domingo - 16/08/2026 - 09:42h

Acidente doméstico

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Dona Raimunda, apoiada por Natália, já bateu o martelo: “Homem, você tem que contratar uma faxineira!” Não é de hoje que recebo esse tipo de conselho, coisa que admito ser necessária. A pressão para que eu adquira uma trabalhadora informal dessa categoria aumentou depois que sofri um acidente doméstico após eu lavar e limpar a casa inteira. Vou contar (talvez de modo sucinto) como aconteceu o acidente. Para início de conversa, informo que o ocorrido foi de natureza grave. A casa, toda limpinha havia pouco, ficou cheia de sangue em vários locais.

Dando a missão da limpeza por concluída, tirei a roupa, cobri-me da cintura para baixo com uma toalha e aí, tendo a impressão de que alguém me chamara no portão, dirigi-me à porta da sala e escorreguei em um pequeno espaço onde ainda ficara um pouco de água com sabão. Foi minha desgraça. Pisei nessa parte da cerâmica e escorreguei, indo com o antebraço direito de encontro ao ferro da portada que recebe o trinco e a lingueta da fechadura. Pois é, amorteci a queda com o antebraço, que sofreu um corte longo e profundo na desgraçada da chapatesta. Descobri que o nome específico daquela pecinha de metal que abriga as duas cavidades da portada é esse: chapatesta. Com um nome estrambótico desses não poderia atrair boa coisa. O couro do antebraço foi repuxado para perto do cotovelo. Fiquei apavorado, claro.

A toalha (digo isto sem nenhum intuito erótico) se desprendeu de minha cintura. Ocorreu-me logo pedir socorro a um vizinho. Antes, obviamente, com o ferimento sangrando, tive que procurar por roupa: uma bermuda e uma camisa. Não me lembrei de vestir cueca. Saí à calçada e avistei o motorista Erinaldo, marido da enfermeira Rucilene. Felizmente o rapaz estava de folga naquele dia e pôde me acudir. Ele envolveu meu antebraço em uma pequena toalha fina e disparamos no carro dele para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alto de São Manoel.

Mantive, durante o trajeto, o braço um pouco para fora da janela, de modo a não sujar o carro com o sangue que já ultrapassava o tecido. Sem pegar fila, fui imediatamente atendido por um jovem médico que se encontrava de plantão, este auxiliado por uma enfermeira também jovem. Apresentando uma falsa tranquilidade, conversei um pouco com os profissionais de saúde, tanto com o doutor quanto com a enfermeira. Durante o breve diálogo, que transcorreu com algumas pausas devido às furadinhas da agulha da anestesia, eu soube que o doutor tinha vinte e três anos, acabara de se formar, e que contava com um mês de experiência na profissão.

No final das contas ganhei onze pontos e afirmo que a sutura não poderia ter sido melhor realizada. O acidente ocorreu no dia 13 de julho, por volta das 17h30. Deixei aquela unidade de saúde pouco antes das 19 horas com o sentimento de ter sido recebido e cuidado de maneira admirável. Após dez dias, recorrendo ao posto de saúde aqui do Conjunto Walfredo Gurgel, perto de minha casa, foi feita a retirada dos pontos e durante esse tempo a troca de alguns curativos foi feita pela manhã no postinho, e também por Rucilene, a esposa do motorista Erinaldo.

Considero relevante mencionar que uma pequena parte do couro do antebraço ficou presa na peça metálica da portada. Sim, houve perda de tecido. Entretanto, graças ao bom trabalho do doutor da UPA, que fez a sutura com bastante competência, mal se percebe esse detalhe da perda de pele. No local ainda se vê um pequeno lombo, que meu amigo doutor Diego Dantas disse tratar-se de um granuloma e que este será, após certo tempo, absorvido pelo próprio organismo.

A cicatriz ficará para sempre. Mas, na sugestão do médico que me atendeu, esse é um ótimo local para uma tatuagem. O doutor disse isso de forma espirituosa. Particularmente, entretanto, prefiro a cicatriz. Sem nenhuma crítica às pessoas que possuem tatuagem, a exemplo do doutor que fez a sutura. Ele tem, ao longo do antebraço direito, a tatuagem de algumas notas musicais. Indagado por mim sobre isso, ele disse que, além de médico, também é músico. Viva a arte!

Morando só há quase duas décadas, admito que não sou mais aquele rapazinho de outrora. Estou quase pegando sessenta anos (tenho cinquenta e seis a esta altura) e já não possuo alguns reflexos e vigor físico. Mais cedo ou mais tarde, portanto, seguindo o conselho da senhora Raimunda e de Natália, vou contratar alguém que faça aqui pelo menos uma faxina a cada quinze ou trinta dias.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Odemirton Filho diz:

    Graças a Deus você está recuperado, apesar do ocorrido. Siga o conselho da senhora Raimunda e de Natália, elas sabem o que dizem.
    Saúde, meu amigo. Cuide-se!
    Abração.

  2. Julio Rosado diz:

    Tudo bem em contratar uma faxineira. Mas creio que essa queda não tem a haver com a ausencia de uma colaboradora.
    Com a idade vamos ficando vulneráveis e suscetiveis a acidentes domésticos. E o pior é que nos achamos infaliveis.
    Boa e rápida recuperação, amigo Marcos Ferreira.

    • Marcos Ferreira diz:

      Pois é, prezado Júlio.
      Em alguns casos, talvez como no meu, ficamos relutantes em admitir certas limitações próprias da idade. Muito obrigado por suas mensagem de solidariedade e estímulo.
      Forte abraço.

  3. Bernadete Lino diz:

    Acidentes domésticos acontecem; ninguém está isento deles. Qualquer descuido num piso liso e molhado, e a pessoa cai. Depois da queda é se cuidar e se precaver pra não cair em outras. Eu já tive quedas diversas; piso molhado eu não arrisco. Em casa não ando descalça; aumenta o risco. Um escorregão e lá se vai o estrago. Contratar uma pessoa para esse serviço, diminui o risco de novos acidentes. Na verdade, ninguém está livre. Precisa prestar atenção e fazer as coisas com calma. Em abril eu tive um dedo do pé, quebrado, numa quina de móvel. Sofri um pouco com as limitações. Agora estou mais atenta. Não se culpe! Você não teve culpa.

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida amiga Bernadete Lino,
      Obrigado por sua atenção e carinho de sempre. Suas mensagens têm muito de carinho e sabedoria. Cada comentário seu é um ensinamento. Uma semana abençoada para você, saúde e paz.
      Abraço!

  4. Francisco Nolasco diz:

    Boa tarde, poeta Ferreira….
    Em piso molhado todo cuidado é pouco!!!
    Agora.pé no freio e recuperação.

    • Marcos Ferreira diz:

      É isso caro poeta Francisco Nolasco.
      Todo cuidado é pouco. Quando a gente nem imagina, amigo, estamos acidentados. Feliz domingo.
      Abraços.

  5. Airton Cilon da Silva diz:

    Nós, que já passamos dos cinquenta, temos que nos previnir de acidentes domésticos, muito comuns
    pra quem mora sozinho. Felizmente não ocorreu nada mais grave. Valeu caro amigo!

  6. Bruno Ernesto diz:

    Boa recuperação, Marcos!

  7. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAUJO diz:

    CARO Marcos Ferreira, que sua recuperação seja breve e integral…

    Mas, não esqueça!

    O peso dos anos o corpo sente e vê
    No equilíbrio do andar e caminhar
    Seja quando da faxina ou mesmo ou atmo do pensar
    No apartamento ou numa casinha de sapê

    Claro, o hábito faz o.monge
    Todavia, nem sempre continuamos
    Mesma força , energia, reflexos e equilíbrio
    Dada a natural/ inexorável queda dos hormônios

    Em fim, corpo de 60 energia de vintenário
    Se revela um pouco de otimismo
    Um pouco força de expressão
    Na busca da comunhão e das expectativas
    Entre idade corpo/mente sã e expressão …!!!

    Abs.
    FRANSUELDO VIEIRA DE ARAUJO.

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