Por Marcos Araújo
Há países que não constam em atlas nenhum. Não têm assento na ONU, não emitem passaporte, não cunham moeda. E, no entanto, são mais reais do que muitos que figuram nos mapas, porque seus cidadãos os carregam no peito a vida inteira. O meu, chama-se “País do Inocoop”. Ele está encravado num território maior (Nova Betânia), em um pequeno continente chamado Mossoró.
Começou a ser povoado no início da década de 80. Chegamos por lá em 1982, quando os meus pais Ary e Clotilde montaram um pequeno restaurante, sendo uma habitação mista (comércio e residência). Era início da minha adolescência, e o desenvolver da infância dos meus dois irmãos Odinha e Evans.
Tinha fronteiras precisas, aquele país: começava no primeiro poste do lado do poço da CAERN por uma rua projetada que se chamaria depois de Eduardo Mendes, e terminava no último poste posicionado na estrada vicinal que viria ser no presente a Av. João da Escóssia. Meu “país” tinha até governo eleito. Para seu comando, foi criada uma associação, chamada inicialmente de ASCONOBE (Associação dos moradores do Conjunto Nova Betânia), modificada depois para ASNOBE (tiraram o “CO” do “Conjunto” porque uns gaiatos começaram a dizer que a sigla era de “cornos” da Nova Betânia…). E o Presidente e o Vice – seu Álvaro Souza e Teteca (José Belarmino) – se alternavam em mandatos semi-vitalícios, reeleitos sempre à unanimidade dos votos dos eleitores.
Meu país tinha até um “hino”, escolhido por seu Luciano Pedrosa e sua esposa Dodora, cuja execução era obrigatória nos eventos sociais do conjunto. Sempre que eles estavam em uma festa, pediam que tocassem “Perfídia” (bolero composto pelo mexicano Alberto Domínguez em 1939, com versão em português adaptada por Lamartine Babo).
Tinha também sua bandeira, hasteada todo mês de junho em forma de bandeirola de papel de seda num campinho de terra onde hoje existe a praça com o mesmo nome, sendo ali o palco para as festas juninas e os encontros das famílias. Era uma concentração enorme de gente feliz (e bêbada!).
E tinha, sobretudo, povo — porque país nenhum se faz de território; faz-se de gente. Na nossa rua, contando da casa do início, havia Rui Vieira e dona Francisca; o médico Antonio Martins e Fátima; Rodovalho e Conceição; Raimundo Negreiros e Iridea; seu Gilson e dona Irene; caldas Neto e Fátima; Chico da Marpen e esposa; Dona Hélia; Lucinha Gurgel e Bonifácio; os irmãos Tito e Pereira, que viria a casar com Clarissa. Na primeira rua transversal, havia Marlene e Assis Neto; Raimundo e Lúcia; Conceição e Edinardo Jales. Lembro os confinantes dos fundos: Maiza, minha irmã; dona Letinha e esposo; Marconi Amorim e Ângela; José Carlos Barbosa e Dra. Flor de Maria; a Professora Lurdes e filhos; Assis Alves e Graça; Paulo Gameleira e Laurinha; o casal dono da loja Casa dos Parafusos…
Nas ruas adjacentes, residiam Ermano Gameleira e Elisabeth; Canindé Alves e Ivanilda Linhares; Damião e Leomar; Chicozinho, Getúlio e suas irmãs; Gerôncio e Andrea; Sinval e Graça; Dr. Ezequiel e sua irmã; Geraldo Pires e família…Pelas bandas do que hoje é uma praça, formava um quadrilátero de pessoas especiais: Zé Ilo e Lúcia; seu Álvaro e dona Lurdes; Dr. Hugo Brasil e Netinha; Amaral e Fátima; Chibanca e dona Lourdes; Amaury e esposa; Tarcísio e dona Noilde; Teteca e dona Selma; Ladislau e esposa; Dr. Joel de Souza Neto e Fátima; Queiroz advogado e Fátima; dona Salete Fernandes; Padre Américo; Júnior Rego e Cacilda; Elder Heronildes e Zélia. Era a chancelaria do nosso país.
Na zona limítrofe da nação inocopeana, vinha as casas de Domício Couto e dona Isa; Inácio Silveira e dona Assunção; Costa e Ione; Hilton e Nevinha Gurgel; Ferrer e dona Deisinha; dona Chiquita e seu Afonso; Profs. Cristóvão e dona Graça; Emanuel e esposa; Dr. Dauri e Tereza; Lobato vereador e dona Francinete; Getúlio Vale e Regina, entre outros.
Era gente que hoje me parece ter sido posta ali por um romancista caprichoso. Era uma comunidade de afeto e bem-querer. Os vizinhos se ajudavam reciprocamente. Claro que numa diversidade dessas, qualidades e defeitos são inatos a todos os tipos humanos. Um “país” se forma com vizinhos que sejam: risonhos, alegres, carrancudos, briguentos, bem-humorado(a), intelectual, bom profissional, fofoqueiro(a), prestativo(a), indiferente, e por ai vai. No entanto, eram todos eles almas boas e generosos de coração. Gente que me ensinou a pedagogia do afeto. Os pais dos meus amigos, que eram um pouco pais de todos nós, numa época em que educar era tarefa da rua inteira. No País do Inocoop, criança tinha muitas casas e nenhuma porta fechada.
Fui adolescente naquele país como Carlinhos foi menino no engenho de José Lins do Rego: moldado pela geografia miúda do lugar, pelo cascalho e pedras das ruas de barro; pelos chamboques arrancados dos dedos jogando no campo onde hoje é a praça; nas lamas nas costas no período de inverno, quando vinha de bicicleta rompendo o matagal e as vielas periféricas que davam acesso ao Inocoop. Casimiro de Abreu, que decorei no grupo escolar, já tinha escrito por nós: “Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida”. A aurora da minha vida tinha CEP, e ele ficava no Inocoop.
Contudo, os países envelhecem junto com seus fundadores. E há semanas, como esta que se finaliza (graças a Deus!), em que a notícia atravessa a cidade e vem me encontrar: partiu para o céu mais um morador daquele tempo. Um não, desta vez, foram três. Em uma só semana, choramos a partida de Elder Heronildes, dona Selma Carneiro e Nevinha Gurgel. Três em quatro dias. E cada partida dessas não leva apenas uma pessoa; leva um pedaço do território. Porque aqueles vizinhos eram os marcos da nossa cartografia sentimental: a esquina de Dr. Elder só era esquina porque ele estava nela; a calçada de Dona Selma só era ponto de encontro porque ela vinha sentar-se ali no fim da tarde; a rua de Dª. Nevinha era frequentada pelos eu riso. Quando essas pessoas morrem, o mapa perde referências, e a gente passa a se orientar por lembranças.
Drummond, itabirano incurável, olhava a cidade natal reduzida a um retrato na parede e concluía, em três palavras que valem uma literatura inteira: “Mas como dói!”. Dói assim o País do Inocoop entardecendo. Câmara Cascudo, nosso vizinho de província, gostava de se dizer “provinciano incurável” — e eu entendo cada vez melhor: não se emigra do primeiro país. Gaston Bachelard sustentava que a casa natal fica fisicamente inscrita em nós, nos gestos, no modo de subir uma escada no escuro. Pois digo que o bairro natal também: até hoje meus pés conhecem de cor os desníveis daquelas calçadas.
Penso em Macondo, a aldeia de García Márquez, que só existiu de verdade quando virou memória contada. Talvez seja esse o destino dos países da infância: seu território definitivo é a lembrança, e seus habitantes vão, um a um, mudando de endereço — da rua para a saudade. Guimarães Rosa, porém, deixou dito o que prefiro acreditar: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Os moradores do País do Inocoop não partiram; foram promovidos a fundadores eternos, patronos das nossas esquinas, nomes que doravante pronunciaremos como quem pronuncia rua de cidade histórica.
Minha fé me ensina que há um tempo de nascer e um tempo de morrer, e que nenhuma despedida é definitiva para quem espera a manhã da ressurreição. Por isso não escrevo esta crônica como quem lavra um atestado de óbito do meu país, mas como quem renova seu passaporte. O País do Inocoop entardece, é verdade, mas entardecer não é acabar. Acredito piamente que Evans, meu irmão, seus amigos Belarmino, Iuri, Wendell, Dimitri e Winglio, e os seus amigos contemporâneos, reconstruirão uma nova nação.
Pois puxemos as cadeiras da memória. Enquanto um de nós, meninos daquele tempo, contar essas histórias aos filhos e netos, o País do Inocoop terá população, território e soberania. E os que partiram esta semana não serão cidadãos a menos: serão, para sempre, os moradores ilustres de um país que não entrega suas fronteiras à morte.
Marcos Araújo é cidadão nato do País do Inocoop
























Querido xará Marcos Araújo,
Era um texto brilhante assim que eu já deveria ter escrito sobre a minha velha Cohab, hoje mais conhecida como Conjunto Walfredo Gurgel, aqui no Alto de São Manoel. Agora é tarde. O brilho da sua crônica ofuscou meu engenho. Parabéns por sua fulgurante narrativa. Um domingo abençoado para você e sua família, muita saúde e paz.
Forte abraço!
Como sempre as suas telúricas e memoraveis incursões deixam pedaços das nossas transcendentais Almas espalhadas por este longo roçado meio espinhoso da vida. Me vem ao bestunto a consagrada poesia do Mestre Crispiniano Neto, que cái como uma luva sobre aqueles que viram o último Sol se por no Quarteirão existencial :
“Sair sem partir
Ficar quando parte
A vida reparte
Teu peito em metades”.
Feliz semana. Inté.
Amigo ou melhor: Meu irmão.
Parabéns pela crônica espetacular que resgatou nossa história nesse maravilhoso país. Só você seria capaz para esse feito.
Como todo país tem muitos e grandes artistas, vou sugerir uma nova crônica nesse caso humorista, o ator principal: Dr. Paulo Gameleira fazia piadas e pregava peças com seus habitantes, muitas inclusive com seu Ary. Me disponho a colaborar.
Forte abraço
Que bela crônica Marcos Araújo.
Sou testemunha viva do seu encanto pelo Inocoop, inclusive não tem como não lembrar dos almoços no terraço do restaurante de dona Clotilde e Seu Ary (no intervalo dos turnos, ainda estagiário), claro que seu mano Evans também é figura a se responsabilizar pela continuação do Inocoop…
Uma crônica de memórias dessa é de suma importância para a História e descendentes.
De parabéns o autor.
Feliz em ter feito parte desse país. Pura verdade quando você escreve “criança tinha várias casas, e nenhuma porta fechada”, éramos crianças e tínhamos liberdade de entrar e sair sem ser “mal educados” pois realmente éramos uma grande família. Lembro dos nossos inesquecíveis São Joões, TODOS se reuniam para enfeitar a rua e termos as melhores festas por sucessivos anos. Obrigada Marcos por tantas lembranças boas da nossa infância.
Há textos que informam; outros, porém, têm o poder de nos transportar. A crônica “O país do Inocoop entardece…”, de Marcos Araújo, pertence a essa rara categoria de literatura que transforma a geografia miúda de uma cidade na pátria universal da nossa própria infância.
Com uma sensibilidade cirúrgica e tocante, Marcos Araújo conseguiu traduzir o que muitos sentem, mas poucos conseguem colocar em palavras: a dor sutil do tempo que avança e transforma nossos portos seguros em territórios de memória. Ao resgatar os limites físicos e os personagens vivos do Inocoop dos anos 80, o autor não escreveu apenas sobre um bairro de Mossoró; ele construiu um monumento à vizinhança, ao respeito mútuo e àquela época dourada em que as calçadas eram extensões das nossas próprias salas de estar.
O brilho do texto reside na capacidade de Marcos de transformar a ausência em “encantamento”, como bem buscou em Guimarães Rosa. A dor pelas partidas de figuras tão queridas como Dr. Elder, Dona Selma e Dona Nevinha deixa de ser um ponto final e passa a ser um marco histórico na fundação eterna daquele lugar. O autor nos lembra que um povoado não é feito de tijolos e asfalto, mas das almas generosas que ali escolheram criar suas raízes.
Ao ler sua crônica, somos todos, de alguma forma, cidadãos desse “País do Inocoop”. Parabéns a Marcos Araújo por renovar o passaporte da nossa memória coletiva com tanta nobreza, afeto e poesia. É um texto que não apenas se lê, mas que se guarda no peito.
Em questão de minutos reviví grande parte da minha vida (dos 13 aos 21 anos) naquele pedaço de céu chamado Inocoop, onde fiz amigos que trago e convivo até hoje (As Linhares, as Tetecas, as filhas de S.Alvaró e muitos mais).
Quanta saudade dos meus pais e da “Perfidia” que muitas vezes os ouví-os cantar, e em algumas cantei com eles.
Muito obrigada pela referência aos meus pais Luciano e Dodôra, meus amores. Saudade gigante de tudo isso e deles.
Que bela lembrança Marcos, gratidão.
Há Marcos passou um flashback enorme agora, lendo suas palavras voltei no tempo,os melhores momentos da minha adolescência, meus pais Dede e Zélia moravam na esquina de Paulo gameleira e Laurinha, volto até hoje por lá e vejo tanta mudança que as vzs não reconheço mais meu país. As brincadeiras na rua, jogando vôlei na lama, kk, corredor de casa sem casa pra chamar os amigos pra se divertir e fofoca no terreno da praça. As festas de São João, que tá excelente se junta e arrumar as ruas com figueiras e bandeirolas, as crianças de hoje não sabe realmente o que era bom e libertador a infância antigamente, que como vc falou não tinha porta fechada e nem tanto perigo na rua, parabéns pelas palavras e obrigada pelas belas recordações.