domingo - 07/01/2024 - 07:06h

Um alpendre e uma rede

A red hammock hangs in the shade of a porch in summer.

Foto extraída da Web (sem identificação de autoria

Por Odemirton Filho

Não, não se trata de uma resenha do livro da escritora alencarina Rachel de Queiroz, Um alpendre, uma rede, um açude. Apenas tomei por empréstimo parte do título para compor esta crônica.

Na verdade, quero resgatar sentimentos de um tempo passado que, volta e meia, invade-me a alma e o coração.

Uma casa com alpendre, como se sabe, é um convite para se jogar conversa fora, seja em uma fazenda ou numa praia.

Em um alpendre se fala sobre tudo e, principalmente, da vida alheia, só escapando quem voa alto. Em outros tempos, do alpendre da casa de Tibau, ouvia-se: “olhe a tapioca, o grude”.  Tomava-se um café acompanhado de um pedaço de bolo de leite. Ou fofo.

Na minha época de menino o alpendre da casa ficava lotado de adultos e crianças. Não tínhamos medo de dormir fora da casa. Muitos preferiam dormir sentindo o vento frio da madrugada e tendo a lua com lamparina.

Na infância falávamos sobre histórias de casas mal-assombradas, contos de pescador (se sentir cheiro de melancia, não entre no mar, tem tubarão por perto). Demorávamos a dormir. Ninguém queria “pegar” no sono e ser motivo de chacota. Corria-se o risco de ter o rosto pintado com uma pasta de dente.

Os mais traquinos armavam a rede de modo que quem fosse se deitar levasse uma queda. O riso era geral. Aquele que caiu, por vezes, levantava-se “brabo”, doido para “ir nas orelhas” de quem fez a brincadeira de mau gosto.

Já adolescentes, quando voltávamos das festas de madrugada, ficávamos resenhando. Quem “descolou” ou quem somente encheu a cara. Alguns chegavam bêbados e, com o balanço da rede, vomitavam pra valer.

Mas é claro que um alpendre tem os seus momentos de calmaria. A rede é um convite à leitura. Um cochilo. Sim, eu sei caro leitor, a rede também é um convite para o aconchego dos casais.

Pois é. Um alpendre e uma rede oferecem agradáveis momentos. E boas, boas lembranças.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/01/2024 - 06:22h

Refúgio

Por Bruno Ernesto

Imagem obtida via internet no perfil do instagram @avenicamag

Imagem obtida via internet no perfil do instagram @avenicamag

Ter uma cobertura remonta à ideia de que há sucesso financeiro e emprega um ar de sofisticação. O estrangeirismo ganha força com o “Rooftop”; além do “Frontstage” e o ”Backstage”. Nada contra.

Lá se vão 55 anos da famosa apresentação que os Beatles fizeram na cobertura da Apple Records, em 30 de janeiro de 1969. A última apresentação pública da banda que revolucionou o mundo culturalmente.

Foi uma despedida bem original. Certamente, uma ótima surpresa para quem passava pela rua. Até a polícia subiu para tentar manter o sossego sonoro dos sisudos britânicos.

Entretanto, os policiais mais assistiram à apresentação do que tentaram interrompê-la. Afinal, quem não gostaria de ver os Beatles tocando ao vivo, ali, na sua frente?  Vale a pena assistir. (Clique no link para assistir ao vídeo da apresentação na íntegra no YouTube //www.youtube.com/playlist?list=PL4fJeg9CXdTdxSzDzGPD22YVI1oqdFxtD )

Ter um cantinho para se refugiar, mais que nunca, é muito interessante. Diria, extremamente necessário. E esse cantinho reservado, necessariamente, não significa ser uma luxuosa cobertura. A simplicidade, talvez, seja mais acolhedora.

Até pouco tempo, podíamos desfrutar de um bom quintal nas nossas casas. Quem pôde crescer com um quintal em casa, sabe muito bem como ele podia se transformar num mundo à parte para uma criança com uma boa imaginação.

Lembro do livro Canto de Muro, de Câmara Cascudo, que narra o micromundo das criaturas que habitam o quintal. Ele descreve, brilhantemente, a vida de sapos, escorpiões, baratas, passarinhos, lagartixas, etc.  É uma outra face do mestre Câmara Cascudo, o romancista.

Se você se atentar, um espaço reservado é muito significante e restaurador. Tanto física quanto mentalmente. Nem precisa ir para muito longe para ficar no seu refúgio. Se isolar, ainda que momentaneamente; nem que seja para tomar um café, ler um livro, acender um incenso, tirar um cochilo, ficar com seu animal de estimação ou apenas ficar sozinho.

Quando estiver andando por aí, preste atenção ao seu redor. Olhe para as varandas e sacadas dos prédios. Veja aquele quintal com uma mesinha, cadeira e uma rede balançando. Olhe para o gato que observa tudo lá de cima e o cachorrinho desafiando quem passa.

Veja alguém gesticulando ao telefone, lendo um livro ou arrumando seu pequeno jardim suspenso. Vai ter gente olhando pra rua ou para o vizinho. Enfim, vai ter muita gente aproveitando seu refúgio.

Sou contrário à infinidade de leis que vigem no Brasil. Digo viger, pois é diferente de ter eficácia; o famoso ditado de que “a lei não pegou”. Todo mundo deveria ter garantido o direito de ter a sua varanda, quintal ou terraço. E vou além: todo quintal, varanda e terraço deveria ter, no mínimo, benefício tributário, tipo isenção do IPTU, IOF e imposto de renda.

Deveria ser política pública garantir esse santo espaço para as horas de descanso e refúgio. Afinal, não é obrigação do Estado e direito de todo cidadão, lhe ser garantido o direito à saúde? Inclusive a saúde mental?

Desculpem-me os tributaristas, economistas, tabeliães, oficiais de registro de imóveis e gestores públicos; mas é uma questão de saúde pública.

Permitam-me, ainda, fazer um paralelo: até bem pouco tempo, os carros não saiam de fábrica com freios ABS e airbag duplo – Olhe aí o estrangeirismo que mencionei no início desse texto -, como itens de segurança obrigatórios. Hoje não sai um carro de fábrica sem eles. É uma política pública de segurança. Salva vidas e economiza os recursos da saúde.

Dessa forma, caro leitor, não seria um absurdo, nem má ideia. Quem sabe, até poderia essa isenção tributária se estender a tudo que fosse destinado a essas áreas de descanso. Certamente fomentaria a economia.

As lojinhas de placas decorativas já poderiam acrescentar em seus estoques uma plaquinha informando que aquele local é isento de tributos por se tratar de uma varanda, quintal ou terraço e, sem dúvida, combinaria com todas as outras que já vemos no mercado.

Pequeno, grande, luxuoso, simples, varanda, terraço ou quintal. Tudo vira refúgio quando se quer apenas descansar, repor as energias, organizar ou reorganizar os pensamentos.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 31/12/2023 - 11:28h

Em 2024, escolha viver

Por Odemirton Filho 

Foto da página Pindorama Org

Foto da página Pindorama Org

Mais um ano se foi. E o que fizemos?

Erramos mais do que acertamos? Não importa. Recomecemos. A vida é isso: eterno recomeço. Apesar de tudo, não podemos desistir. “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Aprume a vela do barco de sua vida; mude a rota. Que tenhamos saúde para enfrentar a batalha; que tenhamos coragem para vencer as inúmeras adversidades.

Busquemos a felicidade, apesar….

Nada de desistir de nossos sonhos, é certo. Porém, não deixemos de aproveitar a vida com o que já conquistamos. Principalmente, aquelas conquistas imateriais, que não se podem mensurar. Sonhar e viver; viver e sonhar. “Viver é melhor que sonhar.

Beije, abrace, faça um carinho. Se prefere viajar, e a grana permite, viaje. Se prefere ficar em casa escutando músicas, tomando um vinho ou uma cachaça, fique. Se prefere ir à igreja, vá. Faça o que bem entender, mas tente levar a vida de forma leve, faz um bem danado a alma.

A vida não é só trabalhar para construir patrimônio e pagar boletos. É mais, bem mais. Em 2024, escolha viver, pois a vida passa depressa, não esqueça.

Fiquemos ao lado de quem amamos; vamos brincar, sorrir e chorar de emoção; viver intensamente cada momento, porque não sabemos se será o último de nossas vidas.

Lembre-se que milhões de pessoas mundo afora lutam para ter, pelo menos, um prato de comida. Muitos estão doentes, padecendo em cima de uma cama ou num leito de um hospital. Por isso, agradeçamos pelo pão nosso de cada dia e por nossa saúde.

O que devemos escolher para o ano novo?

“Escolha paz, na sua casa, nas suas palavras, na sua voz. Escolha a bondade, nos seus sonhos, nas suas relações, nas suas causas. Escolha o amor, no seu caminho, na sua história, na sua memória. Escolha a humildade, na sua postura, na sua bravura, na sua coragem. Escolha a justiça, nas suas decisões, na sua influência, na sua essência. Escolha Deus, na sua fidelidade, na sua vida”.  

Enfim, escolha viver.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/12/2023 - 11:00h

A irmã de Cristo

Por Marcos Ferreira

Ilustração extraída da Web (sem identificação de autoria)

Ilustração extraída da Web (sem identificação de autoria)

Quase três horas adulando um soneto. Consegui dar cabo dos quartetos (razoáveis, a meu ver), porém os tercetos emperraram. Paciência. Mudemos para a crônica. Deixemos o poema amadurecendo nos escaninhos da mente. No mais das vezes persevero, travo uma luta ferrenha com os meus neurônios, mas há ocasiões em que é preciso dar um tempo, tomar um banho bem frio e uma boa talagada de café amargo. Após isso, o que não é regra, termino encontrando a solução para os versos insubordinados, inacessíveis como certos políticos reeleitos.

Se eu sigo algum ritual para escrever? Talvez. Mas seria algo involuntário. Inquieto-me da mesa para a cama, da cama para a rede, armada aqui na sala, às vezes com uma caneta e bloco de notas. Então “eu olho, assustado, para a página branca de susto”. Apenas para citar Quintana, embora alguns leitores mais áridos, carentes de cultura literária, considerem tais citações uma coisa presumida, empolada, pedante. Fazer o quê? Não posso responder pela ignorância alheia. A minha já me é o bastante para que eu entenda que aquilo que sei é uma gota e o que ignoro é um oceano, como nas palavras do cientista inglês Isaac Newton.

Ouso dizer que hoje em dia, dispondo-se de um serviço de internet, de um celular ou computador, tornou-se fácil (aspas) que um indivíduo se venda por intelectual. Ou afete, digamos, uma intelectualidade medíocre. Porque frases engenhosas como essa de Newton são absolutamente encontráveis nos sites de busca, sem que o suposto intelectual precise consultar sua biblioteca física um sem-número de vezes, no caso daquelas pessoas que possuem bibliotecas.

Temos em Mossoró um autor — rapaz velho com mais de setenta anos, formado em ciências jurídicas e medicina veterinária, entretanto estabelecido no ramo de peças de automóveis — que já deveria ter sido agraciado com um Jabuti ou um Prêmio São Paulo de Literatura. Se não pelas várias obras publicadas do próprio bolso, entusiasticamente aplaudidas pelas igrejinhas de Vila Negra e da capital, ao menos pela admirável qualidade das epígrafes e aforismos com que ele impregna os seus romances, contos, poemas, crônicas e até ensaios literários.

Sim. O senhor Olavo Cardoso, eis o nome do referido escriba, notabiliza-se (no meu modo de ver) muito mais pela citação das obras e pensamentos de terceiros do que pelos méritos de suas próprias letras.

Isso, no entanto, não é da minha conta. Decerto também não é do interesse do paciente leitor. Iniciei estas linhas falando sobre poesia, e é sobre poesia que desejo continuar falando. Talvez eu devesse expor aqui as duas primeiras estrofes do referido soneto. Não. Fiquemos na categoria da crônica. O que não me impede de lhes apresentar a minha opinião sobre a arte do verso.

Eu dizia da minha peleja à cata dos tercetos, até agora sem remédio. Estalo os dedos. Daí a pouco vou dar uma olhada no trânsito. Espio por cima do muro, que é baixo o suficiente para esse tipo de espreita. Subo em dois tijolos de cerâmica, que mantenho ali para essa finalidade. Ganho uns vinte centímetros de altura e consigo espichar a cabeça para melhor examinar a rua.

Contudo ainda é cedo e quase não há tráfego; uma motocicleta e um carro passam devagar. A seguir, com menos velocidade, dois ciclistas e um carroceiro tomam rumos contrários. A carroça segue em direção ao oeste enquanto as bicicletas rumam para o leste. Ruazinha estragada e morta de um domingo igualmente morto. Continuo, repito, sem engenho para dar à luz os tercetos necessários à conclusão daquele soneto iniciado há horas.

Volto para a rede, enfastiado da monótona paisagem da rua. Apesar do inexplicável tremor das minhas mãos, coisa que o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) tem se empenhado em resolver, pego o bloco de notas e me ponho a cismar, os olhos mirando o vazio, mordiscando a tampa da caneta. Sobre o que escrever, afinal, nesta crônica digressiva, sem rumo certo? “Decifra-me ou te devoro”, ameaça-me a esfinge de Tebas.

É melhor que eu não permaneça na enrolação, abusando da paciência do leitor, cujo tempo destinado às nossas crônicas de qualidade supostamente apreciável merece ser valorizado. Pego outra xícara de café amargo e me ponho a saborear a rubiácea. Sequer um braço de vento se insurge contra a quietude.

Ouço a buzina de um carro, seguida pelo som das portas se fechando, e vou espiar a rua outra vez. A visita não é para mim, felizmente. O veículo parou diante da casa da senhora Margareth. Desceu um jovem e rechonchudo casal e o rapaz tocou a campainha da residência. Em alguns minutos a senhora Margareth lhes abriu o portão. O cachorro vira-lata do padeiro Saldanha vela um osso descarnado ao pé do poste. E esta rua vazia e morta me lembra um poema de Mauro Mota. Uma cigarra estridula seu característico canto de acasalamento nas imediações.

Sofro intimamente a dor dos versos que não consigo parir, esperando uma fagulha de engenho. Tenho a impressão de que me olham, à sorrelfa, os olhos invisíveis da Poesia, que hoje está de mal comigo.

Antes de atritarem as primeiras pedras e obterem o fogo, ela já se fizera inquilina dos subterrâneos e porões das nossas almas. Precede a escrita, a tinta e o papiro. Constitui os primórdios da linguagem. Compõe a nossa essência e cotidiano desde a pré-história, do interior das cavernas às habitações de agora. Socializou e interagiu com o homem primitivo à volta de fogueiras.

Ela está em toda parte. Sobreviveu a hecatombes e cataclismos, foi tragada por dilúvios e consumida por vulcões, no entanto ressurgiu como uma fênix. Sempre viveu conosco, em meio à luz e às trevas, independente do nosso querer e escolha. Existe desde a criação do mundo e do ser humano. Possui dimensões microscópicas quanto gigantescas. Muitas vezes se encontra bem diante dos nossos olhos e não conseguimos enxergá-la. Com algumas exceções, pois há quem jure de pés juntos que a desprezam e repelem, todos a estimamos e a cobiçamos.

Sinto a sua presença enquanto escrevo. Adivinho o seu olhar onipresente pairando sobre mim. Está dentro de nós, habita-nos e nos circunda a um só tempo. Não nos diz a que veio (nem carece), pois a ela nos destinamos, embora a subestimemos aqui e ali com a nossa fria e pragmática lógica.

Hoje a Poesia não parece disposta a colaborar para a conclusão do meu soneto. Vejo-a reflorir entre os espinhos e pedras do caminho. Continua e será exatamente a mesma, por séculos infindos, diversa e una. Reina sobre todas as amarras e grilhões, sobre todas as formas e regras, antiguidades e modernismos, vozes e silêncios, guerras e paz. Ela coexiste entre a lágrima e o riso, entre o êxtase e a dor, o fracasso e o sucesso. É fardo e fortuna, prazer e suplício de todos os seus discípulos e devotos. Alista reis e vassalos para a empresa de sua eternidade. Nobres e plebeus compartilham do mesmo pão verbal à sua mesa farta e indistinta.

Não possui fronteiras nem alfândegas. Cabe no útero de uma ostra e transborda rios, agita oceanos. É a pomba e o chacal, a espada e o cordeiro. Ora é festa e multidão, noutro instante é abandono e vazio. E se acaso à noite ela se revela sombra e embaraço, ressurge cristalina “mal rompe a manhã”.

Eis, senhoras e senhores, a irmã de Cristo, a filha bastarda que Deus não quis registrar nas Sagradas Escrituras: a Poesia!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 24/12/2023 - 06:46h

O sentido do Natal

Por Odemirton Filho 

Foto ilustrativa Web

Foto ilustrativa Web

Depois de muitos anos, o homem passou na rua onde ficava a casa dos seus avós. A velha residência há anos encontrava-se fechada. Desde o falecimento dos seus avós não teve mais coragem de transitar por aquela rua, a qual lhe trazia doces lembranças.

Ali, recebeu o carinho dos seus avós; aprendeu lições de honestidade com o seu avô. Ouvia-o falar sobre uma sociedade na qual não houvesse uma profunda desigualdade social. O seu vô era um sonhador? Decerto, mas era um homem de princípios, que lutava pela causa que acreditava.

Já a sua avó era evangélica, não embarcava muito naquelas “viagens” do marido. Acreditava palavras do Menino Jesus. Gostava de receber seus filhos e netos em casa, tratando-os com carinho. Entretanto, era firme, nada da bagunça dos netos desarrumando a casa, que era arrumada com zelo.

O homem, parado na frente da casa, com os olhos marejados, lembrou-se de alguns tios que já partiram para junto do Pai, e de outros que, infelizmente, perderam a lucidez em razão da doença que os acomete. Lembrou-se dos momentos de alegria; da zoada, até das brigas, pois toda família tem os seus “moídos”.

Outrora, corriam felizes os dias da sua infância; os primos brincando dentro de casa. O seu avô lendo um livro, sentado na cadeira de balanço; a sua avó ao pé do fogão, preparando o almoço e a “janta”. Ele sentiu o cheiro do tempero de sua avó.

Lembrou-se das noites de Natal. Da ruma de familiares reunidos; da mesa farta. Hoje, somente existem lembranças, vez que cada um seguiu o seu caminho. Porém, os seus avós continuam vivos no local mais aconchegante do seu coração.

Os sorrisos de algumas pessoas fazem falta na ceia do Natal, não é? Imaginem se Deus permitisse, por um instante, que a gente abraçasse algumas pessoas que se foram. Ah, como seria bom.

Pois bem.

Agora, no entardecer da vida, ele compreendeu o verdadeiro sentido do Natal: a união da família, o partilhar do pão entre quem precisa, a esperança de nascer dias melhores, num mundo tão repleto de desamor e dificuldades.

O homem enxugou as lágrimas; seguiu o seu caminho ladrilhado por saudades. No entanto, sua alma serenou ao lembrar da mensagem do Papa Francisco:

Muitas são as dificuldades do nosso tempo, mas a esperança é mais forte, porque um menino nasceu para nós. Ele é a Palavra de Deus que se fez infante, capaz apenas de chorar e necessitado de tudo. Quis aprender a falar, como qualquer criança, para que nós aprendêssemos a escutar Deus, nosso Pai, a escutar-nos uns aos outros e a dialogar como irmãos e irmãs. Ó Cristo, nascido para nós, ensinai-nos a caminhar convosco pelas sendas da paz.  

Feliz Natal para todos”. 

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/12/2023 - 10:40h

O porto

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica

A visão do mar é uma das coisas das quais sempre despertou muitos sentimentos.

Se você fizer uma rápida busca na internet, verá que há muitos estudos e pesquisas concluindo que ir à praia é relaxante e traz inúmeros benefícios para a nossa saúde.

O cheiro, os sons e a visão são gatilhos para esse bem-estar, físico e mental.

Os oceanos são massas de água salgada imensas e profundas.

Os mares são massas de água salgada menores, menos profundos e mais numerosos.

Na idade média eram conhecidos os sete mares. Palco de histórias marcantes e fonte de inspiração inesgotável para estórias.

Quem dominava os mares, dominava o mundo.

A vista para o mar enobrece até o estilo de vida. Veja os anúncios das imobiliárias.

Mesmo aquele que não frequenta a praia admira o mar. Pessoalmente ou numa fotografia.

Além do mar, eu admiro o porto. Ele é o elo entre dois mundos: o mar e a terra firme.

Não adianta dominar o mar se você não puder aportar.

Certa vez me dei conta de um detalhe que sempre me passou despercebido, mesmo já tendo estado inúmeras vezes em portos marítimos: praticamente todos os barcos possuem nomes femininos.

Há diversas teorias a respeito desse costume.

Uma delas afirma que esse costume decorre pelo fato de que, nos primórdios, eram nomes de figuras mitológicas e de deusas.

Há quem diga que decorre de uma variação linguística. Outra diz que é para dar proteção e boa sorte.

De fato, não saberia dizer qual delas é a mais acertada. Mas o certo é que há sentido.

O porto é o local em que a embarcação chega, finalizando uma viagem ou pode ser o local de uma partida, iniciando uma nova viagem.

Dependendo do ponto de vista, pode ser ele o fim de uma história ou o início de uma. Porém, sempre será ele o porto seguro de alguém.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 17/12/2023 - 08:44h

A ética do preso

Por Marcelo Alves

Reprodução do livro de Dostoiévski

Reprodução do livro de Dostoiévski

Nunca esqueci a observação de Nilo Batista, em prefácio ao livro “Literatura e direito: uma outra leitura do mundo das leis” (de Eliane Botelho Junqueira, Letra Capital, 1998): “o relato literário, muitas vezes integrado pela experiência do autor, quando não explicitamente autobiográfico, não é menos elucidativo do que a objetiva descrição técnica do mesmo fato, processo ou instituição; através de Dostoiévski (Recordações da Casa dos Mortos) aprende-se sobre a penitenciária não menos que através de John Howard (O Estado das Prisões) e sua descendência. Um diretor de presídio brasileiro que tenha lido, por exemplo, representantes da nossa literatura como Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), Plínio Marcos (Barrela) e Assis Brasil (Os que Bebem como os Cães) compreenderá melhor o que está fazendo”.

Peguemos o exemplo de Dostoiévski (1821-1881), que, acusado de conspirar contra o Czar Nicolau I, foi, em 1849, condenado à morte. Apenas momentos antes da ordem de fuzilamento, a pena foi anunciada como comutada para prisão com trabalhos forçados (o próprio Czar exigira a encenação da falsa execução). Dostoiévski, então, foi levado à Sibéria. Quatro anos de prisão e dez anos de exílio nesse fim de mundo. Esse padecimento – a partir da sua experiência numa prisão decadente, suja e intransponível – foi narrado pelo autor em “Recordações (ou Memórias) da Casa dos Mortos”, talvez como ninguém mais na literatura universal.

De 1862, “Recordações da Casa dos Mortos”, construído a partir de uma coleção de fatos e eventos relacionados à vida nas prisões da Sibéria, é um romance, é vero. Mas só um gênio que passou por esse “sofrimento inenarrável”, que ali esteve “sepultado vivo”, para usar de expressões do próprio Dostoiévski, seria capaz de descrever as condições de vida e a personalidade daqueles que são condenados, culpados ou não, a viver ou morrer nessas condições. O momento da prisão em si, a solidão do cárcere ou a promiscuidade com delinquentes perigosos, tudo isso é terrível, sobretudo para homens de caráter e de sentimento, como Dostoiévski.

Esse tipo de experiência e de posterior narrativa não é uma exclusividade do grande romancista russo. Oscar Wilde (1854-1900) também pôs a angústia e o sofrimento no papel, retratando a realidade nas masmorras. A partir das idas e vindas de uma acusação pelo “crime” de homossexualismo, Wilde foi bater na prisão de Reading, cidade no sudeste da Inglaterra, que se torna o cenário de sua “Balada do Cárcere de Reading” (1898). A “Ballad” tem como ponto de partida a execução de um tal Charles Wooldridge, acontecida em 1896, quando Wilde estava ali encarcerado. Wooldridge, um militar, foi condenado à morte por haver assassinado a própria mulher. O enforcado tinha 30 anos quando cumprida a sentença.

Para além do testemunho, Wilde amplia o sentido da sua narrativa, para simbolizar a situação de todos os prisioneiros, mas não para criticar a justiça das decisões que os condenaram, e sim para mostrar, como “advogado” de uma reforma penal, a brutalização da punição do condenado à morte e de todos aqueles ali aprisionados e esquecidos. O verso autoaplicável “cada homem mata as coisas que ama” restou célebre.

Aliás, ainda em Reading Gaol, Wilde escreveu uma longuíssima carta ao seu amante, o Bosie. Nela, ele relembra o caso de amor e suas experiências de condenado. O tom é de lamento e ataque. Em 1905, foi publicada uma versão reduzida dessa carta. Em 1949, uma versão com partes inéditas. E, em 1962, a versão original revisada. A missiva restou conhecida com o título “De Profundis”.

Mas talvez tenha sido Victor Hugo (1802-1885) quem mais tenha feito em prol daqueles que eram – ainda o são – tratados como bestas humanas. Em “O último dia de um condenado” (1829), Hugo, sob os pontos de vista filosófico, sociológico, psicológico e jurídico, nos apresenta o diário de um condenado à morte, anônimo, que não é herói nem vilão, nas 24 horas anteriores a sua execução.

Mas como se julga o ato do homem (ou do seu agrupamento em forma de Estado) que decide e impõe a morte a um outro homem? É o que procura fazer o autor. É o que os franceses chamam de “roman à thèse”. Libelo contra a pena de morte, tema tão importante para o direito (e aqui já deixo minha assertiva oposição à pena capital imposta pelo Estado). É verdade que a pena de morte, depois de muita luta, está hoje abolida na grande maioria dos países ditos “civilizados”.

Mas, com Hugo e seu livro, na França e por onde a sua literatura se irradia, a luta pela abolição atingiu consciências e sensibilidades. Poucos fizeram tanto para abolir a “maldita” como o reformista/ativista Victor Hugo.

Agradecemos!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/12/2023 - 05:34h

Patinho Feio

Por Marcos Ferreira

Ilustração web

Ilustração web

Após esses anos todos, ignorando certas coisas com que a vida nos atinge, talvez uma ou outra pessoa (generosamente) diga que pareço mais bonito que meus oito irmãos. Destaco que já fomos onze. Dois morreram quando crianças. Assim, frisando essa questão numérica, preciso informar que, nos dias atuais, somos seis homens e três mulheres.

Nasci dois anos antes que os outros. Sou de 1970, completarei, se tudo der certo, cinquenta e quatro no dia 10 de abril. Superando os marmanjos, pois, agora eu seria o bonitinho. Ou o menos feio, classificação que me parece melhor.

Durante a nossa juventude, na época das primeiras namoradinhas, a vantagem no quesito beleza daqueles filhos do sapateiro Vicente e da dona de casa Marilda saltava aos olhos. Bem-apessoados, embora com uma parcela de timidez, não lhes faltavam pretendentes. Eu, porém, ainda mais tímido e sem determinados atrativos físicos, demorei um pouco até ser descoberto por uns belos olhos verdes na minha rua.

Como um cavalheiro não possui memória, não posso lhes revelar o nome da moça, que se tornou uma arquiteta bastante requisitada, foi embora para Santa Catarina e contraiu matrimônio com uma igualmente bonita mulher do universo judiciário.

É claro que ninguém avança na idade, ultrapassando os quarenta, cinquenta, sessenta anos, imune à ação do tempo. Não é possível negociar com o calendário. Desconfio, todavia, que alguns indivíduos fazem uso de um formol de efeito poderoso e chegam até mesmo aos setenta com feições ainda admiráveis. Isso pode ser observado tanto no sexo masculino quanto no feminino. Como exemplo feminino, hoje quero mencionar uma senhora que já ultrapassou os setenta anos e continua incrivelmente linda: Bruna Lombardi. Bruna nasceu no dia primeiro de agosto de 1952.

No meu caso e dos meus irmãos, algo fácil de perceber, estamos a anos-luz do superman Henry Cavill, tipo inserido num padrão de beleza praticamente consensual. De qualquer maneira, quanto àqueles rostinhos outrora bonitos dos meus irmãos, é possível que o transcorrer destas últimas cinco décadas não tenha sido tão severo comigo. Dito isto, modéstia à parte, não me considero um patinho feio. Torço apenas que nenhum deles se depare com esta crônica de viés narcisístico.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 10/12/2023 - 10:04h

A ética da testemunha

Por Marcelo Alves

Reprodução do BCS

Reprodução do BCS

Reformulação de um conto publicado em 1933, a peça “Testemunha de Acusação” (“Witness for the Prosecution”) é um dos maiores sucessos teatrais de Agatha Christie (1890-1976), dita a “Rainha do Crime”. Foi encenada, pela primeira vez, na Londres pós-guerra de 1953. Foi produzida nos EUA já no ano seguinte (1954). E ganhou os palcos do mundo. Todavia, embora seja uma das mais lidas e encenadas peças de Christie, a estória de “Testemunha de Acusação” alcança de fato o grande público com a sua adaptação para o cinema.

Sob a direção de Billy Wilder (1906-2002), em 1957 é lançada a película de mesmo nome (“Witness for the Prosecution”), a meu ver um dos melhores filmes de tribunal ou “courtroom dramas” até hoje produzidos. No filme estão Charles Laughton, Tyrone Power, Elsa Lanchester e Marlene Dietrich, a esposa do réu e “testemunha de acusação”.

Apesar dos traços cômicos, que dão um tom único ao filme, “Testemunha de Acusação” é, antes de tudo, uma reverência ao que o direito – no caso, o direito inglês – tem de melhor e de pior. A sala de audiência na “Old Bailey” é um lugar que transpira tradição, frequentado por grandes homens. Charles Laughton/Sir Wilfrid Robarts, o advogado “velha raposa”, consegue absolver o réu Leonard Vole apenas para descobrir, imediatamente após o veredicto, que o acusado era realmente culpado. A “testemunha de acusação” laborou maliciosamente para absolver o réu (que estará protegido daí em diante pela regra do ne bis in idem). A reação do velho advogado é: “Vole, você brincou com a lei inglesa”, um pecado mais “grave” que o próprio homicídio.

Leonard Vole, que revela estar de caso com uma mulher mais nova, é, em seguida, fatalmente esfaqueado por sua esposa, a “testemunha de acusação”. E o filme termina com Charles Laughton/Sir Wilfrid Robarts prometendo defender a esposa/testemunha maritalmente traída, mostrando sua crença na Justiça e no sistema legal inglês.

De estilo mais sério, baseado em romance homônimo de Robert Traver, pseudônimo do juiz John D. Voelker (1903-1991), o filme “Anatomia de um Crime” (“Anatomy of a Murder”, 1959), protagonizado por Jimmy Stewart (1908-1997), é outro clássico do cinema que tem como tema recorrente a falibilidade da prova testemunhal.

Nele, uma testemunha, por lealdade à vítima (seu antigo patrão) e por amor à filha deste, “interpreta” os fatos do caso, mesmo que de “boa-fé” (ou seja, acreditando ser a verdade), em detrimento da defesa do réu da estória. Outra testemunha, um dos companheiros de cela do réu, dolosamente depõe contra ele, orientada pelos promotores, em troca de um acordo suave para o seu próprio crime, segundo o contexto dá a entender.

Esses dois filmes retratam uma realidade que nós, operadores do direito, bem conhecemos. Sabemos que a prova testemunhal é provavelmente o meio de prova mais utilizado no direito processual brasileiro, sobretudo no processo penal. Mas ele também é, sabemos, o meio mais manipulável, o menos confiável. É por demais sujeito a imprecisões, seja dolosamente, “seja pela falibilidade da memória humana, seja porque, talvez até sem malícia, pode a testemunha deturpar os fatos com o fito de favorecer a parte”, como diz Luiz Rodrigues Wambier (em seu “Curso avançado de processo civil”, vol. 1, RT, 2007).

A prova testemunhal é por isso entre nós conhecida pela alcunha de “a prostituta das provas” (e aqui já afirmo que longe de mim querer ofender “as profissionais do amor”), apelido cuja autoria já vi atribuída a vários juristas de renome. Sem testemunhos de ciência própria sobre a criação, darei meu veredicto: tenho a designação como de “autor desconhecido”.

A alcunha de “prostituta das provas” é pejorativa e talvez exagerada, é vero. Mas que os causos de “Testemunha de Acusação” e “Anatomia de um Crime” nos fazem lembrar da “mais antiga profissão”, isso é vero também.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 10/12/2023 - 09:30h

Uma impressão

Por Bruno Ernesto

Foto do próprio autor da crônica

Foto do próprio autor da crônica

Há certos hábitos que mantemos por convicção, ou seja, com base em opinião firme a respeito de algo ou razões íntimas, ou como resultado de persuasão ou influência de outro, ou apenas crença. Tem quem fale que é coisa de quem não se rende aos novos tempos.

De fato, hoje tudo acontece numa velocidade estonteante. E quando falamos disseminação de informações, falamos hoje em fração de segundos.

Penso que o avanço tecnológico das plataformas de comunicação e interação é irreversível. Entretanto, é plenamente possível conciliar o modelo tradicional com o moderno. Um não anula o outro, na perspectiva de transmissão de informações. Entretanto, reconheço, não é tarefa fácil.

Lembro de meu saudoso pai revezando a sua leitura diária, ora debruçado no seu birô da biblioteca, ora numa mesa de desenho que ficava na varanda da casa e que ele adotou após eu desistir de ser arquiteto.

Ele manteve o hábito da leitura por toda sua vida. Não apenas pelo fato de ser professor, mas tinha sede de conhecimento, como quem precisa tomar um copo da água quando está com sede.

Quando comprou o seu primeiro computador, em 1993, aquela maravilha moderna ficou encaixotada na sua biblioteca por algumas semanas. Ele sequer sabia como montá-lo. Foi salvo por um colega professor da universidade que o montou.

Era um profundo admirador de tecnologia, porém, jamais deixou de lado seus cadernos de anotações. Contabilizei dia desses em sua biblioteca, mais de cem cadernos que ele fez anotações desde o início dos anos 1970.

Embora desde criança ponha os olhos nesses cadernos, nesse dia, o que me chamou atenção foi a sistematicidade em suas anotações. Nem mesmo sua caligrafia mudou em quase cinquenta anos de registros manuscritos. Diferentemente do que ocorre hoje, quando estamos destreinados até mesmo para rubricar.

De tal maneira, repito, não é tarefa fácil manter um costume nos tempos de hoje. Nem para quem produz conteúdo ou mesmo quem o consome, especialmente impresso. São muitos os fatores.

Entretanto, é muito prazeroso. E um deles, é ler jornal impresso. Chega a ser nostálgico.

Claro que a notícia que chega na palma de nossa mão de forma instantânea é uma maravilha, e interatividade que temos hoje é algo incrível e que não se pode abrir mão. É fato.

Me incluo, sem hesitar, no universo de leitores dessa modalidade. Aliás, o meu primeiro trabalho remunerado foi aos 14 anos, utilizando aquele primeiro computador que meu pai comprou.

Acordava todos os dias de madrugada para inserir as notícias do dia de um jornal local na sua página da internet, a extinta Gazeta do Oeste. Sim, do dia. Embora fosse a versão eletrônica, só era atualizado uma vez ao dia.

Ainda que seja cada vez mais difícil ter acesso a um jornal impresso por onde andamos, há locais que fazem questão de mantê-lo disponível para seus clientes, pois seu público mantém esse hábito. Diga-se, não é fácil quando não se está em um grande centro urbano ter acesso a jornais impressos.

E um deles são os cafés.

Aliás, os cafés deveriam ser considerados patrimônios da humanidade por diversos aspectos.

É hoje um local multicultural. Não se restringe apenas a tomar um bom café e comer algo numa pequena pausa.

Podemos ver um público muito variado nos cafés, que outrora era frequentado preponderante por pessoas com mais idade, transmitindo uma falsa impressão de que era um local sem graça e enfadonho.

Arrisco a dizer que muita gente tem incluído os cafés nos seus roteiros em busca de um novo estilo de vida, o que é muito bom sob vários aspectos. Eu mesmo levo meus filhos e eles adoram.

A leitura de um jornal impresso hoje é uma leitura mais despretensiosa, bem diferente daquela instantaneidade da notícia eletrônica atualizada a cada minuto.

Pra mim, passou a ser uma leitura para relaxar. Por inúmeras vezes aquela notícia já me é familiar, porém, leio novamente como se fosse a primeira vez.

Essa notícia, tida como velha por alguns, pode virar assunto ali no momento e render uma boa conversa. Há frequentadores nos cafés que lhe surpreendem com o conhecimento sobre determinados assuntos.

Outro dia, ao chegar num modesto restaurante, localizado numa cidadezinha minúscula chamada San Giovanni di Sinis, na Sardenha, quase no meio do nada, presenciei algo bem interessante, que há muito não via.

Ao chegar no local, havia um jornal numa cadeira junto à mesa ocupada por um casal e sua filha pequena. Meu amigo que me levou para conhecer o local, logo ao entrar, perguntou ao dito casal se poderia pegar o jornal para ler. O detalhe é que esse meu amigo, há pouco, havia se queixado da falta de tempo para ler em razão do trabalho.

De pronto disseram que sim e conversaram um pouco aos risos e apontavam para o jornal. Observei de longe a cena.

Após ele vir ao meu encontro, perguntei se ele conhecia aquele casal. Disse que não.

Almoçamos, e quando estávamos tomando um café, um senhor que acabara de entrar no restaurante, se dirigiu à nossa mesa, apontou para o jornal que estava na minha frente e perguntou se poderia pegá-lo para ler.

Fiquei imaginando quantas pessoas poderiam fazer isso durante o dia inteiro ali e lembrei da importância de se ter um jornal impresso em determinados momentos.

Aquele jornal fez mais que informar.

Tenho a impressão de que, em verdade, o jornal desperta esse interesse em todas as pessoas que põe os olhos nele.

Por vezes, é só questão de disponibilidade, nem tanto de hábito.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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domingo - 10/12/2023 - 08:46h

Ele está chegando

Por Marcos FerreiraEle está chegando – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Poucas são as pessoas (pouquíssimas!) que demonstrarão qualquer concordância com o meu modo de ver esse tipo de coisa. É claro que eu sou um sujeito fora do comum. Quando digo fora do comum estou querendo dizer especificamente que sou alguém incompatível com determinados furdunços sociais, que não me enquadro por completo na vida em rebanho, que não sigo a manada às cegas.

Tenho consciência, porém, de que existem vários pontos positivos no que diz respeito a uma porção de festejos. Alguns têm tradição e datas consolidadas, compõem o calendário brasileiro. Outros, denominados como fora de época, eu classifico entre os piores. No fim das contas, todos são eventos que promovem o desbunde da classe baluda e também daquela gente que se julga remediada, mas que se estrepa no cartão de crédito para marcar presença na folia, não ficar de fora da festa. Não importa que depois tenha que lidar com a ressaca, sobretudo, financeira.

Um exemplo desse meu desinteresse se reflete em algo que virá em pouco tempo. Grande número de indivíduos espera ansioso por isso. Não é o Natal nem o ano-novo. Sim, ele está vindo. É imparável. Mesmo durante o mais sombrio e devastador momento da pandemia, muitos miolos moles torciam para que o monstro apoteótico fosse realizado. Eu não nego que temi que isso pudesse acontecer.

O Natal e o ano-novo virão antes, não resta dúvida, todavia já é possível escutarmos e vermos os primeiros sinais da bulha que chegará atropelando tudo. É uma pândega, paixão nacional que, ao menos em sua época, supera o futebol. Brevemente o marketing (essa máquina de adestrar humanos) entrará com força total para fazer a cabeça dos brincantes.

É verdade que certos propagandistas exibirão aquele alerta fugacíssimo: beba com moderação. Mas tal “conselho”, falado ou mostrado em letras minúsculas abaixo dos informes, possui a duração de um piscar de olhos.

Ao fim e ao cabo, portanto, a tribuzana vai amontoar bêbado sobre bêbado. Alguns visitarão hospitais e até necrotérios. Mas isso é bobagem, faz parte do legítimo direito das pessoas de se esbaldarem e morrerem de alegria.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 03/12/2023 - 11:20h

Um homem de fé; servo de Deus

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Na pequena capela que se localiza na parte interna do Colégio Diocesano Santa Luzia um homem, com um semblante sereno, entrou. Cumprimentou-me com um leve aceno, e sentou-se em uma das cadeiras da primeira fila.

Costumeiramente, ao deixar minha filha no colégio, eu ficava um tempo na capela, em silêncio, tentando ouvir o que Deus tinha a me dizer. Da última fila, observava aquele homem, com a cabeça baixa, fazendo as suas orações, em íntima sintonia com Jesus.

“A voz do Senhor está no silêncio da alma, no coração que se liberta das excitações da vida para se colocar debaixo da mão poderosa do Senhor para escutá-Lo. Se ouvirmos a Sua voz, Ele será o nosso Deus e seremos o Seu povo, e Ele há de nos conduzir pelo caminho da felicidade”.

Vez ou outra, o encontrei, ali, colocando nas mãos do Filho de Deus as suas preces. Era o padre Sátiro do Colégio Diocesano, do Mosteiro de Santa Clara, da FM 105, da UERN.

Na semana que passou, com a sua partida para a Casa do Pai, muito foi dito sobre ele. Com efeito, padre Sátiro foi um dos construtores da história de Mossoró; uma de suas figuras marcantes, deixando-nos um legado imensurável.

O seu amor pela educação o fez ajudar muitas pessoas que não tinham condições de pagar a mensalidade do “colégio dos padres”. O Diocesano era um dos seus doces amores. No primeiro dia de aula, ele sempre recepcionava os alunos e alunas na entrada do colégio juntamente com o corpo docente.

Como religioso, sua voz ecoava levando o Evangelho para onde pudesse alcançar, por meio da FM 105. No seu programa Reflexão, na hora do Ângelus, passava a sua mensagem de fé, esperança e amor no Cristo Jesus. “A messe é grande, mas os operários são poucos”. (LC 10, 1-9). “Como são belos os pés do mensageiro que anuncia a paz, como são belos os pés do mensageiro que anuncia o Senhor”.

Ele lutou bravamente pela estadualização da nossa Universidade, da qual foi reitor. Aliás, padre Sátiro foi meu professor de Direito Romano, disciplina que lecionava com maestria, tendo em vista o seu profundo saber teológico e jurídico. “A palavra correta, caros alunos, é viger, viger”.

Na missa das exéquias, na Catedral de Santa Luzia, padre Charles afirmou, emocionado: “padre Sátiro viveu sonhando, e morreu sonhando”. Simpor isso seu espírito era jovial, pois “os sonhos não envelhecem”. Uma de suas últimas realizações foi a Faculdade Católica do RN.

Sem dúvida, concretizou muitos dos seus sonhos, porque era um homem de fé; servo de Deus. E o seu senhor lhe disse: bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor”. (Mateus 25:21).

Em relação à fé, diz o Papa Francisco em sua Encíclica Lumen Fidei (Luz da Fé):

Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida, acolhendo esta palavra que é Jesus Cristo – Palavra encarnada – o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus”.

Um dos momentos mais significantes para mim, na despedida a padre Sátiro, foi quando a professora Raimunda Almeida, “tia Mundinha”, que esteve à frente da escola com ele por muitos anos, colocou sobre o caixão a bandeira do Colégio Diocesano. Naquele instante, lágrimas escorreram em sua face, numa demonstração de uma sincera amizade, emocionando as pessoas que estavam presentes no ginásio Carecão.

Ao som da Fanfarra do Diocesano, o féretro chegou à Catedral de Santa Luzia; o velho padre adorava ouvir a turma jovem do seu amado colégio.

Durante toda a minha vida, igual a muitos dos mossoroenses, a sua presença foi uma constante direta ou indiretamente, seja quando eu e meus filhos estudávamos no colégio Diocesano, seja na história da cidade, pois padre Sátiro e Mossoró confundem-se.

São essas as minhas palavras, na certeza que não consegui dimensionar o que ele representou. Padre Sátiro era grande, pois era simples. É na simplicidade das atitudes que se revela a grandeza d`alma.

Ao ver as várias manifestações de pesar nas redes sociais, no velório e seu sepultamento, percebe-se que Mossoró sentiu dolorosamente a perda de um dos seus mais queridos sacerdotes, ao mesmo tempo, agradeceu, com enorme carinho, por todo bem que ele fez à terra de Santa Luzia.

E o que padre Sátiro Cavalcanti Dantas diria a todos que choram a sua partida? Talvez, as palavras de Santo Agostinho:

Você que aí ficou siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 03/12/2023 - 10:32h

Dois anos sem Ney Júnior

Por Ney Lopes

Ney Júnior foi vereador por dois mandatos em Natal, era jornalista e advogado (Foto: Elpídio Jr./arquivo)

Ney Júnior foi vereador por dois mandatos em Natal, era jornalista e advogado (Foto: Elpídio Jr./arquivo)

Meu filho Ney Jr,

Hoje, 30 de novembro, completam-se dois anos (veja AQUI), desde o dia em que você partiu deste mundo e nada voltou a ser igual.

Ainda não aceito tanto tempo sem você.

Ainda não reconheço a sua morte, o seu adeus.

Hoje, acordei com a profunda dor da distância que nos separa.

O tempo passou sem que notasse.

Parece que foi ontem, que você nos deixou.

Não houve um só dia (nem haverá), que deixasse de lembrá-lo e rezar pelo seu descanso eterno.

A coisa mais penosa que fiz na vida foi beijar a sua cabeça (gesto familiar que repetia em toda nossa convivência), antes de fechar o ataúde coberto de flores.

Conforta-me saber que Deus está cuidando de você na Eternidade.

Mesmo assim, é difícil assistir o amanhecer e o anoitecer sem a sua afetiva presença, sem escutar sua voz.

O coração sofre por não ter mais ao lado, quem tanto amor em mim despertou.

O tempo, na definição de Aristóteles, é a medida (contagem) das coisas, que se movimentam ou mudam, segundo um “antes e um depois”,

A Eternidade, segundo a Bíblia,  significa um tempo sem fim, uma vida que nunca terá fim.

Um dia nos encontraremos outra vez e, juntos, viveremos a vida sem fim da Eternidade.

Antes que isso aconteça, a dor não abranda, porque na perda de um ente querido o tempo não cura a saudade.

Caso possível e se puder me ver de onde está, não deixe de dá os conselhos que as vezes preciso.

O seu novo mundo é repleto de amor.

Nestes dois anos, o vazio aumentou sem dimensão e a dor sem limitações.

Hoje é o dia de homenageá-lo, após a sua partida para jamais voltar.

Fique certo que eu, a sua mãe, as suas irmãs, seus sobrinhos saudosos, seus avós, seus tios e primas, enfim toda a família e amigos, reverenciam a sua memória e jamais o esquecerão.

Para sempre iremos manter viva a sua história de jovem idealista, filho exemplar, político por vocação, com grande sensibilidade humana.

Isso consola o meu coração, em lágrimas.

Rogo a Deus que me indique um caminho e eu possa superar a sua falta.

Desejo-lhe paz e descanso com serenidade.

Beijos, meu querido filho!

PS Em família rezaremos hoje, numa Missa em sua intenção.

Ney Lopes é advogado, jornalista e ex-deputado federal

*Texto originalmente publicado em página própria do autor, no último dia 30 de novembro.

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domingo - 03/12/2023 - 09:48h

Como num sonho

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Poucas vezes nos damos conta do poder da nossa mente.

Do pensamento lógico, direcionado ou metódico ao pensamento vago e, o mais impressionante, o nosso inconsciente, podemos criar coisas únicas.

Uma frase do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) é emblemática: “As pinturas vem para mim como se estivesse num sonho.”

Já ouvimos grandes artistas e escritores dizerem que suas inspirações lhe aparecem sem explicação.

De fato, não é incomum que grandes obras artísticas e literárias surjam como se fossem obra do acaso.

Evidentemente que a materialização dessas obras passam por um processo de cognição que é comum a todos nós.

O que impressiona, porém, é o que ocorre na mente desses pessoas tidas como excepcionais.

Perceba que grandes artistas, como Vincent van Gogh, padeceram de grandes problemas de saúde mental.

Pondo os olhos na frente de uma tela de van Gogh, independentemente de sermos profundos conhecedores de obras de artes, todos nós podemos observar que a grandiosidade de sua obra pode estar simplesmente relacionada a uma nova perspectiva. Um jeito diferente de ver, representar e expressar aquilo que é normal para outra pessoa.

Veja, por exemplo, que um simples bosque de oliveiras, um campo de girassóis, a visão do mar ou um simples quarto de dormir, são retratados como se aquela cena, ali materializada, nunca tivesse ocorrido.  Ou se, de fato, tenha ocorrido, não foi daquela forma.

É tão impressionante a capacidade de nosso inconsciente, que nem mesmo grandes artistas como Vincent Van Gogh souberam explicar o processo de criação de suas obras.

Quando ele dizia que as pinturas lhe vinham como num sonho, certamente não era apenas o que se chamaria de dom ou inspiração, pois sua breve vida foi marcada por delírios, surtos psicóticos, sendo considerado um louco e fracassado, só tendo sua obra sido reconhecida após a sua morte.

Assim, guardadas as proporções, todos nós guardamos em nosso inconsciente essa fantástica capacidade de criar coisas únicas.

A diferença é que uns serão reconhecidos como excepcionais e outros tantos como normais.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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domingo - 26/11/2023 - 11:44h

A ética do jurado

Por Marcelo Alves

Doze Homens e uma Sentença é um clássico (Foto: reprodução)

Doze Homens e uma Sentença é um clássico (Foto: reprodução)

O tribunal do júri é um dos institutos mais encantadores do direito, sobretudo para o leigo nas lides jurídicas. É a forma de julgamento, cuja ancestralidade remonta aos primórdios da civilização, que, com toda a sua teatralidade, os debates entre acusação e defesa, a presença do réu, a majestade do juiz presidente e a reunião dos jurados em sala secreta, mais apelo tem no imaginário popular. No mundo anglofônico – onde está a origem moderna do instituto –, ele tem seu fundamento na cláusula 39 da Magna Carta, que fala em “processo legal por seus pares”.

É um prato cheio para a ficção jurídica, sobretudo para o cinema e as séries de TV (tipo “Law & Order”). E o mais típico dos filmes de júri é “Doze Homens e uma Sentença” (“12 Angry Men”, 1957), direção de Sidney Lumet (1924-2011) e estrelado por Henry Fonda (1905-1982).

À primeira vista, o enredo de “Doze Homens e uma Sentença” é simples.  Um jovem porto-riquenho, pobre morador de um “slum” (algo próximo de um “pardieiro”), é acusado de haver assassinado o pai. “As provas circunstanciais” estão contra ele. Doze jurados se reúnem para chegar a uma decisão unânime. Não alcançada a unanimidade, o júri será dissolvido. Onze jurados, já na primeira votação, optam pela condenação do réu. Henry Fonda é o jurado número 8 que, menos por acreditar na inocência do réu e mais por não crer na consistência das provas, obsta essa unanimidade. E o jurado número 8, após muita discussão, consegue finalmente convencer os demais jurados para fins de absolvição do jovem réu.

Todavia, um olhar mais atento ao filme nos revela como as decisões judiciais (ou quaisquer decisões) são tomadas. No ambiente sufocante da sala secreta, com calorosos debates, as personalidades dos jurados (todos homens e identificados, salvo na cena final, apenas por números e pela profissão) se evidenciam, assim como são revelados os motivos de cada um deles – baseados em preconceitos e experiências bem pessoais – para a decisão açodada de condenação do réu.

O jurado nº 7 é um descompromissado que quer uma decisão rápida para poder ir ao jogo de baseball da noite. O jurado nº 2 é um pacato bancário que, num primeiro momento, por não ter uma personalidade forte, apenas segue a maioria. O jurado nº 5 tem uma origem humilde e, a partir de certo ponto da narrativa, tende – ou é acusado de – a simpatizar com o réu. As acusações partem, principalmente, do jurado nº 3, um raivoso homem de negócios com um histórico de sérios conflitos com o filho (que ele enxerga no réu). O jurado nº 4 é um consultor na bolsa de valores, frio e analítico. O jurado nº 10 é um preconceituoso. Seu preconceito se dirige, para além do réu, contra o bom jurado nº 11, um europeu do Leste naturalizado norte-americano.

O filme mostra, assim, o pior da Justiça e do tribunal do júri, quando decisões sobre a vida, a liberdade ou o patrimônio de pessoas são tomadas com base em preconceitos ou por homens descompromissados. E não pensem que decisões assim fundadas são privilégio do tribunal do júri. Elas se dão também com juízes de carreira, embora em menor grau, já que esses juízes são ou deveriam ser treinados para minimizar tais influências. Os que tenham estudado como se dão os processos de decisão confirmarão o que eu digo.

Mas nem só de “bigots” (pessoas radicais ou intolerantes) é feito o heterogêneo júri de “Doze Homens e uma Sentença”. Além do já mencionado jurado nº 11, há o de nº 9, um velhinho que, pela idade, não é levado a sério por alguns dos jurados, mas que, ao final, se mostra observador e sábio. O próprio jurado nº 1, que preside os trabalhos na sala secreta, se mostra agregador e eficiente. Isso sem falar no onipresente jurado nº 8 (Henry Fonda). Ele é o cidadão que trabalha, dentro do sistema, para que a Justiça dos homens coincida com a “justiça ideal” e, ao final, consegue convencer os demais jurados, defendendo a presença da chamada “dúvida razoável” (“reasonable doubt”), para fins de absolvição do jovem réu.

Na atuação do jurado nº 8, o filme apresenta o que o júri ou a Justiça tem de melhor. E mesmo a diversidade estereotipada dos doze jurados não deixa de ser uma homenagem ao pluralismo, à tolerância e ao consenso, pilares de um estado democrático de direito para a realização final da Justiça.

Por fim, vai uma observação sobre o Brasil. Segundo a nossa CF (art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “d”), compete ao tribunal do júri o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. Na fase final, na sessão de julgamento propriamente dita, sete cidadãos comuns (sem necessária formação jurídica), que compõem o conselho de sentença, decidem, de acordo com as suas consciências e (supostamente) as provas dos autos, o destino do réu.

Tenho dúvidas quanto à positividade do júri. Não conheço profissionalmente os modelos inglês ou norte-americano. Mas, quanto ao nosso, conheço coisas de patéticas a escabrosas. Na verdade, tenho um caminhão carregado de críticas.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London (KCL) e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL)

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domingo - 26/11/2023 - 09:24h

E a vida?

Por Odemirton Filho Salto, alegria, pulo, silhueta

Sorrimos. Choramos. Amamos. Brigamos.

É a vida. Esse turbilhão de emoções enquanto estamos por aqui. E nem sabemos por quanto tempo. Amanhã ou depois seremos saudade. Ou nem isso.

Passamos a maior parte do nosso tempo em busca de amealhar bens; apesar da maioria suar para sobreviver. Lutamos para conseguirmos um bom emprego, uma boa casa, entre outras coisas. Entretanto, ao fim e ao cabo, esses bens materiais servirão somente para os nossos descendentes brigarem em demorados processos judiciais.

Dizem as escrituras: “não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam”. (Mateus 6:19-29). 

Sim, eu sei, é questão de fé; são os valores imanentes de cada pessoa.

Mas, ao volvermos os olhos para trás, é salutar fazermos uma reflexão. Amamos ou ficamos a vida cultivando o ódio? Construímos pontes ou muros nos nossos relacionamentos? Tivemos um espírito pacificador ou beligerante? Pensemos, não custa rever nossos valores e atitudes.

São perguntas que poucos se fazem e, aí, quando menos esperam, no ocaso da vida, “a ficha cai”, e percebem que estavam trilhando um caminho enviesado. Será tarde? Creio que nunca é tarde para tentar navegar por mares serenos.

Podemos lutar por nossas ideias, defender o nosso ponto de vista, mas não precisamos ser uma pessoa inconveniente, agressiva, a ponto de nossa presença ser insuportável para familiares e amigos (nas redes sociais é só o que observamos). Li, em algum lugar, que não há paz onde viceja o ódio.

Pois bem, não vejo problema em querer algo melhor para nós e os nossos. O que nos faz mal é sermos consumidos pela ganância, a arrogância e a vaidade. É o que penso.

Como diz a letra da bela canção do inesquecível Gonzaguinha:

“E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão? Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão? Mas e a vida? Ela é amar a vida ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento”?

A vida, meus irmãos, apesar das dificuldades, “é bonita, é bonita, e é bonita…”

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 26/11/2023 - 07:24h

Antes da bola rolar

Por Marcos Ferreira

Registro em arquibancadas do Maracanã, em jogo de Brasil 0 x 1 Argentina há poucos dias (Foto: O Globo)

Registro em arquibancadas do Maracanã, em jogo de Brasil 0 x 1 Argentina há poucos dias (Foto: O Globo)

Entendo tanto de futebol quanto de engenharia atômica. Sei que esse tipo de expressão é um lugar-comum, mas deixo como está. Porque hoje quero falar um pouco sobre esse assunto tão rico de fanatismo e tão pobre de bom senso. Vejam. Houve uma época, até não muito distante, em que me sentia atraído por esse mundo da bola. Isto quando se tratava de Copa do Mundo e Seleção Brasileira. Angustiei-me, torci de coração aos solavancos pelo nosso time e talvez até tenha chorado por causa da eliminação daquele elenco fantástico com Zico, Júnior, Sócrates e companhia.

Eram outros tempos e outros craques bem diferentes dos de hoje. Também quero revelar que em algum momento da minha vida contraí uma certa simpatia pelo Flamengo. Não sei dizer por qual motivo tal coisa aconteceu, já que o meu pai era botafoguense. Quanto ao Flamengo, portanto, decerto por puro reflexo, informo que nunca (em mais de meio século) comprei nem vesti uma camisa do rubro-negro. Existe outro detalhe que talvez contribua para isso: meu medo da violência.

Não coloco, por dinheiro nenhum, meus pés em uma arena dessas para ver uma partida de futebol. Perdemos a conta de quantas pessoas já foram agredidas e até mortas apenas por estarem vestindo camisa de um determinado clube. Trata-se de uma rivalidade criminosa, doentia, animalesca. Casos desse tipo têm acorrido, principalmente, na saída de vários estádios, como no gigantesco Maracanã.

O quebra-quebra nas arquibancadas durante o jogo entre Brasil e Argentina no dia 21 deste mês, ocorrido justamente no Maracanã, foi um espetáculo vergonhoso, deplorável. A pancadaria, segundo um repórter da Globo à beira do campo, teria se iniciado porque os brasileiros começaram a vaiar o hino nacional argentino durante a execução deste. Se de fato foi essa a razão que deu origem à briga generalizada, o mínimo que posso dizer é que a nossa torcida deu um golpe baixo, apresentou uma atitude rasteira. À mercê dos brigões, alguns com as caras cheias de sangue, estavam famílias com crianças que tentavam desesperadamente fugir de tanta selvageria.

A Polícia Militar exagerou no uso da força para conter o tumulto. Então baixou o pau um pouco mais, quem sabe, nos que vestiam camisa da Argentina. Por pouco a partida não foi cancelada. Lionel Messi e demais jogadores deixaram o gramado e foram para o vestiário. Porém voltaram. Eu, que já torcia pela Argentina antes da bola rolar, vibrei com o gol do zagueiro Otamendi. Achei bastante justo.

Torci por outras grandes equipes da Seleção Brasileira, como aquelas que tiveram Romário, Bebeto, Dunga, Ronaldinho Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e mais alguns que no momento minha memória não permite citar. Mas, depois que o futebol brasileiro se tornou puramente, salvo exceções, comércio de pernas de pau, perdi o gosto, o encanto. Não dá (falo por mim) para torcer por uma Seleção que tem insistido em convocar e endeusar um medíocre e mau-caráter como Neymar. Com mais de trinta anos de idade, temos narradores e comentaristas de futebol sem noção que ainda o chamam de “o menino Ney”. Ora! Como diria Marcos Pinto, é de lascar.

Existe mais uma situação irritante. É esse hábito, senão um delírio, que possuem os referidos narradores e comentaristas, também há exceções, de afirmarem algo desse tipo: “Enquanto houver uma criança com uma bola em qualquer lugar do Brasil, o futuro do nosso futebol estará garantido”. Além disso, para completar esta minha narrativa do contra, causa-me náusea quando esse pessoal da imprensa esportiva chama esses milionários jogadores de futebol de “os nossos heróis”.

A meu ver, heróis sãos professores, policiais que estão aí nas ruas enfrentando o crime, médicos e enfermeiros que salvam vidas tanto por meio do SUS quanto em hospitais particulares. Heroica, no meu ponto de vista, é essa gente humilde que sobrevive com um salário mínimo para alimentação, água, luz, aluguel, etc. Dessa maneira, portanto, digo que esses são os verdadeiros heróis deste país.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/11/2023 - 09:22h

Coisas bonitas

Por Marcos FerreiraCoisas bonitas – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Vez por outra, em virtude de algumas palavras um tanto ásperas ou indelicadas que ainda deixo escapar na minha escrita, sou carinhosamente repreendido por Natália, minha noiva. Ela receia que eu volte àquela época de bangue-bangue, quando eu me comportava como um selvagem da literatura norte-rio-grandense, apontando e fustigando impostores das nossas letras. Não faço mais isso. Todos são pessoas adultas e cada qual que responda pelas produções que assinam.

— Escreva coisas bonitas! — falou Natália.

— Por exemplo? — questionei.

— Algo que não acabe em polêmica, bate-boca na internet, desgastes à toa. As pessoas gostam de ler histórias positivas.

Emendei com uma ponta de ironia:

— Amenidades, você quer dizer.

— Sim! — admitiu. — Em tempos como estes, tão conturbados, precisamos ler mensagens de otimismo. Veja Odemirton Filho…

— E o que tem Odemirton?

— As crônicas dele são leves e bonitas.

— Estou de acordo. Enquanto cronista, Odemirton Filho não se mete em certas arengas, questiúnculas, provocações. É um reflexo da índole pacífica dele. Está muito mais para a natureza conciliadora do Rubem Alves do que para o temperamento ácido e iconoclasta do Agripino Grieco.

— Não faço ideia de quem seja esse Agripino.

— Então esqueça o Grieco. Quanto a Odemirton, trata-se de um cronista admirável, paz e amor, dono de uma escrita saborosa. Ocorre, no entanto, que a diversidade de vozes, temperamentos e estilos, enriquece a literatura.

— Sugiro que busque um meio-termo.

— É isso o que venho perseguindo.

— Cadê a produção? É sábado e até agora você não me apresentou nada. Já mandou a crônica para o blogue do Carlos Santos?

— Sim. Só falta a da Revista Papangu.

— Muito bom! Mãos à obra, então.

— O texto está bem encaminhado.

— Escreva coisas bonitas! — insistiu.

Não vai dar, amigos leitores. Não no presente instante. Não me sinto inclinado a produzir ou falar sobre amenidades nas condições emocionais em que ora me encontro. Sequer no tocante à poesia. Deixei um soneto pela metade desde o último domingo, faltando os tercetos. Até agora não reúno ânimo inspirativo para concluir o poema. Hoje desejo apenas que minhas janelas e portas continuem fechadas. Posso dizer que estou no meu momento vampiresco. Nada de sol, portanto. Não quero ver nem ouvir ninguém; celular no modo avião. Que nenhuma tranca ou ferrolho seja liberado. Que estas frias e negras cortinas continuem intocadas.

Penso em retirar da minha vista este impassível e burocrático relógio de parede. Como seria bom se pudéssemos imobilizar o tempo, de modo que as seis horas e quinze minutos desta manhã ainda agradavelmente fria perdurasse indefinidamente. É isso. Não me disponho a encarar o domingo lá fora, topar com os meus vizinhos, dar-lhes um bom-dia meio que a contragosto e desonesto.

Repito, minhas senhoras e meus senhores, que este não é um bom momento para amenidades, palavras edificantes, mensagens de ânimo, incentivo. Não da minha parte. Então me dou ao luxo de expressar fielmente o meu estado de espírito. Sem máscaras, sem disfarce algum. Nesse instante minha alma é este quarto penumbroso, um fastio que se estampa na minha face. Aqui usufruo da penumbra, do silêncio, do ócio e da quietude. Não escrevo para agradar nem desagradar ninguém.

Esta manhã encarcerou a minha veia bem-humorada, o meu sorriso fácil, continental. Reacende frustações e velhas mágoas, desaponta a musa e rompe as cordas da minha lira. Traz-me à memória recortes de sonhos mortos, projetos e planos frustrados. Contudo não descambo para o campo da autopiedade, ainda menos para a rentável literatura de autoajuda. Mas admito que estou cheio, farto da concretude da vida. Que se danem o lítio, a quetiapina e o divalproato!

Embora o dia seja de sol pleno, detalhe que não me agrada, sei que os pássaros continuam cantando os seus madrigais e as flores (perfumosas e concupiscentes) sorriem para os lindos colibris e borboletas que frequentam o meu quintal. Isso, no entanto, é poesia bucólica que ora não me seduz ou inspira.

— Escreva coisas bonitas!

Desculpem. Hoje não será possível. Deixo esta crônica pessimista, porém pacífica, livre de rusgas. Escrever também é isto: um dia estamos para cima, noutro estamos de ponta-cabeça. “Sugiro que busque um meio-termo”, aconselhara-me Natália. Quem sabe da próxima vez em que eu me ponha diante do teclado.

Meu mal e meu bem é este vício que me desfalece e me aviva, este sacerdócio que amaldiçoa e santifica, que me golpeia e me revigora: a literatura. Estou à disposição das suas vontades e caprichos. Teimo em não romper o véu da penumbra, em não abandonar o desalinho dos travesseiros e lençóis.

Marcos Ferreira é escritor

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 19/11/2023 - 05:42h

É humano

Por Bruno Ernestomorte, silhueta, medo, sombras, espectros

Não é hoje que o medo da violência nos faz tomar certos cuidados em nossa rotina.

Ao entrar e sair de casa, trabalho, colégio, universidade, supermercado, missa, culto, teatro e tantas outras situações do nosso cotidiano, estamos atentos.

Mas esse medo também rende boas histórias.

Certa vez, um amigo voltava de uma festa no Clube Álibi em Tibau, lá por meados dos anos noventa, depois de uma noitada ao som de não sei quem.

As festas nessa época na cidade praia de Tibau eram excelentes para os adolescentes. Ainda havia o African Bar, Zé Félix e tantos outros.

Esse amigo voltava sozinho para casa pela orla, já no amanhecer do dia e, ao dar uma olhada para trás, ao longe, viu um sujeito um tanto suspeito que vinha ao seu encontro.

Chamou mais ainda sua atenção quando percebeu que o sujeito se aproximava rapidamente – afinal a violência já assustava naquela época – e ficou atento.

Lá para as tantas, vendo que seria rapidamente alcançado, decidiu correr para tomar distância. Em vão.

O sujeito que vinha atrás dele também começou a correr, e ele, sozinho, ficou desesperado.

Quando começou a correr, foi na altura da vila dos professores.

Pesou na sua fuga, o cansaço da noitada, a areia fofa da praia e o medo.

Correu com ainda mais afinco quando pensou na morte. Porém, só conseguiu correr até o Hotel Dunas.

O fôlego não agüentou mais que quatro minutos de fuga e, sem perspectiva de conseguir superar o seu perseguidor que vinha no seu encalço, parou e esperou o pior.

Não tinha nada para entregar. Nem um bem de valor. Sequer existia celular naquela época.

Entrou em desespero. Quase já começou a se despedir da vida e, sem esperança, resignou-se.

Instantes após, foi alcançado.

Lembrou-se das orientações de seus pais para, numa situação dessas, não confrontar o agressor. Sequer fitá-lo.

O seu algoz, de pronto, perguntou por qual motivo empreendera fuga.

Estranhou a pergunta, mas ficou em silêncio. Pensou em dizer que estava com medo, mas lembrou das orientações dos seus pais.

Foi daí que surgiu outra pergunta inusitada.

– Quem está nos perseguindo?

Nesse instante, meu amigo fitou-o incrédulo.

Nenhum dos dois estava sendo perseguido.

Perceberam que fugiam de suas próprias imaginações.

Sentaram lado a lado e, num misto de alívio e vergonha mútua, passaram um bom tempo em silêncio tomando fôlego e, certamente, pensando na finitude da vida.

Após se acalmarem, seguiram viagem juntos até a praia das Emanuelas.

Em total silêncio. Sequer se despediram.

Há quem diga que não tem medo da morte, mas, no frigir dos ovos, esse medo é humano.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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segunda-feira - 13/11/2023 - 04:16h
Futuro

O que vai ficar

janela, isolamento, quarto, apartamento, luz solarHá pouco mais de dois meses, em conversa com um filho à distância de milhares de quilômetros, no uso de um desses aplicativos virtuais, falamos sobre vida e despedida.

De mim, um testamento para resumir o que ofertarei para o futuro, quando não estarei mais por aqui:

– Espero não deixar sequer uma bicicleta; só boas memórias e exemplos. Herança, legado.

É isso.

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domingo - 12/11/2023 - 10:30h

A civilização

Por Marcelo Alves

Petra, na atual Jordânia, a civilização em lugares improváveis (Foto: Farras Oran/Divulgação)

Petra, na atual Jordânia, a civilização em lugares improváveis (Foto: Farras Oran/Divulgação)

A BBC (“British Broadcasting Corporation”, para quem não sabe), no final dos anos 1960 e durante os 1970, produziu três séries de televisão que viraram clássicos: “Civilização” (“Civilisation”, 1969), “A escalada do homem” (“The Ascent of Man”, 1973) e “A era da incerteza” (“The Age of Uncertainty”, 1977). Essas séries buscavam, com base nas artes, na ciência e na economia/sociologia, sob a visão pessoal de luminares de cada um desses ramos do conhecimento, Kenneth Clark (1903-1983), Jacob Bronowski (1908-1974) e John Kenneth Galbraith (1908-2006), respectivamente, nos apresentar uma história da humanidade. As três séries foram transformadas em livros. E todos, séries e livros, são simplesmente obras-primas.

Saindo da adolescência, assisti às séries e li os livros por recomendação do meu pai. Aquele tipo de boa influência que não canso de agradecer. Sou um pouco disso tudo. Aproveitei a pandemia para rever as séries, numa tentativa de me distrair das imensas preocupações de hoje. E meu pai também, agora por sugestão minha, embora ele hoje mais reclame do que agradeça. Um ciclo da vida, digamos assim, ranzinza.

Aproveito aqui para fazer alguns comentários sobre a série/livro “Civilização”, sem me fazer de “spoiler”, evidentemente. “Civilização”, através dos trabalhos de gênios da pintura, da escultura, da arquitetura e da engenharia, da religião, da filosofia, da literatura e da música, e até mesmo do direito, nos mostra como o homem ocidental chegou, após a queda do Império Romano do Ocidente, percorrendo várias centenas de anos, aonde estamos hoje. Com altos e baixos, vê-se que foram vários “renascimentos”, antes e depois da era de Leonardo (1452-1519), Michelangelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520).

Dos treze capítulos de “Civilização”, alguns me tocaram mais. Os dois sobre o Renascimento (“Man: the Measure of All Things” e “The Hero as Artist”) e, sobretudo, aquele sobre Roma e o Barroco (“Grandeur and Obedience”). Tenho um “Amor a Roma”, exacerbado pela leitura de um livro com esse título, do nosso Afonso Arinos (1905-1990), não por coincidência mais uma sugestão do meu pai. E certamente também porque Roma está na origem das duas culturas nas quais fui formado, o catolicismo e o direito.

É aqui aonde eu quero chegar, fazendo uso da série protagonizada por Kenneth Clark: somos, em conjunto e individualmente (volto às influências), o resultado da nossa civilização, que devemos, com todas as forças, preservar.

Já no primeiro capítulo da série, Clark nos mostra como escapamos “por um triz” (ele usa a expressão bíblica “The Skin of our Teeth”) da extinção, leia-se a civilização ocidental, após as invasões bárbaras e o avanço do islã no continente. Guardadas as devidas proporções, estamos observando algo parecido. E não estou falando só da pandemia. Refiro-me também a um novo barbarismo, ignorante, que estava tomando conta da nossa sociedade.

E, assim, rogo atenção para o discurso final do autor na série, parafraseando-o, já que diz muito do que penso sobre o que estamos vivendo e a nossa civilização. Não que eu seja um “stick in the mud”, um “conservador” ou “antiquado”, como se autodefiniu Clark. Tenho até sido tachado do oposto. Apenas também entendo que a democracia e a ordem, incluindo a jurídica, são preferíveis tanto ao caos quanto à força e que “a criação é melhor que a destruição”.

Advogo “a gentileza à violência, o perdão à vingança”. Penso que o conhecimento e a arte são melhores que a ignorância e “tenho certeza de que a empatia é mais valiosa do que a ideologia”. Honestidade, creio, é obrigação. Apesar do ser humano continuar o mesmo, confio nos milagres da ciência e nas lições da nossa história.

Defendo que “todos os seres vivos são nossos irmãos e irmãs”. Finalmente, acredito que fazemos parte de algo maior, que podemos chamar – e, para mim, tanto faz, contanto que a respeitemos – de natureza ou de criação divina.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 12/11/2023 - 08:24h

Despedidas

Por Zenóbio Oliveira

Foto de Zenóbio Oliveira, veiculada pelo portal Mossoró Hoje no dia de sua morte

Foto de Zenóbio Oliveira, veiculada pelo portal Mossoró Hoje no dia de sua morte

Muitas vezes me chamam para despedidas, as alegres, mas não gosto delas, seja qual for a sua natureza. Foram tantas em minha vida, as tristes, que já poderia até ter-me acostumado. Algumas inesperadas de tal forma, que até hoje não se estabeleceram como uma verdade consciente em mim.

Por muito tempo concordei com uma asseveração popular sobre o amadurecimento da alma pela amargura, até esbarrar na primeira despedida triste e grave da minha vida para compreender que ela, essa tal amargura, é elemento que descende justamente de acontecimentos como a despedida, na genealogia geral dos sofrimentos.

Eu fujo delas.

Não quero que o momento de sua ocorrência seja o ponto de relação referencial das minhas lembranças. Não aceito que meu pensamento constitua uma simbolização imagética do seu acontecimento triste, como indício categórico da memória, porque isso toldaria cada instante da convivência predominantemente alegre que o precedeu.

Se bem que a despedida nem é tão pungente quando o apartamento não é efetivo. Hoje principalmente, pois com toda essa disponibilidade tecnológica na comunicação, as distâncias estão cada vez mais encurtadas. A mediação da palavra, escrita ou verbalizada, produz essa ilusão de constância, quando compartilhada diariamente nesses suportes virtuais. Mas uma relação, seja de qual tipo for, carece mais que isto.

Necessita substancialmente da presença física, porque carrega no bojo elementos peculiares, que a palavra, por si só, não consegue traduzir. O olhar, o abraço, o carinho, por exemplo, não são coisas que possam viajar no espaço cibernético e isso faz com que a ausência do ente querido continue amargurando os corações distanciados.

Mas a despedida é doída mesmo quando é peremptória, quando termina uma relação de vida, porque transforma a esperança do reencontro em saudade irremediável.

De todo modo não sou afeito a despedidas, mesmo as que encerram a promessa do reencontro.

E me agarro na filosofia de “que a gente não precise das despedidas para lembrar o quanto gostamos de quem está perto. Que a gente não precise da saudade para lembrar o quanto gostamos de quem está longe.”

 E me valho da poesia para pedir aos meus que: “se acaso algum dia eu cismar de partir, me peça pra ficar”.

Zenóbio Oliveira foi jornalista, cinegrafista, editor de imagens, escritor, poeta, que faleceu dia 12 de julho deste ano

Leia também: Zenóbio Oliveira, a partida de quem poderia ficar mais um bom tempo

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Categoria(s): Crônica
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