domingo - 11/05/2025 - 10:26h

Depoimento – XV

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 21-1402/2022

NATUREZA: DENÚNCIA DE CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO IMATERIAL

DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE JUNHO DE 2022

COMUNICANTE: LÚCIA EMÍLIA SILVEIRA DE ANDRADE E ALVAREZ

A senhora Lúcia Emília Silveira de Andrade e Alvarez Cabral, sessenta e cinco anos, casada, doutora em letras, professora aposentada, escritora e acadêmica imortal da Academia de Letras de Tugúrio, cadeira número dezesseis, e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia para oferecer denúncia, perante mim, escrivã de polícia, sobre fatos dos quais diz ter notícia. A depoente solicitou que se registrasse que possui competência intelectual, profissional e moral amplamente reconhecida nos devidos meios para avalizar a notícia crime que veio oferecer junto a esta delegacia e seu testemunho deve ser considerado inconteste e prova de si mesmo, para o bem da cultura e defesa do patrimônio imaterial deste país. Disse que tem conhecimento de fato atentatório contra o patrimônio imaterial e cultural do nosso povo que põe em risco a simbologia e ritualística literária dos acadêmicos e imortais, tanto aqui quanto no país de Camões. Acrescentou que o fato sobre o qual pretende se queixar veio a seu conhecimento recente e tão logo tomou ciência, decidiu, pelo dever que impera sua digna condição de acadêmica imortal, literata e jurada defensora da língua portuguesa, oferecer denúncia para que a intenção ofensiva dos seus autores não prospere nem dê frutos. Que soube do fatídico por ter sido convidada a participar de importante concurso literário nacional, na qualidade de juri, graças ao reconhecimento de sua dedicação às letras. Que, graças ao convite, tomou ciência do que as mentes ansiosas por notoriedade e oportunidade de visibilidade estão a produzir. A depoente exigiu que não fosse usado o gerundismo para a transcrição do seu depoimento. Satisfeita com a promessa e esforço desta escrivã, disse que, em virtude da referida participação, da ânsia pela inovação e desprezo pela nossa cultura, percebeu que há excessivos desvios de mentalidade e do bom uso da nossa língua, fazendo com que estilos muito bem determinados enfrentem uma avalanche anarquista de ataques. Que, do mesmo modo que um soneto é o que é, pela sua forma, ou um cordel não pode ser uma trova, pelas mesmas razões, um conto é o que é por sua estruturação. A nossa academia tomou, desde as sábias e irretorquíveis palavras do grande folclorista nacional, o imortal potiguar Câmara Cascudo, a estrutura destas peças, que são os dois mais nacionais estilos literários, o conto e a crônica, e com isso, o assunto está encerrado. Não há mais o que discutir. Assegurou que se encontrava habilitada para fornecer informações complementares sobre esse estrutura, caso fosse preciso e requisitada. O delegado achou por bem dispensá-la dessa obrigação e pediu para se ater aos fatos. A depoente exigiu que ficasse registrado nesta ocorrência que não concordava com a visão positivista de sua excelência sobre a redutibilidade fatídica do relato policial, mas que se compromete a atender seu pedido. Retomando a narrativa, disse que, graças à sua participação no concurso, tomou conhecimento da preferência de alguns literatas, como o doutor José Roberto Alves Barbosa, que ameaçam a solidez dos nossos rituais de escrita e bens imateriais. Que o acadêmico está a fazer concessões à neoliteratura que subvertem a estética da língua culta e bem trabalhada em favor da linguagem ordinária. Que a presente denúncia se sustenta em virtude de saber que esse acadêmico está a considerar positivamente produção de um ignoto Ayala Gurgel, que reuniu sob sua autoria uma contoria na forma de boletins de ocorrência, profanando uma coisa e outra, não é conto nem boletim de ocorrência. Que, se todo esse liberalismo for permitido, o que se pode prever não é o melhor cenário para a manutenção dos costumes mais arraigados de tão alta estilística literária. É perceptível o risco que nosso patrimônio corre, tendo que inserir na contologia contemporânea escreveniências banais como receitas médicas, anamneses, correções de provas, laudos periciais, e tudo o mais que for escrito mesmo sem a menor ou qualquer intenção literária. Estaríamos a erigir à condição máxima da obra de arte que dignifica a nossa língua casos da linguagem comum, só porque no passado algumas pessoas de destacado talento fizeram isso com as cartas. Que, para o bem da proteção da nossa cultura e defesa do nosso patrimônio imaterial, o devaneio que ora se instaura deve ser impedido e limites precisam ser impostos. Por fim, solicitou que os acusados sejam intimados e o trabalho do neoliterata desacreditado enquanto ainda há tempo para evitar que dê frutos. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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domingo - 27/04/2025 - 11:30h

Depoimento – XIII

Por Ayala Gurgel 

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B.O: N° 10-6492/2020

NATUREZA: DENÚNCIA CRIME – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 08 DE AGOSTO DE 2020

COMUNICANTE: KELLY ANNE SORAYA DE ARRUDA MATIAS

A senhorita Kelly Anne Soraya de Arruda Matias, vinte e um anos, solteira, vendedora, universitária e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia e declarou, perante mim, escrivã de polícia, o desejo de prestar queixa de forma não identificada contra o senhor Félix Roberto Diniz Dantas por maus tratos e violência doméstica contra Débora de Almeida Dantas, cônjuge do denunciado. A depoente diz que, no início desta noite, por volta das dezoito horas e quarenta e cinco minutos, fez uma vídeo chamada para a senhora Débora de Almeida Dantas, com a qual mantém relação de amizade e compartilha o mesmo curso na faculdade, para falar sobre a aula da manhã de hoje, uma vez que a amiga faltou e o professor passou atividades para serem desenvolvidas em grupo e entregues até a próxima quarta-feira, dia treze de maio. Queria saber da amiga se desejava ficar no mesmo grupo que ela. Que não é incomum as duas se falarem, inclusive por meio de vídeo chamada, bem como realizarem atividades em grupo, o que ocorre desde o colegial, mas não é normal a amiga faltar às aulas sem avisá-la; que isso nunca aconteceu e essa foi a principal razão para procurar falar com ela. Que se lembrava de fato importante que pode também tê-la motivado a fazer a ligação, mas prefere falar adiante, pois quer primeiro narrar como foi a ligação. Que sua primeira tentativa de vídeo chamada resultou em vão, e que ela não sabe se foi porque o celular da amiga estava sem rede ou ela não pôde ou não quis atender, visto que não há como saber sobre isso. Diante da dúvida, não aguardou e enviou mensagem de texto na qual explicitou a necessidade de falar com ela sobre a última aula e o trabalho que precisava ser feito com urgência. Quase cinco minutos depois recebeu como resposta apenas um “ok”. A depoente mostrou ao delegado de plantão a tela do seu celular com a conversa aberta, para atestar o hiato temporal entre a mensagem enviada e a resposta recebida. Em seguida, a depoente narrou que, pouco depois, seu celular começou a vibrar, anunciando o recebimento de uma chamada de vídeo. Era sua amiga, Débora de Almeida Dantas. A depoente disse que a amiga estava sozinha no vídeo, na cozinha de casa, mas achou estranho porque a imagem se mexia um pouco, como se o celular estivesse apoiado em algum lugar que balançava ou alguém o estivesse segurando, enquanto gravava. Que aquilo era o tipo de coisa que sua amiga não costumava deixar acontecer, pois sempre usava o tripé e procurava um enquadramento que a valorizasse. A amiga, que sempre aparecia bem arrumada nas chamadas, mal havia se penteado. Aquilo não parecia coisa dela, ou coisa normal, pelo menos, mas, superado a impressão inicial, a depoente continuou a conversa. Disse que explicou sobre a atividade que deveria ser feita e como ela tinha pensado na distribuição do conteúdo, pois seriam quatro colegas na mesma equipe. Como notou apatia na sua amiga e vez outra um corte na fala, como um engasgar ou para engolir algo, ela perguntou se estava tudo bem, ao que ouviu como resposta que sim, e justificou que estava apressada porque ela e Félix Roberto estavam conversando sobre algumas coisas que precisavam em casa. A depoente disse que ao ouvir aquilo, cismou que houvesse algo de errado, pois conhecia a amiga há muitos anos e acompanhou o namoro dela com o atual marido desde o início. Sabia o suficiente para ter certeza que ela não gostava de chamá-lo Félix Roberto, a não ser que houvesse muita raiva ou alguma coisa muito séria. Que ao ouvir a amiga se referir ao marido pelo nome composto, foi tomada pela desconfiança que tinha algo de errado e precisou tirar suas dúvidas. Disse que tem ciência dos riscos aos quais as mulheres estão sujeitas e que o marido vinha tendo crises de ciúmes recentes depois que ela entrou para a faculdade. Que, em primeiro lugar, quis saber se o marido estava por perto, e, para tanto, falou apenas que mandava um abraço para ele, o que obteve como resposta um indiscreto “dou sim, ele está bem aqui”. Como não podia perguntar mais nada de forma direta e percebeu que a amiga estava querendo encerrar a ligação, que ela supôs por pressão do marido, a depoente disse que se lembrou de um código que as mulheres da sala tinham combinado para caso alguma estivesse em perigo, que chamaram de “o tchau do perigo”. A depoente disse que anunciou que ia finalizar a ligação e falou para a amiga não se esquecer do “nosso tchauzinho”. Que, para sua tristeza, foi exatamente o gesto que a amiga fez. Naquele instante, a depoente tirou todas as dúvidas e tem certeza que a amiga está em perigo, razão pela qual veio às pressas a esta delegacia prestar queixa e pedir providências imediatas. Insiste a depoente que o fato de sua amiga ter se referido ao marido pelo nome composto e feito o sinal de socorro no vídeo é um claro indício de que a vida dela corre perigo. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

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domingo - 20/04/2025 - 08:36h

Depoimento – XII

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 19-1402/2022

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 23 DE MAIO DE 2022

COMUNICANTE: VICTOR RODRIGO DOS RAMOS

O senhor Victor Rodrigo dos Ramos, conhecido popularmente como Neto de dona Zefinha, trinta e oito anos, casado, trabalhador rural e autônomo, residente no Distrito Oiticica, pertencente a esta freguesia, compareceu a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, fatos ocorridos naquele distrito dos quais é testemunha. O depoente disse que conhece seu Nanô, como é chamado o senhor Juvenal Olympio de Vaz e Sousa, há mais de vinte anos, desde que começou a trabalhar na residência dele como um faz-tudo e sabe da fama que ele tem na Oiticica de ser considerado o pior velho do mundo. Disse que a fama é justa e, de fato, o velho não saía de casa para nada, nem se dava bem com a vizinhança ou com qualquer outro morador da região. Que as poucas vezes que pôde trocar algumas palavras com ele foram sobre o serviço a ser feito ou o pagamento, mas o trabalho na sua casa foi o suficiente para ficar sabendo que ele nunca se casou e gosta muito de anjos. Que começou a desconfiar desse gosto quando notou que havia para mais de cem peças de anjos na casa, entre quadros e estatuetas. Que há anjos de vários estilos diferentes, desde os gordinhos e bonitos até anjos feios, magrelos, mais puxados para o capeta do que para as coisas de Deus. Que dona Ritinha de Deoclécio falou para ele que se não fossem cinco bocas que tem para alimentar não pisava na casa daquele velho nem para fazer caridade. Ela morria de medo dos anjos mais esquisitos e, às vezes, deixava de limpá-los. Que não tirava a razão dela nem das outras pessoas que não gostam de passar em frente à casa de seu Nanô. Que entende até mesmo as Testemunhas de Jeová, que desistiram de tentar visitá-lo. Que seu Nanô é muito casmurro e ninguém gosta dele, por isso foi um espanto geral quando o povo viu, no Domingo de Ramos, que o velho havia decidido sair de casa e ir à igreja. Disse que ficou pasmo quando viu seu Nanô entrar na igreja com um ramo na mão e depois se dirigir à fila da procissão. Só acreditou no que estava vendo depois de ficar muito tempo olhando. Pensou que pudesse ser uma pessoa muito parecida com o velho ou estivesse vendo assombração. Que teve dúvidas e perguntou a seu Raimundinho, que estava ao seu lado, se era mesmo seu Nanô quem estava ali diante deles, para saber se não era mal-assombro. Que Raimundinho ficou com dúvidas, pois não via o velho há muito tempo, e disse que se havia uma pessoa que poderia confirmar ou não se aquele era o velho, essa pessoa era ele. Que, diante daquela incerteza, procurou dona Ritinha de Deoclécio, mas ela não estava na igreja, e só desfez a dúvida depois de muito olhar e perceber que ele falava com outras pessoas, dando as horas, e elas estavam lhe respondendo. Não era o único que estava vendo o velho e se convenceu de que não era assombração. Aquilo mexeu com sua cabeça e também com a das outras pessoas e quase ninguém acreditou que se tratava de seu Nanô, mas era ele mesmo. Disse que o novo comportamento se fez observar durante a semana inteira, pois na segunda-feira o velho foi ao comércio local e comprou todos os ovos de chocolate, coisa que os comerciantes acharam bom, pois os ovos estão muito caros neste ano e eles já contabilizavam o prejuízo. Que ele mesmo já havia anunciado a seus filhos não ter condições de dar ovos de páscoa para nenhum deles, por mais que isso fosse dolorido. Que a solução foi comprar chocolate e fazer os ovos em casa. Que assim foi feito e agradece muito a Deus por sua esposa ter tido a ideia, pois foi a salvação. Muitos pais ficaram surpresos e felizes quando viram que seu Nanô começou a distribuir os ovos que havia comprado à todas as crianças da Oiticica, sem fazer qualquer discriminação. Na porta da casa do velho, na tarde da quinta-feira santa, tinha mais menino em busca de ovos que na missa do lava-pés. Seus filhos ficaram tristes porque não puderam pegar nenhum ovo. Souberam tarde demais, mas ele se comprometeu a falar com seu Nanô e, caso ainda tivesse algum, iria pedir. Que a ação de seu Nanô foi tão comovente que muitos ficaram sentidos e a maioria simpatizou com a atitude. Um ou outra falou que era um milagre, afinal o acontecimento se dava na semana santa, no ano que Deus já havia acabado com a pandemia e estava de bem com o povomandando chuvas ao sertão. Que essas não foram as únicas conversas que ouviu. Também soube de pessoas dizendo que era psicológico, quando o homem está diante da morte fica com a consciência mais pesada, ocasionando mudanças no fim da vida. Dona Ritinha de Deoclécio falou a ele que aquilo só podia ser fruto de uma paixão escondida. Ouviu também o boato que Zé de Luzia, o vereador local, havia falado com o prefeito para fazer uma homenagem a seu Nanô, que tanto estava fazendo pelas crianças da Oiticica num ano tão difícil. Que soube de todo esse rebuliço e não sabia explicar o que realmente levou seu Nanô a fazer o que fez, mas começou a desconfiar, no domingo de páscoa, quando as crianças mais novas começaram a morrer. A coisa ficou feia com os pais desesperados, sem saber o que fazer, colocando a culpa numa nova pandemia. Que já haviam morrido oito crianças. Que tudo piorou e começou a fugir do controle quando alguém divulgou no grupo do WhatsApp que o médico legista diagnosticou que as crianças morreram por infecção ou, mais grave, por envenenamento. Assim que isso começou a ser divulgado, as pessoas suspeitaram logo de seu Nanô e correram à casa dele, para atear fogo com o velho dentro. Que isso só não aconteceu porque a guarda local acalmou a população. Que o depoente foi um dos primeiros a chegar ao local e chamou pelo suspeito, mas nada ouviu em resposta, e repetiu várias vezes, com batidas fortes na porta e na janela lateral. Que, incentivado por populares e pela guarda municipal, adentrou o recinto pela janela lateral, e, por conta disso, foi ele quem encontrou seu Nanô morto, com o seguinte bilhete: “não quis chegar lá sozinho, por isso levei alguns anjinhos comigo”. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

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domingo - 09/03/2025 - 09:22h

Depoimento – VI

Por Ayala Gurgel

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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B.O: N° 06-6492/2020

NATUREZA: NOTÍCIA SOBRE AÇÃO CRIMINOSA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE ABRIL DE 2020

COMUNICANTE: JOSÉ JOAQUIM EFRAIM DA SILVA BRITO

O senhor de nome José Joaquim Efraim da Silva Brito, vulgo Zé Brito, vinte e nove anos, divorciado, porteiro, residente nesta freguesia, compareceu de livre e espontânea vontade a esta delegacia para narrar, perante mim, escrivã de polícia, notícia da qual diz ter conhecimento sobre a verdadeira razão da morte do senhor José de Ribamar da Anunciação, porteiro falecido e ex-ocupante do cargo do qual o depoente diz ter se desligado na manhã de hoje. O depoente disse que assumiu a função de porteiro no Residencial Portal do Paraíso há dois dias e na noite de ontem teve seu primeiro plantão noturno. Que assumiu essa vaga após a morte do referido porteiro, que o antecedeu e foi encontrado morto no local de trabalho, ao amanhecer do dia. Que a causa da morte foi dada como natural, mas ele tem informações fidedignas a repassar que o levam a crer que a morte do colega de profissão não foi de causa natural. Disse que há nas filmagens armazenadas do condomínio em questão as provas que a delegacia precisa e pede que sejam solicitadas ao síndico com a máxima urgência. Que este tem o hábito de apagar as filmagens pela manhã cedo, dizendo que não gosta de guardar imagens da noite, a não ser que haja algum crime ou ato obsceno. Que é sobre as filmagens que pretende falar, mas que para isso precisa explicar como é o sistema de vigilância eletrônica do condomínio. Que há câmeras espalhadas por quase todos os lugares, da entrada do prédio aos corredores, passando pelos elevadores, e que só não há câmeras nos banheiros, dentro da guarita, dos apartamentos e nas escadas que ligam um piso ao outro. Que os corredores são bastante longos. Que há trinta unidades por andar, quinze de cada lado. O depoente fez questão para que registrasse que, apesar de todo esse sistema de monitoramento, a iluminação em alguns corredores é precária, pois muitas lâmpadas foram desligadas para economizar energia e em alguns pontos o sensor de presença não funciona, de modo que as câmeras nem sempre capturam uma boa imagem do que aconteceu. Dito isso e verificado que foi anotado por mim em seu depoimento, o depoente continuou e disse que na noite em que estava na guarita tinha como olhar pelo monitor as imagens produzidas pelas câmeras e numa delas viu passar um vulto, mas não se preocupou, pois na hora pensou que pudesse ser apenas uma criança correndo ou alguém andando rápido. Que viu novamente o vulto, e desta vez estava parado no final do corredor, no sexto andar, que é mal iluminado, e lhe chamou a atenção o fato de o vulto estar de camisola, dessas que só velho ainda usa, e parado. Disse que pensou ser alguma senhora de idade que ficou presa fora do apartamento, ou pior, sonâmbula. Que, com o intuito de ajudar e interfonar para o apartamento correto, selecionou a câmera que capturava a imagem e ficou de olho, tentando identificar ou entender o que se passava, mas não havia como dar mais zoom e a iluminação não era boa. Para sua surpresa, num piscar de olhos, o vulto sumiu. Que imaginou na hora que pudesse ter sido um delay da imagem. Que a câmera tivesse parado de funcionar e quando voltou ao normal a pessoa já tivesse conseguido entrar no apartamento. Por conta disso, relaxou, mas não demorou, o vulto tornou a aparecer, na mesma posição, no corredor do andar de baixo, que também é mal iluminado. Que ficou pensativo e focado naquilo, até porque não havia outra coisa com a qual se preocupar, a noite estava calma e chuvosa. Que, com a câmera fixa, percebeu que o vulto se movimentava vagarosamente, como se não mexesse os pés, em direção às escadas, mas sempre que acontecia alguma interferência estática, a imagem borrava e o vulto sumia, até que viu, numa imagem melhor, que o vulto andava pelo corredor do terceiro andar. Ao ser indagado, disse que não tinha como saber se era homem ou mulher, mas como estava de camisola e touca, concluiu que se tratava de uma senhora. Que percebeu um padrão nas imagens: que o vulto aparecia, andava lentamente em direção às escadas, acontecia um pouco de estática, sumia e reaparecia no andar de baixo. Sempre aparecia próximo às escadas, na ponta do corredor, quando começava a atravessar o corredor. E foi assim até chegar ao primeiro andar. Como nas escadas não há câmeras, ele deixou as do primeiro andar e as do térreo, que dão para as saídas das escadas, fixadas no monitor. Desta vez não havia como sumir, pois o vulto voltava para o corredor de onde tinha saído ou apareceria no térreo, pelas escadas. Que isso demorou de dez a quinze minutos e não apareceu nada. Que desta vez não teve estática e as imagens estavam boas, e não havia como se esconder, a pessoa só podia estar parada nas escadas, mas fazendo o quê, se perguntava. Disse que estava decidido e não tiraria os olhos do monitor enquanto o vulto não aparecesse novamente, nem que passasse a noite inteira olhando parra as telas. Que assim estava, quando sentiu a presença de alguma coisa. O ar ficou mais frio e ouviu uma respiração pesada em suas costas. Ficou com muito medo de se virar, pois tinha certeza que era o vulto atrás dele. O depoente disse que, congelado de medo, começou a rezar um Pai Nosso e pediu a proteção da Virgem Maria. Disse que tinha certeza que aquela seria sua última noite na terra. Aquele vulto estava ali para matá-lo. Estava só esperando ele se virar. Que aquilo demorou mais de meia hora, até que um trovão estourou nos céus e ele pensou que era chegada a hora. Quepara a sua sorte, não foi o que aconteceu. Quando o som dissipou, não havia mais nada, não sentia nenhuma presença, mesmo assim, não olhou para trás em nenhum momento. Na manhã seguinte, mal esperou o síndico aparecer, pediu demissão e veio direto a esta delegacia. Por fim, o depoente disse que tem certeza sobre a forma da morte do porteiro que o antecedeu, que foi a coragem dele de se virar para trás que o matou. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

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Depoimento – II

Por Ayala Gurgel

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

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B.O: N° 02-7871/2019

NATUREZA: COMUNICADO DE AÇÃO CRIMINOSA OU SUSPEITA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 22 DE NOVEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: MARIA DO ROSÁRIO ANDRADE FREITAS

A senhorita Maria do Rosário Andrade Freitas, conhecida pela alcunha de Rose Mary, quarenta e dois anos, solteira, empregada doméstica e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia de polícia acompanhada de advogado, devidamente identificado, e solicitou ser ouvida pelo delegado responsável. A depoente narrou, diante de mim, escrivã de polícia, que trabalhou nos Estados Unidos por dez anos, onze meses e seis dias, sendo os últimos dez anos e cinco dias na mesma residência, que disse pertencer a um capelão do presídio do condado de Riverside, Califórnia, de onde partiu, após a morte dele. Que começou a trabalhar naquela residência um mês depois que seu patrão assumiu o posto de capelão e que ele lidava diretamente com os condenados que estavam no corredor da morte. Que era um homem respeitado, amado pela comunidade, levando uma vida cristã exemplar e participava de eventos de caridade. Deu como testemunho da boa fama dele o fato de que não apenas a igreja de Riverside o convidava para pregações e orientação de retiros, como também as igrejas de condados vizinhos. Não poucas vezes, disse a depoente, o capelão passava a semana fora, administrando retiros espirituais, e que, quando isso acontecia, ela ficava sozinha, na casa que pertenceu a ele, visto que confiava nela. Do ponto de vista físico, era bonito, alto, branco, asseado, com dentes ajeitados e voz calma e grossaboa de ouvir. Acrescentou que não sabe por qual razão um homem daquele porte não tinha se casado, e jurava, pela hóstia consagrada, que não era gay. Ao dizer isso, a depoente fez questão que constasse que ele vivia de forma celibatária e não havia nada que maculasse a honra dele como pastor e guia daquelas almas condenadas por crimes tão horrendos, a ponto de merecerem pena de morte. Que chegou à casa dele por meio de uma agência na qual ela trabalhou nos Estados Unidos e deveria ser um trabalho rotativo, como nas outras residências, mas ele exigiu mudança no contrato e ela ficou fixa, como doméstica. Que o trabalho do capelão junto aos condenados era o de levar conforto espiritual. Que mais de uma vez ele contou a ela sobre detalhes da missão, como fazia com cada um, sobre o que conversavam e como pedia que os condenados escrevessem cartas para Deus, nas quais deveriam confessar os crimes, e outras para as famílias das vítimas, declarando o arrependimento, ou, pelo menos, contando o que elas desejavam saber. Que o capelão lhe contava que as famílias, às vezes, queriam apenas saber onde estava o corpo, se a vítima tinha sofrido, quais foram as últimas palavras ou se o criminoso havia se arrependido do que fez. Que ele ouvia das famílias quais eram seus desejos e repassava aos condenados, com esperança de que lhes escrevessem ou dissessem algo que pudesse levar conforto aos enlutados. Que alguns condenados aceitavam escrever tais cartas, tanto aquelas endereçadas a Deus, confessando os crimes, tudo nos mínimos detalhes, tal como o capelão solicitava, quanto as endereçadas às famílias, de acordo com o que elas pediam. Que isso durou todo o tempo em que ele serviu no presídio. Em seguida, a depoente disse que a razão de estar na delegacia hoje, na presença de seu advogado, é que tem a intenção de devolver a quem de direito as cartas, que estão sob sua custódia desde que deixou a casa do falecido, dias depois da sua morte. Que foi ele mesmo que pediu em segredo para que ela não deixasse que as cartas viessem a público caso algo de ruim lhe acontecesse, e ela apenas cumpriu sua vontade, mas agora, passado o tempo que passou, se arrepende. Que não sabe exatamente como ele morreu, mas ouviu que foi infarto. De acordo com a depoente, ela ficou com as cartas e muitas memórias ruins do que viu naquela casa e não acha mais certo manter o segredo, de modo que decidiu confessar tudo à polícia e não pretende voltar aos Estados Unidos. Que hoje só consegue dormir à base de remédios e já pensou em se matar. Que as cartas endereçadas às famílias nunca foram entregues, embora o capelão tenha repassado uma ou outra informação aos interessados, dizendo tê-la obtido de ouvido. As cartas endereçadas a Deus, que ela chegou a ler algumas, são de perturbar qualquer alma cristã com tanto mal que há nos detalhes descritos. A depoente contou que o capelão ficava com as cartas para deleite próprio. Que lia e relia diversas vezes, enquanto tomava vinho. Que mais de uma vez presenciou ele cheirando o papel e se masturbando enquanto lia as cartas. Que, nessas horas, não era o mesmo homem que estava acostumada a ver como um amado pastor de almas, era outra pessoa, da qual tinha medo e não se atrevia sequer a lhe dirigir a palavra, menos ainda fazer qualquer comentário sobre o que viu. Que foi ele mesmo que chegou junto a ela e explicou o que fazia: aquelas cartas eram a única forma de obter prazer na vida. Era por meio delas que ele se sentia vivo, como se os crimes tivessem sido cometidos por ele, com a diferença de que não era ele que estava no corredor da morte. Que ele acompanhava a vida de cada um daqueles infelizes como se fosse a sua, se imaginando no lugar deles em cada cena do crime, cada gesto, cada sentimento. Tão logo o condenado era executado, procurava outro, para reviver tudo de novo. A depoente também disse que nunca falou com ninguém sobre o assunto com medo de colocar a própria vida em risco. Que ele não dizia nada, mas ela se sentia ameaçada pelo jeito que contava seus segredos. Que até hoje tem medo que ele possa perturbá-la, nos sonhos ou como alma penada. Que vai à missa todos os domingos e ao psiquiatra a cada três meses com a intenção de sair dessa situação e ter uma vida normal. Que ouviu o conselho do advogado e por isso veio entregar tudo o que tem e dizer tudo o que sabe. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

Leia também: Depoimento (02/02/2025)

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Categoria(s): Conto/Romance / Crônica
quinta-feira - 31/01/2013 - 10:58h
Trágico

Incidente em Hospital da Mulher vira um “BO”

O incidente de ontem à porta do Hospital Materno-Infantil Parteira Maria Correia (Hospital da Mulher), em Mossoró, terminou como começou: em caso de polícia.

Representantes da Cosern registraram um Boletim de Ocorrência (BO) em delegacia localizada no bairro Nova Betânia.

O caso seria até picaresco, não fosse em verdade trágico.

Veja AQUI.

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Categoria(s): Saúde
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