domingo - 09/03/2014 - 10:17h

Poema nos meus 43 anos

Por Charles Bukowski

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.

… de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.

Charles Bukowski (1920-1994) – Poeta e contista nascido na Alemanha.

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domingo - 23/02/2014 - 07:21h

Amores desiguais

Por Aluísio Barros

Essa navalha na carne
Esse desejo de morte
Essas cores, essas dores
esses dias tão sem norte.

Não, não pode ser
Eu e você
Não, nunca vai ser.

Este sol que nasce e não se mostra
Esta lua que em mim vai se alojar
Estes dias quase sempre desiguais
estas noites, falsas cores.

Não, não pode ser
Eu, e você
Não, nunca vai ser.

Estas ruas pequeninas a esconder
Estes olhos que me espiam sem falar
Estas bocas que me olham e se calam
Este canto, este pranto
Este rio sem carregos
Este mar que nos separa
Estes anjos e arcanjos
Meus santos, todos os santos
Que acampam ao teu lado
Eu e você
Não, nunca vai ser
Nunca mais!

Aluísio Barros é professor, poeta e cronista

* Extraído do livro “Dos amores que beiram os meus caminhos e outros poemas”

 

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domingo - 09/02/2014 - 11:40h

Amanhecer

Por Chico Xavier

Quero nascer de novo em cada dia que nasce.
Quero ser outra vez novo, puro, cristalino.
Quero lavar-me, cada manhã, do homem velho,

da poeira velha, das palavras gastas, dos gestos rituais.
Quero reviver a primeira manhã da criação,

o primeiro abrir dos olhos para a vida.
Quero que cada manhã, a alma desabroche do sono

como a rosa do botão, e surja, como a aurora do oceano,

ao sorriso dos teus lábios, ao gesto de tua mão.
Quero me engrinaldar para a festa renovada

com que cada dia nos convidas e desdobrar as asas como a águia em demanda do sol.

Quero crer, a cada nova aurora, que esta é a definitiva,

a do encontro com a felicidade,

a da permanência assegurada,

a de teu sim definitivo.

Chico Xavier (1910-2002) – Médium e filantropo brasileiro

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domingo - 26/01/2014 - 03:06h

Pergunta-me

Por Mia Couto

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer.

Mia Couto é escritor moçambicano

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domingo - 12/01/2014 - 07:48h

Um olhar cangaço

Por Moacy Cirne

um certo cansaço
um lambelambe sem memória
um velho cinema pax
um cão sem plumas
um potengi ao crepusculecer
um maraca maracanã
um poema sem poesia
um xerenhenhenhé de mulher
um quase tudo nenhum
e
50
sonhos adormenguecidos.

Moacy Cirne (1943-2014) Professor, jornalista, escritor e poeta seridoense falecido ontem

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domingo - 05/01/2014 - 10:18h

Florescer

Por Caio César Muniz

Eu, cactus do sertão
tentei ser pedra,
luta vã,
não consegui.

Nasceram flores
ao amanhecer
do primeiro inverno.

e lágrimas brotaram
da pedra em plena
seca.

Descobri:
sou cactus,
tenho espinhos,
mas não posso negar
minhas flores.

E pedra é pedra,
chora, mas não ama.

Caio César Muniz é poeta e escritor cearense há muitos anos radicado em Mossoró

 

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domingo - 22/12/2013 - 07:43h

Deserto coração

Por Jorge Mota

A rua está deserta
Como deserto está meu coração
A lua, de um tom fosco-opaco,
Lá em cima, já não brilha,
Talvez? Ressentida com a minha solidão.

Deserto coração
Aflito! Atônito!
Fantasiando sonhos
Na utopia da paixão.

E o meu coração deserto,
Cavalga, sem direção
Em busca do seu platônico amor
Com o coração atordoado, cheio de temor.

Jorge Mota é poeta mossoroense

Coração deserto?
É… deserto está o meu coração…
Como um cavalo alado
É um andarilho da solidão…
Fantasiando sonhos
Perdido no irreal mundo da paixão ou da desilusão.

 

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domingo - 01/12/2013 - 08:09h

Ternura

Por Vinícius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma…
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Vinícius de Moraes (1913-1980) – Compositor, poeta, amante da vida…

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domingo - 17/11/2013 - 09:55h

Significados do amor

Por Chico Xavier

Vida
É o amor existencial.
Razão
É o amor que pondera.
Estudo
É o amor que analisa.
Ciência
É o amor que investiga.
Filosofia
É o amor que pensa.
Religião
É o amor que busca a Deus.
Verdade
É o amor que eterniza.
Ideal
É o amor que se eleva.

É o amor que transcende.
Esperança
É o amor que sonha.
Caridade
É o amor que auxilia.
Fraternidade
É o amor que se expande.
Sacrifício
É o amor que se esforça.
Renúncia
É o amor que depura.
Simpatia
É o amor que sorri.
Trabalho
É o amor que constrói.
Indiferença
É o amor que se esconde.
Desespero
É o amor que se desgoverna.
Paixão
É o amor que se desequilibra.
Ciúme
É o amor que se desvaira.
Orgulho
É o amor que enlouquece.
Sensualismo
É o amor que se envenena.
Finalmente, o ódio, que julgas ser a antítese do amor, não é senão o próprio amor que adoeceu gravemente.

Chico Xavier (1910-2002) foi líder e médium espírita

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domingo - 10/11/2013 - 11:12h

Desejos

Por Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês…
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) poeta e escritor mineiro

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domingo - 03/11/2013 - 07:02h

Recado aos amigos distantes

Por Cecília Meireles

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles (1901-1964) – Poetisa brasileira

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domingo - 27/10/2013 - 11:43h

O sonho

Por Clarice Lispector

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

Clarice Lispector – (1920 – 1977) foi escritora brasileira de origem judia nascida na Ucrânia

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domingo - 13/10/2013 - 10:33h

A virtude

Por Torquato Neto

a) A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe;
acabe logo comigo ou se acabe.

b)  A virtude e o próprio vício
– conforme se sabe –
estão no fim, no início da chave.

c)  Chuvas da virtude, o vício, conforme se sabe;
é nela propriamente que eu me ligo,
nem disco nem filme:
nada, amizade.
Chuvas de virtude: chaves.

d)   (amar-te/  a morte/  morrer: há urubus no telhado e carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa:
só escapo pela porta de saída).

e)  A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
as não vê nada, se lembra?

f) A virtude mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
“como dois mais dois são cinco”
como Deus é precipício, durma,
e nem com Deus no hospício (durma) nem o hospício
é refúgio.
Fuja.

Torquato Neto (1944-1972) – Poeta, compositor e jornalista piauiense

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domingo - 29/09/2013 - 12:17h

Despojos

Por Clauder Arcanjo

O palhaço partiu,
os balões ficaram flácidos,
o bolo carcomido, e
as crianças despedem-se sem graça.

Na rua em frente, um balão a quicar,
com o vento trigueiro a levá-lo…
Preguiçoso, a rolar pelas pedras,
cabreiro, a acenar para a noite da favela.

De repente, uma luz dúbia na janela,
um olho na fresta, e um coração,
infante, a rezar pelo atraso do lixeiro,
para reinar cedo nos despojos da alegria.

Clauder Arcanjo é escritor e poeta cearense

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domingo - 15/09/2013 - 12:45h

Se eu soubesse brincar

Por Pedro Nava

Si eu tivesse seis anos si soubesse brincar
pedia ao Menino Jesus que viesse me dar
seus brinquedos coloridos

E ele dava mesmo dava tudo
dava brinquedos variados de todas as cores
brinquedos sortidos
dava bolas lustrosas pra eu soltar de noite e
mandar todas pro céu com minha reza

Dava bolas dava quitanda dava balas
e havia de ficar melado, todo doce de minha baba.

E dava homenzinhos, arvinhas, bichinhos, casinhas e
em minhas mãos ingênuas eu tirava o mundo novinho,
cheiroso de cola e verniz, das caixas nurembergue
pra recomeçar deslumbrando a brincadeira da
vida

O Menino Jesus dava tudo si eu fosse menino
si soubesse brincar pra brincar com ele.

Pedro Nava (1903-1984) – Médico mineiro que se inclinou para a pintura e a literatura com rara maestria

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domingo - 08/09/2013 - 10:22h

Retrato

Por Aluísio Barros

Chão seco. Sol ardente.
Nuvens esparsas. Pássaros lentos.

Magras vacas. Cegas facas.
Vibrante eco do jumento.

Fontes secas, árvores mortas,
Estradas longas. Paisagens cansadas

Sonhos mortos. Vidas secas
Pássaros lentos… no pouso.

Rosto cansado, mãos calejadas,
sol escaldante. Esperanças…

Desejo de ir, apego no ficar
incertos caminhos. Vontade de sonhar.

Nordeste… Caatinga… Sertão.
Xique-xique ou palmáceaas. Espinhos no coração.

Aluísio Barros é apodiense de nascimento, mossoroense por adoção. Poeta, cronista, professor e escritor, ele publicou recentemente seu mais novo livro (Dos amores que beiram os meus caminhos e outros poemas), do qual foi extraído esse texto poético acima.

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domingo - 25/08/2013 - 07:25h

Lembrança

Por Aécio Cândido

Resta de ti a saudade,
gasosamente infiltrada
em todos os espaços da casa;

resta de ti o eco doloroso
de tua voz batendo insistentemente
nas paredes descolando do cérebro
lembranças entranhadas.

Resta na sala,
no jardim,
em tudo acesamente,
tua presença escorregadia
vagando indiferente
à tempestades dos meus olhos.

Aécio Cândido é professor, ator, poeta e atual vice-reitor da Universidade do Estado do RN (UERN)

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domingo - 18/08/2013 - 08:34h

O velho deus da fome e o político mentiroso

Por Luiz Campos

Se a deusa inspiradora
Não negar-me inspirição
Eu vou versar uma cena
Que me chamou a atenção
De um velho e um político
Numa época de eleição.

Numa noite eu ia às trelas
Sem saber pra onde ia
Fui sair numa hodega
De uma periferia
E vi uma multidão
Fui saber o que havia.

Cheguei lá era um político
De paletó, de colete,
O bucho cheio de Whisky,
Caviar e rabanete
Improvisando um comício
Trepado num tamborete.

Como essas coisas chamam
Atenção do curioso
Eu pensei com meus botões
Não é hora de repouso
Eu vou ouvir meia hora
O político mentiroso.

O moço falava bem
Devido ter muito estudo
Puxava os “érres e ésses”
Caprichava o ponto agudo
Mas para iludir matuto
Nem precisa disso tudo.

No discurso prometia
Que se ganhasse botava
Água e luz em todo canto
Até emprego arranjava
Mas só da boca prá fora
Porque nisso nem pensava.

E prometia também
Fazer a Maternidade
Praça com parque infantil
Melhorar toda a cidade
E o povo de boca aberta
Pensando que era verdade.

De vez em quando ao outro
Candidato ele atacava
Partido bom, era o dele;
O do outro, não prestava
Apontava erros alheios
Mas os dele não mostrava.

De vez em quanto uma salva
De palmas aparecia
Porém um batia palma
Mas já outro, não batia
Um dizia: – Já ganhou;
Mas já outro não dizia.

E ele continuou
No rosário de promessa
Dizendo: – Vamos mudar
Pra melhor, a vez é essa.
Só porque todo político
Só confia na conversa.

Pedia voto pra ele
E pra outro candidato
E saiu mais de um moleque
Distribuindo retrato
Eu até recebi um
Mas joguei logo no mato.

Fiquei prestando atenção
Ouvi tin-tin por tin-tin.
Um dizia: – O homem é bom;
Outro dizia: – ele é ruim
Porque se ele prestasse
Não tava mentindo assim.

Ouvi um negro dizer:
– Vamos votar no rapaz
outro negro respondeu
– Quem votar nele só faz
retirar Jesus do trono
pra colocar satanás.

Vendo o povo dividido
Eu fiquei meio indeciso
Nisso falou um senhor,
Desses que possuem juízo
Quem votar em qualquer um
O povo tem prejuízo.

E ele continuou:
– Faço isso, faço aquilo
pois político demagogo
nem pra falar tem estilo
quando fala é “intirisse”
como cantiga de grilo.

Nesse momento um velhinho
Da idade de Noé
Desses que só dá um metro
Depois que se põe em pé
Gritou no meio do povo:
– me dê licença, seu Zé.

O senhor já falou muito;
Sei que o senhor fala bem
Mas se o senhor tem direito
Eu acho que a gente tem
Dê licença dez minutos
Que eu quero falar também.

Eu sou do século passado
Nem da minha idade eu sei.
Me criei sem ter escola
Não cresci, atrofiei
Mas em mulher e político
Até hoje não confiei.

O senhor vai desculpando
Que eu sou meio arigó
Político é como menino
Desses criado por vó
Que quer tudo quanto vê
Pede muito e come só.

Você prometo água e luz
Dizendo que é prá JÁ
Eu tenho plena certeza
Que não acontecerá
Mas se isso acontecer
De nós pobres, o que será?

Se o senhor botar luz
Todo mês cobra uma taxa
E só chega taxa alta,
Nunca chega taxa baixa
Que água e luz só dão certo
Pra quem tem grana na caixa.

E a luz tem outro troço
Entre os outros mais nojentos
Todo mês chega um papel
Cada papel, um aumento
E a gente fica sem luz
Se atrazar o pagamento.

Aumento em cima de aumento
Que de nós ninguém tem dó
Água e luz já estão mais caros
Do que mesmo o ouro em pó
Garanto que ninguém paga
Dois papéis de um preço só.

A água é do mesmo jeito
Dia tem, oito não tem
O órgão que distribui
Nunca explicou pra ninguém
Mas todo final de mês
Espere o papel que vem.

E se o asfalto passar
Acaba o nosso aveloz
Depois do tapete preto
O carro passa veloz
Pra matar nossas crianças,
Passar por cima de nós.

E essa maternidade
Isso é um plano perdido
Porque mulheres daqui
Quase todas têm marido
E as que não são ligadas
Só vivem no comprimido.

Quando o velho falou isso
O povo reconheceu
E quem gritou: – Já ganhou
Ai gritou: – já perdeu
E ele desconfiado
Do tamborete desceu.

Ainda tentou falar
Porém tudo foi em vão
Trepado não ganhou nada
Avalie tando no chão
Ainda estirou o braço
Mas ninguém pegou na mão.

Ele meio desajeitado
Pegou o carro e saiu
Com tanta velocidade
Chega a poeira cobriu
Em menos de um segundo
Numa curva se sumiu.

Mas como a derrota é triste
Eu sentí pelo rapaz…
Falar tanto, ganhar nada,
Mas quem promete e não faz
Só é bom que seja assim
Goze menos, sofra mais.

Me aproximei do velho
Perguntei: – como é seu nome?
Ele disse: – Sou José,
Mas me chamam “Deus da Fome”
Porque vivo revoltado
Com quem trabalha e não come.

Aí voltei para casa,
Fui dormir e não dormi
Passei a noite acordado
Pensando no que ouvi
E como estava sem sono
Este folheto escrevi.

Luiz Campos – (1939-2013) – Poeta mossoroense falecido à semana passada

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domingo - 28/07/2013 - 10:42h

Sobre Cacilda. Preta. Por fome

Por Homero Homem

Cacilda. Preta. Por fome
(essa fome nordestina
sergipe de tão comum)

Cacilda preta, por fome
de comida se dá toda.
Por amor só da a um.

Mau comércio de Cacilda.
Cacilda dorme com todos
mas acorda sem nenhum.

Vigarice de Cacilda
pelas Lapas do sol posto
cavando seu desjejum:

Se espoja em cama de vento
apaga a vela a Ogum.
O corpo vira cem pratas.
Com vinte de safadeza
Mais dez de semvergonhice
Cacilda compra pimenta.
Meia-noite janta atum.

Ah profissão de Cacilda
que deita por feijão preto
e nana por gerimum.

Deita, Cacilda. Deitada
a fome quebra o jejum.

Cacilda preta expedita
polvilha pele e axila.

Com talco leite de rosa
desodoriza o bodum.

Cacilda preta expedita.
Sempre fatura algum.

Cacilda negrinha à toa
Mulher de Cosme e Doum.

Com fome se dá a todos.
Jantada, só dá a um.

Homero Homem (1921-1991) – Poeta potiguar, nascido em Canguaretama

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domingo - 21/07/2013 - 13:07h

Um bairro chamado Lagoa do Mato

Por Antônio Francisco

Nasci numa casa de frente pra linha,
Num bairro chamado Lagoa do Mato.
Cresci vendo a garça, a marreca e o pato,
Brincando por trás da nossa cozinha.
A tarde chamava o vento que vinha
Das bandas da praia pra nos abanar.
Titia gritava: está pronto o jantar!
O Sol se deitava, a Lua saia,
O trem apitava, a máquina gemia,
Soltando faísca de fogo no ar.

O galo cantava, peru respondia,
Carão dava um grito quebrando aruá,
A cobra piava caçando preá,
Cantava em dueto o sapo e a jia,
Aguapé se deitava e depois se abria,
Soltava seu cheiro nos braços do ar
O vento trazia pro nosso pomar,
Vovô se sentava no meio da gente
Contando história de cabra valente
Ouvindo lá fora do vento cantar

Mas hoje nosso bairro está diferente.
Calou-se o carão que cantava na croa,
A boca do tempo comeu a lagoa
E com ela se foi o sossego da gente.
O vento que sopra agora é mais quente
E sem energia não sabe soprar.
A máquina do trem deixou de passar,
Ninguém olha mais pros raios da Lua
Que vivem perdidos no meio da rua
Por trás dos neóns sem poder brilhar.

Perdeu-se traíra debaixo do barro,
O sapo e a jia também foram embora.
Aguapé criou pé, deu no pé e agora?
Só rosas de plástico tristonhas num jarro,
Fumaça de lixo, descarga de carro,
Suor de esgoto pra gente cheirar,
Telefone gritando pra gente pagar,
Um louco na rua rasgando uma moto,
Um besta na porta pedindo o meu voto
E outro lá fora querendo comprar.

Um carro de som fanhoso bodeja:
Tem água de coco, tem caldo de cana,
Cocada de leite, gelé de banana,
Remédio pra caspa, tem copo, bandeja.
Uns quatro vizinhos brincando de igreja
Vão pra calçada depois do jantar.
O mais exaltado começa a pregar:
Jesus é fiel, castiga, mas ama!
E eu sem dormir rolando na cama
Pedindo a Jesus pro culto acabar.

E pegue zoada por trás do quintal:
Salada, paul, pomada, paçoca,
Pamonha, canjica, bejú, tapioca,
A do Zé tem mais coco, a do Pepe é legal!
Dez bola, dez bola, só custa um real!
Mas traga a vasilha pra não derramar!
Apuveite! Apuveite!
Que vai se acabar!
E alguém grita: gol!
Minha casa estremece
E eu digo baixinho: meu deus se eu pudesse
Armar minha rede no fundo do mar!

Antônio Francisco é poeta e membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel

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domingo - 07/07/2013 - 12:19h

Guardar

Por Antônio Cícero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antônio Cícero é poeta e escritor brasileiro

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domingo - 16/06/2013 - 10:52h

A rua

Por Torquato Neto

Toda rua tem seu curso
Tem seu leito de água clara
Por onde passa a memória
Lembrando histórias de um tempo
Que não acaba

De uma rua, de uma rua
Eu lembro agora
Que o tempo, ninguém mais
Ninguém mais canta
Muito embora de cirandas
(Oi, de cirandas)
E de meninos correndo
Atrás de bandas

Atrás de bandas que passavam
Como o rio Parnaíba
O rio manso
Passava no fim da rua
E molhava seus lajedos
Onde a noite refletia
O brilho manso
O tempo claro da lua

Ê, São João, ê, Pacatuba
Ê, rua do Barrocão
Ê, Parnaíba passando
Separando a minha rua
Das outras, do Maranhão

De longe pensando nela
Meu coração de menino
Bate forte como um sino
Que anuncia procissão

Ê, minha rua, meu povo
Ê, gente que mal nasceu
Das Dores, que morreu cedo
Luzia, que se perdeu
Macapreto, Zé Velhinho
Esse menino crescido
Que tem o peito ferido
Anda vivo, não morreu

Ê, Pacatuba
Meu tempo de brincar já foi-se embora
Ê, Parnaíba
Passando pela rua até agora
Agora por aqui estou com vontade
E eu volto pra matar esta saudade

Ê, São João, ê, Pacatuba
Ê, rua do Barrocão

Torquato Neto (1944-1972) – Jornalista, poeta, compositor e escritor piauiense

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Categoria(s): Poesia
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