domingo - 18/05/2025 - 15:38h

As fronteiras simbólicas do saber

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Construiu-se no imaginário brasileiro a ideia de que a maior capacidade profissional e a melhor produção intelectual se situam nos grandes centros do Sul e Sudeste. O Nordeste, mesmo com sua riqueza intelectual, cultural e tradição acadêmica, foi — e em muitos casos ainda é — relegado ao papel de coadjuvante. Essa lógica centralizadora alimenta um complexo de inferioridade entre profissionais, escritores, pensadores e leitores nordestinos. Tal sentimento, infelizmente, não é raro entre os próprios potiguares.

Se no início do Século XX a regra social vigente para a elite nordestina era a formação dos filhos na Europa, nas cinco últimas décadas o epicentro tem sido São Paulo.  O garbo paternal nas rodas de conversa é uníssono:

– Meus filhos estudam em São Paulo!

Entre comuns, escuto com desalento o aparente descrédito aos profissionais com formação em universidades nordestinas. Com extensão do sentimento aos nossos autores e literatos. “O nordestino tem complexo de vira-lata”, já se ouviu em salas de aula e rodas literárias locais. Talvez o problema não esteja na autoestima, e sim na invisibilização sistemática de quem está fora do eixo Rio-São Paulo.

Sou um entusiasta do nordeste. E do Rio Grande do Norte com muito mais afinco e intensidade. Ao mesmo tempo, incorporo um crítico ácido aos que supõem que o saber tenha uma justificação geográfica. O Sudeste precisa conhecer nossos autores e intelectuais.

Posso citar alguns dos nossos e seus textos, para contrapor a dominância “sudelista”. Nísia Floresta, amiga de Augusto Comte, autora de “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1857), foi pioneira na educação feminista no Brasil.  Zila Mamede, a grande poetisa que fundou a Biblioteca Central da UFRN, em antanho já dizia: “Canto, porque há pressa em desentranhar o grito.” Luís Carlos Guimarães, uma das vozes mais potentes da lírica potiguar, era insurgente aos novos “donos” da escrita: “Sou do tempo em que as palavras eram respeitadas, e um verso tinha o peso de um tijolo na mão.” Câmara Cascudo, um dos maiores intelectuais do Brasil, universalizou o folclore nacional com obras como História da Alimentação no Brasil (1967) e Dicionário do Folclore Brasileiro (1954). Ele foi o maior etnólogo de todos os tempos.

A escrita como instrumento, o argumento e a estética linguística como elementos informativos pautam os trabalhos de escritores genais como Carlos Santos, Vicente Serejo, Rejane Cardoso, Marcos Ferreira, Honório Medeiros e outros mais.

A história da produção intelectual potiguar vai além da literatura. O pensamento jurídico e as ciências humanas também tiveram aqui um solo fecundo. Miguel Seabra Fagundes é o autor do primeiro trabalho nacional sobre atos administrativos. Outros, como Eloy de Souza, Olavo de Medeiros Filho, Mário Moacyr Porto, Floriano Cavalcanti, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, João Medeiros Filho, Ivo Cavalcanti, Manoel Dantas, Djalma Marinho, Claudionor Telógio de Andrade, Manoel Varella, Eider Furtado, Ney Lopes de Souza e Hélio Vasconcelos, intelectuais de grande vulto, foram responsáveis pela formação de gerações de bons profissionais.

A UFRN e a UERN têm se tornado polo de formação de juristas com inserção nacional. Marcelo Alves, que escreve no BCS, é um deles.  Na academia nacional da docência do direito estão emoldurados os nomes de Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, Luiz Gurgel de Faria, Paulo Linhares, Ana Monica Amorim, Keity Saboia, Fernanda Abreu, Inessa Linhares, Lauro Gurgel, Adilson Gurgel de Castro, Armando Holanda, Barros Dias, Edilson Nobre, Erick Pereira, Ricardo Tinoco, Miguel Josino Neto, Xisto Tiago, Yara Gurgel, Erica Canuto, entre outros… Apenas para nomear alguns nascidos aqui.

Os cursos jurídicos do RN capacitam para a vida humana. Cumprem o mandato profético do professor Carlos Roberto de Miranda Gomes, autor de diversos artigos e ensaios sobre hermenêutica: “A letra da lei não deve sufocar a voz do povo. Direito sem humanidade é só uma norma fria.”

A sabença do Direito, a literatura e o pensamento não se medem por CEP. A boa escrita nasce da experiência, da escuta do mundo — e disso o Nordeste é mestre. A exclusão simbólica dos autores do Nordeste não reflete a sua qualidade, mas a desigualdade histórica de acesso a meios de publicação, circulação e crítica. É preciso romper com a lógica centralizadora que associa prestígio à geografia. Se os profissionais e escritores “Sudestinos” são chamados de “melhores”, talvez seja porque o Nordeste — como o sol que o ilumina — é tão intenso que ofusca os olhos de quem olha de cima.

Temos por aqui os melhores profissionais, escritores, pensadores e intelectuais brasileiros. Nada a dever aos de outras regiões. É hora de quebrar o espelho torto em que o Nordeste se vê. A produção intelectual potiguar não precisa pedir licença. Ela existe, resiste e contribui com a identidade brasileira de forma decisiva. O que falta não é talento ou sabedoria — é espaço e autorreconhecimento!

Marcos Araújo é advogado, professor da Uern e escritor

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 03/02/2025 - 08:20h
Lançamento

Memórias das jornalistas do Rio Grande do Norte vira livro

Capa do livro de Gustavo Sobral e Juliana Bulhões (Reprodução do BCS)

Capa do livro de Gustavo Sobral e Juliana Bulhões (Reprodução do BCS)

Natal-RN. Fevereiro de 2025. Nem passou o verão e ainda não chegou o Carnaval e a novidade é que finalmente aparece o tão esperado livro de memórias das jornalistas do Rio Grande do Norte organizado por Gustavo Sobral e Juliana Bulhões.

São sete mulheres jornalistas que contam em depoimento pessoal as suas trajetórias profissionais da escolha aos desafios da profissão: Rejane Cardoso, Josimey Costa, Marize Castro, Anelly Medeiros, Anna Ruth Dantas, Rosilene Pereira e Cledivânia Pereira Alves, jornalistas, privilegiando a escrita pessoal em primeira pessoa e o estilo de cada uma para contar a sua história que é a do jornalismo potiguar.

A capa do livro é uma obra da artista Angela Almeida e o livro sai pela Biblioteca Ocidente com edição de Francisco Isaac Dantas de Oliveira, capa e editoração por Gabriel Araújo e revisão de Matheus Pereira.  A versão digital está disponível para download gratuito nos sites: //gustavosobral.com.br/ e //revistagalo.com.br/selo-bo/.

Pesquisa

Gustavo Sobral e Juliana Bulhões vêm se dedicando à construção de uma memória do jornalismo do Rio Grande do Norte e a pesquisar a história e, neste ano de 2025, celebram uma década de publicações de livros e artigos em conjunto. Entre eles, Manual de Assessoria de Imprensa (2024), Jornalismo, biografia e crônica (2023), e Memórias do jornalismo no Rio Grande do Norte (2018), além de diversos artigos nestas temáticas. Todos disponíveis para download gratuito em www.gustavosobral.com.br.

Nota do BCS – Maravilha, Gustavo e Juliana. Vamos à leitura, pois. Essa moças talentosas têm muito a nos contar.

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Categoria(s): Comunicação / Cultura
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sexta-feira - 22/11/2024 - 07:22h
Cena Urbana

Um casamento que deu certo

Curso de noivos, casal, casamento, Sacramento do MatrimônioO jornalista do Tribuna do Norte, Vicente Serejo, foi visto ziguezaguando entre gôndolas de uma quitanda perto de casa, já finzinho da manhã dessa quinta-feira (21). Fazia as últimas compras à ceia de uma data muito sua, mas de simbologia a dois.

Cena urbana, creia.

Ele e Rejane Cardoso completaram 51 anos de casados nesse dia, numa comunhão à mesa, em família.

Diria o cronista Sanderson Negreiros (1939-2017) em ode bem-humorada à sua Ângela, que é o típico casamento que deu certo.

Espero que Paulo Macedo (in memoriam), colunista social por décadas no impávido Diário de Natal, goste de minha nota.

Serejo, não sei.

Parabéns ao casal querido.

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Categoria(s): Comunicação / Crônica
quinta-feira - 03/11/2022 - 16:20h
Cultura

Rejane Cardoso e Prof. Disney conversam sobre Erasmo Xavier

Nesta quinta-feira (03), a jornalista e escritora Rejane Cardoso vai conversar com o professor de artes, teatro e linguagens Ildisnei Medeiros, mais conhecido como Prof. Disney. O encontro acontecerá na segunda live “Descobrindo Erasmo Xavier”, às 20h, com transmissão pelo Instagram em @verboeventos e @profdisney.divulgação-live

No bate-papo, Rejane, que é sobrinha do artista e guardiã de seus desenhos originais, vai falar sobre o trabalho que o professor Disney vem desenvolvendo com crianças e adolescentes em escolas de Natal, onde divulga as obras e faz produções inspiradas em Erasmo.

Série

Está será a segunda de uma série de três lives que vão anteceder o lançamento do livro A Arte Modernista de Erasmo Xavier, de autoria de Rejane Cardoso. A data de lançamento da obra já está marcada para o dia 17 de novembro, no Solar Bela Vista. O evento vai acontecer juntamente com uma exposição sobre Erasmo, entre os dias 16 e 18. Serão exibidas as obras originais, exemplares de revistas antigas de circulação nacional e local com capas desenhadas pelo cartunista potiguar, além de fotos e pertences do artista.

O livro é um projeto cultural proposto pela Verbo Eventos, que conta com o patrocínio da Prefeitura de Natal – Programa Djalma Maranhão, através da Casa de Saúde São Lucas, Colégio CEI – Romualdo e R. Freire e Focus Intervenção.

Erasmo Xavier

O potiguar Erasmo Xavier, nascido em 1904, é considerado o primeiro artista visual modernista do Rio Grande do Norte. Era ilustrador e cartunista e, entre outras atividades artísticas, fez trabalhos cenográficos para o teatro no Rio de Janeiro. Em Natal, desenhou cenário para bailes de Carnaval.

Erasmo ilustrou as capas de grandes revistas do cenário local e nacional, como Cigarra, Fon-fon, O Malho e Tico-tico. Faleceu aos 24 anos devido à tuberculose, deixando um acervo de obras com valor incalculável, hoje conservadas pela sobrinha Rejane.

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Categoria(s): Cultura
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quinta-feira - 05/01/2012 - 07:49h
Com Serejo e Rejane

“Devoção” à inveja na biblioteca alheia

Natal sempre me reserva novidades, boas surpresas, o belo. Confesso, logo, um gosto diferente pelo lugar. Telúrico, sim.

Mas, também, às vezes me prega alguma “peça. Agora, veja só, fez emergir em mim um dos sete pecados capitais: sou “devoto” da inveja.

Como não desejar a Biblioteca de Vicente Serejo e Rejane Cardoso, no Morro Branco, sob uma paz celestial e seus 16 mil livros? Estão arrumados ao lado de quinquilharias por todos os lados, numa harmonia que deixa até um jacaré petrificado à sua entrada, com cara amistosa e inofensiva. Se ele serpenteasse, ganhando vida, não me assustaria.

O café, o vinho do Porto, a conversa sem pauta, eira nem beira, tudo empurra o relógio para frente – sem que percamos o passado de vista. O odor do charuto de Serejo no ar, longe dos livros, forma uma atmosfera de filme ‘noir’. Um preto-e-branco expressionista.

Nas paredes com fotos, gravuras e até um par de autênticas alpercatas sertanejas (em moldura), o tempo acaba dando meia-volta. Fica para trás. E é essa ampulheta entranha, que faz os minutos correrem.

Nesse labirinto projetado pela própria jornalista Rejane, tudo parece estar em seu lugar: Câmara Cascudo, Eloy de Souza (seu avô), Drummond, Proust, Hemingway…

É-me dado o direito de também compor “Bibliô”, um livro que há anos está em formatação pelo casal,  que o entrega aos visitantes para que manifestem de próprio punho algum tipo de relato ou reflexão sobre a visita. “É uma fotografia de próprio punho”, identifiquei.

A ideia é simples, por isso muito luminosa.

Senti-me perpetuado ao dissipar meu hieroglifo em suas páginas.

Fiquei de voltar.

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Categoria(s): Crônica
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