domingo - 29/03/2026 - 06:46h

Caminho das pedras

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Volta e meia, coberta de razão, Natália me diz que estes meus escritos estão sem graça. Aqui, obviamente, a palavra graça quer dizer encanto. Estou de acordo. Há um bom tempo não me sinto “inspirado”. Não a ponto de trazer a lume páginas deveras atraentes e com boa carga de literariedade. Admito, pois, que ando assim nesta escrivaninha, vou capengando no gênero da crônica, que é considerado por alguns o patinho feio da literatura, categoria inferior. Exceto, por exemplo, quando se trata de trabalhos assinados por um José Carlos Oliveira, uma Rachel de Queiroz, um Rubem Braga, Ivan Lessa, Otto Lara Resende, Antônio Maria ou uma Clarice Lispector. Aí apenas o nome do indivíduo já confere à página uma aura de coisa benfeita.

Nesses casos, sem o menor vestígio de inveja, digo que a narrativa pode ser medíocre, nada de muito extraordinário. Por essas e por outras costumo falar que nem as ostras produzem somente pérolas. Como qualquer mortal, esses astros e estrelas também deram à luz certas sensaborias. Trata-se, contudo, de escritores admiráveis, de elevado quilate.

Mais uma vez, ratificando o ponto de vista de Natália, pego um rumo, uma temática sem sal, um tema que tem todas as chances de falhar outra vez no tocante à boniteza. Admito que nos últimos meses, fazendo valer a minha autocrítica, já pensei em dar uma pausa, tirar umas férias do BCS — Blog Carlos Santos. A própria Natália, entretanto, é quem diz que não devo entregar os pontos, jogar a toalha. Esta peleja do Diabo com o dono do Céu, segundo ela, tem me feito bem.

Outra vez está correta. Escrever semanalmente estas linhas, ainda que a duras penas, e a anos-luz de um Antônio Maria ou Rubem Braga, representa um exercício de saúde mental. Mas esse tipo de terapia não se trata de algo cem por cento eficaz. Vocês (decerto não todos) viram o que aconteceu com autores célebres como o alemão Friedrich Nietzsche e o brasileiro Lima Barreto. Ambos, embora geniais, fritaram a cuca, caíram nas malhas da loucura.

Mesmo às voltas com a insanidade, feito vários outros artistas da palavra escrita, produziram literatura da melhor qualidade e se tornaram imortais, inesquecíveis, sem a frágil imortalidade de uma academia de letras. Virginia Woolf, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Hilda Hilst e Ernest Hemingway, assim como outros escribas, lutaram (e perderam) contra a esquizofrenia, a bipolaridade, o alcoolismo e a depressão. Todos esses são figuras notáveis, excepcionais.

No que me diz respeito, por mais que não pareça, vivo na corda bamba (sem rede de proteção) de transtornos psicológicos que vou atenuando à custa de remédios psicotrópicos. Há um bocado de anos estou sob os cuidados do Dr. Dirceu Lopes, médico psiquiatra que também se submete a tratamento apropriado para manter um “arco-íris na sua moringa”, como na canção do Paulo Diniz.

Voltando às minhas crônicas, conforme devo reconhecer, as coisas não estão muito bem. Aqui, com uma parcela de enrolação, tento não deixar uma lacuna no elenco que meu editor estampa em seu blogue todo domingo, chova ou faça sol. Então, sustentando a peteca aos trancos e barrancos, sigo o estímulo de Natália, que não deixa de ser a leitora mais exigente que possuo. Estou certo, conhecendo-a como conheço, de que vai torcer o nariz para esta página indiscreta e de brilho fraquinho. Estou certo de que sim. Condenará o fato de seu nome vir à tona em um (sem falsa modéstia) texto medíocre. Ou mediano, para abrandar esta lenga-lenga.

O resto é tão só teimosia. Sabe aquele osso que não largamos por nada? Pois é. Insisto em conhecer o caminho das pedras. As palavras são pedras que vamos encontrando no meio do caminho e com as quais, palavras ou pedras, tentamos edificar nossa escrita. Ainda que isso nos custe a sanidade.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Carlos Santos diz:

    Meu caro Marcos, nem invente de desistir, de parar, esbarrar, estacar, frear. Natália está certíssima. Nós precisamos de você ativo, em versos e prosas.

    Nessa semana apareço em sua casa. Levo bolachas de Sinval; a obrigação do café é sua. Mas acredito que Odemirton Filho, Bruno Ernesto, Marcos Araújo e outros me acompanhem também. Preventivamente, arranje mais cadeiras. A prosa deve esticar do finzinho de tarde à boca da noite. Assuntaremos muita coisa daqui e das lonjuras desse mundão de meu Deus.

    Inté

    • Odemirton Filho diz:

      Meu amigo, Marcos Ferreira. Não nos deixe sem os seus excelentes textos, pois você é o artilheiro do time. O nosso técnico, Carlos Santos, tem razão. Se marcarem um café, farei o possível para estar presente. Uma boa prosa, com amigos queridos, faz um bem enorme. Abração!

      • Marcos Ferreira diz:

        Caro Odemirton,
        Sou seu fã na escrita e na vida. Obrigado, mais uma vez, pelo carinho e incentivo. Será muito bom contar com sua presença nesse cafezinho instigado por nosso Editor Carlos Santos.
        Forte abraço.

    • Marcos Ferreira diz:

      Querido Editor,
      Começarei a semana animado com sua visita e a de outros amigos. É sempre uma alegria quando recebo vocês para um cafezinho e um bate-papo edificante. Fico no aguardo.
      Forte abraço.

  2. Aurineide diz:

    Jamais pense em parar de escrever! Nesse mundo de Hipócritas, precisamos dos seus textos, sempre inteligentes e tocantes! Aqui do meu “cantinho”, mesmo sem interagir, estou sempre “de olho”! Parabéns e, obrigada

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida Aurineide,
      Saudações.
      Fico muito feliz com seu comentário e incentivo aqui no espaço reservado à opinião dos leitores. Um ótimo domingo e uma semana abençoada para você.
      Abraços.

  3. Francisco Xavier diz:

    Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade também produziram ótimas crônicas.

    • Marcos Ferreira diz:

      Tem razão, meu prezado Francisco Xavier. Obrigado pelo comentário e presença aqui neste espaço de informação e cultura. Uma ótima semana para você. Abraço.

  4. Bernadete Lino diz:

    Concordo em parte com Natália; parece-me que você se auto-sabota; entrega menos do que é capaz! Seus textos, mesmo quando enveredam para temas simples, são ricos de conteúdo! Basta procurá-los! Sobre a minha experiência em acompanhá-los, falo por mim. Você pode muito mais do que apresenta. A depressão, essa eu conheço no corpo e na mente, não é compreendida pelo entorno. Se você sofre de pressão alta, diabetes, insuficiência pulmonar ou cardíaca, ninguém lhe cobra responsabilidade nessas doenças. Agora, amigo, todo mundo apita no assunto depressão. Parece que a culpa é da pessoa que está doente. Daí é comum sentir-se culpado e ficar se justificando para o mundo. Aprendi a me preocupar menos ou quase nada com opiniões alheias sobre minhas patologias. Sou eu quem sofre e quem sabe o inferno que é ter um inimigo morando dentro de si. Então, se posso dar palpite, respeite sua dor e procure sair dela. Mas não deixe de escrever! Escrevendo, você põe pra fora os fantasmas que o rodeiam e que enlouqueceram alguns escritores por não conseguirem dar conta de tantos personagens em suas cabeças. Siga, escreva o que lhe fizer bem! Preocupe-se menos com o que pensam do seu trabalho. Seja feliz sendo autêntico! Eu estarei sempre esperando os seus textos, aos domingos.

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida amiga Bernadete Lino,
      Mais uma vez, como em diversas oportunidades, você sempre encontra as palavras que me tocam e encorajam a seguir em frente. É um luxo ter você entre esses leitores que me acompanham e estimulam neste espaço. Bom domingo e uma semana abençoada para você.
      Abraços.

  5. Julio Rosado diz:

    Caro Marcos Ferreira, de antemão aviso que discordo de sua auto-avaliação. Há uma tendência natural, nos escritores, de minimizar antecipadamente a qualidade dos próprios textos. É como que uma carta de seguro às críticas que porventura possam nos magoar. Como disse, é natural. Talvez insegurança em alguns.
    Contudo, afirmo que suas crônicas, em minha visão, trazem profundidade a temas que passariam despercebidos. E sua poesia está presente. Vejo que sua adorada Natália a quem me apresentastes outro dia, tem assumido a difícil missão de avaliar pontualmente a qualidade de seus escritos, mas isto em nada implica a não ser a devoção e o zelo que lhe dedica. Lembre que as ostras produzem pérolas quando provocadas.
    Outra coisa que quero lhe dizer é que, mesmo quando você se alonga nas explanações do característico giz de cera já transforma esta parte da crônica em uma crítica aos pequenos problemas diários que passariam despercebidos e ainda pões luz nos problemas de convivência social ou às agruras da solidão. Temas que me são caros. Admiro, leio semanalmente e me identifico com seu estilo.
    Até o próximo domingo, amigo.

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro escritor Júlio Rosado,
      Agradeço de coração a sua análise e estímulo a esses meus duelos com o ofício de escrever. Às vezes bate um certo vazio ou desmotivação, contudo penso nos incentivos e cobranças de Natália e findo produzindo algo razoável no tocante ao exercício com as letras. Assim, amigo, vou adiante neste trabalho solitário de escrever. Mais uma vez, portanto, muito obrigado pela leitura e comentário. Um bom domingo e uma semana com muita saúde e paz para você.
      Forte abraço.

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