domingo - 03/03/2024 - 11:22h

Biden deve usar poder americano e repetir Reagan

Por Ney Lopes

Registro de socorro, precário, em Gaza, a adultos e crianças (Foto: Mohammed Abed/Afa)

Registro de socorro, precário, em Gaza, a adultos e crianças (Foto: Mohammed Abed/Afa)

Chega aos limites da desumanidade a situação em Gaza.

576 mil pessoas na Faixa de Gaza – um quarto da população do enclave – estão a um passo da fome, de acordo com a ONU. Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários.

Com as pessoas comendo alimentos para animais e até mesmo cactos para sobreviver, e com os médicos dizendo que as crianças estão morrendo em hospitais de desnutrição e desidratação, a ONU disse que enfrenta “obstáculos instransponíveis” para ajudar.

Neste mês, 97 caminhões foram capazes de entrar em Gaza todos os dias, em comparação com cerca de 150 caminhões por dia em janeiro.

O número de caminhões que entram em Gaza permanece bem abaixo da meta de 500 por dia.

Enquanto isto, Biden disse esperar que aconteça na época do mês de jejum muçulmano do Ramadã, que começa em 10 de março.

Ontem, 2, iniciaram-se lançamentos aéreos de alimentos dos EUA, o que é muito pouco.

Outros países, incluindo a Jordânia e a França, fazem isso, há dias.

Sou admirador do democrata, mas nesse caso a sua ação é tímida e já poderia ter tomado uma atitude, até militar, não contra o valoroso e respeitável povo judeu, mas contra o sanguinário primeiro ministro Benjamin Netanyahu, que, segundo pesquisas, apenas 15% dos israelenses o querem governante

Há dias, o conceituado jornalista Elio Gaspari, em artigo na Folha, lembrou história publicada no jornal britânico “The Guardian”, que não tem dono e é propriedade de um fundo sem fins lucrativos de mais de 75 anos, criado com o objetivo exclusivo de manter o jornal operando com independência editorial.

Segundo o jornal, em 12 de agosto de 1982, no que mais tarde seria apelidado de “quinta-feira negra”, jatos israelenses bombardearam Beirute por 11 horas consecutivas, matando mais de 100 pessoas. Os civis são mortos aos milhares.

Naquele mesmo dia, um Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, horrorizado fez telefonema para Menachem Begin, então primeiro-ministro israelense, para “expressar a sua indignação” e condenar o derramamento de sangue. Israel tentava destruir a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), que não conseguiu, cujos combatentes estavam submersos em esconderijos de uma rede de túneis, abaixo de Beirute.

“Isso é um holocausto”, afirmou Reagan a Begin.

O líder israelense. Begin, respondeu com sarcasmo, dizendo ao presidente Reagan, que “sabia muito bem o que é um holocausto”.

Reagan, no entanto, não recuou.

Invocou o poderio americano e insistiu no cessar fogo em Beirute.

Vinte minutos depois, Begin ligou de volta para Reagan e disse-lhe que ele havia ordenado parar o bombardeio.

Diz-se que Reagan sensibilizou-se com a imagem de uma criança ferida no combate.

Hoje, o ataque israelense a Gaza já dura o dobro do tempo que o cerco de Beirute, com mais de 30 mil mortos.

Não se discute, que Israel tenha sido criminosamente invadido pelo Hamas e exerce o seu direito de defesa, que deve, entretanto, ter limites humanitários.

Segundo relato do jornalista Guga Chacra, em Gaza mais de 20 mil crianças ficaram órfãs. Cerca de 8 em casa 10 pessoas foram forçadas a deixar suas casas. A maior do território palestino, praticamente não existe mais. Virou ruínas. Entretanto, todos os dias repetem-se bombardeios aumentando o saldo de mortos.

A mídia mostra cenas horripilantes transmitidas ao vivo para telefones celulares, computadores e telas de televisão. O primeiro genocídio na história, onde suas vítimas estão transmitindo sua própria destruição em tempo real na esperança desesperada, até agora em vão, de que o mundo possa fazer alguma coisa.

Bruce Riedel, que passou três décadas na CIA e no conselho de segurança nacional, aconselhando quatro presidentes diferentes, declarou que os Estados Unidos poderiam agir e pressionar o cessa fogo.

Foi adiante ao declara que “Todos os dias fornecemos a Israel os mísseis, com os drones, com a munição, que ele precisa para sustentar uma grande campanha militar como a campanha em Gaza”.

Biden teria que ser mais firme.

Ele experimentou tragédias pessoais devastadoras. Perdeu a esposa sua esposa de 29 anos e filha de um ano em um acidente de carro e, décadas depois, o filho faleceu de câncer no cérebro. No entanto, ele agora possui o poder, único entre os 8 bilhões de pessoas que vivem neste planeta, para pegar o telefone, discar um número para Benjamin Netanyahu, um criminoso nato (ao contrário da índole pacifista do povo judeu) e obrigá-lo a parar as operações militares, sob pena de represálias imediatas.

Afinal, estão em jogo vidas humanas e não apenas interesses de países.

Biden terá que agir em 2024, como Ronald Reagan agiu, em 1982.

A Humanidade espera isto, independentemente de ser favorável a judeu ou a palestino.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

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Categoria(s): Artigo
domingo - 21/11/2021 - 11:40h

Ninguém chorou por ti

Por Inácio Augusto de Almeida 

Faz tanto tempo. Eu não era nem nascido. Crupe é o nome da doença que te levou. Hoje, uma coisa boba. Mas naqueles dias antibióticos era difícil. Difícil e caro, principalmente para nosso pai que trabalhava numa mina de carvão no interior de Santa Catarina. Vê, Geraldo, nem mesmo o nome da cidade eu me lembro mais.

Para ti, irmão, faltou um comprimido de penicilina e o homem da mercearia, que sempre te via brincando nos fins de tarde, só soube da tua morte dias depois do teu enterro.  sofrimento, reflexão, solidão, depressão, isolamento, banco de praça,

A preta velha que te rezou, fez de coração, mas, coitada, rezava sozinha, sem nenhuma corrente formada para ajudá-la.

Eu, apesar de não te ter conhecido, sempre me lembro de ti. Papai sempre me falava de teus cabelos pretos, encaracolados, teus olhos castanhos, vivos, de uma vivacidade que denotava uma inteligência muito acima do normal; dizia que tu te foste porque Deus quis.

Sei não, irmãozinho. Sei não.

Ou será que se tu tivesses naquela noite uma equipe médica à tua cabeceira, com todos os medicamentos possíveis e imagináveis; e muitas, muitas pessoas a pedir por ti, será que o Criador não teria um pouco mais de paciência e deixaria para te levar só muitos anos depois?

Tu foste um nordestino que morreu como morrem milhões e milhões de irmãos nossos. Sem um comprimido sequer. E o que é pior irmãozinho, sem que ninguém derramasse uma lágrima sequer. Porque sobre ti e sobre os teus coleguinhas de desgraça não se criou nenhum clima emocional. Não se dramatiza sobre os Zés da vida. E são tantos, Geraldo.

Tantos, tantos que me causa espanto, quando vejo gente tão insensível, à fome e à miséria destes pequeninos, chorando nas ruas por um doente qualquer. E era dos pequeninos que o Senhor mais gostava ou não foi ele que disse: “ai de quem tocar em um dos meus pequeninos…”

Sabe, Geraldo, ainda hoje morrem pequeninos de Crupe. Não, irmãozinho, não. Existem antibióticos, sim. Bastam alguns comprimidos e pronto.

A doença que te matou é hoje fácil de curar. Tão fácil como uma simples gripe. Mas os garotinhos do Nordeste continuam morrendo de crupe. Por quê?

Ora, nenhum destes que choram e oram por um doente que nunca viram, é capaz de mandar para um pequenino uma pílula.

E elas custam tão pouco! Menos do que o preço de uma cerveja.

Não consigo entender a sensibilidade desta gente que chora a morte de um animal de estimação ou de algum famoso a quem nunca viram. Se alguém consegue entender, não sei.

Não, não me pergunte, irmãozinho, eu realmente não entendo esta sensibilidade.

Sinto vontade de rir. De rir e de chorar.

Tu te foste, irmão querido. Não tinhas sequer cinco aninhos. Eu não te vi, mas em mim ficaram as imagens de ti através do meu pai, que como nordestino que era, não podia chorar por ti.

Nem ele nem ninguém chorou por ti. E hoje, ninguém chora, reza ou faz promessas pelas crianças que, como tu, morreram e morrem sem a menor assistência.

Ninguém chora por elas, ninguém, como ninguém chorou por ti.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

P.S. – Quatro mil crianças morreram de subnutrição em 2020 e ninguém chora por elas. (Fonte: Data SUS- Ministério da Saúde).

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Categoria(s): Crônica
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