domingo - 25/02/2024 - 08:02h

Pequeno burguês de esquerda

Foto: I Stock

Foto: I Stock

Por François Silvestre

Certa vez, um comentarista do Blog Carlos Santos, pensando me agredir, chamou-me de ex-comunista. Eu respondi confirmando, para desencanto dele. Disse, na época, que concordava com a afirmação. E que fora de fato comunista, ou pelo menos pensava que o fora.

Digo que pensava porque havia quem não me considerasse como tal. Isso mesmo. Os comunistas tradicionais, da cartilha stalinista, nunca me consideraram comunista. À exceção dos quadros do PCR. Nomes importantes da resistência democrática. Lembro agora Emmanoel Bezerra, Manoel Lisboa, Leonardo Cavalcanti, Dionary Sarmento. Os dois primeiros mortos sob tortura, os outros dois presos e torturados. Mas isso é outra história.

O certo mesmo é que o comunismo sino soviético foi uma tragédia fantasiada de alternativa. Tragédia não apenas pela prática da violência, mas pelo delito histórico de ter ofertado ao capitalismo a bandeira das liberdades fundamentais. Presente indevido a presenteado imerecido. O capitalismo foi e sempre será o regime da exploração humana.

Toda crítica do capitalismo à violência, à opressão, e à miséria é tão somente um estuário de hipocrisia e farisaísmo. Hipócritas e exploradores da condição humana. O sinosovietismo deu ao capitalismo sobrevida e argumentos. Mas não conseguiu lhe dar vergonha.

O comunismo morreu para o capitalismo continuar matando.

Então, isso dito, reafirmo como verídica a crítica dos stalinistas sobre mim. De fato eu sou o que eles disseram que eu era. Apenas um pequeno burguês de esquerda. Ou como disse Ângelo da Costa Neto, filho de seu Luis Lino, sou um esquerdista cervegista. Não consegui até hoje enxergar dignidade humana no capitalismo.

É isso aí.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/01/2024 - 13:26h

Para evitar populismo, capitalismo terá que evoluir

Por Ney LopesFome, mãos com pão, flagelo, pobreza

Uma questão em debate no mundo é o futuro do capitalismo, que é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e sua exploração com fins lucrativos

Nos últimos anos, surgiram várias ideias e propostas para renovação do capitalismo, que vem sofrendo desgastes. A questão mais delicada é o aumento das desigualdades sociais.

Em alguns países, essa lacuna está cada vez mais ampla. O Brasil é um deles.

Vejamos alguns números, baseados no índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini como um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo.

O índice aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.

No Brasil, a pobreza atinge 31,6% da população no Brasil, diz IBGE

O rendimento médio mensal per capita dos 10% mais ricos é também 14,4 vezes maior do que os 40% mais pobres. Por outro lado, mais de 7,5 milhões de pessoas vivem com renda domiciliar per capita inferior a R$ 150 por mês. Incrivelmente neste contexto, quem ganha menos paga mais impostos no Brasil

Entre os 5% mais pobres, a renda média mensal per capita foi de R$ 87 em 2022. A despeito do valor abaixo de R$ 100, esse resultado representa uma expansão de 102,3% em relação aos R$ 43, de 2021 (a preços de 2022).

Os dados estatísticos indicam que os 10% mais ricos no Brasil, que em 2019 concentravam 58,6% de toda a renda nacional, agora detém 59% dos ganhos. Já a metade da população mais pobre representa uma fatia de 10%.

O 1% mais rico do Brasil, formado por 1,5 milhão de pessoas, controla quase 25% da renda total do país.

Não se trata em absoluto de “demonizar” a riqueza. Apenas, conciliar as ações, de modo que o próprio crescimento da economia seja pensado como um crescimento também pró-pobre.

Ou seja, um crescimento, que puxe a renda da base ao invés de beneficiar essencialmente o topo, como vem ocorrendo.

É sem lógica a afirmação de que a riqueza vem do trabalho e a pobreza de quem não quer trabalhar. Essas situações existem, mas não são regra geral, nem podem servir de orientação única para os governos.

As pessoas e empresas precisam de medidas de sucesso, que não sejam simplesmente o lucro e crescimento.

O capitalismo injusto põe em risco a democracia. Abre espaço para o populismo inconsequente, que cresce diante das contradições da sociedade.

Não há milagre nas finanças públicas, como igualmente não há nas finanças privadas.

Aumentar a progressividade da tributação – ou seja, cobrar mais de quem ganha mais – é uma das medidas necessárias para promover a distribuição de renda.

Os países da OCDE, templo do capitalismo mundial, agem assim.

Para resolver o problema fiscal, o Brasil precisa ter redução de gastos, realocação de gastos, mas também aumento de arrecadação. Para evitar o aumento de carga tributária, realmente já elevada, que seja cobrado imposto de quem está pagando pouco.

Há bilionários no mundo, quer têm uma associação e pensam assim.

Carol Winograd e seu marido, Terry, são exemplos na Califórnia. Ela declarou:

“Acho que milionários e principalmente bilionários têm mais para dividir, enquanto há muita gente que tem menos do que precisa. Os recursos precisam ser divididos melhor. E isso (desigualdade) está se tornando um problema mais grave nos últimos anos”.

A declaração será coisa de comunista, como sempre alegam os superconservadores?

O capitalismo é realmente um sistema econômico que preserva as liberdades individuais, já evoluiu em várias etapas da história, por isto sobrevive.

No futuro, terá que evoluir ainda mais.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

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segunda-feira - 01/05/2023 - 18:30h
A moeda e o medo

Voltando e revendo…

Por François Silvestre

a numismática na mitologia.

Caronte, o barqueiro da mitologia grega (Reprodução)

Caronte, o barqueiro da mitologia grega (Reprodução)

“Quatro rios há nos espaços tenebrosos e subterrâneos dos Infernos: o Estige, o Aqueronte, o Cocito e o Flegetonte ou Piriflegetonte. Os três primeiros levam suas águas lentas, através de marnéis, pântanos e volutabros infectos, cobertos de tristes plantas aquáticas, a gargantas estreitas, onde o ruído das águas se torna espantoso. O quarto rola ondas de enxofre e fogo, arrastando no seu curso rochedos retumbantes”.

“Às bordas do Estige vêm dar as sombras dos que deixaram os corpos na região das luzes. Sobre a onda imóvel desliza, sem cessar, sem ruídos, uma barca com a madeira podre, suja, dirigida por horrenda criatura”.

É Caronte, o barqueiro do inferno. Eram três irmãos. Caronte, Hipnos e Tânatos. (o barqueiro, o sono e a morte).

É assim que Tassilo Spalding inicia o verbete que define e expõe à visão gráfica a figura símbolo do que seria o capitalismo numismático na mitologia.

E informa que o filho de Érebo e da Noite, desconhecido de Homero e de Hesíodo, era um deus ancião, mas imortal. Velho, repugnante, intratável e avaro.

Para realizar a travessia dos mortos à outra banda do Estige ou do Aqueronte, cobrava três óbolos, a menor das moedas, que valia uma sexta parte do dracma.

E só carregava os que tinham merecido a honra do sepultamento. Cujas almas, desligadas, tinham a posse das moedas que lhes garantiam a travessia. As despossuídas vagavam pelas margens dos rios citados, até que um dia conseguissem o pagamento da travessia.

A descrição de Caronte e suas atribuições compõem o mais perfeito retrato do capitalismo e suas navegações pela história humana, a cobrar de cada um os óbolos de sua ganância e devolver a cada um a travessia no barco podre de Caronte.

Quando vejo um rico perdulário ou muquirana, esbanjador ou mealheiro, enojar-se com a palavra socialismo, eu compreendo. O que não compreendo é ver um pobre esganar-se de admiração ao capitalismo.

O socialismo, minha gente, nada tem a ver com pilantras que se definiram comunistas. O socialismo é Marx, não é Stalin.

O socialismo é Francisco de Assis, Thomaz de Aquino, Padre Vieira, Portinari, Vulpiano Cavalcanti, Carlos Prestes, Djalma Maranhão, Gandhi. não é Chaves, Fidel, Ortega, King Jong-Un ou Brejnev.

Caronte não recebia, por proibição olímpica, seres vivos na sua barca. O capitalismo não recebe seres livres nos seus negócios. Todos são livres, no capitalismo, para servirem aos capitalistas. Fora daí, a liberdade é apenas uma figura retórica. Onde se avolumam nas margens dos rios podres as almas despossuídas de óbolos.

Caronte pagou com a perda de função, durante um ano, por ter transportado Hércules, ainda vivo, e o fizera movido pelo medo.

Aí estão os dois instrumentos do aparato capitalista: a moeda e o medo. A moeda é necessária para a facilitação das trocas, mas o medo só serve à exploração. Posta indevidamente nos ombros da ganância capitalista a bandeira das liberdades fundamentais, pelo falso comunismo, o antagonismo do mal se transformou no estandarte justificador do próprio mal.

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terça-feira - 17/08/2021 - 06:10h
Opinião

Uma ilusão morta…

Talibã assumiu poder absoluto no Afeganistão (Foto: Foto: Zabi Karimi/AP)

Talibã assumiu poder absoluto no Afeganistão (Foto: Foto: Zabi Karimi/AP)

Por François Silvestre

…Uma realidade viva.

Taí o Afeganistão comprovando essa essa realidade triste e inenarrável. O Comunismo, nunca praticado, nunca sequer tentado, foi uma ilusão de várias noites de pesadelos.

Capitalismo, nunca derrotado, nunca substituído, nunca demonizado é o pesadelo permanente, continuado, cujo hábito permite a cada manhã que a humanidade acorde pensando que foi apenas um pesadelo. E não é. É a realidade maléfica do regime econômico que põe a ganância, a competição e a exploração como objetivo final da condição humana.

O mal no Afeganistão não foi a saída das tropas americanas. Não. Foi a entrada. Essa megalomania capitalista de que o regime “exemplo” do Tio Sam é a palmatória do mundo.

Não consegue pôr em prática a igualdade racial, liberdade individual, paz social, nem na sua terra, mas se acha no direito de não apenas dizer, mas impor, sua práxis de mentira nas terras distantes dos outros. Desrespeitando culturas, costumes e afinidades. Dá nisso.

O Capitalismo, repito, sem concorrente, é o patrono da miséria, do terrorismo e da degradação humana. Deixa no chinelo o feudalismo e o servilismo. Até porque esses aí nem tiveram direito à informação.

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domingo - 14/03/2021 - 02:26h
Conversando com...Yanis Varoufakis

“Não estamos no capitalismo, mas no tecnofeudalismo”, diz ex-ministro

Por Berna González Harbour (El País)

Ministro, ativista, político, economista, professor, ensaísta de sucesso e hoje, em uma nova reviravolta que adiciona uma nova camada à sua figura carismática e contestatária, Yanis Varoufakis se tornou romancista.

Provavelmente nunca um ministro das finanças tão breve ―ocupou o cargo entre janeiro e julho de 2015, na fase mais dramática da Grécia contemporânea― durou tanto tempo no imaginário da opinião pública, mas aí está de novo, com sua estética de camiseta, jovialidade e muito humor, tentando cavalgar um movimento internacional de esquerda e com seu romance, Otra Realidad (ainda sem edição no Brasil), prestes a ser publicado na Espanha.

Conversou com o EL PAÍS por videoconferência de Atenas, onde é um dos nove deputados de seu pequeno partido, MeRA25.

"Google hoje nos liberta da estupidez porque temos acesso a todas as informações do mundo, mas ao mesmo tempo nos escraviza" (Foto: Georgios Makkas/El País)

“Google nos liberta da estupidez porque temos acesso a todas as informações, mas nos escraviza” (Foto: Georgios Makkas)

Seu livro cria uma realidade alternativa que nasce para ser escrava do mundo e não o contrário. Somos escravos?

Sim e não. A essência humana é que sempre temos a capacidade de nos libertar, mesmo que estejamos no meio da pior escravidão, e isso não pode ser destruído por nenhum tipo de autoritarismo. Se agora que completo 60 anos continuo sendo marxista e Marx segue me importando, é por causa de sua descrição do capitalismo. Ao contrário dos comunistas que o seguiram, ele era um verdadeiro liberal e o que lhe interessava é que o capitalismo simultaneamente nos libertava e nos escravizava. Nos liberta porque cria uma maquinaria que trabalha para nós, mas que acabamos alimentando e nos escraviza. Por exemplo, o Google hoje nos liberta da estupidez porque temos acesso a todas as informações do mundo, mas ao mesmo tempo nos escraviza porque alimentamos sua maquinaria publicitária sem perceber.

Então continua a se definir como um marxista. A palavra ainda serve?

Sempre me defini como marxista libertário, estranho, inconsistente, no sentido de que discordo de mim mesmo, como Marx. Sem ele, eu não entenderia o capitalismo nem os mercados.

Como interpreta a crise provocada pela pandemia?

Não é uma nova crise. O verdadeiro começo foi a crise financeira de 2008, que foi o 1929 da nossa geração. Sabemos o que 1929 provocou em todo o mundo até desembocar na Segunda Guerra Mundial e ambos são muito semelhantes. A única diferença é que em 2008 os bancos centrais injetaram uma grande quantidade de dinheiro para salvar os bancos privados e esse dinheiro criou uma espécie de capitalismo de Estado, um feudalismo de Estado que chamo de tecnofeudalismo e que consiste em aplicar austeridade para as massas e ao mesmo tempo muito dinheiro do Estado, ou seja, socialismo, para os banqueiros e as corporações. E nisso veio o covid-19. E o que os Governos fizeram? Mais do mesmo: mais dinheiro do Banco Central para o setor financeiro e um pouco de ajuda à população para se manter, não para empoderar os que não têm poder. Portanto, a pandemia vai ser uma extensão e um aprofundamento do que aconteceu nos últimos 12 anos.

Não acredita que a reação da União Europeia hoje foi mais rápida e proativa do que em 2008?

Melhoraram na propaganda em comparação com aqueles dias malucos de 2010. Mas quando você vai para a realidade, encontra fumaça, miragens, ar. Em março, pediram o eurobond, a união fiscal efetiva e uma dívida europeia. Mas Merkel disse nein, como em 2010 e o resultado são fundos de recuperação, que são como fundos estruturais reforçados, e já sabemos para onde estão indo, para as grandes empresas, grandes corporações, enquanto as pequenas empresas, as médias empresas, os jovens e os desempregados não conseguirão nada.

Talvez trabalho?

Alguns sim, mas macroeconomicamente é insignificante. Por não termos união fiscal, deixamos a distribuição desse dinheiro aos Governos e isso gera corrupção, mais toxicidade entre holandeses, alemães, gregos, espanhóis… Fomos apontados com o dedo: olhem o que fizeram com o dinheiro que demos a vocês. Não é uma boa receita para unir os europeus.

Qual é a sua solução para a Europa?

Para criar uma união, você precisa de um Tesouro comum, uma dívida comum, um parlamento real e um verdadeiro Governo federal que você possa destituir, não uma Ursula von der Leyen que ninguém pode destituir e que ninguém nomeou, exceto Merkel e Macron. As pessoas dizem que a UE tem um déficit democrático, mas não é esse o caso, o que ela tem exatamente é zero democracia. É uma zona sem democracia. Se digo que há déficit de oxigênio na Lua, não é verdade, não há déficit de oxigênio na Lua, simplesmente não há oxigênio. E digo isso como europeísta, quero democratizar a UE.

Acredita que o euro ainda está em risco?

Absolutamente. Não é sustentável. A Europa é rica, mas temos um sistema insustentável que é mantido porque existe uma vontade política muito forte para isso. A cada dia que passa a riqueza europeia diminui, estamos desperdiçando-a e criando mais tensões. Depois da pandemia teremos mais diferenças: auge do Vox na Espanha; os holandeses olhando para os espanhóis ou gregos com maior receio; Hungria, Polônia e República Tcheca cada vez mais direitistas, racistas e antieuropeias, mais abertas a Putin e à democracia iliberal. As forças centrífugas ficam mais fortes. Vamos sair desta pandemia mais desiguais ainda do que entramos.

Quem está se saindo melhor no mundo?

A China, claramente. Sou democrata e liberal, sou marxista libertário e se estivesse na China estaria preso, sejamos claros, é um regime muito autoritário e cada vez mais. Mas eles são muito bons em administrar seus assuntos. O segredismo e a opacidade do regime fizeram a princípio com que a pandemia se alastrasse, mas uma vez que reagiram fecharam tudo e erradicaram, criaram seus hospitais, sua vacina, enquanto a Sanofi na França ou o Instituto Pasteur, que têm séculos de experiência, não tiveram sucesso. Conseguiram direcionar o investimento.

A educação na China é próspera, produzem engenheiros, especialistas em línguas, inteligência artificial, fazem pesquisas que nós não fazemos na Europa, tecnologia de baterias… Estão anos-luz de distância da Europa porque estão investindo. E também estamos atrás dos Estados Unidos, que é um país de grande desigualdade, mas com espaços em Seattle, Texas ou em Silicon Valley, onde muito dinheiro é investido no futuro.

As grandes empresas de tecnologia nos proletarizam, diz em seu livro.

Os gigantes da tecnologia conseguiram expandir a força de trabalho, transformando cada usuário em um trabalhador grátis. Diante de uma montadora, por exemplo, no Google, Facebook, Apple e Amazon, a maior parte da produção de capital é realizada pelos consumidores. Cada vez que saímos com o telefone, o Google atualiza seus mapas e os torna mais úteis. Você ganha um produto grátis, é claro, mapas ou o que for, mas eles captam sua atenção e vendem seus dados para os anunciantes, então nos transformaram em proletários sem sequer pagar. É uma grande mudança na divisão do trabalho. Somos todos produtores de capital e apenas uma pequena parte recebe um salário.

Quando você entra no Facebook ou na Amazon, você sai do capitalismo. Senti isso fisicamente quando visitei o Google. Você entra em uma empresa mais próxima da União Soviética: há uma estética, um politburo, uma ideologia. Há uma KGB no Google ―muito amável, muito agradável, mas existe uma política sobre o que você pode dizer e o que não pode. É como uma ficção científica, como se você estivesse andando na rua e tudo fosse propriedade de só uma pessoa. Se ela não quiser que você veja algo, você não verá. E se a empresa quiser que você veja, você verá. Essa é a vida no Facebook, na Amazon, no Google. Isso não é competição, isso não é capitalismo, isso é feudalismo, uma forma distópica de ficção científica de feudalismo de alta tecnologia. Não estamos mais no capitalismo, temos que encontrar outra palavra e eu chamo de tecnofeudalismo.

Os setores de tecnologia e saúde se beneficiaram com a pandemia. Quais são os riscos?

Existe uma grande concentração de poder. As três empresas que estão produzindo as vacinas têm capacidade para extrair enormes somas de dinheiro da humanidade. Foram capazes de produzir as vacinas tão rapidamente porque Trump deu a elas 10 bilhões de dólares (cerca de 55,5 bilhões de reais) e, no entanto, não devolverão nada. Estão usando dinheiro do Estado para criar uma imensa capacidade para extrair dinheiro do resto do mundo. Quando a vacina contra a poliomielite foi inventada, na década de cinquenta, a patente foi dada ao mundo porque crianças estavam morrendo. Hoje isso não está acontecendo. Portanto, as grandes empresas de tecnologia, saúde e a indústria de defesa estão ganhando mais poder sobre o resto da população do que ninguém teve na história da humanidade. E seus interesses não são os mesmos do resto da humanidade. Há uma guerra entre os interesses dos mais fortes e os da maioria.

Tem alguma relação com Tsipras [primeiro-ministro da Grécia com o Syriza, a coalizão de esquerda radical]?

Zero. O povo grego nos deu um mandato para dizer não à troika e ele se rendeu na noite do referendo. Foi por isso que pedi demissão, ele se rendeu e o resultado foi a perda total da dignidade e da credibilidade da esquerda, não só na Grécia, mas em toda a Europa. O Podemos também acabou naquela noite. Rajoy [ex-presidente da Espanha] saiu com o papel que Tsipras assinou e disse: isso é o que vocês conseguirão se votarem no Syriza espanhol e foi o fim do Podemos. Naquela noite aconteceu um fracasso da democracia. Então, minha relação é zero.

E com o Podemos?

Acredito que a participação do Podemos no Governo de Sánchez é um erro. E antes disso foi um erro não ter um programa europeu. Tentei convencê-los antes das eleições para o Parlamento Europeu de 2019 de que a direita tem um programa para a Europa, os fascistas têm um programa para a Europa. Mas o Podemos nunca se interessou.

O ex-banqueiro central que a Grécia enfrentou, Draghi, está hoje no comando da Itália. É uma solução?

É uma solução para o setor bancário, para a troika, para garantir que a democracia está formalmente acabada na Itália. Quando o processo político não pode produzir um primeiro-ministro e você precisa de um ex-tecnocrata do Goldman Sachs, do Banco Central Europeu, para resolver os problemas que os políticos não podem resolver, você está declarando que a democracia fracassou, é a melhor notícia para o Partido Comunista Chinês, porque também não acreditam na democracia, mas sim nos tecnocratas a serviço do povo, mas sem as preocupações do povo.

Draghi contratou a consultoria McKinsey para distribuir os fundos de recuperação na Itália, então você já tem o Tesouro nas mãos do Goldman Sachs, os fundos de recuperação nas mãos da McKinsey e o próximo passo pode ser dar à máfia o Ministério da Justiça porque entendem de lei muito mais do que eu. É um fracasso total da democracia na Itália.

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domingo - 03/11/2019 - 06:38h

A moeda e o medo

Por François Silvestre

“Quatro rios há nos espaços tenebrosos e subterrâneos dos Infernos: o Estige, o Aqueronte, o Cocito e o Flegetonte ou Piriflegetonte. Os três primeiros levam suas águas lentas, através de marnéis, pântanos e volutabros infectos, cobertos de tristes plantas aquáticas, a gargantas estreitas, onde o ruído das águas se torna espantoso. O quarto rola ondas de enxofre e fogo, arrastando no seu curso rochedos retumbantes”.

“Às bordas do Estige vêm dar as sombras dos que deixaram os corpos na região das luzes. Sobre a onda imóvel desliza, sem cessar, sem ruídos, uma barca com a madeira podre, suja, dirigida por horrenda criatura”. É Caronte, o barqueiro do inferno.É assim que Tassilo Spalding inicia o verbete que define e expõe à visão gráfica a figura símbolo do que seria o capitalismo na mitologia.

E informa que o filho de Érebo e da Noite, desconhecido de Homero e de Hesíodo, era um deus ancião, mas imortal. Velho, repugnante, intratável e avaro.

Para realizar a travessia dos mortos à outra banda do Estige ou do Aqueronte, cobrava três óbolos, a menor das moedas, que valia uma sexta parte do dracma.

E só carregava os que tinham merecido a honra do sepultamento. Cujas almas, desligadas, tinham a posse das moedas que lhes garantiam a travessia.

As despossuídas vagavam pelas margens dos rios citados, até que um dia conseguissem o pagamento da travessia.

A descrição de Caronte e suas atribuições compõem o mais perfeito retrato do capitalismo e suas navegações pela história humana, a cobrar de cada um os óbolos de sua ganância e devolver a cada um a travessia no barco podre de Caronte.

Quando vejo um rico perdulário ou muquirana, esbanjador ou mealheiro, enojar-se com a palavra comunismo, eu compreendo. O que não compreendo é ver um pobre esganar-se de admiração pelo capitalismo.

Caronte não recebia seres vivos na sua barca. O capitalismo não recebe seres livres nos seus negócios. Todos são livres, no capitalismo, para servirem aos capitalistas. Fora daí, a liberdade é apenas uma figura retórica. Onde se avolumam nas margens dos rios podres as almas despossuídas de óbolos.

Caronte pagou com a perda de função, durante um ano, por ter transportado Hércules, ainda vivo, e o fizera movido pelo medo.

Aí estão os dois instrumentos do aparato capitalista: a moeda e o medo. Sem a moeda e sem o medo, a exploração fracassaria.

Posta indevidamente nos ombros da ganância capitalista a bandeira das liberdades fundamentais, pelo falso comunismo, o antagonismo do mal se transformou no estandarte justificador do próprio mal.

François Silvestre é escritor

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domingo - 20/10/2019 - 07:00h

Capitalismo de quintal

Por François Silvestre

O capitalismo brasileiro é pré-feudal, o socialismo brasileiro é pré-burguês e a política do Brasil ainda cisca no terreiro da caverna.

Tudo no contorno infindável da promiscuidade público-privada, estuário institucionalizado da trampolinagem e demagogia. Horta fértil de cujo estrume brotam “salvadores da pátria”.

A dialética, no Brasil, não tem tese. Só antítese, sem síntese.

Desordem institucional, desonestidade administrativa e farsa de controle.

O único governo que tentou reformas de base, inclusive agrária, foi João Goulart, um latifundiário. E caiu por isso. Imprensado no meio da guerra fria, travada pelo império capitalista americano contra o império militarista da burocracia soviética.

A pátria dos quartéis vendeu-se.

A pátria dos políticos prostituiu-se.

O povo recebeu a sucata da pátria, cujo conserto, hoje, atropela-se na dialética da mediocridade.

Só a vontade coletiva poderá romper o fracasso.

Uma seita não faz oposição, propõe canonização.

Um conluio fascista não faz reformas, arruma rifa entre amigos.

Só a consciência coletiva, se ainda tivermos, apontará um Norte. Seja da estrela Polar ou do Cruzeiro do Sul.

François Silvestre é escritor

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terça-feira - 31/07/2018 - 20:10h
Opinião

O mágico soturno vive

Por François Silvestre

O comunismo foi um fracasso incontestável. Com todas as suas mumunhas e justificativas. A ditadura do proletariado não tinha proletários no seu comando. Uma casta burocrata, violenta, rançosa e genocida matou um sonho teórico. Ponto.

O comunismo morreu. Seu antípoda, o fascismo, tão ou mais genocida, escapou da morte e vive.

Filho torto do capitalismo, foi adotado como bastardo de conveniência. E bajula o pai, quando precisa, ou o substitui quando rejeitado.

O fascismo é um mágico soturno.

Com sua vara de condão luciferante consegue ofuscar e chamuscar de estupidez até o talento de pessoas muito inteligentes. Algumas arrependidas dos sonhos da mocidade. E fazem desses sonhos um pesadelo que obnubila até a generosidade modeladora da juventude.

Qual o sentimento que isso produz?

Tristeza.

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  • Repet
domingo - 12/03/2017 - 09:10h

Qual regime?

Por François Silvestre

O Brasil é capitalista? É socialista? Ou é tico-tico no fubá? Dezenas de partidos, inúteis e desnecessários na grande maioria, esbanjam denominações a todos os gostos. Tem nome pra tudo. E “programas” que nem os filiados conhecem. Nem os eleitos, dos partidos chamados grandes, conhecem os programas dos seus partidos.

Não conhecem nem têm preocupação no cumprimento desses programas. São estatutos de letras mortas. Ou melhor, natimortas. Já nasceram pra não serem lidas.

Vejamos. São princípios basilares do capitalismo a valorização do indivíduo, a livre iniciativa, o direito à propriedade, o direito à privacidade, a segurança pessoal, a inviolabilidade da moradia e do patrimônio.

Pergunto. Esses princípios são preservados e efetivados no Brasil? Se a resposta é negativa, não somos capitalistas.

Outro lado. São princípios basilares do socialismo a igualdade de acesso aos bens públicos, valorização e prevalência do coletivo sobre o individual, a inexistência de exploração do trabalhador, a representatividade social sob controle da justiça econômica, e o Estado como árbitro das relações em sociedade no apaziguamento de conflitos e na redução do acúmulo de riquezas entre poucos, diminuindo as distâncias entre remunerações gigantescas e salários de miséria.

Pergunto. Esses parâmetros são observados no Brasil? Se a resposta é negativa, não somos socialistas.

São defeitos sistêmicos do capitalismo a exploração do trabalho do hipossuficiente, a distância remuneratória entre castas e trabalhadores não corporativados, a ganância que atrofia a emulação entre os fracos, protegendo os fortes, a prevalência do egoísmo sobre a solidariedade.

Essas condições se aplicam ao Brasil? Se a resposta for positiva, nós somos capitalistas.

São defeitos históricos do socialismo o atrofiamento do indivíduo diante de um Estado impessoal e tirano, da despersonalização individual diante de uma abstração chamada povo, que nunca se materializa na figura da pessoa, pois ela só existe para justificar o Estado.

Isso ocorre no Brasil? Se a resposta for positiva, nós somos socialistas.

Finalmente o que nós somos? Não somos capitalistas no que há de bom no capitalismo nem somos socialistas no que há de louvável no socialismo.

Somos capitalistas no que há de mais cruel no capitalismo e socialistas no que o socialismo tem de mais execrável.

Híbrido na ruindade. Hermafrodita econômico, com dois sexos servindo a um monstro eunuco. Em que a reprodução é nula nos benefícios e fecunda nos malefícios.

Seria essa constatação uma adesão ao pessimismo? Uma pá de adubo na cova da depressão? Não.

É apenas e tão somente a imagem que um surrado daguerreótipo consegue registrar no meio do tumulto.

Ou o Brasil se refaz ou sangra. Só a refeitura estancará a sangria.

Té mais.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

François Silvestre é escritor

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domingo - 29/05/2016 - 07:56h

O indivíduo manipulado

Por François Silvestre

regimes ditos socialistas a individualidade é rebotalho do “coletivo”, para justificar a falsidade social do regime. E em nome da fantasiosa igualdade todas as brutalidades contra o indivíduo são consumadas. E o coletivo é apenas o ajuntamento de indivíduos atrofiados.

Nos regimes “democráticos” do capitalismo a diferença é de retórica. A prática muda apenas de feição e de feitura. O indivíduo cantado e decantado do liberalismo é tão somente um seguidor do manípulo.

Manípulo é um pequeno feixe da capim, amarrado na ponta de uma vara, que o condutor põe à frente da carroça para enganar o burro condutor. O pobre animal tenta alcançar a ração, que nunca chega ao seu alcance.

O Estado brasileiro é a fisionomia dessa aberração. Qual capitalismo é o nosso? Que nem consegue oferecer as poucas vantagens do capitalismo.

Vejamos: A iniciativa e propriedade privadas são princípios liberais do capitalismo. O indivíduo possui esses dois bens? A iniciativa privada só é bem sucedida no conluio promiscuo com o Estado. Grandes empreiteiras corruptoras aliciando o Estado passivamente corrupto. E vice-versa.

O médio e pequeno empresário é prisioneiro da insegurança, da burocracia e da rapinagem tributária.

Proprietários efetivos só ladrões, assaltantes e trambiqueiros. O posseiro honesto apenas pastora a posse precária do “seu” patrimônio. Sob o risco permanente da bandidagem privada e da roubalheira pública.

O Estado atual é o estuário da legalidade corrompida. A Lei é mãe para os donatários do Estado. E madrasta para o restante, que só é parte do todo nas obrigações. O indivíduo é a barata de Kafka.

Povo só é substantivo concreto na presença repressiva do Estado. No momento dos direitos e garantias individuais o Poder transforma a regra constitucional num rolinho de papel higiênico. Que vai limpar o concreto monossilábico.

O resto do todo, que se reparte em pessoas concretas, vira abstração na privada. Cada um de nós é um substantivo abstrato, ante a concretude repressiva do Estado.

O Estado brasileiro é uma patifaria sócio-institucional. Legalista sem a segurança da legalidade.

A mesma Constituição que “garante” a dignidade da pessoa humana como seu esteio, atribui poderes de falsa ética a quem nega a prescrição fundamental. Fica o dito na parte fundamental descartado pela esperteza do secundariamente estabelecido.

O Anarquismo aponta o dedo acusador contra a bagunça instituída. Contra essa cavilação hipócrita de que os tribunais são condutores das soluções estruturais.

É o Estado resultante da anarquia institucional, triturador do indivíduo. O dito “interesse público” é o disfarce para a opressão individual. Somos burros de carroça, sem saber pra onde nos leva o manípulo. Constituinte Originária já.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
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sábado - 28/05/2016 - 06:51h
Maduro

Um ‘golpe’ contra o capitalismo

A ditadura de Nícolas Maduro na Venezuela conseguiu feito histórico impensável contra um dos símbolos do capitalismo.

E por motivo prosaico.

Não se trata de decreto.

A poderosíssima Coca-cola parou produção no país por falta de açúcar.

Seu governo já tinha criado final de semana com três dias para economizar energia elétrica.

Falta decretar um dia com 20 horas e que cada venezuelano use frente e verso do rolo de papel higiênico que conseguir comprar.

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Categoria(s): Política
domingo - 16/08/2015 - 09:47h
Mossoró

Empresa de ônibus enfrenta desafios para seu funcionamento

A empresa de ônibus que passou a operar o sistema de coletivos urbanos de Mossoró, mês passado, a “Ocimar”, tem acumulado prejuízo diário e crescente.

Uma fonte credenciada garante ao Blog que o buraco, por dia, fica em torno de R$ 10 mil.

A planilha tem revelado que a demanda é abaixo do ‘estudo’ entregue pela Prefeitura local, incentivando-a ao mercado.

Pouco provável que resista por muito tempo num ambiente tomado por moto-táxis, táxis-lotação, enxurrada de carteiras estudantis (muitas falsas) e franquias diversas.

“Dinheiro não aceita desaforo”, diz um ditado do mundo capitalista.

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Categoria(s): Economia
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domingo - 01/03/2015 - 08:22h

Caronte

Por François Silvestre

“Quatro rios há nos espaços tenebrosos e subterrâneos dos Infernos: o Estige, o Aqueronte, o Cocito e o Flegetonte ou Piriflegetonte. Os três primeiros levam suas águas lentas, através de marnéis, pântanos e volutabros infectos, cobertos de tristes plantas aquáticas, a gargantas estreitas, onde o ruído das águas se torna espantoso. O quarto rola ondas de enxofre e fogo, arrastando no seu curso rochedos retumbantes”.

“Às bordas do Estige vêm dar as sombras dos que deixaram os corpos na região das luzes. Sobre a onda imóvel desliza, sem cessar, sem ruídos, uma barca com a madeira podre, suja, dirigida por horrenda criatura”. É Caronte, o barqueiro do inferno.

É assim que Tassilo Spalding inicia o verbete que define e expõe à visão gráfica a figura símbolo do que seria o capitalismo na mitologia.

E informa que o filho de Érebo e da Noite, desconhecido de Homero e de Hesíodo, era um deus ancião, mas imortal. Velho, repugnante, intratável e avaro.

Para realizar a travessia dos mortos à outra banda do Estige ou do Aqueronte, cobrava três óbolos, a menor das moedas, que valia uma sexta parte do dracma.

E só carregava os que tinham merecido a honra do sepultamento. Cujas almas, desligadas, tinham a posse das moedas que lhes garantiam a travessia.

As despossuídas vagavam pelas margens dos rios citados, até que um dia conseguissem o pagamento da travessia.

A descrição de Caronte e suas atribuições compõem o mais perfeito retrato do capitalismo e suas navegações pela história humana, a cobrar de cada um os óbolos de sua ganância e devolver a cada um a travessia no barco podre de Caronte.

Quando vejo um rico perdulário ou muquirana, esbanjador ou mealheiro, enojar-se com a palavra comunismo, eu compreendo. O que não compreendo é ver um pobre esganar-se de admiração ao capitalismo.

O comunismo, minha gente, nada tem a ver com pilantras que se definiram comunistas. O comunismo é Marx, não é Stalin.

O comunismo é São Francisco de Assis, Thomaz de Aquino, Padre Vieira, Portinari, Vulpiano Cavalcanti, Carlos Prestes, não é Chaves, Fidel, Dirceu ou Brejnev.

Caronte não recebia seres vivos na sua barca. O capitalismo não recebe seres livres nos seus negócios. Todos são livres, no capitalismo, para servirem aos capitalistas. Fora daí, a liberdade é apenas uma figura retórica. Onde se avolumam nas margens dos rios podres as almas despossuídas de óbolos.

Caronte pagou com a perda de função, durante um ano, por ter transportado Hércules, ainda vivo, movido pelo medo.

Aí estão os dois instrumentos do aparato capitalista: a moeda e o medo. Sem a moeda e sem o medo, a exploração fracassaria.

Posta indevidamente nos ombros sujos do capitalismo a bandeira das liberdades fundamentais, pelo falso comunismo, o antagonismo do mal se transformou no estandarte justificador do próprio mal.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 03/02/2013 - 03:39h

Mossoró, hora de repensar seu futuro

Por Carlos Escóssia

Não carece o uso de qualquer recurso mais elaborado de retórica para explicar o papel integrador que a renda – o acesso a ela – desempenha dentro da sociedade moderna. A abordagem que adotamos para aproximar os interesses mais significativos do povo de Mossoró, de um lado, das tendências da sociedade global, do outro, foi estabelecer como prioridade a promoção do acesso popular à renda como instrumento de integração dos mossoroenses à sociedade globalizada, posto que o sistema capitalista tem esse falha: é excludente!

Todas as ações da administração municipal devem estzr voltadas à geração de emprego e renda com o objetivo de anular esta falha e aproveitar de forma racional todas as nossas potencialidades e riquezas econômicas. Para Mossoró entrar na rota do desenvolvimento, o ponto de partida é crescer e distribuir renda, criando oportunidade para que todos possam desenvolver o seu potencial e viver uma Mossoró mais justa e coesa do ponto de vista social.

O grande desafio que se apresenta hoje, é colocar o Poder Público Municipal como instrumento indutor, para transformar as potencialidades do município em desenvolvimento econômico e este em desenvolvimento social. Porque, se Mossoró produz riqueza, grande parte da população é pobre, e não dispõe dos meios para usufruir da riqueza e das oportunidades que a cidade cria.

Em síntese: o desafio é transformar os cidadãos em atores econômicos e integrá-los a esse desenvolvimento que numa economia globalizada se propaga a partir de fontes e movimentos freqüentemente exógenos. Em outros termos, trata-se de garantir ao nosso povo a possibilidade de participar desse desenvolvimento, de competir por um posto de trabalho em condições de igualdade ou de poder criar o seu próprio emprego, harmonizando o crescimento econômico com equidade social e com a preservação ambiental.

É urgente a necessidade de se colocar em pauta a retomada do crescimento de Mossoró, sobretudo nos setores primário e secundário.

A cristalização do nosso desenvolvimento dependerá da sensibilidade e vontade política do poder público e da classe empresarial e – obviamente – do papel das instituições de ensino superior existentes na cidade, nos labores da formação de técnicos, mão-de-obra especializada, investigações científicas e transferências tecnológicas.

Só com a junção dessas forças será possível projetar Mossoró, não só na esfera estadual e regional, como também em nível nacional e internacional, pela sua destacada participação na produção nacional de frutos tropicais e na extração de recursos minerais, como: petróleo, calcário, sal, gesso e gás natural.

A exploração desses recursos demonstra o potencial existente e justifica todo o esforço do seu caminhar para o desenvolvimento. Como perspectiva para o futuro próximo, aponta-se a zona mossoroense como propícia ao desenvolvimento da indústria química, com a integração da cadeia produtiva dos setores salineiro e petrolífero; a exploração mineral (calcário, gipsita e argila); a fruticultura irrigada; a pecuária; a pisicultura e a carcinicultura; o agronegócio e a agroindústria integrada.

Na perspectiva de um salto qualitativo sem precedente na história de Mossoró – se faz necessário e urgente – que as forças vivas da comunidade se congreguem em termos de objetivos maiores: “aproveitar potencialidades e atenuar carências, que ainda são muitas”.

Carlos Escóssia é professor, economista e blogueiro

* Texto originalmente publicado no Blog de Carlos Escóssia

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Categoria(s): Artigo / Economia
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