
Contornando relevos provocantes,
Pele, pelos e contornos estimulantes.

Fátima Feitosa é poetisa e pedagoga

*Extraído do livro da autora – “À flor da pele”.

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Categoria(s): Poesia
domingo - 20/07/2014 - 09:49h

Subversiva

Por Ferreira Gullar

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar é pseudônimo de José Ribamar Ferreira, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta

 

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domingo - 06/07/2014 - 08:54h

Tuas mãos

Por Pablo Neruda

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda foi cônsul chileno no México e Espanha e poeta

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domingo - 29/06/2014 - 07:14h

Chegando em casa

Por Affonso Romano de Sant´Anna

Chegando em casa
com a alma amarfanhada
e escura
das refregas burocráticas
leio sobre a mesa
um bilhete que dizia:

– hoje 22 de agosto de 1994
meu marido perdeu, deste terraço:

mais um pôr de sol no Dois Irmãos
o canto de um bem-te-vi
e uma orquídea que entardecia
sobre o mar.

Affonso Romano de Sant´Anna é poeta e cronista

 

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domingo - 18/05/2014 - 11:42h

Cada vez

Por Aluísio Barros

Cada vez que ela se avultava na tarde que nascia,
avolumando-se feito manhã dentro de mim,
eu preparava a cama,
sem saber que a tornava insone,
estéril.

Setenta vezes sete mil,
em mim, partida,
a vida se perdia,
embora eu não cansasse de querer teus olhos
sobre os meus
e não deixasse morrer em mim
esse desejo insano de cravar-me em ti.

Aluísio Barros é poeta, cronista e professor

 

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Categoria(s): Poesia
domingo - 30/03/2014 - 10:03h

Desencontrários

Por Paulo Leminski

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Paulo Leminski (24 de agosto de 1944 a 7 de junho de 1989) foi um escritor, poeta, crítico literário, compositor, tradutor e professor nascido em Curitiba-PR

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domingo - 23/03/2014 - 08:44h

Tecendo a manhã

Por João Cabral de Mello Neto

1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Mello Neto (1920-1999) – foi um poeta e diplomata brasileiro

 

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Categoria(s): Cultura / Poesia
domingo - 16/03/2014 - 06:56h

Os burros

Burro, meu doce e torturado mano!

dizem que esse teu lombo foi coberto

pela cruz, desde quando, a passo lhano,

conduziste Jesus, pelo deserto.

 

Teria o bom Menino feito certo?

Creio que andou num bem ingrato engano,

pois que essa cruz é o teu destino aberto

–  o trabalho, e o chicote desumano.

 

Como tu, há criaturas no planeta.

(Que o relativo espiritual te valha!)

–  É bem duro viver de uma caneta…

 

Nosso pão do Evangelho, irmão jumento,

é o mesmo: tu morrendo na cangalha,

nós  – com o sangue e o suor do Pensamento!

 

Othoniel Menezes (poeta potiguar já falecido)

 

*Poema retirado do livro: “Othoniel Menezes – Obra reunida”, pg. 743

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Categoria(s): Poesia
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