domingo - 01/03/2026 - 06:48h

Lições de vida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Acredito que se passaram três semanas, senão um mês ou mais, que uma passarinha colorida começou a construir um ninho com pequenos ramos de mato seco no recanto de duas linhas de madeira apoiadas sobre uma coluna de minha área de serviço. Achei que fosse desistir da empreitada, o mato estava caindo com frequência. Mas, graças aos recursos da natureza, ela superou as dificuldades e o ninho ficou pronto. Ali depositou três ovinhos.

Desde então, toda vez que olho para o local, lá está a pequena ave fiel ao seu propósito de chocar os ovos. Não sei como faz para adquirir meios para manter a si própria, como adquirir comida e água. Porque sempre a vejo acomodada em seu ninho, empenhada em sua obstinação materna.

Daí para cá tenho evitado movimentos bruscos no terraço, a fim de não assustar a avezinha e fazer com que ela saia momentaneamente do local. Porque isso já aconteceu algumas vezes, na fase de construção da estrutura. À noite, quando necessário, acendo a luz da área de serviço durante o menor tempo possível, isso para que a claridade não incomode esta que em breve terá filhotes.

Admito que me preocupo com a chegada dos rebentos que estão (quem sabe) prestes a quebrar a casquinha dos ovos. Temo que algum desabe enquanto a mãe estiver fora, em busca de alimento para si e as suas crias. Receio ainda que, no caso de algum cair, Juju abocanhe o recém-nascido, mesmo que não tenha a intenção de comer o passarinho implume. Juju ainda é uma cadelinha muito nova, cheia de infantilidade e desastrada. Receio que machuque ou mate a ave. Seria uma fatalidade ante a qual me vejo impotente, sem meios de evitar a queda e os dentinhos de Juju. Torço para que nenhum dos seres alados despenque de sua morada provisória.

Considero admirável demais a tenacidade e zelo com que a passarinha se mantém ali cuidando da minúscula e precária habitação por ela construída de forma intuitiva, instintiva. Deduzo que seja esta a primeira vez que se empenhou nesse desafio, possivelmente se alimentando mal e também passando sede. É muita pureza de instinto, amor desmedido dessa mãe à espera de seus filhos.

Isso tudo me recorda uma história por demais triste e dramática que ouvi narrada por uma de minhas vizinhas na calçada onde nos reunimos com cadeiras para falar um pouco da vida alheia do final da tarde até certo horário da noite. Sim, tratamos um pouco sobre a vida de terceiros, que ninguém é de ferro. Não recordo a fonte de onde a senhora Cilene Freitas (eis o nome da vizinha) obteve esta informação: uma jovem mãe, com aproximadamente catorze ou quinze anos, vendeu o filho com apenas três meses de idade em uma boca de fumo. Corajosa, a avó interveio, enfrentou os marginais e recuperou o neto. Maldito vício (precisamente o crack) que faz com que uma dependente química troque sua criancinha por esse tipo de droga.

Enquanto isso, com amor, pertinácia, e sem dependência em nenhuma espécie de substância, a ave que se aninhou no meu terraço aguarda pacientemente a chegada dos seus nascituros. É admirável o quanto esses seres ditos irracionais nos dão certas lições de vida. Fico aqui esperando os filhotes. De alguma maneira me sinto responsável pela segurança e o bem-estar dessas criaturinhas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Valdemar Siqueira Filho diz:

    Lições de vida se resumem ao afeto, parabéns. Agora estamos com nova guerra, todas, segundo Eduardo Galeano: para ganhar mais dinheiro. Este contexto torna nossas vidas frágeis como estes futuros pássaros. Gosto da fragilidade e do afeto, gosto da luta pela sobrevivência quando seu sentido seja a vida.

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro professor Valdemar Siqueira,
      Concordo com sua forma de enxergar essas questões. Temos e sempre tivemos muito o que aprender com a vida em sociedade. Quando pensamos que estamos em paz no mundo, vêm guerras terríveis como essas que estão em curso. Forte abraço e uma semana abençoada para vocês, saúde e paz.

  2. Francisco Nolasco diz:

    Boa tarde, poeta
    É a natureza mostrando a sua perfeição.
    E trazendo à tona o amor materno, incomparável!

    • Marcos Ferreira diz:

      Estimado poeta Francisco Nolasco,
      A Natureza é harmoniosa e sábia. A presença dos seres humanos é que estraga muita coisa.
      Forte abraço.

  3. Bernadete Lino diz:

    Temos muito a aprender com a natureza! O mundo funciona de forma equilibrada. Existe uma sabedoria intuitiva que está nos animais. Ao contrário do homem, “ser racional”, os bichos são cuidadosos com os seus filhotes. Não se vê animais abusando de filhotes. Tudo é muito harmonioso! Há um amor que não foi ensinado. Já vem no DNA do animal. Eles sabem como agir mesmo sem manuais. Como é lindo ver o cuidado dos animais. São lições maravilhosas! Como cantou Roberto Carlos, eu queria ser “civilizado como os animais”.

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida amiga Bernadete,
      Você, mais uma vez, faz uso das palavras na medida exata. Nem menos nem mais. Muito obrigado por sua atenção e comentário. Uma semana abençoada para você, saúde e paz.
      Abraço.

  4. Julio Rosado diz:

    Caro Marcos, desculpe a ausência nestes dias. É que, após o período carnavalesco, naturalmente meu nível de saturação social vai a seus mais baixos níveis. A vontade que tenho é de me isolar numa caverna para aguardar retornar ao mínimo aceitável. Para me distrair, cultivo amizade com os livros. Foi uma solução prática, pois os textos não me levantam a voz, nem me iludem. E, se eu entender errado, releio até conseguir entender algo. Confesso que há livros que já li e reli, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Mas isso, acredito, é problema meu, não do autor. Os mais letrados falam algo sobre cognição. É difícil.
    E ai vem você com um texto que toca e fala da simplicidade da vida. De como a natureza supera as necessidades do mercado. Ou de como um pequeno passarinho consegue viver e ser feliz sem, ao menos, ter noção do que seja capitalismo e suas implicações nas relações internacionais.
    E quando você fala da venda de um bebê ao traficante, bravamente resgatado pela heroica avó, lembrei-me de uns versos de ‘Epifanias’, onde digo “Presenciamos desproporcional embate da morte com esquálida e anêmica mãe recém parida, prestes a dar, como prêmio, em jogo de má sorte, o corpo inerte de uma criança malnascida”. Amigo, sua crônica, como sempre falo, tem um tanto de conto e outro de poesia. Abçs.

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro Júlio Rosado,
      Quase que eu passava batido com seu edificante e bem elaborado comentário. Não tinha visto. Mas tive o impulso de rever o texto agora e aí me deparei com seu parecer. Muito obrigado por suas considerações e incentivo. O que percebo, além da sua inerente fidalguia, é que você vem escrevendo cada vez melhor. De um simples feedback neste espaço reservado à opinião dos leitores você quase concebe uma crônica. Muito obrigado pela atenção e carinho de sempre.
      Forte abraço.

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