Sim, ia esquecendo: esse multifário também é empresário vitorioso e jornalista. Ainda bem que não enveredou profissionalmente pelo gênero da reportagem política. Atropelaria-me como uma "Divisão Panzer", tamanha sua lucidez e capacidade analítica.
Aprecie sem moderação a coluna que ele assina hoje na querida "Gazeta do Oeste". Milton disseca a mutação moral, de foco e no modus operandi da elite política de Mossoró e RN em quase setenta anos:
Partidos e políticos – Nos anos de 40/50, as pessoas que constituíam famílias, em termos políticos, agrupavam-se em torno de um partido. Aquelas que votassem no PDS ou na UDN mantinham-se fiéis ao partido por eleições e eleições seguidas. O grupo familiar de um partido jamais mudaria para outra agremiação, a não ser por razões bem justificadas. A fidelidade política tinha o peso da fidelidade moral. Os avós passavam para os filhos suas preferências partidárias, que eram retransmitidas aos netos, estes aos bisnetos e assim sucessivamente.
Distintivos e cores – Entre os anos 60 e 80 houve uma mudança na lógica geral. Surgiram as campanhas partidárias radicais identificadas por bandeiras e cores orientadas por comissões, movidas por músicas, slogans e marketing. Em cada residência, bem no topo, tremulava um corte de tecido de cor vermelha, verde ou azul exaltando a preferência do cada candidato. O fato é que o novo estilo não ficou restrito ao lado de fora das residências, ele penetrou no interior do lar, invadiu o âmago de cada membro da família, passou a conviver com o íntimo das pessoas e conseqüentemente estraçalhou a anterior tradição. Os partidos passaram a ser os candidatos. Casais, filhos, irmãos, residindo em um mesmo teto, começaram a manifestar vontades diferentes e a votar independentemente uns dos outros, o que não era observado antes.
Respeito ao nome – O hábito de votar em parentes continuou por algum tempo. Aqueles que tivessem o mesmo sobrenome, quando alguém da família fosse candidato, votariam nele sem questionar. Esse procedimento também não conseguiu resistir muito tempo. A fidelidade familiar, ou seja, aquela contando com o apoio de todos os parentes, em torno de um candidato da família, já não existe tanto. O pior é que o percurso da história tem mostrado que foram os próprios líderes que aboliram o sentimento e o estilo em detrimento do benefício e interesse pessoal. Passaram a ser, com seus péssimos exemplos, os próprios protagonistas desse processo. Em Mossoró, por exemplo, Dix-huit se separou de Vingt, sabe-se por impulso de Mário Rosado, mas interpretado como inteligência de Dix-huit. A princípio um erro. Como não teve como alterar, terminou dando certo. Hoje a família se divide quando precisa e se une quando necessário. O povo fica à margem do processo, não se aprofunda, não quer entender, alguns mais arejados olham onde podem se beneficiar individualmente e enquanto isso a carruagem passa enquanto os cães ladram ao lado da estrada.
Última versão – A versão mais atual é de que a candidatura Larissa é um projeto Sandra\Carlos Augusto. Tudo legal, nada a impugnar. Pode até ser apenas uma estratégia do Carlos visando colocar uma leve cunha no crescimento de Fafá ou no bom desempenho político da família Dix-neuf\Leonardo, pois quanto a isso, nem Sandra, nem Carlos nunca quiseram um terceiro de sangue nesse processo de domínio na cidade de Mossoró. Preferem ficar apenas os dois, pois Carlos já sabe onde reside a fragilidade política de Sandra e Sandra já conhece as limitações do Carlos. O PR justifica que entende do processo e não irá entrar no baile. Argumenta que gato escaldado tem medo de água fria. A história vem revelando que desde o tempo de Diran Amaral, com seu filho Frederico, chegando a investir pesado na instalação da FM Resistência, hoje 93, pensando no futuro projeto político do filho, mesmo sem ameaçar a cadeira de deputação federal que Vingt, Laíre, Sandra mantêm há mais de 50 anos, se contentaria em apenas manter a cadeira de deputado estadual, mesmo assim teve por pressão que assistir ao início da derrocada do seu filho na política, inclusive a tomada da emissora, um dos motivos profundo do seu desgosto e fim.
Projeto-mor – Bom, o importante é que tudo vai dando certo, tudo está absolutamente legal, faz parte do jogo político e irá dar sempre certo. O povo, digo a grande massa, não entende profundamente do processo, mas assiste o modelo e vai na onda da maré. Sinais dos tempos, quem diria, até o antigo PT que parecia bom em política está cedendo aos ruídos agradáveis do rasgar sedas. Atualmente, vença quem vencer o projeto-mor não será alterado. O PR da Mossoró, já sabendo que não terá vez para eleger, na próxima rodada, em coligação, um deputado estadual, pois seu lugar já está ocupado, prefere se sacrificar logo na presente campanha a prefeito. Sabe o partido que a parada é dura, mas vale a pena, pois em política nada é dado e sim, tomado.
Filhos e filhas sempre vocacionados – Aluízio Alves, quando cassado, por uma situação emergencial, de repente, teve que lançar Henrique seu filho como deputado federal. Acidental ou não, a verdade é que fez escola. Logo a seguir Dinarte Mariz introduziu o filho Wanderley, Djalma Marinho o filho Márcio, Dix-huit o Mário. Geraldo Melo elegeu a esposa, Laíre e Sandra elegeram Larissa, agora querem também Lairinho. Agnelo, o filho Carlos Eduardo. Wilma Faria a filha Márcia. Agripino Maia exercitou sua esposa na campanha passada, não deu certo, colocou Felipe, foi eleito, ficará para sempre. Rosalba indica Ruth, sua irmã; Robson Faria, presidente da Assembléia, elege o filho deputado federal. Garibaldi elege o filho deputado estadual. Genética, coincidência? Não, está havendo é falta de vergonha. O indivíduo confundir o voto dado a ele e querer a todo custo que façam o mesmo com seu filho, muito capaz, com vocação para política, muito amado.
Salários e democracia – Talvez esteja chegando o tempo de se perguntar se essa prática não é prejudicial à democracia. No Executivo já começa a haver uma certa disciplina no repasse de representação entre esposos, filhos, familiares diretos. O Legislativo está à vontade. Para um candidato comum é muito desigual competir com um filho de um senador, de um deputado federal, de um prefeito. É uma verdadeira covardia. O filho, muitas vezes, nem precisa aparecer, pois já conta com bastante recurso econômico, orientação de marketing, rede de comunicação, a bem aventurança. País complicado esse em que habitamos, pois quanto mais melhora o salário dos deputados, mais os próprios deputados querem colocar seus filhos, e o salário dos deputados e senadores são estipulados por eles próprios. Imagine quanto essa pipa ainda irá subir. Pobre país.
























