domingo - 11/02/2024 - 04:32h

Inspiração para uma crônica

Por Odemirton Filho

Ilustração da Enciclopédia Humanidades

Ilustração da Enciclopédia Humanidades

Dia desses encontrei o doutor Roncalli Guimarães, colaborador do Nosso Blog, num restaurante à beira-mar, pelas bandas da praia de Pernambuquinho, na cidade de Grossos. Estávamos em mesas próximas, com o “marzão” à nossa frente, e, lá para as tantas, Roncalli me falou:

– “Uma paisagem dessa merece uma crônica, hein?”

Concordei e, desde então, fiquei matutando. Para escrever uma crônica basta olhar as coisas simples do cotidiano que, muitas vezes, não percebemos. Reunir-se com os amigos ou com a família, tomar um café, “tomar umas”, viajar, ir ao sítio, à praia; relembrar fatos do passado, ficar sozinho em casa, curtindo a nossa companhia, tudo é inspiração para uma crônica.

Toda vez que escrevemos mostramos um pouco de nossa alma, nossas poucas virtudes e inúmeros defeitos. Entregamos ao leitor um pouco do que carregamos na vida; dividimos ideias, momentos, alegrias, tristezas, lembranças, saudades.

Creio ser na simplicidade da vida que encontramos o que realmente tem valor. É tão prazeroso ficar ao lado de quem amamos; curtir a infância de nossos filhos, dos netos; vê-los crescer pessoal e profissionalmente; abraçar um filho que vem nos visitar; a felicidade de ter os nossos pais ainda vivos e, dentro das limitações naturais da idade, com saúde, tudo isso não tem preço.

Segundo o Dicionário online de Português, a crônica é um gênero literário que consiste na apreciação e narração pessoal dos fatos da vida cotidiana; cronologia, narrativa, prosa. Embora muitos a considerem um gênero menor, não vejo assim. De acordo com a professora Beatriz Resende, “as crônicas devem ser envolventes, sedutoras, comoventes, provocantes e divertidas”.

Além disso, recomenda-se usar um vocabulário simples. Observar os detalhes que muitas vezes passam despercebidos, deve ser a marca da crônica. O leitor deve encontrar familiaridade ao ler o texto, refletindo, muitas vezes, o que também viveu e sentiu, acompanhado uma narrativa leve, que faça bem a sua alma, suavizando o corre-corre do cotidiano. Todavia, cada cronista tem o seu estilo, o que devemos respeitar.

Pois é, meu caro Roncalli, a sua pergunta inspirou-me. Devemos ter cuidado para não deixar passar sem perceber as coisas simples da vida que são, na verdade, extraordinárias.

Valeu pela dica.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/12/2021 - 07:50h

Legalização de jogos de azar – azar ou sorte nossa?

Por Roncalli Guimarães

Nessa última semana uma nova polêmica voltou ao debate no Congresso Nacional e na sociedade: a legalização dos jogos de azar. Os jogos de azar estão proibidos no Brasil há quase 80 anos, por decisão do então presidente Gaspar Dutra, que associava jogos e cassinos à degradação do ser humano.

Antes, precisamos entender por que a denominação “jogos de azar”. A palavra azar nesse contexto é entendida como aleatório. Um jogador é alguém que simplesmente aposta certo valor financeiro num evento futuro em que o resultado depende da sua intuição e previsão e é exatamente a sensação de ganhar tudo ou perder tudo que faz o jogo ser algo tão excitante e perigoso.jogos de azar, jogatina, jogo

Os jogos de azar não são algo novo na sociedade. Existem comprovações arqueológicas que mostram isso desde os babilônios até às civilizações romanas e da China Antiga. A ganância, a possibilidade de enriquecimento rápido e sem esforço acompanham a nossa espécie desde sempre.

No debate político, os que defendem a legalização “apostam suas fichas” ou argumentam que os jogos existem clandestinamente no país e sem fiscalização ou ganho, em impostos. O raciocínio é que o poder público deixa de arrecadar bilhões e ainda formalizar os empregos.

Dizem ainda, que a nossa Constituição não proíbe ou incentiva jogos de azar.

Na outra ponta há os conservadores, os extremistas religiosos que baseados não na Constituição e sim na Bíblia, afirmam que a legalização vai de encontro a princípios cristãos descritos em vários textos como em provérbios: “O fiel será ricamente abençoado, mas quem tenta enriquecer-se depressa não ficará sem castigo”.

Essa decisão do Congresso tem que levar em conta aspectos históricos, experiências anteriores e consequências psicológicas e de saúde pública que envolvem jogos de azar.

Las Vegas (EUA), encravada num deserto e chamada de “cidade do pecado”, recebe milhões de turistas anualmente em seus hotéis de altíssimo luxo, onde se divertem perdendo dinheiro em apostas. Contudo, existem leis próprias que amparam a jogatina e prostituição.

Assim como na Havana de Fulgêncio Batista, jogo e prostituição sempre andaram juntos. No Brasil, temos o jogo inventado pelo fundador do zoológico do Rio de Janeiro em 1892, com objetivo de financiar a sua propriedade e que se transformou no popular “jogo do bicho”. Ele está completamente enraizado e sem ser incomodado pelas autoridades públicas, não obstante ilegal.

Do ponto de vista de saúde pública, legalizar jogos de azar pode abrir um precedente desastroso que é a doença “transtorno do jogo”. Ela apresenta etiologia em que compartilha, conforme achados neuroquímicos e de neuroimagem, sinais semelhantes aos encontrados na dependência química como as projeções das vias dopaminérgicas e sistemas de recompensa cerebral para estruturas pré-frontais.

O transtorno do jogo causa em algumas pessoas um comportamento impulsivo e compulsivo. Elas deixam de priorizar cuidados, compromissos familiares e financeiros em detrimento do jogo. Quem passa ou passou por situações assim entende o que escrevo.

Nosso sistema de saúde é falho em acolher doentes dependentes de qualquer natureza, é falho em tratar essa demanda além do agravamento de que o doente não procura ajuda ou demora e reconhecer sua condição.

Quem joga compulsivamente só leva em conta o que ganha e nunca percebe a somatória do que perdeu e isso pode ter efeito social destruidor. Afinal, estamos falando de uma doença em que a prevalência apresentada em estudos mostra que 12% da população aposta pelo menos uma vez por mês e desses 1% tem transtorno do jogo. Isso, é bom frisarmos, com o jogo não liberado.

É preocupante quando se coloca uma decisão importante como essa em votação de urgência, não levando em consideração a preocupação do MP e da receita federal que argumentam que a legalização dos jogos de azar pode “legalizar” a lavagem de dinheiro, o que é bastante compreensível. O presidente do Congresso, um dos vários crimes que ele responde é exatamente lavagem de dinheiro e isso sendo feito dessa forma reforça o axioma popular, que diz: “A política é um jogo”.

Se a política é um jogo e o Congresso um grande cassino, então estamos mesmos condenados à desgraça individual e coletiva. Nossa dignidade, nosso presente e nosso futuro são os valores negociados nessa mesa. Com um grande agravante: as cartas são marcadas, a banca é claramente viciada e nós sempre seremos os perdedores desse jogo.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 22/11/2020 - 07:42h

Súplica de um psiquiatra e cidadão

Por Roncalli Guimarães

Em 15 de novembro a população foi às urnas depositar seu voto e exercer sua cidadania. Escolheu seus candidatos por todo o país, de vereador a prefeito. Particularmente, como psiquiatra, com atuação na saúde pública, faço uma súplica como profissional e cidadão: o eleito, no caso de Mossoró o deputado estadual e engenheiro civil Allyson Bezerra, que entenda e execute as políticas de saúde mental.

Quem foi eleito entenda que as doenças mentais são as mais prevalentes e quando são comorbidades agravam as outras doenças. Entenda que as doenças mentais são a segunda causa de absenteísmo no trabalho, perdendo apenas para os traumas ortopédicos.

Importante salientar, que um trauma ósseo encerra com a consolidação do osso, já o trauma psicológico o prognóstico pode ser mais complexo. Entenda que o tempo para o ansioso passa diferente, e aguardar um tempo indefinido para uma consulta causa ansiedade.

Entenda que é deprimente para um deprimido alguém achar que a dor da sua angústia alivia com qualquer analgésico.

Prefeito, minha contribuição é pelo conhecimento diário, pela formação científica, por meu papel também como indivíduo que quer esse crescente universo de pessoas tendo tratamento adequado. Essas pessoas precisam de zelo, carinho, cuidados adequados.

A dependência química para ser tratada depende de acolhimento e respeito e não de julgamento e sermões moralistas, e que loucura é deixar faltar antipsicóticos para um esquizofrênico, deixando seu cérebro ser invadido pelo caos da realidade.

Minha súplica é que tenham afeto por quem tem desconexão do afeto.

O eleito e sua equipe precisam saber que política de saúde mental pra ser efetiva precisa de matriciamento. Essa palavra que tem sua origem no latim e quer dizer “mãe”,  significa  cuidado e proteção; e quem executa esse papel de “mãe” são  órgãos diversos do ente público. Cito NASF, CRAS, CREAS, SAMU, CAPS, UBS e todos os setores da administração pública.

Elas são instituições, não somente siglas para receberem dinheiro público e servirem de cabides de emprego. Precisam funcionar no formato multi e interdisciplinares continuamente e não apenas de quatro em quatro anos.

O acolhimento começa em qualquer equipamento e de forma complementar funciona como círculos e círculos.

Enfim, espero que o prefeito eleito faça também do afeto, de forma pragmática, o caminho que respeita e reconhece a necessidade dos cuidados em saúde mental.

Mossoró agradece!

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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Categoria(s): Artigo / Política / Saúde
domingo - 04/10/2020 - 10:30h

A escuridão da saúde mental; retrocesso ou luz

Por Roncalli Guimarães

A data de 16 de outubro de 2001 foi um marco para saúde mental no Brasil. A data representa a promulgação da lei federal número 12.060 que marca a transição do modelo assistencial hospitalocêntrico para um modelo de saúde comunitária.

A lei não surgiu por acaso. Ela foi fruto de um longo processo social, do avanço da psiquiatria e do evolutivo processo de compartilhamento de conhecimentos com outras ciências tais como a psicologia, terapia ocupacional e serviço social, promovendo uma rica abordagem multiprofissional e transformadora em torno da saúde mental.Ao traçar um paralelo com a saúde mental de Mossoró, onde estou inserido como psiquiatra há 6 anos, observo infelizmente um cenário desolador, uma via de contramão ao modelo legal de assistência à saúde mental, causando um prejuízo humano incalculável.

As falhas são inúmeras e isso não é de hoje, é de sempre. É regra, não exceção.

A lógica da assistência a Saúde mental é funcionar como uma rede de assistência, mas aqui ela funciona como uma porta giratória. Eu explico por que.

As unidades do Centro de Atencão Psicosocial (CAPS) são os equipamentos de acolhimento dos pacientes graves, sendo atendidas as urgências ou os pacientes intensivos ou não intensivos. Entretanto, em Mossoró eles estão sucateados e superlotados com dificuldade para acolhimento de primeira vez.

Com isso, todo mundo sabe: doente mental sem tratamento adequado corre o risco de surtar, e, surtando,  o fluxo é para apenas duas unidades onde o correto seria permanecer por 72 horas à estabilização (esse tempo de 72 horas é baseado em estudo os quais comprovaram que esse é o tempo necessário para a maioria dos casos dessa natureza). Porém, muitas vezes esse tempo é estendido.

Aguarda-se vaga no hospital psiquiátrico. Esse é outro equipamento da rede de saúde mental, periférico e necessário apenas nos casos de difícil controle, que também está sucateado.

O egresso do hospital tem alta e na maioria das vezes não tem assistência, pois além das lotações dos Caps, não contamos com Caps III, este que seria mais um equipamento para os casos mais complexos e atenderiam os pacientes diuturnamente, exatamente os pacientes que seriam para hospital psiquiátrico.

Confesso minha desolação. Minha manifestação nesse espaço cedido pelo Blog Carlos Santos, como foro de debates, onde eu e outros colaboradores e articulistas têm plena liberdade à escolha do tema e manifestação de ideias, temas e exposição de informações,

Quem tem um parente com doença mental e precisa de cuidados, com certeza sabe que eu não exagero, não estou mentindo nem sendo inconsequente. Falo como profissional, como ser humano, como cidadão preocupado e desejoso de que o serviço público sirva adequadamente àqueles que mais precisam, ainda mais em situação tão vulnerável (paciente e família), o comum na nossa psiquiatria local.

Vai compreender o que narrei e vai entender o que eu sinto. Infelizmente, não acabam aqui o desabafo e a luta para mudar isso, para envolvermos a sociedade, os gestores públicos e profissionais do setor, que possam contribuir à mudança desse quadro.

Recentemente, destaco, fui informado que existe projeto em andamento para construção de um hospital psiquiátrico. Sim , isso mesmo, um hospital psiquiátrico para confinar doentes mentais numa cidade onde não existe hospital municipal para atender à demanda geral. É o mesmo município onde o déficit de leitos é gritante para qualquer especialidade clínica. Inclusive, para o próprio doente mental, que também precisa do leito clínico, pois vez por outra tem outras patologias como qualquer indivíduo.

Construir um hospital psiquiátrico sem antes investir nos equipamentos essenciais da rede, é um retrocesso. Os princípios da rede de saúde mental são fundamentados na equidade para corrigir as iniquidades, efetividade, continuidade e abrangência do cuidado e não em ações que incentivem ou reforcem o isolamento social como política pública.

A data de 16 de outubro de 2001, já assinalei no preâmbulo desse texto, é um marco, um ponto de partida, a mudança de rumo à melhoria dos cuidados com pessoas queridas, familiares, amigos, gente que precisa não apenas de remédio e médicos, mas de cuidados especiais como ser humano.

Há uma necessidade urgente de reformulação desse modelo assistencial que deve ser baseado na apreensão de novos conhecimentos, que sejam atualizados e condizentes com as reais necessidades da população. Espero que não sejam conduzidos por interesses de grupos, lobbys profissionais ou qualquer outra razão não cientificista.

Trabalho, peço e manifesto minha opinião, porque sei que outros não o fazem até por temor, mesmo dividindo comigo apreensões e conceitos similares. Precisamos respeitar o democrático trabalho em equipe, esse baseado no respeito às diferenças e responsabilidades de cada um. Temos que lutar pela eficácia da assistência.

Com os que têm fé, divido a esperança de que na proximidade dos festejos da querida padroeira Santa Luzia, a Luzia de Siracusa, ela interceda e coloque luz nos olhos e na consciência de quem usa a caneta, com a promessa (e dever) de fazer o melhor por Mossoró. O melhor não pode permitir o retrocesso, o esquecimento e o desleixo em relação àquelas pessoas que perderam o seu norte. A sua razão.

É tarefa nossa guiá-los, acolhe-los, tratá-los, amá-los.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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domingo - 27/09/2020 - 12:08h

A morte voluntária nos espreita

Por Roncalli Guimarães

O mês de setembro transformou-se no mês da prevenção ao suicídio e as estatísticas indicam que precisamos desse alerta para tentar reduzir essa trágica causa de morte. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 800 mil mortes por suicídio anualmente, segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

O fenômeno do suicídio já apresentou vários conceitos no decorrer da história, indo do ato heroico à fraqueza moral.Existem relatos de suicídio desde Hipócrates há 400 anos A/C, o qual já associava o suicídio à melancolia e depressão. Temos nas escrituras da Bíblia, Mateus descrevendo o suicídio de Judas, cometido por remorso após a condenação de Jesus.

Nas artes o tema do suicídio foi amplamente descrito e por sinal muito presente nas obras de Shakespeare, como a  “imortal” obra  de Hamlet, na qual o autor narra os sofrimentos do príncipe Hamlet, suas  dúvidas  e coloca o suicídio como opção para cessar a dor dilacerante da sua angustia. Além de Shakespeare, Goethe desnudou o tema também.

Saindo do mundo da arte e fantasia, o suicídio é um tema real e de extrema importância. Estamos diante de algo muito presente em nossa sociedade moderna.

Essa importância vem do fato de que a medicina conhece o comportamento suicida. O ato de fazer algo contra si mesmo não necessariamente inicia pelo desfecho da morte. O comportamento suicida muitas vezes é antecipado por pensamentos e atitudes autodestrutivas perceptíveis.

Estudos comprovam que 80 % das pessoas que cometeram suicídio , estiveram em algum serviço de saúde primaria um ano antes do desfecho. Por isso, a campanha Setembro Amarelo não é apenas um mês soltarmos balões nessa cor e colocarmos frases de efeitos em redes sociais. O Setembro Amarelo é também um tempo de alerta.

Precisamos lutar para que sejam implementadas políticas públicas sérias, contínuas e que não se limitem a governo, mas como uma razão de Estado, por respeito e zelo ao cidadão, à sociedade, à vida. Por amor, compaixão. Por solidariedade.

Doenças como depressão e dependência química têm ampla possibilidade de tratamento e devem ser vistas sem preconceito, sem estigmatizar ou punir ainda mais doentes e suas famílias.

Precisamos modificar padrões de pensamento coletivo errôneo, como o de que o usuário de drogas é viciado porque quer, porque ‘é ruim’, deixando de socorrê-lo.

Temos que combater a subnotificação nos casos de tentativas de suicídio, pois dessa forma teremos maiores meios aos estudos e compreensão desse fenômeno. Entender o pensamento suicida é imprescindível nessa batalha que estamos travando diariamente, segundo a segundo. É uma luta em que todos nós estamos envolvidos.

A morte voluntária nos espreita.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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domingo - 26/07/2020 - 06:54h

A ciência absoluta

Por Roncalli Guimarães

No final do Século XIX, mais precisamente em 1891, um corante chamado  azul de metileno começou a ser usado como um antimalárico. O que ninguém esperava era que décadas depois, mais  precisamente em 1952, um derivado desse Fenotiazídico iria transformar a psiquiatria.

Nessa época, a Fenotiazina já era utilizada como anti-histamínico e por pura casuística um anestesista francês percebeu sua capacidade em acalmar pacientes psicóticos. Daí em diante, a clorpromazina ou o amplictil, como é mais conhecido, transformou a psiquiatria em ciência como a conhecemos.  Evidência e empirismo também fazem parte da medicina.Vivemos hoje momentos de contradição e dúvidas da ética científica no meio de uma pandemia de proporções graves. Sabemos que a ciência tem como princípio basilar repetir e comprovar resultados, porém não há como desprezar as evidências médicas, até porque muitas  descobertas científicas vieram de observações casuísticas.

Alguém poderia descordar com argumentos que nosso momento atual se trata de doença contagiosa, infecciosa, uma síndrome respiratória que não tem relação com doença mental, mas a proposta do texto é outra, é mostrar interesses biopolíticos, manipulações de informações científicas à conveniência de interesses que passam longe da medicina.

Voltando à história da psiquiatria, o amplictil foi comparado à descoberta da penicilina. Doentes mentais eram isolados e confinados em grandes manicômios com camas de ferro soldadas ao piso, incontroláveis situações de higiene e intensa agressividade. Esse era o retrato antes da descoberta da clorpromazina.

Após seu uso, a psiquiatria pôde avançar como ciência facilitando ainda a interdisciplinaridade com outras ciências como a psicologia, terapia ocupacional e serviço social. Mas essa história não teve percurso tão romântico.

Os Estados Unidos não aceitaram tão fácil essa nova descoberta, por questões políticas, por ter sido descoberta na França e também por ideias psicanalíticas já que na época existia forte divisão e ideologização entre a psiquiatria e a psicanálise. Nesse ponto chegamos à semelhança entre um tratamento de doença mental no passado e uma pandemia no século XXI.

Hoje, chefes de estado entram em conflito devido ao uso ou não de medidas protetivas radicais como o isolamento social; evidências científicas são repensadas para poder acomodar saúde pública e saúde econômica. Medicação como a ivermectina, que é um antiparasitário, foi testada in vitro e mostrou eficácia mas não foi testada em humanos, mas isso não dá o direito de ser refutada pelas academias. A ciência trabalha com resultados e protocolos, mas a prática clínica não pode ser desconsiderada. Às vezes, correntes científicas contaminadas por interesses e ideias confundem, desinformam e expõem a sociedade ao risco.

Em 1952, a comunidade médica americana e a sociedade resistiram a forças contrárias e argumentos falsos e dois anos depois o uso de antipsicóticos se disseminou e revolucionou a prática da clínica psiquiátrica. Acredito, que a estática social ou inércia explica essa aceitação de modelos de pensamento tão imobilizadores nos tempos atuais. Talvez isso tenha surgido a partir da fragmentação da sociedade, da “pasteurização” no sentido de que ideias e pensamentos são fabricados, chegando até nós prontos para o consumo.

Fomos perdendo a capacidade crítica e analítica dos fatos, permitindo com isso sermos manipulados por informações e pela criação de um senso comum que só serve a interesses políticos, incluindo a ciência como instrumento legítimo para fomentar muitas vezes a irracionalidade que é o contrário dela, a ciência.

Precisamos de um antidoto, um remédio para tratar os males da hipocrisia e esse remédio requer um longo caminho, porque teremos que voltar para o século IV antes de Cristo, lá na antiga Grécia. Um tempo em que a ciência e a política começaram e só existiram pela inquietação de pessoas que não acreditavam em historinhas de deuses ou mitos, que tinham respostas falaciosas para todos os fenômenos e encantavam as pessoas que apenas assistiam e  reproduziam essa narrativas.

Foi a partir de um olhar crítico e desafiador de pessoas comprometidas com a verdade, não a verdade absoluta, mas a busca incessante para explicar o inexplicável, que surgiu a ciência, essa mesma ciência que hoje em algumas situações está a serviço da política e do mercado.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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domingo - 05/07/2020 - 07:46h

Vínculo e apego na infância

Por Roncalli Guimarães

Na sala de espera de um pronto-socorro pediátrico, aguardando atendimento com meu filho observei uma cena curiosa: uma mulher caminhando pela recepção tentando acalentar uma criança em seus braços, usava seu carinho protetor para tentar conter o choro ensurdecedor, que é o choro de uma criança aflita e assustada.

Enquanto isso, sentada na cadeira da recepção, uma outra mulher, elegante, bem vestida e demonstrando preocupação, mantinha um contato a distância com os dois. Para minha surpresa, a recepcionista chamou a criança e mãe para entrarem no consultório do pediatra e a mãe da criança era justamente a senhora elegante e bem vestida que estava sentada, não a que acalentava a criança em seus braços.

Essa cena ficou marcada na minha memória. Tempos depois ao tentar entender a teoria do apego evoquei a lembrança da recepção do hospital pediátrico.

John Bowlby, psicanalista britânico, pesquisou o apego entre mãe e filho e chegou a resultados surpreendentes. Seu trabalho tem sido continuado e ampliado por outros pesquisadores.

O apego da criança com seu principal cuidador nos primeiros 24 meses de vida e, que na maioria das vezes, é a mãe que promove essa interação saudável, pode ser definidora da futura personalidade do indivíduo. O apego infantil pode ser definido como uma força emotiva que liga a criança com seu cuidador, alguém de quem depende para sua sobrevivência.

MUITA GENTE já ouviu falar em crianças com certa idade  que “estranham” outras pessoas quando é colocada nos braços e por algum momento se ausentam das suas mães. Isso é reflexo do apego.

A criança se afasta da pessoa que traz segurança e foi exatamente esse comportamento infantil que Bowlby observou em suas pesquisas. E explicou a gênese da ansiedade que ele chamava ansiedade de separação, quando havia quebra dos vínculos mãe-filho.

Vivemos em uma sociedade “acelerada”, que cobra resultados e exige esforço para se manter competitivo e isso incluem mulheres, mães que têm que trabalhar, estudar e ainda assim ser mãe. Por força dessa sociedade opressora, nesse aspecto, “terceiriza” cuidados para poder dar conta de uma rotina exaustiva.

As pesquisas mostraram que ausência da pessoa protetora no início causava ansiedade e medo da perda. À medida que a ausência demorava, a criança ia substituindo a expectativa por frustração e revolta, devido a sensação de abandono.

Adiante, tendem a ser adultos com personalidades frágeis, ansiedade e delinquência. Até inteligência limítrofe foi observada em consequência do desapego.

O que foi descrito não quer dizer que é errado babas, avós e outras pessoas participarem da educação e construção de comportamento saudáveis. Na verdade, essa interação é necessária, porém a criança precisa reconhecer o cuidador que instintivamente ela escolhe para se sentir segura.

As crianças são monotrópicas, mas entendem muito bem afeto e é exatamente a qualidade desse afeto que importa no período crítico da formação do apego. Elas  são completamente receptivas ao carinho, principalmente quando choram por fome, dor ou por qualquer  outra sensação desagradável e sentem amparo – formando assim sua “base segura”.

Com essa base segura podem explorar o mundo cheio de novidades que as cercam, sem ansiedade, às vezes carregando um “paninho” ou ursinho que eles personificam como substitutos dos seus cuidadores na hora que buscam essa exploração do ambiente .

A mulher elegante, sentada na recepção do hospital pediátrico, que observava preocupadamente a babá acalentar seu filho, poderia ter tido no passado uma privação na fase da formação do apego. Tinha-lhe faltado uma base segura quando chorava por algo novo e assustador, e necessitava apenas de um colo quente e carinhoso para crescer um adulto seguro, capaz de transferir e corresponder às suas emoções diante do inesperado e desafiador futuro.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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Categoria(s): Artigo
domingo - 24/05/2020 - 08:22h

Ansiedade e pânico numa sociedade que impõe o ‘ser feliz’

Por Roncalli Guimarães

“O meu coração está acelerado; os pavores da morte me assaltam, temor e tremor me dominam; o medo tomou conta de mim”. Essa narrativa não é de um paciente no consultório psiquiátrico ou de algum consultório de um terapeuta, trata-se de texto bíblico do livro dos Salmos, escrito possivelmente há 1.400 anos antes de Cristo.

Assim como esse relato bíblico que narra conturbado período da saída do povo de Israel do Egito, outras descrições na literatura também tratam desses sobressaltos. É o caso de Giovanni  Boccaccio no seu clássico Decamerão – escrito no período renascentista, século XIV. Ele descreve a tragédia da peste negra que assombrou a Europa (não é um livro erótico como muitos imaginam) e narra logo no seu início o pânico e ansiedade vividos pelos florentinos na época.Ansiedade e pânico acompanham a história do homem, estão inseridas na evolução da sociedade. O medo faz parte do arsenal de sobrevivência. A ansiedade é um mecanismo natural e adaptativo ao perigo, uma forma de se antecipar para programar respostas de defesa. Sem ele, com certeza, não teríamos chegado onde chegamos.

O reconhecimento de pânico e ansiedade como entidades nosológicas surgiram a partir de observações clínicas no período moderno. Antes, sintomas de pânico e ansiedade eram descritos em situações de instabilidade como em períodos de guerra, fome devido a prejuízos de colheitas ou no surgimento de doenças de caráter coletivo como as “pestes.”

Após a revolução industrial houve um recrudescimento desses motivos psicológicos para desenvolvimento de transtorno de pânico e ansiedade. Houve um momento de “segurança” em relação ao futuro, porém novos motivos surgiram com a mudança da nova ordem mundial.

Necessidades de pertencimento social, adequação a modelos sociais determinados, sensação de inadequação a padrões impostos por propagandas que estimulam consumo de industrializados ou de “industrialização” e busca de um corpo perfeito mexem com o indivíduo. Também temos o esforço para retardar o envelhecimento físico, necessidade extrema de produzir, de acumular riqueza para garantir felicidade futura, a crescente relação incestuosa com o tempo onde não temos o direito de cultuar o ócio saudável, não podemos parar para pensar porque tempo é dinheiro e não interessa se isso cause prejuízo às relações sociais.

A nova ordem impõe suas regras onde a vida é secundária ao capital ou subserviente a ele.

Novas profissões surgiram enxergando o adoecimento das pessoas e a queda da  produtividade. É o caso do “coaching”, que tenta mostrar que a felicidade é possível quando aprendemos a usar nosso potencial neural de forma adequada, utilizando conhecimento de neurociências e filosofia dos estoicos e meditação dos budistas, o que pode ajudar, mas nunca será formula da felicidade.

Os valores do pensamento filosófico ocidental e oriental antigos não cabem no nosso mundo acelerado e competitivo moderno.

Nesse contexto sabemos que o homem desde o tempo da dominação dos hebreus pelos babilônios, como descrito em texto bíblico, é o mesmo homem da era da alta conectividade do 5G. Temos o mesmo genoma e mesmos circuitos cerebrais para ativação da ansiedade e pânico.

A ansiedade e pânico são doenças crônicas, limitantes, que causam sofrimento psíquico apesar de não causarem risco a vida. Medo irracional e desmotivado de aparecimento súbito ou sensações de perigo iminente que podem estar associados a sintomas físicos como palpitações ou falta de ar, fazem parte dos critérios. Isso tem tratamento e se tem, tem eficácia? Sim tem tratamento.

Pesquisas em novos medicamentos e novas técnicas de psicoterapia mostram resultados surpreendentes mas não podemos ser relapsos e deixar de esclarecer que o homem é na sua essência um ser sociável. A base da sua evolução foi o desenvolvimento da linguagem tanto falada, como escrita ou mesmo corporal.

Nascemos com receptores em todo corpo, que funcionam como sensores que detectam num simples abraço, aperto de mão, ou num olhar, toda uma resposta emocional, algo que não podemos obter da mesma forma através de celulares.

A tecnologia ainda não conseguiu criar amor no toque dos teclados.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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Categoria(s): Artigo / Saúde
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domingo - 10/05/2020 - 07:02h

Morte e vida na pandemia

Por Roncalli Guimarães

Esses dias ao abrir o noticiário no celular me deparei com notícia no mínimo chocante: uma mulher pobre da Zona Rural de um pequeno município do nosso sertão morre por falta de leito de UTI (Município e Estado jogam cadáver de um lado para o outro). O chocante das das matérias é que revelam que prefeitura e estado cinicamente argumentam e transferem culpa.

No mesmo dia da morte, um hospital com leitos de UTI tinha acabado de ser aberto para atender vítimas graves da Covid-19 em Mossoró. Esse cenário macabro me faz lembrar o genial João Cabral de Melo Neto e seu personagem Severino.Ele é mais um retirante que sai do árido sertão para tentar a sorte na lama dos manguezais e pelo caminho se depara com enterro de um homem assassinado pelos latifundiários. Vagando presencia outras mortes, até que descobre que ela, “a morte”, é a maior empregadora do Sertão.

A morte gera empregos para médicos, coveiros, gera lucro para donos de funerárias, de hospitais e farmácias.

A obra é um poema dramático, um auto de Natal, mas se assemelha aos dramas reais que convivemos no nosso cotidiano em que morte virou estatística, número, memes na internet e disputa política. Números de morte são novo indexador financeiro; dólar e bolsas de valores caem ou sobem dependendo das estatísticas.

Nâo é preciso grandes empreiteiras para políticos fazerem caixa dois, basta apenas uma empresa de fundo de quintal vendendo respiradores.

A morte nunca tinha sido tratada antes com tanta frieza e indiferença no nosso meio. O luto para nossa sociedade é uma resignificação, é um estado psicológico que surge na perda de alguém que amamos e precisa e concretismo, de simbolismo para vencer a dor, para entender que perdemos alguém que era único e insubstituível.

Vestir um corpo, velar, orar e se despedir, faz parte dos rituais que ajudam a dar significado e tentar cultuar a memória e a saudade daqueles que de certa forma nos deixaram um legado. Esse vácuo deixado pelas desassistências em vida e pela falta de cortejo na morte pode levar a consequências psicológicas graves.

No poema de João Cabral, Morte e Vida Severina, o personagem quando percebe ser só mais um número para conta e que sua morte tem mais valor que sua vida, resolve acabar com ela, mas aparece um carpinteiro que o salva e consegue renovar suas esperanças e fazê-lo acreditar na vida. É isso que espero para todos nós Severinos do país, quando estivermos para “saltar da ponte e da vida” no Capibaribe.

Espero e trabalho, faço minha parte, para que apareça um carpinteiro anunciando que um filho deste “saltou para dentro da vida”, nascido entre as palafitas, presenteado com cordões de caranguejo e que cresça entre nós semeando amor, o único antidoto para os estéreis corações dos nossos governantes.

Sei que é meio utópico, mas pelo menos é reconfortante.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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domingo - 03/05/2020 - 06:50h

Dilema à brasileira

Por Roncalli Guimarães

Em algum momento da filosofia foi criado dilemas como forma de experimentos da ética e um dos mais famosos foi o “dilema do bonde”.

Tal experimento mostrava que um bonde descontrolado descia sob os trilhos e havia quatro trabalhadores fazendo reparos. Um expectador percebe que há uma alavanca que pode desviar o bonde, porém para esse outro caminho havia apenas um trabalhador.

O que o expectador faria?

Qual decisão mais correta?Essa pergunta ética colocou pensamentos em discussão e os coloca até hoje, usar a lógica utilitarista e escolher a morte de um trabalhador e poupar a vida dos demais ou usar a ética kantiana na qual a máxima ação humana é usada como o fim e nunca como o meio?

Em tempos de pandemia vivemos um dilema semelhante: fazer isolamento social para salvar pessoas de risco para a doença ou não fazê-lo para salvar economia que poderia causar problemas maiores futuros?

Na filosofia nenhum conceito serve para resolução do dilema, porém no Brasil existe uma lei universal , pétrea e que não precisa estar escrita  na Constituição para ser aplicada. Na verdade ela cabe em qualquer situação e mostra como os políticos brasileiros tradicionais resolvem os problemas éticos.

Ela se chama a “Lei de Gerson” ou a lei da vantagem. Essa lei é o mantra da nossa classe politica adotada em todos os poderes e está sendo amplamente utilizada nos dias atuais e prova que o Brasil é um país único.

Enquanto outros países buscam meios de conter a doença, diminuir sofrimento do povo e repensar a recuperação econômica, muitos dos nossos políticos utilizam o momento para tirar vantagens.

De um lado procuram ir contra todas as recomendações cientificas e aplicadas no mundo inteiro. Justificam não fazer isolamento social, mas ao mesmo tempo liberam bilhões para o outro lado que tem o isolamento social como meio de diminuir as mortes.

E enquanto durar o isolamento, entra mais verba para ser usada de forma “emergencial”, temos perdão de dívidas públicas e dispensa de licitações. Tudo para, ao final, percebermos que os lados criam conflitos para manter seus seguidores em estado de inação.

Contudo, ao mesmo tempo, de uma forma mágica, todos estão do mesmo lado.

No final de tudo, milhares de pessoas vão morrer, milhares de pequenos empresários ficarão falidos, milhões de trabalhadores desempregados e dezenas de figuras públicas com maior patrimônio pessoal e eleitas. Sim, no meio de uma pandemia, da maior crise mundial do nosso século, temos eleições.

E daí?

Roncalli Guimarães é psiquiatra

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domingo - 29/12/2019 - 06:30h

Punição e prisão para quem mesmo?

Por Roncalli Guimarães

De acordo com o jurista Miguel Reale, “aos olhos do homem comum o direito é lei e ordem, o conjunto de regras obrigatórias que garantem a paz social”. Partindo desse princípio da visão do homem comum, começo a vislumbrar a necessidade da interferência de outras ciências como uma interdisciplinaridade ou multidisciplinaridade no efeito da jurisprudência.

Como cidadãos comuns costumamos enxergar a prisão de pessoas que cometem crimes como castigo, sem, no entanto, questionar os reais motivos que levaram alguém a praticar um crime, ou seja, o ambiente do indivíduo.O filósofo Michel Foucault na sua obra “Vigiar e Punir” descreve: “O que começa a se esboçar agora é uma modulação que se refere ao próprio infrator, à sua natureza, seu modo de vida e de pensar, a seu passado, à qualidade e não mais à intuição de sua vontade”.

As estatísticas são claras: a esmagadora maioria dos crimes são praticados por pessoas de classe social menos favorecidas, dados do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) de 2014, 61,7% dos encarcerados são pretos ou pardos, 75% tem até o ensino fundamental completo. Esses dados isolados por si só poderiam gerar discussões mais aprofundadas.

Hoje, com o avanço do conhecimento cientifico podemos perceber claramente a interferência de fatores ambientais no comportamento humano, uso de álcool e outras drogas na gravidez, núcleo familiar violento e privações sociais na infância estão entre os fatores que favorecem esse quadro.

A espécie humana não nasceu pronta como outros mamíferos. Um potrinho nasce, mama sozinho e praticamente no outro dia anda, acompanha a mãe e segue sua vida. Nós humanos somos diferentes, dependemos totalmente dos cuidados de outras pessoas para sobrevivência e somos a espécie que tem a infância mais longa e boa parte dela com essa necessidade de cuidados.

Portanto mesmo com a determinação genética, a espécie humana constrói seu comportamento também com a experiência. Não quis dizer com isso que simplesmente não vamos punir os que cometem crimes, porém precisamos de uma avaliação prospectiva das sentenças e possibilidades reais de reabilitação.

O cérebro humano está sujeito ao fenômeno da plasticidade neuronal. Isso quer dizer que pessoas podem se transformar, dependendo dos estímulos que recebe.

Hoje trabalhando com menores infratores. Percebo que suas histórias são semelhantes: miséria e hostilidade estão quase sempre presentes. A impressão que passa é que eles são punidos bem antes das sentenças judiciais; são punidos simplesmente por terem nascido.

Parafraseando o conceito do grande jurista Miguel Reale, a visão comum sobre direito deveria ser a punição justa e exemplar para quem comete crimes como tráfico de influência, peculato, rachadinhas e lavagem de dinheiro, esses sim parecem estar acima da lei e da ordem e prejudicam verdadeiramente a paz social.

Roncalli Guimarães é médico Psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas CAPS AD II – Mossoró

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domingo - 15/09/2019 - 07:54h

A intensa dor que o Setembro Amarelo nos alerta

Por Roncalli Guimarães

Em 1994, um jovem americano de apenas 17 anos, chamado MIKE, de classe média, inteligente, habilidoso e que tinha como hobby restaurar carros morreu de modo trágico e surpreendentemente. Iniciando um artigo com esse contexto, parece que vamos (vou) descrever um enredo de conto de fadas.

Mas esse jovem bonito, rico e talentoso que estava restaurando um Mustang amarelo tirou sua própria vida. A família e a sociedade custaram a entender e aceitar que esse jovem sofria de transtornos psicológicos e ninguém o compreendia.No dia do seu velório, como forma de homenageá-lo, foram confeccionadas fitas amarelas (talvez em alusão ao Mustang amarelo). Mas o fato é que essa trágica história serviu com estímulo para despertar uma das campanhas de Saúde Pública mais importantes do mundo: a prevenção ao suicídio.

A partir de 2015, o Brasil iniciou e adotou o mês de setembro como mês de prevenção ao suicídio.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 32 mortes por dia, sem contabilizar as tentativas. Trata-se da quarta causa de morte entre jovens, matando mais do que Aids e câncer.

O risco de suicídio é uma emergência médica, em que contamos com a informação como seu principal componente preventivo. Estudos mostram que 98% dos casos de suicídio são associados à doença mental, onde a principal é a depressão.

A campanha do Setembro Amarelo é de extrema importância em Saúde Pública e serve para alertar e diminuir os tabus que envolvem o suicídio. Ainda prevalece o medo de falar a alguém sobre o pensamento de tirar a própria vida, há o medo de que falar sobre isso gere estímulo para alguém cometer “suicídio”, o que é completamente equivocado.

Quem sente tamanha dor, como a dor da angústia, precisa ser ouvido, respeitado e diagnosticado.

Na medicina, nenhuma dor como sinal semiológico é tão intensa que seja necessário tirar a própria vida para evitá-la, enquanto a dor da alma (subjetiva). Invisível aos exames ou marcadores biológicos, necessitam de empatia e acolhimento para evitar uma morte.

Roncalli Guimarães é médico Psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas CAPS AD II – Mossoró

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domingo - 19/05/2019 - 04:20h

Drogas, mitos e ciência na era dos absurdos

Por Roncalli Guimarães

Proponho-me a prestar alguns esclarecimentos à população em geral sobre a dependência química, assunto esse muito propagado nos últimos dias em nossa cidade pela mídia e redes sociais, de forma distorcida. Infelizmente, essa polêmica acabou sendo produzida por um colega psiquiatra.

Antes de tudo há uma diferença entre usuário de droga e dependente químico. Droga não é prática ou problema da sociedade atual. Praticamente todas as civilizações tiveram uso de alguma droga, seja ópio ou maconha – desde a antiguidade.

No início, o uso de drogas tinha um motivo místico, religioso e servia inclusive como um dos motivos de organização social. As pessoas acreditam que a alteração da consciência era um presente dos deuses.Com o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, as sociedades foram se organizando e começaram a migrar do campo à formação de cidades; surgiram as grandes navegações e com ela a destilação de álcool em alta escala. Ou alguém poderia imaginar que aventureiros desbravassem os oceanos, enfrentando medos e tempestades de cara limpa?

Com a Revolução Industrial, a divisão de classes ficou mais nítida, com os trabalhadores imprensados em guetos sub-humanos. Daí, passaram a enfrentar esse enorme nível de estresse e sofrimento com o uso de drogas de forma recreativa e também pelos motivos sociais e psicológicos.

Evoluindo mais adiante veio a contracultura na década de 60 e com ela a explosão do uso de drogas em todas as camadas sociais, sem citar os períodos de guerra, como a do Vietnã, onde houve uma disseminação do uso de heroína.

Relatei esses fatos para neutralizar a hipocrisia quando se fala de drogas.

Cientificamente o uso, abuso e males provocados por substância foram investigados e hoje à luz dos conhecimentos atuais foram descobertos fatores genéticos e psicossociais. No caso da diferença química, critérios clínicos bem fundamentados definem a doença que acomete um percentual  dos usuários das mais diversas substâncias. Portanto há uma tendência atual de descriminalização, de políticas de redução de danos e prevenção do uso em algumas populações como adolescentes portadores de deficiência mental e grávidas.

Quero enfatizar com isso a minha preocupação com possível retrocesso quanto a políticas sobre drogas, já que um médico psiquiatra e presidente de partido divulga informações delicadas, culpando drogas como pano de fundo para a desestruturação do ensino público, que para mim caminha paralelamente com a absurda tentativa desde governo de acabar o ensino de filosofia e sociologia.

Não podemos formar advogados, juristas, sem que eles saibam filosofia clássica. Não podemos formar engenheiros sem que conheçam a geometria analítica descoberta por René Descartes, que era um filósofo. Não podemos formar psiquiatras que desconheçam as ciências sociais ou os conceitos filosóficos de fenomenologia que até hoje pautam os critérios diagnósticos de psiquiatria.

Se a forma de pensar dos representantes desse governo continuar com esse posicionamento, iremos regredir. Excluir a ciência é voltarmos a acreditar nos mitos, se é que me entendem.

Roncalli Guimarães é médico Psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas CAPS AD II – Mossoró

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