Muitas vezes acompanhei Telé à salina Monteprimo, a ele arrendada, para ver o andamento dos serviços contratados. Sempre visitávamos a casinha do motor. Ali, fora instalada uma bomba de sucção.
Meados da década de sessenta, os moinhos de vento já estavam em desuso. O encarregado da estação captadora de água, geralmente dormia tranquilo, apesar da barulheira infernal que o mecanismo fazia.
Certa vez perguntei como ele conseguia tal façanha.
– Desperto de supetão quando o motor pára. – Foi sua resposta.
Eu lembrei aquele diálogo, de quarenta e cinco anos passados, justamente a idade de Daniela, quando olhava o seu corpo já sem vida. Mergulhado em pensamentos, eu rezava pelo descanso de sua alma.
Eram as primeiras horas do dia nove de agosto, e, na capelinha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, acontecia o velório de minha filha, cujo óbito se dera no final da tarde do sábado recém-findo.
Minha mente, naquele instante, se enchia de lembranças, como se, com isso, eu pudesse mudar o destino traçado por Deus.
Nesses últimos cinco anos, após a retirada com sucesso de um nódulo na sua hipófise, tudo fazia crer que venceríamos a guerra contra o ‘inimigo’. Muitos detalhes foram rememorados. Quantas viagens, Jesus, fiz com Daniela a Fortaleza. Algumas, para simples visitas médicas. Outras tantas, quando sua saúde se complicava, para internamento hospitalar.
Em inúmeras ocasiões, quase desesperado, reclamei por aquela espécie de castigo que desabava sobre mim. Mas, logo encontrava consolo para minha queixa destituída de fé: "Deus só entrega uma cruz a quem suporta carregá-la".
Refeito, tomava o lenho, continuando a caminhada.
Hoje, duas semanas depois que Daniela se ‘encantou’, algumas pessoas me consolam: "Deus reservou para sua filha um lugar livre de sofrimentos".
Ainda bastante saudoso com a partida de Daniela, desloquei-me até Areia Branca no dia 15 agosto. Na cabeça de qualquer areia-branquense é difícil não latejar, nessa data, a lembrança da procissão marítima, dedicada à Virgem dos Navegantes.
E para lá, acompanhado de Zélia, minha irmã, de Rodrigues e Rachel, meus netos, de Rafael e Henrique, bisnetos, e de Néo, meu genro, me mando à procura de algum contentamento. Este começa a se apossar de mim assim que passo a sentir o ‘cheiro’ da maresia.
Para chegar ao Centro, prefiro sempre ir pela Travessa dos Calafates. Dobro na Rua da Sociedade, como era chamada antigamente, hoje Coronel Liberalino, e alcanço a pracinha da igreja.
Descemos e rumamos para o patamar.
Aqui, o reencontro com muitos conhecidos, aos quais abraço emocionadamente: Sebastião Leite, Pedrinho Duarte, Luiz Fausto Filho e Célia, dona Chiquita do Carmo e as filhas Lúcia e Gracinha. Falo com Belezinha, de Zé Antônio.
A alegria, no entanto, é fugaz, dura pouco junto a mim, ao contrário do que afirmara o meu amigo Clauder Arcanjo: ser uma constante na minha pessoa.
Passo, então, a apreciar o movimento dos barcos na maré. Lembro das inúmeras vezes que assisti aquele cenário.
Não esqueço, porém, o ano de 1982, quando levei Daniela para a procissão de 15 de agosto. E, aí, inapelavelmente, veio-me à memória o silêncio do motor que fazia o operário despertar de supetão; comparo-o à dor da saudade que eu senti naquele momento: o silêncio da voz de Daniela.
Francisco Rodrigues da Costa é escritor e, sobretudo, pai.
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