Por Eriberto Monteiro

Edy Lemos em 1976 encantou plateia e ganhou premiação de “A mais bela voz” (Foto: Acervo do artista)
Algumas fotografias têm o poder de nos fazer viajar no tempo, trazendo à tona acontecimentos que marcaram a vida de pessoas e ajudaram a construir a memória de nossa cidade. É o caso da imagem inicial que acompanha esta publicação, registrada em 26 de dezembro de 1976, durante uma disputa musical realizado em Mossoró, no já popular concurso mossoroense ‘A mais bela voz”.
Naquela manhã, um garoto de apenas 12 anos, movido pelo talento e pelo sonho de se tornar cantor, conquistava uma importante premiação que marcaria o início de uma trajetória artística de reconhecimento e muitas realizações. Seu nome: Edmilson Lemos, que mais tarde se tornaria conhecido artisticamente como Edy Lemos.
A imagem com autoria indefinida, gentilmente cedida pelo próprio artista, registra um momento especial de sua trajetória. Nela aparecem, da esquerda para a direita, Monsenhor Américo Simonetti, Renato Severiano e o jovem Edy Lemos.
Em conversa via rede social, Edy recorda:
“Era 26 de dezembro de 1976. Eu tinha apenas 12 anos. Eram 9h30 da manhã e o Clube ACEU, em Mossoró, estava completamente lotado. A expectativa era enorme. Participavam daquele acontecimento representantes de 27 municípios das regiões Oeste, Centro-Oeste e Seridó do Rio Grande do Norte. A banda Elo Musical preparava os primeiros acordes para dar início às apresentações. Sobre o palco, uma mesa ornamentada com troféus, galardões e medalhas destinados aos três primeiros colocados anunciava a importância da competição. A comissão julgadora era formada por oito integrantes. Eu estava ali, ainda menino, carregando comigo um sonho que alimentava desde muito pequeno: tornar-me cantor. Naquela manhã, interpretei a canção ‘A Noiva’, conhecida na voz de Agnaldo Timóteo. Foi um momento inesquecível. O Clube ACÉU veio abaixo em aplausos, vivas e manifestações de entusiasmo. A emoção tomou conta de mim. Para minha felicidade, conquistei a primeira colocação como Voz do Oeste e também o primeiro lugar no concurso A Mais Bela Voz de 1976. Recebi o tão desejado Troféu Sabiá, trazido pela irmã Amábilis e pelo padre Roque Schneider.”
Imagino a emoção daquele menino diante de uma plateia entusiasmada, recebendo o reconhecimento por algo que, até então, parecia pertencer apenas ao universo de seus sonhos e dos adultos.
Aquela conquista representava muito mais que um troféu. Era a confirmação de que o talento, quando acompanhado de perseverança, poderia abrir caminhos até então inimagináveis.
O tempo passou, mas a voz daquele menino continuou encontrando novos caminhos, pois com uma potência vocal admirável, afinação marcante e grande capacidade interpretativa, Edy Lemos construiu uma trajetória artística que ultrapassou as fronteiras brasileiras.
Sua carreira ganhou projeção também no exterior, especialmente em Portugal, onde residiu por muitos anos e soltou a voz em incontáveis palcos, com expressiva repercussão.
Segundo informações compartilhadas pelo próprio artista, seu trabalho chegou a mais de 100 países. Entre suas realizações, destaca-se a canção “Conceição, nome de santa”, que, conforme seu relato, alcançou a marca de mais de 80 mil cópias vendidas somente na terra de Camões.
Sou admirador de Edy Lemos há muitos anos. Sempre me impressionaram sua potência vocal, a segurança de sua afinação e, sobretudo, a maneira como consegue transmitir sentimentos por meio da música. Ele possui uma daquelas vozes que não passam despercebidas. Uma voz que emociona, que marca e que permanece guardada na memória de quem a escuta.
E digo não somente como forma de tietagem. Existe algo particularmente emocionante nessa composição. Trata-se de uma homenagem à sua mãe, dona Maria da Conceição que não ganhou apenas o mundo como também a minha admiração e da minha querida mãe, Ivanilde Zirca, conhecida carinhosamente como Nenenzinha. É justamente nesse ponto que a história de Edy Lemos encontra uma lembrança muito especial da minha própria vida.
Sempre que tenho oportunidade, faço questão de cantar e tocar essa música para minha mãe, num momento singelo, mas carregado de um significado que dificilmente poderia ser traduzido em palavras. Nessa ocasião, a música deixa de ser apenas uma combinação de notas e melodias. Transforma-se em carinho, lembrança, gratidão e afeto.
É bonito e importante perceber como uma composição nascida do amor de um filho por sua mãe consegue atravessar distâncias e encontrar abrigo no coração de outras famílias.
Entre outras lembranças que guardo com satisfação dele está uma experiência vivida em 2013, durante um dos festejos da Paróquia de São João Batista, em Mossoró.
Naquela oportunidade, tive o privilégio de participar de um momento musical ao lado de Yatagã Menezes, acompanhando Edy Lemos em duas canções.
Para alguém que sempre admirou seu talento, participar daquela apresentação representou uma experiência particularmente gratificante e a realização de um sonho.
Não se tratava apenas de estar próximo de um artista consagrado, mas de compartilhar, ainda que por alguns instantes, a linguagem universal que tanto nos aproxima: a música.
Guardo também, com especial carinho, um CD intitulado “Tributo à Voz”, que integra minha coleção pessoal. O exemplar possui uma dedicatória escrita de próprio punho pelo cantor e compositor: “Com carinho a Eriberto e Meyry – Edy Lemos.”
Aqui cabe uma pequena observação, dessas que dão um tempero especial às nossas lembranças. Na dedicatória, Edy Lemos escreveu o nome de minha esposa, Meire, como “Meyry”. Imagino que tenha sido uma espécie de licença poética, afinal, ele como artista tem dessas liberdades criativas. E minha esposa, por obra e graça do talento artístico de Edy Lemos, ganhou um nome de aparência internacional. Esse encarte é uma dessas pequenas preciosidades que guardo não apenas em minha coleção, mas também na memória afetiva.
E voltando aos palcos da vida de Edy Lemos, sua carreira e trajetória estão nas lembranças de sua infância humilde, quando o sonho de cantar começava a ganhar forma. Muito antes dos palcos reais, dos aplausos, dos troféus e das apresentações internacionais, existia apenas um menino, uma voz e a vontade imensa de ser ouvido.
O próprio Edy Lemos recorda esse período com palavras que dispensam qualquer complemento:
“Um dia sonhei que queria ser cantor. Subi para os últimos galhos das cajaraneiras do quintal da minha humilde casa. Cantava alto para que a vizinhança ouvisse a minha voz. Eles aplaudiam e eu via e sentia, daquele palco, a minha plateia feliz.”
A imagem de um menino no alto de uma cajaraneira, transformando os galhos de uma árvore em palco, sem refletores, sem microfones, sem estruturas. Os vizinhos em plateia, sua voz, o sonho e a felicidade de cantar mostra como ele iniciou toda sua trajetória.
Ali havia algo que nenhum palco grandioso poderia oferecer: a pureza de um sonho nascendo. E é justamente essa imagem que mais me emociona na trajetória de Edy Lemos, pois, antes de conquistar troféus, plateias e reconhecimento, ele já havia conquistado algo essencial: a certeza de que cantar era o seu destino.
E talvez aquele garoto ainda não pudesse imaginar que, anos depois, sua voz atravessaria o oceano e encontraria ouvintes em terras distantes e fãs aqui mesmo em sua terra natal.
Hoje, ao revisitar aquela fotografia de 1976, que registra o menino de 12 anos cantando e recebendo sua merecida premiação, não vejo apenas os primeiros passos de uma promissora carreira musical. Vejo também um importante capítulo da história cultural de Mossoró, que se entrelaça com minhas próprias lembranças, afinal, tive a satisfação de compartilhar ele musicalmente em duas canções. E, como testemunho desse carinho e admiração, guardo em minha coleção um mimo com uma dedicatória escrita de próprio punho pelo cantor.
São registros de épocas diferentes, mas unidos pelo mesmo sentimento de reconhecimento e apreço por um talento que nasceu em nossa terra e conquistou outros horizontes. Para mim, preservar essas lembranças é também uma maneira de valorizar a trajetória de Edy Lemos e contribuir para que sua história permaneça viva na memória cultural mossoroense, pois, os grandes sonhos nem sempre começam nos grandes palcos.
Às vezes, começam no alto de uma árvore, embalados pela voz de um menino e pelos aplausos generosos de seus vizinhos.
E foi assim que Edy Lemos começou a cantar para o mundo e conquistou minha admiração e de milhares de amantes da música.
Eriberto Monteiro é escritor, pesquisador e um dos administradores da página do Facebook Mossoró do passado











































