domingo - 08/08/2021 - 11:24h

Pasárgada existe

PasárgadaPor Inácio Augusto de Almeida 

E eu pensando ser Pasárgada apenas fruto da criatividade fulgurante do Manuel Bandeira.

Chegava mesmo a comparar a cidade, que julgava imaginária, com a Atlântida de Platão, onde a perfeição existiu até as paixões humanas influenciarem o comportamento dos reis mitológicos e terminasse tragada pelo mar para mostrar quão perigosos são os sentimentos humanos quando divorciados da razão.

Para minha alegria Pasárgada existe.

Pasárgada existe!!!

E lá ninguém precisa ser amigo do rei para ter direito a tudo que quiser.

Tratamento médico imediato e com especialistas. Exames realizados no mesmo dia. E se alguma cirurgia for necessária é feita imediatamente. Em Pasárgada equipes se revezam em plantões diuturnos. Tratamento odontológico a qualquer hora do dia e da noite.

Medicamentos distribuídos gratuitamente e nunca acontece de faltar um só.

Insulina existe em quantidade exagerada e para não perder prazo de validade Pasárgada faz doação de lotes deste medicamento para cidades circunvizinhas.

Em Pasárgada tem tanta creche que a matrícula das crianças é feita pelas mães enquanto cuidam dos afazeres domésticos.

Equipes da Educação vão de casa em casa e tudo providenciam.

Aulas iniciadas e crianças, já uniformizadas, esperam o transporte escolar na porta de casa.

Transporte escolar que funciona com pontualidade britânica.

Ruas tão bem cuidadas e iluminadas que lembram os salões onde valsas vienenses são dançadas nos contos de fadas.

Emprego sobra em Pasárgada.

Comitivas se deslocam a outras cidades e nos auditórios de bancos fomentadores de desenvolvimento   deixam claro que prescindem de qualquer tipo de financiamento público para desenvolver projetos de bilhões de dólares.

Com emprego pleno, saúde de primeiro mundo e educação de qualidade; a violência inexiste.

É comum ver pessoas nas madrugadas de Pasárgada com cadeiras nas calçadas.

Sinto a dor de uma picada de abelha ou de algum outro inseto.

Percebo o rádio ligado e me dou conta de que adormeci embalado pela propaganda oficial.

Não fossem os mosquitos, carro fumacê nem no sonho apareceu, eu ainda estaria em Pasárgada.

Olho pela janela e vejo o lindo céu azul de mais uma manhã cheia de luz e calor desta Mossoró tão bonita.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/08/2021 - 09:46h

O cão

Por Marcelo Alves

Günter Wilhelm Grass (1927-2015) nasceu na outrora Cidade Livre de Danzig, que, pelo Tratado de Versailles, de 1919, não pertencia nem à República Polaca nem à Alemã de Weimar. Coisas da Europa de então. Embora Danzig seja hoje parte da Polônia, Grass criou-se alemão. Lutou na 2ª Guerra Mundial. Foi ferido e feito prisioneiro de guerra. Trabalhou como pedreiro. Daí, estudando, virou escultor e desenhista.

Já pendendo à esquerda, participou da vida literária e política de seu país. E, sobretudo, escreveu poesias, teatro e romances. Fez-se um dos grandes escritores alemães de todos os tempos, arrebatando o Prêmio Nobel de Literatura de 1999.cão ferroz, lobo

A denominada “Trilogia Danzig” certamente representa o ponto alto na literatura de Günter Grass. É formada por “O tambor” (“Die Blechtrommel”) de 1959, “Gato e rato” (“Katz und Maus”) de 1961 e “Anos de cão” (“Hundejahre”) de 1963. São livros que misturam o realismo mágico com uma visível dimensão política. Mostram como o nazismo e a 2ª Grande Guerra afetaram aquela região da Europa. São fábulas, às vezes tristes, outras divertidas, que nos alertam para uma face cruel, mas por alguns negligenciada (quiçá simpatizada), da história. Dos três títulos, o mais badalado é “O tambor”.

Ele é considerado como um ponto de inflexão na literatura alemã. Como lembra a Academia Sueca do Nobel, “um recomeço após décadas de destruição linguística e moral”. É um romance ousado, agressivo até, que colocou Grass no pódio dos grandes escritores alemães e estabeleceu um altíssimo padrão para as suas obras (o que nem sempre é fácil para o trabalho subsequente). “O tambor”, claro, foi bater no cinema. O filme homônimo é de 1979, com direção de Volker Schlöndorff (1939-). Ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes no mesmo ano. E levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1980.

O “nosso” Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), já fazia rasgados elogios ao autor e sua obra: “Satírico autêntico é Günter Grass. Seu romance Die Blechtrommel (O Tambor), repelente e agressivo, já revelou todos os aspectos de sua personalidade literária: o estilo brutalmente naturalista em que conta um enredo fantástico, irreal, possível só como símbolo da realidade detestada; a agressividade contra todos os tabus caros à sociedade; a vontade do anarquista de épater le bourgeois. É uma farsa exuberantemente cômica e exuberantemente trágica”.

E chama a nossa atenção para o terceiro título da trilogia: “Tudo isso caracteriza também o romance Hundejahre (Anos de Cão), que fez logo sensação na Alemanha e no estrangeiro. Sátira violenta contra o nazismo e contra o novo regime de Bonn. Simbólica é a história do cachorro preferido de Hitler, que fugiu de Berlim antes da morte do Führer, chega à Alemanha Ocidental, procura novo dono e muda de nome”.

Acredito que é sobre uma parte da fábula de “Anos de cão” que devemos focar aqui. A estória do tal “cão de Hitler”. Um pastor alemão, por sinal. Lembremos que, na trama, alguns personagens são nazistas e, posteriormente, ex-nazistas, que simplesmente “mudaram de pele”. Tornaram-se homens respeitáveis. Como os tais “cidadãos de bem” de hoje. E isso se dá até com o cachorro de Hitler, lembremos.

Trata-se de uma literatura de “encontro com o passado”, é verdade. De alguém que foi criado e educado durante o Nazismo. O próprio Grass, chocando o mundo literário e político, no seu livro “Descascando a cebola” (“Beim Häuten der Zwiebel”), de 2006, autobiográfico, reconheceu expressamente haver sido membro, quando adolescente, do braço militar da SS.

Mas será que podemos transpor essa fábula cínica para o presente? E para a nossa terra? Histórias de criminosos nazistas que vieram parar na América do Sul pululam. Na Argentina, em especial, há até um mito do exílio de Hitler por lá. Os mitos são problemáticos. Mas às vezes são cruelmente reais. Josef Mengele (1911-1979), “O anjo da morte”, acabou no Brasil, isso é certo.

Será que agora até o “cão de Hitler” veio bater no Brasil? Tem tanto mito e pastor por aqui…

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 08/08/2021 - 08:38h

Pais heróis que vestem farda

José Américo e o advogado Cyrus Benavides (Foto: do autor)

José Américo e o advogado Cyrus Benavides (Foto: do autor)

Por Cyrus Benavides

Eu estava essa semana, no campus da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), em Mossoró, para uma reunião.

Parei meu carro e pedi uma informação.

Mesmo num sol quente, o servidor tinha um sorriso feliz que transbordava. O boné era seu escudo.

Dava para sentir que Seu Américo desempenhava suas funções com amor e dedicação.

Tomei conhecimento que ali estava o pai do prefeito de Mossoró.

E enquanto eu pedia para fazer essa foto, algumas conclusões vieram à minha mente:

O imenso valor daquele homem.

Não por ter um filho prefeito da segunda maior cidade do Estado do RN, mas sim pelos valores ensinados para uma estrela luminosa chamada Allyson Bezerra.

Seu Américo é referência.

É ensinamento que na vida não é necessário patentes para trazer ao mundo grandes filhos.

Que o exemplo continua sendo a melhor imagem para educar e formar o caráter da prole.

Pedi para fazer a foto. Seu Américo foi trocar a camisa para não usar a imagem da empresa.

Autoridade não é aquela pessoa que todos chamam de doutor.

Autoridade é quem ensina que o trabalho honesto dignifica o homem.

Autoridade é ser inspiração para mudar o mundo, começando por uma cidade.

Parabéns, seu Américo, pelas sementes plantadas e pelos frutos colhidos.

No percurso da vida, a arte de regar a planta com amor, faz a diferença no crescimento das árvores frondosas.

Cyrus Benavides é advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/08/2021 - 07:26h

Voa, minha passarinha, voa…

Bárbara de Medeiros fotografada atrás da janela por Diogo Mizael, seu irmão, no Canadá, Julho de 2021Por Honório de Medeiros

Quando nossa filha finalmente chegou em Montreal com o esposo e seus poucos vinte e três anos, depois de uma longa e cansativa viagem, lá a esperava seu irmão, hoje praticamente cidadão canadense.

Mas não foi possível abraça-lo, até mesmo vê-lo.

Cumprindo as regras impostas para o combate contra a pandemia, primeiro foi confinada, por três dias, em um hotel determinado pelo Governo. Exame de saúde feito, resultado favorável, mudou-se para o apartamento do irmão, que o desocupara, para novo período de confinamento, dessa vez por doze dias.

Impossibilitados de se abraçarem, conversarem, o irmão não hesitou: combinaram postarem-se defronte à janela do apartamento, um dentro e o outro fora, ela afastou a cortina, sorriu, acenaram um para o outro, beijos foram enviados, e o instante foi registrado.

Muito foi dito ali naquele momento, sem uma palavra sequer, e a escrita não consegue expressar!

Se isso não é amor, eu não sei o que isso é.

Voa, minha passarinha, voa…

* O irmão escreveu, abaixo da imagem:

They say:

There is always behind a window

You just need to open it

And I can’t wait for that

Love u sis.

(Eles dizem:

Sempre há atrás de uma janela

Você só precisa abri-la

E eu não posso esperar por isso

Amo você, irmã).

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 08/08/2021 - 05:22h

A imortalidade

Imortalidade, tempo, relógio,Por Carlos Santos

Não sei o tempo que me resta aqui na terra.

Mais um dia? Alguns meses?

Podem ser vários anos.

O certo é que não farei, do tempo, um resto de vida.

Tem que valer a pena.

Tem valido.

Cada segundo é precioso. Respirar apenas, não me basta.

Preciso existir nos outros, pelos meus atos e não apenas com a palavra que lapido no meu trabalho.

A imortalidade é o que deixamos no coração dos que ficam. Enquanto ele bater, pulsará também pelo o que fizemos de bom e útil.

Imortal!

Crônica originalmente publicada há quase dez anos, no dia 23 de outubro de 2011, às 13h32 (veja AQUI), que à semana passada foi lembrada e reproduzida por um amigo-irmão, Eudson Lacerda, em endereço próprio na plataforma Instagram. Gostei do resgate. Tanto tempo depois, ela segue representando o que penso, sinto e faço.

Carlos Santos é criador e editor do Canal BSC (Blog Carlos Santos)

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Categoria(s): Crônica
sábado - 07/08/2021 - 23:18h
Declaração

Minha companheira

Dia todo com ela.

Temos convivência juntos há décadas.

Tentei sair dessa relação várias vezes, mas parece que estamos fadados à união estável e eterna.

Mesmo que eu não queira nem alimente essa relação, admito: ela não sai da minha cabeça.

Minha Sinusite, dê um tempo.

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 01/08/2021 - 11:00h

O antijogo

Por Marcelo Alves

Houve um tempo, lá pelo fim da minha adolescência e começo da vida adulta, que eu gostava de fazer apostas no futebol. ABC x América. No finado Castelão/Machadão. Coisa pouca, claro. E quase sempre o meu ABC ganhava. Mesmo assim, essa fase de apostador durou pouco. Acho que por temperamento. Dizem que sou econômico. E não gosto de arriscar nem muito menos de jogar dinheiro no mato.

De toda sorte, acho que um livro, nesse ponto, teve forte influência em mim: “O jogador”, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), de 1867. Trata-se de romance publicado logo após o célebre “Crime e Castigo” (1866). Embora seja um livro curto, escrito rapidamente para que o autor pagasse suas próprias dívidas de jogo, é um texto de maturidade.Casino-Estoril

Uma pequena obra-prima, na minha opinião. E dá para notar que é parcialmente autobiográfico. Dostoiévski esteve se arriscando nas mesas da cidade spa alemã de Baden-Baden (inspiração para o romance). Ele entendia bem – ou mal, a depender do ângulo – dos jogos. E não falo dos Olímpicos, que nos distraem hoje. Falo da roleta e assemelhados.

A trama de “O jogador”, narrada em primeira pessoa pelo protagonista, gira em torno de Alexei Ivanovich, jovem que trabalha como tutor em uma família russa decadente. Alexei apaixona-se pela manipuladora Polina Alexandrovna Praskovja, sobrinha do general patriarca da casa. Ele é introduzido no jogo a pedido dela. Vai ao cassino e ganha dinheiro para a sua amada. E perde-se, ele mesmo, obcecadamente, para ela. Há muitos exploradores em busca do dinheiro de uma tia/avó rica e (supostamente) doente.

Há diversos amantes na vida de Polina. Por amor e por dinheiro. Ganha-se e perde-se fortunas no jogo. Perde-se mais, claro. E, para além do jogo, Alexei perde dinheiro também com as mulheres, com os cavalos, com bebidas, jantares e festas. Alexei torna-se jogador “profissional”. Joga para sobreviver. E para “matar” a compulsão. Coisa viciante e perigosa mesmo. A desgraça chega. Ela vem rolando e a cavalo (com o perdão dos trocadilhos). No final, Alexei tem uma chance de redenção. Será que seu vício vai permitir?

Puxando pela memória, recordo-me de dois episódios meus em cassinos mundo afora. Ambos divertidos, cada um a seu modo.

Em Portugal, há muitos anos, minha mãe colocou na cabeça que queria ir ao Casino Estoril. Não ia jogar, disse. Mas queria conhecer. Fomos em reduzido grupo, solidários. Chegamos, circulamos e, não sei por que cargas d’água, a segurança resolveu nos introduzir num lugar reservado para os jogadores “profissionais”. Acho que foi por causa da minha mãe, já de idade e que parecia “animada”. Era um lugar de grandes apostas. E estava dominado por uma senhora, já idosa, que descobrimos chamar-se “Dona Rosa” e que apostava, concomitantemente, altos valores, em todas as mesas de roleta.

Matutos, quedamos acompanhando a jogadora. O clima era tenso. Ela perdia mais do que ganhava. Muito dinheiro. E tudo ficava mais tenso. Olhamos ao redor, e todos, em todas as mesas, estavam tensos. Ficamos coisa de uma meia hora sufocante. Até que minha mãe disse, decepcionada, seu “mundo” a desabar:

– “Vamos embora. Pensei que um cassino era como nos filmes de James Bond. Glamour. Bebidas chiques. Homens e mulheres bonitas. Essa Dona Rosa é horrível”.

Já recentemente, passei com minha mulher um dia em Baden-Baden. À noite, fomos ao cassino. Fui barrado na entrada. Não estava de paletó e gravata, vestimenta necessária, pelo menos naquele dia, para entrar no estabelecimento.

Li e disseram-me que poderia alugar um traje no local. Desconversei. Usei uma desculpa esotérica. Não tinha de ser. Era o destino. Minha mulher não fez questão. Fomos para o jardim do cassino. Havia uma festa com banda e tudo. Música grátis. E gastamos uns 50 euros com salsichas e cervejas. Pelo que me lembro do final. Acho que li e joguei certo na vida.

E agradeço agora a Dostoiévski e a “O jogador” por não me arriscar nas apostas. Aliás, hoje mais do que nunca, como diz a sábia menina Mafalda, do grande Quino (1932-2020), “viver sem ler é perigoso. Te obriga a crer no que te dizem”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/08/2021 - 09:30h

Pobres mães

Por Inácio Augusto de Almeida

Quem nunca ouviu falar da felicidade de um casal que, por mais que tentasse, não conseguia ter um filho e de repente, não mais do que de repente, aparece em sua porta um bebezinho dentro de uma cesta?

Felicidade geral.

Risos, alegria, festa. Um milagre aconteceu.  bebê, pés de criança, recém-nascidoToda a família se reúne e traça planos para batizado, aniversário, primeiro dia na creche com direito a risos e choro da primeira separação.

Os avós e tios não se cansam de admirar a criancinha de olhos claros, cabelos louros, pele branca. Criancinha que não fica quieta um só minuto. Criancinha sempre a mexer os bracinhos, as perninhas e a cabeça a girar para que os lindos olhinhos tudo acompanhem.

Numa maternidade uma pobre mãe que, por ocasião do momento mais sublime da natividade, ouviu o choro da sua tão desejada criancinha, criancinha que dela foi separada para ser colocada no berçário, agora chora.

Sua criancinha morreu.

Recebe palavras de conforto. Alguém lhe diz que o seu neném nasceu com graves problemas cardíacos e com diversos outros órgãos comprometidos por má formação. Que tudo foi tentado para mantê-lo vivo.

E mesmo que conseguissem sucesso na tentativa de salvar o seu bebezinho ele não se manteria vivo por mais do que um dia.

A pobre mãe soluça ao lembrar o choro forte do seu filhinho ao nascer. Mesmo em lágrimas, consegue ouvir que tudo já foi providenciado, ela não precisava se preocupar com nada e que as despesas com o sepultamento já tinham sido pagas pelo serviço social.

O pai da criança, tinha passado a noite no trabalho de vigilante em um supermercado, chega e chora ao saber da notícia. E com a voz embargada pelas lágrimas que brotavam dentro do coração, agradece aos que tudo tentaram para salvar seu filho e resolveram todos os problemas junto ao serviço social.

Naquele mesmo dia, já quase noite, a pobre mãe, amparada pelo companheiro, deixa a maternidade levando numa cestinha as fraldas que seu filhinho usaria.

Na casa onde uma criança tinha aparecido na porta a alegria era total.

Num rádio ligado numa casa próxima a voz do Waldick Soriano a cantar JUSTIÇA DE DEUS.

“Justiça de Deus

 Justiça de Deus

Quem vos chama é um coração que está chorando.”

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 01/08/2021 - 06:38h

Espírito olímpico

Por Marcos Ferreira

Durante toda a semana, acometido por uma esterilidade que não largava o meu pé, ou a minha cachola, melhor dizendo, queixei-me com alguns amigos sobre tal indisposição para escrever esta crônica que, suponho, agora vai. Pois bem. Lamentei-me, por exemplo, com o amigo poeta Francisco Nolasco:

— Não sei o que escrever para o Canal BCS (Blog Carlos Santos) — principiei. — Eu considero que estarei de fora no próximo domingo.

(Foto: Miriam Jeske/COB)

(Foto: Miriam Jeske/COB)

— Não, meu amigo! — protestou logo.

— Já é sexta, boca da noite — destaquei.

— Seus leitores aguardam sua crônica.

— Possivelmente. Porém a situação…

— Segure a peteca! O seu público é fiel.

— Um público de quase vinte leitores.

— A qualidade compensa a quantidade.

— Você está correto — dei de ombros.

O poeta, comandante em chefe da “Bodega do Seu Zé”, no Alto de São Manoel, mais precisamente à Rua Kléber Dantas Bezerra, número 94, com mais de meio século de funcionamento, negócio que passou de pai para os filhos, foi atender um freguês e deixou o outro lado do balcão, em busca da mercadoria solicitada. Após despachar o cliente, um tipo de meia-idade que entrou com a máscara sob o queixo, Nolasco voltou-se para mim com os olhos rútilos e arregalados:

— Tenho uma ideia para você trabalhar.

— Estou aberto a sugestões — assenti.

— Fale sobre as Olimpíadas de Tóquio.

Desanimei, e saí com este argumento:

— Poeta, sou ignorante nesse assunto.

— Você jogava vôlei. Deve manjar algo.

— Tanto quanto de engenharia atômica.

— Que nada! Sei que vai tirar de letra.

— Tomara que você esteja com razão.

— Rapaz, essa vitória do Ítalo Ferreira, histórica medalha de ouro no surfe, é um estímulo valioso a qualquer cronista que se encontre sem inspiração. Além disso, ele é um Ferreira… Um Ferreira no topo do mundo.

— Pois é, meu primo Ítalo — brinquei.

Naquele instante, com o crepúsculo da sexta-feira ensanguentando o horizonte, e o barulho absurdo do trânsito a me deixar meio zonzo, despedi-me do poeta e rumei para a casa de Natália Maia, minha noiva e conselheira literária. A ela também me queixei do meu bloqueio, do meu embargo para escrever. Natália, enquanto botava a ração para a nossa gata Pepita, sem me voltar os olhos, pareceu-me ter a resposta na ponta da língua, tamanha a rapidez com que disparou:

— Olimpíadas!… Eis o tema da hora.

Desanimei outra vez, e falei baixinho:

— Hum, parece que estou em apuros.

— Onde está o seu espírito olímpico?

— Ótima pergunta. Comigo não está.

— Dê o seu jeito. Só não pode faltar.

Aqui de volta à escrivaninha, nesta manhã que mal principia, enquanto os pássaros pastam lá fora e o gado pula de galho em galho, perdoem o gracejo, eu penso vagamente na apoteótica conquista do meu “primo” Ítalo Ferreira e nas cenas inesquecíveis desse marco histórico do esporte brasileiro. Arrisco-me a discorrer sobre este assunto, porém alerto ao prezado leitor e à gentil leitora quanto ao meu desconhecimento acerca do tema. Não é minha praia nem minha onda.

Entretanto, como “manteiga” que sou, não nego que me emocionei com o triunfo do meu conterrâneo. Em linha oposta, contudo, irritei-me com o tratamento que parte da chamada grande imprensa deu à façanha do Ferreira. Galvão Bueno, ridiculamente, lastimou muito mais a derrota do paulista e queridinho Gabriel Medina do que festejou o ouro do nordestino e potiguar de Baía Formosa.

Duvido que Galvão tivesse se lamuriado tanto se, por acaso, houvesse ocorrido o oposto. Mas é do Nordeste, do Rio Grande do Norte e de Baía Formosa, até o momento, a única medalha de ouro vinda para o Brasil nestas Olimpíadas. Além disso, representa o primeiro ouro olímpico na história do surfe.

Embora campeão do mundo, respeitado internacionalmente, tendo inclusive derrotado o próprio Gabriel na final no Havaí em 2019, durante todo o trajeto da competição o potiguar era tratado como secundário, espécie de coadjuvante de Medina, sobre o qual os holofotes da imprensa se concentravam.

Midiático, garoto-propaganda requisitado por grandes agências de publicidade, parece que Medina foi para o Japão de salto alto. Assim, quebrou o salto, caiu da prancha e não ganhou sequer a medalha de bronze.

Enquanto isso, embora sempre depreciado e subestimado, o Nordeste aparece muito bem na fita com Ítalo Ferreira e outra nordestina arretada, a fadinha maranhense Rayssa Leal, de apenas treze anos de idade, que também faz história no esporte ao conquistar a primeira medalha de prata no skate.

Juro, entretanto, que não era essa a temática que eu desejava apresentar ao prezado leitor e à gentil leitora. Decerto dirão que estou sendo bairrista, até indelicado no tocante ao menino dos olhos do Galvão Bueno.

O meu desejo, acreditem, era escrever sobre algo leve, um texto paz e amor, sem entreveros nem potencial polêmico, a um só tempo belo e deleitante. Mas a coisa não fluiu, queimei neurônios e permaneci na estaca zero. Pensei, então, em pedir uma crônica emprestada ao Odemirton Filho, quiçá ao Clauder Arcanjo. Este último, concernente à literatura, possui uma fertilidade de coelha.

Sim. Nessas horas um cronista pode perfeitamente se valer dos amigos cronistas. Que é que tem? Rubem Braga, por exemplo, em semelhante aperto, certa feita socorreu-se com o Fernando Sabino, que lhe emprestou uma crônica. Braga deu uma arrumada no texto, trocou o título, e publicou como dele.

Tempos depois, como eram muito íntimos, Sabino se encontrava na mesma situação e foi pedir ajuda ao Rubem Braga, que entregou a Fernando Sabino a mesma crônica que recebera. O autor de O Encontro Marcado também trocou o título e republicou o texto, agora sob o risco de um autoplágio.

Quem conta essa história, de forma magistral e com relevantes detalhes, é o próprio Fernando Sabino na crônica “O estranho ofício de escrever”, do livro A falta que ela me faz (editora Record-1987). Então, prezado leitor e gentil leitora, se dois monstros sagrados da crônica brasileira desse porte enfrentaram esse tipo de pane seca, imaginem só um Dom Pixote das letras do meu naipe.

Peço, pois, que me levem na esportiva.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 25/07/2021 - 10:50h

Contos de fadas?

Por Inácio Augusto de Almeida

Pensamos ensinar nossos filhos a serem humildes e a perdoar. Até porque isto está em todas as religiões que conhecemos.

Nem desconfiamos que nas canções de ninar já falamos de violência, quando atiramos o pau no gato, e de medo, quando pedimos ao boi da cara preta para pegar esta criança que tem medo de careta. Contos de fadasDepois passamos a contar estórias que apelidamos de infantis, mas causadoras de inveja a qualquer hemocentro. Tente se lembrar de uma estória, dita infantil, sem sangue. Pobre do carneirinho em Branca de Neve e do lobo em Chapeuzinho Vermelho.

Arrogância e prepotência, inveja e vingança, sempre presentes no que chamamos de Contos de Fadas.

Perdão, humildade não encontramos nas fantasias que passamos a nossos filhos.

Nunca acontece o arrependimento da bruxa malvada que só enche de alegria as nossas criancinhas quando despenca para a morte ao cair de uma grande montanha e desaparece para sempre no despenhadeiro sem fim. O lobo mau com a barriga aberta dá seu último suspiro e a vovozinha abraça a netinha feliz e sorridente.

Em algum Conto de Fada o casamento acontece entre um lavrador e a heroína? Não!

Sempre aparece um Príncipe para que vivam FELIZES para sempre, como se a felicidade só fosse possível se a união for com um membro da realeza.

Não existem nas histórias infantis o PERDÃO, a HUMILDADE, o ARREPENDIMENTO.

Vingança existe e muita.

E já crianças crescidas nós as estimulamos a VINGAR a morte de Jesus Cristo quando fazemos judas de pano, cheios de bombom e de chocolate, para serem espancados até se transformarem em frangalhos.

Depois os jovens se tornam adultos e passam a praticar e a aceitar a violência como um fator normal da vida.

Receberam durante sua formação alguma influência da importância do perdão, da humildade e de que é possível felicidade sem riqueza e poder?

Fico sem entender porque nos assustamos tanto com a agressividade e a ambição das novas gerações se nós é que as preparamos, desde a mais terna idade a buscarem riqueza, poder e vingança.

Por que não contarmos estórias de trancoso com as bruxas arrependidas e regeneradas? Por que não mostramos que felicidade existe também em casas humildes e não apenas em ricos palácios?

Por quê?

Porque projetamos nos nossos filhos os sonhos perdidos, as quimeras desfeitas.

Transferimos para eles nossas ambições e os nossos valores distorcidos.

Terminamos criando seres angustiados, infelizes. Pobres coitados sofrendo cobranças descabidas.

Depois nos espantamos com as drogas, movimentos de rebeldia etc. Os hippies dos anos 60/70 deram o grito de alerta, mas não foram ouvidos.

É hora de repensar a educação, a religião e partir para um novo mundo.

Ou fazemos isso ou vamos desaparecer como seres que se dizem filhos de Deus.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 25/07/2021 - 08:38h

Amante

Por Marcelo Alves

Recebi da amiga e confreira da Academia Norte-rio-grandense de Letras Lalinha Barros, emprestado (e devolverei, asseguro), o livro “Memórias esparsas de uma biblioteca” (Coedição Escritório do Livro e Imprensa Oficial, 2004), do bibliófilo José Mindlin (1914-2010). Genibaldo e Lalinha são meus vizinhos. Em tempos de pandemia, ela me disse: “Vou dar um pulo na porta do seu apartamento. Para emprestar um livro. Você vai gostar”. Eu adorei.

José Mindlin, falecido em 2010, na maior biblioteca privada do país (Foto: O Globo/arquivo)

José Mindlin, falecido em 2010, na maior biblioteca privada do país (Foto: O Globo/arquivo)

Mindlin, que exerceu muitos papéis na vida – de jornalista a advogado, de empresário a escritor e membro da Academia Brasileira de Letras – foi o nosso mais célebre bibliófilo. E nos dois sentidos da palavra, como colecionador de obras raras e como amante/amigo dos livros. Gente boníssima, portanto. Muito embora, cá entre nós, até para evitar mais gastos de que já tenho com livros e assemelhados, eu suplique, para a minha singela pessoa, ser apenas dotado da segunda qualidade, a de amante (de livros), sem os custos, digamos, do “casamento”.

As “Memórias” de Mindlin são cheias de histórias sobre livros que eu desconhecia. Sobre tipografias, editoras e edições raras. Sobre livrarias, sebos e antiquários. Interessantíssimas. Mas trata-se também de um livro sobre pessoas. Sobre tipógrafos/editores. Sobre bibliotecários. Sobre livreiros. Do Brasil e do exterior.

Na verdade, sobre amantes de livros. Afinal, o que seriam destes se não fossem as pessoas para lê-los, mas, também, para guardá-los e adorá-los. Algumas histórias merecem destaque. E aqui o faço indo do mais distante ao mais particular.

Tocou-me a narrativa sobre os livreiros/antiquários ingleses. A Maggs Bros, Quaritch e a Francis Edward, alguns deles situados na Old Bond Street, em Londres, cujos proprietários Mindlin enfaticamente elogia pela honestidade. É uma área que conheço razoavelmente. Morei não muito longe. Mas nunca me apercebi dessas casas. Ou não entendo de antiquários de livros ou eles já haviam fechado as portas no meu tempo. Talvez as duas coisas. De toda sorte, posso assegurar o bom preço e a honestidade dos simples sebistas da capital do Reino Unido.

Adorei as referências a vultos da história “livresca” do Brasil. Como Francisco de Paula Brito (1809-1861), empresário, editor, jornalista, escritor, tradutor, ativista e muitas coisas mais. Foi talvez o nosso maior “tipógrafo” (que, a seu tempo, fazia as vezes de editora). Foi o primeiro a publicar Machado de Assis (1839-1908), e isso já diz tudo. Como Rubens Borba de Moraes (1899-1986), grande bibliotecário, bibliógrafo e bibliófilo. Pioneiro no Brasil nessa coisa de ciência dos livros e assemelhados. Foi nada menos que diretor da biblioteca da ONU, em Nova Iorque. Escreveu uma “Bibliographia brasiliana” (1958), até hoje referência no tema, e o manual “O bibliófilo aprendiz” (1965), entre outros títulos. Como um “irmão mais velho”, Borba legou sua enorme coleção de raridades a Mindlin.

A passagem de Mindlin por Natal, que junta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Zila Mamede (1928-1985) e outras figuras da terra, merece eco. Zila preparava uma biobibliografia do poeta pernambucano. Ela “já tinha feito uma biobibliografia de Câmara Cascudo. Era bibliotecária de profissão, mas seu maior destaque no mundo intelectual brasileiro foi de excelente poeta.

Publicou vários livros que mereceram muitos elogios de Manuel Bandeira, João Cabral e Carlos Drummond de Andrade, de quem se tornou grande amiga pessoal. Infelizmente, faleceu ainda jovem, de um colapso cardíaco em pleno banho de mar. (…).

Zila, por sua vez, nos convidou para ir a Natal, levando uma exposição de desenhos de Di Cavalcanti que o MAC possuía. Fomos, e através de Zila fizemos outras amizades. Entre elas com Lalinha e Genibaldo Barros, Selma Bezerra e Fran Martins, que há anos vinha publicando uma revista literária – Clan, que eu conhecia mas não possuía”. Turma boa, incluindo meus vizinhos. E fato histórico.

Por fim, comoveu-me a lição: “Não se deve hesitar quando um livro desperta interesse, e é melhor se arrepender de ter comprado do que de não ter”. Há o risco de cair-se na bibliomania, desordem compulsiva de adquirir livros desvairadamente, é vero. Mas também já se disse – e que minha mulher não escute – que a melhor forma de livrar-se de uma compulsão é render-se a ela.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 18/07/2021 - 12:42h

Orações para os enfermos

oração, igreja, religião, bíblia, féPor Inácio Augusto de Almeida 

Acreditamos nos ensinamentos de Jesus Cristo? Somos bons cristãos?

Procuramos sempre deixar isto bem claro quando buscamos nas igrejas os primeiros bancos.

Confessamos nossos pecados e comungamos. E no outro domingo confessamos, quase sempre, os pecados já antes confessados. Não nos lembramos, ou fingimos não lembrar, que Jesus ao perdoar os pecados de uma mulher disse, não só para a pecadora, mas para todos, que os pecados estavam perdoados e não pecássemos mais.

Nos cultos gritamos Jesus, Jesus, cantamos hinos de louvor ao Senhor e prometemos não mais pecar.

Nas casas espíritas nos arrependemos dos pecados cometidos, mas na outra semana voltamos a nos arrepender dos mesmos pecados.

E assim seguimos, pecando e pedindo perdão, certos de que somos fiéis seguidores de Cristo.

Nem nos lembramos do VAI E NÃO PEQUES MAIS.

Juramos acreditar na vida eterna, mas pecamos como se o fim existisse e nada após a morte pudesse nos afetar.

Agindo assim, assumimos toda nossa hipocrisia.

O mais impressionante é que mesmo acreditando ser a morte o fim de tudo, permitimos o pavor nos dominar ao sentirmos que estamos, não perto do fim, mas do grande encontro.

Aí está a resposta do pânico que nos causa a morte.

Nosso inconsciente grita que a vida prossegue e que todos os erros terão que ser resgatados, não com um fingido arrependimento, mas com obras reparadoras.

Como exatamente isto se dá, não sei e desconheço quem saiba. Só sei que a reparação acontece.

E é da reparação que temos medo.

Os enfermos estão mais próximos da morte e por eles devemos orar com fervor.

Orar para que Deus, na sua suprema bondade, torne leve o fardo da reparação.

Devemos orar, também, para que os nossos corações aceitem a separação da pessoa querida. Separação de pouca duração.

Quem já conversou com pessoas em estado terminal, pessoas queridas, observou a tranquilidade existente nos olhos delas. O medo existe em nosso olhar. Medo da separação da pessoa amada.

Devemos rezar pelos enfermos e por nós. Pena ainda não estarmos preparados para esta separação.

E isto só conseguiremos alcançar quando formos, realmente, cristãos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 18/07/2021 - 07:46h

Coisa dos números

Por Marcelo Alves

“O Terceiro Homem” (“The Third Man”), de 1949, é um clássico do cinema. Para a sua realização concorreu gente da mais alta patente do cinema e da literatura. A produção é de David Selznick (1902-1965) e Alexander Korda (1893-1956). A direção é de Carol Reed (1906-1976), com base em roteiro de Graham Greene (1904-1991), uma parceria que nos deu outros filmes, tais como “O Ídolo Caído” (“The Fallen Idol”, 1948) e “Nosso homem em Havana” (“Our Man in Havana”, 1959).

Robert Krasker (1913-1981) responde pela fotografia; Anton Karas (1906-1985), pela trilha sonora. No filme atua gente como Joseph Cotten (no papel de Holly Martins), Orson Welles (Harry Lime), Alida Valli (Anna Schmidt), Trevor Howard (Major Calloway), entre outros.O terceiro homem - cinema

Curiosamente, Greene expandiu o roteiro do filme, publicando, em 1950, uma novela/romance com o mesmo título. Em regra, o contrário se dá: o livro é adaptado para o cinema. Bom, “O Terceiro Homem” é por muitos considerado o melhor filme britânico de todos os tempos. E olhem que a concorrência ali não é fácil.

A estória é ambientada na Viena pós-Segunda Guerra Mundial, uma cidade destruída e dividida entre as quatro potências vencedoras do conflito (Estados Unidos da América, Inglaterra, França e União Soviética). Holly Martins é um americano, escritor de faroestes de segunda categoria, bebedor e bêbado às escâncaras, sem um dólar no bolso.

Ele chega a Viena para encontrar o seu amigo de longa data, o inescrupuloso Harry Lime, que lhe havia prometido um emprego. Logo descobre que seu amigo Harry está (ou, melhor dizendo, estaria) morto. As circunstâncias são suspeitas, e Holly cuida de fazer sua própria investigação. No meio disso, entre alguns porres, Holly é seguido de perto pelo Sargento Paine (das forças britânicas) e pelo superior Major Calloway, passa-se por escritor famoso, interage com os amigos/sócios de Harry Lime (Crabbin, “Baron” Kurtz, Dr. Winkel e Popescu) e, não por acaso, apaixona-se pela ex-amante do amigo. E, claro, há problema: o misterioso “terceiro homem”.

Dito isto – e tentando não fazer mais spoiler do filme –, ressalto que a trama gira muito em torno da personagem interpretada por Orson Welles, o tal Harry Lime. Ele é um criminoso, contrabandista e falsificador de Penicilina, que, na Viena pós-guerra, causou a morte e a invalidez física e mental de centenas de adultos e crianças. É um cínico, um sem-escrúpulos, cuja filosofia é arrotada em ditos como: “Atualmente, meu caro, ninguém pensa em termos de seres humanos. Os governos não pensam assim, por que deveríamos? Eles falam no povo e no proletariado, e eu falo em otários. É a mesma coisa”.

E ainda: “Ora, eu ainda acredito, meu caro. Em Deus, na misericórdia e tudo mais. Não estou machucando a alma de ninguém com minhas atividades. Os mortos são mais felizes mortos. Não estão perdendo grande coisa daqui, pobres coitados”. Isso sem falar na famosa frase do “relógio cuco suíço”, que deixo para vocês pesquisarem. A despeito dessas iniquidades, Harry Lime é ainda capaz de provocar, na sua “maldade atrativa”, a admiração de alguns.

Contrabando, falsificação e roubalheira de Penicilina, o antibiótico de então, que salvava vidas assim como hoje o fazem as vacinas da Covid-19. “Maldade atrativa”. Direto para o oitavo círculo do “Inferno”, de Dante (1265-1321). Parece coisa de filme, não?

Depois do sumiço de respiradores e de gente lucrando aos tubos com drogas ineficazes. Depois da “guerra” contra as vacinas, com mandatário esnobando e sabotando produtos cientificamente seguros e eficazes. Depois da aplicação de “vacinas de vento” por profissionais que deveriam zelar pela saúde da população. E, sobretudo, depois de negociações tenebrosas de outras vacinas, com denúncias de superfaturamento, propina, prevaricação e coisas mais, envolvendo gente de alto, médio e até baixo coturno, eu já nem sei mais.

Em terra ou casa onde os números prevalecem pode sempre haver um “terceiro homem”.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 11/07/2021 - 12:10h

Só cagão? Não…

Bater na madeira três vezes, mão, braço, punho cerradoPor François Silvestre

Azarão também. Cagou para a CPI e azarou a Seleção (veja AQUI).

Onde Bolsonaro põe a torcida o azar hospeda-se junto.

Torceu pro Trump, Trump lascou-se.

Torceu na eleição da Bolívia, a esquerda venceu. Torceu pela candidata do Peru, ela perdeu.

Torceu na eleição da Argentina, a direita perdeu.

Torceu contra a Constituinte do Chile, perdeu.

Torceu pelo aliado de Israel, o cara lascou-se, depois de décadas no poder. 

Torceu e cantou vitória do adversário de Maduro, na Venezuela, o dito cujo sumiu.

Torce contra a China, a China caga merda líquida na cabeça dele.

Agora, trouxe a Copa América para o Brasil, num momento em que nenhum país quis sediar o evento, para fazer pose e usar a Seleção como arma de propaganda. Ferrou-se, e junto com ele levou a Seleção ao vexame de perder a Copa, em pleno Maracanã, para a Argentina. 

Esse sujeito é um manancial de azar…Toda vez que fale nele, bata três vezes textura da mesa.

François Silvestre é escritor

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domingo - 11/07/2021 - 11:18h

Tempos do Pax

Filme Tambores da Morte de 1954Por Inácio Augusto de Almeida 

Nesta tarde longa, sem fim, que se vai preguiçosamente, fecho o livro que torna suportável este confinamento necessário, necessário, mas sacrificante, extremamente sacrificante.

Busco no meu Whatsapp notícias. Notícias que parecem ser de ontem ou de um mês atrás.  Sempre a fuxicaria da politicalha e da corrupção. Sempre a mesmice dos políticos que esquecem as promessas e quebram as juras feitas nos palanques.

Busco fugir procurando no Whatsapp alguma coisa interessante para ver.

 E achei.

TAMBORES DA MORTE.

Um faroeste que vi no PAX nos anos 50.

Revendo o filme e na minha cabeça lembranças e saudades se misturando com tanta força que aos poucos fui deixando de lado o filme sem nem mesmo perceber que o revólver do mocinho atirava e as balas nunca acabavam. Nem as balas nem os índios que ele matava para que a gloriosa conquista do Oeste se tornasse realidade.

Naquela noite em que vi este filme no PAX chovia. Lembro-me que o filme terminou e ficamos dentro do cinema. As ruas alagadas. Era a Mossoró antiga.

Quando consegui chegar em casa, todo molhado e com os sapatos nas mãos já passava da meia noite. Mas em momento algum senti medo. E não existia nenhuma razão para ter medo. Era uma época em que se podia colocar cadeiras na calçada e ficar conversando até a noite findar e a madrugada, com sua brisa agradável, chegar.

Tiros e mortes só nos filmes do PAX.

Só percebi que TAMBORES DA MORTE tinha terminado porque o clássico beijo do mocinho na mocinha e a palavra END apareceu na tela do Whatsapp.

Fiquei a matutar acerca dos desafios que o avançar do tempo nos traz.

No filme a ocupação do Oeste americano exigiu a matança, verdadeiro genocídio de uma raça. Tudo em nome da criação de uma grande nação.

Hoje, em nome deste mesmo desenvolvimento, milhões são mortos, não só por tiros, mas, principalmente, por total falta de condições de sobreviverem a uma injustiça social que mata de uma forma mais cruel.

Os cara pálidas de hoje, menos de 10% da população, abocanham, por vias lícitas e ilícitas, toda a riqueza de um país tão rico que tem 90% do seu povo mergulhado na miséria e no atraso.

Com a miséria vem o desespero, cresce a criminalidade, agiganta-se a insegurança. A qualidade de vida decai e os que provocam toda a desgraça não perceberam ainda que estão se condenando a viverem em eterno confinamento.

Interessante é todas estas reflexões surgirem após ver um velho filme de bang-bang.

Mas que nesta tarde senti muitas saudades e lembranças dos filmes do Pax, senti.

Percebi que perdemos muito da ternura que havia em nossos corações.

Mais do que o tempo, mudamos nós.

Estamos condenados por um pragmatismo que nos tira toda sensibilidade.

Só me resta ver mais uma vez TAMBORES DA MORTE e me sentir dentro do PAX.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 11/07/2021 - 07:34h

Ao mesmo tempo

Por Marcelo Alves

Estes dias, num papo sobre a mistura entre literatura e cinema, um amigo fez a seguinte observação: “eu mesmo li livros depois de ver o filme. É outra experiência”. “Experiência”, essa é a palavra. E ela me fez lembrar da ventura que tive, até mais imersiva, de ler um livro e ver a sua adaptação em filme (quase) ao mesmo tempo.

Bom, e antes que alguém me chame de mentiroso, rogo atenção para o “quase” acima, uma vez que ainda estou para conhecer alguém que consiga ler um livro, pelo menos daqueles que “ficam de pé”, em duas horas de filme, ainda mais ao mesmo tempo.o-nome-da-rosa-ogA coisa é mais sutil e gira em torno de “O nome da rosa”, de 1980, romance de Umberto Eco (1932-2016). Basicamente, li o dito cujo quase ao mesmo tempo em que assisti a cenas do filme homônimo, de 1986, dirigido por Jean-Jacques Annaud e estrelado por Sean Connery, Christian Slater e F. Murray Abraham.

Essa experiência visual, que muito indico, me fez enxergar, de uma maneira especial, ao percorrer o livro, o cenário onde se passam os sete dias de “crimes e castigos” imaginados por Eco, sobretudo a antiquíssima abadia da Itália Medieval e sua labiríntica biblioteca. Com a mistura livro e filme, sensorialmente vivi na abadia e na sua biblioteca. E mais: dei rostos às personagens.

O protagonista Guilherme de Baskerville virou Sean Connery; Adso de Melk, Christian Slate; o abade, Michael Lonsdale. E o inquisidor da Igreja, Bernardo Gui (1261-1331), figura histórica, virou F. Murray Abraham, assim como outros nomes do Medievo, como Michele de Cesena (1270-1342) e Ubertino de Casale (1259-1329), ganharam os rostos dos atores que os interpretaram. Foi aqui uma aventura sensorial nas vidas religiosa e ideológica do século XIV, com suas heresias e ortodoxias, que, a partir dali, passam a ter nomes, rostos e vozes.

Mas essa mistura livro e filme, apreciados ao mesmo tempo, é sempre possível? É factível se ler uma parte do livro, parar um instante e assistir a cenas da sua adaptação em filme, como fiz com “O nome da rosa”. As imagens enriquecerão as palavras a serem lidas. Mas acredito que em “O nome da rosa” isso foi ampliado, para mim, pelo caráter semiótico (cheia de signos) da obra de Eco, por sua vez famoso semiólogo.

De toda sorte, a partir da observação de outro amigo, acho que a mistura livros, imagens e sons, quase ao mesmo tempo, é perfeitamente factível em se tratando das franquias do cinema, compostas por vários filmes. Que tal intercalar as leituras de “Harry Potter” ou do “Senhor dos Anéis” com os seus filmes? O espaçamento entre os lançamentos permitiu isso a muita gente. Ou as aventuras do meu amigo James Bond com as suas dezenas de filmes. Que me perdoe Ian Fleming (1908-1964), mas quando o leio, Bond é para mim Sean Connery ou Roger Moore.

E isso se dá com mais razão com as séries de TV ou mesmo as nossas novelas. Elas se espalham num certo tempo. E a gente pode misturar tudo. Se não assisti à novela “O Bem-Amado”, de 1973, eu me deliciei com o seriado homônimo, da década de 1980. Dias Gomes (1922-1999), a quem devemos peça e roteiro, pode ter certeza: Odorico Paraguaçu será para mim sempre Paulo Gracindo; Zeca Diabo, Lima Duarte; Emiliano Queiroz, Dirceu Borboleta.

Já Gabriela, a novela de 1975, que assisti anos depois em reapresentação da TV Globo, me levou a ler concomitantemente “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), de Jorge Amado (1912-2001). Para mim, Ilhéus e a cultura do cacau de Amado são, visualmente, o que eu vi nas telas da TV. Gabriela, seus coronéis e seus amantes, serão sempre Sônia Braga, Paulo Gracindo, Armando Bógus, José Wilker, Fúlvio Stefanini e outras estrelas da nossa melhor arte cênica.

Dito isso, encerro fazendo um convite. Vou ver a série “O nome da rosa”, de 2019, que é uma nova produção italiana, alemã e francesa. John Turturro faz o protagonista Guilherme de Baskerville. Soube que a série passa no Starzplay. Quem sabe se assistindo a um capítulo por dia dê tempo de eu reler “O nome da rosa”?

Topam viajar comigo?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 11/07/2021 - 04:10h

Natureza enfurecida

Por Marcos Ferreira

Há uns trinta minutos, quando fui estender a toalha no varal, avistei um lindo beija-flor adejando sobre o mato florido que reveste parte do meu muro. Detive-me, estático, para não afugentar o bichinho alado. Daí a pouco, após oscular algumas florzinhas, ele se foi lépido e fagueiro.

Até quando, reflito, teremos o privilégio de contemplar seres graciosos como esse colibri? Tantos outros viventes (animais quanto vegetais) já foram extintos ou se encontram ameaçados de extinção devido à nossa postura irresponsável neste não menos ameaçado planeta.curiosidades-sobre-o-beija-florSomos, gostemos ou não, a espécie predadora mais letal sobre a face da Terra. Predadora até de si mesma, ressalte-se. Penso nisso enquanto ouço, aqui sentado à escrivaninha, bebendo café, o passaredo trilando na mangueira do vizinho, por trás da minha casa. São exatamente sete e cinco. Raras vezes estou desperto a essa hora da madrugada, entorpecido por meus psicotrópicos. Mas hoje caí da cama. Melhor dizendo, da rede, pois os cupins devoraram minha cama há cerca de dois anos. Madeira molinha, um tipo de musse para aqueles insetos vorazes.

Elegendo prioridades, sempre estamos sujeitos às benditas prioridades, findei não comprando outra. Até porque aprecio dormir de rede, hábito que trago desde a primeira infância, à luz bruxuleante de uma lamparina de querosene que meus saudosos pais deixavam acesa na cozinha de nossa residência de taipa na Avenida Alberto Maranhão, 3521, no Bom Jardim.

Com a rede espichada na sala, onde está a televisão, assisto a filmes e séries. O cinema, como referi noutras ocasiões, é uma grande e antiga paixão, assim como a literatura (lógico!) e a música.

Neste momento executo no computador uma playlist com oito horas de blues. Ao fundo, no entanto, o gorjeio múltiplo dos pássaros é um show à parte. Ao longo de vários anos, devido ao seu enorme tamanho e ao temor de vizinhos contíguos, que receiam o desabamento da mangueira pela ação do vento durante fortes chuvas, a senhora Francisca, dona da casa onde se encontra a portentosa árvore, já foi muito pressionada para que a fruteira seja extraída. Até aqui, todavia, a mangueira continua de pé, apesar de ter passado por algumas podas significativas.

Somos propensos a soluções drásticas, radicais, não raro com prejuízo para a preservação da fauna e da flora. Simpatizamos com o machado e negligenciamos a semeadura. O tempo todo, em Mossoró não é diferente, o ferro e o concreto assumem o lugar de árvores. Até os pardais e os pombos, entre as aves talvez as mais urbanas, sofrem com a chapa quente que se tornou este município desarborizado.

A selva de pedra cresce com velocidade preocupante. Com isto, prezado leitor e gentil leitora, retomo o assunto que move esta narrativa: nossa índole predadora e inconsequente. É que desmatamos e ceifamos bem mais que o necessário.

OUSO AFIRMAR que a Natureza é perfeita. Nós, entretanto, seres supostamente humanos e racionais, somos desgraçadamente falhos, até desumanos em alguns instantes de nossa existência. A humanidade, pelas mãos de tiranos e genocidas como Adolf Hitler, Benito Mussolini, Gengis Khan e Messias Ignaro, possui uma ficha medonha. Cada vez mais acredito nisso. Vem-me a ideia de que somos (alerto que a palavra somos será empregada em vários pontos desta narrativa) a única obra defeituosa do Criador, uma invenção que, a meu ver, não deu muito certo.

O resto da criação do Todo-Poderoso, exceto por nossa interferência inconsequente, perniciosa, sempre viveu em equilíbrio e harmonia. Hoje, porém, de forma dramática, esse equilíbrio e harmonia estão seriamente ameaçados. Somos a única espécie de todo o globo que põe em risco o próprio habitat, devastando a fauna e a flora, concorrendo para a degradação da vida em larga escala, seja na terra, na água ou no ar, pois sequer o céu (leia-se camada de ozônio) escapa.

Isto significa, como na célebre frase do dramaturgo romano Titus Maccius Plautus, que viveu há cerca de duzentos anos antes de Cristo, que o homem é o lobo do homem. Ou seja, promovemos nossa autodestruição. A sentença metafórica de Plautus, contudo, tornou-se de fato conhecida após o filósofo inglês Thomas Hobbes incluí-la em seu livro Leviatã, publicado no ano de 1651. Eu era muito pequeno à época, portanto, e não quero agora me arriscar discorrendo sobre passagens históricas desse tipo, cheias de poeira e com forte cheiro de naftalina.

Fiquemos com este complicado e perigoso momento. Quem sabe limítrofe, iminente. Estamos cada dia mais próximos, conforme cientistas de todo o mundo nos têm alertado há décadas, de um apocalipse climático.

Dia após dia, senhoras e senhores, e isso não é coisa de hoje, a Terra vem nos dando inúmeros sinais de que estamos em maus lençóis, de que o nosso abominável e criminoso comportamento se encontra por um fio. Porque desrespeitamos a Natureza de forma gritante. Poluímos o ar, envenenamos rios e mares, agredimos povos indígenas, desvirtuamos suas tradições, devastamos florestas. É uma coisa monstruosa, insana, o que estamos fazendo contra nossa Amazônia.

Que o diga o senhor Ricardo Motosserra, ex-ministro do Desmantelo Ambiente e negociante de madeira contrabandeada para os Estados Unidos, escândalo este público e notório. Acredito que não ficaremos impunes por muito mais tempo. Não duvido, por exemplo, de que essa pandemia, tão rica de cepas e variantes, venha a ser um recadinho subliminar que a Natureza esteja nos enviando por meio de outros mamíferos, desta feita bichinhos alados do Oriente: morcegos.

Admitamos ou não, estamos colhendo aquilo que semeamos. Ou, em muitos casos, deixamos de semear, replantar, zelar, proteger. Pelo retrovisor da História, prezado leitor e gentil leitora, é fácil enxergarmos o gigantesco rasto de devastação que deixamos por onde passamos. Porque somos (proponho que leiam a palavra somos ao contrário) predadores de nós mesmos. Somos, sim! E qualquer dia, cedo ou tarde, teremos que pagar essa conta com juros e correções.

Num piscar de olhos, então, enfurecida, a Natureza poderá nos varrer da face da Terra. Como diz o ditado, quem viver verá.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 04/07/2021 - 08:38h

O portão

Por Marcos Ferreira

Sábado passado, o que significa dizer ontem, fui ao comércio de Mossoró em companhia de Jorge, esposo da minha cunhada Vanda, esta irmã de Natália Maia, que vem a ser a minha noiva. Pois bem. Centro cheio, barulhento. Era por volta das onze horas. Um sol e um calor infernais (permitam-me o lugar-comum e a hipérbole) maltratavam meu quengo e meus olhos fotossensíveis.

Quanto a isso, sendo ainda mais excessivo, posso lhes dizer que se trata do meu lado sombrio. Definitivamente, embora nascido e criado nesta nossa amada fornalha, não me dou bem com muita luz e calor. O meu histórico de enxaquecas é uma coisa danada. Sem óculos de sombra, minhas lentes de grau ampliavam meu desconforto. Então, feito um Drácula caboclo se escondendo por detrás da capa, evito o máximo possível me expor aos efeitos do poderoso astro-rei.conserto de portão— Comprar meias, senhor?! — ofereceu-me um camelô diante do Cine Pax, exibindo três pares do produto em cores diferentes.

Aos poucos, ano após ano, fui me tornando uma criatura de hábitos noturnos, ou crepusculares. Exatamente. Tenho predileção pelos finais de tarde e pelas noites. Amo, portanto, o céu todo nublado e os dias chuvosos. Se o escritor Dalton Trevisan é considerado o vampiro de Curitiba, rótulo que teve origem a partir de título homônimo que ele deu a um livro seu de contos, por que não posso me autoproclamar o vampiro de Mossoró? Creio que essa distinção me caia bem.

— Chips da Claro, da Oi, da Vivo e da Tim! — anunciava uma vendedora à porta de uma loja, a máscara presa abaixo do queixo.

Sujeito buliçoso, espécie de faz-tudo da família, Jorge tirou o sábado quase inteiro para efetuar o conserto do portão eletrônico da casa de Natália, convocando-me como seu auxiliar naquela complexa tarefa. Daí que Natália me acordou às oito da madrugada, justo quando o metalúrgico Nove-Dedos, mais uma vez, recebia a faixa presidencial, agora pelas mãos do senador Rodrigo Pacheco.

— Me dá um realzinho aí — estirou-me a mão o nosso carismático conterrâneo Paulo Doido, sobre a calçada do Parque Elétrico. Considero importante assinalar que Paulo, mostrando que possui algum juízo, usava uma máscara de tecido com estampa de uma conhecida loja de capinhas de celulares.

Lá estávamos eu e o Jorge Alves naquela difícil empreitada. Ao menos para mim. Antes de sairmos, Jorge havia retirado o portão dos trilhos, escorando-o na garagem. Precisava adquirir algumas peças no comércio e eu fui a reboque, sonolento, conduzindo a sacola com as coisas que deviam ser trocadas. Entramos no Parque Elétrico, todavia a barulheira da rua nos acompanhou. Logo abandonamos a loja. Após uma rápida consulta, ele não encontrou o que buscava.

— Olha a água mineral geladinha! — gritou bem do meu lado, e sem máscara, um rapaz magricelo sob a marquise de uma ótica.

Deu-me vontade de comprar uma garrafa d’água, no entanto me lembrei da advertência que Natália me fizera à porta do carro:

— Não invente de comprar nada, ouviu?!

— Tudo bem. Fique tranquila — prometi.

— Todo cuidado é pouco — acrescentou.

Pregão de vendedores ambulantes, carros de som, buzinas, ronco de motores, entrechoque com transeuntes apressados. Uma barafunda dos seiscentos! Jorge e eu continuamos o nosso périplo por outras casas do ramo. Com ele andando rápido e eu tão fora de forma, sofri um bocado para acompanhá-lo.

— Vamos a Queiroz & Filhos — disse ele.

Também não achamos ali o que queríamos: barra de cremalheira, roldanas de aço e de nylon, parafusos com porcas e arruelas. Não com as características e especificações de que ele necessitava. Continuamos a busca. Eu conduzia a sacola com as peças menores e Jorge carregava o pedaço de cremalheira. Tais objetos nos eram úteis como referências para os materiais a serem adquiridos.

— Olha a gelé de coco! — enchi a boca d’água, mas resisti à oferta daquela tentadora iguaria exposta num retângulo de zinco.

Os passos céleres de Jorge e o calor me colocavam em apuros. Estou com um sobrepeso de dez quilos. Um monte de pensamentos passava por minha cabeça. Transpirando e ofegante, pensei na simpática e sempre bem-humorada loucura de Paulo Doido, que do alto da sua insanidade oferta exemplo de cidadania a muitos que se dizem em posse de suas faculdades mentais. Um paradoxo!

A ordem de Natália não me saía da cabeça:

— Não invente de comprar nada, ouviu?!

Sol a pino. O mormaço do asfalto, o torpor, minhas pernas fraquejando, os encontrões com transeuntes, as calçadas irregulares e cheias de obstáculos de toda espécie, bancas de ambulantes que lutam pelo pão de cada dia, o pregão do sábado fervendo no Centro. Tudo isso quase que fundiu a minha cuca.

— Anda rápido, compadre! — cobrava-me Jorge; queria que eu o acompanhasse mais de perto. — Assim você vai ficar na poeira.

— Já estou com a língua de fora — admiti.

— Deixa de moleza! — disse cheio de gás.

Volto a pensar em Paulo Doido e concluo que ele está em melhor forma que eu, apesar da sua barriga protuberante. É difícil ir ao Centro e não topar com ele, sempre com passo ligeiro, estirando a mão a um e a outro aqui e acolá. Era figurinha fácil nas recepções dos veículos impressos desta urbe, quando tínhamos em circulação, sobretudo, a Gazeta do Oeste e o Jornal O Mossoroense.

Paulo possuía acesso aos impressores e estes o presenteavam com um exemplar dos periódicos. Isso ocorria na Gazeta do Oeste, no O Mossoroense e no Jornal de Fato. Ele recebia o impresso e saía todo contente com o objetivo de vendê-lo. Agora só lhe resta, supondo-se que ainda lhe ofertem um exemplar daquele diário, o De Fato, cuja tiragem hoje acontece em quantidade simbólica.

— Me dá um realzinho aí — pedira-me.

Após visitarmos três ou quatro estabelecimentos comerciais, Jorge enfim encontrou as peças de que necessitava para o conserto do portão. Retornamos à casa de Natália e ali, com os meus joelhos em petição de miséria, o serviço rendeu quase duas horas comigo auxiliando o meu padrinho e compadre.

— Me dá isso; me dá aquilo — ele dizia.

No meio da garagem, em total desordem, Jorge pusera o seu arsenal de mecânico polivalente: furadeira, brocas, chaves de vários tipos, pistola de arrebites, escada de alumínio, extensão elétrica, caixa de ferramentas.

O portão foi recolocado nos trilhos e roldanas inferiores e superiores. Jorge retirou a carenagem do motor e realizou alguns ajustes.

— Agora vai — comemorou antecipadamente.

Ele também regulou o sensor magnético. Fez uma dúzia de testes, abrindo e fechando o portão, até que deu a missão por cumprida:

— Pronto, compadre! Está novo de novo!

Só estranhei que sobraram algumas peças.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 04/07/2021 - 07:40h

As dores que o frio traz

Por Aluísio Barros

A madrugada de ontem, quarta (29 de junho), foi considerada a mais fria dos últimos cinco anos, com temperatura mínima de 6º C, em São Paulo. Sete moradores de rua morreram de frio.

Li a notícia assim, no calor daqui de casa, e lembrei e senti, por alguns instantes [toda memória de dor é uma vasta ferida que não se cura], os 6° graus que sacolejaram os nossos ossos [Fatima Oliveira e eu], naquela esquina da Av Brigadeiro Luís Antônio com a Alameda Jaú, enquanto, quase 6h da manhã, tentávamos um táxi para irmos assistir Camilo, em cirurgia no Hospital da Beneficência Portuguesa [Ivonete ficara em velas e récitas].morador de rua coberto em São Paulo - morte por frio na madrugada de 29 de junho foto Quando estive em São Paulo, em madrugadas assim, desejei tanto, pelas dores de dentro dos ossos que o frio traz, ser abraçado pelo calor de Mossoró. Ah, desejei. Passei a sonhar com isso. Seria o prêmio a ser recebido junto com a nossa vitória alcançada, a saúde de nosso filho. E assim foi. Macktub.

Camilo Barros diz que gosta do frio. Não curto. A cruviana das serras de Martins e Portalegre me bastam (papai, José de Abília, adorava essa tal Cruviana, que enfrentava com uma lapada de aguardente].

Vendo a foto do morador de rua, lembrei dos muitos que se avistam nas noites de Mossoró [Uma noite, nessa pandemia, inquieto, peguei o carro – virei personagem de Rubem Fonseca – e fui engolir o silêncio das noites, que outrora me foram festivas.

Só avistei os corpos estendidos nas portas e bancos. Uma cidade inteira vigiada pelos moradores de rua [Li até que uma médica dissera que era estranho vacinar essas pessoas com a vacina de dose única. Criatura de pouco estudo. Nem discuto, se é médica]. Pois digo. Gosto mesmo é desse amorno que passa com o ar elétrico.

E vamos que vamos.

Cadê a raquete do chinês, Tertinha?

Aluísio Barros é professor e poeta

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/07/2021 - 06:10h

De volta para a literatura

Por Marcelo Alves

Desde os seus albores, podemos dizer, o cinema faz uso da literatura. Romances, novelas, contos, histórias em quadrinhos e até poesia – obras de todos os gêneros literários já foram roteirizados para a grande e para a pequena tela. E hoje enormes bilheterias são alcançadas, um número cada vez maior de pessoas são fãs dos serviços de streaming, em virtude de adaptações, para imagem e som, de maravilhas (ou até de obras menores) da literatura.

Isso parece bom para o cinema e para a TV. Mas para a literatura? Essa mistura faz bem?

É claro que a arte/técnica da adaptação cinematográfica levanta um sem-número de questões. Não há receita pronta para se adaptar, por exemplo, um romance e, como registrado no livro “100 filmes: da literatura para o cinema” (BestSeller, 2014), organização de Henri Miterrand, “ao roteirizá-lo é necessário fazer escolhas difíceis”, como, por exemplo, “decidir se é melhor trair o espírito do livro ou o espírito do autor”. Traição é traição. E, havendo uma considerável deturpação da coisa, sendo a adaptação apenas mal feita ou mesmo sendo esta uma obra-prima, o livro é uma coisa e o filme ou a série serão outra.

Mas isso é grave ou mesmo necessariamente ruim? Acredito que não.

Penso que as adaptações de livros para o cinema ou para a TV não ofuscam ou prejudicam os seus originais. São duas artes diversas. Dois resultados artísticos que convivem lado a lado, sendo disso sabedor o leitor/espectador de hoje. Ajudam-se mutuamente. Acho até que essas adaptações beneficiam bastante a literatura como um todo.

Cinema e TV são meios de comunicação ou artes muito mais populares que a literatura. Os filmes divulgam os livros. E, invariavelmente, sendo sucesso o filme, o livro vai para as listas dos mais vendidos e lidos. Muitos dos nossos favoritos – livros, filmes e séries – são “frutos” dessa mistura.
cinema-e-literatura-lista-farofa-filosoficaPeguem o caso de “O Poderoso Chefão” (“The Godfather”), o livro, de 1969, escrito por Mario Puzo (1920-1999). Foi logo um sucesso, é verdade. Já no seu lançamento esteve nas listas de best-sellers de então. Mas a trilogia homônima de Francis Ford Coppola (1939-), filmes de 1972, 1974 e 1990, alcançou um sucesso sem precedentes. De crítica, público e dólares. Recebeu vinte e nove indicações ao Oscar. Arrebatou nove.

As partes I e II são consideradas obras-primas, estão entre os melhores filmes de todos os tempos. O sucesso dos filmes foi nada menos que estrondoso. E isso catapultou o livro e a carreira de Puzo, que, por sinal, trabalhou no roteiro dos filmes com Coppola. Vai-se hoje ao livro pelo enorme sucesso dos filmes.

Coisa parecida, embora ainda sem a mesma proporção, deu-se agora com a série “Lupin”, da Netflix, baseada na personagem Arsène Lupin, o “gentleman cambrioleur”, criada pelo escritor francês Maurice Leblanc (1864-1941). E aqui invoco logo o meu próprio caso. Assim que vi a propaganda da série no site oficial da Netflix, veio-me a recordação de que “Les Aventures d’Arsène Lupin”, numa publicação da Hachette – Français langue étrangère, foi um dos primeiros livros que li em francês, quando passei uma temporada em Paris, lá em 2006, como aluno da Alliance Française. Fui reler o meu livrinho.

Escrevi uma crônica sobre o “cavalheiro ladrão” (veja AQUI). E mais: já vi que este ano, aqui no Brasil, em decorrência do sucesso da série, foi lançada a “Coleção Arsene Lupin”, em doze livros, pela editora Principis. Já xeretei os ditos cujos na Amazon e folheei-os em uma livraria da cidade. Edição barata e boa. Se Maurice Leblanc e Arsène Lupin estavam esquecidos – e essa foi a impressão que tive com as respostas à minha crônica –, hoje não estão mais.

Na verdade, como apreendi de um texto publicado no site literário Goodreads por Adrienne Johnson, “Mystery Solved: Why Hollywood Is Obsessed with the Whodunit [leia-se ‘quem fez isso’]?”, as pessoas hoje estão muito mais atentas. Elas sabem os limites que o cinema e a TV têm. Tempo ali é material precioso. A tela em movimento não consegue mostrar tudo. Deve haver muito mais no livro. Ou deve haver algo diferente. Vamos comparar. Vamos ao livro.

Eu fui aos livros. E acho que tem muita gente indo. Viva a mistura!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 27/06/2021 - 08:30h

A vez da esquerda

Por Marcos Ferreira

Falou-me que completou quarenta e quatro em maio. Sete anos mais novo e uns quinze centímetros mais alto que eu, que possuo um metro e sessenta e sete. Também está em guerra com a balança, no entanto não se furtou a comentar o meu sobrepeso, ele mesmo exibindo uma barriguinha saliente.

Encontrei-o na última terça-feira numa clínica localizada no Centro, quando fui a mais uma consulta com o meu endocrinologista. Ele fazia exames de rotina, aproveitando, como de costume, as férias da empresa, oportunidade em que retornou a Mossoró para revisitar familiares e amigos em sua terra de nascimento. Eu, entretanto, não tinha notícias dele há bastante tempo. E, de imediato, como não poderia deixar de ser, apercebi-me da sua atual condição de amputado.Conversão à esquerda, pista de rolamento, estrada, sinalização horizontalEsforcei-me para não transparecer o meu choque e estarrecimento. Por cerca de duas décadas fora meu vizinho no Conjunto Santa Delmira, além de um dos mais assíduos e competitivos atletas de voleibol amador do bairro. Magro, com boa envergadura e impulsão, era difícil pegá-lo no bloqueio.

— Você não perguntou, mas eu vou lhe dizer — começou ele. — Foi um acidente de carro. No dia 3 de outubro de 2015.

Estando a clínica quase cheia, tivemos uma boa conversa de uns trinta minutos, o suficiente para que eu me inteirasse de alguns acontecimentos da vida de Inácio. Sim, Inácio Luís dos Santos, seu nome completo. Contou-me, por exemplo, que na noite do acidente foi assistido pela própria esposa, que é médica socorrista do Samu. Alcoolizado ao volante, após confraternização com colegas do sindicato, ele capotou o carro nas imediações do Aeroporto Tancredo Neves.

— Amigo, fiz besteira! — admitiu.

Fiquei perplexo, sem palavras. Porque escritor também fica sem palavras. Enquanto isso, sem máscara, pois ele argumentou ter contraído o vírus em março do ano passado, cumprindo quarentena totalmente assintomático, Inácio Luís falava pelos cotovelos. A seguir, alargando aquele sorrisão:

— O pior de tudo foi a tatuagem!

— Como assim? — espantei-me.

Ele, risonhamente, explicou-me:

— Havia dois meses eu mandara fazer uma tatuagem com os rostos dos meus filhos e da minha esposa nessa parte toda, do ombro até o antebraço. Custou-me mil e oitocentos reais, mas ficou uma coisa linda.

— Que pena, Inácio — murmurei.

A perda do membro, amputado na altura do ombro, não lhe impôs nenhuma depressão ou desgosto diante da vida. Queixou-se tão somente, com um resquício de abatimento, do ponto final que aquele desastre pusera em sua presença nas quadras de vôlei. Em instante algum observei uma nota de tristeza em sua voz. Pelo contrário. Agora com um único braço, o esquerdo, pôs a mão sobre meu ombro e pareceu a mim pretender confortar pela desventura que era dele.

— Tudo bem. Deus sabe o que faz.

E eu, sem nada melhor a lhe dizer:

— Isso é verdade, Inácio. Ele sabe.

Durante aquele nosso inesperado encontro e esclarecedora conversa (suponho que grande parte era acompanhada com o rabo do olho por uma senhora ruiva e rechonchuda ali próximo, cuja expressão me fez crer que estivesse incomodada pelo fato de que Inácio não usava máscara), falamos sobre vários assuntos: esporte, amigos, saúde, pandemia, família, política, trabalho, etc.

Ele deixou esta cidade, segundo contou, em 2003, indo de mala e cuia para São Mateus, no Espírito Santo, ao ser aprovado em concurso da Petrobras para a função de operador de campo. Ali deitou raízes, contraiu matrimônio, gerou dois filhos e seguiu praticando vôlei em solo espírito-santense.

Relatou umas limitações e desafios:

— Tudo mudou drasticamente. Tive que aprender e reaprender um monte de tarefas básicas. Dificuldade para realizar as coisas mais simples do nosso cotidiano, como escovar os dentes, fazer a barba, tirar ou vestir uma roupa, escrever meu nome. Desde então venho praticando minha assinatura com a esquerda, porém estou longe daquela caligrafia boa que eu tinha. Outra coisa difícil é limpar a bunda. Precisei eliminar o uso do papel. Agora só me asseio no jatinho d’água.

Como no vôlei, levantei a bola dele:

— Você sempre foi um vencedor.

— Ah, muito obrigado, meu amigo.

— Bom saber que ainda jogava vôlei.

— Sim! Eu nunca deixei o voleibol.

Estava diante de mim, de sorriso largo, com o seu corte de cabelo à Roberto Carlos, ora com uns fios prateados, o mesmo Inácio brincalhão dos tempos de esporte, dos jogos de dupla na quadra de areia na praça do Abolição IV e do bate-papo quando sentávamos no meio-fio diante da casa de Nilson Rebouças, justamente para comentarmos os momentos mais relevantes das partidas.

Daí a pouco me perguntou pela vacina.

— Você já tomou sua primeira dose?

— Já, sim — respondi num bate-pronto.

— Eu também, apesar de ter me curado.

— Se não lhe fizer bem, mal não fará.

— De graça, tomo até injeção na testa.

— Como ficou em relação à empresa?

— Estou em função administrativa. Não quero me aposentar logo. Sem as horas extras e feriados trabalhados, o salário despenca. Vou aguentar isso por mais um tempo. Especialmente agora que Olívia, minha esposa, está grávida. É o sétimo mês. Gravidez de gêmeos. Um casal. Barrigão desse tamanho.

— Poxa, meu amigo! Meus parabéns!

— Tenho me sacrificado até no sexo.

Soltou uma gargalhada e acrescentou:

— Agora, rapaz, é a vez da esquerda.

— Esquerda?! — reagi inocentemente.

— Pois é, a esquerda — e gesticulou. — Não tem outro jeito, não. Em certas horas, quando me encontro apertado e Olívia não se dispõe a me dar uma mãozinha, corro para o banheiro e resolvo a situação sozinho.

— Por favor, meu caro, me poupe dos detalhes sórdidos. Suponho, todavia, que não deve ser fácil. Não quero nem imaginar.

Olhei à volta com um sorriso amarelo. Supus que a senhora que nos espionava tivesse compreendido aquele gesto obsceno.

— É um negócio difícil — afirmou ele.

Nesse instante o número da ficha de Inácio surgiu no painel eletrônico e ele se despediu de mim apertando minha mão esquerda. Não trocamos contato telefônico e daí a pouco também fui chamado ao consultório.

— Agora, rapaz, é a vez da esquerda.

Essa pilhéria de Inácio Luís, de cunho onanístico, ainda martela na minha cabeça. Será, porventura, uma profecia para 2022?

Não faço a menor ideia. O que sei é que não tenho mais narinas nem estômago para a podridão que se instalou na Casa de Vidro. E não duvido de que outro amputado retome o governo deste Brasil desgovernado.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/06/2021 - 07:42h

Misteriosa obsessão

Por Marcelo Alves

“100 filmes: da literatura para o cinema” (BestSeller, 2014), organização de Henri Miterrand, é um livro que eu recomendo deveras. Literatura e cinema, sozinhas ou misturadas, são duas coisas boas da vida, vos asseguro.

Todavia, o livro, nos traz uma advertência que acredito crucial: “Desde a sua criação até os dias atuais, o cinema bebe da fonte da literatura. No entanto, o segredo que permite transpor o trabalho do papel para a película parece conhecido apenas por alguns dos grandes nomes da sétima arte: Kubrick, Visconti, Renoir, Bresson e poucos outros foram capazes de criar obras-primas baseadas em outras obras-primas enquanto nomes menores criaram cópias insossas”.literatura-no-cinema De fato, com honrosas exceções, é comum dizermos: “o livro é melhor que o filme”. E, dentre essas exceções, talvez a mais famosa seja a trilogia “O Poderoso Chefão” (“The Godfather”), iniciada em 1972 sob a direção de Francis Ford Coppola, baseada no livro de Mario Puzo.

E é aí que entra uma questão curiosa: o gênero da literatura a ser adaptada para o cinema. Este e a TV parecem ser muito mais exitosos quando adaptam/roteirizam a literatura de gênero, em especial as estórias de suspense/mistério, para as suas maravilhas de imagem e som.

Outro dia, aliás, li no site literário Goodreads um belo artigo sobre o tema, de autoria de Adrienne Johnson, intitulado “Mystery Solved: Why Hollywood Is Obsessed with the Whodunit [leia-se ‘quem fez isso’]?”. E tudo fez sentido.

De logo, não são só Hollywood e as plataformas de streaming (Netflix, Amazon Prime, Apple TV etc.) que estão obcecadas por mistérios. Nós também estamos. Não conseguimos parar de assisti-los, mesmo com mil coisas a fazer ou necessitando dormir. Tiro pelo meu caso com “Lupin”, série da Netflix baseada na obra do francês Maurice Leblanc. Acabei vendo episódio atrás do outro, madrugada adentro. Hollywood ou Netflix nos vende o que queremos comprar.

E esse nosso amor pelos livros, filmes e séries de mistério/suspense decorre de vários fatores, muitos dos quais inconscientes. Há a questão da qualidade intrínseca à boa literatura. Como anota Adrienne Johnson, se uma editora de renome colocou seu selo num livro, ela está dizendo: “isso tem certa qualidade”. Ela também sugere olharmos a história do cinema: a maioria dos filmes ganhadores do Oscar são, na verdade, baseados em livros. Ademais, se a coisa nos encantou, é comum pensarmos: “já li o livro; agora vou ver o filme”.

Os livros também costumam oferecer uma abordagem mais profunda e completa da estória se comparados aos filmes. São 300 páginas em vez de 90 minutos de imagem e som. Com a explosão dos serviços de streaming, pululando nas TVs, isso é uma mão na roda. Temos aqui flexibilidade em formatos e tempo de execução. Uma série poderá ter inúmeros episódios ou ser divididas em várias temporadas. O livro é um ótimo plano para a série seguir e se desenvolver.

Há ainda a questão do enredo forte, típico dos whodunit, dos thrillers e por aí vai. Quem fez isso? Por que fez? Como fez? Isso sem falar nas reviravoltas a cada instante ou episódio. Nos livros de mistério, os capítulos geralmente terminam em um momento de angústia. Perfeito para os cortes da grande tela e, sobretudo, para os capítulos na TV. Deixará você grudado ali se perguntando: O que houve? O que vai acontecer?

Ademais, os filmes/séries de mistério nos tornam mais do que espectadores da estória. Em meio ao suspense, quase participamos da trama. Sentimos medo, raiva e alegria. E há os dilemas éticos e morais. O que faríamos no lugar da personagem X? Vendo “Lupin”, minha mulher me perguntou se eu roubaria um violino para ela. Disse que não. Quase fui abandonado na hora. Isso tudo pode até ser escapismo. Não importa. Temos esse direito.

Por fim, hoje, há uma tendência nos filmes/séries de mistério de contar sua estória com um toque de humanismo, mesmo quanto ao seu anti-herói. Um grande sofrimento ou injustiça prévia explica/justifica o seu comportamento. Além disso, também abordam, mesmo que lateralmente, questões atualíssimas, tais como igualdade e justiça social, gênero, classe, raça e por aí vai.

Vejam o caso da já citada série “Lupin”.

Bom, de minha parte, mil vivas para essa misteriosa obsessão.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
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