Por Marcos Araújo
Cada doido tem sua mania. Alguns colecionam selos, borboletas, discos de vinil, tampinhas de refrigerante, e por ai vai. Não sendo eu normal, tenho também uma mania: a de escrever.
Rabisco palavras até quando estou sozinho. Não digito, escrevo. A maioria das vezes, somente para mim. Guardo textos inteiros. Funciona como se fosse uma catarse, ou uma terapia, não sei.
Comecei a escrever externamente tinha oito anos de idade. Aluno pobre em uma escola pública, quis pedir uma bolsa de estudos ao Presidente da República, na época o general Ernesto Geisel. Redigi, sem qualquer ajuda, uma pequena carta. Foi respondida em seguida pelo Gabinete Civil com a promessa de que o “meu pleito seria atendido” pela Secretaria de Educação do Estado.
Foi o meu primeiro contato com as promessas do Estado…
No Ensino Médio, com alguns amigos, criamos um informativo no Colégio Eliseu Viana, experiência repetida no Diretório Acadêmico de Direito nos anos 80. Depois de formado, tornei-me articulista por um período do jornal O Mossoroense, e depois escrevi alguns artigos que foram publicados na Gazeta do Oeste.
É essa a minha experiência de imberbe e mal sucedido “escritor”.
Ultimamente, uma vez ou outra, escrevo – por generosidade de Carlos Santos – neste Blog. Mas, quem me dera saber escrever!
Perguntaram ao poeta francês Saint-John Perse, prêmio Nobel de literatura em 1960:
– Por que escreveis?
A resposta:
– “Para viver melhor!”
Em correspondência a Manuel Bandeira, o conhecido escritor Mário de Andrade justificou as razões de escrever:
“Se escrevo é primeiro porque amo os homens. Tudo vem disso pra mim. Amo e por isso é que sinto esta vontade de escrever, me importo com os casos dos homens, me importo com os problemas deles e necessidades.”
Alguns mais capacitados do que eu escrevem pelo belo triunfo de fazer pensar os que podem pensar. Existem também os sábios que deixaram de escrever por não suportarem as críticas. O filósofo Baruch Espinosa foi um deles.
Ao publicar o texto “O Homem e a Moral”, Espinosa abordou a questão da moral, da consciência, da liberdade humana e de Deus. Foi bastante criticado por todos os cristãos por tratar o conhecimento como nível de salvação. A partir daí, resolveu não publicar mais nada em vida, pois considerava que sua Filosofia não era compreendida.
Talvez o desejo de quem escreve publicamente seja o de transmitir, irradiar, comunicar, aquilo que ele sabe. Não no meu caso, que sou um profundo ignorante. Rabelais em Pantagruel, já advertia: “ciência sem consciência não passa de ruína da alma.”
Sou consciente que nada sei.
Escrevo por teimosia.
Nada posso fazer pois sou escravo da palavra.
A escravidão avilta o escravo e barbariza o senhor. E o faço ainda quando posso, antes do Alzheimer.
Coitado do poeta nova-iorquino Jack Agueros. Autor de vários livros ele está com Alzheimer. Nada se recorda. Foi feito um documentário no New York Times sobre ele, com o título “without words” (sem palavras). Nada mais triste do que um poeta sem palavras.
Ultimamente tenho sentido a ausência dos excepcionais escritos dos professores Honório Medeiros e Edilson Leite Júnior (colaboradores deste Blog). Sem eles, o domingo fica triste. Não sei se é por falta de tempo ou acanhamento pelos comentários impróprios e imerecidos que por vezes são postados. É o risco de escrever.
Carlos Drummond de Andrade já dizia que não há vida literária plenamente virtuosa na visão do leitor.
Hoje, virou costume na comunidade virtual dos blogs (neste ou no de maior acesso no país) a formação de um grupo de leitores, acolitados no anonimato, comentarem pessoas, fatos ou os escritos apenas com achincalhes. São os black brocs da comunicação virtual. São como “vivandeiras rondando os bivaques”.
Agridem gratuita e desmotivadamente. Por vezes, defendem interesses políticos e pessoais inconfessáveis. Contribuem para a desinformação, desqualificam o debate.
Esse grupo, ainda bem, é minoria.
Existem os que contribuem para a formação civilizatória e democrática. Esses, por coerência de caráter e cordialidade, colocam os nomes verdadeiros. Dão face e título aos seus comentários.
Um exemplo particular: outro dia, fui chamado por aqui de pseudo-intelectual. E eu achei um elogio, pois nem “pseudo” eu me acho, que dirá intelectual. Gostei! Já o meu fraterno irmão Sebastião Almeida postou que eu “escrevia muito”. Foi de uma generosidade mentirosa. Não gostei!
Outro, apenas pelas críticas genéricas que fiz à gestão pública na história brasileira, envergou a sua “metralhadora palavrória” para me tachar de todo e inimaginável adjetivo negativo. É a liberdade de expressão.
Mário da Silva Brito em Desaforismos disse que cada escritor tem os leitores que merece.
Às vezes, sou mal interpretado. Assim como Horácio, tento ser conciso, e resulto obscuro. E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável. Justificando aos que perguntam: por que escrevo?
Respondo: apenas por prazer.
Marcos Araújo é professor e advogado






















