Por Marcos Ferreira
Mal acompanhado. É dessa forma (nos períodos de crise) que respondo ao escritor Clauder Arcanjo quando ele me liga e pergunta como estou. Explico o que isso quer dizer. Trata-se da presença indesejável da enxaqueca. Esta última visita, que nunca é a derradeira, foi longa e penosa. Durou a semana quase toda. Começou na terça e teve fim apenas com o pôr do sol da sexta, cansada de me fustigar.
Depois do vômito e da cabeça zonza, falei com os meus botões: “Vou colocar um ‘atestado médico’ no blogue do Carlos Santos, requentar um pão dormido. Quem sabe até um daqueles sonetos com cheiro de naftalina. Aí ficarei de molho mais uns dias. Aproveito e também dou uma folga ao meu sofrido notebook”. O que?! Ledo engano! Sabendo que meu encosto latejante tinha pegado o beco, Natália rasgou o “atestado”: “Deixe de moleza. Ainda dá tempo. Cuide de escrever a crônica do domingo. Não invente de mandar texto que já foi publicado! O pessoal não gosta, espera por coisa nova”. Até que na tarde de ontem, pelo WhatsApp, me chega este lembrete:
— Arremesse a crônica. Estou no aguardo.
— Positivo, meu Editor. Falta só a revisão.
Mentira! Eu não havia escrito uma linha sequer. “Deixe de moleza”. Dissera Natália. Como percebem, transformei fraquezas em forças e tirei leite de pedra. Mas nós sabemos que nem sempre tal façanha é possível. De qualquer jeito, mesmo com um travo de dipirona, estou de volta às palavras. Nada de fazer corpo mole. Sem essa de pão dormido. “O pessoal não gosta, espera por coisa nova”.
Concordo. Tantos bons autores, chovesse ou fizesse sol, abraçaram o compromisso de escrever uma crônica todo santo dia. Como fizeram, entre outros, Dorian Jorge Freire, Otto Lara Resende, Rubem Braga e Antônio Maria. Aqui pertinho, no Jornal de Fato, temos o José Nicodemos, verdadeiro artista da crônica. Ele não deixa a peteca cair, escreve cotidianamente, sem requentar pão dormido.
Penso nos que empregam alguns minutos do seu tempo na leitura do que escrevo. Fico feliz. São leitores daqui e de longe. Rostos conhecidos e outros que nunca vi.
Esse vínculo, essa conexão por vezes tão remota, é algo que faz tudo isso valer a pena. Assim, principalmente quando a enxaqueca é derrotada pelo saco de pancadas, é necessário retirar o leite da pedra e oferecer um pão bem novinho.
Marcos Ferreira é escritor