Por Marcos Ferreira
Havia muito tempo que eu não forjava um soneto. Anteontem, entretanto, eis que de repente me apareceu um versinho decassílabo. Pois é, surgiu assim do nada, harmonioso e dentro da métrica e do ritmo, com tônicas na sexta e décima sílabas. Além da cesura, esse primeiro verso já tinha algo de socialista. A única inconveniência é que o futuro soneto me bateu na cuca quando eu acabara de apagar a luz e me espichara na cama, isso em horário avançado, perto da meia-noite. Tive que voltar à sala e religar o computador. Precisava registrar o verso, elaborar ao menos o primeiro quarteto e deixar a conclusão dos quatorze versos para a manhã seguinte.
Após faturar a primeira estrofe e salvar o arquivo com um título provisório, desliguei o notebook, voltei para a cama e, encurtando o papo, peguei no sono. Na manhã de ontem, enfim, dediquei-me à missão de trazer o referido poema a este mundo. O segundo quarteto e os dois tercetos não deram trabalho. Com pouco mais de uma hora de carpintaria o dito-cujo estava prontinho da silva.
Aviso logo que não vou transcrever aqueles versos aqui. Farão parte de um livro rigorosamente inédito que pretendo lançar de uma maneira ou de outra. Quem sabe por meio de um concurso literário que banque a publicação. Trata-se de um projeto monotemático que está próximo das noventa páginas. Posso adiantar, entretanto, que a obra aborda a triste realidade de pessoas desamparadas, os sem-teto, uma imensa e lastimável quantidade de gente que vive nas ruas, sem o mínimo de apoio; cidadãos invisíveis aos olhos dos bem-nascidos, entregues ao deus-dará, ignorados pela maior parte da sociedade, pelos apáticos homens e mulheres públicos.
Bem, não entremos agora em detalhes. A finalidade destas linhas é meramente dar notícias acerca do meu expediente (repito) com o enredo, as rimas e a métrica de um soneto. Deixo esta breve crônica com precisamente quatro parágrafos, a exemplo das quatro estrofes da referida modalidade poética.
Marcos Ferreira é escritor
























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