domingo - 21/11/2021 - 06:26h

Ah, aqueles momentos em família!

Por Odemirton Filho 

Sentados à mesa, eu, meus pais e minhas irmãs. Cada um com seus gostos, aperreando a nossa querida Socorro pela refeição. Socorro era o nosso porto seguro, uma alma boa. Tinha uma santa paciência para aguentar os nossos “lunduns”.

Papai chegava em casa com os problemas de todo pai de família. Ele costumava fazer o sinal da cruz após as refeições, como forma de agradecimento pelo pão de cada dia. Mamãe era professora, talvez estivesse pensando em preparar a aula do dia seguinte ou corrigir provas.  familia

Eu dava um trabalho danado pra comer. Algumas vezes, bebia um copo com leite Alimba, acompanhado com pão e ovo. Minha irmã mais velha gostava de carne de sol com arroz de leite. Meu pai, de picadinho de carne. Minha irmã mais nova fica enchendo o nosso saco.

Falávamos sobre o nosso dia. Era comum levar uns “batidos” por alguma traquinagem. Não podia faltar, é claro, a recomendação para ver o boletim com as notas azuis. Na maioria das vezes, o meu era pintado com a cor vermelha.

Ainda crianças, ficávamos doidos para terminar o jantar, pois não entendíamos como era sagrado aquele momento. Eu comia apressado para ir brincar com os meninos da rua. Minhas irmãs se trancavam no quarto para brincar com as bonecas “fofoletes”. Meus pais iam assistir ao Jornal Nacional e as novelas. O sinal da TV vinha do canal Verdes Mares, do Ceará.

Não havia aparelho celular, muito menos internet. O nosso mundo era real; a rua, o colégio, os amigos de carne e osso. Quando o telefone fixo tocava, eu saía numa carreira desembestada para atender.

Sim, era apenas uma refeição, como em qualquer família. Mas era tão bom. A vida, como é natural, levou cada um para um lado. Meus pais estão jantando sozinhos. A casa da rua Tiradentes não existe mais do jeito que era. Eu sinto falta de Socorro e da sua comida. Dum pedaço do seu bolo de leite. Sinto falta de estar sob a sombra do pé de seriguela, conversando besteira com minhas irmãs.

Vez ou outra, pego-me lembrando daqueles momentos em família. Somente hoje eu dou o valor que mereciam. Permitam-me parafrasear um velho cronista: “A casa, reformaram, mas o menino ainda existe. Na lembrança ficou o quintal daquele tempo”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Crônica
domingo - 14/11/2021 - 14:24h

Cada homem hoje é uma ilha

egoísmoPor Honório de Medeiros

O mundo está se fragmentando.

Cada homem, hoje, é uma ilha.

Uma ilha em permanente guerra contra as outras.

Tudo quanto formava a unidade entre as pessoas, como a crença em Deus, a fé na Razão, a vida comunitária, se desfaz lentamente.

Não nos damos mais as mãos, exceto quanto temos algum interesse a alcançar.

O altruísmo morre lentamente, prevalece o egoísmo.

Todos são, individualmente, desde algum tempo, donos de uma verdade única, e agem como se quem não concordasse consigo fosse um inimigo a ser destruído.

Breve esse individualismo exacerbado, que se firma nos nossos defeitos, e não no que nos engrandece, há de nos conduzir para uma realidade na qual cada um será por si, e ninguém por todos.

Então, será o fim.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/11/2021 - 11:30h

Palhaço

palhaçoPor Inácio Augusto de Almeida 

E rio!

De mim mesmo

Rio.

     II

Um riso triste

Mas um riso.

     III

Se mereço aplausos?

Sei lá…

     IV

Talvez sim…

Talvez por fazer você rir de mim.

    V

Existe palhaço mais engraçado do que eu?

    VI

Que rio e faço você rir

Sem nem mesmo contar piadas

Sem nem mesmo calçar o sapato grande

Ou colocar nariz postiço fazendo da vida um grande picadeiro.

    VII

Até quando continuarei neste grande circo?

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Categoria(s): Poesia
domingo - 14/11/2021 - 10:50h

Entre goles e livros

Por Marcelo Alves

Tenho falado muito de livros, é verdade. Até já confessei a vontade de literalmente dormir entre eles. Mas não se enganem: os livros não são o único prazer da minha vida. Gosto também de viajar. E gosto de uísque, o cachorro engarrafado, e seus assemelhados. Se com a pandemia ando meio “aposentado”, já fui bom nisso. Falo tanto de viagens como de uísque. Fiquem certos.uísque na mesa, whisky, bebida alcoólica,Em assim sendo, vou misturar esses prazeres todos. Tratemos dos pubs de Londres, em especial dos apelidados “pubs literários”, que conheci/frequentei quando por lá morei. Eu posso dizer que os pubs literários estão para Londres – embora sem o mesmo glamour, reconheço – como os cafés literários estão para Viena ou, mais badaladamente, para Paris.

No que toca aos pubs, Londres não chega a ser uma Dublin. “Na Irlanda”, disse o Doutor Johnson, “ninguém vai aonde não se pode beber”. Dublin, menor do que Londres, deve ter hoje quase mil dessas “public houses”. É ao derredor delas que a vida gira: negócios e política, esporte e religião, o “meu” direito e a “nossa” literatura. E os pubs são testemunhas ou mesmo cenários da arte de gente como James Joyce, Sean O’Casey, Flann O’Brien, Brendan Behan, Patrick Kavanagh e Seamus Heaney, entre outros menos votados. Ou menos beberrões.

Mas Londres, até pelo igualmente chuvoso clima, tem a mesma preferência etílica. Quase todos os dias, fim de expediente, coisa de 17 horas, bebe-se alguma ou muita coisa. O pub é local de muita discussão sobre futebol. Mas a literatura tem também o seu espaço. E, com a ajuda do “Novel Destinations: Literary Landmarks from Jane Austen’s Bath to Ernest Hemingway’s Key West” (National Geographic Society, 2009), de Shannon McKenna Schmidt e Joni Rendon, vou citar três dessas casas, ditos “pubs literários”, que frequentei. Quanto a eles, tal como o velho guerreiro Timbira do “I-Juca-Pirama”, do nosso Gonçalves Dias, eu posso dizer, embora não com a mesma dramaticidade, “Meninos, eu vi”.

Começo por The Spaniards Inn, no pitoresco subúrbio de Hampstead. Dizem que Jonh Keats morava ali perto e era um habitué da casa. O pub é citado no “Dracula”, de Bram Stoker. E o Spaniards foi também cenário em “The Pickwick Papers”, de Charles Dickens. Isso já basta para garantir sua fama.

Bairro fora do centro, eu ia a Hampstead vez ou outra, quando estava “cansado” de Londres. Embora isso me preocupasse deveras, já que, segundo o Doutor citado acima, “quem está cansado de Londres, está cansado da vida”.

Outro recomendadíssimo é The Anchor. Na beira do Tâmisa. Margem sul. Vista maravilhosa. Do rio e de boa parte de Londres (sua margem norte, mais rica e famosa), incluindo o domo da St Paul’s Cathedral. A redondeza é show. A Tate Modern, o museu de arte moderna do Reino Unido. E o Globe Theatre, a nova casa de Shakespeare, e isso já diz tudo. Contam que Samuel Pepys refugiou-se no The Anchor “enquanto assistia à destruição de Londres no Grande Incêndio de 1666”. Tem doido e memorialista para tudo. Já eu levei muitos amigos brasileiros lá. Caminhava por ali todos os finais de semana. Considero a caminhada pela margem sul do Tâmisa a melhor de Londres. E tomava umas pints, claro.

Por derradeiro, cito o antiquíssimo Ye Olde Cheshire Cheese, sito na Fleet Street, antiga rua dos jornais londrinos. Bem pertinho da biblioteca do King’s College London – KCL, onde estudava quase diariamente, eu baixava por lá com frequência. Os citados Doutor Johnson (que morava pertinho), Pepys (o do incêndio) e Dickens (que alude ao pub em “A Tale of Two Cities”) foram regulars de lá. Assim como Conan Doyle, G.K. Chesterton, P.G. Wodehouse, Thomas Carlyle, E. M. Foster, Joseph Conrad, Sinclair Lewis, W. B. Yests e outros membros do Rhymers’ Club.

Eu mesmo nunca escrevi nada por lá. Mas levei uma queda na escada sem deixar cair a cerveja. O que já é alguma coisa.

Bom, as opções de pubs em Londres são muitíssimas. Há até passeios/caminhadas guiadas explorando isso. Quando inspiradas pela literatura, elas são apelidadas de “Literary London Pub Walks”. Estando lá, podem me chamar para tanto. Eu vou. Só não sei como volto.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/11/2021 - 07:34h

Triste fim de Gudãozinho

adesivo-de-parede-pata-de-cachorro-gato-com-coracao-2-carinhoPor Marcos Ferreira

Hoje escrevo sob forte emoção. Minhas mãos tremem mais do que costumam tremer. Meu coração está partido, lacerado. Impossível deter as lágrimas que minam dos meus olhos. Na manhã de ontem, após encontrá-la morta, enterrei Gudãozinho, minha gatinha querida e única companhia nesta casa agora ensombrecida.

Está sepultada no meu quintal. Neste momento, portanto, não tenho amenidades para contar. Estou de luto. A noite vai caindo angustiosa e tristonha.

Anteontem ela saiu para dar o seu habitual passeio noturno e não retornou. Já tarde, antes de ir dormir, chamei por ela várias vezes. Nada de ela aparecer. Costumava atender a esses meus chamamentos, pois sempre dormia dentro de casa. Não dormi direito. Na madrugada, nas vezes que levantei para ir ao banheiro, fui ao quintal e tornei a chamar por Gudãozinho. Inútil. Não apareceu.

Pela manhã, ao me ouvir chamando por Gudãozinho, a dona da casa aos fundos da minha me deu a triste notícia: Gudãozinho e mais dois gatos da rua de trás tinham amanhecido mortos por envenenamento nos quintais próximos. Fui à rua de trás pegar minha gata.

Uma mulher, tutora de um dos gatos mortos, veio falar comigo, os olhos inchados de tanto chorar. Disse-me que achava que o envenenamento foi proposital. De minha parte, ainda atônito, nem sei o que pensar.

O que sei é que minha Gudãozinho se foi com cerca de nove meses de idade. Tinha tanta vida pela frente! Recentemente fora submetida à cirurgia de castração e estava totalmente recuperada, esbanjava saúde e beleza. Quando não se entregava às suas sonecas do meio-dia, passava boa parte do tempo brincando, correndo aqui dentro e pelo quintal, puxando conversa comigo, ronronando.

Essa inesperada e saudável convivência durou seis meses. Resgatei-a da rua, como já falei noutro momento, faminta e com severa desnutrição, com idade aproximada entre dois e três meses. Após algumas idas ao veterinário, medicamentos, cuidados e carinhos, ela não demorou a se fortalecer. Agora tudo isso acabou. Restaram só as lembranças, as coisinhas dela dispostas em seus lugares, como as vasilhas com a água e a ração que ainda não tive coragem de recolher.

Todo dia pela manhã, bem cedinho, pulava para dentro da minha rede a fim de que eu lhe abrisse a porta da cozinha. No móvel empoeirado da televisão vejo que deixou gravadas as suas pegadas. As caixas com que ela gostava de brincar, a caminha e a caixa com areia continuam no primeiro quarto. Não toquei em nada. Parece-me (ao menos tenho a impressão) de que ela não morreu.

Tento, porém, encarar a realidade, o triste fim de Gudãozinho. Sua imagem está intacta na minha cabeça. Enxergo-a nitidamente: os olhinhos azuis e vívidos, a pelagem felpuda, toda branquinha como o algodão, exceto por alguns tons de cinza nas orelhas, nas extremidades das patas e da farta cauda.

Era muito comunicativa, chamava minha atenção o tempo todo com seu ronronar. Uma hora roçava nos meus tornozelos, daí a pouco disparava, punha-se a brincar, traquinas.

É isto. Não vou me estender. Não reúno condições para continuar escrevendo, embora o meu coração esteja cheio de sentimentos para desabafar. No mais, portanto, me faltam palavras para descrever o quanto estou triste pela morte de Gudãozinho. Que o prezado leitor e a gentil leitora, ao menos hoje, aceitem por crônica esta nota de falecimento. Agora preciso de alguns dias de luto.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 07/11/2021 - 16:42h

Entre livros

Por Marcelo Alves

“Os hotéis literários: viagem ao redor da terra” (“Hôtels littéraires: voyage autour de la terre”), de Nathalie H. de Saint Phalle, é um livro interessantíssimo. Sobretudo para quem é fã de dois prazeres da vida: viagens e livros. Pode ser classificado tanto como um guia de turismo literário ou como literatura de viagem, dois nichos que, antes da pandemia, vinham ganhando mais admiradores. E há uma coisa especial nele: faz dos estabelecimentos que arrola cenário e também personagem de gozos e dramas, fictícios ou reais, de gigantes das letras mundiais.literatura-de-viagem-1280x720

A nota à edição brasileira (Editora Senac, 2012) resume o objetivo da obra: “Este livro não trata apenas de destinos turísticos, mas versa, principalmente, sobre destinos pessoais. Ao inventariar os hotéis, pousadas e outros locais de hospedagem retratados em romances de diversas épocas, Nathalie H. de Saint Phalle recupera o drama de personagens colocadas em situações nas quais suas emoções e seus sentimentos afloram de maneira intensa. Mas, para além delas – e aí reside o especial interesse de Hotéis Literários –, revela as hesitações, buscas e paixões de seus criadores: escritores e artistas que se lançaram, mais do que a experiências de criação, à busca de novas perspectivas de vida”.

Da imensa lista de estabelecimentos de “Os hotéis literários”, destaco dois do meu desejo: o Savoy, em Londres, que fica na Strand, a rua do King’s College London, onde fiz o meu PhD. Assisti ao musical “Legally Blonde” no seu teatro, lembro-me bem. Já tomei chá no seu salão e imaginei-me personagem de Agatha Christie. Mas nunca ali me hospedei. Quem sabe de uma próxima vez na Terra da Rainha?

Já em Paris, o meu querer é o Hotel Lutétia, à esquerda do Sena, margem de minha preferência. Fica no Boulevard Raspail, o mesmo da Alliance Française Paris, que relembro com saudade. O Lutétia recebeu, nas suas camas ou no seu bar, Rilke, Gide, Joyce, Beckett, Heinrich Mann e mais uma multidão de escritores refugiados. Está reformado. Pernoitando, sonharia ajudando a expulsar os malditos nazistas de lá.

Todavia, estes dias, topei com um turismo que considerei até mais sugestivo. Foi através do artigo “Bookish Hotels & BnB’s Around the World For Your Next Getaway” (“Hotéis e pousadas livrescas pelo mundo para a sua próxima escapada”), de Courtney Rodgers, publicado no site Book Riot. Ele sugere: “Passaporte, mala e sobretudo mais livros do que dias em sua viagem? Para onde você está indo nas suas próximas férias ou escapada de fim de semana? Estes hotéis e pousadas têm decoração inspirada em escritores, muitos livros e diversão literária, para você dormir em grande estilo. Arrume suas malas!”.

Eu gostei de um tal Rivertown Inn, em Minnesota, EUA. Uma mansão do século 19, onde cada quarto é dedicado a um escritor diferente. Para Arthur Conan Doyle, temos a suíte da Londres vitoriana; para Agatha Christie, um quarto saído das páginas de “Murder on the Orient Express”. Tem-se Lewis Carrol, Jane Austen, Lord Byron e por aí vai. Já em Tóquio, Japão, gostei do Book and Bed, mistura de livraria e pousada. Quer melhor? Teria ficado lá nas Olimpíadas. Como “levantador de livros”.

Curiosamente, o artigo não fala no hotel “livresco” que afirmo a minha tentação: o Library Hotel, em Nova Iorque. Pelo que consta de “Novel Destinations: Literary Landmarks from Jane Austen’s Bath to Ernest Hemingway’s Key West” (National Geographic Society, 2009), de Shannon McKenna Schmidt e Joni Rendon, vocês podem ter uma ideia do dito cujo: a uma quadra da New York Public Library, este hotel de Manhattan abriga mais de 6 mil volumes.

Além do lobby tomado de livros, do chão ao teto, “cada um dos dez andares de quartos são devotados a diferentes saberes, entre eles história, filosofia e artes”. Os quartos, claro, estão cheios de livros da respectiva temática. Em tudo fantástico!

Na verdade, eu já tive a oportunidade, anos atrás, de quedar-me no “hotel da biblioteca”. Mas estava caro, achei. De toda sorte, acredito que as condições sanitárias e uma promoção me permitirão pernoitar um dia lá. Oxalá logo. Sem drama e muito gozo e leitura incluídas.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/11/2021 - 09:28h

Monólogo das mãos

solidariedade, mãos, monólogo das mãos, dedos, braçosPor Giuseppe Ghiaroni

Para que servem as mãos?

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau,
salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;

Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;

Foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;

Com as mãos David agitou a funda que matou Golias;

As mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;

Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;

Os antissemitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!

Foi com as mãos que Judas pos ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.

A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;

O operário construir e o burguês destruir;

O bom amparar e o justo punir;
O amante acariciar e o ladrão roubar;
O honesto trabalhar e o viciado jogar.

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!

Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!

As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;

Os remédios e os venenos;
Os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.

Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.

Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;

No volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.

O autor do Homo Rebus lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;

A primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.

Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.

A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;

Fechada e levantada mostra a força e o poder;

Empunha a espada a pena e a cruz!

Modela os mármores e os bronzes;

Da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.

Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza;

Doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.

O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.

O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;

Jesus abençoava com as mãos;

As mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.

Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.

Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.

E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre, ainda as mãos prevalecem.

Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.

E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração para, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.

E as mãos dos amigos nos conduzem…

E as mãos dos coveiros nos enterram!

Giuseppe Ghiaroni – (1919-2008) – Poeta, jornalista e cronista, mineiro de Parnaíba do Sul, ele morreu em 2008, aos 89 anos, com importante atuação com trabalhos para o rádio, teatro e imprensa escrita.

O texto faz parte da peça “O vendedor de ilusões” de Oduvaldo Vianna Filho, escrito para o ator Procópio Ferreira.

Categoria(s): Crônica
domingo - 07/11/2021 - 08:28h

Uma rede, sem pressa

Por Odemirton Filho

O nosso conterrâneo Luís da Câmara Cascudo escreveu um livro sobre a rede. Segundo o folclorista, “a rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. A rede é acolhedora, compreensiva, acompanhando, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego”. Rede - 3Sim, a rede embala os nossos sonhos. Deixa-nos sem pressa do amanhã. Nessa vida corrida, na qual o ter é mais importante do que o ser, como é bom uma rede para espichar o corpo, descansando das batalhas do cotidiano. Uma rede no alpendre de uma casa de praia, vendo o mar e a lua se beijando, não tem “pareia”. A rede balança, gostosamente, um chamego.

Meu avô materno era proprietário de uma fábrica de redes. Talvez, daí a minha paixão por uma rede. Lembro-me muito bem do barulho dos teares. Eu brincava na velha fábrica, no meio dos rolos de fio, mesmo espirrando pra valer.

A rede faz parte de nossa cultura. É tão nordestina. Aliás, segundo Câmara Cascudo, quem primeiro denominou a rede foi Pero Vaz de Caminha, em 27 de abril de 1500, é o padrinho da rede de dormir. Batizou-a pela semelhança das malhas com a rede de pescar.

Quem mora em sítio ou fazenda gosta de se deitar em uma rede, sentindo o sereno ou aliviando-se do mormaço. À noite, quem sabe, acende uma fogueira e toma uns goles, tocando um violão com saudade de alguém.

Aos domingos, deitar-se numa rede no alpendre de uma casa de praia, no “terreno” ou no quarto, e viajar em uma boa leitura, faz um bem danado ao corpo e a alma.

Aliás, em uma de suas belas crônicas, a escritora Rachel de Queiroz também fala sobre a rede armada num alpendre: “Só a paz, o silêncio, a preguiça. O ar fino da manhã, o café ralo, a perspectiva do dia inteiro sem compromisso nem pressa. Vez por outra um conhecido que chega, conta as novidades, bebe um caneco de água, ganha de novo a estrada”.

Pois é. Carecemos, aqui ou acolá, de uma rede, sem pressa.

“Afinal de contas só do chão precisa o homem, para sobre ele andar enquanto vivo e no seu seio repousar depois de morto”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 07/11/2021 - 07:32h

Filosofia – a árvore do conhecimento

Por Honório de Medeiros

O conhecimento pode ser imaginado como uma árvore cujo tronco repouse no chão ancestral onde o homem pré-histórico caçava, coletava e, graças à sua primitiva linguagem, bem como à incipiente capacidade cooperativa, se tornou uma espécie apta a sobreviver.

Não é uma imagem precisa, tampouco absolutamente correta, mas cumpre seu propósito para ser assimilada.homens pré-históricos caçando em grupoOs problemas com os quais nossos antepassados se depararam e as soluções engendradas para ultrapassá-los formaram galhos, ramos, folhas, em ritmo cada vez maior e mais denso, em uma escala inimaginável. Cada folha, como é possível perceber, avança rumo ao infinito desconhecido por um rumo que sugere uma proporcionalidade inversa: quanto mais específico o conhecimento por ela simbolizada, mais ampla e profunda a vastidão a lhe servir de contraponto.

Se focarmos essa imagem em busca de nitidez, podemos acompanhar o desenvolvimento da Matemática, como exemplo, desde os primitivos números naturais até o cálculo, hoje, de tensores hiper espaciais, essas projeções hipotético/geométricas interdimensionais.

Podemos acompanhar, também, a evolução da linguagem até a Babel dos tempos modernos, constituída de signos bem diferenciados – desde os sinais utilizados pelos surdos-mudos, passando pelo informatiquês e o idioma dos guetos, presídios, e subúrbios, até a lógica do sub-universo computacional.

Aliás, o mundo da informática é muito exemplificativo dessa teoria da árvore do conhecimento. No início, meados do século XX, um computador ocupava salas; hoje, os “chips” guardam quantidades colossais de informações.

A imagem da árvore do conhecimento é possível graças à Teoria da Evolução de Darwin. É, digamos, um corolário. Podemos perceber que o Conhecimento se diferencia e especializa na medida em que avança. Sabemos, hoje, quase tudo acerca de quase nada em cada “nicho” do conhecimento, embora tudo quanto descartado por não ter sobrevivido ao choque entre ideias conflitantes forme uma contrapartida em negativo da realidade.

Contrapartida que agrega: aquilo que descartamos não precisa ser outra vez cogitado.

Assim essa árvore é finita e limitada (conceitos distintos) no espaço e tempo conhecidos, mas infinita e ilimitada quanto as suas possibilidades de crescimento. O futuro, para onde ela avança, é construção do passado, e como cada estrada amplia a quantidade de lugares onde se há de chegar, cada problema resolvido no processo civilizatório implica na ampliação de universos de saber.

Ou seja, o tempo, cada vez mais, dá razão a Darwin.

Funciona assim em termos macro, mas também em termos pessoais. Cada avanço nosso implica em ampliar o universo daquilo que não conhecemos. É um paradoxo: quanto mais sabemos, mais há a saber.

É, por fim, o voo do solitário para o infinito: “É como se cada um de nós, estando dentro de um ambiente fechado, uma clausura, criasse uma saída e a utilizasse. Lá, do outro lado da saída, lhe espera um outro ambiente, também fechado, só que maior, bem maior. Sua tarefa, assim, é sempre criar outra saída, sair, entrar em outro ambiente ainda maior, criar outra saída, sempre, em uma escala exponencial…”

Em termos pedagógicos, diria Gaston Bachelard: “todo conhecimento é sempre a reforma de uma ilusão.”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Artigo
domingo - 07/11/2021 - 04:30h

Pequeno luxo

Por Marcos Ferreira

Estou sozinho em casa e daqui não pretendo ir a lugar nenhum. Que importa que hoje ainda é quarta-feira e a vida lá fora urge, exige movimento, disponibilidade, trabalho e suor de todos. Não, não arredarei o pé. Muito menos em meio a este calor diabólico, infernal. Meu ventilador não aplaca o mormaço. O vento que ele produz é quente feito o de um secador de cabelo industrial. Supondo-se, claro, que existam secadores de cabelo industriais. Coisa bem pouco provável.

Ouço, como de costume, uma de minhas playlists com várias horas de blues. Acabei de fazer café e a cafeteira vai perfumando o ambiente com o aroma da rubiácea. Minha gata Gudãozinho, descansando sob a mesa da cozinha, vez por outra me encara com tédio e preguiça. Nesse horário, o que é absolutamente compreensível, nem ela está disposta a perseguir as lagartixas pelo quintal.casa, residência, moradia, construção civil

Os últimos dias, sob sol inclemente, em meio ao siroco, foram um exaustivo périplo por consultórios médicos e clínicas laboratoriais. Agora não quero contato com o astro-rei. Não ao menos lá fora, trafegando por estas ruas desarborizadas de Mossoró, sobre os paralelepípedos e o asfalto escaldantes. Ficarei aqui entre estas paredes velhas, sob este teto avariado pelos cupins, tomando um banho rápido de meia em meia hora, a porta da frente trancada; só a da cozinha aberta.

Cá estou com o Dom Quixote, óleo sobre tela, oriundo dos pincéis do Túlio Ratto. O cavaleiro da triste figura é testemunha deste calor insuportável neste princípio de tarde. Olho para a face do espanhol e tenho a ligeira impressão de que ele também transpira. Gudãozinho escancara a boca num bocejo extraordinário, abana levemente a cauda felpuda e apoia o queixo sobre a patinha.

Veículos (carros e motos) cruzam a Euclides Deocleciano de um lado para o outro. Levantam poeira. O ronco dos motores interfere no canto dos pássaros ao derredor de minha casa. Aonde vão essas pessoas em seus automóveis e motocicletas? Só podem ter compromissos inescapáveis, inadiáveis, para terem que sair a esta hora. Deveria ser proibido (quiçá uma lei municipal) o mossoroense circular por esta cidade debaixo de uma bola de fogo como esta que paira sobre nós.

Devo ficar em casa e não atenderei a ninguém que porventura bata palmas no portão, chamando ou não pelo meu nome. Não abrirei a porta. Darei o silêncio por resposta. O telefone está desligado. Nada de WhatsApp, Instagram ou Facebook. Muito menos informações sobre o esgoto político, a céu aberto, deste país. Pois eu preciso me desintoxicar. Ao menos durante o dia de hoje.

Um homem, qualquer pessoa, aliás, tem o direito de tirar um dia somente para si. Um dia assim para não se fazer coisa alguma. Exceto, no meu caso, escrever. Pois me convém escrever, embora suspendendo a redação de meia em meia hora para me demorar uns minutinhos sob o jato do chuveiro. Que calor dos seiscentos, prezado leitor e gentil leitora! Se escrevo, portanto, é por opção. Mas eu poderia estar largando dentro da rede, quem sabe assistindo a um filmezinho.

Todavia, como percebem, optei por escrever, ouvir blues e bebericar o meu café puro. Não tenho o hábito de dormir após o almoço, se acaso você me perguntar. Até porque meu almoço costuma ser o café da manhã. Não sinto fome logo que acordo. Também não tenho a menor intimidade com as atribuições alimentares de uma cozinha. Sobrevivo basicamente da geladeira e da cafeteira.

À noite, entretanto, vou à casa de Natália e lá sou brindado com uma refeição de verdade: arroz, feijão, cuscuz, carne, frango — a chamada comida de panela. Às vezes minha sogra faz sopa e eu tomo com muito gosto. Retorno por volta das vinte horas, engulo meus remédios e, enquanto Morfeu não se apodera de mim, vejo alguma coisa da Netflix, acesso este que me foi compartilhado pelo amigo Elias Epaminondas, ele que é o carioca mais mossoroense que conheço.

São treze horas e quarenta minutos. Eu até poderia jurar que Dom Quixote está mesmo transpirando. Deve ser, porém, o brilho da tinta ainda nova. Na representação de Túlio Ratto, que tem se revelado um bom pintor, o herói de Miguel de Cervantes parece um pobre-diabo sobre um cavalinho macérrimo. Estamos aqui, portanto, eu, Gudãozinho, Dom Quixote e seu cavalo desmilinguido.

Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Por exemplo, sequer me abalarei até a lotérica, no Centro, para fazer a minha aposta na Mega-Sena. Ouvi dizer que está acumulada em não sei quantos milhões. Dinheiro mais que o bastante para que eu abra mão desse meu auxílio-doença mixuruca e me torne um vagabundo profissional, como no dizer do poeta Manoel de Barros. Ficarei aqui no meu suadouro, sem ar-condicionado, contando apenas com este ventilador barulhento.

— São milhões — uma voz me sussurra.

Apesar do calor, o vento circula impetuosamente. Açoita a grande mangueira na residência aos fundos. Uma lufada quente e empoeirada adentra pela porta da cozinha. Cai uma porção de ciscos do teto, que não possui forro. Há poeira em toda parte, sobretudo nos meus poucos e desorganizados livros nas estantes de ferro. Sinto as micropartículas de areia entre meus dedos e o teclado.

Sem camisa, um colar de suor à volta do pescoço, sigo digitando. Penso se não é o momento de fazer outra pausa para mais um banho rápido. Sim, é o que farei. Depois, com a cuca e o corpo mais arejados, tomarei um novo trago de café e avançarei para outro parágrafo. Antes, todavia, decido concluir este raciocínio, ou parágrafo. Gudãozinho se estica toda e vai para o terraço. São precisamente catorze horas e cinco minutos. Careço quebrantar este suadouro. Até breve.

Bem, estou de volta, refrescado e com outra meia caneca de café. Usufruo, como venho narrando, do pequeno luxo de estar na privacidade do meu humilde lar. Hoje não trocarei esse recolhimento por nenhuma visita imprevista e inoportuna. Só botarei a cara fora bem mais tarde, lá por volta das dezoito horas, quando chegar o instante de ir à casa de Natália. Será este o ponto alto do meu dia.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/10/2021 - 14:26h

O criador de títulos

Por Marcelo Alves

Georges Bernanos (1888-1848), francês de Paris, foi mais um escritor genial que viveu no Brasil. Mas antes de se haver por aqui, Bernanos perambulou pela “província” e pela capital do seu país. Lutou e foi ferido na 1ª Guerra mundial. Fez logo muito sucesso com “Sob o sol de Satã”, de 1926, e com “Diário de um Pároco de Aldeia”, de 1936. Foi lutar na Guerra Civil Espanhola, que lhe dá a obra-prima “Os grandes cemitérios sob a Lua”. A sua história conosco, com o Brasil, tem lugar em 1938, com o prenúncio da 2ª Guerra mundial.georges_bernanos

A vergonha europeia estava estampada e os horrores já se avizinhavam. À moda de um Otto Maria Carpeaux (1900-1978), de um Stefan Zweig (1881-1942), ele veio bater no Brasil exilado daquela Guerra. Viveu entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Resistente, engajou-se na França Livre de Charles de Gaulle (1980-1970). Foi o homem do General na América do Sul. Escreveu bastante daqui. Retornou à França, depois da guerra, amando o Brasil. Faleceu em glória.

Se é possível categorizar um grande escritor (tenho que os grandes escritores estão categorizados em seus próprios gêneros e estilos), Georges Bernanos foi um dos grandes ficcionistas e pensadores católicos. Autor de romances psicológicos católicos, de parecença com aqueles de François Mauriac (1885-1970). E de ensaios, aqui já mais à moda de Jacques Maritain (1882-1973) e Jacques Rivière (1886-1923).

Como define Marcel Girard, no meu já velhinho “Guide illustré de la literature française moderne” (a edição que possuo é de 1949, da maison/éditeur Peirre Seghers), Georges Bernanos foi “veemente, frenético, visionário, às vezes pomposo, violento sempre, mas frequentemente genial. Sous le Soleil de Satan (1926) apresenta a luta de um padre com o diabo. Un crime (1935) é uma espécie de romance policial psicológico absolutamente obsessivo. Le Journal d’un curé de campagne (1936), mais moderado, é também mais suave psicologicamente.

Devemos ler novamente o excelente Nouvelle Histoire de Mouchette (1937). Monsieur Ouine (1946), seu último romance, parece conduzir Bernanos a um impasse. Entretanto, Bernanos é algo mais que um romancista: ele é uma consciência; e nós veremos mais à frente seu papel na vida das ideias”.

E é aqui que está. Embora hoje esquecido – à semelhança do que se dá com o outrora mais que badalado Anatole France (1844-1924) –, Georges Bernanos teve uma influência particularmente importante tanto sobre sua geração como sobre a geração seguinte. Meu pai mesmo, quando disse a ele que estava escrevendo sobre Bernanos, comentou: “‘Sob o sol de Satã’ foi um dos primeiros romances que eu li”.

Socorro-me, uma vez mais, do meu surrado “Guide illustré de la literature française moderne”: “Durante quinze anos, Bernanos não cessa de proclamar freneticamente aquilo que ele acreditava ser a verdade. Em La Grande Peur des Bien-Pensants (1931), ele se bate contra o conformismo burguês de um ponto de vista católico e monarquista. Em 1938, a guerra da Espanha lhe inspirará sua obra-prima: Les Grands Cimetières sous la Lune, panfleto contra Franco. Munique lhe provoca cólera e vergonha (Scanlale de la Vérité, 1939).

Enfim refugiado na América do sul, ele difundiu durante a guerra a voz da consciência francesa, com uma liberdade que desconcerta muita gente; sua sinceridade apaixonada finalmente lhe vale à sua morte (1948) a homenagem de todos os partidos: Réflexions sur le cas de conscience français (1945), La France contre les robots (1947), Le Chemin de la Croix-aux-Ames (1948) [formados por escritos produzidos na sua estada no Brasil] contêm seus panfletos contra Vichy. O prefácio dos Grands Cimetières…, admirável fragmento, dá a chave desse temperamento excepcional”.

Não sou da geração de Bernanos. Nem da seguinte. E não sou tão católico assim. Meus heróis foram ou são outros, é verdade. Mas há uma coisa que me chamou à atenção em Bernanos desde a primeira vez que “ouvi” falar bem dele (em “O século dos Intelectuais”, obra de Michael Winock, publicada entre nós pela Bertrand Brasil, em 2000): os títulos de suas obras. Quer coisa mais bela do que “Sob o sol de Satã” ou “Os grandes cemitérios sob a Lua”? E esses títulos, benditos sejam eles, foram o mote para eu titular e encerrar esta crônica.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
domingo - 31/10/2021 - 12:36h

É preciso compreendê-los

Por Inácio Augusto de Almeida

Existem pessoas que preferem viver no faz de contas.

Não aceitam a realidade.

E um dia a realidade se faz presente. Não há como fugir da verdade. compreensão, união, todos juntos, comunhão, mãos

Neste dia as lágrimas rolam dentro do coração. Do coração, sim. As lágrimas mais sentidas não rolam nas faces.

São pessoas que vivem a fingir que nada estão vendo, mesmo os fatos diante dos seus olhos a gritar que não dá mais para continuar.

Sabem da injustiça que é donos de iates e de jatinhos não pagarem nenhum imposto parecido com Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), enquanto pobres vendedores de leite ou de frutas pagam IPVA das motos que lhes possibilita o transporte da mercadoria que negociam. Usam os mais pobres o transporte na luta pela sobrevivência e pagam IPVA e outras taxas. Quem usa iate e jatinho…

Certamente a turma do faz de contas se pergunta por que se meter com isto se a injustiça existe e torna-se mais sólida a cada ano?

Incomodados ficam ao ver alguém clamar por justiça social. E isto tem uma fácil explicação. No fundo gostariam de se unir aos que se sacrificam na luta por um mundo mais de amor, menos egoísta.

Infelizmente, acomodados estão numa zona de conforto e morrem de medo de sair da caverna de Platão.

Não devemos rejeitá-los. Devemos deles, ter compaixão.

Estão com os corações inundados de lágrimas.

Inácio Augusto de Almeida é Jornalista e escritor

Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/10/2021 - 10:50h

Vontade, liberdade, verdade

Por Honório de Medeiros

Hannah Arendt nos encaminha, em Responsabilidade e Julgamento, à noção de que devemos a Paulo a ideia de “Vontade”. Paulo, tão crucial para a construção da doutrina da Igreja Católica, o verdadeiro fundador da filosofia cristã, com sua Carta aos Romanos.

Lê-se, em sua Carta aos Romanos, um momento antológico do processo civilizatório: “Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é (o) que faço” (1,15).Força-de-vontade

Terá sido para cumprir tal desígnio, o de fincar o alicerce da doutrina do Cristianismo, a razão pela qual Jesus o interpelou na estrada para Damasco? “Saulo, Saulo, por que me persegues? “Quem és, Senhor?”. “Jesus, a quem tu persegues. Levanta-te, entra na cidade e te dirão o que deves fazer” (Atos 9:5,6).

Sabemos que se deve à “Carta aos Romanos”, a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (DCDJ), assinada entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica Romana em 31 de outubro de 1999, em Augsburgo, na Alemanha.

Também a Carta aos Romanos foi o ponto de partida para a Reforma Protestante: Lutero escreveu seu Comentário aos Romanos em 1515, e nele já se encontra seu pensamento acerca da Justificação.

Arendt nos mostra o percurso intelectual do conceito de “Vontade” no pensamento de Agostinho, tão importante para a filosofia cristã: “Sempre que alguém delibera, há uma alma flutuando entre verdades conflitantes” (Confissões).

A “Vontade” decidirá.

Assim como o mostra em Nietsche e Kant, além de nos pôr a par de que o fenômeno da “Vontade” era desconhecido na Antiguidade, e que sua descoberta deve ter coincidido com a da “Liberdade” enquanto questão filosófica, distinta de um fato político.

Vontade, Liberdade, Verdade.

Fundamental.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Crônica
domingo - 31/10/2021 - 09:46h

O menino que não amava os livros

Por Carlos Santos

Tá bonito pra chover!” Expressão típica do nordestinês que tantas vezes ele ouvia, não era apenas antecipação de que testemunharia uma bela “precipitação pluviométrica”, como falavam os radialistas à época. Era senha em ordem implícita: deveria entrar rapidamente, fugir daquela benção que estava próxima de desabar no sertão.

Que privação cruel! O menino que queria correr nas calçadas, cruzar a rua, chutar poças de água e desaparecer naquela enxurrada como qualquer outro, sabia que não podia sequer imaginar-se em tantas traquinadas, que incluiriam obrigatórios banhos de bica.sonhar-com-crianca-brincando_450844810

Trovões ou raios que talvez rasgassem o teto do mundo, não eram os causadores da apreensão. Mirrado, era um milagre de sobrevivência, muito até por teimosia de dona Mariinha, a vó que virava “mãe” e o tinha sempre protegido à barra da saia.

Escravo da asma, era condenado a assistir à rotina de outras crianças que faziam da natureza o seu recreio de exaltação à liberdade. Pelas frestas da janela, fenda à porta, via o que era negado sem entender o porquê de não ter direito à infância normal.

“Olhe o mormaço! Saia daí”.

Quem poderia acreditar que água fizesse mal? Chuva, então?! Como? Quem o convenceria que tudo aquilo não fosse exagero ou má vontade?. Talvez os primeiros chiados pulmonares, o olhar aflito para o teto e aquela sensação de afogamento no seco fossem a prova de que não devia teimar em ser como os outros: criança.

Seria um menino daquele jeito mesmo: confinado, isolado, em conflito com os elementos – terra, água e ar, além daquele fogo de terra em brasa do sertão. O picolé não podia, mas aqui e acolá era permitido drená-lo no copo de alumínio, socado e prensado como se fosse sorvete.

Seu refúgio foram os livros. Não porque os amasse; não mesmo. Eram as companhias possíveis, que foram o abduzindo num teletransporte quântico de matéria. Eram sonhos, personagens, fantasias em capa e espada, viagens ao centro da terra, mergulhos submarinos, o lúdico como escapatória da realidade incômoda.

Tempo para consumir os Tesouros da Juventude, Enciclopédia Britânica (o Gooogle impresso da época), livros, livros e mais livros. Tudo ia sendo devorado como se alimento o fosse, num duelo contra o tempo e aquele clausura sem fim.

Não havia qualquer disciplina ou ordem pedagógica. No cardápio entrava ainda um pequeno rol de publicações ininteligíveis, que só anos ou décadas depois foram decifradas total ou parcialmente, como se fossem a Pedra de Roseta de Champollion.

Ele queria dá bicos na bola Canarinho ou apenas fazer parte do mundo lá fora. Queria jogar futebol sem saber, ser super-herói sem poder ou apenas um menino normal. Era “Carlinhos” que não amava os livros, que jamais jogou futebol nem se deu conta até hoje de que não nasceu para Batman ou Homem-Aranha, apesar de milhares de quadrinhos que povoaram seu quarto e cabeça.

Está na hora de ouvir Prelúdio para ninar gente grande (Luiz Vieira)… “Sou menino-passarinho com vontade de voar”.

Carlos Santos é criador e editor do Canal BCS (Blog Carlos Santos)

Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/10/2021 - 08:42h

Sou mais Mossoró-RN

Por Dorian Jorge Freire

Natal, maio de 1985.

Lembrando Pedro Nava, eu sou mossoroense “de propósito”. “Só de mal”, como diria meu querido Guido Leite, assassinado impunemente.

Não poderia ter nascido em outra parte. Nem no Aracati de meu Pai, nem em São Paulo de minhas saudades mais leais.

Definitivamente, Mossoró.Dorian Jorge Freire - foto

Conhecendo – como Jaime Adour da Câmara – Oropa, França e Bahia, sendo tiete das velhas cidades mineiras e também de Olinda, Alcântara e São Luís, minha opção preferencial é sempre por Mossoró.

Paris, eu amo antes da primeira vista. Florença, amor à primeira vista. Ainda assim, sou mais Mossoró.

Dirão que há, em Paris, o Café Procope. Mas eu fico com o Café Tavares.

Ainda em Paris, encontramos as ruas St. Séverin e St. Jacques, roteiro de Dante. Mas eu prefiro a 30 de Setembro.
Cortot? Temos o Beco de Jeremias Cego. Chevalier de la Barre? Vicente Sabóia.

Mossoró não me deu apenas a certidão de nascimento. Deu-me, também, o seu temperamento. E, uma a uma, as suas idiossincrasias.

Sou vidrento como Mossoró é vidrenta. E não sou exceção. Qualquer mossoroense é assim.

Em São Paulo, por exemplo, o velho Estevão Cruz colecionava rótulos de Cerveja Mossoró, que lavava com as suas lágrimas. No Recife, um grupo chefiado por Mário Marques tem reuniões sucessivas em Boa Viagem para falar em Mossoró.

No Rio, no bairro de Ipanema, Raimundo Nonato não falava em outra coisa dia após dia – Mossoró, Mossoró, Mossoró. Em Brasília, 24 horas diárias, Vingt Rosado faz mossoroísmo. Wilson Lemos, exilado há mais de 30 anos, telefona dos confins de Mato Grosso para pedir notícias.

Meu Pai, cearense, vivendo seus últimos dias no país do sul, pedia que as suas cinzas e sementes fossem plantadas em Mossoró. Jaime Hipólito Dantas, em Natal desde março, trancado em seu apartamento, curte as saudades mais melancólicas.

Não é bairrismo. É mania. Mania? É vício. Os mossoroenses somos viciados em Mossoró.

Disseram – parece que foi Grimaldi Ribeiro – que Vingt Rosado era um deputado municipal. Vingt inflou de orgulho.
Duas vezes impediram Dix-huit de governar o estado. Sabem a resposta mossoroense? Duas vezes fizemos Dix-huit nosso prefeito.

Dias atrás anunciaram que o meu exílio natalense estava no fim e que eu voltaria para Mossoró. Foi um alvoroço no meu coração e lá em casa. Os netos vibraram, o pé de cajá deu uma carga temporã, os coelhos ficaram mais ativos, o canário – mesmo belga! – cantou o Hino Nacional com o charme da Nova República de Fafá de Belém. E meus 10 mil livros? Machado valsou com Colette, num assanhamento que só vendo.

Não sabem os filisteus e saduceus, os nefelibatas, que exílio de mossoroense é marcado pela transitoriedade? Mossoroense está sempre voltando à sua terra. Senão em vida, na força do homem e da mulher, no molho de ossos bem lavados. Basta encostar o ouvido no chão, que há o chamado da terra.

Estarei falando demais de Mossoró? Conversa! De Mossoró fala-se sempre de menos. Deve est ar acontecendo que o meu subconsciente não aprova a minha ausência. Não aprova que eu fique longe do 30 de Setembro, longe de Santa Luzia, longe das valsas de Zé de Ana, longe das matinês do Ipiranga, longe dos bailes da ACDP, longe do sol da seca ou da água da inundação.

Sei que não faço falta, que há 180 mil irmãos voluntários da pátria a serviço do capitão Dix-huit. Ainda assim…
Ainda assim, Mossoró. Mossoró, sempre.

E se me permitem, deixem que eu puxe a memória e lembre histórias. Não sou dos fundadores da cidade, nem vi bangolando por estas capoeiras os índios monxorós, nossos bisavós. Mas prestei, calado, muita atenção a conversas dos mais velhos. E arquivei na memória alguma história e muitos causos.

Sei que éramos simples e cordiais, hospitaleiros, que pensávamos que o visitante poderia ser Nosso Senhor e era preciso acolhê-lo carinhosamente, com renda limpa, lençol cheiroso, água fria e café quente.

Sei também que vivíamos em paz uns com os outros, embora não habitássemos o Paraíso e vez por outra caningássemos com nossos irmãos em querelas sempre terminadas ao redor de uma tapioca.

Essa situação indiscutivelmente cordial, partida só de quando em vez por encharcamento mais febril, subsistiu até os anos 40, começo da dezena seguinte. Quando éramos mais ou menos 30 mil orgulhosos mossoroenses.

Respeitávamos o prefeito, venerávamos o bispo, temíamos o delegado de polícia, confiávamos no juiz, admirávamos os intelectuais, estimávamos os tipos populares, amávamos as mulheres e não trancávamos nossas portas nem nossos corações.

Mas veio a política roxa sucedendo a queda da ditadura. PSD de um lado, do outro UDN, e o mais era enfeite. E veio a ambição do poder, a disputa acesa como brasa de acender o pito. Começou, então, a ciranda do desaforismo. Em crescendo. Cada vez mais agressivo, mais contundente. Era doutor Tarcísio contra doutor Nicodemos. Era Walter Wanderley contra Mário Negócio. Eram Mota Neto, José Luiz, Dix-sept .

Dois jornais se digladiavam. Afora eles, havia os folhetins, os alto-falantes, os comícios perigosos. Um boletim surgia contra um, dissecando um sabujo. Menos de 12 horas depois, vinha a resposta furiosa: dissecando um cadáver. Parecia até que a política municipal se fazia num Instituto Médico-Legal…

Foi a partir daí – lembro – que começou a invadir a cidadezinha, antes serena e boa, hospitaleira e cristã, um cheiro de rosas machucadas das que enfeitam a morte antes de enfeitarem a vida. Seguido do cheiro aziago de vela de velório.

Mau presságio. Todos tínhamos nossos partidos, todos estávamos partidos e repartidos pelas paixões inflamadas, mas não havia ninguém que quisesse ir ao enterro do outro. E quando a coisa descambou da política para caso de polícia, os contendores receberam convite do padre Mota, ex-prefeito de M ossoró e vigário-geral da diocese, para uma conversinha.

Todos atenderam ao chamamento. Iam chegando à casa do gordo padre, que os esperava, despreocupado, fumando seu charutão e indo lá dentro buscar a cadeira para escutar o cura d´aldeia.
E levavam um baita carão:

– Tenham modos! Vocês não são crianças! Lembrem-se que todos somos uma mesma família, sem Caim, só Abel.
Todos ficavam com os olhos no chão, feito Capitu. E um a um, cada qual foi levando sua cadeira lá para dentro e saindo com o sorriso irmão do grande padre.

Por que rememoro isso? Por nada, nadinha. Apenas para lembrar, mossoroense que sou desde o início dos tempos.

Dorian Jorge Freire (1933-2005) era jornalista

Categoria(s): Crônica
domingo - 31/10/2021 - 07:46h

Começos arrebatadores

Por Marcos Ferreira

Como você decide qual a primeira palavra a ser escrita? Ouvi esta pergunta recentemente e não me lembro quem me fez tal indagação. Talvez eu a tenha lido em algum lugar. Ou foi por telefone, em conversa com algum amigo ou amiga cujo nome, infelizmente, não me recordo para lhe dar o merecido crédito. Minha memória, repito, é firme quanto um Sonrisal num copo d’água.

O fato é que a primeira palavra, às vezes uma simples letra, um artigo masculino ou feminino, é responsável por todo o texto que está por vir. Sem essa largada, continuamos no zero, a página inteira em branco. Portanto, trata-se do gatilho, da espoleta, da fagulha que vai libertar todo o pensamento represado. No mesmo grau de importância considero o primeiro parágrafo de um texto. Poucos são os leitores que seguem adiante após um início de história ruim ou medíocre.literatura, livro, livraria, poesia, conto, crônica, prosa, versoComo um anzol, digamos, você precisa fisgar o leitor já na largada, no comecinho da sua página. Esta que vemos em curso, por exemplo, também se submete aos ditames em questão: tem que atrair o interesse do leitor logo na saída. Dificilmente, numa livraria qualquer deste país e do planeta, o sujeito levará para casa uma obra que não conheça, a menos que se agrade do princípio.

Claro que isso de fisgar o leitor nas primeiras linhas é muito relativo. Em vários casos, ou na maioria deles, depende do gosto de cada pessoa por determinado estilo ou gênero literário. Mas vamos supor que você acabou de entrar numa livraria e, com grana para comprar apenas um livro, está a fim de adquirir algo novo, um autor e obra desconhecidos. É aí, pois, que o efeito azougue da escrita vai fazer a diferença, seja num romance, livro de contos, crônicas ou poemas.

Tem que ter aquela mensagem imantada, engenhosa, ou no estilo arrasa quarteirão. Seja por meio de uma frase poética, metafórica, ou através do velho recurso de tentar arrebatar o leitor à custa de um introito chocante, por vezes na forma de violência, como num disparo de arma de fogo, alguém que se lança do alto de um arranha-céu ou se enforca. Enfim, um cadáver já no abre-alas.

— Meu Deus! — podem se persignar.

A literatura nos oferece mil e uma possibilidades de narração de uma história utilizando o recurso de impactar o leitor. Sobretudo quando se trata de prosa fictícia, em particular nos romances e contos. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, que praticamente escrevem com sangue as suas narrativas carniceiras, como Rubem Fonseca e Stephen King, para citarmos apenas dois. Outros nos atordoam pela surpresa e conteúdo insólito, feito o escritor tcheco Franz Kafka.

Para mim, que tenho verdadeiro horror a baratas, essa largada de A Metamorfose é um dos começos de novelas mais assustadores e inescapáveis da literatura: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Embora sem especificar o tipo de inseto, a descrição da barata é imagética e repugnante.

Um dos começos de livros mais aplaudidos, e merecidamente, é o do clássico Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. Diz ele: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. E quem pode resistir e não seguir em frente na leitura após se deparar com as primeiras linhas de romances como Insônia e São Bernardo, do mestre Graciliano Ramos?

Não terem dado um Nobel a Graciliano foi uma grande injustiça, posto que tantos autores discutíveis levaram tal prêmio da academia sueca. Temos aqui, em solo tupiniquim, inclusive entre meus contemporâneos, literatura de alto nível. Outro gênio da prosa de ficção, o nosso insuperável Machado de Assis, abre o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas com um parágrafo arrebatador:

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo”. Simplesmente genial!

Assim como o romancista, o contista e até o poeta, o cronista precisa fazer valer o seu reflexo de pescador. O peixe a ser fisgado, claro, é o leitor. A crônica deve ser atraente desde o título, que é o coadjuvante da isca, ou seja, as primeiras linhas. Ao contrário do que se dá com os livros nas livrarias, as crônicas expostas nos periódicos não contam com o chamariz de uma capa bonita.

— Mas ilustramos — dirá meu editor.

Sim. Porém o prezado leitor e a gentil leitora, que nem sempre concordam que uma imagem vale por mil palavras, esperam um texto que lhes salve o domingo (eis o nosso compromisso) da banalidade das páginas meramente jornalísticas, tão difundidas ao longo da semana. Deseja-se, então, que o cronista tenha algo de invulgar a oferecer, uma mensagem ou história (nem precisa ser real) que caia suave com os primeiros goles daquele café escoteiro tomado bem cedinho.

Daí a importância, num espaço tão eclético e ilustrado quanto o Canal BCS (Blog Carlos Santos) de nós cronistas botarmos a cara aqui todo domingo com uma narrativa capaz de atrair e manter o leitor interessado no que temos a contar. Tal conquista, volto a recordar, parte desde o título, mas, principalmente, ganha impulso a partir de um primeiro parágrafo de fato sedutor, cativante.

Isto significa que o final nem carece ser tão apoteótico ou estrondoso como um toque de gongo, contudo o leitor não costuma abrir mão de um começo arrebatador, envolvente. É aí, no mais das vezes, que está o sucesso ou fracasso do seu texto, seja ele um romance, um conto, uma crônica e até um poema mais longo. Você, por uma razão ou por outra, permaneceu comigo até este momento, e há de concordar com o meu raciocínio. Acredito, portanto, que iniciamos bem.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/10/2021 - 06:30h

As buscas

Por Marcelo Alves

Stefan Zweig (1881-1942) foi outro grande nome das letras alemãs que viveu no Brasil (digo “outro” porque antes escrevi sobre Otto Maria Carpeaux – veja AQUI). Zweig nasceu em Viena, judeu, filho de pais abastados. A educação, desde menino, foi “de primeira”. Cursou e doutorou-se em Filosofia. Ainda estudante, descobriu-se poeta, tradutor e biógrafo. Foi jornalista, dramaturgo e romancista/novelista.

Durante a 1ª Guerra Mundial, foi viver na Suíça. Foi pacifista, no grupo de Romain Rolland, Hermann Hesse e James Joyce. Voltou à Áustria. Foi celebrado nas décadas de 1920 e 1930. Com a ascensão do cabo Hitler, foi viver em Londres. Conheceu o Brasil; prometeu voltar. Cumpriu tragicamente o juramento. É o autor do livro/elegia “Brasil, o país do futuro”. Publicado em várias línguas, é título famoso entre nós. Pena que nunca chegamos a esse futuro. Zweig tirou a própria vida (e a esposa também) em 1942, na melancólica Petrópolis, após um Carnaval mais melancólico ainda.Stefan Zweig e mulher, falecimento em 1942 em Petrópolis, no Brasil, supostamente por suicidio

A obra de Zweig é vasta. É cumeada pelas novelas e biografias. Outro dia, adquiri “24 horas na vida de uma mulher e outras novelas” (Nova Fronteira, 2018), na qual Alberto Dines, o prefaciador (além de biógrafo de Zweig), afirma: “Amok, Carta de uma desconhecida, 24 horas da vida de uma mulher e Confusão de sentimentos, junto com as biografias de Maria Antonieta, Maria Stuart e Fouché, são os títulos mais lembrados da vasta obra do escritor austríaco até hoje, e não apenas pelas tiragens, mas porque foram adaptadas para o cinema americano e europeu”. Já que escrita no Brasil, à lista eu acrescento a autobiografia “O mundo que eu vi”, de 1942.

Mas, hoje, eu quero destacar apenas dois causos da saga de Stefan Zweig. Um é triste; o outro, espero, terminará bem (pelo menos para mim).

O causo triste é o destino do intelectual pacifista, Stefan Zweig, num mundo tomado pela barbárie do Nazifascismo. Quanto ao fim do escritor, anota Dines: “Desgostoso, Zweig aluga um chalé em Petrópolis para aguardar o fim da guerra [a 2ª Grande Guerra]. O desespero fabricado pela solidão e a angústia com o irresistível avanço nazifascista o derrubaram. A 22 de fevereiro de 1942, cinco dias depois do Carnaval, Stefan Zweig e a mulher suicidaram-se.

O humanista não aguentou o espetáculo de insanidade que a barbárie hitlerista havia desencadeado. No repertório de suas paixões não foi incluído o radicalismo político”. No Brasil, Zweig buscava algo que, mesmo muitíssimo bem recebido, por autoridades e intelectuais, também não encontrou: a sua paz e a paz de todos (encontramos hoje?). E topou, mesmo aprendendo a amar o nosso país – vide sua carta de suicídio –, voluntariamente, com a “indesejada das gentes”.

O segundo causo é de outra natureza. É a minha busca por uma novela de Zweig, “O Mendel dos livros”, de 1929 (originalmente publicada no Neue Freie Press), que conta a história de um sebista judeu russo que tinha “escritório” em uma das mesas do Café Gluck, em Viena. A memória do livreiro era espantosa. Enciclopédica. Sabia tudo das obras que comercializava.

Era admirado pelo proprietário do café e pela clientela, que faziam uso dos seus serviços. Mas vem a 1º Grande Guerra. Nacionalidades se opõem. Raças também. E o livreiro é considerado um inimigo da pátria. Novela profética, no que toca ao despertencimento à nação em que se vive, do destino do próprio Zweig?

Estes dias, topei com essa novela pelo menos duas vezes. Primeiramente, quando escrevia sobre os cafés de Viena. O sebista de Zweig tornou-se personagem clássica na cultura dos cafés da outrora capital imperial. A segunda foi quando trabalhava na publicação de meus livros, em e-books e impressos, na Amazon. Essa dupla conhecença não pode ser coincidência (e aqui inflaciono a minha porção mística).

O destino não bate na nossa porta duas vezes. Ou bate? Sei lá. O fato é que, desde então, busco pelo “Mendel dos livros”. Perguntei a sebistas da terrinha. A amigos bibliófilos. Mas ninguém dá conta do dito cujo. A edição achada na Amazon, portuguesa, da Assírio & Alvim, custa R$ 481,00, mais frete. Mui caro. Não estou roubando.

Bom, não sei como terminará a minha busca pelo “Mendel dos livros”. Espero que bem. Longe de tragicamente, como no caso Zweig. Não mato nem morro por livros. Ainda. De toda sorte, indago: alguém pode me ajudar?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
domingo - 24/10/2021 - 04:12h

Crítica negativa

Por Marcos Ferreira

Como todo operário da palavra, o cronista escreve pensando em determinado grupo de leitores. Em algumas ocasiões, feito agora, ele pensa num leitor específico. Na verdade, para ser sincero, hoje eu penso numa certa leitora que esses dias, por telefone, desferiu contra mim uma saraivada de reprovações às minhas crônicas. Leitora esta que, vez por outra, assina um texto desse gênero.

Trata-se de uma jornalista experiente, cobra criada, e que maneja medianamente bem o nosso idioma. Mas entende tanto de literatura quanto de engenharia atômica. A mulher, entre outros pontos que lhe desgosta, acha um grande saco (expressão dela) essa coisa de eu dialogar com meus hipotéticos leitores, referindo-me a estes por meio do vocativo “prezado leitor e gentil leitora”. Pois é, a tal jornalista acha essa sintonia um negócio meloso, cacoete terrível, algo piegas.crítica, raiva, ira, verborragia, desaforo, grito, berro, verbo, falar, fala, voz,

Não sei até que ponto ela está certa ou errada. De repente, convenhamos, outras pessoas podem pensar assim. Esse ofício de cronista, a exemplo do que ocorre em qualquer ramo de arte, tem seus dias de glória e de fracasso, feedbacks bons e alguns bastante ruins. E estes últimos, se a gente não tiver humildade e convicção do que é e faz, podem sepultar a carreira de um autor inseguro.

São estes, digamos, os ossos do ofício. Claro que a jornalista, das mais competentes que conheço nesse ramo, não tem má vontade em relação a mim, não lhe passa pela cabeça o propósito de me fazer parar de escrever. Apenas, num rompante de sinceridade, desabafou. Notei que aquilo estava reprimido há um bom tempo, entalado em sua garganta, sem que ela tivesse coragem de me jogar na cara suas impressões acerca do meu exercício literário enquanto cronista.

Não sei, por sinal, o que ela acha da minha produção em versos e da prosa de ficção. O que dirá dos meus sonetos? Será que conhece e tem algum juízo sobre meus contos? Quem sabe esteja represando outros pareceres negativos e qualquer dia resolva me fuzilar com novo desabafo. Careço dizer, entretanto, que a crítica foi construtiva, embora suave como papel de embrulhar pregos.

— Vá tomar naquele canto! — disparou.

Isso me foi dito não de maneira rude nem chula, mas brincalhona, como é próprio da sua personalidade forte e sem muito asseio verbal. De fato, além de outros pontos que não me animo a citar, a questão do vocativo, do meu diálogo com os leitores, foi o que mais a tirou do sério. Espero que esta réplica não soe como revanchismo da minha parte, entretanto estou certo de que essa leitora, que possui inteligência acima da média, é bem pouco versada em matéria de crônicas.

Não quero me comparar aos monstros adiante, todavia, em se tratando de diálogo com os leitores, imagino que a competente e vocacionada jornalista curitibana nunca leu, sobretudo, as crônicas de Machado de Assis, de Rubem Braga, de Antônio Maria, de Fernando Sabino ou de Otto Lara Resende. Nem de José Nicodemos nem Dorian Jorge Freire. Se leu, não assimilou muita coisa.

É possível, e isso é absolutamente compreensível, que ela simplesmente não goste das minhas crônicas, do meu estilo ou falta dele. Pronto! Acabou-se! O que se há de fazer? Nada. Seria tão só uma questão de gosto, o que nem sempre é discutível. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, tidos como mestres da literatura, de que eu, por questões muito pessoais, não gosto. Até os respeito e reconheço como nomes de relevo, porém, ao fim e ao cabo, não me agradam.

Que dirá um Ferreira (ou ferreiro) das letras. Ainda assim, modéstia à parte, por intimidade e ambiência com o mundo literário, possuo certo tirocínio e discernimento. Por exemplo, sei quando um jornalista com aspirações a escritor (ou a escritora) tem e quando não tem talento para a literatura de verdade. Há jornalistas que são ótimos escritores e vice-versa, outros são uma só coisa.

Conheço indivíduos que têm o dom do jornalismo, como é o caso da mulher com quem conversei ao telefone, porém não passam disso. Tais pessoas são craques no texto puramente noticioso, informativo, sabem fazer uma matéria benfeitinha, etc., entretanto, quando se aventuram no campo da literatura, dão com os burros n’água. Não têm talento para a escrita verdadeiramente literária. Até escrevem uns artiguetes bonitinhos, contudo ficam nisso. Feito minha leitora curitibana.

Repito que a crítica que recebi foi construtiva. Tanto que agora está me rendendo, goste ou não a sinceríssima jornalista, uma nova crônica. Porque até as críticas negativas que a gente recebe podem servir de aprendizado ou aprimoramento. Precisamos apenas aguentar o tranco, assimilar o golpe e tocar o barco. Que a minha amiga não se aborreça ao ler estas páginas a ela dedicadas.

— Vá tomar naquele canto! — não fui.

Imagino que a jornalista há de se reconhecer diante deste texto como se estivesse em frente a um espelho. Mesmo eu tendo lhe preservado o nome e o veículo de comunicação para o qual trabalha na capital paranaense. Talvez ela diga de si para consigo que “quem fala o que quer ouve o que não quer”, como reza o ditado. Mas acredito que ela, bem-humorada que é, levará isso na esportiva e dará uma de suas gostosas gargalhadas ao deparar com esta crônica que me inspirou.

Acho justo lhe render tal homenagem, ainda que se tratando de crítica negativa, embora construtiva. Pois lembro que já escrevi textos referindo comentários elogiosos que recebi de leitores por ocasião de narrativas publicadas no Canal BCS (Blog Carlos Santos) e na Revista Papangu, do Túlio Ratto. Hoje, após a morte dos veículos impressos, a Papangu ressurge em suporte eletrônico.

Pois é, prezado leitor e gentil leitora, fui desancado sem piedade. Entretanto, embora depois eu receba mais uma ligação implacável da minha amiga jornalista, aqui vai outra vez o vocativo que a transtornou. Não interromperei, em virtude de uma só crítica negativa, o meu diálogo com os amigos leitores. Ache ruim quem quiser. Sugiro que minha amiga curitibana vá ler Machado de Assis, Rubem Braga, Antônio Maria e outros ases da crônica nacional. É o remédio.

— Vá tomar!!!… — talvez ela repita.

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
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domingo - 17/10/2021 - 10:32h

Nossos pais não mentiram

Por Inácio Augusto de Almeida

Quando a noite chegava, eu, nos meus quatro anos, me enchia de medo dos monstros que se aproveitavam da escuridão para pegar as crianças. E, buscando proteção, aprendi a rezar para Papai do Céu.

Rezando me sentia livre de qualquer perigo. pais-filhos-livros-800x533

Adormecia e sonhava, quase sempre, cercado de muitos brinquedos. Tudo se resumia a ter medo e a rezar.

Já na juventude, 13 anos ou pouco mais, deixei de sonhar com brinquedos e a ter medo dos monstros. Tinha lido OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES e me convenci que os monstros eram de jogar confete e de fritar bolinhos.

Hércules a todos tinha vencido.

Sem o medo a reza foi esquecida e nos sonhos não mais brinquedos, mas as mulheres que apareciam nas fotos e desenhos das revistas que, no escondidinho, olhava no colégio.

Dos monstros não mais lembrava.

Acreditando de tudo saber, tinha concluído que os monstros não passavam de invencionices dos meus pais para me fazer rezar.

A fase de adolescência passou. Passou como tudo passa numa vida que é uma sucessão de ilusões

Trabalhar era preciso.

O sonho de casar com a namoradinha crescia e sabia que, para casar, era preciso ter casa.

Desconhecia o golpe do genrinho bonzinho e sem sorte…

No trabalho não voltei a rezar. E os monstros da infância se perderam no tempo.

Só na maturidade comecei a perceber o erro cometido de deixar de rezar para afastar os monstros que me cercavam na subida do pau de sebo. Sem vocação para fera, de forma despercebida, virei cristão em tarde de Coliseu lotado.

Quanta inocência, quantos erros cometidos por conta de uma ingenuidade exagerada.

Hoje identifico os monstros, não pela aparência, mas pelos atos.

O ladrão que furta a merenda escolar e sonega o uniforme escolar das criancinhas.

O bandido que desvia o dinheiro da saúde e nega vacina aos acamados e mais pobres.

O lunfa que embolsa o dinheiro do saneamento.

Monstros que existem e nem mesmo Hércules consegue vencê-los.

Monstros que tomam parte dos salários dos servidores e fazem licitações absurdas.

Monstros que geram miséria e atraso por conta de uma ambição desmedida e da certeza de uma impunidade assegurada por leis frouxas.

Não rezem pedindo proteção contra estes monstros.

LUTEM!

Os monstros existem. As estórias contadas por nossos pais eram alertas para os perigos desta vida.

Nossos pais nunca mentiram.

OS MONSTROS EXISTEM.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

*Esta crônica eu dedico, como forma de agradecimento, aos defensores públicos que me prestaram apoio no mutirão de negociação de contratos acontecido na CDL.

Apesar de constatarem erros no contrato, e da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL não aceitar realizar nenhuma correção, os defensores públicos me orientaram a procurar a Defensoria Pública Federal.

Pelo apoio e pela orientação o meu muito obrigado a esses defensores públicos.

Categoria(s): Crônica
domingo - 17/10/2021 - 08:42h

Uma força da Natureza

Por Marcelo Alves

Otto Maria Carpeaux (1900-1978) – austríaco naturalizado brasileiro, jornalista e ensaísta dos grandes, historiador e crítico de literatura, arte e música, polímata e poliglota, autor de “A História da Literatura Ocidental” (volumosa magnum opus) e de “A história concisa da literatura alemã” (que, em edição da Faro Editorial, 2013, tenho citado aqui) – foi uma força da natureza.

Carpeaux nasceu em Viena, então capital do Império Austro-Húngaro, numa família judia (pelo pai) burguesa de classe média. Estudou direito sem terminar. Foi cursar filosofia e química, ainda na Universidade de Viena, obtendo graduação nessas duas ciências. Tentou dar aulas por ali. Partiu Europa afora. Berlim, Roma, Amsterdam, Londres, Paris e por aí vai. Sempre estudando (literatura, cinema, música, ciência política etc.) e já fazendo jornalismo internacional.Otto Maria Carpeaux

Voltou a Viena. Casou. Com a morte do pai, converteu-se ao catolicismo. Escreveu mais crítica literária e jornalismo. Fez política nos níveis mais altos do governo austríaco. Com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, fugiu de sua terra natal. Destino final: Brasil. Sorte nossa.

A estada de Carpeaux entre nós viria a durar décadas. De 1939 a 1978, o ano de sua morte, do coração, no Rio de Janeiro, cidade que adotou como sua. E quem não gostaria de morar no “Rio antigo”, “como nos velhos tempos”, conforme descrito na música do nosso Chico Anísio (1931-2012)? No Brasil, ele teve seus anos mais produtivos. Foi bibliotecário e enciclopedista importante. A partir do saudoso Correio da Manhã fez muito jornalismo. Publicou livros à saciedade. “A História da Literatura Ocidental”, que tenho aqui numa coedição da UniverCidade Editora e Topbooks, é originalmente de 1959-1966. Monumental. E, quando caiu em si, foi um feroz crítico do regime militar/ditatorial brasileiro (1964-1985).

A influência de Carpeaux no panorama cultural brasileiro foi enorme. Eis as palavras de Willi Bolle, no texto “À sombra do muro (anos 1960 a 1990)”, que atualiza “A história concisa da literatura alemã”: “A vocação de Otto Maria Carpeaux como historiador da cultura manifesta-se desde obras de grande abrangência, como História da Literatura Ocidental, até os ‘pequenos’ ensaios publicados em jornais. No meio do caminho situa-se seu livro sobre A Literatura Alemã (1964), que oferece ao leitor da América Latina e especialmente no Brasil uma visão do universo cultural de origem do seu autor.

O que destaca a obra de Carpeaux é sua repercussão formadora no meio intelectual brasileiro. Contribui para isso a capacidade de síntese com que ele expõe um panorama da literatura alemã, desde os primórdios até os autores contemporâneos. Panorama organizado por estilos de época – Barroco, Classicismo, Romantismo etc. – ou pelo recorte alternadamente estático e político: Revolução, Expressionismo, República de Weimar… Contribuem também a escolha acertada dos autores e das obras, bem como a sensibilidade e firmeza na avaliação, trabalho em que Carpeaux se baliza pelo estado da Ciência e da crítica literária do seu tempo. Na caracterização dos períodos e na arte de torná-los concretos, através dos retratos de escritores e textos, revela-se o grau de compreensão do historiador”.

Se a grandeza e a influência de Carpeaux parecem patentes (há gente mais habilitada para tratar disso do que eu), eu quero aqui deixar registrado o que mais me impressiona na vida desse cidadão do mundo e do Brasil (sobre as minhas impressões, quem melhor fala sou eu mesmo).

Como imigrante, Carpeaux aqui aportou com muito pouco. E menos sabia do Brasil. Embora poliglota – li que dominava alemão, francês, flamengo, inglês, italiano, espanhol, catalão, galego, provençal, servo-croata e o clássico latim –, o homem não versava o português. Dizem até que originalmente mandava seus textos jornalísticos em francês, que eram traduzidos para publicação. Outros tempos.

Mas ele aprendeu bem a nossa língua. Embora, nas leituras de “A história concisa da literatura alemã”, eu tenha notado alguns erros (não sei se de edição) e sobretudo tenha tido a impressão de estar diante de um texto escrito por alguém que não teve o português como língua materna.

Bom, a obra brasileira do “nosso” escritor é impressionante. Monumental, repito. E quem já precisou escrever em alto nível, em língua não maternal, sabe o quão difícil, quase impossível, isso é. É necessária muita força. Uma força da natureza, como no caso de Otto Maria Carpeaux.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Categoria(s): Crônica
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domingo - 17/10/2021 - 06:40h

Perda e saudade

Por Odemirton Filho 

Quando espio o passado percebo quantas pessoas queridas já perdi no correr da vida. No último dia cinco, infelizmente, perdi o meu tio Francisco das Chagas da Silva Espínola, professor aposentado da antiga ESAM. Um homem do bem, como se diz daquelas pessoas corretas.

Professor Espínola: uma subtração afetiva (Foto: cedida)

Professor Espínola: uma subtração afetiva (Foto: cedida)

Tio Espínola fez parte de toda minha vida. Quando eu ia à sua casa para brincar com os meus primos, a hora do almoço era um tormento. Tio Espínola somente deixava eu me levantar quando comesse tudo que estava no prato. Para mim, à época magrinho, era um sacrifício. Ele era barriga cheia, como se diz. Gostava de tomar uma “lapada” de cana antes de almoçar. Como homem “das antigas”, usava uma “capanga” para guardar seu dinheiro e documentos.

Lembro-me da construção de sua casa, ali no bairro Costa e Silva. Uma casa grande. A festa de aniversário de quinze anos de minha irmã foi lá. Aos domingos, ele gostava de preparar um churrasco para receber seus filhos e netos. Era um pai e avô dedicado. No ano passado, quando a pandemia estava no seu pior momento, ele ficou, juntamente com tia Adna, na casa de Tibau. Tio Espínola curtiu, sem saber, o restante da sua vida.

Tenho imensa saudade das “churrascadas” no alpendre de Tibau. Uma ruma de gente, bebendo e cantando, o mar como tira-gosto. Muitas das vezes eu tive que sair para comprar mais cerveja, tamanha era a sede dos convivas. Tio Espínola sempre fazia parte desses encontros.

Anos depois, já adulto, eu ingressei na Loja Maçônica 24 de Junho. Tio Espínola estava lá, pronto para me iniciar nos “mistérios” da Maçonaria. Ele nunca quis ser o Venerável-Mestre, embora tivesse experiência e respeito dos irmãos para assumir o primeiro malhete da Loja.

Lamento não ter conversado mais com ele, tomando o seu uísque Black & White. Eu teria aprendido muito sobre a vida. Vez ou outra, nos encontrávamos num supermercado próximo das nossas casas e trocávamos um dedo de prosa. Ele e sua inseparável “capanga”.

Certamente, o leitor, assim como eu, deve ter as suas perdas e saudades.

Vem-me à lembrança o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Sim, tenho saudades, nem nos deixaste sequer o direito de indagar, porque o fizeste, porque te foste”. 

Tio Espínola deixará saudade. Das grandes.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Crônica
domingo - 17/10/2021 - 04:00h

Gudãozinho

Por Marcos Ferreira

Como se alguém houvesse perguntado, informo que hoje levantei cedo. Coisa esta, aliás, que se transformou em rotina. Portanto, a exemplo de outras vezes, acordei antes das cinco. Para ser mais preciso, fui desperto. Sim. Minha mimosa gata Gudãozinho, que ainda não completou um ano de vida, foi quem me acordou. Ela, Gudãozinho, é a pessoa que acorda mais cedo aqui em casa, sendo também necessário dizer que só nós dois habitamos entre estas paredes velhas.gatinho, gato branco, felino, animal

Pois é, eu a chamo de pessoa. Tem mais personalidade do que certos indivíduos que conheço. Gudãozinho dorme dentro de casa há um bom tempo, desde a noite em que um gato grandalhão e vira-lata tentou dominá-la, cheio de segundas intenções. A gatinha nem chegou ao primeiro cio. Estou me programando, juntamente com Natália, para realizarmos o procedimento de castração.

Todos os dias, logo que os passarinhos iniciam o seu trinado na mangueira da residência aos fundos, a felina salta para dentro da minha rede e não sossega (espezinhando sobre mim) enquanto não lhe abro a porta da cozinha. Ela vai brincar no quintal, eu geralmente volto para a rede, a fim de retomar o sono interrompido, porém daí a pouco Gudãozinho vem me cutucar. Já amanhece elétrica e a essa hora, sem dó nem piedade, espera que eu tome parte nas brincadeiras dela.

Dei-lhe esse nome (lembro de já ter explicado isso) por ela ser felpuda e branquinha como algodão, extraindo desta palavra a corruptela Gudãozinho. Apareceu-me certa manhã, quando abri o portão, como também relatei em crônica de há dois ou três meses, em lastimável estado de desnutrição, só pele e ossos, às vascas da morte. Não conseguia sequer se manter de pé para comer.

Não tive coragem de deixá-la na rua. Compreendi que talvez não sobrevivesse nem mais um dia naquelas condições. Resgatei-a daquela situação miserável e a trouxe para dentro, imaginando que estava praticando uma boa ação, uma caridade. Eu não fazia ideia do quanto ela me retribuiria em tão pouco tempo. De repente, não mais do que de repente, como no soneto de Vinícius de Moraes, eu não mais me sentiria tão sozinho neste meu cotidiano de homem recluso.

Comprei-lhe ração, ofereci-lhe um teto, água geladinha e carinho às pampas; levei-a ao veterinário com o apoio de Natália. O médico aplicou-lhe vacinas, fez um hemograma, detectou uma infecção, prescreveu remédios. Hoje Gudãozinho está aqui lépida e fagueira, esbanjando saúde e vendendo beleza. É ótimo vê-la brincando pela casa e quintal, ronronando e me tirando a pagode.

Quando menos espero, lá vem ela com uma lagartixa na boca, espécie de troféu, segundo li em algum lugar, para oferecer ao seu tutor. Fico arrepiado, tenho nojo a esses répteis, entretanto pego a presa e a devolvo à natureza. Gudãozinho não mata esses bichinhos, somente os captura e os traz para me mostrar, orgulhosa da sua façanha. Outro dia, para meu assombro, entrou pela porta da cozinha arrastando uma iguana de bom tamanho, três vezes maior que uma lagartixa.

Depois de treze anos morando absolutamente só, tendo por companhia apenas a escrita e uma estante com livros, Gudãozinho surge e enche este modesto lar de encanto, graça e alegria. Quando não está tirando suas sonecas no início da tarde, passa boa parte do tempo conversando comigo, correndo de um lado para o outro, tocando o terror nas lagartixas e passarinhos que pisam no quintal.

Eu, todo bobo, vez por outra chamo por ela: “Cadê você, Gudãozinho?!” Segundos depois, conhecedora do próprio nome, ela vem me atender toda graciosa, a cauda muito felpuda para cima, apontando em minha direção como um para-raios. Roça nas minhas pernas, ameaça mordiscar meus tornozelos, brincalhona. Bebe pouco, mas vai de instante em instante à panelinha da ração. Creio que não estou exagerando ao dizer que ela dobrou de peso ao longo destes meses.

Desde que Gudãozinho dorme dentro de casa, portanto, acordo no horário dos passarinhos. Isso, mais que a quetiapina, me tem feito dormir bem cedo. Por volta das nove e meia os meus olhos já estão piongos de sono. Hoje foi um desses dias em que fui acordado cedinho, o dia mal havia surgido. Preparei a cafeteira, fiz minhas abluções, e antes das seis comecei a escrever esta crônica.

E por que não fecha a porta do quarto? O prezado leitor e a gentil leitora podem indagar. Respondo: simplesmente porque meu quarto não tem porta. Os cupins comeram, assim como devoraram a cama, o guarda-roupa, um armário, um bocado de livros e agora seguem roendo o móvel sobre o qual está a minha televisão. Então, senhoras e senhores, durmo mesmo de rede, que armo aqui na sala, diante do televisor. Vez por outra assisto a um filmezinho. Adoro cinema.

— Não é, Gudãozinho? — ela assente.

Quanto aos cupins, estou em desvantagem numérica. Combato um foco dos insetos aqui, surge outro acolá. Essa luta inglória se arrasta há anos. Estão em toda parte, embaixo do chão e no madeiramento. Gudãozinho, que botou ordem na superpopulação de lagartixas, nada pode fazer contra esses devoradores de madeira. Aqui, felizmente, não há ratos nem baratas. Cupins, entretanto…

Penso em outros bichinhos, sobretudo nos cães e gatos, que a esta hora estão por aí abandonados, rifados nas ruas, passando fome e sede, à espera de alguém que os adote. Poucas pessoas, infelizmente, dão importância a esses animais em situação de risco. Não me admira. Muitos sequer se importam com os mais de duzentos e vinte mil seres humanos que vivem atualmente nas ruas deste país. Famílias inteiras vivendo nas calçadas, sob marquises e toldos, pontes e viadutos.

Gudãozinho teve sorte de topar comigo, que tenho um coração de manteiga. Outro talvez a tivesse repelido. Também dei sorte em topar com Gudãozinho. Outro gato, em situação favorável, teria fugido de mim, e hoje eu estaria sem usufruir do bem que essa companhia de quatro patinhas me proporciona. Tanto Natália quanto o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) aprovam tal convivência.

Lá vem Gudãozinho com outra lagartixa!

Marcos Ferreira é escritor

Categoria(s): Crônica
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