domingo - 24/08/2025 - 05:00h

Eternos momentos

Por Odemirton Filho

Criança e avô caminham na praia - Imagem ilustrativa com recursos de Inteligência artificial para o BCS

Criança e avô caminham na praia – Imagem ilustrativa com recursos de Inteligência artificial para o BCS

Na semana passada fui à praia com o meu primeiro neto. Foi a segunda vez que ele viu o mar, e parece que gostou. É ainda um bebê, começando os dias de sua vida. Sentado na areia com os seus pais, ele sorria, olhava o mar, as ondas quebrando, pegava na areia; a brisa batendo em seu pequenino rosto.

Eu o olhava, de longe, apreciando esse momento tão singelo, de descobertas. E pensei no junho de minha vida. Vi-me na areia, fazendo castelos, brincando com os carrinhos. Eu estava a jogar bola com o meus primos e amigos, tomando banho de mar, desbravando o morro do labirinto.

Não sei se o meu neto continuará gostando de ir à praia, no entanto, espero que possa acompanhá-lo nessa jornada, e possamos jogar bola. Formaremos uma pequena trave, com chinelos. Ele, então, fará gols. Sorrirá. Depois, mergulharemos no mar; pegaremos “jacaré”; banharemos nossos corpos, sobretudo a alma, afastando mau-olhado.

Esperaremos as jangadas que aportarão à beira-mar e compraremos peixes. Vamos nos lambuzar saboreando picolés de chocolate. Caminharemos até a pedra do Ceará, recolhendo as conchas que embelezam a praia (as grandes, levaremos ao ouvido para escutar o barulho do mar, o fenômeno da reverberação), e afundaremos os nossos pés na areia, em ensolaradas tardes de fluxo e refluxo da maré.

Tudo isso, é claro, sob o olhar carinhoso e atento dos seus pais.

Na casa dos seus bisavós, ele vislumbrará uma linda paisagem; um mar azul, um lindo coqueiral. Na linha do horizonte, verá o Porto-ilha, que leva o nome do seu trisavô. O alpendre da casa será palco de redes armadas, onde se joga conversa fora, e se toma café coado, com bolo, grude e tapioca.

Na adolescência, talvez, ele não queira ir à praia comigo. Decerto, preferirá a companhia dos amigos e amigas, iniciando as paqueras, “as ficantes”, os namoros, na “vibe” dos doces anos da juventude. Pena que não curtirá as festas do Creda e a escadaria de Zé Félix.

Por isso, tento aproveitar esses eternos momentos, fazendo-os inesquecíveis, singulares.

Lembrei-me do poeta paraibano Ronaldo Cunha Lima, no seu livro de sonetos, Sal no rosto:

“Quando os meus filhos disserem aos meus netos o quanto eu os amava; e quando os meus netos disserem aos meus filhos que guardam lembranças minhas, e de mim sentem saudade, não terei morrido nunca:

Serei eternidade”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/12/2017 - 02:28h

As escadarias de Zé Félix

Por Odemirton Filho

O veraneio em Tibau se aproxima. Lembranças daquele tempo. A nossa infância e juventude são marcadas por momentos, alegres e tristes, pitorescos, que afloram na nossa mente. É o passado que sempre assalta o presente, na vã tentativa de resgatá-lo.

Na infância, as ruas não eram pavimentadas, pisávamos na areia, descalços, sem compromisso de formalidade ou de vestimenta adequada. Livres, leves e soltos, como se diz. As moças não tinham no rosto as maquiagens, eram simples, também bonitas. Os rapazes sem cultuar os músculos ou seus corpos. Somente éramos.

Pela manhã, íamos à praia sob um sol escaldante, ficávamos horas a fio, sem medo do bronze. O picolé barato, de morango, derretia em nossas mãos. À tarde, no alpendre das casas, esperávamos o “gelé” e o grude, que logo passavam, regado a café.

No fim da tarde o morro de areias coloridas era o nosso parque de diversões. Com amigos e primos brincávamos, atirando pedra de areia uns nos outros. Era o labirinto. Nos escondíamos e voltávamos sujos, mas alegres.

Na adolescência eram as festas no Creda, clube do português Patrício, no qual as paqueras e namoros se desenhavam, sem compromisso. Brigas? Quase não existiam, um ou outro amigo mais afoito, que logo conseguíamos acalmar.

Mas, eram nas escadarias de Zé Félix que tudo acontecia. Paqueras, conversas, bebedeiras.

O vai e vem dos carros na rua principal era, como se diz, o “point” da galera. A juventude se encontrava e marcava para depois tomarem outro rumo. Todos estavam ali. O comerciante, no seu jeito de atender os clientes, era respeitado. Não se ousava desafiá-lo.

Hoje, o ponto de encontro mudou, é na entrada da cidade. Paredões de som disputam entre si, na tentativa de impressionar. O medo e a insegurança, marca atual do RN, pairam sobre cada um.

Os alpendres já não são seguros. O grude e o “gelé” quase não se encontram. A escadaria de Zé Félix está silenciosa. O Labirinto foi destruído pelo  crescimento da cidade. O Creda já não promove suas memoráveis festas. Do álibi se extrai pouco som.

Ressalte-se, por fim, que não são críticas à realidade atual. São lembranças. Cada época tem a sua magia e suas saudades.

Em cada recorte da vida temos momentos que nos marcam.  A vida são saudades.

Que venha o próximo ano! Traga-nos paz.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
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