domingo - 23/02/2020 - 09:46h

A prodigiosa arte de fazer omelete sem quebrar ovos

Por Paulo Linhares

Nas ruas e praças, nas noites de lua (e sem a dita cuja), nos bares e botequins, no “happy hour” dos que estão bem de todas as vidas, nas conversas veladas e segredos sussurradas, o assunto é um só nestas paragens do bravo Poti: são enormes as dificuldades que teria o governo Fátima Bezerra para fazer a reforma da previdência dos servidores estaduais.

Com uma carreira política sem dúvida brilhante forjada nas lutas sindicais – deputada estadual de duas legislaturas (1994 e 1998); deputada federal  de três legislaturas ( 2002, 2006 e 2010), com consagradoras votações; senadora da República (2014); e, governadora do Estado do Rio Grande do Norte (2018) -, a paraibana de Nova Palmeira, Fátima Bezerra, militante do Partido dos Trabalhadores, é um desses fenômenos da política potiguar equiparável à Wilma de Faria ou mesmo a Aluizio Alves.Poderia Fátima Bezerra permanecer na zona de conforto como senadora da República até 2022, mas, topou o desafio de governar o Estado que adotou como seu, o Rio Grande do Norte, que, aliás, estava imerso numa das maiores crises fiscais de sua História, cujo resultado mais imediato era o não pagamento das remunerações dos servidores estaduais, ativos e inativos (entre estes inclua-se os pensionistas) do governo de Robinson Faria.

À míngua de recursos financeiros, optou a governadora Fátima pelo pagamento em dia das remunerações dos servidores estaduais ativos e inativos a partir do início de sua gestão.  Assim, em 2019, a folha de pessoal do governo potiguar foi paga, inclusive a gratificação natalina. Nestes tempos bicudos, isto passa a ter enorme peso político, embora pagar as folhas de servidores ativos e inativos seja apenas o prosaico de qualquer governo.

Sob uma ótica eminentemente política, essa ação da governadora Fátima Bezerra põe contra a parede o seu antecessor, Robinson Faria, que, em condições iguais, chegou a sacrificar servidores públicos a até quatro meses de atraso. Gostasse ela de mirar o velho retrovisor da política, seria um ‘prato cheio’ em seu favor. E não tem usado esse recurso diversionista a atual governadora do RN, para favorecer a sua relação com o incisivo Fórum de Servidores, uma forte coalizão sindical que se opõe ao projeto de reforma previdenciária gestado pelo governo Fátima Bezerra.

Reside na reforma previdenciária estadual o maior pesadelo do governo Fátima Bezerra porque afigura-se inequívoco que o seu ônus maior recairá nas costas dos servidores estaduais, o que arrosta a formação sindical que é a base da carreira política da governadora. Esses são ônus inafastáveis de quem aceita o encargo de governar.

Bem que ela poderia ter seguido o exemplo do brilhante parlamentar gaúcho seu correligionário, senador Paulo Paim, sindicalista de raiz (ex-metalúrgico), eleito seguidamente por quatro mandatos consecutivos de deputado federal e três mandatos de senador, igualmente seguidos, pelo Rio Grande do Sul, na condição de filiado ao PT. Eleita senadora pelo RN, Fátima Bezerra topou sair da zona de conforto senatorial para abraçar o enorme desafio de governar um dos Estados federados em pior situação de crise fiscal.

E não fosse a herança maldita de três folhas de servidores em atraso e, mais recentemente, o poderoso fantasma da (inevitável!) reforma da previdência estadual, quase tudo poderia ser equacionado.

Bom, as questões do atrasos podem ser resolvidas no curto e médio prazos. Aliás, o atraso do mês de novembro/2018 foi solucionado em 15 de fevereiro de 2020. Efetivamente, “coisa difícil” é a reforma da previdência dos servidores estaduais: em face do astronômico déficit mensal, que supera os 100 milhões de reais, se não houver um ajuste de contas, o Estado do RN ficará, no mínimo, inabilitado a receber as transferências voluntárias de recursos da União, sobretudo, aquelas oriundas de convênios.

E nem é preciso alertar sobre o abismo político-ideológico que separa Natal de Brasília, nestes tempos de olvido das práticas republicanas sob os auspícios da velha máxima política calhorda: “aos amigos os favores da lei; aos inimigos, os rigores da lei”. Pelo visto até agora, a regra mais republicana do governo Bolsonaro, salvo pouquíssimas exceções, tem sido discriminar os governos estaduais da Região Nordeste: “nada de dar carne a gato, somente sebo quente”.

É este o dilema que se coloca não apenas para a governadora do RN, mas, de vários  Estados federados de outras regiões e não necessariamente petistas de carteirinha. Aquela coisa, “tão amarga de tragar”, como diz Chico Buarque na canção “Teresinha”. Numa conjuntura em que o pacto federativo é reduzido a extrato de pó de traque, como hoje ocorre, todas as receitas serão amargas pra quem não é amigo do rei inquilino do Planalto.

Por essas e outras é que, nos trilhos da reforma da previdência já aprovada pelo Congresso Nacional, são forçados os Estados e Municípios a intentar mudanças em seus regimes próprios de previdência, no desiderato de reduzir respectivos déficits previdenciários. Claro, por mais absurdo e grotesco que seja, a fatura será paga por todos os servidores estaduais, com perverso peso àqueles, ativos ou inativos, de menores remunerações e que são, lastimavelmente, uma desventurada maioria.

Daí que, para pessoas de aguçada sensibilidade social, como certamente é a da governadora Fátima Bezerra, pois, seja tão difícil e mortificante fazer essa indigesta omelete sem quebrar os ovos. Algo prodigioso e logicamente inatingível, bem próximo daquele conhecido dilema filosófico: quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?

E ter, enfim, que quebrá-los, por absoluta impossibilidade de proceder de modo diverso, por mais doloroso que possa afigurar-se. Afinal, não seriam os pesados ônus daquilo que se entende como práticas do bom governo? O tempo   implacável – e somente ele – dará a resposta.

Paulo Linhares é professor e advogado

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segunda-feira - 03/02/2020 - 11:20h
Reforma da Previdência

Governo do RN quer aprovar 2º maior teto previdenciário do NE

Do Blog Saulo Vale

Com a proposta do Governo do Estado de mudança no valor da contribuição previdenciária estadual dos atuais 11% linear para todos os servidores, para alíquotas variantes de 12% a 18,5%, o Rio Grande do Norte pode ter o segundo maior teto previdenciário entre todos os estados do Nordeste.

A alíquota potiguar seria menor apenas do que a aprovada pelo Governo do Maranhão, que varia entre 7,5% e 22%.

Reforma Previdenciária no Nordeste

Maranhão – De 7,5% e 22% (APROVADO)

Rio Grande do Norte – De 12% até 18,5% (PROPOSTA DO GOVERNO)

Bahia – De 14% até 15% (APROVADO)

Pernambuco – 14% linear (APROVADO)

Ceará – 14% linear (APROVADO)

Paraíba – 14% linear (AGUARDA APROVAÇÃO NA AL)

Sergipe – 14% linear (APROVADO)

Alagoas – 14% linear (APROVADO)

Nos estados de Pernambuco, Ceará, Sergipe e Alagoas, onde os projetos de reforma da previdência estadual já foram aprovados, o valor máximo de contribuição para os servidores ficou em 14% – proposta semelhante ao apresentada pelo governo Robinson Faria (PSD).

Na Paraíba, a proposta que aguarda votação da Assembleia Legislativa prevê a mesma alíquota (14%).

Na Bahia, o projeto aprovado prevê contribuições entre 14% e 15% para os servidores.

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Categoria(s): Administração Pública / Política
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quarta-feira - 15/01/2020 - 20:32h
RN

Texto de reforma previdenciária será apresentado dia 22

Fórum discutiu reforma (Foto: divulgação)

O secretário de Estado da Tributação (SET), Carlos Eduardo Xavier, falou que o governo recebeu as propostas do Fórum dos Servidores quanto e acatou algumas modificações, mas que o texto final da reforma da previdência será apresentado dia 22, na próxima reunião com os representantes desse colegiado.

“As propostas acatadas dizem respeito à forma como serão feitos os cálculos dos benefícios e sobre o abono de permanência”, exemplificou.

Carlos Eduardo Xavier deu a informação em reunião de representantes do governo estadual com o Fórum de Servidores, quando pauta que trata desse e outros temas foi levantada (veja AQUI).

“O governo não fez a entrega do projeto final mas negou maciçamente as propostas entregues por nossa associação, o Sindifern (de auditores fiscais) e Fórum dos Servidores que evitam o direcionamento do déficit previdenciário para os servidores”, contestou Patrícia Barra, da Associação dos Docentes da Universidade do Estado do RN (ADUERN).

A reforma previdenciária é um dos projetos mais polêmicos que o Governo Fátima Bezerra (PT) tem em pauta para este ano, a tramitar na Assembleia Legislativa.

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