Arrogância, vaidade e soberba levam Dix-huit a vencer o grupo rosalbista
– A besta não vai voltar!
A frase, acrescida de um sorriso sarcástico, era lugar-comum do então deputado estadual Carlos Augusto Rosado (PFL) em 1992. Fazia alusão ao tio, ex-prefeito Dix-huit Rosado (PDT).
Preconizava entre asseclas que esmagaria de vez o experimentado político, que fora deputado estadual constituinte, prefeito duas vezes (1972 e 1982) e até senador.
Dix-huit apoiara Rosalba Ciarlini em 1988 à prefeitura, mas fora descartado no curso da gestão. Já Carlos teve que engolir em 1990 a candidatura a deputado federal de Mário, filho do ex-prefeito, quando tinha tudo preparado para ser ele o disputante. Era seu sonho acalentado há tempos. Não esqueceu nem digeriu a estocada.
Veio daí o recrudescimento do mal-estar na convivência entre eles.
Dix-huit enfrentaria o vice-prefeito da “Rosa”, empresário Luiz Pinto (PFL), além do professor João Batista Xavier (PCB) como vice. João tinha sido candidato a prefeito em 1982, pelo PMDB, derrotado pelo próprio Dix-huit.
Com mais de 74% em aprovação administrativa, governo que apostava num conceito de gestão baseada em obras de visibilidade e promoção personalista, Rosalba estava também empavonada. Era a prefeita de direito, o marido o gestor de fato. Governavam a quatro mãos.
Era difícil encontrar um correligionário capaz de pensar em resultado diferente: seria um passeio no “Velho”, epíteto repetido pela oposição para dar sentido de maturidade, experiência e biografia a Dix-huit. Falava-se em 20 ou 25 mil de maioria.
Luiz Pinto foi anunciado como candidato no dia 19 de junho. No dia seguinte (20), a convenção partidária sacramentou a postulação. Ele tinha passado meses sendo potencializado na mídia para tal. João Batista seria um meio de dar aura menos conservadora à chapa, que a princípio teria o empresário Manoel Barreto (também do PFL) como ungido a esse espaço.
Pesquisa encomendada por Carlos apontou seu nome. Mas terminou descartado, sob promessa de que adiante ganharia oportunidade de candidatura eletiva. O que nunca ocorreu.
Vingt Rosado
Na oposição acontecia o que muitos viam como improvável. Dix-huit queria retomar “sua” prefeitura. Mas sabia que o projeto precisava do endosso do irmão Vingt Rosado (PMDB), com quem brigara em 1988, ao apoiar Rosalba. Ainda ecoava em seus tímpanos os berros de Vingt, no rádio e em comícios, o tratando por “traidor” e “safado”.
Aboletado no PDT, que dera legenda a Rosalba em 1988, mas fora vomitado pela prefeita eleita em retorno ao PFL (hoje DEM), Dix-huit insistia com seus interlocutores partidários:
– Só ganhamos com Sandra (a hoje deputada federal Sandra Rosado-PSB, filha de Vingt). Ninguém avalizava a escolha. Era voz isolada.
Argumentava que se Sandra reforçasse sua chapa, Vingt daria o beneplácito. Seria a “isca”, a quebrar o jeito turrão do seu ex-líder. PDT e PMDB unidos.
No dia 22 de fevereiro o peemedebismo proclamou apoio à candidatura de Dix-huit e em 20 de junho a chapa estava homologada em convenção. Tio e sobrinha, que apenas se aturavam, partiam com uma idéia fixa: derrotar Carlos e Rosalba.
No governismo, autoconfiante, Carlos repetia o que dissera pela primeira vez à imprensa, no mês de fevereiro daquele ano: sua chapa não tinha qualquer Rosado. Bastava a “força da Rosa”.
Implicitamente ficava claro que ele, de novo, governaria. Luiz e João entrariam com o nome.
A campanha é recheada de incidentes. Há uma luta paralela na guerra entre emissoras de rádio pertencentes aos grupos envolvidos, além de uma enxurrada de ações no campo judicial.
Nas ruas, o retrato inicial mostra a previsível polarização entre as coligações “Força do Povo” (Luiz Pinto) e o “Vitória do Povo” (Dix-huit). Eclipsa os candidatos Paulo Linhares (PSB) e Luiz Carlos Martins (PT) da “Frente Popular”. Possuem o ex-vereador Herbert Mota (PSB) e o sindicalista Celeste Guimarães como vice, respectivamente. Todos coadjuvantes, apesar da boa biografia de todos.
– Cuidem das campanhas de vocês que a de prefeito está ganha – recomenda Carlos distribuindo dinheiro, em espécie, para vários candidatos a vereador à sua frente, narra um circunstante ouvido pelo Blog.
Bengala
No alto comando da Vitória do Povo, o moral não parecia elevado. Sem mobilidade, o quase octogenário Dix-huit era substituído no corpo a corpo pela vice Sandra. Em muitos momentos aparecia somente para encerrar uma mobilização.
Em certa ocasião, apoiado numa bengala e sentado numa cadeira, em carroceria de caminhão improvisada como palanque, Dix-huit foi flagrado de longe por Carlos Augusto, no bairro Teimosos. Esse – sem ser notado no interior do veículo – apenas sorriu diante da cena, que parecia confirmar a derrota que previa para o tio.
Na Força do Povo, acontecia algo inverso, mas intrigante. A euforia destinava-se à presença de Rosalba. Os candidatos majoritários às vezes sequer eram notados.
Luiz Pinto terminou a campanha sem conseguir erguer os dedos para formação do “V” da vitória.
Em sua retaguarda, Dix-huit contava com o deputado federal Laíre Rosado (marido de Sandra), professor Anchieta Alves (dirigente do PDT), professor Pedro Almeida Duarte, vereador Pedro Fernandes, engenheiro Valtércio Silveira, além do publicitário Phabiano Santos. Procuravam alterar o cenário desfavorável.
Foram reforçados pelo Instituto Gama (pesquisa) de Wandenberg Pinto e o marqueteiro Aldemir Sobreira, ambos cearenses.
Faltando pouco mais de 30 dias para o fim da campanha, pesquisas internas de lado a lado apontavam números da ordem de 20 a 22 por cento de maioria, em favor de Luiz Pinto. Gradualmente a distância foi diminuindo.
Com cerca de uma semana para o pleito, havia quase empate numérico. Uma das sondagens do Gama dá Dix-huit somente um ponto percentual atrás. Seria prefeito pela terceira vez. Carlos e seus "generais", entre eles de novo o jornalista Canindé Queiroz, estavam diante de uma derrota demolidora.
A presença de Vingt na campanha em palanque (madrugada do dia 27 de setembro); a força do aluizismo assentado no PMDB; a marca de administrador competente do “Velho” e a presença envolvente do ex-governador Geraldo Melo (PMDB) na reta final (22,23 e 24 de setembro) em corpo a corpo fecharam a vitória. Complementaram-na.
Ganhou eco o bordão “Chame o Velho”, além da anticampanha que atribuía a Luiz Pinto o hábito de jogar baralho e a João Batista o ateísmo numa afronta à padroeira Santa Luzia.
Contudo foram a arrogância, soberba e vaidade que entorpeceram Carlos, Rosalba e sua equipe. Formam matriz do ocaso governista. Contaminaram a militância.
Só nos últimos dias perceberam que era tarde para tantos remendos.
Veja abaixo os números finais das eleições de 1992, no dia 3 de outubro:
– Dix-huit Rosado – 37.188 (47.79%);
– Luiz Pinto – 32.795 (42.15%);
– Luiz Carlos Martins – 6.557 (8.43%);
– Paulo Linhares – 1.273 (1.64%);
– Brancos – 5.669 (6.49%);
– Nulos – 3.913 (4.48%);
– Maioria pró-Dix-huit Rosado – 4.393 (5.64%)
O eleitorado cadastrado à época era de 99.623. Compareceram 87.395, as abstenções chegaram a 11.381 e os votos nominais atingiram 77.813.
* Leia amanhã, na terceira parte desta série, o “inferno astral” do rosalbismo que parecia sinalizar para seu fim.
Foto – Acervo do Blog do Carlos Santos.
P.S (14h de 19-09-09) – Com a ajuda do internauta Valtércio Silveira, citado nessa matéria, reparo um equívoco. Em vez de Aluízio Sobreira, já alterei para "Aldemir" Sobreira, menção a integrante de equipe do candidato Dix-huit Rosado.
Pra rir:
Secretário da Comissão Executiva do PDT,votei em Luís,mas como legalmente era membro do PDT(acho que sou,ainda),fui intimado pela Polícia Federal a comparecer em sua sede em Natal,eu,um lesado da Doze Anos,cheguei lá todo cagado,acompanhado com Bill(Ozório),lá fui mandado a entrar pra falar com o ‘delega’,usei uma estratégia,falei,”Doutor,o que ocorre é o seguinte,estou em processo de expulsão por não ter acompanhado a orientação do partido(era mentira,não havia esse processo),daí o senhor delegado me disse,”olhe é o seguinte,eu quero apenas saber sobre os horários dos comícios,que estão terminando fora do horário legal,sabe alguma coisa sobre isso?”
Eu respondi : “Quem marca o horário de início e final desses comícios,são os senhores Anchieta Alves,Carlinhos Filgueira e Sandra Rosado”
E ele : ” Anote aí estes nomes e mande chamar todos”
Se foram todos eu num sei,mas Carlinhos me procurou pra saber como tinha sido a minha audiência.kakakikaka.Homi,vá cagar!
Pra Lembrar:
O senhor que está na fotografia da primeira postagem,por trás de Rosalba,é seu Manoel então presidente do Sindicato da Costrução Civil e filiado ao PDT de Anchieta,antes de Zé Gago,hoje de Cladionor “Um Olho que enxerga o próprio bolso”
Carlos e Rosalba Sempre trairam seus patrocinadores, Carlos Augusto traiu Vingt Rosado se aliando aos Maias, depois traiu Dix-huit Rosado.
E para completar , Rosalba com ações contra ” A Gazeta do Oeste”, quase quebra o jornal do seu mentor e idelizador, Canindé Queiroz.
Textos enriquecedores para quem gosta de política e história. Para mim especialmente, tem sido um aprendizado diário e uma satisfação ler textos tão bem escritos e que retratam fielmente capítulos da história política não só de Mossoró, mas também do Rio Grande Norde, já que estão falando de grandes expoentes da política do Estado. Parabéns ao jornalista Carlos Santos!
Caro Carlos Santos, eu como um entusiasta da política estou adorando essa série de matérias sobre a Rosa, não sou contra nem a favor da postulação da médica para governadora, é um caso a ser pensado. Mas o que eu vi de mais in teressante nessas duas materias que acompanhei é a participação de nomes como o professor Chagas Silva e o professor João Batista, ambos da Uern saindo da teoria academica e buscando a prática. Muitos nomes da Academia teriam grande chance de contribuir de forma positiva para a nossa política partidária. Estamos precisando disso. Pessoas que possam mudar um pouco esse cenário repetitivo que estamos passando, para não votamos por sobrenomes o poder economico como vem ocorrendo…
kkkkkkkkkkk! LEMBRO MUITO BEM. FOI A CAMAPANHA DO CHAME O VELHO E RALE O PINTO! NO COMÍCIO DA VITÓRIA FOI MUITO ENGRAÇADO, O POVO DESCENDO O ALTO SÃO MANOEL COM RALO NA MÃO E MILHO PRA DAR AOS PINTOS E MUITA GENTE COM BENGALA NA MÃO FAZENDO ALUSÃO AO VELHO! KKKKKKKK FOI ENGRAÇADO!
Mais uma vez parabéns pela excelentíssima reportagem. Dá até para fazer um seriado global ou até mesmo uma super novela que daria um ibope altíssimo ou até mesmo quem sabe um oscar ao autor da novela, no caso, você!!
Parabéns carlos por esses textos ricos da nossa história contemponea. Somente vc teria altivez e coragem para escrever a história recente da capital Oestana. O velho costumava aparecer na Casa do Estudante de Mossoró, bons tempos aqueles da década de 90, bem q a Fátima devia si espelhar na vida do velho.
Só tenho que parabenizar por esta série de reportagens, séria e enriquecedora, uma verdadeira aula da história política recente desta provincia. Quanto aos fatos desta campanha, fico impressionado como você descreve com tamanha convicção e lucidez sobre o ocorrido àquela época. Como comentei antes, já não tinha nenhum entusiasmo pela política nem pelos políticos, mas confesso que fiquei surpreso com o resultado. Uma prova inconteste que arrogância e prepotência nem sempre prevalecem no mundo dessa ciência chamada política.
Um grande jornalista sempre zela pelo seu acervo, parabéns Carlos Santos, para tornar o texto perfeito, tenho apenas uma correção a fazer, o nome do motivador Cearense é Aldemir Sobreira e não Aluísio.
Jornalista Carlos Santos, seria uma injustiça muito grande não citar o nome de uma pessoa que nos ajudou sobremaneira naquela campanha. Apenas 03 pessoas sabiam, e veja que a ajuda era diária. Trata-se da Senhora Edith Souto.
parabéns isso e que é levar a serio a nossa historia politica!!
parabéns pela materia resgatando nossa historia politica!!
excelente suas reportagens sobre este passado politico, que vindo a tona neste momento mostram bem a faceta deste casal em destaque, é uma grande contribuição para que muitos descubram e retirem a mascara desta dupla que só pensa em poder e em acumular fortuna. amigos para eles não existe pois o poder deles é dinheiro sujo. edith
Se a senhora edith fernandes souto Falou quem é a Rosa pois a conhece muito bem, das patada que levou da Rosa, Dona Edith eu infelismente participei daquela Força joven… nas reuniões na sua casa, quando eu lembro que eu fiz aquilo…