domingo - 19/04/2026 - 06:24h

Situações inoportunas

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Achava-me no banheiro, enxugara-me parcialmente e estava prestes a passar o desodorante roll-on. Aí escuto umas pancadinhas no portão. Quem seria a essa hora? Momento de sol forte, calor demais. Imediatamente, como autoridade constituída, Juju se pôs a latir com teatral bravura, engrossando a voz de modo a me parecer autêntica protetora deste domicílio. Isso foi ontem, por volta das quatorze horas. Vesti-me da cintura para baixo com a toalha e fui ver o que havia.

Não abri, limitei-me a espiar e falar pela minúscula fresta entre o muro e o portão corrediço. Não estava em condições de receber ninguém semivestido com uma toalha. Já procedi assim algumas vezes com certas pessoas cuja voz não me pareceu familiar. Perguntei sobre quem era e o que desejava. Felizmente, talvez pela proximidade, fui logo visto e ouvido através da referida frincha. Um tanto surpreso, então, com o pouco cabelo despenteado e o corpo com bolhas d’água em determinados pontos, pude ver o recorte de um rostinho feminino. Pois é. Estava ali uma garota que se anunciou como testemunha de Jeová.

Tive, pelo timbre daquela voz, a impressão de que não tivesse nem dezoito anos. Julgando o falatório confuso do outro lado, presumi que a mocinha não estava só. Ela disse se chamar Luana e revelou que andava em companhia de outras duas moças cujos nomes não os recordo. Amigas talvez tão jovens quanto ela, quem sabe adolescentes. Indaguei de mim para comigo como alguém tão jovem possa se dizer testemunha de uma história tão velha quanto o próprio mundo.

É isso, a mocinha esperava ser recebida de maneira mais apropriada. Esforçava-se para usufruir do nosso mínimo campo de visão e diálogo. Eu não tinha o menor intuito de convidá-las a entrar, oferecer água ou café. Por isso dei um jeito de encurtar a conversa e me livrar daquela situação inoportuna para os dois lados. Uma lateral da armação dos óculos de grau dela tocava a parede do muro.

Imagino que Luana tenha visto ao menos que eu estava sem camisa. Educadamente, enfim, ela agradeceu pela atenção e disse que poderíamos conversar melhor em outra oportunidade. E lá se foram as testemunhas do Criador. Fico aqui imaginando se este relato pode interessar a quem quer que seja. Entrementes quero supor que a história sirva de exemplo, ao menos para que vejamos que ainda há neste planeta pessoas voluntariosas e de bom coração. Aquelas meninas não tiveram a chance de me transmitir a sua mensagem de fé e amor, porém acho justo fazer o registro dessas três boas almas que tentaram me catequizar na tarde de ontem.

Lembro que certa feita, há coisa de dois ou três anos, despachei sumariamente dois jovens mórmons que me encontraram em outro tipo de circunstância na qual não pude lhes dar maior atenção. Apareceram-me justamente quando eu ia chegando em casa apertado por uma perigosa dor de barriga. Argumentei às pressas sobre a impossibilidade do diálogo e por pouco não borrei as calças.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Julio Rosado diz:

    Caro cronista, oportuno foi você abordar o tema. Em 2022, vésperas do dia de celebração democrática, aqui na minha rua passou um grupo paramentado com panfletos e sombrinhas que lembravam o movimento das incompreendidas Testemunhas de Jeová. Não se apresentavam como tal, mas se diziam religiosos mobilizados para pregar por um país melhor e insistiam nos portões entre palmas e toques de campainha até serem percebidos.
    Ante alguma negativa em recebê-los, se ofereciam para apresentar uma palavra de orientação ao morador. Acontece que esta leitura não era aleatória. Ante o clima de polarização que foi criado em nosso país, coincidentemente, o versículo sorteado para leitura em cada casa era Eclesiastes 10:2.
    Respeitosamente, de dentro do meu muro, ouvi e entendi que, o versículo tirado de seu contexto como fora, se trataria de uma mal disfarçada tentativa de manipulação eleitoral. Contudo, educadamente, não me contive e sugeri que alternassem a leitura com Deuteronômio 5:32.

  2. Bernadete Lino diz:

    Situações inoportunas, todos passam por elas. A vontade seria ficar invisível. Como isso não acontece, a gente tenta ter o mínimo de gentileza, em respeito a essas pessoas que usam parte do seu dia para passarem adiante uma palavra de fé. Devem passar alguns dissabores para cumprirem as suas missões.

    • Marcos Ferreira diz:

      Cara amiga Bernadete,
      Sua mensagem compreensível é necessária e bem-vinda. Muito obrigado. Uma semana de muita saúde e paz para você.
      Abraço.

  3. Airton Cilon diz:

    Caro escritor Marcos Ferreira, acredito que o amor da minha vida, era uma testemunha de Jeová, a qual eu nunca abri a porta… Abraço

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