domingo - 02/12/2012 - 03:10h

Tatuagem

Por Cid Augusto

O colibri que habita aquelas costas,
Sugando a carne fresca com o  bico,
É a quem nestes versos eu suplico
O caminho secreto das respostas.

Serás por entre gritos, entre espasmos,
Passarinho liberto e prazenteiro
Ou apenas um reles prisioneiro
Do corpo, da fogueira, dos orgasmos?

Quais perfumes seduzem teus sentidos,
Os aromas sutís da castidade
Ou a força motriz dos corrompidos?

Por fim, que se declare e me revele,
Por quais razões trocaste a liberdade
Para amar tatuado à flor da pele.

Cid Augusto é jornalista, escritor e advogado

 

 

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Categoria(s): Poesia
domingo - 25/11/2012 - 12:11h

Nem tudo é fácil

Por Cecília Meireles

É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas…
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o…
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga…
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça…
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o…
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida…Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!

Cecília Meireles (1901-1964) – Escritora, professora e jornalista brasileira

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domingo - 11/11/2012 - 05:21h

Balada de amor perfeito

Por Paulo Mendes Campos

Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

Paulo Mendes Campos (1922-1991) Foi poeta, cronista, jornalista e tradutor

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domingo - 04/11/2012 - 09:40h

Blusa fátua

Por Vladimir Maiakóvski

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
“Não viole o verde de as minhas primaveras!”
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

Vladimir Maiakóvski (1893-1930) – poeta russo

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domingo - 28/10/2012 - 08:13h

Poeminha sentimental

Por Mario Quintana

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas…
De vez em quando chega uma
E canta (Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana (1906-1994) – Poeta e cronista gaúcho

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domingo - 21/10/2012 - 06:35h

Poemas ao vento

Por Fernando Pessoa

Sopra o vento, sopra o vento,
Sopra alto o vento lá fora;
Mas também meu pensamento
Tem um vento que o devora.
Há uma íntima intenção
Que tumultua em meu ser
E faz do meu coração
O que um vento quer varrer;
Não sei se há ramos deitados
Abaixo no temporal,
Se pés do chão levantados
Num sopro onde tudo é igual.

Dos ramos que ali caíram
Sei só que há mágoas e dores
Destinadas a não ser
Mais que um desfolhar de flores.

Fernando Pessoa (1888-1935) poeta português

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domingo - 14/10/2012 - 08:41h

Crônica

Por Humberto Gessinger

Jáá não passa nenhum carro por aqui
já não passa nenhum filme na tv
você enrola outro cigarro por aí
e não dá bola pro que vai acontecer

Mais um pouco e mais um século termina
mais um louco pede troco na esquina
tudo isso já faz parte da rotina
e a rotina já faz parte de você

Você que tem ideias tão modernas
é o mesmo homem que vivia nas cavernas

Todo mundo já tomou a coca-cola
a coca-cola já tomou conta da China
todo cara luta por uma menina
e a Palestina luta pra sobreviver

A cidade, cada vez mais violenta
(tipo Chicago nos anos quarenta)
e você, cada vez mais violento
no seu apartamento ninguém fala com você

Você que tem ideias tão modernas
é o mesmo homem que vivia nas cavernas.

Humberto Gessinger é músico (líder da banda Engenheiro do Hawaii), escritor e atualmente mantém o projeto “Pouca Vogal” com Duca Leindecker (líder e guitarrista da banda Cidadão Quem).

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domingo - 30/09/2012 - 12:03h

Minha vida, meu aplauso

Por Sandra Herzer

Fiz de minha vida um enorme palco sem atores,
para a peça em cartaz sem ninguém para aplaudir
este meu pranto que vai pingando
e uma poça no palco se faz.

Palco triste é meu mundo desabitado
solitário me apresenta como um astro
astro que chora, ri e se curva à derrota
e derrotado muito mais astro me faço.

Todo mundo reparou no meu olhar triste
mas todo mundo estava cansado de ver isso
e todo mundo se esqueceu de minha estreia
pois todo mundo tinha um outro compromisso.

Mas um dia meu palco, escuro, continuou
e muita gente curiosa veio me ver
viram no palco um corpo já estendido
eram meus fãs que vieram pra me ver morrer.

Esta noite foi a noite em que virei astro
a multidão estava lá, atenta como eu queria
suspirei eterna e vitoriosamente
pois ali o personagem nascia e eu,
ator do mundo, com minha solidão… morria!

Sandra Mara Herzer nasceu em Rolândia – São Paulo, em 1962; desde muito cedo reconhecendo-se como homossexual, foi uma interna da Febem cuja vida e poemas (publicados no livro “A queda para o alto”), serviram de inspiração para o filme Vera. Suicidou-se aos 10 de agosto de 1982, atirando-se de um viaduto no centro de São Paulo.

Nota do Blog – Li “A queda para o alto” há mais de 30 anos. Reli-o há poucos meses, graças ao “Sebo do Canindé”. Nova leitura, um novo livro ainda melhor.  Intenso. Visceral.

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domingo - 16/09/2012 - 06:48h

Reinvenção

Por Cecília Meireles

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles (1901-1964) – Escritora e poetisa

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domingo - 09/09/2012 - 07:53h

Da Amizade

Por Paulo de Tarso Correia de Melo

Pena preciosa
e flor odorante,
ave que rumora
é da amizade o canto.

Entre ramos floridos
o estamos cantando.
Em terra florida
estamos andando.

Não será para sempre.
Vivemos na terra
só um breve momento.
Mistério nos espera.

Lá existe alegria
ou amizade fraterna?
Viemos conhecer-nos
somente nesta terra.

Paulo de Tarso Correia de Melo é professor e poeta

* Poema extraído do seu mais novo livro “Misto Códice” (em português e espanhol) com versão e prólogo para a língua espanhola de Alfredo Pérez Alencart.

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domingo - 02/09/2012 - 07:23h

Se

Por Rudyard Kipling

Se podes conservar teu sangue frio
Diante do que te acusa, a desvairar;
Se, ainda quando suspeitem de teu brio,
De tua fé, podes em ti confiar;
Se podes esperar, sem te cansares
E sem de ti perderes a noção;
Se, caluniado, em vez de caluniares,
Compensares o mal com o teu perdão;

Se podes tu sonhar; se teu intento
Fazes por algum dia realizar,
Se não buscas impor teu pensamento;
Se o mesmo és no prazer e no penar;
Se podes tu ouvir o que a gente
Demolidora e má nos faz ouvir,
E após, pela verdade, conscientemente,
Lutas até fazê-la ressurgir;

Se podes tu tentar sorte insegura
E, perdido uma vez e uma outra mais,
Tornas de novo ao lance da aventura
Sem uma afronta proferir jamais;
Se podes tu fazer que te obedeçam
Os teus nervos, e o próprio coração,
Sem que, por mais exaustos que pareçam,
Ao teu desígnio jamais digam “NÃO” !;

Se podes, com igual solicitude,
As multidões ouvir, como a teu Rei,
E sem que um só te imponha uma atitude
Conte contigo toda a humana grei;
Se podes, da existência a que dás brilho,
Aproveitar todo o minuto seu,
Sem desperdício algum, então, meu filho,
És um homem de bem e o mundo é teu !

Rudyard Kipling (1865-1936) – Poeta britânico, Prêmio Nobel de Literatura

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domingo - 26/08/2012 - 11:38h

Prazer em conhecer…

Por Jorge Mota

Do nascimento ao batismo de pia
Fui um enorme alvoroço
O acontecimento que sucedia
Pois começaram a lhe chamar pela alcunha de BOM DIA!

E pela cidade o assombro ecoou
Passando de ouvido a ouvido
A novidade se espalhou
Com o nome surgido

E o nome criou asas e… Voou, Voou, Voou
Espalhando-se por terras distantes
Com o BOM DIA, o mundo acordou
Em línguas dissonantes

O BOM DIA foi utilizado
Pelo operário doutor e patrão
Mas, poucos retornaram
Ao BOM DIA, falado

E o BOM DIA, não desistiu
Continuou a sua peregrinação
Falado aos quatros ventos
Por uns e outros não
Mas em sua teimosia
Não se cansava e dizia
A João, José e Maria
A secular palavra BOM DIA!

Jorge Mota é poeta mossoroense e servidor público

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domingo - 12/08/2012 - 08:12h

Tu que me deste o teu cuidado

Por Manuel Bandeira

Tu que me deste o teu carinho
E que me deste o teu cuidado,
Acolhe ao peito, como o ninho
Acolhe ao pássaro cansado,
O meu desejo incontentado.

Há longos anos ele arqueja
Em aflitiva escuridão.
Sê compassiva e benfazeja.
Dá-lhe o melhor que ele deseja:
Teu grave e meigo coração.

Sê compassiva. Se algum dia
Te vier do pobre agravo e mágoa,
Atende à sua dor sombria:
Perdoa o mal que desvaria
E traz os olhos rasos de água.

Não te retires ofendida.
Pensa que nesse grito vem
O mal de toda a sua vida:
Ternura inquieta e malferida
Que, antes, não dei nunca a ninguém.

E foi melhor nunca ter dado:
Em te pungido algum espinho,
Cinge-a ao teu peito angustiado.
E sentirás o meu carinho.
E sentirás o meu cuidado.

Manuel Bandeira (1886-1968) – Poeta, tradutor, crítico de arte e professor

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domingo - 05/08/2012 - 10:11h

Não sei quantas almas tenho

Por Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa (1888-1935) – Poeta e escritor português

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domingo - 29/07/2012 - 09:54h

O peixe

Por Patativa do Assaré

Tendo por berço
o lago cristalino,
folga o peixe
a nadar todo inocente.

Medo ou receio
do porvir não sente,
pois vive incauto
do fatal destino.

Se na ponta de
um fio longo e fino
a isca avista,
ferra-a inconsciente,

Ficando o pobre
peixe de repente,
preso ao anzol
do pescador ladino.

O camponês também
do nosso Estado,
ante a campanha eleitoral:
Coitado.

Daquele peixe tem
a mesma sorte.
Antes do pleito:
festa, riso e gosto.

Depois do pleito:
imposto e mais imposto…
Pobre matuto do
Sertão do Norte.

Patativa do Assaré (1909-2002) – Poeta, repentista e compositor cearense nascido em Assaré, sob o nome Antônio Gonçalves da Silva, que tem sua obra estudada até em instituições acadêmicas no Brasil e exterior.

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domingo - 22/07/2012 - 10:40h

Arte de amar

Por Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira (1886-1968) – poeta pernambucano

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domingo - 15/07/2012 - 11:10h

Poetas populares

Por Antônio Vieira

“A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó

E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares

Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena

A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma

Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares”

Antônio Vieira é poeta baiano

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domingo - 08/07/2012 - 08:45h

Habeas Pinho

Por Ronaldo Cunha Lima

Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serena foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido, o famoso poeta e político Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.

Senhor Juiz.
Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do “crime”que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam  a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno acoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte á rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar á porta do Juiz.

* Uma homenagem do Blog ao ex-governador, senador, deputado, prefeito e vereador na Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, falecido ontem, com câncer.

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domingo - 01/07/2012 - 08:56h

A solidão humana

Por Jorge Mota

O homem vive
Em um círculo social
Mas às vezes
Parece um animal.

Vive o homem
A questionar o seu destino
Como um andarilho
Sem rumo, em total desatino.

A solidão humana,
Devora as horas
Em um cruel tormento
Deixando o homem
Um grande sofrimento.

Triste sina,
Essa solidão
O homem fica ranzinza
Imerso na sua escuridão.

O homem,
O tempo,
O mundo,
A.. Solidão…

Jorge Mota é webleitor do Blog do Carlos Santos

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domingo - 24/06/2012 - 11:23h

Obsessão do mar oceano

Por Mario Quintana

Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Mario Quintana (1906-1994) – Poeta e cronista gaúcho

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domingo - 10/06/2012 - 07:24h

Aninha e suas pedras

Por Cora Coralina

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Cora Coralina (1889-1985) – Poetisa brasileira

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domingo - 03/06/2012 - 08:33h

Escreve-me

Por Florbela Espanca

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!”Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então…brandas…serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…

Floberla Espanca (1894-1930) – Poetisa portuguesa

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