Por Marcos Ferreira
Ontem, sábado (30) à noite, pelo WhatsApp, precisamente às dezenove horas e quarenta e cinco minutos, eu já havia entregado os pontos, jogado a toalha, e dito ao nosso amigo e cronista Odemirton Filho que ainda não escrevera nada para hoje. Ou seja, estaria de fora deste tatame do bom combate.
O plano era só ficar na moita, de olho nos oportunos e bem escritos resgates históricos do Bruno Ernesto; aguardar o Odemirton Filho, que sempre nos aparece com um assunto relevante, digno de reflexão; e me deliciar com os capítulos da saborosa novela/romance do François Silvestre, trama que venho acompanhando com crescente interesse a cada capítulo.
Ocorreu, porém, que uma determinada “leitora” não se deu por satisfeita e me exigiu participação, empenho para duelar com o relógio de ponto, arregaçar as mangas e dar o meu jeito para cumprir esta missão nem sempre tão fácil, todavia apaixonante. Assim, graças a citada “leitora” (que nunca ocupa o espaço reservado à opinião dos leitores) tomei gosto novamente por essa peleja com os meus neurônios e percebi que nem tudo estava perdido, que ainda me restara uma chance.
Parece até que ela percebe quando a locomotiva está fora dos trilhos, que existe algo tirando minha tranquilidade ou inspiração. Preciosa tem esse tipo de sensibilidade. É isso o que eu pressinto em relação a ela. Por exemplo, quando estanquei diante da página toda em branco, sem saber o que produzir, apresentar ao leitor de hoje, ela de novo preparou o salto, subiu na mesa e me ficou olhando fixamente, como dissesse com incomum brandura: “não desista; você vai conseguir”.
A gatinha é dessa forma, quer saber tudo que estou fazendo ou deixando de fazer. Compreende, atina para o meu estado de espírito. Não é de agora que a bichana me socorre nesses prolegômenos com que consigo desenvolver (às vezes mais, noutras vezes menos) um texto com até três páginas.
Penso, entretanto, que não será o caso de hoje. Eis, porém, a minha Preciosa com o seu olhar cheio de charme quanto intrigante. Então, como tutor coruja que eu sou, depressa agarrei o celular e fiz uma fotozinha para ilustrar está crônica que possivelmente há de vingar, salvar-se.
Hoje, portanto, ela pulou para dentro da minha rede (não durmo de cama) e me acordou às duas e quarenta da madrugada, espezinhando-me, puxando minha camisa, a fim de que eu fizesse minhas abluções, preparasse o café e me pusesse aqui, de modo a não faltar com esse compromisso com os leitores. É essa espécie de ideia que tento expor a esta hora. Não ofereço outra coisa. Após me tirar da rede, constatar que eu estava com o café pronto, os olhos bem abertos e iniciado a redação, ela abriu um bocejo e se recolheu.
Voltou para a cadeira em cima da qual gosta de dormir, à meia luz. E eu, para não a incomodar, liguei apenas a luminária da mesa.
Nos últimos dias Preciosa tem agido assim. Consegue roubar a cena; pula sobre meu colo, sobe nesta mesa de plástico bem pequena que mal cabe o notebook, uma luminária e a caneca de ágata com café. Volta e meia ela coloca uma patinha no teclado, ameaça desfazer o texto, como o julgasse inferior, sem a devida qualidade literária; puxa o fio do mouse, mordisca a tela, cobra um pouco de atenção. Não gosta (demonstra isso) quando fico quieto demais, silencioso, conversando com os meus botões, pensando no que o leitor aprovará ou não aprovará desta vez.
Só falta a Preciosa uma licença poética, tornar-se uma fábula e conversar comigo, bater um papo, dar algum palpite sobre este exercício solitário e nem sempre reconhecido que é o sacerdócio da escrita, cruz metafórica que abraçamos como devotos das letras.
Sim, existe uma psique bacana em Preciosa, como em todos os gatos e cães, um elo que as palavras se tornam insuficientes para explicar.
Vejo o reloginho no canto inferior direito do computador e constato que são seis horas e cinquenta e seis minutos. A passarada já fez a sua festa abandonando os dormitórios nas árvores das imediações. Imagino que não há mais o que dizer ou escrever. O café se acabou, o sono bateu e agora eu vou dormir.
Acho que cumpri com a minha missão.
Marcos Ferreira é escritor










Por Odemirton Filho




































