domingo - 28/09/2025 - 09:56h
PCC Corporation

O endereço do crime em plena Avenida Paulista

Uma pequena sala sedia 108 empresas, entre elas uma bet e seis firmas que lavam dinheiro
Fachada do Edifício Patrimônio em São Paulo (Foto: Revista Piauí)

Fachada do Edifício Patrimônio em São Paulo (Foto: Revista Piauí)

Por Allan de Abreu e Juliana Faddul (Revista Piauí)

O edifício Patrimônio, na Avenida Paulista, em São Paulo, possui 21 andares com dezenas de salas comerciais. No 15ª piso do prédio, a sala 1513 destoa por ter a porta de entrada pintada na cor cinza, e não branca, como as demais. É o único diferencial, já que todas as salas têm um tamanho padrão, 28 m². Grudada na porta cinza, uma folha sulfite improvisada, pregada com fita adesiva, informa que, naquele espaço, funciona uma empresa de coworking.

Segundo funcionários do prédio, a sala permanece vazia e fechada na maior parte do tempo. O que soa estranho, já que, ao menos no papel, aquele pedacinho de chão corporativo  é um poderoso “hub” empresarial, sede de 108 empresas, cujo capital social soma 530 milhões de reais, segundo informações da Receita Federal. Há firmas de todo tipo de ramo: holdings, empreendimentos imobiliários, provedor de internet, lojas de roupa, fábrica de produtos em cerâmica, joalheria, escritórios de contabilidade.

Está ali também a empresa B3T4 International Group, razão social de três bets ativas no mercado brasileiro: Bet4, Aposta Bet e Faz o Bet. A B3T4, por sua vez, tem conexões com empresas acolhidas na mesma sala e que formam a engrenagem do esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que tomou de assalto o mercado financeiro paulistano, segundo investigações da Operação Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo.

A suspeita de conexão entre a empresa de apostas esportivas e a facção criminosa se dá por meio do empresário Mohamad Hussein Mourad. Seis companhias ligadas ao PCC estabelecidas na sala 1513 são utilizadas para maquiar seus rendimentos obtidos ilegalmente, segundo o MP de São Paulo.

As empresas Urban Prime, Stellar, Horizon, Vitality e Orbit eram controladas por um fundo de investimento e utilizadas para blindar o patrimônio imobiliário de Mourad, um dos líderes do esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa (a  Polícia Federal pediu sua prisão, ele está foragido desde o fim de agosto). Já a Scotia Holdings e Participações servia para ocultar Mourad como o real proprietário da frota de caminhões utilizados pela organização criminosa para escoar o etanol produzido pelas usinas do esquema no interior paulista.

Até dezembro do ano passado, as empresas Urban Prime e Vitallity estavam sediadas no terceiro andar do edifício Faria Lima Offices, na Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. É o mesmo local que abrigava a B3T4. Juntas, em um intervalo de três meses, as três empresas mudaram-se para a sala 1513 do edifício da Avenida Paulista. Outro ponto que aproxima a B3T4 do esquema de Mourad, segundo o Ministério Público, é que ambos se valeram de um mesmo banco, o BS2*, para movimentar parte dos seus recursos.

Há um outro personagem oculto no emaranhado de negócios vinculados a Mourad e o PCC: o advogado Walter Silva Souza, atual chefe de gabinete do vereador em São Paulo Marcos das Neves Palumbo, o Major Palumbo (PP). Além de dono de uma das 108 empresas hospedadas na sala 1513 do edifício Patrimônio (Virginia Holdings e Participações), Souza é sócio da Higienópolis Empreendimentos Imobiliários e da Londrina Fundo de Investimento, que segundo as investigações são utilizadas para blindar o patrimônio de Mourad. Souza também atua como advogado para a Duvale Distribuidora, a quem cabia transportar o etanol das usinas para os postos, cujos reais donos, de acordo com o Ministério Público, são Mourad, o narcotraficante do PCC Daniel Dias Lopes, e Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco. Por fim, Souza figura como sócio da Newib Participações, uma holding estabelecida no terceiro andar do prédio na Rua Cardeal Arcoverde, em São Paulo.

A B3T4 não é a primeira bet sob suspeita de ligações com o PCC. No ano passado, uma investigação da Polícia Federal revelou indícios das ligações de duas casas de apostas do Ceará, Fourbet e Loteria Fort, com a família de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção paulista. De acordo com policiais ouvidos pela piauí, as bets são propícias à lavagem de dinheiro por possibilitarem, por exemplo, que testas de ferro simulem apostas com o capital do tráfico de drogas. Assim, o dinheiro sujo sai devidamente lavado na contabilidade formal da plataforma.

AB3T4 foi fundada em 14 de agosto de 2024 em uma parceria entre a SDMP, uma empresa mexicana, e a catarinense Liliane Alberti. Para o capital social da nova empresa, a SDMP investiu 28 milhões de reais, enquanto Alberti aportou mais 7 milhões. Chama a atenção o fato de que, naquela mesma época em que investia milhões na B3T4, Alberti era procurada pela Justiça por uma dívida de apenas 6,6 mil reais com uma universidade (o débito ainda não foi quitado). Moradora de Herval d’Oeste, cidade de apenas 22 mil habitantes no Oeste de Santa Catarina, ela trabalhou a maior parte do tempo como auxiliar de escritório (seu último emprego formal foi como assistente administrativa em uma firma de certificação digital). Alberti não foi localizada pela piauí – segundo familiares, ela atualmente mora na Argentina.

Sociedade

Seis dias após a fundação da B3T4, em 20 de agosto, ingressou na sociedade a Media 4 Brasil, que, por sua vez, é controlada pela Media4 Curaçao, uma offshore na ilha caribenha cujo diretor é o advogado surinamês Jair Almeida Toussaint. Aqui, um outro ponto que aproxima a B3T4 do PCC: foi Toussaint quem assinou, pela Vaidebet, o contrato de patrocínio de 360 milhões de reais com o Corinthians em 2024. Uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público demonstrou que, do montante total do contrato, cerca de 1 milhão de reais foram parar em uma empresa ligada ao PCC (por conta disso, o então presidente do clube, Augusto Melo, foi destituído do cargo em um processo de impeachment e atualmente é réu em ação penal na Justiça, acusado de furto qualificado, associação criminosa e lavagem de dinheiro).

Atualmente a B3T4 tem como sócios, além da Media 4, Victor Muchiutti Maritan, engenheiro em Marília (SP); Abilio Del Cioppo Elias, empresário de Valinhos (SP); Cristina Dias Tavares Rehem, ex-servidora comissionada no Senado Federal; Eduardo Vinicius Fonseca Silva Cordeiro, um jovem advogado de Goiânia; e o ator Erich Rodrigues Cardoso Pelitz. Atualmente, Liliane Alberti é a representante da SDMP no Brasil. Apesar de citados na investigação do Ministério Público contra o esquema de lavagem do PCC, nem o advogado Walter Silva Souza, nem os donos da B3T4, foram alvos de mandados de busca na Operação Carbono Oculto.

O advogado Souza negou ter relação tanto com o esquema de Mohamad Mourad quanto com a gestora de bets B3T4. “Não conheço [Mourad] e não tenho nenhuma relação com essas empresas. Inclusive já apresentei carta de renúncia [da Higienópolis Empreendimentos Imobiliários e da Newib Participações] porque não tinha conhecimento desses fatos [apresentados pela reportagem]”, disse por mensagem de WhatsApp.

O advogado Eduardo Cordeiro, sócio da empresa, encaminhou a seguinte nota à piauí: “No momento, não estamos dando entrevistas ou participando de compromissos com a mídia. Valorizamos e respeitamos profundamente seu trabalho profissional e solicitamos que nossa privacidade e posição atual sejam preservadas.” Também em nota, divulgada dias após a deflagração da operação do MP, a defesa de Mourad negou os crimes imputados a ele na investigação.

O outro lado

*Às 14h40 do dia 26 de setembro, a assessoria de imprensa do banco BS2 procurou a piauí e enviou a seguinte nota:

O BS2 informa que a empresa B3T4 nunca movimentou recursos por meio de conta no banco. O BS2 também informa que Mohamad Mourad nunca esteve entre seus correntistas Pessoa Física.

Apesar de não termos sido procurados pelas autoridades para esclarecimentos, após a deflagração da operação Carbono Oculto, o banco realizou uma varredura preventiva em sua base de clientes.

Encontramos a empresa Scotia Holdings, que realizou operações em 2023 e 2024 e tem Mohamad Mourad em seu quadro societário. Foram cinco operações para aporte de capital, devidamente documentadas por bancos de primeira linha dos Estados Unidos. Na época, a empresa passou pelas devidas diligências internas de PLD e não foram encontrados fatos que a desabonassem.

Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, o BS2 realizou imediatamente o bloqueio cautelar da Scotia Holdings, ainda que ela não tivesse registrado operações no banco desde maio de 2024.

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domingo - 27/04/2025 - 12:06h
Novo papa

Sete brasileiros e um conclave

A jornada dos cardeais nacionais até Roma para escolha do substituto do Papa Francisco

Por Amanda Gorziza, Luigi Mazza e Pedro Tavares (Revista Piauí)

Escolha do substituto do Papa Francisco não tem qualquer brasileiro em boa cotação (Foto: Observatório do Vaticano/Getty Images)

Escolha do substituto do Papa Francisco não tem qualquer brasileiro em boa cotação (Foto: Observatório do Vaticano/Getty Images)

Dom Odilo Scherer aparece sorridente, de batina e mãos cruzadas, em uma reportagem publicada em março de 2013 pelo centenário jornal britânico The Catholic Herald. Aos 63 anos na época, o pároco brasileiro foi um dos perfilados em uma série de reportagens intitulada “Os homens que podem virar papa”. Ele estava entre os mais cotados, ao menos na imprensa especializada, para assumir o posto ao qual Bento XVI acabara de renunciar.

O raciocínio do jornal era cartesiano: se o Vaticano estava convencido de que era preciso eleger o primeiro papa latino-americano, quem teria mais chances do que o cardeal que comanda a Arquidiocese de São Paulo, cidade mais populosa do Brasil, país que concentra a maior população católica do mundo?

“Eu até brincava com ele, dizendo que ia instalar uma antena parabólica na catedral de Toledo para transmitir quando ele fosse eleito”, conta dom Anuar Battisti, arcebispo emérito de Maringá (PR). Toledo é a cidade do Paraná onde os dois se conheceram e cursaram juntos o seminário. Scherer, três anos mais velho, estudava teologia; Battisti, filosofia. Amigaram-se, tornaram-se presbíteros e, no começo dos anos 1980, trabalharam juntos na organização de um novo seminário que acabara de ser construído em Toledo. Scherer era o reitor.

“Ele é extremamente humano, sensível, organizado, decidido naquilo que pensa”, diz Battisti. “E, na maioria das vezes, tem que prevalecer a ideia dele.” O terreno onde o seminário foi construído era terra pura. Segundo conta o arcebispo, Scherer, apesar do alto posto que ocupava, quis cuidar de todos os detalhes de jardinagem: qual árvore vai onde, que flores serão plantadas, onde ficará o bosque. “É um biólogo por natureza”, diz Battisti.

A parabólica chegou a ser instalada pela TV Globo nos dias que antecederam o conclave, para viabilizar transmissões ao vivo em Toledo. A família Scherer, descendentes de alemães que migraram para o Brasil no século XIX, foi entrevistada em peso pela emissora. Mas todos se frustraram quando, na noite de 13 de março, subiu a fumaça branca na chaminé da Capela Sistina, em Roma: o novo papa se chamava Jorge Mario Bergoglio e era argentino.

Battisti acha que o amigo não se decepcionou. “Quando eu fazia aquelas brincadeiras, ele mandava risadinha. Ou seja, nem ele mesmo acreditava.” Três dias depois, quando a esperança alimentada pelo Catholic Herald já tinha virado pó, a Folha de S.Paulo publicou um perfil de Scherer, apresentando-o dessa vez como “o homem que teria sido papa”.

Dom Odilo Scherer soube da morte de Francisco quando acordou na manhã de segunda-feira (21), feriado de Tiradentes. Organizou uma coletiva de imprensa na Catedral Metropolitana de São Paulo, depois rumou para a Catedral da Sé, onde conduziu uma missa em homenagem ao pontífice. À tarde, participou por videoconferência de uma reunião extraordinária da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). Os conselheiros da entidade, ele incluso, decidiram suspender a assembleia geral que aconteceria entre 30 de abril e 9 de maio, em Aparecida (SP). “Não pode ter assembleia sem o papa estar vivo”, diz Arnaldo Rodrigues, assessor da conferência e professor de comunicação social na PUC-Rio. O evento ficou para 2026.

Mais tarde, em casa, Scherer começou a cuidar dos preparativos da viagem a Roma. Horas antes, ele recebera, por e-mail, a convocação oficial do Colégio Cardinalício para que comparecesse ao funeral do papa, marcado para sábado (26), e ao conclave que elegerá o novo chefe máximo da Igreja. Scherer é um dos sete cardeais brasileiros que podem votar e ser eleitos, em um grupo de 135 (o Brasil só não tem mais cardeais do que Itália, com dezessete, e Estados Unidos, com dez).

Entre os brasileiros, somente ele e João Braz de Aviz, arcebispo emérito de Brasília, já participaram de um conclave (“uma vivência única”, diz Scherer no livro Um padre a vida toda, recém-lançado). Habituado a frequentar o Vaticano, ele embarcou sozinho na quarta-feira (23) em um voo sem escalas de Guarulhos a Roma, levando consigo o hábito coral – a veste vermelha exclusiva dos cardeais e vestida em ocasiões especiais. Scherer conduziria, esta semana, a cerimônia de batismo de um sobrinho-neto em Toledo. A família preferiu adiar o evento.

A rigor, qualquer um dos 135 cardeais pode se tornar o pontífice, se assim desejar o Espírito Santo. Dessa vez, contudo, Scherer não tem sido citado como um dos favoritos pelos jornalistas entendidos do assunto. Os outros brasileiros, tampouco. Entre eles há cinco arcebispos (Jaime Spengler, de Porto Alegre; Leonardo Steiner, de Manaus; Orani Tempesta, do Rio de Janeiro; Paulo Cezar Costa, de Brasília; Sergio da Rocha, de Salvador) e dois arcebispos eméritos – isto é, que não ocupam mais o cargo (João Braz de Aviz, de Brasília; e Raymundo Damasceno Assis, de Aparecida). Todos votam, com exceção de Assis, que já passou dos 80 anos e, pela regra, não pode participar do conclave.

Cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, uma liderança na Igreja do Brasil (Foto: Web, sem identificação de autoria)

Cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, uma liderança na Igreja do Brasil (Foto: Web, sem identificação de autoria)

Dom Anuar Battisti não tem esperanças de que um brasileiro se eleja papa. Desanca os colegas: Paulo Cezar Costa, de Brasília, “é muito jovem para assumir essa peteca”; Sergio da Rocha “não está conseguindo administrar nem Salvador”; Jaime Spengler, de Porto Alegre, “fala mais ou menos italiano e não tem uma formação de ponta”; Leonardo Steiner (“o de Manaus”) tem “problema sério de saúde”; Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, “seria bom candidato, mas é uma figura pesada”; e Odilo Scherer, seu amigo, “já completou 75 e está entregando os pontos”.

Rito

Os oito cardeais estão hospedados no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, instituição mantida em Roma pela CNBB. Fundado em 1934, o colégio forma presbíteros brasileiros e cabo-verdianos, mas também recebe hóspedes com frequência. Lá costumam dormir os religiosos que vão a Roma estudar ou participar de solenidades no Vaticano. Assim que se iniciar o conclave, no entanto, os brasileiros e todos os demais cardeais eleitores serão conduzidos até a Casa Santa Marta (Domus Sanctae Marthae), edifício onde vivia Francisco. Permanecerão trancados, sem acesso a celulares e notícias, até que dois terços deles votem no mesmo candidato.

O rito foi retratado no filme Conclave (2024), que venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado. Mas nem todos os religiosos gostaram do que viram. Scherer tem dito que, “como romance, o filme é interessante, mas não mostra a realidade”. Battisti ainda não assistiu, mas tem colhido opiniões similares. “Me disseram que é muito crítico à Igreja e mostra bispos com tendências homossexuais. Ouvi dizer que o filme não soma nada.”

Dona Lourdinha Fontão, uma famosa catequista de São José do Rio Pardo (SP), fez uma previsão há mais de quarenta anos olhando para o jovem Orani Tempesta: “Esse menino aqui um dia vai ser padre e vai chegar a papa.” Dom Paulo Celso DeMartini, abade que o conhece desde a juventude no interior de São Paulo, torce pela profecia. “Se bem que, nesses tempos atuais, eu penso: ‘Ai, poupe-o senhor.’ Mas que ele e o mundo merecem, não há dúvida.” Dom Filipe Silva, abade no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, acha que Tempesta tinha mesmo perfil para virar papa, e que se fosse mais novo estaria bem cotado.

Tempesta tem 74 anos e há dezesseis comanda a Arquidiocese do Rio de Janeiro. Em mensagem por escrito à piauí, relembrou a convivência com o papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, em 2013. Os dois passaram, segundo ele, “uma semana juntos, no café da manhã, almoço, jantar”. Francisco, a bordo do papamóvel, lhe oferecia chimarrão. Sempre que via o Cristo Redentor, o pontífice fazia uma oração e o sinal da cruz. Como todo cardeal, Tempesta não se coloca como candidato a sucedê-lo e não cita favoritos. “Quem entra no conclave como papa sai como cardeal”, lembra o amigo DeMartini. Os dois têm conversado por WhatsApp, apesar do fuso horário que os separa em cinco horas.

Conservador ou progressista?

Não há, entre os brasileiros, um notório conservador ou progressista. “Os cardeais do Brasil não são tão conservadores quanto os americanos, mas não sei se poderiam ser classificados como progressistas. Acho que podemos chamá-los de moderados”, diz Virgílio Arraes, professor de história da Universidade de Brasília (UnB) especializado em Vaticano. Desde o fim da Guerra Fria, segundo ele, correntes de viés socialista como a Teologia da Libertação, que já foi muito forte no Brasil, perderam espaço. Hoje, a disputa na Igreja se dá entre moderados e conservadores. Dom Orani Tempesta costuma ser citado pelos colegas como um conservador. Dom Odilo Scherer tem reputação de moderado.

Brenda Carranza, professora de antropologia da religião na Unicamp, é um pouco mais pessimista que o colega. “Acho que esse conclave vai ser um divisor de águas para a direita e o conservadorismo católico. Meu palpite é de que a disputa será entre ultraconservadores, conservadores e conservadores moderados.” A seu ver, nem mesmo Francisco podia ser considerado um progressista – se assim era chamado, isso se devia mais ao contraste com o papa Bento XVI do que às suas ideias.

Historicamente, na Igreja, progressistas são aqueles que usam a teologia como ferramenta de transformação social, de conscientização e combate às desigualdades. Francisco, diz Carranza, estava mais próximo daquilo que se convencionou chamar “teologia do povo”, algo como uma Teologia da Libertação desprovida de marxismo. Mas a pesquisadora destaca dois legados do papa que, segundo ela, impactaram a configuração interna da Igreja: a transparência econômica e maior paridade de gênero. “O banco do Vaticano deixou de ser o que era, quase um paraíso fiscal. E agora temos mulheres em posições de liderança na Igreja.”

Nem Brenda Carranza nem Virgílio Arraes arriscam palpites para o conclave. “Toda previsão desmancha no ar”, diz o professor, que em 2005 achava graça de quem apostava em Joseph Aloisius Ratzinger. Ele não acreditava que, depois do conservador João Paulo II, a Igreja elegesse outro conservador. Espantou-se quando Ratzinger foi anunciado como papa Bento XVI. “Durante séculos não houve um papa alemão, até que houve. Nunca um jesuíta seria papa, aí veio Francisco. Na época da Guerra Fria, ninguém imaginava um papa que não fosse italiano, e aí foi eleito João Paulo II, polonês.”

Se fosse apostar em um latinoamericano, Arraes diria que o México talvez tenha mais chances que o Brasil. Mas só Deus sabe.

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domingo - 02/03/2025 - 10:30h
Cosa Nostra

Os negócios da máfia italiana no Rio Grande do Norte

Por Allan de Abreu da revista Piauí

Negócios são vultosos e enredo é marcado por fraudes e mortes (Arte ilustrativa)

Negócios são vultosos e enredo é marcado por fraudes e mortes (Arte ilustrativa)

Era quase noite em Palermo, capital da Sicília, quando dois jovens, um deles com uma faca, entraram em uma pequena loja de produtos de limpeza na Via Altofonte. Depois de renderem os funcionários, os assaltantes levaram 4,5 mil euros que estavam na caixa registradora. Era 29 de agosto de 2019. Cinco dias depois, no mesmo horário, novo roubo na mesma loja: dois rapazes, fingindo estarem armados, levaram mais 2,8 mil euros.

O caminho natural do dono da loja seria procurar a polícia. Mas não foi o que aconteceu. Francesco Paolo Bagnasco preferiu telefonar para Giovanni Caruso, um membro da Cosa Nostra, organização mafiosa que desde o século XIX controla boa parte das relações socioeconômicas na Sicília. Ao analisarem imagens captadas por uma câmera de vídeo, os mafiosos identificaram três assaltantes (um deles havia participado dos dois roubos).

Na tarde de 7 de setembro, quatro dias após o segundo assalto, os três ladrões foram sequestrados e levados para um galpão. Caruso notificou o seu chefe, Giuseppe Calvaruso, bem como o dono da loja, e os três foram até o cativeiro, onde assistiram ao brutal espancamento dos assaltantes. Horas depois, Caruso descreveu, para outro membro da máfia, a face de um dos assaltantes, dizendo que parecia uma “peneira”. O dinheiro roubado foi devolvido a Francesco Bagnasco.

Sete meses depois, em abril de 2020, Bagnasco e outros cinco empresários recorreram a Calvaruso para adquirir nove partes de um grande armazém. Coube à máfia afastar outros pretensos concorrentes na compra do imóvel. Em troca, a Cosa Nostra exigiu uma taxa total de 90 mil euros – 40 mil a serem pagos apenas por Bagnasco por ele ter adquirido quatro partes do armazém. Foi a vez do empresário e seus sócios sentirem na pele a ira da máfia palermitana.

Em telefonema captado pela polícia italiana, Calvaruso ordenou que Caruso exigisse o dinheiro dos empresários antes que o negócio fosse formalizado em cartório. “Não tenha piedade”, disse o chefe. Bagnasco pagou, mas apenas uma parte – 15 mil euros. Em dezembro de 2020, Calvaruso reforçou as ameaças. “Se eles não me derem o dinheiro, tudo pode acontecer”, disse a Caruso. Em fevereiro de 2021, duas semanas antes da formalização do negócio no cartório, o chefe mafioso aumentou o tom das ameaças. “Se alguém ousar fazer a escritura sem ter pagado, não deixe ir ao cartório e meta um revólver na boca dele”, ordenou. Calvaruso falava de um lugar muito distante de Palermo, do outro lado do Oceano Atlântico – mais precisamente, de Natal, no Rio Grande do Norte.

Parte do dinheiro extorquido dos empresários custeou as despesas de familiares dos membros da Cosa Nostra que estão presos. Outra parte foi enviada ao Rio Grande do Norte, onde, ao longo de dezessete anos, sob o comando de Calvaruso, a máfia siciliana investiu 800 milhões de reais no mercado imobiliário por meio de uma engenhosa máquina de transferir e lavar dinheiro. Durante esse tempo, a Cosa Nostra deixou no estado nordestino um rastro de golpes milionários, fraudes cartorárias, corrupção, grilagem de terras e dois assassinatos.

Não se sabe ao certo por que a máfia siciliana escolheu o Rio Grande do Norte para limpar seu dinheiro sujo. Mas há algumas pistas: a relativa proximidade com a Europa e o boom imobiliário na cidade nos anos 2000, impulsionado em parte por investidores da Espanha, Portugal e Itália que desejavam replicar nas praias potiguares condomínios e hotéis do Mar Mediterrâneo. Outro atrativo é o turismo sexual. Não à toa, em 2005 a Polícia Federal desvendou um esquema de tráfico de drogas e aliciamento de mulheres para a prostituição em Natal, comandado pela Sacra Corona Unita, organização mafiosa italiana baseada na região de Puglia, Sudeste da Itália.

Laços históricos

A Cosa Nostra tem laços históricos com o Brasil. Basta lembrar que Tommaso Buscetta, um dos principais líderes da organização, esteve ao menos três vezes no país entre os anos 1960 e 1980. Preso em São Paulo, em 1983, foi extraditado para a Itália, onde fez um acordo de delação com a Justiça, quebrando pela primeira vez o voto de silêncio sobre as atividades da Cosa Nostra. Seus depoimentos embasaram o Maxiprocesso de Palermo, que resultou na condenação de 475 mafiosos.

Giuseppe Calvaruso tem cabelos castanho-claros, repartidos ao meio, e baixa estatura, o que lhe rendeu o apelido, entre os mafiosos sicilianos, de u curtu (o curto, literalmente, ou o baixote). Em 47 anos de vida, a maior parte atuando como empresário da construção civil, adquiriu o respeito da cúpula da Cosa Nostra, sobretudo depois de ter ajudado na fuga de Giovanni Motisi, no fim dos anos 1990. Motisi foi um dos mais sanguinários assassinos de aluguel de Salvatore “Totò” Riina, mafioso que aterrorizou a Sicília e foi o mandante dos assassinatos, em 1992, dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, responsáveis pelo Maxiprocesso de Palermo. Em 1993, Riina foi preso. Morreu em 2017, aos 87 anos.

Por causa do envolvimento na escapada de Motisi (que segue até hoje foragido), Calvaruso foi denunciado à Justiça por associação criminosa e detido em 2002. Acabou sendo solto quatro anos depois – condenação tão breve que ele próprio zombou dela. “Esse juiz idiota vai me dar quatro anos. Ele deveria me dar quarenta anos, não quatro. Eu vim aqui, vim mijar e vou embora”, disse, em conversa interceptada pela polícia. Em 2008, porém, foi preso novamente, dessa vez por participar de um plano para restabelecer um comitê reunindo os principais capi (chefes) da máfia.

Cada município da Sicília (ou, no caso das maiores cidades, cada bairro ou distrito) possui um líder mafioso, chamado capomandamento (mandamento é uma região controlada por determinado clã criminoso). Antonino Rotolo, o capomandamento de Pagliarelli, está preso desde 2006. Quem o substitui desde 2015 é Calvaruso, mas na condição de “regente”, como se chama o líder temporário. Ao assumir o posto, Calvaruso pôs seu conhecimento empresarial a serviço da Cosa Nostra, com uma atitude muito diferente da do violento Riina.

Em conversa interceptada pela polícia italiana, o regente disse ter à disposição cerca de 1 bilhão de dólares para investir. Em nome da Cosa Nostra, negociou a compra de um empreendimento imobiliário na Ilha de Vulcano, perto da Sicília, e intensificou as obras de um resort à beira-mar em Marsala, no extremo Oeste siciliano. “Agora, os mais eficientes membros da máfia caminham com uma pasta, e não com uma arma”, compara um policial antimáfia de Palermo, que pediu anonimato à piauí, por não ter autorização para dar entrevistas.

Lavagem de dinheiro

Quando Calvaruso assumiu o comando em Pagliarelli, a lavagem de dinheiro da máfia no Brasil já estava a todo vapor. A Polícia Federal brasileira, que também investigou o esquema, calcula que a organização mafiosa desembarcou em terras potiguares em 2008, quando Antonino Spadaro, o Nino, viajou pela primeira vez a Natal. Ele é filho de Tommaso Spadaro, famoso capo do distrito de Kalsa, em Palermo. Morto há seis anos, Tommaso fez fortuna com o contrabando de cigarros. Já o filho, um homem parrudo de calvície resplandecente e nariz protuberante, decidiu investir no tráfico de drogas, crime pelo qual foi preso no aeroporto de Milão-Malpensa em dezembro de 2008, quando voltava de uma estadia em Natal.

Em fevereiro de 2009, apenas dois meses depois da prisão de Spadaro, outro italiano, Pietro Ladogana, um homem alto de queixo anguloso que, para a PF, era testa de ferro da Cosa Nostra, também desembarcou em Natal. Na capital potiguar, ele fundou três empresas do ramo imobiliário, com um capital social total de 3,8 milhões de reais, e casou-se com Tamara Maria de Barros. A brasileira seria usada como laranja pelo italiano, que colocou no nome dela boa parte dos imóveis que adquiriu. Outro laranja foi o pedreiro Carlos Antonio Lopes da Silva, que, segundo a Receita Federal, recebeu um depósito bancário de 1 milhão de reais.

Ladogana transferiu para contas no Brasil, por meio de operações regulares registradas no Banco Central, um total de 5,7 milhões de dólares, segundo a PF. O montante, aplicado na compra de ações na Bolsa de Valores de São Paulo, vinha da Europa, sobretudo da Suíça e da Croácia. A quem perguntava sobre a origem de tanto dinheiro, ele dizia trabalhar com revenda de veículos na Alemanha.

Mas Ladogana também começou a grilar terras com o uso da violência. Chegou a criar uma milícia formada por policiais militares para expulsar moradores em Extremoz, município na Região Metropolitana de Natal, onde contava com a ajuda do então tabelião do cartório local e ex-prefeito João Soares de Souza, e de servidores da prefeitura para falsificar documentos que garantissem a posse dos imóveis. Quando o então secretário de Tributação de Extremoz Giovanni Gomes contrariou os interesses do esquema, Ladogana ordenou que um dos PMs de sua milícia, Alexandre Douglas Ferreira, “desse um susto nele” – como a mulher do mafioso contou à Polícia Civil. Gomes levou um tiro de raspão na perna quando saía da festa de formatura do filho, em uma noite de agosto de 2013.

No caso de outro desafeto, o desfecho foi trágico. O empresário italiano Enzo Albanese, que dirigia um time de rugby em Natal e não tinha relações com a Cosa Nostra, descobriu as fraudes fundiárias de Ladogana, bem como desvios de parte do dinheiro da máfia para o próprio bolso, e ameaçou denunciar tudo à polícia. Em março de 2014, Albanese foi ameaçado de morte, caso ousasse delatar seus esquemas. Mas ele não recuou.

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Em 2 de maio do mesmo ano, ele fechava o portão de entrada de sua casa quando o policial Ferreira se aproximou em uma moto e atirou. O italiano morreu no local. Um mês depois, a Justiça de Natal decretou a prisão preventiva de Ladogana, que foi detido no aeroporto de Roma, onde tentava embarcar para o Brasil com 120 mil euros escondidos na roupa. Acabou liberado meses depois, na Itália, e ficou no país natal.

(Divorciado da primeira mulher, Ladogana se casaria em julho de 2019 com outra brasileira, Regina Souza da Silva. A festa de núpcias foi em Bagheria, município vizinho à cidade de Palermo, em um palacete do século XVIII. A polícia italiana não tem dúvida de que a Cosa Nostra bancou a luxuosa cerimônia, que teve Nino Spadaro como um dos convidados. Dois meses mais tarde, ao retornar ao Brasil, Ladogana foi preso novamente. Tempos depois, recebeu uma pena de catorze anos de reclusão, que ele cumpre na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Ferreira não chegou a ser julgado – a Justiça o considerou inimputável, depois que foi diagnosticado com esquizofrenia.)

Em 2016, com Ladogana encrencado na Justiça e obrigado a permanecer na Itália, Calvaruso iniciou o processo de troca do operador da lavanderia de dinheiro da máfia no Brasil. Recorreu então ao empresário Giuseppe Bruno, cuja família lavava dinheiro para a máfia desde os anos 1990 na construção civil da Sicília, de acordo com a polícia italiana.

Antes de chegar ao Brasil, Bruno mudou-se para a Suíça, para assumir o controle de uma empresa da Cosa Nostra no país. De lá, foi para Hong Kong e Cingapura, onde, a mando de Calvaruso, abriu outra empresa e quatro contas bancárias. Por meio da simulação de contratos de empréstimos e de transferências de ações entre as empresas, o dinheiro saiu das contas das firmas da Cosa Nostra na Sicília na direção dos bancos suíços, e dali para as contas bancárias recém-criadas em Hong Kong.

Em fevereiro, depois de passar alguns dias em Cingapura, onde visitou as agências bancárias das contas recém-criadas, Bruno mudou-se de vez para o Brasil, destino final do dinheiro da Cosa Nostra. Em Natal, Bruno assumiu no mesmo ano o controle das empresas de Ladogana e intensificou os investimentos da Cosa Nostra. “Pietro, fizemos um programa que você nem imagina, estamos trabalhando e conhecendo pessoas no Brasil desde que cheguei. Montamos uma máquina de guerra”, contou ele a Ladogana, que continuava na Itália.

Em um primeiro momento, Bruno e Calvaruso investiram 830 mil euros na compra de novas áreas nos arredores de Natal, inclusive uma fazenda que seria transformada em loteamento com perspectivas de ganhos milionários. “Gostaria de salientar que estamos falando de 180 hectares, onde há a possibilidade de construir cerca de 7.500 casas, que por 100 mil reais são 750 milhões de reais de faturamento, com um lucro residual de mais de 50%…”, escreveu Bruno, por e-mail, a um integrante da máfia na Sicília. No total, segundo o Ministério Público Federal, a máfia adquiriu 76 imóveis no Brasil. Parte dos recursos foi usado para engordar o capital das empresas da máfia (uma delas, a América Latina Hemisfério Investimentos Imobiliários, tinha sede em um imóvel residencial simples de Natal, mas possuía capital de 100 milhões de reais).

Apesar de movimentar quantias milionárias, Bruno levava uma vida espartana em Natal. Morava de aluguel em um bairro da periferia, possuía um automóvel popular usado e almoçava em restaurantes baratos. Assim, mantinha a discrição necessária e cumpria uma tradição de décadas da Cosa Nostra: evitar as tentações do dinheiro fácil, em respeito aos “irmãos” que cumprem pena no cárcere.

Certo dia, em um shopping de Ponta Negra, local abastado da cidade, Bruno conheceu Sara da Silva Barros, de 37 anos de idade. Logo, ela se tornaria não só a mulher de Bruno, como sua testa de ferro preferida, já que não tinha antecedentes criminais. “Sara é cem por cento limpa”, escreveu ele para Calvaruso, por WhatsApp. Foi em nome dela que Bruno e Calvaruso montaram a pizzaria e cafeteria Italy’s, na orla de Natal. “Cem pizzas por dia com uma média de 50 reais é 5 mil por dia. Por trinta dias é 150 mil. Em dois meses já se pagou”, contabilizou Calvaruso, em conversa com Bruno (a pizzaria, entretanto, não prosperou, e fechou as portas algum tempo depois). Em abril de 2022, Barros registrou um boletim de ocorrência na polícia em que acusava o marido de agressões físicas e psicológicas e admitia ser laranja do italiano.

O caminho do dinheiro

O dinheiro da Cosa Nostra fluía para o Brasil de três maneiras: por cartões internacionais pré-pagos em nome de laranjas (o dinheiro era depositado no exterior e sacado em Natal), por meio de mulas, que o transportavam na bagagem ou no corpo, e através de operações dólar-cabo – um complexo sistema de compensação bancária em que o doleiro recebe o dinheiro em determinado país e deposita valor equivalente em conta no exterior, com isso burlando os sistemas de fiscalização, pois não há transferência direta de valores entre os países.

Segundo a polícia italiana, essas operações ilícitas, com frequência semanais, eram orquestradas pelo brasileiro José Reinaldo Valandro, doleiro radicado em Roma, e pelo mafioso Nino Spadaro. Orientado pelos dois, Bruno depositava as quantias em contas bancárias indicadas na Alemanha, na Espanha, em Portugal, Luxemburgo ou Chipre. Valandro, por sua vez, transferia quantia equivalente em reais para contas no Brasil.

No caso das transferências físicas de dinheiro, seja da Itália para o Brasil, seja no caminho contrário (quando a máfia queria reaplicar o dinheiro já limpo na Sicília), a principal mula de Bruno era sua mãe, Rosa Anna Maria Simoncini, que já beirava os 70 anos. Em um primeiro momento, a idosa atuou sobretudo na Itália: apanhava o dinheiro em espécie em Roma (levado do Brasil por outros mulas) e o transportava na bagagem para Palermo. “[Quando chegar a Roma] Você deve dizer que vai continuar para Milão para fazer uma operação [médica] e voltar para Palermo no dia seguinte. Eu recomendo absolutamente que você não diga que vai pegar o navio de volta na mesma noite”, orientou Bruno à mãe, em mensagem via WhatsApp.

A partir de novembro de 2017, Simoncini passou a transportar milhares de euros em espécie da Itália para Natal, e vice-versa. Em algumas dessas viagens, Bruno orientou a mãe a ir de navio da Sicília até próximo de Roma, e só então apanhar o avião para o Brasil, a fim de despistar a polícia. Em uma delas, foi escoltada por Carlos Eduardo Ferreira de Menezes, policial civil em Natal contratado por Bruno. “Então, dez mil [euros] você dá para o Carlos, dez mil você também pode guardar na sua bolsa e o resto você coloca no seu sutiã”, ordenou o filho. O próprio Bruno transportou 130 mil euros da Itália para o Brasil, em janeiro de 2018.

O policial e advogado Carlos Menezes conheceu Bruno em 2016, quando o italiano e Nino Spadaro foram até a Delegacia de Apoio e Assistência ao Turista (Deatur), em Natal, onde o então agente trabalhava, para fazerem um boletim de ocorrência contra João Soares de Souza, tabelião do cartório de imóveis de Extremoz, e seu filho, Gustavo Eugênio Costa de Souza. Segundo Bruno, o tabelião e o filho haviam falsificado a escritura de uma área de 29 hectares adquirida pela empresa Tecnobloco Construções Ltda., da qual o italiano se dizia sócio e procurador, para revendê-la a terceiros por 16 milhões de reais.

Por causa do alegado prejuízo pela perda do terreno, Bruno e Spadaro passaram a pressionar o tabelião, que se comprometeu a pagar 1,2 milhão de reais e a entregar outra área a eles. Mas Souza só pagou 150 mil reais, e os italianos descobriram que os documentos da área oferecida eram falsos.

Na discussão com os italianos, o tabelião ameaçou Bruno e seu advogado com um revólver, dentro do cartório de Extremoz, o que motivou um segundo boletim de ocorrência contra Souza, agora por ameaça, registrado pelo então policial Menezes no fim de 2017, na mesma Deatur. A aproximação com o policial fez com que este fosse convidado a trabalhar como segurança para a viagem que a mãe de Bruno fez da Itália ao Brasil.

Em março do ano seguinte, Souza e o filho foram denunciados à Justiça por estelionato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acusados de uma série de fraudes documentais. Souza morreu um mês depois, de causas naturais. Gustavo, seu filho, foi absolvido. Sem saída, Bruno ingressou com ação na Justiça contra o tabelião e o filho, e a 1ª Vara de Extremoz condenou o espólio de Souza e também Gustavo a indenizarem Bruno em 22 milhões de reais.

No fim de 2017, Menezes aposentou-se da Polícia Civil e passou a advogar para Bruno na regularização e na intermediação da compra e venda de imóveis. Aqui, as versões divergem.

Segundo o italiano, Menezes disse que poderia influenciar o juiz da 1ª Vara de Extremoz, onde tramitava o processo contra o tabelião Souza, e pediu dinheiro para repassar ao magistrado. Ele também solicitou verba para subornar policiais militares, que, em troca, fariam a vigilância dos terrenos, impedindo possíveis invasões. Como não foram constatados indícios de corrupção por parte do magistrado e de PMs, o Ministério Público denunciou Menezes e mais duas pessoas por formação de quadrilha, exploração de prestígio, estelionato e ameaça (a ação penal ainda não foi julgada).

Na versão de Menezes, ele foi alertado em 2019 por um topógrafo que era falsa a procuração por meio da qual os supostos donos da Tecnobloco Construções na Itália davam poderes para Bruno gerenciar os negócios da empresa no Brasil. Ao contatar o cartório em Roma onde o documento foi formalizado, Menezes confirmou a fraude. “Com isso, o meu acordo com o Bruno não valia nada. Fiquei no prejuízo”, diz ele à piauí. Menezes encaminhou o caso à Polícia Civil, que indiciou Bruno por uso de documento falso. A Justiça, porém, acabou arquivando a investigação, a pedido do Ministério Público, para quem a representação contra Bruno deveria ter partido dos donos da empresa na Itália, e não de Menezes.

No segundo semestre de 2019, o próprio Giuseppe Calvaruso, regente da Cosa Nostra, decidiu se mudar para Natal, a fim de cuidar mais de perto dos investimentos da máfia e fugir do cerco policial na Sicília. Em julho, o italiano foi para Cingapura, onde esteve nos mesmos bancos onde o sócio Bruno havia passado três anos antes (segundo a polícia italiana, provavelmente para alinhar novas injeções de capital no Brasil). Em novembro, desembarcou na capital potiguar.

Uma vez no Brasil, Calvaruso acelerou os investimentos da máfia. Concluiu a construção de uma casa dentro de um resort em Bananeiras, interior da Paraíba; comprou dois apartamentos em Cabedelo, município vizinho a João Pessoa; adquiriu duas empresas em Natal (uma delas dona de imóveis avaliados em quase 4 milhões de reais, no total) e fundou a pizzaria Italy’s. “Se você puder concluir [os investimentos], você salva todo mundo, acredite em mim”, escreveu a Calvaruso o seu braço direito em Palermo, Giovanni Caruso, em julho de 2020. “Conclusão: eu só tenho que me segurar, faz anos que eu sempre salvo tudo e todos”, vangloriou-se Calvaruso. “Acredite em mim, estou um pouco cansado, especialmente por viver sozinho, longe da minha família. […] Mas, se eu não resolver isso como eu digo, não voltarei [para a Itália] de mãos vazias.” As mensagens foram trocadas por meio do aplicativo Sky ECC, com forte criptografia – o que não impediu que, no ano seguinte, as polícias francesa e belga conseguissem acessar os diálogos e repassá-los à polícia italiana.

Para fincar raízes no Brasil e evitar uma possível extradição para a Itália, Calvaruso “comprou” a paternidade de um recém-nascido em Natal, em junho de 2020. O passo seguinte foi pedir a cidadania brasileira, acreditando que o país não extradita seus cidadãos. Semanas antes do nascimento da criança, Calvaruso mandou Caruso enviar 3 mil euros para ele no Brasil, por meio de cartões pré-pagos.

“Preciso disso porque tenho que resolver minha autorização de residência, caso contrário, eles não me darão o visto. É muito importante. Na segunda-feira, preciso que as transferências sejam feitas. Invente alguma coisa”, escreveu no Sky ECC. Dias depois, pelo mesmo aplicativo, reforçou seus planos a Caruso: “Na próxima semana ou mesmo nesta semana nasce o bebê, que vou registrar em meu nome. Então eles me dão uma autorização permanente. Dentro de dois anos a cidadania. […] Eles [policiais italianos] devem se esquecer de mim.”

Não se sabe se o dinheiro foi dado como pagamento aos pais do bebê ou ao cartório onde foi registrado o nascimento, para que fizessem vista grossa sobre a paternidade fraudada. Fato é que o pai biológico da criança, também italiano, não só permitiu que o filho fosse registrado em nome do mafioso como emprestou a Calvaruso o seu cartão pré-pago.

A artimanha não funcionou. Calvaruso foi preso tão logo desembarcou no aeroporto de Palermo, vindo de Natal, em 4 de abril de 2021, para passar o feriado de Páscoa com a família. Outros de seus quatro acólitos também foram presos, incluindo o braço direito Caruso. De Natal, Bruno, em conversa via WhatsApp com a mulher de Calvaruso, Rosa Rita Catalano, lamentou a prisão do chefe: “Às vezes eu rezo, pensando: mas nós merecemos tudo isso?”

Desde então, Calvaruso ocupa uma cela em uma penitenciária de segurança máxima na Ilha da Sardenha, a noroeste da Sicília. Em conversas captadas dentro do presídio, ele disse à sua mulher que tem vontade de se mudar em definitivo com a família para o Brasil: “Tenho que saber a cidade que é mais conveniente para nós… você sabe quanto é [o tamanho] do Brasil, Ro? Tanto quanto toda a Europa.”

Conversas monitoradas

Desde 2016, a polícia italiana monitorava todas as conversas mantidas por Calvaruso no seu celular, por meio de um programa espião instalado no aparelho com autorização judicial (nos autos da investigação, não fica claro qual seria esse programa). Com isso, a Direção Distrital Antimáfia de Palermo reuniu informações suficientes para iniciar o rastreio do esquema de lavagem de dinheiro mantido pela Cosa Nostra no Brasil. Em 2021, os primeiros policiais italianos desembarcaram em Natal para rastrear o patrimônio amealhado pela máfia e seguir de perto os passos de Giuseppe Bruno.

No ano seguinte, em maio, o governo italiano decidiu solicitar formalmente um acordo de cooperação com o Ministério Público Federal (MPF) brasileiro para “a obtenção de dados confiáveis sobre rastreabilidade dos grandes fluxos financeiros movidos da Itália para o Brasil e informações sobre bens atribuídos a Giuseppe Calvaruso e outros”. A investigação do MPF, da PF e da Receita Federal, iniciada em outubro de 2022, não só confirmou os dados já investigados desde a Itália como encontrou novas suspeitas sobre o patrimônio do trio Calvaruso-Ladogana-Bruno no Rio Grande do Norte.

No caso deste último, os auditores fiscais constataram uma diferença superior a 4 milhões de reais entre a renda declarada e a movimentação bancária no período entre 2016 e 2020. Já Ladogana recebeu 10 milhões de reais em suas contas entre 2009 e 2016, mas declarou no imposto de renda apenas 450 mil reais, um indicativo, segundo a Receita, de que ele movimentou dinheiro de origem ilícita.

Em novembro de 2023, a PF encaminhou à Justiça os pedidos de prisões preventivas e de buscas. Em poucas semanas as requisições foram acatadas pela 14ª Vara Federal de Natal, mas a operação tinha de ser deflagrada ao mesmo tempo no Brasil e na Itália, onde havia outros participantes do esquema mafioso. A Justiça italiana demorou a conceder os pedidos de prisão (só o fez em agosto de 2024), e a PF perdeu o rastro de Bruno.

Foi graças às constantes brigas entre ele e sua mulher (embora estivessem já divorciados), quase sempre com registros de boletins de ocorrência na Polícia Civil, que uma agente da PF descobriu que Bruno estava morando em um flat em Ponta Negra, um bairro em Natal (em um dos registros policiais, Sara Barros disse que o ex-marido a obrigou, sob ameaça de morte, a assinar documentos em que ela renunciava às sociedades das empresas do esquema da máfia).

Bruno foi preso na manhã de 13 de agosto de 2024. No mesmo dia, a Direção Distrital Antimáfia de Palermo prendeu na Itália a mãe dele, Rosa Simoncini. No Brasil, nove pessoas, incluindo Calvaruso, Bruno e sua ex-mulher, Ladogana, sua ex-mulher, Tamara Barros, e a atual, Regina Souza, são réus em ação penal, ainda não julgada, na 14ª Vara Federal de Natal, acusados de associação criminosa e lavagem de dinheiro. Em dezembro passado, o inquérito da polícia italiana seguia em andamento.

O advogado de Calvaruso na Itália, Michele Giovinco, disse à piauí que a Justiça ainda não provou a responsabilidade do réu na suposta extorsão aos compradores do armazém na via Altofonte, em Palermo, nem na lavagem de dinheiro na compra e venda de imóveis no Brasil. “Não há provas processuais nas investigações italianas de transferência de dinheiro de Hong Kong ou Cingapura, nem para a Itália e nem para o Brasil”, afirmou.

Giovinco alega que Calvaruso se mudou para o Rio Grande do Norte em 2019, porque desejava deixar seu país natal. “Ele sempre disse em seus interrogatórios [à polícia] que queria ir embora de Palermo e se mudar definitivamente para longe da Itália.”

Em nota, a defesa de Ladogana informou apenas que o patrimônio dele no Brasil “foi adquirido com muito trabalho” e que o empresário nunca teve envolvimento com a Cosa Nostra. Nino Spadaro não quis se manifestar. A defesa de Bruno não foi localizada.

Assassinato

Última ponta solta dos esquemas da máfia siciliana no Rio Grande do Norte é o assassinato de Carlos Antonio Lopes da Silva, o taxista que se tornou laranja de Pietro Ladogana e era dono formal de duas empresas e de dezenas de imóveis no estado. Mesmo depois da prisão do italiano, em 2019, Silva continuou próximo dele – era uma das pessoas autorizadas por Ladogana a visitá-lo na prisão em Alcaçuz.

Na noite de 1º de março de 2023, Silva dormia em sua casa no bairro Pitangui, em Extremoz, com a mulher e as duas filhas do casal, quando ouviu a porta da entrada sendo arrombada. Pegou um bastão e conseguiu atingir um dos invasores, mas acabou levando sete tiros de pistola de outro criminoso. Morreu ao lado da sua cama.

A principal suspeita da polícia é que Silva tenha sido morto a mando de um empresário potiguar que teria grilado parte dos terrenos da Cosa Nostra no estado. Responsável pelo inquérito, o delegado André Kay, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Ceará-Mirim, não revela a identidade do suspeito para não atrapalhar as investigações. Passados quase dois anos do crime, o inquérito ainda não foi concluído.

Allan de Abreu é repórter da Piauí e autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)

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Categoria(s): Reportagem Especial
domingo - 23/02/2025 - 20:24h
Governo Federal

Plano de saúde ‘baratal’ é aposta perigosa num universo já sofrido

Por Breno Pires para a revista Piauí

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

No último dia 10, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deu o primeiro passo do que pode ser uma mudança drástica no mercado dos planos de saúde. A autarquia aprovou a realização de uma consulta pública sobre a implementação, em caráter experimental, de um tipo de plano barato e com cobertura baixíssima. Não permite atendimentos de emergência nem internações. Não inclui tratamento para câncer, autismo ou outras condições médicas, tampouco exames essenciais para a detecção de doenças graves, como tomografias e ressonâncias.

No jargão técnico, o que a ANS pretende fazer se chama sandbox regulatório – uma medida por meio da qual as agências reguladoras flexibilizam normas e permitem que empresas privadas (no caso, as operadoras de planos de saúde) testem uma nova prática por um determinado período de tempo sem risco de serem punidas. O “plano para consultas médicas estritamente eletivas e exames”, como a ANS vem chamando a nova modalidade, atende a um pleito antigo das empresas do setor.

A decisão foi aprovada por unanimidade pela diretoria colegiada da ANS e anunciada como uma boa notícia. “O objetivo é ampliar e simplificar o acesso dos brasileiros aos planos de saúde, aumentando a oferta e a diversidade de produtos na saúde suplementar”, disse o texto de divulgação da agência. Mas médicos e especialistas no assunto temem que seja o início de um processo de precarização ainda maior do acesso à saúde suplementar no Brasil.

A tese da ANS e das grandes empresas do setor é de que é preciso oferecer planos de saúde mais baratos para brasileiros que, hoje, não são capazes de arcar com a modalidade tradicional e sofrem nas filas de hospitais públicos. Segundo eles, esse grupo consiste sobretudo de trabalhadores informais, desempregados e idosos. Por tabela, além de beneficiar essas pessoas, diz a ANS, o novo plano pode ajudar a desafogar o Sistema Único de Saúde (SUS).

Contestação

Os especialistas contestam essa tese por dois motivos. Primeiro, alegam que um plano de saúde com cobertura tão precária vai inevitavelmente empurrar seus clientes para o SUS sempre que eles ficarem doentes ou precisarem de um atendimento mais complexo. Segundo, dizem se tratar de uma proposta que fere a Lei dos Planos de Saúde. Em vigor desde 1998, ela obriga as operadoras de planos a cobrir atendimentos de urgência e emergência. Mesmo o tipo mais simplificado de plano que existe hoje, o ambulatorial, garante atendimento de urgência, emergência e internação por até doze horas. Também abarca tratamentos como quimioterapia, radioterapia e hemodiálise.

Soma-se a isso a percepção de que a ANS está tomando decisões sem o devido debate. A Diretoria de Normas e Habilitação de Produtos da agência, responsável por elaborar a proposta que foi aprovada, dispensou a realização de uma Análise de Impacto Regulatório (AIR), medida adotada quando se quer dimensionar o impacto de uma nova regra. Nenhum gerente, coordenador ou diretor adjunto dessa diretoria assinou a proposta, que foi elaborada por um único especialista e endossada pelo diretor responsável, Alexandre Fioranelli.

A criação desse novo tipo de plano também não foi discutida até agora com o Ministério da Saúde. É de se esperar que fosse, já que mudanças regulatórias na saúde privada inevitavelmente impactam o SUS.

Dois coelhos

Para as operadoras de saúde, a proposta, caso vingue, matará dois coelhos com uma única cajadada. Primeiro, derrubará uma proteção garantida por lei, abrindo um precedente que pode resultar em novas brechas na regulação da saúde suplementar. E, em segundo lugar, permitirá que essas operadoras disputem mercado com os cartões de descontos e clínicas populares, que surgiram no Brasil como alternativas de baixo custo na saúde.

“Trata-se de uma manobra administrativa da maior gravidade, com um objetivo claro: criar um mercado novo, tentando liberar planos de menor cobertura para competir com os cartões de desconto. Pauta das operadoras absorvida mais uma vez pela ANS, um desserviço aos consumidores e ao sistema de saúde”, disse à piauí Mario Scheffer, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

O outro lado

O Ministério da Saúde respondeu com uma nota curta à abordagem sobre o assunto: “O Sistema Único de Saúde (SUS) tem como princípio fundamental garantir atendimento integral, universal e gratuito a toda a população. Sobre a proposta da ANS, que ainda está em fase de análise, o Ministério da Saúde acompanha de perto debates sobre este tema e segue atento às discussões em andamento.”

A Secretaria Nacional do Consumidor (SENACON) não respondeu. Wadih Damous, indicado pelo presidente Lula (PT) para assumir a presidência da ANS, disse à Piauí que não vai se manifestar sobre questões relativas à agência antes de ser submetido à sabatina no Senado.

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Categoria(s): Política / Saúde
  • Repet
segunda-feira - 03/07/2023 - 09:46h
Saúde e poder

Hospital controlado por deputado já empalmou quase 1 bilhão

Topo da reportagem especial da Piauí com Lira em destaque negativo (Reprodução)

Topo da reportagem especial da Piauí com Lira em destaque negativo (Reprodução)

Desde 2016, o Hospital Veredas, em Maceió, recebeu quase R$ 1 bilhão. A partir do ano seguinte, passou a ser administrado por aliados ou parentes de Arthur Lira (PP), o todo-poderoso presidente da Câmara dos Deputados.

Apesar do dinheiro abundante, com mais recursos do que a Santa Casa de Maceió, que atende mais pacientes, o Veredas enfrenta graves dificuldades financeiras.

Reportagem bem interessante sobre o assunto está na revista Piauí, com suporte de reportagem da Agência Pública.

Mostra que os problemas se agravaram no mesmo momento em que começou a gestão do PP no Ministério da Saúde.

Em resumo: quanto mais dinheiro, mais dificuldades para o Hospital Veredas, seus pacientes, equipe funcional.

Esse Brasil parece mesmo sem jeito.

Veja AQUI reportagem.

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Categoria(s): Política
sexta-feira - 12/06/2020 - 09:24h
Revista Piauí

A boa pena da cultura de Mossoró

Do Blog Tio Colorau

O advogado Marcelo Dantas Rosado Maia, neto de Vingt-un Rosado (já falecido) e filho do pediatra Dix-sept Rosado Sobrinho, venceu a edição de maio do concorrido concurso literário da revista Piauí. Ele teria que elaborar um texto que tivesse a frase “Um fio de cabelo no meu paletó” e o elemento estranho “Darth Vader”. Não poderia exceder 05 mil toques.

O advogado ganhou com o texto “O Beletrista de Antanhos”, desbancando outros 67 concorrentes.

Como mossoroense, também me sinto orgulhoso. A revista Piauí é conhecida por tratar dos assuntos do cotidiano em textos impecáveis e de fôlego, com aquela pitada literária, sempre pendendo para o sarcasmo e bom humor. Figurar nas suas páginas é um forte indício de qualidade literária.

O texto está na página 91.

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Categoria(s): Cultura
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domingo - 30/07/2017 - 11:24h
Revista Piauí

O julgamento de Jararaca

Reportagem mostra júri simulado de cangaceiro e outros aspectos da história do combate em Mossoró

Por Adriana Negreiros (Revista Piauí)

De todas as crueldades atribuídas ao cangaceiro José Leite de Santana, vulgo Jararaca, a mais famosa consistia em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal. Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e às gargalhadas do cangaceiro.

Além de assassino sádico e cruel, Jararaca – “Forte, resistente, ágil, moreno-escuro, atirador exímio, grande lutador de facas”, na descrição do historiador Luís da Câmara Cascudo – também carrega fama de pecador santificado pelo martírio. O túmulo onde jaz, no Cemitério São Sebastião, na cidade de Mossoró, recebe constantemente a visita de fiéis em busca de milagres.

Nas celebrações de Finados, em 2 de novembro, é a sepultura mais visitada daquele município do oeste do Rio Grande do Norte, a 280 quilômetros de Natal. Diante da lápide, os devotos depositam cestos de flores, laços de fita e velas acesas. Não raro também se encontram, entre as oferendas, preservativos usados – uma das crenças locais é a de que Jararaca intervém em casos de fraqueza sexual aos que se entregam ao amor por sobre seus restos mortais.

Grupo de resistência ao ataque de Lampião no distante ano de 1927 em Mossoró (Foto: reprodução da época)

Na manhã do último dia 9 de junho, uma sexta-feira, a nata da intelectualidade mossoroense reuniu-se no salão do tribunal do júri, no Fórum Desembargador Silveira Martins, para tentar chegar a um veredicto sobre a figura algo dúbia de Jararaca. Três advogados, uma professora, um padre, um jornalista e um médico formavam o conselho de sentença do tribunal simulado que decidiria, noventa anos depois de sua morte, se o cangaceiro deveria entrar para a história como bandido sanguinário ou vítima da opressão do Estado.

Nascido em 5 de maio de 1901 na cidade de Buíque, no agreste pernambucano, Santana é um dos personagens centrais do episódio mais glorioso da história de Mossoró: a vitória da resistência local ante a tentativa de invasão da cidade pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o Rei do Cangaço.

Em 1927, quando decidiu conquistar Mossoró, Lampião já era o grande terror dos sertões, o bandido mais temido de toda a história do Nordeste. Superara, em fama e prestígio, os ilustres cangaceiros que o antecederam, como o pernambucano José Gomes, o Cabeleira (celebrizado no romance de mesmo nome, de Franklin Távora); o baiano Lucas Evangelista, o Lucas da Feira; e o potiguar Jesuíno Brilhante.

Rodolfo: líder da resistência

Terror

Lampião e seus asseclas espalhavam violência por onde passavam, praticavam saques, incêndios e assaltos.

Com um punhal de 80 centímetros, Virgulino furava os inimigos – rendidos e ajoelhados – próximo ao osso situado logo abaixo do pescoço, a chamada saboneteira, descendo pelo corpo em linha diagonal e fazendo sangrar os grandes órgãos. O procedimento impunha à vítima uma morte vagarosa, ao gosto dos cangaceiros.

Pela habilidade de escapar à perseguição das forças policiais, Lampião já havia, àquela altura, sido elevado à categoria de lenda. Nas décadas de 20 e 30, era uma figura onipresente nos jornais, revistas e até na cena cultural do país. Em 1926, um ano antes do ataque a Mossoró, a peça Manda Chuva de Lampião garantira uma rentável bilheteria ao Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. O Rei do Cangaço gostava de atribuir a boa sorte de não ser capturado à proteção de padre Cícero, de quem era devoto, e ao fato de ter o “corpo fechado”.

Na verdade, o fator decisivo para o sucesso das fugas do bandido era, além de seu sofisticado senso estratégico, o apoio de muitos líderes políticos e coronéis da região, a quem seu bando servia como uma espécie de milícia. Embora muitos estudiosos tenham tentado compreender Virgulino Ferreira da Silva a partir do viés marxista da luta de classes – o que lhe conferiria certo caráter de Robin Hood sertanejo –, o fato é que ele atendia sobretudo aos interesses da elite agrária.

Mossoró em 1927 e o temível Lampião

A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando saqueavam o comércio, invadiam salas de cinema e interrompiam festas de casamento, muitas vezes mandando os convidados tirarem a roupa e dançarem nus.

Mossoró sediava, àquela altura, um dos maiores parques salineiros do país e três firmas de descaroçamento e prensa de algodão, o chamado “ouro branco”. Também tinha uma agência do Banco do Brasil e três jornais – um deles, O Mossoroense, circulava desde 1872. As filhas e mulheres dos barões do sal e do algodão mandavam confeccionar seus vestidos com tafetás e sedas que chegavam da França e da Inglaterra pelo porto de Areia Branca, município litorâneo vizinho.

O presidente da Intendência Municipal de Mossoró era, ele próprio, um vistoso representante da elite salineira. Aos 55 anos, magro, bigode pincel e porte elegante – mesmo no excruciante calor mossoroense, não dispensava o terno e a gravata-borboleta –, Rodolfo Fernandes possuía, como Lampião, aguçado senso estrategista. Ao ser informado de que o cangaceiro-mor já se encontrava em território norte-rio-grandense, acionou o alerta vermelho.

Seus conselheiros mais próximos, entretanto, achavam aquela preocupação um exagero. Virgulino podia ser ousado, mas não era maluco a ponto de tentar a sorte em uma potência como Mossoró, diziam seus interlocutores. Ademais, a Catedral de Santa Luzia tinha duas torres. E, como se sabia, Virgulino costumava dizer que “cidade com mais de uma torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição, mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e, portanto, mais difíceis de dominar.

Durante alguns dias, Fernandes dedicou-se a elaborar um plano de resistência. Deixou os homens da cidade de sobreaviso para que, ao primeiro sinal, despachassem mulheres, idosos e crianças para as cidades vizinhas e engrossassem as trincheiras oficiais. Recorreu aos industriais e comerciantes da cidade e apurou 23 contos de réis para a aquisição de cinquenta rifles e fuzis, além de 9 mil cartuchos.

Massilon abre caminho

O intendente já tinha informações de que, em Apodi, distante apenas 80 quilômetros dali, sob o comando do cabra Massilon – que, por ser da região, liderava a incursão pelo estado –, o bando invadira a cadeia e roubara os revólveres dos praças. Não que armas fossem artigo em falta entre eles.

Massilon conhecia bem a cidade; Lampião liderava bando a distância e Sabino foi ao combate (Foto: reprodução)

No ano anterior, 1926, Lampião e seus asseclas haviam sido convocados para formar os batalhões patrióticos e combater a Coluna Prestes no sertão nordestino, tarefa conduzida pelo deputado federal Floro Bartolomeu, com a anuência de padre Cícero. Os bandoleiros nunca chegaram, de fato, a correr atrás da Coluna – mas garantiram, além de uma falsa patente de capitão para Virgulino, novíssimos fuzis de uso exclusivo do Exército para o bando.

O coronel Antônio Gurgel, um dos barões da região, acompanhava, angustiado, a evolução do grupo. Sua esposa passava uns dias em uma fazenda próxima dali, e as notícias de invasões a propriedades privadas, com alardeados estupros, espancamentos e incêndios, eram frequentes. Na tarde de 12 de junho, um domingo, Gurgel juntou em uma bolsa uma pistola, cinquenta balas e 1 conto de réis.

Tinha decidido ir ao encontro da mulher. Ainda na estrada, contudo, foi rendido pelo cangaceiro Coqueiro, que tomou sua bolsa e o levou a Lampião. A partir daquele instante, o coronel se tornou mais um refém do Rei do Cangaço – outros já haviam sido feitos na jornada dos cabras pelo Rio Grande do Norte.

Naquele mesmo domingo em que Gurgel foi capturado, os mossoroenses vestiram-se de azul e branco, de um lado, e alvinegro, de outro, para assistir a uma partida do clássico entre Humaitá e Ipiranga, os dois gigantes do futebol local. Depois do jogo, os atletas do vitorioso Humaitá saíram em passeata pela cidade. Um petit comité formado por jogadores e torcedores reuniu-se para um sarau dançante em um dos casarões de estilo colonial do Centro de Mossoró.

Quando o convescote estava no auge da animação, por volta das nove da noite, um mensageiro chegou com a má notícia: Lampião já estava em São Sebastião, povoado vizinho, em posição de ataque. Houve quem questionasse se aquilo não seria um boato plantado pela torcida do Ipiranga para interromper a comemoração do time adversário. Pelo sim, pelo não, deliberou-se pelo fim da festa.

Batendo em retirada

Foi melhor assim. Às onze, os sinos das torres da Catedral de Santa Luzia começaram a badalar. Na sequência, tocou também o sino da Igreja de São Vicente e, depois, da Igreja do Coração de Jesus. A música produzida pelos quatro sinos ecoou por toda a cidade, avisando aos moradores que era chegada a hora da batalha.

No meio da noite, levas de comboios com mulheres, velhos, crianças e, dizem as más-línguas, os covardes, deixaram Mossoró – a maioria carregava os pertences mais valiosos em pequenas trouxas feitas às pressas. O município de Areia Branca triplicou a população em questão de horas. Houve até quem pegasse barcos e navegasse rumo ao alto-mar, com temor de ser capturado por Lampião em terra firme.

Durante a madrugada, barricadas de fardos de algodão foram montadas para proteger os lugares onde os soldados se abrigariam para o combate. A casa de Rodolfo Fernandes era uma das mais seguras, com uma barreira em forma de U protegendo a frente e as laterais da residência.

A operação foi comandada pelo tenente Laurentino de Morais, enviado de Natal pelo governo do estado. Boa parte dos 150 homens armados postou-se no alto da Igreja de São Vicente. Havia combatentes também nos telhados de casas e de prédios da região. Quando o dia amanheceu, Fernandes recebeu uma carta do coronel Antônio Gurgel enviada por um portador de Lampião.

“Meu caro Rodolfo Fernandes. Desde ontem estou aprisionado do grupo de Lampião, o qual está aquartelado aqui bem perto da cidade. Manda, porém, um acordo para não atacar mediante a soma de 400 contos de réis. Posso adiantar sem receio que o grupo é numeroso, cerca de 150 homens bem equipados e municiados à farta.”

Mais à frente, implorava em nome da própria neta, Yolanda, de 2 anos, para que arrumassem a quantia e salvassem sua vida. Fernandes, sem perder tempo, enviou a resposta: “Antônio Gurgel. Não é possível satisfazer-lhe a remessa de 400 contos, pois não tenho, e mesmo no comércio é impossível encontrar tal quantia. Ignora-se onde está refugiado o gerente do Banco do Brasil, sr. Jaime Guedes. Estamos dispostos a recebê-los na altura em que eles desejarem.”

Rodolfo Fernandes x Lampião

Ao receber a correspondência, Lampião resolveu tratar o assunto de chefe para chefe. Como a ocasião exigia formalidade, escolheu um papel timbrado. No alto, lia-se a inscrição “Capitão Virgulino Ferreira (Lampião)”.

De próprio punho, garatujou as seguintes ponderações: “Coronel Rodolfo. Estando eu até aqui pretendo dinheiro. Já foi um aviso aí para os senhores. Se por acaso resolver me mandar, será a importância que aqui nos pede, eu evito a entrada aí. Porém, não vindo essa importância, eu entrarei até aí, pensa que a Deus querer eu entro e vai haver muito estrago por isto, se vir o doutor. Eu não entro aí, mas me resposte logo. Capitão Lampião.” O intendente, atendendo ao pedido do cangaceiro, foi ligeiro na resposta. Mas inflexível: “Estamos dispostos a acarretar com tudo o que o senhor queira fazer contra nós. A cidade acha-se firmemente inabalável na sua defesa.”

Como a negociação não prosperou, Lampião reuniu seu estado-maior, formado pelos cangaceiros Moderno, Ezequiel e Luís Pedro, e anunciou o início da marcha sobre Mossoró. Montados a cavalo, seguiram até a localidade de Saco, distante 2 quilômetros do Centro, onde seis reféns – entre eles, o coronel Gurgel –, permaneceram sob a vigilância de um bandido.

Os demais bandoleiros foram divididos em dois grupos, liderados respectivamente por Sabino e Massilon. Jararaca, que bebera mais cachaça do que o recomendado a um guerreiro prestes a entrar em combate, fora destituído do seu tradicional posto de líder e passara a integrar o time de Massilon. Lampião e seus tenentes seguiram para o cemitério. O combinado era que, após o assalto vitorioso, o bando voltasse a se encontrar.

Com os fuzis apoiados sobre os ombros e cantando Mulher Rendeira, o grito de guerra das invasões (Olê, mulher rendeira/olê, mulher rendá/me ensina a fazer renda/que eu te ensino a guerrear), os cangaceiros entraram na região central de Mossoró. Os ocupantes das trincheiras no alto da Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do avanço das tropas.

Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem incomodados, foram surpreendidos. O cabra Colchete, do grupo de Massilon, tentou avançar sobre uma barricada de algodão e foi morto por um tiro certeiro na cabeça. Jararaca, ao ver a cena, correu na direção do companheiro e foi atingido por um tiro no peito. Mesmo machucado e ainda embriagado, conseguiu levantar-se e correr, ocasião em que levou outro balaço, dessa vez na coxa, perto da bunda.

Derrotados, Sabino, Massilon e os demais correram em direção ao cemitério e transmitiram as más notícias para o estado-maior cangaceiro. De lá, o grupo seguiu até o Saco, pegou os reféns e os cavalos e fugiu em disparada. Aquele episódio acabaria por se constituir na maior humilhação imposta ao Imperador dos Sertões, o Governador da Caatinga, o todo-poderoso Rei do Cangaço. Também serviria para despertar o espírito cívico dos mossoroenses.

Orgulho mossoroense

Desde então, seus moradores passaram a se referir ao município, hoje com 290 mil habitantes, como “País de Mossoró”.

“Todo mossoroense cresce ouvindo, com orgulho, os relatos da vitória contra o bando de Lampião”, disse-me a atual prefeita do País de Mossoró, Rosalba Ciarlini, uma sorridente médica de 64 anos cujo penteado e jeito de se vestir lembram o da ex-presidente Dilma Rousseff.

Enquanto aguardávamos o início do julgamento de Jararaca, a prefeita me ocuparia contando histórias reveladoras do espírito vanguardista e libertário da cidade. Lembrou que em 1927, mesmo ano dos fatos gloriosos, a professora Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira eleitora do Brasil. Antes que o voto feminino fosse regulamentado pelo Código Eleitoral de 1932, uma lei potiguar estabeleceu a indistinção de sexo para votar e ser votado. Guimarães, além de entusiasta do ideário do humanismo cívico, também era juíza de futebol.

Cunha Lima e Honório de Medeiros: duelo de alto nível intelectual (Foto: arquivo)

Rosalba Ciarlini recordou ainda que, em 1875, 300 mulheres saíram às ruas de Mossoró para protestar contra o alistamento militar obrigatório. Com pedaços de pau e pedras, renderam um juiz de paz e, na sequência, confiscaram e picaram os documentos relativos à convocação de seus filhos e maridos.

Também rasgaram os editais de alistamento afixados pela cidade e, em uma praça, chegaram a trocar sopapos com os soldados da força pública. O motim, que entraria para a história como a Marcha das Mulheres, seria outra demonstração inequívoca da valentia e bravura dos nascidos no País de Mossoró. “A líder da Marcha, Anna Floriano, é minha tataravó”, disse a prefeita, sem disfarçar o orgulho.

Minha aula de história foi bruscamente interrompida um minuto depois das nove e meia da manhã, quando o juiz Breno Valério Fausto de Medeiros, da 3ª Vara de Família da Comarca da cidade, declarou aberta a sessão do júri. “Este é um julgamento de valor sociológico”, explicou. “A população mossoroense, representada pelos jurados aqui presentes, irá decidir se Jararaca é vítima ou culpado.”

Cerca de oitenta pessoas tinham ido assistir ao debate entre defesa e acusação, a maioria estudantes e professores de direito e história. Vestiam-se com capricho.

Duelistas proeminentes no júri

O ar-condicionado gelava o salão espartano, adornado com um mobiliário funcional em tons de cinza. Os homens podiam trajar seus ternos elegantes, a despeito do calor de 30ºC do lado de fora. Algumas mulheres usavam saltos altos, bem como rímel, delineador e sombra esfumada nas pálpebras.

O julgamento havia sido idealizado e organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) como parte das comemorações pelos 90 anos da Resistência, termo usado pelos mossoroenses para referir-se ao episódio de 1927.

Um desavisado que, por distração, intitule o fato de “invasão” corre o risco de ser submetido a mínimos dez minutos de explanação semiótica sobre o evento, a depender do interlocutor.

À exceção de uma mulher com chapéu de cangaceira na plateia, o evento não tinha nada de folclórico ou caricato.

Acusação e defesa foram assumidas por duas figuras proeminentes na cena jurídica local, ambas vestidas a caráter, com toga: os advogados Diógenes da Cunha Lima, ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras; e Honório de Medeiros, mestre em filosofia do direito e assessor jurídico do governo do estado. Cada um dispôs de sessenta minutos para fazer, respectivamente, a acusação e a defesa do cangaceiro.

“Jararaca não tinha esse nome por ser feio”, discursou Cunha Lima, fazendo suspense sobre o apelido do réu. “Mas pelos atos de animal peçonhento”, concluiu o advogado, um homem magro e bonito que, ao sorrir, parece ter menos do que seus 80 anos. Cunha Lima argumentou que o cangaceiro obedecia a um chefe sanguinário, que frequentemente cortava a língua de seus inimigos.

Num tom grave, recorreu a uma narrativa que adquiriu tons de lenda e é constantemente lembrada, com um ou outro detalhe diferente, pelos que contam as peripécias de Lampião. Conforme a história, certa vez, durante a invasão a uma fazenda, o sicário tentou beijar uma moça à força. Seu noivo, ao presenciar a cena, foi tirar satisfações com o bandido.

Ato contínuo, o pobre homem teve calças e cueca arrancadas e os testículos trancados a chave na gaveta de uma cômoda. Sobre o móvel, Lampião deixou um facão. “Volto em dez minutos”, avisou ao rapaz. “Se você ainda estiver aqui, será morto.” A lenda não conclui se o jovem cortou os testículos para sobreviver ou se foi torturado e aniquilado pelo cangaceiro.

Acusador, Lampião e Shakespeare

“Esse era o tipo de coisa que Lampião e sua gente fazia. Não se pode considerar que um homem como Jararaca não seja culpado”, argumentou Cunha Lima, com os olhos fixos nos sete jurados. Os cangaceiros, ele disse, cometiam atos bárbaros motivados por ganância, pura maldade e desejo de fama. Comparou Lampião ao personagem Macbeth, de Shakespeare. “Um tornou-se rei da Escócia. Outro, do sertão. Ambos usavam ouro sobre a cabeça – um, em forma de coroa; outro, nos enfeites do chapéu. Os dois diziam ter os corpos fechados. Ambos tinham mulheres bandidas – Lady Macbeth e Maria Bonita – e eram sanguinários e destruidores de vidas”, explicou.

“Que ninguém se esqueça dos crimes que os cangaceiros fizeram contra a heroica cidade de Mossoró”, concluiu. E, em tom jocoso, lembrou aos jurados que havia um certo ex-presidente brasileiro que também se considerava uma jararaca.

Enquanto Lampião e seu bando galopavam o mais rapidamente possível para bem longe de Mossoró, Jararaca conseguiu rastejar por entre a multidão – que estava distraída arrastando o corpo do cangaceiro Colchete pela cidade – e alcançar a ponte férrea, na saída para Areia Branca. Dormiu próximo a um arbusto e, ao amanhecer, arrastou-se por mais alguns metros até encontrar um grupo de trabalhadores da estrada de ferro. A um deles, chamado Pedro Tomé, Jararaca entregou uma quantia em dinheiro e pediu que fosse à cidade buscar algodão, gaze e água oxigenada.

Pedro Tomé, um homem caseiro, trabalhador e pouco dado aos fuxicos que corriam pelas praças da cidade, estava por fora dos eventos virtuosos da véspera. Ouvira o barulho dos tiros, ao longe, mas os tomara por fogos de artifício – 13 de junho é o dia em que se acendem enormes fogueiras em homenagem a santo Antônio. Ao chegar à farmácia e contar sobre o homem ferido, foi alertado de que se tratava de um cangaceiro. Apavorado, Tomé voltou para casa protegido por dois policiais. Jararaca recebeu voz de prisão e foi levado para a cadeia pública de Mossoró, no Centro da cidade.

A cela em que Jararaca ficou trancado tinha grades que davam para a rua. Centenas de mossoroenses amontoavam-se em frente ao local para ver um cangaceiro de perto, como um leão feroz preso a uma jaula do zoológico. Enchiam-lhe de perguntas. Queriam saber quantos homens já havia matado. Se amealhara fortuna no cangaço. Quais eram seus arrependimentos. Até hoje, corre a lenda de que, nesse momento, Jararaca teria confessado sentir um único remorso: de aparar crianças com a ponta do punhal.

Jararaca: morte em Mossoró (Foto: reprodução)

Um dos que correu até a cadeia para ver o bandido foi Raul Fernandes, filho do intendente Rodolfo. Tinha então 19 anos. Mais tarde, já médico, escreveria o livro A Marcha de Lampião, no qual descreve Jararaca como um sujeito “mestiço, de estatura média, músculos rijos, compleição robusta, mais forte do que os soldados circundantes”.

O bandido recebeu cuidados médicos na prisão e foi autorizado a permanecer, parte do tempo, em uma sala mais reservada, onde podia se acomodar numa espreguiçadeira de lona. Foi ali, provavelmente, que ele recebeu Lauro da Escóssia, filho do dono do diário O Mossoroense, depois que o jornalista conseguiu autorização da direção da cadeia para realizar a primeira entrevista com Jararaca.

Segundo o relato de Escóssia, seu interlocutor fazia barulho ao respirar, por causa do tiro no pulmão, e tinha olhos opacos. O preso também revelaria detalhes operacionais da tentativa de invasão, como o fato de ter sido Massilon o idealizador do ataque. O concorrente O Correio do Povo também traria uma entrevista bombástica com Jararaca: ao repórter, o bandido citara nomes de políticos e coronéis nordestinos que davam proteção e recebiam dinheiro de cangaceiros.

Na sequência às delações de Jararaca, o tenente Laurentino de Morais, comandante da operação de resistência, foi chamado às pressas a Natal por seus superiores.

Possivelmente na noite de 20 de junho – a data exata ainda é motivo de controvérsias entre pesquisadores –, Jararaca foi acordado por dois policiais, com a justificativa de que seria levado à capital para tratamento médico. Sonolento, o bandido, segundo escreveria Raul Fernandes, teria pedido alguns minutos para recolher os pertences, dentre eles seu velho par de alpercatas. “Deixe-as aí. Em Natal, você será presenteado com sapatos de verniz”, disse, com ironia, um dos policiais.

Do lado de fora da cadeia, uma escolta formada por oficiais – dentre eles, o tenente Laurentino de Morais – aguardava o cangaceiro, logo acomodado no banco de um possante Willys-Knight com capota de lona. Quando o veículo já pegava velocidade, o cangaceiro olhou pela janela e estranhou o caminho que estavam tomando. Em vez da estrada para Natal, iam na direção contrária. Em frente ao Cemitério São Sebastião, o motorista pôs o pé no freio e desligou o motor. Os policiais arrastaram o bandido para fora do carro, adentraram o cemitério e, ao dobrar à esquerda, chegaram a uma cova aberta.

O que se sucedeu foi, durante anos, motivo de controvérsia. O pesquisador Kydelmir Dantas, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, lembra que, enquanto esteve na ativa, o sargento Pedro Silvio de Morais, um dos comandantes da resistência, sustentou que Jararaca havia sido morto com uma coronhada do fuzil de um policial, “sem que seu corpo sofresse qualquer decepação”. O depoimento de Morais consta do livro Lampião em Mossoró, publicado pelo historiador potiguar Raimundo Nonato em 1955.

Em 1996, já na reserva, o mesmo Morais daria outra versão dos fatos para o historiador Raimundo Soares de Brito, autor de Nas Garras de Lampião: “De todas as ocorrências daquela noite, a que mais me comoveu foi quando os seus coveiros quebraram, com picaretas e coices de armas, as pernas do infeliz bandoleiro, pois a cova que fora cavada antes era muito pequena.”

A defesa com filosofia

O advogado Honório de Medeiros, encarregado de defender Jararaca, recorreu a uma livre interpretação de um dos mestres da filosofia racionalista do século XVII para dar início a sua fala. “Espinoza dizia que quem tudo compreende tudo perdoa”, sentenciou, batendo as pontas dos dedos contra o tablado do púlpito enquanto encarava a plateia com ar solene. Aos 59 anos, cabelos grisalhos e olhos vivos, Medeiros é um homem alto, de corpo forte e presença vigorosa na corte, em contraste com os modos suaves do acusador Diógenes Cunha Lima.

“Jararaca nasceu pobre, preto e bastardo. Jararaca nasceu condenado”, disse, em tom dramático. “Levava uma vida sem esperança, sem médico, sem música, sem alimento, sem nada. Olhava para o futuro e via, entre amanheceres e anoiteceres, longos dias de trabalho praticamente escravo”, argumentou. “Cangaceiros, ao contrário, eram homens embriagados de liberdade, assim como, no oeste americano, foram Billy the Kid e Bonnie & Clyde”, afirmou, em referência ao ladrão que aterrorizou os Estados Unidos no final do século XIX e ao casal fora da lei especializado em assaltar bancos durante a Grande Depressão americana.

O advogado pediu aos jurados e à plateia que evitassem julgar os crimes de Jararaca com os olhos de hoje. Fez uma longa explanação sobre insubmissão e evolução do processo civilizatório. Disse que madre Teresa de Calcutá e o físico Albert Einstein, assim como Jararaca e Massilon (sobre cuja trajetória publicou um livro), também eram rebeldes.

“A insubmissão está consagrada na história e na ciência”, defendeu. “Os insubmissos mudam a ordem das coisas. Com a Lava Jato, o Ministério Público Federal também criou uma ruptura.”

Nos minutos finais da defesa, ao ser alertado por um oficial de Justiça de que o tempo estava prestes a se encerrar, narrou, com fortes tintas, o triste fim de José Leite de Santana. “Os soldados, sob observação de tenentes e sargentos, levam Jararaca até uma cova previamente aberta. Percebem que ele estertora. Não estava morto. Os oficiais recuam e determinam que o ponham dentro da cova. E, estertorando, Jararaca recebe a primeira pazada de areia na cara. É sepultado. Vivo”, contou, levantando a voz ao pronunciar a última palavra.

“O Estado prendeu, julgou, condenou e executou Jararaca sem que ele tivesse direito à defesa. Pagou uma pena violenta e tenebrosa. E estamos aqui reunidos para condená-lo de novo?”, indagou, enfaticamente, dirigindo-se aos advogados, ao padre, ao jornalista e ao médico que compunham o conselho de sentença. “O que peço é que compreendamos Jararaca. E, porque o compreendemos, sejamos capazes de perdoá-lo”, concluiu.

A plateia parecia impactada com o discurso de Honório de Medeiros. Os aplausos que ele recebeu (proibidos em um júri convencional, mas liberados naquele julgamento simulado) foram mais intensos do que os dedicados à acusação.

Diógenes da Cunha Lima tinha direito a uma réplica, mas a dispensou. “Ele foi brilhante. Fiquei apaixonado”, confessou o jornalista Raimundo Lopes, presente à audiência.

A sentença

O juiz Breno Fausto de Medeiros determinou que dois oficiais providenciassem a coleta dos votos. Cada um segurava uma urna de tecido vermelho aveludado. Na primeira, os jurados deveriam depositar o voto válido – vítima ou culpado – e, na segunda, o descarte.

Finda a coleta, o juiz recebeu a urna com os votos válidos e passou à leitura das cédulas. “Primeiro voto: culpado”, anunciou, para um auditório em silêncio. “Segundo voto: vítima. Terceiro voto: vítima.” E assim prosseguiu, até o último voto. Por 6 a 1, Jararaca foi absolvido da acusação de inimigo de Mossoró.

Júri simulado ocorreu em Mossoró (Foto: cedida)

O juiz solicitou aos presentes que ficassem de pé para a leitura da sentença. Após um breve resumo do caso, proferiu a conclusão: “O conselho de sentença composto por representantes da sociedade mossoroense, personalidades de reputação ilibada e capacitação inconteste, acolheu, por maioria, a tese da defesa, absolvendo o acusado no seu julgamento histórico e o reconhecendo injustiçado e vítima dos seus algozes.”

Encerrada a audiência, o juiz, alguns jurados, advogados e jornalistas reuniram-se para almoçar num restaurante especializado em costela de javali. “Fiquei surpreso com o resultado”, disse-me o juiz Breno Fausto, enquanto esvaziava uma concha de feijão-verde no prato. “Mossoró é uma cidade peculiar. Ao mesmo tempo em que se orgulha da resistência absolve um cangaceiro”, comentou.

O único voto contra Jararaca tinha partido do médico e advogado Armando Negreiros, cuja revolta contra a sentença adquiria ares dramáticos. “Com esse júri, Mossoró renuncia à resistência e condena a figura de Rodolfo Fernandes”, reclamou, depois de tomar um gole no copo de cerveja. “Jararaca era um delinquente de última categoria, um bandido de alta periculosidade. Como é que um homem desses é vítima de alguma coisa?”

Durante o almoço, Diógenes da Cunha Lima ouviu de mais de um comensal a mesma explicação para o seu infortúnio: tinha perdido a simpatia do corpo de sentença ao citar, indiretamente, a figura do ex-presidente Lula. “Era um júri majoritariamente de esquerda”, ponderou Armando Negreiros. “Não reflete o que a sociedade norte-rio-grandense pensa”, lamentou.

Quis o destino que o júri simulado de Jararaca ocorresse no mesmo dia em que, em Brasília, encerrava-se o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral, ocasião em que o voto de minerva do ministro Gilmar Mendes permitiu que o presidente Michel Temer permanecesse no Palácio do Planalto.

No Twitter, observadores da cena potiguar relacionaram os dois casos. “Se até Jararaca foi inocentado em Mossoró, você queria que no TSE fosse diferente?”, indagou @Luzichi. “Jararaca, assaltante de Mossoró, sequestrador, assassino confesso, foi absolvido de quê? Foi o TSE que o liberou?”, escreveu @thadeubrandao.

Mossoró tem, de fato, uma relação dúbia com os cangaceiros. Chuva de Bala no País de Mossoró, espetáculo teatral em que cerca de oitenta atores encenam a expulsão de Lampião, tratando o intendente Rodolfo Fernandes como herói, é um dos pontos altos da programação cultural da cidade, atraindo multidões de espectadores de toda a região.

Já no Memorial da Resistência, espaço construído pela prefeitura, em 2008, para contar os eventos de 1927, há, na entrada, enormes painéis de Lampião e Maria Bonita. Uma escolha que, para muitos, é difícil de entender: se os grandes heróis da Resistência foram os combatentes, por que as fotos destacadas são as dos cangaceiros? “Trata-se de um simbolismo. Os resistentes não venceram qualquer um. Venceram Lampião, o Rei do Cangaço”, teorizou a professora Ludimilla Oliveira, que compôs o júri de Jararaca.

Coincidência ou não, na sessão solene em homenagem ao aniversário de 90 anos da Resistência, na Câmara Municipal, ninguém comentou o mérito da absolvição de Jararaca. “O maior resultado do julgamento é o resgate da história da Resistência, independente da absolvição ou condenação”, esquivou-se a prefeita Rosalba Ciarlini, presente à sessão.

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No discurso mais aplaudido da solenidade, o advogado Francisco Marcos de Araújo, presidente da comissão organizadora das comemorações da Resistência, convocou o espírito guerreiro de seus conterrâneos. “Só podemos, no presente, dizer que somos um povo libertário e valente porque não nos tornamos genuflexos ao jugo vandalista do cangaço”, discursou, quase aos gritos.

Ao fim da cerimônia, todos os participantes – inclusive a prefeita – dançaram miudinho ao som do hino de Mossoró, um xote cuja letra diz: Lembramos hoje teus anos de glória/Ousada foste sempre Mossoró/Por ti começa a senda da vitória/Na luta ao cangaceiro Lampião.

Na manhã de 10 de junho, um dia após a absolvição de Jararaca, duas velas queimavam sobre seu jazigo no Cemitério São Sebastião. Um cesto de vime azul ostentava uma rosa branca, com folhas no caule. Potes de plástico transparentes comportavam flores amarelas. Arranjos de flores artificiais, envolvidas em fitas azuis, caíam por sobre a lápide.

Dali era possível ver, a não mais do que 10 metros de distância, o túmulo do herói da Resistência mossoroense, o intendente Rodolfo Fernandes. A construção, bem mais imponente que a de Jararaca, contém um busto do líder político e é adornada por colunas gregas.

Sobre a lápide de Fernandes jazia uma solitária rosa vermelha, com as pétalas já secas, esturricadas pelo inclemente sol da valente Capital do Oeste Potiguar, o País de Mossoró.

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Categoria(s): Cultura
sexta-feira - 02/12/2016 - 17:00h
Pacote anticorrupção

Quase 200 deputados contra projeto respondem ações na Justiça

Por Cristina Tardáguila e Raphael Kapa (Agência Lupa/Piauí/Folha de São Paulo)

Na madrugada da quarta-feira (30), quando a Câmara colocou em pauta o pacote das 10 Medidas contra a Corrupção, havia na Casa 195 deputados com duas características peculiares: tinham ao menos uma “ocorrência judicial” em sua ficha pública e estavam dispostos a incluir no texto-base apresentado pelo Ministério Público Federal a possibilidade de condenar juízes, procuradores e promotores que venham a cometer abuso de poder.

Esse levantamento foi feito nos últimos dias pela Agência Lupa a partir do cruzamento de duas bases de dados públicas: a da Câmara, que contém o resultado das votações das emendas apresentadas naquela noite e, a dos registros judiciais monitorados pelo projeto Excelências, da ONG Transparência Brasil.

Registros judiciais

Há anos, a plataforma independente acompanha de perto os 513 parlamentares e aponta quais deles são investigados ou respondem ações na Justiça comum, na Justiça eleitoral e/ou nos Tribunais de Conta.

Nesse grupo de 195 deputados federais que decidiram apoiar aquela que é considerada a principal mudança no texto-base do pacote anticorrupção, destacam-se três deputados: Beto Mansur (PRB-SP), Herculano Passos (PSD-SP) e Junior Marreca(PEN-MA). Juntos, eles respondem nada menos do que 124 registros judiciais.

O grupo que garantiu a validação da emenda que prevê punição por abuso de poder a figuras do Judiciário também conta com a presença de 18 dos 21 deputados federais que já são investigados na Operação Lava Jato.

Saiba mais AQUI.

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Categoria(s): Política
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