domingo - 11/01/2026 - 04:24h

Livros e leituras

Por Marcos Ferreira

Foto e edição do autor do texto

Foto e edição do autor do texto

Hoje acordei me sentindo leve. Melhor dizendo, de bem com a vida, feliz com os amigos que tenho e com certas conquistas materiais. Acordei motivado, disposto a exibir, expor o bem-estar que me envolve. Talvez isso tenha a ver com os quatro livros que li nas duas últimas semanas. Consumi um pedaço de dezembro e uma pontinha deste janeiro debruçado sobre as obras que revelarei logo a seguir.

Essas leituras interromperam um longo hiato de minha falta de interesse para conhecer o trabalho de outros autores. Pois é, o desânimo, a preguiça e o fastio me dominaram por quase um ano. Pode ser, como sou péssimo para memorizar datas, seguir o relógio e o calendário como se deve, existe a possibilidade de que o intervalo sem abrir um livro e ler seja maior. Porque, afora os contratempos, afora a dedicação aos meus próprios escritos, parece até que 2025 passou ligeiro feito assim um rastilho de pólvora. 

Acho adequado usar a ordem de chegada. Começo, então, com Au Revoir, Mon Ami! — O Auto da Boa Morte, de autoria do poeta e prosador Júlio Rosado. Temos aqui um romance (quiçá uma novela) de fôlego e engenhosidade. O bom humor, a crítica corrosiva e a tragicomédia neste auto da boa morte são a tônica, a espinha dorsal da narrativa, cuja quantidade de personagens representa um desafio a mais para o ficcionista estreante. Não é coisa fácil caracterizar, movimentar (como em um tabuleiro de xadrez) tantos tipos marcantes e caricatos. Contudo Júlio conduziu todo esse elenco com pulso firme e notável mestria. Não vou, como está na moda dizer, dar spoiler. Nem acerca desta obra nem no tocante aos outros três títulos. O leitor que adquira esses trabalhos, saboreie as folhas e tire as conclusões que julgar apropriadas. 

Seguindo o critério da chegada, em uma visita que me fez em uma tarde de que não lembro a data, rolou um cafezinho e fui presenteado pelo poeta, artista plástico e músico Airton Cilon com uma nova reunião de seus poemas. Com pouco mais de sessenta páginas, Inverno é uma seleta para maiores de dezoito amores. Sensível, versejador inveterado de uma paixão característica e plural, Cilon não nega a sua veia doce e transborda neste opúsculo toda a sua alma de bardo profundamente romântico.

Sem rimas e muito menos métrica, os versos de Inverno são por completo livres e ratificam a temática que o autor produz e publica desde os tempos dos cadernos de cultura dos jornais impressos, sobretudo no jornal O Mossoroense. Vejamos este exemplo do poema Amor e Contradição: “Sempre fui um/ romântico incurável, /um poeta errante/ passível de contradições, /um reincidente na arte/ de amar errado.” Novamente proponho ao leitor que encontre e constate todo o romantismo de Airton Cilon. 

Faço uma pausa para um banho e um café. A tarde se arrasta nublada, abafadiça e cheia de poeticidade como um soneto do vate parnasiano Olavo Bilac. Bem, vou preparar a cafeteira. Daqui a pouco estarei de volta à escrevinhação. Restam dois livros sobre os quais desejo produzir algumas linhas. Ressalto, entretanto, que este relato não pode ser classificado como resenha e ainda menos um ensaio. Estou a anos-luz de um crítico literário. Isto é meramente um registro superficial. Suponho, porém, que nem é necessário fazer esta advertência. Até daqui a pouco. 

Pronto, já regressei do banho e do cafezinho. Mantenho à mesa, à direita da escrivaninha, uma pequena caneca de café que vou bebericando aqui e acolá. O livro da vez é Mais Perto de Você: Notas de Amor e Cura, espécie de catarse da lavra de Carlos Oliveira, jovem e talentoso autor que faz a sua estreia no universo da literatura. O rapaz também é mossoroense, profissional do ramo de marketing. Reside fora do Brasil há vários anos. É, pelo que consta em seu livro, um cidadão do mundo. Mais Perto de Você: Notas de Amor e Cura, trabalho publicado primeiramente em inglês nos formatos impresso e digital pela Amazon, é uma longa viagem que o autor realizou pelos sinuosos e por vezes sombrios caminhos de sua mente.

Carlos faz um mergulho nas próprias entranhas psíquicas para encontrar a si mesmo e também interagir (por meio de sua escrita amena e com uma sintaxe de se tirar o chapéu) com um número expressivo de pessoas. O resultado dessa viagem, entrementes, é uma densa, didática e fraterna relação com todos que orbitam o mundo de Carlos Oliveira. 

Vejam (quebro o trato e exponho um spoiler) o seguinte fragmento: “A Parte Dolorosa de Encontrar a Si Mesmo: A parte dolorosa de encontrar a si mesmo é a luta para traçar nosso próprio caminho enquanto buscamos conforto em um lugar onde já não pertencemos. É nessa busca por pertencimento que corremos o risco de nos perder.” Mais Perto de Você: Notas de Amor e Cura, sejamos corretos, não pode ser meramente definido como um livro de autoajuda. Nada contra o referido gênero. Vai muito além disso. Ao longo destas páginas o autor consegue transcender tal modalidade literária e tocar, com ternura e competência, o coração do leitor. 

O quarto e último livro é Compassos Autobiográficos — Trajetória de Vida e Trabalho, conteúdo (como o próprio título informa) autobiográfico assinado pelo escritor e jornalista Passos Júnior. O autor é jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Possui vasta experiência em rádio, televisão, jornal impresso e assessoria de imprensa. É especialista em educação sexual e estudos afro-brasileiros, além de mestre em gestão de processos institucionais pela UFRN. No decorrer de mais de quatro décadas, atuou na Rádio 96 FM, na Rádio e TV Tropical, no jornal Tribuna do Norte, nas assessorias de comunicação da Secretaria de Saúde e de Comunicação Social da Prefeitura do Natal, no jornal Correio da Tarde e na assessoria de comunicação do governo do estado do Rio Grande do Norte. 

Desde de 2010, em Mossoró, através de concurso público, é jornalista da Universidade Federal Rural do Semi-Àrido (UFERSA). Desenvolveu projetos que entrelaçam história e imagem, sempre marcados pelo compromisso com a memória, a cultura e a educação. Com vigor narrativo e um olhar atento à escuta, Passos Júnior utiliza o audiovisual e a literatura como ferramentas para preservar memórias, valorizar o conhecimento e contribuir para a construção de novos saberes. Passos, enfim, com uma escrita afiada e direta, contribui com a história da comunicação social do Rio Grande do Norte e alhures. Eis, portanto, minhas leituras mais recentes. 

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Julio Rosado diz:

    Caro Marcos Ferreira, suas palavras são como um energético desses que revigoram qualquer um que esteja amofinado em seus momentos de melancolia. Serviu-me como um tônico fortificante. Confesso que fiquei deveras envaidecido com sua citação. Principalmente por ver que captastes perfeitamente a aura das personagens e do enredo desta novela de costumes ambientada em um universo-local cheio de referencias que faz despertar a curiosidade por sua leitura para identificar as similaridades com os personagens de nosso dia a dia. Agradeço sua inestimável consideração para comigo.
    Au revoir, mon ami!
    Au revoir, mon ami!

    • Marcos Ferreira diz:

      Prezado Júlio,
      Não há o que agradecer. É merecimento. Você e sua escrita são dignos de toda a atenção e incentivo. Grato pelo comentário.
      Forte abraço.

  2. RAIMUNDO ANTONIO DE SOUZA LOPES diz:

    Tive o prazer e ler dois (Au Revoir e Inverno) e posso atestar, Marcos, a qualidade literária dos textos. Aliás, se for colocar na balança os autores mossoroenses, de um lado, e do outro lado os demais estados, o pêndulo sorri para o lado dos moxorós…

    Abraços!

    • Marcos Ferreira diz:

      Prezado escritor Raimundo Antônio de Souza Lopes. Que bom, mais uma vez, contar com um comentário seu acerca de meus rabiscos neste espaço do BCS – Blog Carlos Santos. Nosso Júlio Rosado é merecedor da nossa atenção e estímulo. Feliz semana. Abraço.

  3. Bernadete Lino diz:

    Uma crônica cheia de generosidade para com os afins. Louvável iniciativa num tempo onde o foco concentra-se, no mais das vezes, no ego. Muito linda sua atitude! Parabéns!

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida Bernadete Lino,
      Grato, como sempre, por seu incentivo e apoio às minhas páginas aqui no BCS – Blog Carlos Santos. Uma ótima semana para você, muita saúde, paz e realizações.
      Abraços.

  4. Airton Cilon da Silva diz:

    Caro poeta e escritor Marcos Ferreira. Obrigado pela leitura deste meu “Inverno” sentimental, obrigado pela indicação destes versos de romântica inspiração. O poeta é um quixote esperançoso… Abraços!
    Quem quiser o livro, é só me contatar pelo Zap (84) 9 91853933

  5. Rocha Neto diz:

    Mais uma vez o nosso grande mestre da escrita, Marcos Ferreira, nos entrega um excelente artigo rico em todas suas nuances, li todos os seus parágrafos e me permita Nobre Mestre, destacar o parágrafo inicial, pois quando um amigo se sente bem, leve e solto claro que agradeço a Deus por tudo isso.
    E você estimado Marcos, me leva este meu sentimento em dose dupla, pois sei da sua luta cotidiana para ter momentos leves e solto, e quando isso acontece você transparece para todos os seus amigos. Que bom!!!
    Tô te devendo uma visita amigo, assim que Deus permitir chegarei no seu recanto aonde as coisas fluem, mesmo remando pela vida você vez por outra encontra uma ribanceira para ancorar a canoa do viver a vida como ela é para todos nós.
    A minha humilde nau que também é uma canoa da vida, no momento estar em águas turvas e inquietas, mas logo mais chegarei na plataforma do bem viver e em seguida correr para o abraço.
    Inté lá então!!!

    • Marcos Ferreira diz:

      Caríssimo Rocha Neto,
      Muito bom reencontrar você aqui no espaço dedicado à opinião dos leitores, no BCS – Blog Carlos Santos. Grato por sua leitura e carinhosa opinião sobre meu escrito. Sempre uma honra contar com a sua atenção e comentário. Saudades de você. Tomara que o amigo nos brinde em breve com sua presença em nossas tardes-noites em uma roda de amigos em meio a um cafezinho e um papo descontraído. Muita saúde e paz para você.
      Forte abraço.

  6. Passos Júnior diz:

    Amigo escritor, poeta Marcos Ferreira, feliz por fazer parte de suas leituras nesse início de ano. Eis um autor de uma escrita instigante e qualquer incentivo vindo do amigo é de fundamental importância. Grato!

  7. Francisco Nolasco diz:

    Bom domingo, poeta Ferreira.
    Dos livros citados li apenas, INVERNO, de Cilon…poemas multi-sensoriais. Que bom que você retornou com a sua crônica, leve e eclética.

    • Marcos Ferreira diz:

      Prezado poeta Francisco Nolasco,
      É uma honra contar com você e sua sensibilidade entre meus leitores. Muito obrigado pela leitura e opinião.
      Forte abraço.

  8. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAUJO diz:

    O eclético cronista e poeta Marcos Ferreira, falando/escrevendo acerca de poesia e crônicas, não só nos faz conhecer/deslindar ainda mais nosso universo cultural, bem como demarcar mais um brilhante retorno com sua instigantes e oportunas crônicas.

    Meus parabéns meu CARO, ao mesmo tempo lhes desejando saúde, paz e prosperidade neste novo ano que se inicia, sobretudo geo politicamente, REALMENTE tão instigante quanto preocupante, especialmente para nós simples mortais humanos e humanistas que tão somente buscam viver.em paz…!!!

    • Marcos Ferreira diz:

      Estimado Fransueldo Vieira de Araújo, saudações fraternas.
      Grato, mais uma vez, por sua análise e opinião acerca destas páginas que tenho publicado aqui no BCS – Blog Carlos Santos. Muito bom, além disso, constatar sua visão além do pequeno universo de mossororó e de sua política cheia de personagens cavilosas. Eu vinha sentindo sua falta nessa trincheira do nosso Editor e jornalista Carlos Santos. Desejo uma semana abençoada para você e um feliz ano-novo.
      Abraços.

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