domingo - 07/09/2025 - 15:38h

O galo e o vira-lata

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa de autoria do autor da crônica

Foto ilustrativa de autoria do autor da crônica

Acredito que a figura do galo represente o que há de mais marcante na infância de uma pessoa que gosta do campo ou, como se diz por aqui, do interior.

Quando vejo aqueles galos vistosos nos terreiros dos sítios, estufando o peito e me encarando, não há como não recordar dos bons momentos da infância.

Você, caro leitor, certamente já teve sido indagado de sua origem só pelo jeito de falar.

Não se engane. Ninguém consegue omitir sua origem.

Uns a negam veementemente, outros disfarçam e tergiversam com o mesmo intuito.

Porém, nada como ter orgulho de suas raízes.

Sim, claro que só o jeito de falar não quer dizer muita coisa. Na verdade, diz muito e não diz nada.

Se você, durante uma refeição, acomoda o talher no modo continental, experimente comer sem formalismo.

Se você gosta de risoto, prove arroz de leite. O arroz da terra, aquele vermelho, é o melhor.

Se você gosta de queijo Gouda ou Camembert , experimente queijo de coalho e de manteiga.

Se você gosta de soda italiana, prove um caldo de cana-de-açúcar.

Se você gosta de chantilly, prove nata. No feijão-de-corda é espetacular.

As coisas simples para uns, é um tesouro e tradição para outros.

O que é Vira-lata para um, é galo para outros.

Como dizia Guimarães Rosa, a lembrança da vida da gente se guarda é num lugar mais fundo que a alma, e o que é ruim a gente desaprende depressa.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/11/2024 - 18:24h

O sertão está no sertanejo

Por Honório de Medeiros 

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

“O Sertão está dentro da gente”, disse João Guimarães Rosa.

Pode ser. Quem sou eu, para discordar. Mesmo assim, discordo.

O Sertão está dentro do sertanejo.

Que outro homem andaria em um carrasco igual a esse, cheio de pedras, mato ressequido, poeira, espaço de preás, mocós, punarés, lagartixas, cobras, urubus e cangaceiros, aqui e acolá um juazeiro, no pino do meio dia?

Nenhum.

Entretanto, quando chove, ah!, bom Deus, quando chove, qualquer vivente se encanta com a beleza que desponta em cada canto dessa terra maravilhosa.

Não que a beleza se esconda quando a seca surge.

É outro tipo de beleza, da qual somente se dá conta, com a melancolia que lhe é própria, o homem do Sertão.

Cerro Corá, RN, 15 de novembro de 2024.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/03/2024 - 04:26h

Eita bixiga taboca… isso só tem no sertão

Por Zenóbio Oliveira

Foto: Gustavo Bettini

Foto ilustrativa de Gustavo Bettini

Xarope de Malvarisco,
Pra curar tosse puxada,
Um rosário na portada,
Pra proteger de corisco,
Um cordão de São Francisco,
Pra frear assombração,
Catuaba com limão,
Pra animar velho coroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um pirão de Sabaru,
Na hora da gororoba,
Café de Mangirioba,
Com o mel do Capuxu,
Melador de Cumaru,
Pra curar constipação,
Uma piraca a carvão,
Pra espantar muriçoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Uma tigela de fuba,
Peneirada em urupemba,
Um cavalo de catemba,
De talo de carnaúba,
Reza braba que derruba,
Mau-olhado e maldição,
Duas moças num pilão,
Caçulando uma paçoca
Eita bixiga taboca
Isso só tem no sertão.

O povo escutando um jogo,
Num rádio antigo da SEMP,
Um bule em riba da trempe,
Com café pegando fogo,
Uma galinha com gogo,
Babando que só o cão,
Um galo ciscando o chão,
Doido pra achar minhoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Tarrafa malha miúda,
Pra pesca de sabaru,
Banha de tejuaçu,
Pra dor de garganta aguda,
O chá da folha de arruda,
Pra descer menstruação,
Ninho de palha no chão,
Pra deitar galinha choca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um baú na camarinha,
E um monte de troço dentro,
Uma horta de coentro,
No terreiro da cozinha,
Um poleiro de galinha,
Nos dois ganchos dum pinhão,
E o roçado de feijão,
Precisando duma broca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Quixó, fojo, landuá,
Arataca e arapuca,
Tocaia, facho, cumbuca,
Mundé de pegar preá,
Anzol, rede de pescar,
Negaça, sangra, alçapão,
Garrucha, funda, facão,
E espingarda de soca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Batata de macambira,
Pra fazer ração bovina,
Uma cerca de faxina,
Amarrada com embira,
Cortiço de Jandaíra,
Pendurado no oitão,
Um pinto na plantação,
Pinicando tamboroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Zenóbio Oliveira foi jornalista, repórter cinematográfico, poeta e escritor falecido dia 12 de julho do ano passado (veja AQUI)

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Categoria(s): Poesia
terça-feira - 27/02/2024 - 11:30h
Ah, meu sertão!

Sabor, aroma e a fidalguia do sertanejo

A melhor parte da canjica está no fundo da panela.

Sabor, aroma e a fidalguia do sertanejo completam um conjunto perfeito.

Com licença, mas eu vou à luta.

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domingo - 25/02/2024 - 09:50h

Lá vem a chuva

Área litorânea, região metropolitana, são pontos mais críticos no período (Foto ilustrativa Elisa Elsie)

Foto ilustrativa de Elisa Elsie/Arquivo

Por Odemirton Filho

O velho sertanejo olhava para o céu. Estava no período do inverno, e rogava a Deus que a chuva molhasse o chão esturricado. Todo ano era a mesma peleja, o homem do campo fia-se em Nosso Senhor e nas benções de São José para que o inverno seja chuvoso. A esperança não morre, renova-se ano a ano. Assim é a vida do povo do sertão, calejado pela constante falta d`água.

Com o velho sertanejo não era diferente. Passou a vida trabalhando naquelas terras. Herdou-as do seu pai e, desde pequeno, ajudava-o na roça, aprendendo o ofício que vinha de geração em geração. Daquele chão seco conseguiu tirar o sustento dos cinco filhos.

Hoje, moravam somente ele e a sua mulher, também avançada em anos. Os filhos foram morar numa cidade grande em busca de melhores condições de vida. Entretanto, nunca pensou em sair do seu torrão. Ali nasceu, ali morrerá.

Levavam uma vida simples. A sua mulher preparava o café cedinho, antes do sol raiar; barria o terreiro, depois, ia limpar a casa e preparar o almoço. Ele ajeitava alguma cerca que estava quebrada; alimentava os poucos animais que tinham; limpava a sua pequena roça. Na hora do almoço, normalmente comiam feijão, farinha e, quando tinha, alguma mistura. Tomava umas doses de cachaça para “espaiar o sangue”.

À noite, ao lado de sua velha, assistiam ao noticiário na televisão e escutavam umas cantigas no rádio. Gostavam de ouvir o rei do baião: “Sem chuva na terra descamba janeiro, depois fevereiro e o mesmo verão; apela pra março que é mês preferido do santo querido senhor São José (meu Deus, meu Deus)”; dormiam antes das 21h, religiosamente.

Recebia o dinheirinho do governo, mas o “aposento” mal dava para as despesas. Há anos que escutava a conversa mole dos políticos que a vida vai melhorar. Neste ano de eleições municipais, os candidatos a prefeito e a vereador deverão passar pela sua casa prometendo mundos e fundos, mas gostava de dizer que já tinha plantado “um pé de cá te espero”.

Agora, via as nuvens carregadas, os raios rasgando o céu. Estava capinando a roça e gritou para a sua mulher: lá vem a chuva! Lá vem a chuva!

E sentiu o suor do trabalho, as lágrimas da esperança e os pingos da chuva enviada por Nosso Senhor escorrerem em seu rosto.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
terça-feira - 13/02/2024 - 16:34h
No sertão

Todos se pintam de alegria

BR-405 à tarde de 8 de fevereiro, Oeste do RN (Foto: BCS)

BR-405 à tarde de sexta-feira (9 de fevereiro de 2024), Oeste do RN (Foto: BCS)

Carlos Santos

Na boleia, caroneiro, testemunho o sertão no seu momento mais sublime.

A chuva abre caminho na BR-405, em pleno Oeste do RN. Pede passagem. Seja bem-vinda, porque resolvi ir no seu rastro.

Vou-me embora para a paz das horas que não têm fim, em busca da conversa despreocupada na calçada e daquelas crianças que vivem estórias da Terra do Nunca.

O Carnaval por lá não tem pierrô nem colombina. A gente não vai atrás do trio-elétrico.

Mas, todos se pintam de alegria.

Eu, também.

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Categoria(s): Crônica
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sábado - 13/08/2022 - 10:46h
Lindona!

A lua de agosto

Foto de Genário Freire foi feita à noite dessa sexta-feira, 12, em Mossoró

Foto de Genário Freire foi feita à noite dessa sexta-feira, 12, em Mossoró

Close na lindona, a lua de agosto no sertão – Mossoró.

Clique à eternização do médico-fotógrafo Genário Freire: sexta-feira, 12 de Agosto de 2022.

Deslumbrante.

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sexta-feira - 28/01/2022 - 22:52h
Inverno

Mossoró, a ‘Suíça’ do sertão

Temperatura em Mossoró às 22h52 min de 28 de janeiro de 2022Clima para lá de bom nessa noite de sexta-feira (28) em Mossoró.

La fora, chuva.

Temperatura com 24 graus (às 22h52), mas com promessa de amanhecer aí em torno de 23 graus.

Uma Suíça em pleno sertão.

Leia também: Mossoró chega a 247,7% a mais de chuvas somente esse mês.

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segunda-feira - 16/08/2021 - 07:50h

O Sertão do não sei onde

Por François Silvestre

Onde fica o Sertão? Ou melhor, onde estão suas fronteiras? Ou o Sertão é só pergunta, onde não mora nenhuma resposta!?

Em Guimarães Rosa o Sertão é linguagem. Fosse ele um pintor, seria o Salvador Dali daqui. Fritaria ovos no sol, antes da gema chegar à frigideira.

Serrota Preta (Foto cedida por Honório de Medeiros)

Serrota Preta (Foto cedida por Honório de Medeiros)

Câmara Cascudo vasculhou hábitos, alimentos, apetrechos, locas onde se esconde o destino das tradições e superstições. Mas fez isso também na urbe. Seu interesse era o cotidiano, no mato ou na praça.

Oswaldo Lamartine faz um mapa dos caminhos na crueza da pedra. Seu texto, original e único, é um ferro de ribeira em brasa a marcar o couro cru. Deixando na impressão da leitura um ferro nas ancas, informando ao retirante o dono da rês. Isso eu já disse, noutro texto antigo. Oswaldo é uma catingueira; suave e seca, pouca fronda e muita sombra. O Sertão se aboleta nos desvios dos seus sóis.

Ariano Suassuna faz, na literatura, um plágio universal na colheita do jeito sertão de ser. Com um lençol de apanhar algodão ele foi colhendo gente e jeito, na África e Ibéria. Depois teceu, num tear engenhoso, uma manta para agasalhar informes da cultura do seu povo.

O encontro literário de Pipa, ação merecedora de aplauso e apoio, tocada por Dácio Galvão, teria sua presença. Tudo confirmado, mas não contaram com o gesto inevitável e traiçoeiro da Moça Caetana. Ficou, para Dácio e sua obra meritória, esse “gosto ardido no peito”, como diria Luiz Carrlos Guimarães. Mesmo assim e apesar disso, Pipa é um marco na vida cultural do Rio Grande do Norte. Parabéns a Dácio Galvão.

Rui Facó fez do seu texto uma denúncia. Pôs o Sertão apontando o dedo na ferida da exploração e sacanagem do poder. É o Sertão discursivo e militante, impaciente e cobrador.

Euclides da Cunha, ídolo ímpar de Ariano, mexeu num cipoal de questões e dúvidas. O próprio Suassuna reconhece valor literário em Machado de Assis que Euclides não alcança, mas faz a ressalva de que Euclides é muito mais monumental na arte das letras edificada como marco trágico do povo.

Mas o texto presente apenas tenta descobrir a ausência do Sertão. Onde ele não existe. Posto que, é aí onde ele está.

E dado o direito de cada um buscar o seu sertão; o meu não está onde está, pois o seu endereço é o nunca. Nem os carteiros da China, sob o comando de Castilho da Redinha, conseguirão localizar a morada das grotas.

Descobre-se meu Sertão nas perdas que se escondem nas pedras dos cardeiros. Fernando Torre, da Maravilha, de antes tempos. Tarcísio Caldas, de Viçosa, brincador da vida. Felipe de Floresta do Navio, de sempre. Júnior Targino, do Cangaíra, hoje. Severino Ramos, da Serra Nova, de agora. Bode Lira, da Pedra Rajada, de manhã. Baíto, tão depressa quanto o gol. Décio Holanda, de Uruaçu, tarde e noite.

O meu Sertão é mais tempo do que espaço. Mais gente do que mormaço. Mais dor do que festa. Mais cerveja do que ressaca.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/04/2021 - 10:34h

Memória – Rafael Negreiros, o indomável

Rafael Negreiros com Ivonete de Paula na ACDPPor Honório de Medeiros

Alguns anos atrás, final dos anos oitenta, eu e Franklin Jorge resolvemos lançar um jornal em Pau dos Ferros que cobrisse, para o Estado, todo o Alto Oeste. Seria semanal e iria para as bancas aos sábados.

Foi algo insano, mas naquela época não tínhamos noção acerca da aventura na qual nos meteríamos, e a história da “Folha do Alto Oeste” um dia será contada, através de “perfis”, “sueltos” e “bicos-de-pena”, como somente Franklin Jorge sabe fazer.

O que importa, entretanto, é registrar que Rafael Negreiros foi nosso primeiro e mais importante colaborador e, já no terceiro ou quarto número criou, com a iconoclastia que o caracterizava, a figura do “ombudsman” jornalístico – que a Folha de São Paulo criaria algum tempo depois, se arrogando pioneira, sem saber que no Sertão do Rio Grande do Norte essa experiência já existira.

Naquele artigo, Rafael Negreiros desancou o jornal com tiradas tipicamente suas: ironias cortantes, entremeadas por observações pertinentes e oportunas acerca do exercício do jornalismo, em um artigo que ele enviou para publicação, divertindo-se com nosso possível constrangimento.

Publicamos, claro, e graças a ele fizemos história.

Talvez tenha sido essa a única vez que mantive um contato mais estreito com ele, apesar de conhecê-lo desde menino. O final da minha infância e início da adolescência – os últimos anos nos quais morei em Mossoró – foi cheio do que chamávamos de “as histórias de Rafael”, casos que eram contados nas esquinas da província e nos deliciavam pelo espírito de rebeldia, sem que disso tivéssemos noção.

Víamos Rafael – pelo menos eu via – como alguém que tinha coragem de tomar posições. Para mim não importava que posições fossem essas, mas, sim, seu destemor com as quais as assumia e defendia, além do torrencial volume de erudição que envolvia cada escrito.

ANOS DEPOIS acompanhei, por intermédio de Fernando Negreiros, filho caçula e amigo meu de infância, seu distanciamento da turbulência que o caracterizava. O tempo, domador de homens, cumprira seu papel como sempre deslealmente, porque escolhera para cúmplice anões morais com os quais Rafael Negreiros se recusava a compartilhar a experiência de sorver a vida daquela forma tão sua e tão peculiar.

Era o fim de uma era de titãs em Mossoró. Homens símbolos. Os contemporâneos dos seus últimos dias – imberbes arrogantes e pragmáticos, desletrados e vazios – sequer sabiam, quando o conheciam, ou dele ouviam falar, com que graça esdrúxula, humor derruidor, inteligência aguda, Rafael desmontava as armadilhas da mediocridade cotidiana.

E hoje, com raras e honrosas exceções, lembram-no por seu talento menor – o humor, a excentricidade – desconhecendo, lamentavelmente, que se a coragem de firmar opinião usando como veículo a iconoclastia tivesse nome, seria, com certeza, Rafael Negreiros.

Existe ainda uma outra faceta de Rafael que eu considero ímpar. Lembra um poema atribuído a Borges que depois soube-se não ser de sua autoria.

No poema, em tom confessional, o autor ou a autora lamentava-se, olhando para o próprio passado e adivinhando a velhice que chegava a passos largos, não ter aproveitado um pouco mais da vida com coisas pueris.

Aparentemente pueris, digo eu, como um banho de chuva, mar, quem sabe de rio ou açude, o cavaqueado com os amigos do peito, a piada pronta, o espírito zombeteiro, discussões literárias, gargalhadas…

Não importa, caro autor ou autora, Rafael Negreiros fez isso por você.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Artigo
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segunda-feira - 05/10/2020 - 12:52h
Leitura

“Jesuíno Brilhante” – o primeiro dos grandes cangaceiros

Novo livro (Foto: BCS)

O escritor Honório de Medeiros oferta-nos um novo trabalho que mexe com as entranhas do sertão, poder, cangaço e coronelismo.

Dessa feita, a sua viagem mergulha no século XIX, para investigar a vida de Jesuíno Brilhante, personagem controvertido da caatinga paraibano-potiguar.

Sem rodeios, escapando de estereótipos e duelando contra o lugar-comum da deificação do personagem-título, Honório de Medeiros nos leva a conhecê-lo, seu tempo e lugar: nosso sertão.

É minha leitura especial da semana.

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domingo - 19/04/2020 - 08:48h

Seu Chico Piu e a Teoria da Evolução

Por Honório de Medeiros

Não fossem as fotografias guardadas com muito carinho, nas quais apareço magro e sorridente, sem rugas e cabelos grisalhos, as lembranças daquele inesquecível passeio a cavalo, eu e um amigo que me hospedava, até a fazenda de café de “Seo” Chico Piu, serra acima na área rural de São Carlos, interior montanhoso de São Paulo, tudo seria apenas borrão na minha memória, algo como um filme antigo, com paisagens e pessoas esmaecidas pelo tempo.

Pego-as e sorrio, sempre. Depois, um toque de tristeza toma conta do espírito e lamenta a juventude passada, os amigos que se foram, os sonhos desfeitos, as promessas não cumpridas, os amores perdidos. “C’est la vie”, diriam os franceses.

Naquela tarde conheci “Seo” Chico Piu, homem sob todos os aspectos singular.

Em primeiro lugar vivia quase recluso, lá no seu pé de serra. Raras vezes descia à cidade. Bastava-lhe, para viver bem, estar pisando descalço sua terra rica e roxa, cercado por sua gente, que lhe margeava como uma tribo ao seu cacique.

“Seo” Chico era baixo, moreno gretado pelo sol, de braços e pernas fortes, espadaúdo, e com uma face como que esculpida em bronze, com traços muito demarcados. Mas o que impressionava eram seus pés. Estes, de fato, se viram sapatos, ou mesmo chinelos, foi em tempos muito idos, segundo suas próprias palavras.

Eram verdadeiros cascos, endurecidos por todos os invernos e verões aos quais “Seo” Chico os havia submetido. Segundo nos contou, e sua família confirmava, descia descalço até mesmo para a cidade, onde raramente ia. E, nos pés, não sentia frio ou calor, não era sensível à água ou à rocha mais dura.

“Seo” Chico era homem de pouca conversa quando no trabalho ao qual se entregava como qualquer um dos seus trabalhadores. Junto a eles, colhia o café, batia, ensilava, ensacava, derrubava as reses, ferrava-as… Um maestro em pleno exercício de sua arte, cegamente obedecido por seus músicos. Um general a conduzir seu exército com doçura, mas com firmeza.

Era, basicamente, dono de cafezais e de rebanho leiteiro, que se espargiam serra abaixo, tendo a Casa Grande como epicentro. Vivesse no Sertão nordestino e nele tivesse aquela terra e todo aquele gado seria um homem de posses, por assim dizer.

No final de uma tarde como aquela, no entanto, tempo esfriando ligeiro indicando noite gelada a chegar, visita no pátio da casa grande e rústica, a sisudez era deixada de lado e o café forte e a aguardente feita sob sua própria orientação lhe iluminavam o semblante e abriam seu coração e mente originando conversas recheadas de casos passados e argutas observações acerca da vida, dos homens e das coisas.

Mas tudo que é bom dura pouco.

Com a chegada da noite veio a hora de voltar sob a fria luz da lua, a passo leve, nas trilhas estreitas, para manter a compostura ameaçada pela bebida e a possibilidade de se envolver com a beleza da serra sob o luar.

Tomamos o último café, bebemos a última caneca de cachaça e ele, se despedindo, bateu na anca da mula mansa que me conduzia, apontou para mim e para si próprio, e como que refletindo, me disse para guardar comigo que o tempo havia lhe ensinado ser a vida, acerca da qual tanto havíamos falado, como uma serra de onde cada um descia na justa medida em que outro subia lhe tomando o lugar.

Dito isso, me lembrou que “seu pensamento” se tratava de um presente, assim como a garrafa da mais pura cachaça de sua moenda que me passou às mãos, deu um passo para trás, ajeitou o casaco de lã por sobre os ombros tocados pelo sereno da noite e lá ficou, a nos observar partindo, com seus pés indiferentes à temperatura que caíra bruscamente e, com certeza, desconhecendo meu conhecimento sorvido dos livros acerca da teoria da evolução que diziam, de forma muito pomposa e circunspecta, aquilo que ele concluíra somente observando, no seu pé de serra, a vida passando ao largo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Mossoró e Governo do RN

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domingo - 05/04/2020 - 07:30h

O dom de narrar

Por Honório de Medeiros

“Naquelas noites, no Sertão, a escuridão tomava conta do Sítio onde, à luz do lampião, no terreiro, meu Compadre – eu, menino, o tratava assim, e ele assim me tratava – reunia, no seu entorno, a família e os amigos, para ouvirem as estórias que faziam parte da antiga tradição oral dos nossos antepassados sertanejos, acompanhadas de uma xícara de café quente, coado na hora, e bolachas pretas.

Às vezes havia lua e o mar de prata criava imagens fantasmagóricas nos arbustos lá fora, confins da luz; ao vê-las, instintivamente nos aproximávamos um pouco mais do círculo dos adultos, e somente relaxávamos quando a gargalhada do meu Compadre pontuava suas estórias. Até então, ele tinha nos deixado, a todos, em permanente suspense, por um tempo aparentemente sem fim.

Foto: Gustavo Bettini

Decerto, nunca mais pude fugir de um compromisso alegando uma mentira inocente sem recordá-lo, e a um desses “causos” que ele nos contou. Dizia respeito a alguém do seu conhecimento, “parente distante”, que para fugir de uma obrigação social, jurou, por intermédio de um bilhete, estar em casa, de repouso, por motivo de doença.

Ao voltar de um forró onde se esbaldou a noite inteira, em outra localidade, mal apeou do cavalo escutou choro e lamentações, e seu pressentimento foi confirmado pelos fatos – ela, sua esposa, jazia, muito doente, nos braços das filhas.

Exposto assim parece pouco, quase nada, mas somente sabe acerca da magia sobrenatural daquelas noites quem as viveu no Sertão, à luz bruxuleante do lampião, céu estrelado, ouvindo, de quando em vez, dentre outros, o canto sinistro dos rasga-mortalhas.

Eram estórias de amores; assombrações; gestas; valentias; honras; ódios entre famílias; cangaceiros; botijas, descobertas por intermédio de sonhos que precisaram de uma sabedoria centenária para serem interpretados corretamente; raptos consensuais ou não; caçadas às onças, nas quais somente a habilidade espantosa do caçador o fez escapar com vida; pescarias milagrosas; recuperações da saúde através de feitiços, poções ou orações de benzedeiras e curandeiros; vidências, estórias de maus-olhados e mandingas; secas e invernadas desmedidas; justiças divinas a corrigirem desmandos humanos; feitos com armas; aventuras de parentes e amigos nas terras desconhecidas da Amazônia, para a qual tantos tinham ido e não mais voltado; estórias dos segredos da Serra das Almas, onde foram encontradas as ossadas de vários homens ao lado de espadas, escudos, elmos, pepitas de ouro e outros apetrechos do tempo em que o Brasil era recém-nascido; e tantas outras…

Na forma arrastada com a qual meu Compadre as contava havia uma magia que prendia nossa atenção, uma sabedoria antiga da qual ele era herdeiro e na qual era mestre; havia alguém que cultivara a tradição, o dom de contar um “causo”, uma cadência hipnótica na voz, uma lógica precisa para o encadear das frases engastadas com palavras que o mestre Luís da Câmara Cascudo não hesitaria em classificar como egressas do puro português colonial, e que os folgados das cidades grandes alcunhariam de “matutês”, por pura ignorância.

O desfecho sempre apresentava uma lição de vida e, não raro, belas conclusões a externar uma apropriada observação acerca da natureza dos homens e seu destino de desprezar o caminho certo, a senda justa, a trilha verdadeira na vida, em troca das facilidades enganosas que o diabo apresentava, enquanto armadilhas, para a perdição da alma dos incautos.

Meu Compadre não era somente um contador de estórias sem igual e um dos últimos herdeiros daquela raça de titãs que colonizou o Sertão, alguém dotado de arguta percepção a respeito dos homens e das coisas, a quem eu escutava embevecido; também era uma fonte inspiradora para mim, a principal delas quando penso na cultura sertaneja, como se tudo quanto eu lesse acerca do tema precisasse ser confrontado com a memória de sua existência, para, em mim, adquirir a necessária credibilidade.

Ele também era um poeta, em um certo sentido muito próprio, alguém com o dom de dizer belamente, em momentos especiais, com tiradas de brilho incomum, algo que nunca brotaria, com facilidade, dos nossos corações e mentes. Dele escutei, certa vez, quando falávamos da morte, rompendo um seu mutismo inabitual, que “a morte, para quem fica, é uma saudade sem esperanças”.

Acaso alguém poderia ser mais preciso e poético ao descrever esse sentimento? De outra, referindo-se aos caminhos e descaminhos de um amigo comum, saiu-me com essa, aludindo à eterna vitória da esperança sobre a razão: “compadre, quem nos puxa mesmo é a mão da ilusão…”

Passaram-se os anos, muitos, desde então, e o pó do tempo escondeu impiedosamente muitas lembranças minhas dos tempos de menino. Algumas, entretanto, sobreviveram. Vez por outra, por exemplo, eu me lembro daquelas noites no Sertão, e fico imaginando o quanto meu Compadre gostaria de escutar esta minha história (ou estória), acerca do seu dom de narrador. Não por vaidade – nunca conheci ninguém tão simples, mas pelo inusitado, para ele, da recordação.

Pois se ele, quando se foi, há muito tempo, imaginasse que um dia alguém iria lembrar daquelas noites no terreiro de sua casa, no Sítio, Encanto, beiradas da Serra das Almas, Sertão profundo, à luz das estrelas, da lua, e de uma fogueira bruxuleante, daria uma grande risada com aquele jeito manso e ficaria muito satisfeito.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 05/03/2020 - 22:30h
Inverno

É meu sertão!

É tanta notícia boa do meu sertão, com açudes e barragens tomando água, os bichos fartos no campo e o sertanejo rindo à toa, que é difícil me interessar por “pibinho” e “dolão”.

Parece, mas não é dupla sertaneja.

Lá em nós num tem disso não.

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sábado - 24/08/2019 - 12:44h
Cultura popular

Segunda Cantoria dos Amigos é hoje

É hoje (sábado, 24), a partir de 20h, a 2ª Cantoria dos Amigos, no Restaurante Sabor do Sertão, à margem direita da RN-117 (Mossoró-Governador Dix-sept Rosado).

Fica a 15km a partir da Avenida do Contorno, em Mossoró.

Cultura popular com os cantadores João Lourenço e Hipólito Moura.

Bom demais!

Vamos!

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Categoria(s): Cultura
terça-feira - 14/05/2019 - 07:40h
Hoje

O céu de Natal

Mossoró é minha pátria amada.

Mas Natal é uma segunda casa, às vezes até a primeira no carinho dos amigos e no reconhecimento profissional.

‘Santos’ de casa não faz milagre, sei bem.

Porém do meu sertão à capital, o que cabe em mim é um sentimento maior, feito de bem-querer, carinho gratuito e espontâneo, com direito à contemplação devocional.

O céu de Natal também é meu.

Em Mossoró, um pouco eu.

Bom dia, Natal!

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/03/2019 - 08:00h

Petróleo no sertão, uma oportunidade

Por José Nilo

“Lembro-me, quando criança, da reação dos garotos ricos ao receberem brinquedos. Os seus olhos brilhavam e, imediatamente, passavam a desfrutar merecidamente da conquista, mais comumente, envoltos por individualidade e relativo período de felicidade. Em contraponto a essa realidade, recordo-me também dos amigos que tinham, apenas na vontade, algum tipo de passatempo. Ao imaginário desse último grupo, cabia a pretensão de concretizar o desejo de construir, a partir de um conceito, de uma ideia, um brinquedo palpável às suas ainda pequenas mãos. Para tanto, assumiam o papel de desenvolvedores, reaproveitando materiais já utilizados e descartados. Indiscutivelmente, o aprendizado, nesse caso, ficava mais consolidado e a conquista mais vibrante.”

Convido-os a espelhar essa experiência no cenário econômico atual do Rio Grande do Norte.

A exploração do petróleo em Mossoró no início dos anos 80 foi, de maneira análoga, o presente de rico para uma região economicamente carente que, com o passar do tempo, desembrulhou-o e deleitou-se dos resultados.Por 35 anos, gerou-se progresso e distribuiu-se renda por meio dos royalties. A pujança parecia interminável, até que, por aparente ironia, o presente de rico mudou de endereço e agora está sendo apreciado bem longe das terras costeiras e competentemente explorado por players capitaneados pela Petrobras, detentora inconteste de tecnologia e mão de obra especializada à altura dos desafios da exploração do pré-sal. Fantástico, vibrante, mas com alegria contida.

Alegria contida porque as regiões produtoras terrestres, que tanto contribuíram com o aprimoramento da curva de aprendizado por meio de inúmeros testes de equipamentos, materiais e capacitação de mão de obra, hoje, assistem de forma desolada a uma vertiginosa queda de produção motivada pelo descompasso entre o programa de desinvestimento da Estatal e a entrada das novas operadoras. Descompasso inesperado, tendo em vista o empenho, a dedicação dos potiguares e os bons resultados econômicos e sociais advindos dessa exploração.

Segundo a própria Agência Nacional do Petróleo (ANP), conforme matéria publicada pelo Valor em 07 de março de 2019, a produção terrestre recuou 36% entre 2012 e 2018, para 115 mil barris diários. As perfurações em terra recuaram 73% entre 2015 e 2017, para 85 poços, bem na contramão do Programa de Revitalização da Atividade de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres (REATE), do Ministério de Minas e Energia (MME), que previa a possibilidade real de mais que triplicar a produção de petróleo e gás natural onshore, revertendo o declínio da curva dos últimos anos.

É notório o clima de desânimo e de desalento na capital brasileira do onshore, Mossoró/RN, clima de que tudo ficou para trás, para o passado, como se agora não fosse o momento de se reconhecer a avidez dos produtores independentes, de união em torno de um novo conceito, de um ideal, de um propósito na preparação de um negócio renovado, capaz de impactar positivamente a geração de empregos em regiões castigadas pelas condições climáticas e baseado primordialmente naquele modelo de sonho de brinquedo de criança pobre citado inicialmente, no qual ela mesma busca construí-lo, vencendo as dificuldades e partilhando os resultados.

Alguns empresários locais afirmam: “é hora de pararmos de lamentar a decisão da Petrobras de repassar polos produtores sob sua concessão. É hora, sim, de lamentarmos a demora na concretização desse repasse, é hora de agradecermos a relevante contribuição dispensada pela maior operadora do Brasil à região, de nos prepararmos para receber as novas operadoras e esperarmos que elas recoloquem em operação em prazo urgente os mais de 2000 poços que se encontram parados, desestagnando a combalida economia local, restaurando empregos e, quiçá, fazendo-nos compreender que o petróleo também é nosso”.

José Nilo é empresário

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Categoria(s): Artigo
domingo - 02/09/2018 - 08:20h
Conversando com... Adriana Negreiros

Livro conta história de Maria Bonita e mulheres no cangaço

Trabalho também tenta desmitificar Lampião como "Robin Hood do sertão", imagem muito disseminada

Por Luíza Franco (BBC News Brasil)

Dona de uma “personalidade espevitada”, Maria Bonita – que, em vida, era conhecida como Maria de Déa – era uma mulher empoderada , transgressora, bem-humorada e “um tipo meio canalha”. Mas apesar de estar “à frente do seu tempo”, não se incomodava com a opressão em que viviam suas colegas de cangaço e apoiava que mulheres adúlteras fossem assassinadas.

Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço é o livro lançado por Adriana Negreiros (Foto: Marcos Vilas Boas)

É assim que a jornalista Adriana Negreiros retrata a cangaceira, que acaba de biografar em Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço (Objetiva). O livro conta a história do cangaço dando destaque às mulheres e aos relatos que fizeram sobre como era a vida no bando de Lampião. “Fui percebendo em conversas com pesquisadores do tema como as histórias delas eram desqualificadas”, diz Negreiros.

Maria Gomes de Oliveira (1910 – 1938) era uma dona de casa casada quando começou a namorar Lampião, em 1929, e decidiu juntar-se ao bando no ano seguinte, tornando-se a primeira mulher do grupo. Seria uma das poucas a tornar-se cangaceira por vontade própria – muitas foram raptadas.

Ela acabou morta junto com Lampião e outros membros do bando num ataque das forças de segurança a um acampamento onde pernoitavam. Foi decapitada e, assim como os demais, sua cabeça foi exposta diante da Prefeitura de Piranhas (AL).

O livro também se esforça para desfazer a imagem de Lampião como o “Robin Hood do sertão”, disseminada na mídia e por movimentos de esquerda da época.

Maria Bonita e o bando de Lampião em pose para Benjamin Abrahão; ela era considerada a "rainha" do cangaço

“Ele era aliado dos grandes latifundiários do Nordeste e era amigo de um interventor. O fato de ter passado impune tantos anos se deve à relação que tinha com o poder. Os grandes prejudicados eram os mais pobres”.

Adriana é jornalista e trabalhou nas revistas Veja, Cláudia e Playboy . A seguir, veja trechos da entrevista com a autora:

BBC News Brasil – Como surgiu a ideia de escrever uma biografia de Maria Bonita?

Adriana Negreiros – Sempre tive muito interesse no cangaço. Sou nordestina, do Ceará. Minha família é de Mossoró, a única cidade que conseguiu expulsar Lampião. Isso foi um marco na história do cangaço e é lembrado até hoje.

Assim como muitas mulheres, eu estava vivendo a onda feminista. Minha geração está muito acostumada a ver homens no poder. Muita coisa foi naturalizada e agora estamos questionando. Quis contar a história do cangaço da perspectiva das mulheres. Lampião é uma figura exuberante, mas tinha um monte de mulheres que participaram do cangaço e que foram totalmente ignoradas.

BBC News Brasil – A imagem que tinha dela antes de escrever o livro mudou?

Negreiros – Sim. Tinha uma visão muito mitificada. Quando pensamos nela, imaginamos uma mulher guerreira, que pega em armas. Não sabia que as cangaceiras não pegavam em armas. Havia uma diferença entre o espaço das mulheres e dos homens. Elas tinham uma função doméstica, ainda que não tivessem casa. Quem brilhava no espaço público eram os cangaceiros. Elas eram coadjuvantes. A maioria nem sabia atirar.

Maria Gomes de Oliveira, Maria Bonita (Foto: Benjamin Abrahão)

BBC News Brasil – Em que sentido diria que ela foi uma mulher transgressora?

Negreiros – Diferentemente da maioria das cangaceiras, ela entrou para o bando porque quis. Era empoderada para seu tempo e para aquele lugar. Vivia no sertão, nos anos 1920. Era uma mulher casada, de quem se esperava obediência ao marido. O Código Civil da época previa isso – a mulher precisava de autorização do marido para trabalhar. No entanto, ela era muito infeliz no casamento. O marido era um fanfarrão, não era presente, nem muito viril. Ela se sentia sexualmente insatisfeita com ele. Há indícios de que ela tinha um amante.

Quando ficava de saco cheio do marido, não ia chorar pelos cantos, ia para o forró, dançar. Tinha uma personalidade mais espevitada mesmo. Ela era transgressora do ponto de vista do comportamento, era corajosa nesse aspecto. Era muito bem-humorada, não estava nem aí para o pensassem dela. Não se levava a sério. Se quisessem caçoar dela, ela estava pouco se lixando. (…) Ela falava alto, ria muito, era um tipo meio canalha, gosto disso nela.

Dadá (a cangaceira Sérgia Ribeiro da Silva) também é muito interessante. Foi raptada (pelo cangaceiro Corisco), mas mais tarde disse que o amava. Acho que era uma estratégia de sobrevivência. Se adaptou à situação. Isso deu a ela um papel de protagonismo. Os homens a obedeciam, mas não achavam aquilo muito certo. Mas ela foi uma sobrevivente.

BBC News Brasil – Por um lado, Maria Bonita agiu a favor da própria liberdade. Por outro lado reproduzia o machismo violento dos homens. Dá para dizer que ela era feminista?

Negreiros – Não. Era transgressora, à frente do seu tempo, mas não tinha consciência política, de gênero. Não se mostrava incomodada com a situação de opressão contra as mulheres. O conceito de sororidade passava longe ali. As mulheres não protegiam umas às outras.

O código de conduta era totalmente machista. Uma mulher que cometesse um adultério era morta; o homem, não. As mulheres até incentivavam que as outras fossem punidas. Havia suspeita de que (a cangaceira) Cristina, por exemplo, tivesse um caso com outro cangaceiro. Maria foi uma das que mais apoiou que ela fosse morta, como ela de fato foi.

Corisco e Dadá: A cangaceira foi raptada e estuprada por ele. No bando ela ganhou maior espaço (Foto Benjamin Abrahão)

BBC News Brasil – A imagem que se tem dela é que entrou para o cangaço por amor a Lampião. Acha que foi isso mesmo que a motivou?

Negreiros – Amor é demais. Nem conhecia bem ele. Mas ele era a grande celebridade naquela época. Era um astro, um machão, tinha dinheiro, era um valentão. Do lado dele ela se sentiria segura. Isso tudo a atraiu.

(O escritor) Ariano Suassuna fala que eram figuras extraordinárias, almas grandes. Ele tem admiração especialmente pela Maria. Ele fala que acha que ela se apaixonou por um cara que era um rei, um homem que iria salvar ela daquela vidinha pequena, de um marido que não dava conta do recado, que não dava atenção a ela. Uma vida à mercê de uma série de violências. Viu a possibilidade de segurança e notoriedade ao lado dele. Isso foi virando um sentimento que podemos chamar de amor. Era uma relação afetuosa.

BBC News Brasil – Você diz no livro que, durante a pesquisa, viu que os relatos das mulheres sobre o cangaço eram constantemente questionados. Como era isso?

Negreiros – Isso me chocou muito. Fui percebendo em conversas com pesquisadores do tema que as histórias delas eram desqualificadas. Muitas delas entraram no cangaço não porque quiseram, mas porque foram obrigadas. Foram raptadas. Não foi uma opção. Eu comentava com as pessoas essas questões que muito me chocavam – de abandono dos filhos, por exemplo (após darem à luz, mulheres do cangaço eram obrigadas a entregar os filhos para outras famílias) – e ouvia as pessoas relativizando, dizendo “será que foi isso mesmo”?

Maria Bonita penteando cabelos de Lampião, durante documentário sobre o cangaço (Foto Benjamin Abrahão)

Dadá, por exemplo, foi raptada pelo Corisco, mas as pessoas diziam que não era bem assim. Eu pensava “como uma menina de 12 anos vai escolher ser raptada, estuprada e ir morar no mato, passando fome e sede, sem nunca mais ver os pais?”.

Quer dizer, mesmo quando elas têm voz (Dadá deu muitas entrevistas depois de deixar a prisão), a voz delas é silenciada, sobretudo quando diz respeito a violências que sofreram. Essa é uma lógica que persiste até hoje.

BBC News Brasil – E muitas delas eram ignoradas nas narrativas da época…

Negreiros – Sim. Li praticamente tudo que foi publicado sobre o cangaço. Tem muita coisa escrita por pessoas que viveram o cangaço. Nos relatos, as mulheres sempre são tratadas de uma forma meio escrota. Fui juntando tudo, um trabalho de garimpo, mesmo.

BBC News Brasil – Deve ter sido difícil juntar tudo e fazer um retrato da Maria. Fez uma interpretação própria?

Cristina foi morta por suspeita de traição; Maria Bonita defendia execução sumária dela (Foto: Benjamin Abrahão)

Negreiros – Sim. As questões que me incomodaram acabaram conduzindo o trabalho, especialmente essa questão do descrédito. Resolvi assumir a versão delas.

BBC News Brasil – É isso que quer dizer quando fala que o livro é feminista?

Negreiros – Sim, quis olhar pelos olhos das mulheres, acreditar na versão delas. Também tentei deixar muito claro as estruturas de opressão que atuavam no cangaço.

BBC News Brasil – No imaginário coletivo, cangaceiros são vistos como Robin Hoods do sertão. O livro faz questão de desmontar isso.

Negreiros – Movimentos sociais tentaram vê-los como revolucionários, como se tivessem consciência da distribuição equivocada da propriedade privada, mas não tinham. Lampião queria ser coronel. Ele falava nas entrevistas “quero ser fazendeiro, governador”. Não queria organizar um movimento de camponeses oprimidos. Essa é uma ideia equivocada.

OS POBRES FICAVAM NO MEIO DO FOGO CRUZADO. Eram vítimas dos cangaceiros e das forças volantes (polícia). Não tinham para onde correr. Uma pessoa que tivesse sua casa visitada por cangaceiros tinha que obedecer e depois passaria a sofrer represália da polícia porque era “amiga de cangaceiro”. Não tinha isso de que distribuíam dinheiro. Eventualmente, Lampião fazia agrados porque era um gênio das relações públicas, mas era para ter simpatia de determinada região e ser protegido.

Nos filmes há imagens deles entrando nas cidades e jogando coisas para o alto. Eles podiam até fazer isso, entrar tirando coisas do corpo, mas era pra se livrar de peso. Lampião não tinha a menor consciência de classe. Não tenho dúvida de que, se tivesse um aliado que fosse um grande latifundiário e que tivesse um problema com um pequeno produtor, ficaria do lado do latifundiário. Não diria (vou ficar do lado dos) “meus colegas pobres, oprimidos”. Além disso, era um cara racista. Odiava negros.

As cangaceiras Nenê, Maria Jovina e Durvinha em foto de Benjamin Abrahão

BBC News Brasil – Por que a esquerda não via isso?

Negreiros – Não é tão preto no branco. Apesar de Lampião ser aliado dos latifundiários, de o cangaço ser um banditismo rural, é um movimento de insurreição.

Hoje, o sertão é região esquecida. Imagine naquela época. Ninguém tinha olhos para o sertão. A vida do sertanejo não era fácil. A perspectiva era ter uma plantação, torcer para que chovesse. Uma vida condenada àquilo. Ou (a pessoa) se conformava de que aquela era sua sina ou se rebelava contra isso. De alguma maneira, o cangaço tem na sua gênese certo componente de insurreição.

Frederico Pernambucano de Mello (pesquisador do cangaço) chama de “irredentismo”. A coisa do “vou ser meu próprio rei, farei meu próprio destino”. Isso não torna as coisas muito claras. Não é fácil perceber onde começa a questão social e termina a necessidade de ficar rico ou o desejo de ser maioral do sertão.

BBC News Brasil – No livro, você narra estupros, mulheres que eram marcadas como vacas só por usarem cabelos curtos, assassinatos por motivos fúteis, capação. O grau de violência que eles cometiam te surpreendeu?

Negreiros – Sim, surpreendeu. Era uma coisa patológica. A região é muito violenta e era uma coisa muito naturalizada. Em relação às mulheres, eram tratadas como propriedade, como se fossem vacas. Teve uma cangaceira que depois de morta teve a vagina arrancada. O cangaceiro ficou carregando aquilo na bolsa.

"Apesar de Lampião ser aliado dos latifundiários, é um movimento de insurreição", diz autora (Foto: Benjamin Abrahão)

BBC News Brasil – Viu paralelos com o Brasil de hoje?

Negreiros – Me parece ter certa semelhança com tráfico de drogas no Rio. A política do terror inspira confiança por meio do medo. Ao mesmo tempo, espalha o terror. E na ostentação também. Não faziam questão de se esconder. Traficantes também estão sempre muito armados, com ouro. É um poder paralelo. E as pessoas recorriam aos cangaceiros para resolver conflitos, às vezes até antes de procurar a polícia. A corrupção policial – os policiais vendiam armas para cangaceiros.

P.S do Blog Carlos Santos – Adriana Negreiros é de origem mossoroense e casada com o também jornalista e escritor cearense Lira Neto, autor de livros como a trilogia “Getúlio” (sobre Getúlio Vargas).

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terça-feira - 13/02/2018 - 10:26h
Crônica capiau

Ah, o sertão é dentro da gente!

Ah, que vontade de perambular por esse sertão!

Desejo de espiar o verde.

Necessidade de aspirar o “petricor” (aroma que a chuva provoca ao cair no solo seco).

Careço dele, capiau da cidade que um dia planejou morar no mato e por medo, muito medo, resolveu se trancar em casa. Um prisioneiro sem sentença de qualquer doutor-juiz.

Fico a sonhar com o inverno; aquele mesmo que faz o sertanejo sorrir desbragadamente, leva a meninada a se banhar na bica e instiga os bichos a perpetuarem a espécie.

Aquele tempo dos sapos insaciáveis, dos insetos impertinentes, do milho, do feijão, do rio esborrotando.

Da panela de barro, do cheiro de cuscuz!

De uma prosa que parece sem fim no alpendre, até que a comadre grita lá da cozinha: “O comer tá na mesa!”

Tudo bem. A gente vai já.

Antes, vamos aprumar copo para aquela bicada a mais de cana. Só para abrir o apetite. Só.

Ah, que vontade de perambular por esse sertão!

Guimarães Rosa estava certo.

– “Sertão: é dentro da gente”.

* Foto: Gustavo Bettini.

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domingo - 11/02/2018 - 06:26h

A retirada do gado do sertão para a praia

Por Benedito Vasconcelos Mendes

O meu avô paterno, José Cândido Mendes, proprietário da Fazenda Aracati, situada em pleno sertão semiárido cearense, no distrito de Caracará, às margens do Rio Aracatiaçu, a 60 quilômetros da cidade de Sobral, desenvolveu uma estratégia para a sobrevivência do rebanho nos anos ruins de chuvas (Seca Verde). Ele sabia que a quantidade de forragens nativas de sua fazenda dependia da quantidade de chuvas.

Quanto mais chuvas, maior a produção de pastagens. A quantidade de forragens é diretamente proporcional à quantidade de chuvas.

Nos anos de bom inverno (período chuvoso), o gado atravessava o estio anual (de julho a fevereiro) em razoável estado de carne. Nos anos de chuvas escassas, as forragens nativas só eram suficientes para alimentar o gado até o mês de outubro ou novembro, fazendo com que, a partir daí, o rebanho começasse a emagrecer, chegando, às vezes, até a morrer, por falta de alimentos.

Ele engendrou a estratégia de retirar o gado no começo do verão (estio anual) para uma outra fazenda, localizada no litoral, que, embora também estivesse na região semiárida, tinha melhores recursos forrageiros. O irmão do meu avô, empresário Antônio Oriano Mendes, era dono de uma grande propriedade, denominada Fazenda Quatral, situada no litoral, nas cercanias da foz do rio Acaraú, próxima da cidade de mesmo nome (Acaraú-CE), para onde meu avô levava o seu gado, nos anos de inverno de poucas chuvas.

Naquela época, décadas de 1950 e 1960, não se usava caminhões para transportar gado e a boiada era levada tangendo, de uma fazenda para outra. O litoral  semiárido nordestino é rico em forrageiras herbáceas, como o oró e várias espécies de cipó e em algumas arbóreas,  como a catanduva, que permanecem enfolhadas o ano inteiro (são plantas perenifólias), de maneira que, na região litorânea,  tem forragem verde, de janeiro a dezembro, e a quantidade de pasto é sempre maior do que no sertão, especialmente, nos anos de seca.

No final do período chuvoso, no mês de junho, era avaliada a quantidade de chuvas precipitadas na Fazenda Aracati e observado o volume de pastagens nativas existente no campo. A decisão de se  retirar o gado para a Fazenda Quatral ou de deixá-lo  na Fazenda Aracati era tomada no mês  de julho. Meu avô, depois de ouvir os vaqueiros da fazenda e as pessoas mais experientes da região, às vezes, decidia retirar o gado.

Esta decisão tinha que ser tomada cedo, para aproveitar o gado gordo, capaz de suportar o gigantesco esforço da longa viagem.

Após a tomada de decisão, logo começava o estressante período de preparação da demorada e sofrida viagem, pelos desertos e rudes caminhos, tangendo o rebanho por 60 quilômetros, até a praia. Os primeiros 15 dias do mês de agosto era de preparação da viagem.

Primeiro, meu avô decidia quais os vaqueiros e os auxiliares de vaqueiro que deveriam lhe acompanhar na estafante e longa caminhada. Depois, calculava o número de reses, que os campos de pastagens nativas existentes na Fazenda Aracati era capaz de sustentar, até o próximo período chuvoso.

O passo seguinte era escolher as reses mais gordas, os cavalos e burros que deveriam fazer a dolorosa caminhada.

A quantidade de reses que deveria ser retirada para a fazenda do litoral variava, mas, às vezes, correspondia à metade do rebanho. Minha avó vistoriava os apetrechos que iam ser necessários para a difícil retirada, como cela, arreios, esporas, chicote, alforje (para levar alimentos),  carona (para transportar as peças de roupa) e véstia (chapéu, gibão, peitoral, perneiras, luvas e guarda-pés), que meu avô deveria levar.

Depois de tudo preparado, no final de agosto, chegava o triste dia da partida.

No dia anterior, a última tarefa de minha avó tinha sido a preparação da boia, para o meu avô e demais vaqueiros, que deveria ser levada. O alforje (mocó) do meu avô era de pele de ovelha curtida e tinha o formato cilíndrico, em forma de saco, com 25 centímetros de diâmetro e 50 centímetros de comprimento.

Nele, meu avô iria levar alimentos para todos os vaqueiros: paçoca de carne seca pilada com farinha de mandioca, carne de sol assada, torresmo, queijo de coalho e rapadura, tudo misturado. A boia era colocada dentro do alforje, até enchê-lo completamente. Cada vaqueiro levava sua cabaça d’água, uma cuité, para usar como  prato, e uma colher.

Um burro, com dois caçuás de couro cru, acompanhava o gado levando mais alimentos (rapadura, farinha de mandioca, queijo de coalho e carne seca ) e outras coisas, como água, machado, facão, corda de laçar, espingarda de caça, munições, fósforo, sabão, pasta e escovas de dente, roupas, redes, lençóis e outros objetos. Dois burros de cela, de reserva, também acompanhavam a boiada.

Na hora da partida, minha avó chorosa se despedia  do marido, com beijos, abraços e com as  frases: “Boa viagem !”… “Deus te proteja !” Antes, na calçada da casa-grande, todos de mãos dadas tinham rezado um Pai Nosso e uma Ave Maria, implorando a Deus proteção e sucesso na caminhada.

As esposas dos vaqueiros também faziam suas despedidas e expressavam seus desejos de que tudo corresse bem, no desenrolar desta difícil empreitada.

Depois de abrir a porteira de paus roliços do espaçoso curral para o gado sair, o Sales, escolhido para ser o vaqueiro guia, tomava a frente da boiada e começava  a entoar o dolente aboio, para acalmar e direcionar o rebanho. Meu avô e os outros quatro vaqueiros iam na retaguarda, tocando o gado e aboiando para apascentar o rebanho.

Meu avô tinha na memória as fazendas que ele e os vaqueiros iriam se arranchar. Ele conhecia muito bem o percurso e os proprietários das fazendas onde eles iriam dormir, tomar banho, banhar e milhar os cavalos e dessedentar o gado. Durante vários dias, os vaqueiros, os cavalos, os burros e o gado descansavam à noite e caminhavam durante todo o dia.

Os vaqueiros se alimentavam sobre os  cavalos caminhando.

De tempos em tempos, meu avô tirava, com uma quenga de coco, paçoca com as misturas de dentro do alforje e colocava nas cuités dos vaqueiros e eles iam comendo de colheradas, sobre os cavalos em movimento. As paradas para possibilitar o gado pastar eram rápidas.

No final da exaustiva jornada, depois dos desgastantes dias de caminhada, com os vaqueiros muito enfadados, as montarias e o gado estropiados entravam na Fazenda Quatral, quando os vaqueiros de lá passavam a cuidar do gado e dos cavalos e burros.

Os vaqueiros fatigados tomavam banho, comiam coalhada com cuscuz e rapadura e dormiam. Depois de três dias de repouso, retornavam pelo mesmo caminho para a Fazenda Aracati.

Benedito Vasconcelos Mendes é professor, escritor e ex-diretor da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM, hoje Ufersa)

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domingo - 05/03/2017 - 10:35h
Chuvas

Ê, sertão!

Rodei por alguns municípios do Rio Grande do Norte ontem (sábado, 4).

Sertão vivo, renascido, verde.

Chuvas benfazejas.

Por esses dias, levo umas garrafinhas de Serra Limpa, ‘baladeira’ e arrancho por lá.

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Categoria(s): Crônica
terça-feira - 09/02/2016 - 12:22h
Crônica

Imagens e sentidos do meu sertão

Meu Carnaval tem sido de descanso e trabalho em marcha lenta.

Estava precisando para recarregar baterias. Tenho um ano em movimento, que promete ser de grandes desafios.

Eu preciso deles, os desafios. São meu combustível.

Mas tirei um dia para mirar o sertão; sentir seu cheiro, ziguezaguear por suas estradas e veredas e falar com sua gente.

Comer arroz-de-leite, lavar o rosto com água geladinha da cisterna, procurar (sem sucesso) o camaleão mimetizado na folhagem e seguir em frente, sem a pressa de chegar.

Ouvir. Observar. Falar pouco (ô! Tentei).

São coisas que me fazem bem. Sou capiau da cidade, realimentado pela vida campesina.

Até neblinou ao longo de pouco mais de 400 quilômetros percorridos.

Eu pedia chuvas caudalosas, antes de viajar. Há-as permanentemente em meus sonhos. Vislumbro-as da casinha – imaginária – fertilizando o chão que dá cria à vida semeada.

O sertão verdinho, animais pastando, o sertanejo sorrindo, é como retempero para continuar a rotina que me empolga nesta página e outras tarefas.

Voltei olhando pela janela do carro e no retrovisor o que ia deixando para trás e ao largo: aquele sol engolido por nuvens densas, teimando em ficar.

Eu não me demorei. Mas trouxe todas as imagens e impressões em meus sentidos. Não ficaram para trás; carrego-as em mim.

Reencontrei-me para continuar minha marcha. Já no beicinho da noite avistei minha cidade.

Hora de começar tudo de novo. Em paz!

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