quarta-feira - 21/04/2021 - 04:24h
Relexão

Nós, os egoístas

Nesses tempos de pandemia, não tenho ocupado muito minhas redes sociais (pessoais) para botar o focinho por lá, ou expor mesa com vinho e queijos. Não tenho vinho nem queijos em casa.

Posso comprar, mas não os tenho.

Opção, coisa de prioridade mesmo. Eles não o são.

Prefiro gente, à coisa. A primeira, gosto; a outra, uso.Onde moro, quase nada que ocupa espaço é acessório, cumulativo ou dispensável. Tudo tem serventia, inexiste penduricalho – inclusive o imã com escudo do Fluminense à porta da geladeira.

Tenho visto muita gente berrando, cobrando, esperneando, apontando o dedo para políticos e poderes públicos, exigindo providências contra efeitos imediatos e, outros que se avizinham, derivados da Covid-19.

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente, mas realmente…” Uso trecho de uma música que fez muito sucesso nos anos 80, como preâmbulo de uma reflexão. Não seria a hora de perguntarmos: “E o que eu posso fazer por quem não tem nada ou está prestes a fazer parte de uma manada famélica e desesperada?”

Fui confrontado em recente entrevista à TCM-Telecom, se não considerava o coronavírus um divisor de águas à reflexão da humanidade e, do ser humano, quanto ao seu papel em sociedade.

Fui absolutamente sincero, sem rodeios ou utilização de qualquer tipo de alegoria filosófica: “Não acredito, não creio. O ser humano continuará sendo o que sempre foi. Teimamos em não dar certo!”

Passamos por pestes que dizimaram multidões incalculáveis na Idade Média, Gripe Espanhola com mais de 50 milhões de cadáveres no século XX, duas guerras mundiais, matança urbana sem fim, mas até hoje milhões de pessoas morrem de fome e desprezo, em todas as partes do mundo “civilizado”.

Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor dos célebres e encorpados “O Gene egoísta” e “Deus, um delírio”, somos geneticamente predatórios, competitivos e estamos em permanente luta pela sobrevivência – numa seleção natural sem fim, que é replicante a todo tempo e hora, ad infinitum (ao infinito).

Com vinho e queijos à mesa, não acredito que essa quarentena, confinamento, isolamento social e qualquer outro termo que adotem à segregação compulsória, sejam capazes de mudar o indivíduo e essa humanidade. Continuaremos individualistas e pequenos.

Isso é tão comum, que ser solidário, altruísta e ter compaixão por quem sofre, acabam virando notícia, manchete e dão belas reportagens à mídia. Nos levam ao choro. Por quê? Por que são exceções, situações estranhas até.

A Covid-19, doença espalhada pelo coronavírus, vai passar e deixará para trás lições que de novo não vamos aprender. Sobreviveremos.

* Esse artigo foi publicado originalmente no dia 1º de abril de 2020, às 13h24, portanto há um ano e 20 dias, ainda no começo da pandemia (confira AQUI).  O RN tinha apenas 2 óbitos (veja AQUI) e 92 casos confirmados. Até ontem (20 de abril), eram 5.156 mortes (18 nas últimas 24 horas) e 213.668 casos confirmados.

O Brasil somava 244 vítimas e 6.931 casos confirmados da Covid-19 em 1º de abril de 2020. Nesse dia 20 de abril de 2021, as mortes chegaram a 378.003 (3.321 nas últimas 24 horas). Os casos confirmados são 14.043.076.

Absolutamente, não tenho sequer uma vírgula a modificar do que foi postado no início dessa tragédia.

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quarta-feira - 01/04/2020 - 13:24h
Relexão

Nós, os egoístas

Nesses tempos de pandemia, não tenho ocupado muito minhas redes sociais (pessoais) para botar o focinho por lá, ou expor mesa com vinho e queijos. Não tenho vinho nem queijos em casa.

Posso comprar, mas não os tenho.

Opção, coisa de prioridade mesmo. Eles não o são.

Prefiro gente à coisa. Uma eu gosto; a outra, uso.Onde moro, quase nada que ocupa espaço é acessório, cumulativo ou dispensável. Tudo tem serventia, inexiste penduricalho – inclusive o imã com escudo do Fluminense à porta da geladeira.

Tenho visto muita gente berrando, cobrando, esperneando, apontando o dedo para políticos e poderes públicos, exigindo providências contra efeitos imediatos e, outros que se avizinham, derivados da Covid-19.

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente, mas realmente…” Uso trecho de uma música que fez muito sucesso nos anos 80, como preâmbulo de uma reflexão. Não seria a hora de perguntarmos: “E o que eu posso fazer por quem não tem nada ou está prestes a fazer parte de uma manada famélica e desesperada?”

Fui confrontado em recente entrevista à TCM-Telecom, se não considerava o coronavírus um divisor de águas à reflexão da humanidade e, do ser humano, quanto ao seu papel em sociedade.

Fui absolutamente sincero, sem rodeios ou utilização de qualquer tipo de alegoria filosófica: “Não acredito, não creio. O ser humano continuará sendo o que sempre foi. Teimamos em não dar certo!”

Passamos por pestes que dizimaram multidões incalculáveis na Idade Média, Gripe Espanhola com mais de 50 milhões de cadáveres no século XX, duas guerras mundiais, matança urbana sem fim, mas até hoje milhões de pessoas morrem de fome e desprezo, em todas as partes do mundo “civilizado”.

Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor dos célebres e encorpados “O Gene egoísta” e “Deus, um delírio”, somos geneticamente predatórios, competitivos e estamos em permanente luta pela sobrevivência – numa seleção natural sem fim, que é replicante a todo tempo e hora, ad infinitum (ao infinito).

Com vinho e queijos à mesa, não acredito que essa quarentena, confinamento, isolamento social e qualquer outro termo que adotem à segregação compulsória, sejam capazes de mudar o indivíduo e essa humanidade. Continuaremos individualistas e pequenos.

Isso é tão comum, que ser solidário, altruísta e ter compaixão por quem sofre, acabam virando notícia, manchete e dão belas reportagens à mídia. Nos levam ao choro. Por quê? Por que são exceções, situações estranhas até.

O Covid-19, doença espalhada pelo coronavírus, vai passar e deixará para trás lições que de novo não vamos aprender. Sobreviveremos.

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domingo - 04/03/2018 - 04:10h

Controlar ou ser controlado

Por Honório de Medeiros

Não é fácil compreender que o capitalismo é um subsistema (um fato), e o socialismo uma ideologia. A outra face ideológica do socialismo é o liberalismo, mas ambos são produto do subsistema que é o capitalismo.

O capitalismo, que é um fato, como dito acima, engendra soluções adaptativas para se manter e/ou ampliar seu espaço. Uma delas é a criação de instrumentos ideológicos, como o Estado, por intermédio dos quais os homens são manipulados em suas circunstâncias de vida específicas.

Tampouco é fácil compreender a ontologia de um sistema.

Desde a “Teoria Geral dos Sistemas”, de Ludwig von Bertanlaffy, que “a besta”, como ele a denomina, preenche o tempo dos estudiosos de todos os campos do conhecimento, desde a virologia à linguagem de programação dos computadores quânticos, passando pelas ciências ditas sociais. Embora compreender o que é um sistema não seja fácil, não é tão difícil perceber que tudo quanto nos cerca é uma realidade em processo, um sistema dinâmico.

Basta ler, por exemplo, “Emergence (The Connected Lives of Ants, Brains, Cities and Software)” de Steven Johnson, que a tradutora optou por traduzir como “Emergência (A dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares).

Do quê trata Johnson em seu livro?

Em síntese: do surgimento de complexos sistemas adaptativos, tais como formigueiros, cérebros, cidades, softwares, e assim por diante.

“O que une esses diferentes fenômenos é uma forma e um padrão recorrentes: uma rede de auto-organização, de agentes dessemelhantes que inadvertidamente criam uma ordem de nível mais alto”, diz ele. Leia De formigas, cérebros, cidades e softwares, no qual faço um resumo da obra de Johnson.

Ele chama esse tipo de “surgimento”, no qual um organismo complexo pode se aparecer sem que haja um líder para planejar e dar ordens, sem hierarquia e comando, via a “mão invisível e fantasmagórica da auto-organização”, de “comportamento emergente”.

As raízes dessa densa teoria repousa no solo fértil do pensamento de Adam Smith, Charles Darwin, Alan Turing e, embora não citado pelo autor, Ilya Prigogine e sua teoria do caos e do atractor. E, claro, Richard Dawkins e seu antológico último capítulo de “O Gene Egoísta”, no qual propõe a teoria do “meme” que, por si só, é um “meme”, esse inesperado momento zero do surgimento de um novo subsistema cultural dentro de outro maior.

Pois bem, enquanto tais discussões ocupam o tempo e o pensamento da vanguarda da ciência, os homens ainda se ocupam em tentar firmar um debate de natureza ideológica entre socialismo e capitalismo. Nada mais arcaico.

Aliás, nada tão arcaico quanto a produção intelectual na área de ciências sociais. Ou ciências humanas.

Mal sabem eles que a apropriação da mais-valia produzida pelo homem, esse fato inerente ao subsistema capitalista, existe sob qualquer ideologia, sob qualquer bandeira, sob qualquer credo.

O que difere, de um para o outro, é o conto-da-carochinha com o homem que será enganado por aqueles que pensam controlar as circunstâncias, a realidade, quando na verdade por elas são controlados.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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domingo - 12/04/2015 - 18:16h

Deus, um delírio?

Por Honório de Medeiros

É inegável a importância de “O Gene Egoista”, de Richard Dawkins. Obra seminal, aprofundou o entendimento da Teoria da Evolução, de Darwin, e propôs um novo paradigma, qual seja o de que somos instrumentos, enquanto organismos, do gene, cujo único objetivo é a auto-replicação.

Ainda mais além, especulou acerca da idéia de “meme”, o análogo, na cultura, de um gene. As consequências dessas hipóteses, uma vez definitivamente confirmadas, são revolucionárias, e alteram nossa percepção da vida seja em qual seja a dimensão.

Dawkins, eleito recentemente pela revista inglesa “Prospect” um dos três itelectuais mais importantes do mundo, junto com Umberto Eco e Noam Chomsky, também é autor de “Deus, um Delírio”, no qual lança os fundamentos daquilo que se convencionou chamar de “novo ateismo” e utiliza os fundamentos da Teoria da Evolução para explicar por que o homem tende a acreditar em um ser superior, ao tempo em que, utilizando a teoria das probabilidades, critica as religiões, uma a uma.

“Deus é um Delírio” é uma provocação muito inteligente, principalmente nos tempos atuais, nos quais o fundamentalismo religioso deixa um rastro de sangue e ódio mundo afora. Mas não prova a inexistência de Deus, assim penso eu, muito antes pelo contrário.

Quanto a Deus, sendo impossível provar sua existência, ou negá-la, prefiro seguir o que denominei de “Postulado de Pascal acerca da Fé”, que também é chamado de “Aposta de Pascal”.

Esse argumento tem o formato que segue, e foi foi publicado na seção 233 do seu livro póstumo “Pensées” (Pensamentos):

– se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;

– se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;

– se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;

– se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

Ou seja: nada perderemos se louvarmos a Deus.

Se Ele não existir, fomos bons, que se há de fazer?

Se existir, tanto melhor, honramos nossa fé.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 11/01/2015 - 07:22h

O egoísmo dos genes

Por Honório de Medeiros

Embora não seja consensual, é difícil não ser “O Gene Egoista”, de Richard Dawkins, após “A Origem das Espécies”, de Darwin, a mais importante obra acerca da Teoria da Evolução, mesmo levando-se em consideração “Sociobiologia”, de E. O. Wilson.

Sua importância é ressaltada de forma clara por Steven Pinker, o festejado professor de psicologia de Harvard autor de “Do Que é Feito o Pensamento”, em “Violência Ancestral”, capítulo do “Anjos Bons da Nossa Natureza”, Companhia das Letras.

Se “O Gene Egoista” pode ansiar por essa relevância , é quase consensual que a parte mais importante da obra é seu Capítulo XI, denominado “Memes ou Novos Replicadores”, de tal importância que originou um novo ramo do conhecimento, a Memética.

E o que há de tanta importância nesse famoso Capítulo XI? Exatamente a criação de um “meme”, por parte de Dawkins. A exposição de uma teoria que utiliza por analogia, a notação de mutação genética, apresentando o surgimento da mutação cultural como inerente à evolução, e que tem como núcleo o “meme”.

Logo no início do capítulo, Dawkins expõe:

– A transmissão cultural é análoga à transmissão genética, no sentido de que apesar de essencialmente conservadora, pode dar origem a uma forma de evolução. (…) É a nossa própria espécie que mostra verdadeiramente o que a evolução cultural é capaz de fazer.

Uma vez estabelecido o “Meme” enquanto “Meme” no caldo cultural e civilizatório é possível supor que haja implicações radicais nas denominadas Ciências Sociais, muito embora a resistência à Teoria da Evolução, mais por desconhecimento do que por qualquer outro motivo, seja algo onipresente nos quatro cantos da Terra. E não é por menos: demole Marx e Freud sem piedade…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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