O domingo não foi apenas de descanso, bate-papo, futebol ou umas e outras para muitos moradores do Conjunto Santa Delmira em Mossoró. Foi dia de arregaçar as mangas e lutar com as próprias mãos por seus direitos.
Mobilização iniciada às 9h30 na Avenida Santa Luzia, principal via desse residencial, desaguou no Viaduto da BR-304, recentemente entregue, na entrada do próprio conjunto. Com população aproximada de 20 mil moradores, o Santa Delmira avisou que não vai aceitar imposição de mudanças em projeto do Complexo Viário da Abolição, onde está inserido o sistema desse viaduto.
Na pista transversal debaixo do viaduto, dezenas de moradores cansados de esperar pelo poder público e acusando este de corroborar com lobby do cartel dos combustíveis, organizaram protesto pacífico – usando carros-de-som – que passou também à rampa do próprio equipamento viário. Não houve baderna ou obstrução de passagem de veículos.
A própria Polícia Rodoviária Federal (PRF) esteve no local, garantindo a livre manifestação.
O protesto levou os manifestantes a desobstruírem a pista debaixo do viaduto que é a continuidade da Avenida Rio Branco, para acesso ao conjunto. Garantiram, com os próprios músculos, o tráfego de veículos conforme está no projeto original, sem qualquer semáforo.
Trânsito livre
Ontem, durante tarde e noite, o trânsito fluiu normalmente, sem dificuldade, com o “acerto” feito pelos moradores que retiraram as peças de concreto que atrapalhavam o tráfego.
Na prática, provaram que não há necessidade de colocação de semáforos, como está em gestação no setor de transporte da Prefeitura de Mossoró. A mesma “arrumação” é elaborada para os viadutos entre os Abolição I e II e o que também é construído entre Nova Betânia e Universidade Potiguar (UnP).
No último dia 25 de fevereiro, a governadora Rosalba Ciarlini (DEM) acompanhada de familiares, alguns assessores e aliados políticos deu por inaugurado o viaduto no Santa Delmira. A obra do Complexo Viário da Abolição, do Governo Federal, consorciada com contrapartida do Estado, está se arrastando há mais de quatro anos.
O viaduto do Santa Delmira, com 520 metros de comprimento por 24 de largura e altura máxima de 6 metros, foi liberado para uso, mas houve obstrução da pista e sistema de retornos embaixo da rampa. Ou seja, na prática, fez-se um “meia-boca”, para que o interesse empresarial-politiqueiro possa ser atendido nas próximas semanas, contrariando as aspirações do contribuinte-povo.
Políticos
O protesto foi marcado principalmente pela omissão de políticos mossoroenses. Parece que suas principais lideranças fizeram um pacto de distância e silêncio, marcando com sua concordância com a violência praticada contra moradores e usuários de transportes, que precisam da obra à plena utilização.
O sistema viário deve priorizar fluidez de tráfego e segurança. Semáforos agem justamente em sentido contrário no complexo viário.
O vereador Luiz Carlos (PT) participou espontaneamente do protesto popular e colocou o seu mandato à disposição dos moradores. Assinalou achar estranha toda a sinuosidade pós-conclusão do viaduto, que coloca em risco a segurança da população e volta a criar gargalo no tráfego.
Os vereadores Alex do Frango (PV) e Nacízio Silva (PTN) foram cobrados ao microfone, questionados do por quê da ausência. Após horas de movimentação, apareceram de forma discreta, prometendo levar o caso para debate na Câmara Municipal. Pareciam deslocados em meio ao próprio povo que deveriam representar.
O deputado federal Betinho Rosado (DEM) dirigia um veículo no viaduto, quando foi reconhecido por manifestantes e cobrado a parar. Evitou. Deu sequência à sua viagem, olhando a mobilização apenas pelo retrovisor.
PAC
O Complexo Viário da Abolição é uma obra no valor de R$ 72,2 milhões, fruto de um convênio do Governo do Estado com o Governo Federal, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prevê a construção de cinco viadutos, duplicação da ponte sobre o Rio Mossoró e a duplicação dos 17 km da BR-304 que contornam Mossoró. Dos três viadutos já concluídos, apenas dois estão liberados para uso.
O viaduto 5 no conjunto Liberdade, apesar de ter sido o primeiro finalizado pela construtora, até hoje ele está interditado por estar situado muito próximo a um retorno na BR-304 na saída para Natal.
O Complexo Viário não possui qualquer trecho iluminado ou passarelas para tráfego humano.
Em vários trechos, populares estão quebrando muretas que separam as pistas, para poderem transitar.
Havia expectativa de que todo o sistema fosse inaugurado até o final deste mês, o que é praticamente impossível.




























