Por Marcello Benevolo
José Benévolo Xavier nasceu em 29 de outubro de 1903, em Caicó (RN). A cidade, carinhosamente apelidada de “Meu Pedacinho do Céu”, fica encravada no Seridó, o coração do sertão potiguar. Caicó é famosa por sua carne de sol, pela linguiça sertaneja, pelos queijos de manteiga, pelos doces e pelos finos bordados.
Seresteiro e tocador de bandolim, casado com dona Maria Amália, ele tocou noite adentro quando do nascimento de minha tia Ana Teresa, a caçula e ponta da rama. O festejo veio após vovó parir uma sequência digna de um time de futebol de salão, composto pelo meu pai, Edmar (babá), e meus tios Ismael (do Bandern) e José (Zé da gata), já falecidos, João (palha) e Cornélio (ou Nelhão).
Vovô Benévolo — ou Benevinho, como vovó Amália carinhosamente o chamava (certamente quando estavam de bem) — foi um comerciante conhecido e respeitado. A Bodega de Zé Benevolo funcionava na esquina do Mercado Central, na rua Felipe Guerra. Abastecia Caicó em um tempo no qual supermercados ainda não eram realidade por aquelas bandas. Segundo o Censo de 1950, a população local girava em torno de 24 mil habitantes.
De fala mansa, cordial e conciliador, como eu ouvia mamãe dizer, ele conquistou a prefeitura da cidade entre os anos de 1954 e 1958. Foi um candidato de consenso pelo então PSD, contando inclusive com as bênçãos da oposição udenista. Zé Benévolo transitava bem no meio político e, com sua facilidade em cultivar amizades, foi eleito para comandar Caicó.
Prefeito de um mandato só — numa época em que não existia reeleição e o mandato durava um quinquênio —, li em pesquisas na internet que foi considerado um gestor eficiente e, acima de tudo, honesto. Com ele, “dois mais dois sempre dava quatro”, repetia mamãe, orgulhosa do sogro querido.
Aqui e acolá, ainda encontro entre os pertences deixados por minha mãe, falecida há três anos, fotografias antigas de Caicó. Meus tios também contribuem com registros no grupo de WhatsApp da família Benévolo. Para mim, que amo fotografia, é uma verdadeira viagem no tempo.
Essas imagens revelam a importância política e estratégica de Caicó para o Rio Grande do Norte e, por vezes, para o cenário nacional. O “Pedacinho do Céu” era – e ainda é – sempre parada obrigatória para os grandes nomes da política. Vovô recebeu figuras de peso: mamãe relatava almoços e jantares na residência humilde de Zé Benévolo e Maria Amália, na antiga Rua do Serrote.
Alguns desses registros fotográficos flagram as visitas do futuro Presidente Bossa-Nova, o mineiro Juscelino Kubitschek. Em outra oportunidade, os Benevólosreceberam o então candidato à presidência da República pelo PSD, Juarez Távora, acompanhado do governador de São Paulo, Jânio Quadros, “e sua comitiva” — conforme anotado no verso de uma foto enviada por um amigo do meu avô, Sílvio Bezerra Filho.
Das muitas lembranças que guardo, as mais afetivas envolvem sua paixão pela leitura. Contos e poesias matutas eram seus temas preferidos; papai costumava presenteá-lo com livros todo final de ano.
Vovô amava declamar, mas não bastava a voz: ele precisava encenar. Certo dia, em nossa casa no Recife, pediu que mamãe trouxesse um facão da cozinha. Empunhando uma almofada do sofá, encenou a história (cujo nome não me lembro) de uma donzela que morria por amor. Contudo, a performance mais clássica e imbatível era “Flor de Puxinanã”, do paraibano Zé da Luz. O poema matuto narra a formosura das três irmãs Augusta, Guilhermina e Maroca.
Eu, criança, morria de rir quando ele falava das “três cachorra da moléstia”— expressão que só anos mais tarde entendi significar como irresistíveis. Eu chorava de rir na parte em que ele declamava: “A tercêra, era Maroca. Cum um cóipo muito má feito. Mas porém, tinha nos peito dois cuscús de mandioca.”
Lembro-me também de seu cuidado com a saúde, especialmente após duas operações na cabeça. Raramente andava descalço e vestia a camisa logo após tomar sopa para evitar a friagem. Já velhinho, mas sempre bom de boca, traçava o que viesse no prato. “Tenho fastio não”, repetia.

Juarez Távora e Jânio Quadros com a companhia de “Vovô Benévolo” (Foto colorizada com recursos de IA)
Devoto de Sant’Ana, rezava o terço com frequência diante de um pequeno oratório com algumas imagens de santos organizado dentro de um guarda-roupa, no quarto de visitas onde passava boa parte do dia deitado na rede. Isso já em sua casa em Natal, na Rua Estácio de Sá (Lagoa Nova), hoje renomeada Rua José Benevolo Xavier em sua homenagem.
Curiosamente, aquele guarda-roupa abrigava, em perfeita harmonia, o sagrado e o profano. Na porta ao lado do oratório, repousava sempre uma garrafa de uísque — o segundo melhor presente, atrás apenas dos livros. Ele batia no rótulo e dizia ao meu pai: “Esse é do bom, meu filho”. Antes do almoço, vinha a chamadinha. Bastava vovó anunciar a refeição para ele dar um pulo da rede e tomar um dedinho de uísque caubói, que ele garantia ser prescrição médica.
Vovô Benevolo partiu em uma tarde de 26 de agosto de 2002, aos 98 anos. Não chegou aos sonhados 100 — marca superada por sua mãe, que viveu até os 101. Na época, eu morava em Brasília e não pude comparecer ao sepultamento em Natal.
Ficam as lembranças e a saudade de Zé Benevolo, que nos deixou um legado de retidão, fé e, acima de tudo, um imenso amor à família.
Marcello Benevolo é advogado e jornalista pernambucano radicado em Natal













































