domingo - 09/08/2020 - 17:28h
O 'chef' Lampião

Do rústico ao luxo, como era a cozinha do cangaço

Reportagem especial mostra que homens e mulheres do cangaço iam ao fogão, em meio à caatinga

Maria Bonita e Lampião tinham vida rústica, com alimentação própria do sertão (Foto colorizada por Rubens Antônio)

Por Adriana Negreiros (para o Nossa – UOL)

Dois dias antes de morrer, na tarde de 26 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, fez uma lista de compras para a temporada que pretendia passar no acampamento na grota de Angico, a cerca de mil metros da margem sergipana do Rio São Francisco. No lado oposto, já no estado de Alagoas, funcionava uma das mais sortidas feiras da região, na linda cidade de Piranhas — localidade que, em 1859, recebeu a visita do então imperador Dom Pedro II.

Entre os itens que constavam da lista havia arroz, feijão, carne seca, farinha, sal, rapadura, frutas e muita, muita bebida. Coube a um jovem de sua confiança, o coiteiro Pedro de Cândido — que, mais tarde, mediante tortura, denunciaria a localização do grupo para a polícia — providenciar o abastecimento.

Como a lista era comprida, serviu-se de um jegue tão logo chegou a Piranhas.

Equipou-o com dois cestos presos à cangalha e lotou-os de mantimentos. Horas depois, Lampião recebia, no conforto de sua barraca, os produtos que compunham a dieta básica dos cangaceiros.

Comida de viagem

Em épocas de deslocamentos, cangaceiros alimentavam-se, basicamente, de carne de sol e farinha. Conservada no sal, a carne resistia às altas temperaturas. Os produtos eram adquiridos nas feiras das pequenas cidades, ocasiões em que Lampião, segundo consta, pagava os preços cobrados pelos comerciantes, sem pechinchar — o choro por um desconto, prática habitual nestes comércios ao ar livre, era evitado por Virgulino.

As compras ficavam guardadas nos bornais, as bolsas típicas dos bandoleiros que até hoje inspiram estilistas. A água, mais difícil de transportar em grandes quantidades, era extraída das raízes do umbuzeiro, típica da caatinga, tida por alguns sertanejos como uma espécie de árvore sagrada. Nos acampamentos, quando havia a oportunidade, abatia-se animais para o consumo de carne fresca.

Bodes estavam entre os preferidos dos integrantes do grupo. Na véspera da chacina de Angico, na qual seriam mortos Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove cangaceiros, o almoço consistiu de dois bodes assados — e enormes quantidades de cachaça.

Cabra macho na cozinha

Entre os cangaceiros, a culinária não era uma tarefa tida como essencialmente feminina — aqueles eram os anos 30, uma época em que poucos homens frequentavam a cozinha. Mas Lampião e seus súditos estavam habituados a preparar suas próprias refeições desde quando tocavam o terror pelo sertão sozinhos, sem a companhia das mulheres.

De forma geral, após a entrada das cangaceiras no bando, cabia a eles caçar os bichos e, a elas, lavar e temperar. Os cabras reassumiam o serviço no momento de levar as carnes ao fogo.

Bandos evitavam fazer fogueiras à noite e restos de alimentos eram enterrado para despistas volantes (Foto colorizada)

Para não chamar a atenção das forças volantes — os comandos de caça aos cangaceiros — o preferível era cozinhar à luz do dia. Uma fogueira em meio à escuridão poderia denunciar a localização do grupo.

Os bandoleiros também agiam assim porque, após a refeição, ainda haviam de lidar com um trabalho ingrato — abrir profundos buracos no chão para enterrar vísceras, ossos e pele dos animais abatidos. O objetivo era não atrair urubus — o voo das aves agourentas também poderia entregar o ponto exato do esconderijo.

Passarinho ao vinho

Havia ocasiões em que alguns cangaceiros cuidavam de todo o processo. Quando o pouso era confortável — por exemplo, nas fazendas dos coronéis aliados dos cabras — Lampião fazia as vezes de um chef de cuisine.

Quem experimentou assegura que o passarinho ao vinho, uma de suas especialidades, era iguaria de não deixar nada a dever aos melhores chefs da Europa — de onde vinham, inclusive, alguns dos itens mais apreciados pelo cangaceiro, como uísques e perfumes a ele ofertados por políticos e coronéis do nordeste.

Sob nenhum ponto de vista, portanto, o cangaço — fenômeno social complexo e cheio de ambiguidades — comporta uma leitura maniqueísta, da luta entre o bem e o mal. Nem mesmo na gastronomia.

* As fotografias que ilustram esta matéria são, originalmente, todas em preto e branco. Elas ganharam cores pelas mãos do artista e geólogo Rubens Antônio, de Salvador, por meio da colorização digital.

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Categoria(s): Gerais / Reportagem Especial
domingo - 22/09/2019 - 10:32h
Polêmica

Oito décadas depois, morte de Lampião ainda causa debate

Cerco a cangaceiro em 1938, em Sergipe, é marcada por muitas versões e uma discussão interminável

Por Raíssa França (BBC News Brasil)

Mais de oito décadas se passaram, e a história ainda não chegou à conclusão de como Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi morto. O debate ainda rende entre pesquisadores do cangaço e segue longe de um consenso sobre como se deram os últimos suspiros de Lampião. Há até mesmo quem duvide de sua morte.

Uma novidade trouxe mais elementos a um debate que parece não ter fim. Trata-se de uma perícia feita nas roupas e objetos que estavam com Lampião no dia da emboscada policial na grota do Angico, sertão de Sergipe, em 27 de julho de 1938. Após as mortes, as cabeças de Lampião, sua esposa Maria Bonita e outros cangaceiros foram cortadas e expostas ao público como troféu no Recife.

Perícia pedida por historiador deu mais detalhes sobre morte de Lampião (no centro) em 1938 (Foto: Benjamin Abrahão)

As peças estavam guardadas intocáveis até então no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas – como a operação que caçou o cangaceiro na caatinga foi feita pela Polícia Militar do Estado, Alagoas herdou o material e o guarda como relíquia até hoje.

A análise foi feita pelo perito Victor Portela, do Instituto de Criminalística de Alagoas. A BBC News Brasil teve acesso ao documento inédito, datado de 19 de julho de 2019, que atesta que Lampião teria recebido três tiros.

Mas a morte do rei do cangaço apresenta teses e mais teses. Uma delas é que Lampião e o bando foram envenenados antes do tiroteio, e que a polícia disparou contra o grupo já morto. Há quem defenda que o rei do cangaço não morreu em Angico, mas, sim, um sósia – o verdadeiro cangaceiro teria morrido com 100 anos em Minas Gerais.

“Se quiser, conto as duas mil teses que existem sobre a morte”, brinca o historiador e jornalista João Marcos Carvalho, autor do documentário ainda inédito Os Últimos Dias do Rei do Cangaço. Foi ele quem pediu ao perito alagoano uma análise das peças, que deve reabrir um debate que parecia ter encontrado seu fim no ano passado, quando o escritor Frederico Pernambucano de Mello publicou livro Apagando Lampião.

Segundo perícia, tiro acertou o punhal usado por Lampião e foi desviado para a região umbilical (Foto: Ingryd Alves)

Na publicação, o pesquisador do cangaço afirma que Lampião morreu com um único tiro disparado a oito metros de distância pelo cabo Sebastião Vieira Sandes. A versão ainda diz que o tiro certeiro foi dado de fuzil, conforme relatado pelo próprio policial alagoano autor do disparo – que o procurou quando estava com doença terminal em 2003 para revelar o que seria o maior segredo.

Debate

Para Carvalho, a tese de Frederico está errada. Ele diz que Lampião foi morto pela polícia em uma emboscada e estava com outros integrantes do grupo quando foi surpreendido.

Em busca de mais detalhes sobre o enigma da morte do cangaceiro, Carvalho pediu um laudo ao perito alagoano. “Procurei o perito Victor Portela e solicitei a análise daqueles objetos que estavam guardados e nunca tinham sido mexidos”, explicou.

Victor Portela analisou roupas e objetos que lampião portava quando foi morto no sertão sergipano (Foto: Ingryd Alves)

À BBC News Brasil, o perito disse que de imediato aceitou a missão. Ainda em 2018, ele iniciou a análise no punhal, nas cartucheiras e nos bornais (tipo de bolsas usadas pelo cangaço) de Lampião. Segundo ele, foram percebidos pontos de impacto e perfurações nos materiais utilizados.

O laudo de Portela diz que foram três tiros. O primeiro deles acertou o punhal, e a bala acabou desviada para a região umbilical; outro atravessou a cartucheira – que era utilizada no ombro – e atingiu o coração; e o terceiro atingiu cabeça.

Para o perito, é impossível saber qual dos tiros – ou se a combinação deles – matou Lampião. Mas ele destaca que sua experiência como perito aponta um dado controverso das teorias até então: os disparos no peito e na barriga não matariam o cangaceiro instantaneamente.

“Ele poderia morrer alguns minutos depois pelo sangramento. Só o tiro na cabeça o mataria rápido, mas não temos como dizer a cronologia dos disparos”, explicou.

Um dos pontos novos apresentados no laudo veio da análise dos bornais feitos por Dadá (famosa cangaceira do grupo), que tinham duas marcas de tiros. João Marcos crê que Lampião não teve tempo de vesti-los no momento do tiroteio. “Quando o bando chegou à grota, o local não estava em um silêncio de catedral. Lampião estava vestindo a cartucheira, o punhal e tomou os tiros ali. Não deu tempo de ele vestir os bornais”, explicou.

Perícia também analisou bornais (bolsas usadas pelo cangaço) de Lampião (Foto: Ingryd Alves)

Portela concorda com o jornalista e historiador, revelando que a perícia mostrou que os tiros foram dados de cima pra baixo, e que os bornais não tinham marca de sangue. “Ficou uma incógnita com relação aos bornais, mas quando fiz a sobreposição das cartucheiras com os bornais, vi que não há compatibilidade com nenhum dos disparos”, afirmou.

Neta rechaça ideia de um tiro

Vera Ferreira, neta de Lampião, disse à BBC News Brasil acreditar que a perícia recente sustenta a teoria mais correta a respeito da morte do avô.

Ferreira não acredita na versão de tiro único, nem de envenenamento, muito menos de que seu avô sobreviveu e morreu em Minas Gerais. “Quando o corpo do meu avô foi periciado, apontou-se três tiros”, disse.

Questionada sobre a versão de que o cabo Sandes ter matado o avô, Vera afirmou que não é possível saber quem matou Lampião.

“Quem deu o tiro de misericórdia? Imagine várias pessoas atirando ao mesmo tempo, o mesmo alvo, ninguém sabe”, completou.

O ‘julgamento’ de Lampião

Além da polêmica da forma da morte, a história de Lampião também levanta o questionamento: herói ou bandido? Matar Lampião era um desejo das autoridades brasileiras desde a segunda metade da década de 1930. A ordem foi dada pelo então presidente Getúlio Vargas.

Atendendo a pedidos de políticos nordestinos, ele impôs uma longa caçada ao bando.

Neta de Lampião, Vera Ferreira rebate tese de que cangaceiro morreu com apenas um tiro (Foto: Ingryd Alves)

Um seminário marcado para 2020, em Piranhas, sertão de Alagoas, vai levar as teses da morte e “julgar” se Lampião era herói ou bandido. “Existem aqueles que defendem que Lampião era bandido, mas alguns dizem que o cangaceiro era uma vítima da sociedade. Vamos analisar isso”.

O júri será composto por promotores, juízes, advogados e os historiadores, aos quais serão apresentadas as versões, casos e opiniões.

O perito Victor Portela também contou que na ocasião será apresentado o laudo. “Vamos utilizar a perícia para excluir teorias que não são compatíveis com os fatos que foram levantados. Vamos filtrar e excluir teorias que realmente não batem”, disse. “Além do julgamento queremos posteriormente fazer uma análise no local com reprodução simulada para ver os pontos de impacto no local”, disse.

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Categoria(s): Reportagem Especial
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