Por Marcos Ferreira
Estamos partindo. Uma partida para nunca mais. Não há nisso nenhuma novidade, eu sei. Sempre foi dessa maneira. E dessa forma continuará por tempos infindos. Ultimamente, porém, tenho a sensação de que a Moça da Foice nos ronda mais acintosamente. Nos últimos meses (ou há poucos anos) a Indesejada já levou embora um monte de pessoas as quais desconhecemos, como também aquelas com relevante destaque na sociedade e outras bem próximas de nós: amigos, familiares, vizinhos. É muita gente fazendo a “extrema curva do caminho extremo”, como naquele soneto de Olavo Bilac.
Este verso é o mais perfeito eufemismo que conheço para denominar o fim peremptório, irremediável. Não posso negar que tenho pensado com certa frequência nessa passagem para a outra dimensão, acaso exista uma outra dimensão.
Volta e meia topamos com a notícia de que fulano ou fulana morreu. Aí me ocorre esta inevitável e íntima pergunta: “Quanto tempo será que ainda me resta?” Ou algo desse tipo: “Quando chegará minha hora?” Refletimos sobre nossa idade e, a depender da soma dos anos, recordamos aqueles cidadãos que se foram mais cedo, jovens ainda. Olho para mim mesmo e verifico que sou um indivíduo de meia-idade. Tenho mais passado que futuro. Mas não sinto medo da morte. O que deveras me assusta é morrer. Aqui me refiro àquele tipo de passamento longo e sofrido. Todavia tenho receio de ser pego de surpresa. Um mal súbito pode acometer este escriba.
Considero chato, por exemplo, bater as botas e deixar tanta coisa desorganizada. Olho novamente para meu caso e certos detalhes me vêm à cabeça. Moro só há quase duas décadas e imagino o transtorno de ser encontrado mortinho da silva apenas após alguns dias. Quando enfim entrarem aqui (deixei cópias das chaves com uma vizinha) possivelmente estarei sem camisa, a barriga saliente à mostra, a casa um tanto bagunçada, calçados e roupas largados em lugares impróprios. É mais ou menos assim. Tenho, por mais tolo que isto pareça, certos pudores de como venham a topar com meu cadáver. Possuo um temor enorme de ser encontrado no banheiro, inteira e lastimavelmente nu. Quem sabe até fulminado por um infarto.
Agora me vem à memória o seguinte: uma de minhas irmãs contratou e me incluiu em um plano funerário. À época, desconfortável com essa providência, senti a desagradável sensação de que estavam apressando as coisas. De repente, embora gozando de saúde, um arrepio percorreu a minha espinha. Não posso negar a importância de um serviço dessa natureza. “Viver é muito perigoso”, como escreveu (em Grande Sertão: Veredas) o escritor mineiro Guimarães Rosa. Essa ideia de plano funerário pode representar uma espécie de aceno, algo como se a gente dissesse ao além-túmulo: “Ei, estou aqui! Pode vir. Estou pronto!” Eis o meu desconforto com a proposta de um plano funerário. Poderíamos ao menos chamar de outra forma, como “plano de saúde funerário”. Desse modo, a meu ver, seria uma coisa mais discreta.
Tudo bem, podem dizer que isso é tolice, que não se pode enganar a morte e todo mundo nasce com o destino traçado. Devo concordar. Até hoje ninguém comemorou aniversário de cento e cinquenta ou duzentos anos. De igual modo nenhum sujeito que partiu nunca entrou em contato com os vivos para explicar de fato como é o processo. Dizem que o Nazareno está voltando. Vamos esperar.
Marcos Ferreira é escritor
























Jô Soares certa vez falou que não temia a morte. Temia sofrer com a morte. Por sorte, o manto da poesia nos permite falar dessa dama (aliás, quem definiu esse gênero?) sem temer o fia da gadanha. Com a poesia nos damos ao desplante de sentar a seu lado para degustar um delicioso vinho ou nos abraçarmos para coreografar uma dança tão sensual quanto macabra.
Ah, a morte, tão mal compreendida, tão indesejada. Porém, tão previsível, predestinada, presente!!!
Onipresente!!! Muitas vezes, indecente.
Boa semana, amigo Marcos Ferreira.
Quem definiu o gênero da morte? Boa pergunta. A fiz várias vezes nas minhas aulas de tanatologia. E aqui, tenho uma curiosidade: em geral, a simbologia dos ritos passam do grupo dominante aos dominados, mas com a morte, e seu gênero, não é o que acontece. Mesmo que civilizações como a egípcia (com Anúbis), helena (com Thanatos e Hades), celta (com Donn), nipônica (com Shinigami) e hindu (com Yama) tentaram construir a representação da morte em torno do masculino, foram as culturas periféricas, ou cultos periféricos, que prevaleceram, com uma representação feminina. Aqui, destaco a parca Morta, dos itacas, e Átropos, dos egeus, bem como Ereshkigal (Mesopotâmia), Hine-Nui-Te-Põ (Maori), Mictecacihuatl (Asteca) e Ah Puch (Maia). A contribuição dos enciclopedistas franceses (os maiores influenciadores do ocidente) foi decisiva para forjar em nossa simbologia a morte como uma dama irresistível.
Boa tarde!
Vamos viver hoje, o amanhã a Deus pertence.
Homi, estando eu já passando da meia idade, o amigo escriba parece ter captado os meus pensamentos. Também temo o último suspiro. Admito que já tive muito mais medo, mas confesso que ainda me incomoda, principalmente, quando vou algum velório e testemunho cada vez menos o número de pessoas para as últimas homenagens ao enter querido, amigo ou mero conhecido. E isso, somos inquilinos do universo, sem nenhum direito ao usucapião. Um dia, o nosso dia chegará. E falta menos tempo do que já vivemos. Parabéns pela crônica!
Caríssimo, amigo.
Há quanto tempo não nos reencontramos. Meu carinho continua o mesmo, minhas paragens outras.
Desejo uma vida harmoniosa e completa, repleta de amor. Isso é o que nos vale.
Durante minha jornada de pouco mais de uma década na tanatologia, aprendi que, diante da morte, os vivos são acometidos por muitos infortúnios quando se deparam com a burocracia fúnebre. Não bastam o sofrimento e o luto, vem a fragilidade psíquica de uma existência negando o inevitável criando vítimas fáceis da indústria da morte (que inclui de políticos a religiosos, passando por comerciantes). Espero que teu texto ajude a quem ainda nao se perguntou, se pergunte: o que eu quero ser quando morrer?
Eu tenho essa sensação de estar jogando contra mim. Igualmente quando contratei algum seguro de vida. Tenho o mesmo receio do como morrer, que você tem. Mas o seguro funeral é de grande utilidade. Mas eu faço-lhe uma proposta : vamos pensar em como aproveitar o tempo que nos resta e que não sabemos quanto? Penso na morte quando deixo tudo muito organizado pra facilitar a vida de quem vai gerir o meu acervo. E viva a vida!
Coincidentemente, ontem tive que ir ao velório de uma prima de minha mãe.Veio de Fortaleza (CE). Foi sepultada em Icapuí.
São nessas horas que a gente vê a valia do plano funerário…