domingo - 30/08/2015 - 08:56h

A nascente de Ti’Orácio

Por François Silvestre

(Para Orlando Martins)

As noites do Carnaubal, escuras como breu no novilúnio, nos assustavam. E se ouvia o esturro da onça, que vinha das bandas do Queitatu de Pedro Martins. Negação da luz do plenilúnio. Os chocalhos das vacas de leite nos enganavam o medo.

Na manhã, o cheiro do curral nos invadia. O leite mugido. Cada um de nós com sua caneca de ágata, devidamente abastecida de açúcar. De uma vaca com tratamento especial. A única com o úbere banhado de água e sabão. Ordenhada por Paulo de Catarina, que também enxaguava as mãos. Ordem do Pe. Alexandrino.

O restante do leite seria tratado na fervura. Parte para o uso diário e coalhada e a porção maior para o queijo. O queijo, de manteiga ou coalho, era a única renda da fazenda. Vendido para feirantes, que vinham aos Domingos.

O queijo de coalho tinha fácil feitura. No leite, era posto um coalho de mocó. Após coalhar, ia para um saco, que se pendurava num caibro para escorrimento do soro. No dia seguinte, a coalhada escorrida passava por um cozimento no próprio soro.

Depois de salgada era colocada num chincho, onde se ia banhando com soro fervente e imprensado com as mãos, até que a massa do queixo ficasse o mais seca possível. Quanto mais enxuto, melhor o queijo.

“O queijo de manteiga tem ciência”, dizia Sergina. Só ela merecia a confiança de Paulo para fazê-lo. O leite é coalhado pelo soro da coalhada anterior. Depois, a coalhada escorrida é cozida no leite e espremida nas mãos.

Após isso, estando ela bem seca, será cortada, salgada e levada a um tacho que repousa numa trempe de fogo brando. Nisso, tem-se que observar a temperatura do leite, a quentura do tacho e o espalhar da coalhada na manteiga. Com uma colher de pau, de cabo longo.

O queijeiro vai reduzindo ou aumentando o fogo. Depois pondo a manteiga, na medida em que o queijo vai pedindo. Até que ele começa a devolver a manteiga, informando que chegou ao ponto. Só aí é que vai para o chincho.

Voltemos ao leite mugido. Cada caneca era entregue a seu dono com a espuma sangrando nas bordas. Com a observação de Paulo: “beba tudo pra soltar o vento”.

Era a função laxante. Ti’Orácio sofria de uma crônica prisão de ventre, que o infernizava por toda a vida. Menos numa época. Quando da parição das vacas, em Cajuais. Nos primeiros quinze dias, o leite só serve para os bezerros. É o colostro. Um líquido amarelado e grosso que previne doenças nos mamíferos recém-nascidos, para cada espécie.

O colostro de vaca, para o ser humano, é um purgante violento. Era o que queria Ti’Orácio. Após uma caneca de colostro, corria para um serrote de pedras e despachava o guardado.

Era a nascença da caganeira a fazer um córrego de alívio. A política brasileira é o intestino de Ti’Orácio; só funciona  na mamação da bezerrama.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. naide maria rosado de souza diz:

    Paulo tinha motivos para confiar em Sergina: ” O queijo de manteiga tem ciência.” Muita ciência, mesmo.
    O asseio do úbere da vaca, recomendação perfeita de Pe. Alexandrino.
    O colostro, célebre colostro, conhecido por mim e por quase todas as mulheres. Quando meus bebês nasciam, ficava aflita por não ver fluir leite de meus seios…só colostro, por alguns dias. Aflita, recorria ao pediatra que afirmava não ter motivo para preocupações. O colostro era tudo de bom. E era.
    E saio aprendendo que ” O colostro da vaca, para o ser humano, é um purgante violento.” Salve, Ti’Orácio. Sim, vale a comparação com a política brasileira.
    Ótima crônica.

  2. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Mais uma bela história/descritiva do existencialismo vivenciado pelo impagável François Silvestre.

    Tal e qual a flor que, em plena manhã da natureza mãe se abre a espera das abelhas em seu porvir polinizador. François semanalmente nos abre a perspectiva e nos presenteia com suas crônicas a voar teluricamente, a nos envolver e nos impregnar do sonho, da fantasia e da realidade histórica e cultural da nossa sofrida terra e poética caatinga nordestina.

    Ler François Silvestre me faz lembrar o poeta amazonense, cidadão do mundo Thiago de Melo em sua obra telúrica e maviosa obra, tal e qual um mágico tapete dos sonhos e da esperança do homem no próprio homem seu porvir, denominada ESTATUTO DO HOMEM.

    François, com a magia e a força que só a palavra escrita pode decretar, nos decreta que dominicalmente leremos sempre e sempre os eus escritos até o seu Inté….!!!

    Sem nenhum cabotinismo, sempre e sempre repito que não seio ler, falar e (ou) escrever, porém, tento todos os dias, sobretudo no afã de errar menos , e, para isso comumente me valho, me presenteio e tento presentear aos outros com belos escritos. Assim peço vênia para transcrever Thiago de Melo em seu belo e majestoso Estatuto Do Homem, vejamos:

    Thiago de Mello: Os Estatutos do Homem (Ato Institucional…

    Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
    A Carlos Heitor Cony

    Artigo 1
    Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira;

    Artigo 2
    Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, tem direito a converter-se em manhãs de domingo;

    Artigo 3
    Fica decretado que a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança;

    Artigo 4
    Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem, que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu; parágrafo único, o homem confiará no homem como um menino confia em outro menino;

    Artigo 5
    Fica decretado que os homens estão livres do julgo da mentira, nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem armadura de palavras, o homem se sentará a mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa;

    Artigo 6
    Fica estabelecida durante dez séculos a pratica sonhada por Isaías que o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora;

    Artigo 7
    Decreta e revogada, fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraudada da alma do povo;

    Artigo 8
    Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá a planta o milagre da flor;

    Artigo 9
    Fica permitido que o pão de cada dia que é do homem o sinal de seu suor, mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura;

    Artigo 10
    Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida o uso do traje branco;

    Artigo 11
    Fica decretado por definição que o homem é o animal que ama, e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã;

    Artigo 12
    Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com imensa begonia na lapéla; parágrafo único, só uma coisa fica proibida, amar sem amor;

    Artigo 13
    Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar um sol das manhãs de todas, expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de tentar e a festa do dia que chegou;

    Artigo Final
    Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será subrimida dos dicionários e do pantano enganoso da dor, a partir deste instante, a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

    Santiago do Chile, abril de 1964.

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

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