Por Marcos Ferreira
Dona Raimunda, apoiada por Natália, já bateu o martelo: “Homem, você tem que contratar uma faxineira!” Não é de hoje que recebo esse tipo de conselho, coisa que admito ser necessária. A pressão para que eu adquira uma trabalhadora informal dessa categoria aumentou depois que sofri um acidente doméstico após eu lavar e limpar a casa inteira. Vou contar (talvez de modo sucinto) como aconteceu o acidente. Para início de conversa, informo que o ocorrido foi de natureza grave. A casa, toda limpinha havia pouco, ficou cheia de sangue em vários locais.
Dando a missão da limpeza por concluída, tirei a roupa, cobri-me da cintura para baixo com uma toalha e aí, tendo a impressão de que alguém me chamara no portão, dirigi-me à porta da sala e escorreguei em um pequeno espaço onde ainda ficara um pouco de água com sabão. Foi minha desgraça. Pisei nessa parte da cerâmica e escorreguei, indo com o antebraço direito de encontro ao ferro da portada que recebe o trinco e a lingueta da fechadura. Pois é, amorteci a queda com o antebraço, que sofreu um corte longo e profundo na desgraçada da chapatesta. Descobri que o nome específico daquela pecinha de metal que abriga as duas cavidades da portada é esse: chapatesta. Com um nome estrambótico desses não poderia atrair boa coisa. O couro do antebraço foi repuxado para perto do cotovelo. Fiquei apavorado, claro.
A toalha (digo isto sem nenhum intuito erótico) se desprendeu de minha cintura. Ocorreu-me logo pedir socorro a um vizinho. Antes, obviamente, com o ferimento sangrando, tive que procurar por roupa: uma bermuda e uma camisa. Não me lembrei de vestir cueca. Saí à calçada e avistei o motorista Erinaldo, marido da enfermeira Rucilene. Felizmente o rapaz estava de folga naquele dia e pôde me acudir. Ele envolveu meu antebraço em uma pequena toalha fina e disparamos no carro dele para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alto de São Manoel.
Mantive, durante o trajeto, o braço um pouco para fora da janela, de modo a não sujar o carro com o sangue que já ultrapassava o tecido. Sem pegar fila, fui imediatamente atendido por um jovem médico que se encontrava de plantão, este auxiliado por uma enfermeira também jovem. Apresentando uma falsa tranquilidade, conversei um pouco com os profissionais de saúde, tanto com o doutor quanto com a enfermeira. Durante o breve diálogo, que transcorreu com algumas pausas devido às furadinhas da agulha da anestesia, eu soube que o doutor tinha vinte e três anos, acabara de se formar, e que contava com um mês de experiência na profissão.
No final das contas ganhei onze pontos e afirmo que a sutura não poderia ter sido melhor realizada. O acidente ocorreu no dia 13 de julho, por volta das 17h30. Deixei aquela unidade de saúde pouco antes das 19 horas com o sentimento de ter sido recebido e cuidado de maneira admirável. Após dez dias, recorrendo ao posto de saúde aqui do Conjunto Walfredo Gurgel, perto de minha casa, foi feita a retirada dos pontos e durante esse tempo a troca de alguns curativos foi feita pela manhã no postinho, e também por Rucilene, a esposa do motorista Erinaldo.
Considero relevante mencionar que uma pequena parte do couro do antebraço ficou presa na peça metálica da portada. Sim, houve perda de tecido. Entretanto, graças ao bom trabalho do doutor da UPA, que fez a sutura com bastante competência, mal se percebe esse detalhe da perda de pele. No local ainda se vê um pequeno lombo, que meu amigo doutor Diego Dantas disse tratar-se de um granuloma e que este será, após certo tempo, absorvido pelo próprio organismo.
A cicatriz ficará para sempre. Mas, na sugestão do médico que me atendeu, esse é um ótimo local para uma tatuagem. O doutor disse isso de forma espirituosa. Particularmente, entretanto, prefiro a cicatriz. Sem nenhuma crítica às pessoas que possuem tatuagem, a exemplo do doutor que fez a sutura. Ele tem, ao longo do antebraço direito, a tatuagem de algumas notas musicais. Indagado por mim sobre isso, ele disse que, além de médico, também é músico. Viva a arte!
Morando só há quase duas décadas, admito que não sou mais aquele rapazinho de outrora. Estou quase pegando sessenta anos (tenho cinquenta e seis a esta altura) e já não possuo alguns reflexos e vigor físico. Mais cedo ou mais tarde, portanto, seguindo o conselho da senhora Raimunda e de Natália, vou contratar alguém que faça aqui pelo menos uma faxina a cada quinze ou trinta dias.
Marcos Ferreira é escritor
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