domingo - 27/05/2012 - 12:47h

Andei léguas de sombra

Por Fernando Pessoa

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical. A alcova
Desce não sei por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

Fernando Pessoa (1888-1935) – Poeta português

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domingo - 06/05/2012 - 08:51h

O amor bate na aorta

Por Carlos Drummond de Andrade

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Poeta e cronista mineiro

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domingo - 29/04/2012 - 11:13h

Delírio

Por Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci…

Olavo Bilac (1865-1918) – O “príncipe dos poetas” brasileiros é um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL) e autor do Hino da Bandeira Nacional. Fez os cursos de Direito e Medicina, abandonando ambos pelo amor à literatura.

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domingo - 22/04/2012 - 14:28h

Canção

Por Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles (1901-1964) – Poetisa brasileira

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domingo - 08/04/2012 - 08:45h

Poema de despedida

Por Rabindranath Tagore

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.

Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

Rabindranath Tagore – (1861 – 1941) – Poeta, músico, escritor, dramaturgo e romancista indiano

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domingo - 01/04/2012 - 14:50h

Canção do dia de sempre

Por Mario Quintana

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mario Quintana (1906-1994) – Poeta gaúcho

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domingo - 18/03/2012 - 10:00h

O poço

Por Pablo Neruda

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda (1904-1973) – Poeta chileno

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quarta-feira - 14/03/2012 - 11:06h
Dia da Poesia

Rocas-Quintas (Poesia de Paulo de T. Correia de Melo)

Vive no subúrbio, a moradia
alugada, o trabalho extraordinário,
o ônibus, o dia a dia
e a aventura do crediário.
A novela-poesia
ao alcance do salário.
A televisão-fantasia
e a mágica do mobiliário.
Restos de infância e graça:
cinema de bairro, carrossel na praça
e o mar, quatro festa do ano.
Mas o corpo é belo e passa:
frágil alvenaria, perecível massa.
Hoje te amo.

Paulo de Tarso Correia de Melo é um de nossos melhores poetas contemporâneos. No Dia da Poesia, nossa homenagem a todos os poetas, através desse natalense, mestre da palavra.

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domingo - 19/02/2012 - 10:18h

Não há vagas

Por Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar é poeta

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domingo - 12/02/2012 - 18:28h

Passe a expressão

Por Paulo Leminski

Esses tais artefatos
que diriam minha angústia
tem umas que vêm fácl,
tem muitas que me custa.
Tem horas que é caco de vidro,
meses que é feito um grito,
tem horas que eu nem duvido,
tem dis que eu acredito.
Então seremos todos gênios
quando as privadas do mundo
vomitarem de volta
todos os papéis higiênicos.

Paulo Leminski (1944-1989) – Poeta curitibano

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domingo - 05/02/2012 - 10:54h

Casamento

Por Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado – Poetisa mineira

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domingo - 29/01/2012 - 13:17h

Esperança

Por Mario Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mario Quintana – (1906-1994) – Poeta e cronista gaúcho

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domingo - 22/01/2012 - 08:42h

Atraso pontual

Por Paulo Leminski

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

Paulo Leminski  – (1944-1989) – Era poeta, tradutor, escritor e professor curitibano

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domingo - 15/01/2012 - 10:46h

No Corpo

Por Ferreira Gullar

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Ferreira Gullar é poeta, ensaísta, memorialista, biógrafo, tradutor e crítico de arte maranhense.

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domingo - 08/01/2012 - 10:23h

Gosto quando te calas

Por Pablo Neruda

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Pablo Neruda – Poeta chileno (1904-1973)

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quinta-feira - 05/01/2012 - 05:14h
Poesia da vida real

Os bruguelos cearenses de Mossoró

O poeta Laélio Ferreira – que lê o Blog do Carlos Santos lá das lonjuras da Itália, comenta postagem sob o título “Buchudas de Mossoró vão parir em Russas-CE”, bem ao seu estilo. Expressa-se com poesia.

Mostra, com a arte, o patético mundo da realidade mossoroense:

M O T E :

Fabricado em Mossoró
sou bruguelo cearense

G L O S A :

Ai meu Deus, como dá dó,
como é triste o meu destino!
choro muito, sou menino
fabricado em Mossoró!
Por conta de um quiprocó na Saúde
– você pense!
– minha mãe, mossoroense,
sem Maternidade e Posto,
quase morre de desgosto
– sou bruguelo cearense!

Laélio Ferreira é poeta

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domingo - 01/01/2012 - 09:55h

Canção do dia de sempre

Por Mario Quintana

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mario Quintana – Poeta gaúcho (1906-1994)

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domingo - 13/11/2011 - 03:43h

Morte de Ulisses

Por Márcio Dantas

Para os que têm pendor à errância
e a curiosidade pelo desconhecido,
nunca o farne de sair de casa cessa.
Para os que herdaram a maldição
de não quedar-se num canto,
de querer interagir e aprender,
cultivando a vinha ou consertando calçados,
em dias e trabalhos iguais, mesmos sóis e luas,
mesmos rostos que envelhecem aos poucos,
fica difícil se comprazer com o tédio
de constelações no firmamento, pálidas,
dizendo de uma garantia doméstica.
Nem filho amado ou esposa ditosa,
muito menos velhice de pai,
impedem o impulso maior de uma
nova jornada ao ignoto.
Navegando pelo então conhecido,
quer dizer, o que não mete medo,
o que diz de uma segurança (nem sempre certa),
o que o lenho palmilha sobre terras e águas,
da costa de Espanha até sua antípoda Ceuta,
cruzaram a estreita porta de Gibraltar,
para, açulado pela atávica vontade
de conhecer, sentir o sabor, experimentar o novo,
ouvir ritmos diferentes de vozes,
Para os que têm pendor à errância
e a curiosidade pelo desconhecido,
nunca o farne de sair de casa cessa.
Para os que herdaram a maldição,
adentram por imenso oceano desconhecido,
aceirando a recortada linha da África.
Eis que o preço do desejo irrequieto
pelo insólito, a paga e a purga de uma hybris
subjetiva buscando não os dois lados ditos naturais,
mas as ilhargas ignoradas das pessoas e coisas,
furnas onde, talvez, o mais precioso se resguarde.
Acontece que tudo tem seu fim.
Uma tempestade marítima afundou
o barco com seus tripulantes.
A sepultura, como não poderia deixar de ser,
foi as águas escuras do fundo do mar.

Márcio Dantas é poeta e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal do RN (UFRN)

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domingo - 06/11/2011 - 08:13h

Ismália

Por Alphonsus Guimarães

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Alphonsus Guimarães (1870-1921) – Poeta mineiro

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domingo - 09/10/2011 - 08:08h

A carne é crápula

Por Mário Chamie

A carne é crápula
sob o olho cego
do desejo.

A carne é trôpega
se fala sob o pêlo
de outro desejo alheio.

A carne é trêmula
e fracta.
Crina de nervos,
veneno de víbora,
a carne é égua
sob o cabresto
de seus incestos
sem freios.

Fálica e côncava,
intrépida e férvida,
a carne é estrábica
nos entreveros
do sexo
com seus desacertos
conexos.

Sob o olho
sem mácula e cego,
a carne é crápula
nos arpejos
indefesos
de seus perversos
desejos.

Mário Chamie (1933-2011) – Poeta paulista

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domingo - 02/10/2011 - 09:12h

Mossoró

Por Beatriz Bandeira

Um vento morno
de salitre e fogo
abre flores de sal
nos velhos muros.

Esquálidos meninos macilentos
tangem bandos de cabras esqueléticas
e, sob um sol que queima
e um chão que abrasa,
desenham Portinaris na paisagem.

“Índio é terra que anda”
disse um poeta.
E eu vejo em tua gente,
retorcidas raízes, rijos caules,
e essa força que brota
de entranhas minerais
da terra calcinada, e se prolonga
em duras caminhadas.

Mossoró, Mossoró, predestinada aurora,
pioneira de lutas precursoras
castigada e sofrida sentinela
de históricas vigílias.

Um vento morno
de salitre e fogo
abre flores de sal
nos velhos muros
e lágrimas de dor
choram meus olhos
de saudade e de ausências consumidas.

Beatriz Bandeira – Poetisa

* Do livro “100 Poetas de Mossoró”, Fund. Guimarães Duque, Fundação Vingt-un Rosado, Coleção Mossoroense, 2000, RN

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domingo - 18/09/2011 - 06:33h

Esta noite de longa cauda

Por Clauder Arcanjo

Esta noite de longa cauda
Este silêncio de ex-nauta
Este floreio com flauta
Este sorriso sem pauta
Esta morada de argonauta
Este sonho de noiva infausta…
Enfim, estas dores, tangidas
Como de um tudo, sem falta.

Clauder Arcanjo é escritor, contista, poeta

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