domingo - 15/03/2026 - 03:18h

Drama antigo

Por Marcos Ferreira 

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Certo dia, isto há mais ou menos um mês ou um pouco além, tive a infelicidade de ver um desses vídeos que se propagam na internet, tornam-se “virais”, eis a palavra da moda e também a mais apropriada. Com um aparelho celular, vejam só, alguém gravou de dentro de um carro uma pessoa (não sei até que ponto posso dizer que se trata de ser humano) que acabara de abandonar um cão à margem de uma estrada.

O sujeito pegou o seu automóvel e partiu sem a menor piedade, sem compaixão alguma. Pura malvadeza! O pobre do animal, aflito, usando todas as suas forças, saiu na carreira tentando alcançar aquele elemento insensível, mau-caráter.

Fiquei arrasado com aquela imagem, o cachorro correndo desesperadamente, perseguindo o veículo de seu desalmado dono durante não sei quanto tempo. Não me agrada ver ou tomar conhecimento de ações desse tipo. Prefiro não saber. É que dói no coração, sabe? Um sentimento de impotência me machuca demais o espírito. Desvio a vista, por exemplo, quando no meu caminho me deparo com um animalzinho atropelado em algum ponto deste município, sobretudo gatos.

Houve um certo tempo em que muitas coisas me comoviam menos. Hoje em dia está tudo mudado. Tornei-me, como se costuma dizer, um tipo de manteiga. É isso, me derreto fácil perante ocorrências dessa espécie e de várias outras. No passado, repito, aquelas imagens naturalmente me tocavam, entretanto não como agora. Sinto bastante pena dos excluídos, de gente ou bichos, que vagam por esta urbe sem a proteção de ninguém, ao léu, desnorteados, no mais das vezes com fome e sede.

Está cada vez mais difícil fazer de conta que não temos nada a ver com isso. O número de animais de rua, de homens e mulheres rifados em toda parte é imenso.

Tenho a impressão, falando de modo realmente amplo, de que tivemos um coração melhor, menos frio, mais empático. Nos tempos atuais, apesar da carestia não ser tão abrangente como antes, quase toda a gente lava as mãos para a desgraça alheia; a ruína de nossos semelhantes e animais abandonados mundo afora. É mesmo uma pena que sejam tão poucos os que pratiquem a caridade.

Não é a primeira vez que escrevo acerca dessas coisas lamentáveis. Decerto há elementos que não gostam disso, acham que estou aqui sendo demagogo ou hipócrita. Querem (não todos) apenas historinhas felizes. Sim, um bom número de cidadãos não curte essa temática, espera-se ler unicamente um conteúdo positivo, deseja-se acessar o blogue no domingo e se deparar com textos ricos em otimismo e narrativas brandas. Nada de queixumes, nada de cenas tristes do dia a dia. Essas almas empedernidas, tão calorosas quanto uma pedra de mármore, estão mais a fim é de, volto a dizer, amenidades, relatos edificantes, sem notícias melancólicas.

Não vou me alongar nesta temática soturna, incômoda. No entanto fico na torcida, na esperança de que aquele cachorro rejeitado tenha descoberto em algum lugar um tutor sensível, pessoa de coração gentil, caridosa. E que São Francisco de Assis, santo padroeiro dos animais e da natureza, oferte alguma proteção a esses bichinhos desamparados, sem acolhida, que vivem ao deus-dará.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Francisco Nolasco diz:

    Mesmo sendo clichê nunca é demais dizer que o homem é um animal muito insensível, salvo raras exceções… Ele é o responsável pela destruição do planeta.
    Quem dera pudéssemos ser civilizados como preconizou, RC,em uma canção onde fala do amor aos homens e aos animais.

  2. Luiz Soares Filho diz:

    Parabéns, senhor MARCOS FERREIRA, por tratar de um tema tão relevante na atualidade. O respeito e cuidado com os animais.
    Contudo, naobstante a promulgação da lei 9605/98, de 12 de fevereiro de 1998, cujo objetivo central trata do cuidado com o meio ambiente, inclusive os maus tratos com os animais, ainda se presencia cenas iguais a essas que você abordou com muita propriedade.
    Até que em fim, alguém teve coragem de tocar numa ferida que dói e é difícil de sará em muitas pessoas.
    Li atentamente o seu lamento, quanto a insensibilidade de certas criaturas no que tange a maus tratos com os animais. Para mim, pessoalmente, esses animais são iguais a crianças e idosos. E, portanto, deveriam serem tratados como tal. Não sabem dizer quando estão com fome ou doentes. Agem apenas por meio de jestos.
    No atual momento, não sei se só no Brasil, más quase toda essa geração de 30/40 anos, desconhece o significado da palavra empatia com as pessoas que, na minha opiniao, só perde para a ambição desenfreada que ainda alimenta muitas almas.
    A insensibilidade humana está em declínio.
    Ninguém concorda com ninguém que não pense igual a ele. Na minha opinião

  3. Bernadete Lino diz:

    Fico chocada com esses tipos de vídeos; é como se eu estivesse sendo abandonada, também. Difícil ser empática e fazer papel de boba. A maior parte das pessoas que conheço, não estão nem aí. Também fico triste quando vejo pessoas agredindo outras, verbal ou fisicamente. Sofro! Cenas de guerra, me deprimem. Ás vezes, sinto-me mal situada num mundo cheio de indiferença.

  4. Airton Cilon da Silva diz:

    É meu caro amigo Marcos Ferreira, como diz o poeta do Rock Renato Russo: “A humanidade é desumana”

  5. Francisco Amaral Campina diz:

    Boa tarde companheiro! Isso faz parte da desumanização, do sistema capitalista.

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