quinta-feira - 02/11/2017 - 15:20h
História

O Cemitério São Sebastião de Mossoró

Por Geraldo Maia

Por volta da segunda metade do século XIX o Capuchinho Frei Agostinho andava pelo Nordeste do Brasil em sua missão evangelizadora. Chegou a Mossoró em 1863 e aqui permaneceu por algum tempo. Percebendo que a cidade ainda não tinha um lugar próprio para enterrar os seus mortos, tratou de separar um terreno e nele edificar um pequeno cemitério, com cerca de madeira e um portão simples, como nos informa o historiador Francisco Fausto de Souza.

E por algum tempo, ali foram enterrados os que morriam na cidade.

Cemitério começou no século XIX, segundo historiadores (Foto: reprodução)

Afirma a tradição que antes de 1772, os habitantes da Ribeira do Mossoró, quando faleciam, eram sepultados na Igreja da Mata Fresca. Depois da construção da capela de Santa Luzia, passaram a ser enterrados nessa ou em lugares próximos a capela. Por essa razão, o local escolhido por Frei Agostinho para a construção do pequeno cemitério foi exatamente os fundos da capela, próximo a onde se encontra hoje o Mercado Público Central.

Já em 1869 o vigário Antônio Rodrigues de Carvalho, que era o pároco local, entendeu que apesar da boa intenção do seu irmão Frei Agostinho, o local não era muito adequado para servir de cemitério, pois ficava muito próximo das casas e o terreno era úmido. E contando com a ajuda de algumas pessoas locais, escolheu outro local, mais afastado das casas, mais elevado e plano, bem mais coerente para ali descansarem aqueles que dormissem no Senhor.

Ali foi feita a cerca delimitando o local, igual ao que existia anteriormente, e colocado um portão simples na entrada. E para lá foram removidos os restos mortais dos que já haviam sido enterrados por trás da capela.

No ano de 1877 outro frade capuchinho pregava por esta região, que era frei Fidellis. Este, por iniciativa própria e com a ajuda do vigário Antônio Joaquim e do povo local, substituiu a cerca de madeira do cemitério por um muro de tijolos, que por sinal ficou muito bem construído, segundo a opinião das pessoas da época. E no cemitério foi construída ainda uma capelinha para celebração de missas e cultos de corpo presente.

Os anos que se seguiram foram de seca (1877 a 1880).

Foi a maior seca que se tem notícia no Sertão nordestino. E milhares de pessoas, vindas não só do Oeste potiguar, mas também da Paraíba e do Ceará, flageladas pela seca, migraram para Mossoró em busca de salvação.

Muitos não conseguiram chegar: morreram pelo caminho. Mas os que chegavam, famintos e doentes, se arranchavam debaixo das árvores, sem nenhum cuidado, sem nada que pudesse amenizar o sofrimento, comendo de esmolas, quando conseguiam alguma. E a mortandade foi muito alta. Morriam à míngua.

Há depoimentos que toda manhã, a prefeitura mandava recolher os cadáveres que se espalhavam pela cidade. E eram tantos que não havia tempo para cavar covas individuais. A solução encontrada foi a de se cavar valas no fundo do cemitério onde eram depositados os cadáveres que iam chegando.

Sobre esses era jogada uma fina camada de areia onde seriam depositados os próximos, até que a vala fosse totalmente preenchida. Não havia identificação de ninguém.

Homens, mulheres e crianças eram enterrados na mesma vala. Foram tantas valas abertas que o pequeno cemitério dobrou de tamanho.

Esse cemitério ficava no mesmo local onde hoje se encontra o Cemitério São Sebastião, no centro da cidade.

Em 1930 a pequena capela existente no cemitério foi reformada e tem como padroeiro São Sebastião. Com o crescimento da cidade o Cemitério de São Sebastião já não atendia mais as necessidades e um novo cemitério foi construído.

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Categoria(s): Cultura / Gerais
domingo - 11/11/2012 - 12:45h

Uma reflexão sobre emancipação, fé e política

Por Marcos Araújo

No último dia 09 de novembro, o calendário municipal registrou um feriado para a comemoração da emancipação política da cidade de Mossoró. Como já restou discutido durante a semana nesse espaço cibernético, a data é controversa para alguns historiadores.

Para Câmara Cascudo e Geraldo Maia, se credita o dia 15 de março de 1852. Para outros, a data correta da emancipação da nossa cidade seria o dia 9 de novembro de 1870, quando o vigário Antonio Joaquim Rodrigues assinou a Lei Provincial n. 620, conferindo à vila as honras de cidade.

Em 1852 ou em 1870, é fato, Mossoró livrou-se do jugo administrativo da província de Assu/RN. Numa data e na outra, um ponto é comum: os dois éditos legais têm a chancela política de um sacerdote. No primeiro, de 1852, a iniciativa é creditada ao padre Antônio Freire de Carvalho. Na lei de 1870, o autor foi o vigário Antonio Joaquim.

Nos atos dos históricos sacerdotes uma comunhão de ideais: a política, a liberdade e a fé, ou melhor, a liberdade política de Mossoró como uma profissão de fé. Os padres, naquela época, se metiam na política, mesmo com uma aparente proibição do Código Canônico.

A história sócio-política da região vai inserir depois outros padres, como Padre Mota e Monsenhor Walfredo Gurgel.

Fazer política, ensinaram os padres antigos, é uma profissão de fé. É um ato de crença objetiva numa sociedade melhor, participando ativamente dela.

Em 1852 ou em 1870, não se emancipou um povoado, mas a população da Vila denominada Santa Luzia. Emancipar, na sua etimologia latina emancipare, é eximir do pátrio poder e da tutela, dar liberdade; é uma ação verbal voltada para gentes, não para construções. Não se emancipa uma cidade ou suas edificações, mas sim, o seu povo, seus habitantes.

O Dicionário Aurélio da Língua portuguesa anota que Emancipação vem do latim emancipatione, que também quer dizer alforria, libertação. Tom Buttomore explicita que o conceito de emancipação está estreitamente relacionado à concepção de liberdade.

A emancipação é a mãe da liberdade. O sociólogo Antonio Gramsci, em seus Cadernos do cárcere, tratou da impossibilidade da emancipação social por causa de um monstro, a quem ele chamava de interesses subalternos, ou grupos subalternos, que seriam os desejos individuais.

Emancipação não admite servidão; nem muito menos escravidão nas suas mais pérfidas faces: alienação política, deseducação, desordem moral, pobreza e desigualdade.

Quando se trata de emancipação política, o pensamento é da libertação de um povo, de uma sociedade. Em sociologia, uma sociedade (do latimsocietas, que significa “associação amistosa com outros”) é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade.

Etimologicamente, viver em sociedade seria dizer que um ser é sócio da metade do outro. Sociedade é a fusão, na esfera pública, das pessoas (sócio+metade). Uma sociedade é uma comunidade interdependente, onde os seus membros compartilham interesses ou preocupações mútuas sobre um objetivo comum.

Seria uma utopia? Teóricos marxistas como AlthusserErnesto LaclauSlavoj Zizek argumentam que a sociedade nada mais é do que um efeito da ideologia dominante. Nem caberia falar de emancipação social, nesse caso…

Se assim o é, vivemos uma luta inglória e irreflexiva de equidistância da ação política com a satisfação social. No individual, queremos muito, no coletivo, pensamos pouco.

A sociedade reclama por verdadeiros ideais como os que motivaram os padres do início desse escrito. Toda a ação política deveria ser em favor do desejo coletivo. Esse deveria ser o nosso credo, essa deveria ser nossa profissão de fé.

Mas, como podemos falar no presente em emancipação sem fazer uma incursão crítica nas atitudes dos nossos gestores públicos? Certamente, só poderemos comemorar a “nossa” emancipação quando o Estado-Poder registrar em sua contabilidade menos pagamentos em contas publicitárias, e mais investimentos na educação; menos pagamentos em diárias, e mais recursos na saúde; menos desvios para as superficialidades festivas, e mais gastos com a segurança; maior proteção a res publica, e menos apropriação privada dos recursos do erário…

A liberdade política de um povo brota dos sonhos que acalentam os seus mandatários. Se a imagem de futuro de uma sociedade estiver grosseiramente equivocada pelas ações políticas do presente, o sistema social acabará por trair os seus jovens e destruir as gerações do porvir.

Uma emancipação verdadeira consolida as instituições sociais. Não admite a subserviência entre uma e outra autoridade.

Talvez seja a época de repensar essa relação de dependência da Igreja com o Estado, e pedir que os nossos líderes evangélicos e católicos prescindam do apoio e dos recursos públicos para consecução de suas festas religiosas, para que eventos de oração não se transformem em cultos de louvaminhas e bajulação.

Precisamos restabelecer uma consciência crítica até entre os chamados cristãos. Outro dia, em Caicó, um padre foi censurado pelo arcebispado e por milhares de católicos por ter cobrado da Governadora uma melhor administração.

Certo ele, pois uma igreja autêntica não subsiste apenas com a oração. Fé sem obras é morta, dizia São Tiago, aquele que morreu em Compostela, na Espanha. Se não tivermos ações sociais dos crentes em Deus, como manteremos a fé?

Todos nós somos edificadores de uma nova sociedade. Os que se lançaram na vida pública são chamados a dar testemunho de um novo agir.

Monteiro Lobato, em uma de suas obras, diz que o ato de começar não é nem um pouco fácil, sendo infinitamente mais simples acabar. Para acabar, diz a personagem Emilia, pinga-se um ponto final e pronto; ou então escreve-se um latinzinho: finis. Mas começar é terrível!

O exemplo dos nossos sacerdotes protoemancipadores Antonio Carvalho e Antonio Joaquim deve estimular aos cristãos do presente. Temos o dom sagrado (sacer – sagrado, dote – dom) de brigar pela liberdade política e social permanente dos nossos habitantes.

Como registrou oportunamente Chico Xavier, embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode (re)começar agora e fazer um novo fim.

Marcos Araújo é advogado e professor

 

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Categoria(s): Artigo
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