domingo - 04/06/2017 - 14:24h

Teatro de horrores

Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freyre abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade.  A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores.

Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes. O futuro certamente terá vergonha do nosso presente.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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sexta-feira - 02/06/2017 - 10:00h
O outro lado

A mentira oficial do marajanato

Por François Silvestre

A televisão platinada denuncia hoje a impunidade oficializada, com crimes sem apuração e sem instauração de inquéritos. Quem é responsável pela instauração dos inquéritos? O Ministério Público. Isso mesmo.

É o responsável direto pela impunidade. E foi ele mesmo quem arvorou-se dessa incumbência. Lembra da PEC-37? Se não, vou lembrá-lo. Essa “peque” dividia com a Polícia Judiciária a competência dos inquéritos.

O MP não concordou e fez uma campanha caríssima, de repercussão nacional, dizendo que a “peque” era a consolidação da impunidade.

O MP ganhou, ficando com ele a iniciativa privativa dos inquéritos. E a população perdeu. Paga salários e vantagens de marajás a Procuradores e Promotores para quê? Para que eles cuidem exclusivamente dos crimes de colarinho branco, relegando à impunidade os crimes contra a vida.

Põem-se corruptos na cadeia e deixam na rua assassinos e assaltantes, matando gente como se matam ratos. Punição contra homicídios não produz holofotes.

A luminosidade midiática só alcança os “operadores” das “operações”, com direito ao ridículo espetáculo das entrevistas coletivas.

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domingo - 28/05/2017 - 07:10h

Adiamento irresponsável

Por François Silvestre

Estamos irresponsavelmente adiando o inadiável. Postergando o impostergável. Acobertando o inacobertável. Camuflando o inescondível.

A ordem institucional nascida em 1988 esgotou-se. Exauriu-se. Atrofiou e padece de infecção generalizada, septicemia que paralisa poderes, órgãos e gestões.

Essa conversa de que as Constituições devem envelhecer para consolidar democracias não se refere à nossa cultura político-institucional. Somos, os latinos dessa América, sociedades movidas pela transitoriedade.

É da nossa tradição. Do nosso jeito de ser. Pois que sejamos o que somos e não o que são os nossos dessemelhantes.

O Brasil é um país ainda experimental. Em formação de povo e de instituições. Nossa História se faz em ciclos e não em amadurecimento continuado. Um ciclo morreu. Que nasça outro. Como a morte e coroação nas antigas dinastias.

Dizia Sartre que o Direito e a Moral não determinam as relações sociais, cujos matizes têm causas nas condições econômicas. Mas acentuou que tanto o Direito quanto a Moral exercem uma ação de retorno na infraestrutura, que muitas vezes você pode julgar uma sociedade pelos critérios morais e jurídicos que ela estabeleceu.

Há, no país, um esgarçamento político tão visível e marcante a influenciar negativamente a economia, que você fica na dúvida para localizar o que é causa ou consequência.

O esgarçamento institucional, acima referido, começa a tomar contornos fora do “controle” estabelecido. Os privilégios desqualificam o poder de controlar. E a pobreza retornando à condição de miséria.

A cada adiamento da solução mais simples, e por ser simples a mais eficiente, o esgarçamento institucional vai aprofundando o abismo.

A falta de credibilidade do poder “constituído” escancara-se. A falta de legitimidade de quem combate esse “poder” retira a chance de solução pelas vias “normais”.

Pelo tocar do comboio, logo teremos desobediência civil generalizada. Num quadro de economia em processo falimentar, descrédito político, bagunça institucional, e confusão de prerrogativas, quantos serão “obedientes”? E quando essa desobediência generalizar-se quem vai controlar?

A superação de um ciclo é o nascimento do ciclo novo. E isso só será possível com a feitura de nova ordem institucional. Pela força de uma Constituinte Originária.

Exclusiva. A ser dissolvida após a promulgação da carta Constitucional. Quarentena dos constituintes, proibidos de participarem, como candidatos, nas eleições seguintes e gerais que formarão o novo poder constituído.

Com candidaturas avulsas. Com isso, as corporações e entidades da sociedade civil, não profissionalmente politizadas, sem o corporativismo da hipocrisia atual.

Qualquer outra saída será remendo, no rasgão da estopa.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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sábado - 20/05/2017 - 09:04h
JBS no RN

Só com Plasil

Por François Silvestre

Ao ler o relato do “empresário” que diz ter comprado a Caern, compra feita na “folha”, como se diz no Sertão, quando alguém compra o resultado do roçado antes da colheita, dá sensação de nojo.

Como diria Aluísio Lacerda: “Meu Deus”!

“Vamos indicar um Secretário de Estado para acompanhar o processo, pois o senhor não é muito confiável”, diz o “empresário” corruptor ao candidato a governador.

“Lá, os senhores terão o que quiserem; mas eu preciso ganhar essa eleição e o meu pai também precisa ganhar essa eleição”, diz o filho do candidato, também candidato.

Só resta torcer pra que seja tudo ficção. Mas se não for, só dá pra ler tomando Plasil.

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domingo - 14/05/2017 - 09:18h

“A última flor do Lácio”

Por François Silvestre

Vivemos provavelmente os tempos do colonialismo cultural mais acentuado da história dos povos.

É bem verdade que não é um fenômeno novo. Em todas as conquistas militares ou de colonizações, o colonialismo cultural sempre fez parte do pacote de dominação. Ou quase sempre. No caso da dominação árabe na península ibérica, houve uma exceção. Os nativos continuaram a professar suas crenças e preservar sua cultura.

O Brasil deixa-se colonizar culturalmente há muito tempo. É preciso ver que há diferença entre aculturação e desculturação. Na aculturação ocorre uma troca entre as culturas que se misturam. Caso exemplar é o sincretismo umbanda-catolicismo que se deu nas relações dos vindos da África com os nascidos daqui. Nesse caso, não há colonialismo cultural.

Outra coisa é a desculturação, quando uma cultura imperial impõe seus modos sobre a fraqueza da cultura invadida. O uso e abuso da língua inglesa, no mundo de hoje, é o exemplo mais nítido da desculturação.

E me traz à memória o diálogo de Próspero e Calibã, n”A Tempestade”, de Shakespeare: Diz Próspero: “Eras uma figura ignóbil e eu te dei compleição humana”. Calibã responde: “Mas a ilha era minha e tu ma tomaste”.

Próspero argumenta: “Mas eu te ensinei a minha língua”. E Calibã rebate: “No que a mim só serve para nela poder amaldiçoar-te”.

Nos tempos de hoje nem para a maldição dos dominadores a língua serve. Serve muito mais para a louvação. Para o embuste. Para consolidar a dominação, sob o manto roto do “progresso” e da globalização. O Globo são os outros. Estou falando do planeta.

A última flor do Lácio” de que falou Olavo Bilac, onde Gil Vicente deu o tom da morfologia e Camões desenhou o esqueleto sonoro da sintaxe, vem sendo maltratada pelos nativos; deslumbrados com a luminosidade econômica das culturas alheias.

O jeito de falar ou escrever na literatura comporta “agressões” à língua, na medida do talento. Não se configura erro.

Contudo nos textos técnicos, opinativos, sobre qualquer assunto, a escrita que agride a língua não é justificável. Na televisão, dando notícias, ou comentando o noticiado, é preciso respeitar a língua. Não se faz literatura em noticiários. Comentem-se erros. Alguns de transformar os ouvidos em penicos.

Os pobres verbos sofrem a diabo na boca dos repórteres. “Houveram atritos”, no lugar de houve. “Fazem dez anos”, no lugar de faz. “Ele reaveu o carro roubado”, no lugar de reouve. “O governo interviu”, no lugar de interveio. “A cartomante preveu”, no lugar de previu. “Se o governo propor”, no lugar de propuser. E por aí vai. Um horror…

Não se cobra pureza linguística nem chatice de regras. Não. O que se cobra é o mínimo de respeito com a língua em que, ao rezar, espantávamos fantasmas, na infância.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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quinta-feira - 11/05/2017 - 20:58h
Lula perante Moro

O desespero

Por François Silvestre

O depoimento de Lula foi recebido com naturalidade pelo Juiz Sérgio Moro. Também por vários veículos da imprensa, inclusive de direita. Porém, um veículo de comunicação, nobre, desesperou-se. A Globo News.

Sou telespectador deste canal. Nunca tinha visto o seu elenco, mais credenciado, de semi-gênios, tão esbaforidos. De ventas esfoladas, quase cuspindo na câmera, para desmerecer ou refutar as respostas de Lula.

Nem os promotores ficaram tão irados quanto a Globo.

Lula acertou no cabelouro da Globo, como o matador de boi. Não sou eleitor de Lula, mas fico rindo dos seus inimigos.

Incompetentes.

O Ministério Público não provou a materialidade desse crime. A Globo é tão desonesta quanto as empreiteiras. Desde a Ditadura.

Faltou Lula oferecer o triplex, por preço vil, aos presentes. Desde que pudessem transferir o imóvel, como compradores, provando a propriedade do vendedor.

Propriedade imóvel prova-se com escritura pública, registrada. O resto é política ou patifaria.

O excesso de acusação na pressa de atingir o acusado retira o alcance mínimo da verdade.

Lula é culpado ou inocente? Não sei.

Porém, a menos que se invente outra consciência jurídica, a dúvida protege o réu.

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domingo - 07/05/2017 - 09:42h

A mentira-mor

Por François Silvestre

Reformar, no Brasil, não é apenas uma mentira. É a mãe das mentiras. A mentira-mor da nossa farsa. Agrária, tributária, política, previdenciária, tudo embuste. Meia-sola institucional.

Papai Noel de ilusão, defronte da garotada, que animada pela festa prefere fazer de conta ser de fato o velhinho com um saco cheio de presentes saídos da imaginação, e não do bolso dos parentes. Nas “reformas”, do bolso do contribuinte.

Os enganadores precisam da fé dos enganados. E fazem desse mercado de trocas uma acomodação de interesses.

Sobre as reformas de faz de conta há uma lição literária que resume como arquétipo as outras imitações. “Il Gattopardo” de Giuseppe Tomasi de Lampedusa.

O autor trata da decadência da aristocracia siciliana, durante o Risorgimento italiano, quando as lutas de unificação sinalizavam para uma nova ordem política, social e econômica.

O resumo da obra se dá no diálogo entre os personagens Don Fabrizio, príncipe decadente de Salina, com o sobrinho Tancredi, picareta príncipe de Falconeri. “É preciso que tudo mude, para que fique tudo do mesmo jeito”. Visconti adaptou a obra para o cinema, com Burt Lancaster, Alain Delon e Cláudia Cardinale.

O Brasil conseguiu superar a lição de Lampedusa. Aqui nem se muda nada para que tudo continue como sempre foi. E não raramente para pior do que era.

O golpe republicano apenas transformou a aristocracia monárquica em aristocracia republicana. Não foram os republicanos históricos que assumiram o poder. Quem tomou conta das decisões foram os próceres da Monarquia, agora republicanos.

O movimento de 1930 derrubou a República Velha sob o comando de um ex-ministro do governo decaído. E os antigos aliados do regime velho viraram sustentadores do regime novo.

A redemocratização de 1945 foi sustentada pelos mesmos sustentadores da ditadura Vargas. E o primeiro Presidente da nova ordem fora o avalista militar da ordem antiga.

O golpe de 1964 foi endossado pelos mesmos que se serviam do governo deposto. Partidos e imprensa. Os partidos foram extintos e a imprensa levou pé na bunda.

Ao cair a Ditadura, não foram os seus inimigos que assumiram o poder. Foram os seus aliados. Tancredo Neves negociou com militares e políticos que sustentavam o regime de violência. Quem assumiu o poder foi José Sarney, acólito político da Ditadura.

Lula representava o antimalufismo. Onde estão? Do mesmo lado, em todos os sentidos.

Collor foi a encarnação do antilulismo, o instrumento que evitou naquele momento a vitória do barbudo que assustava empreiteiros e classe média alta. Onde estão? Do mesmo lado, em todos os sentidos. Os empreiteiros, antes assustados, aliaram-se a Lula e ficaram íntimos. Papão e papados foram papar juntos.

No Brasil, a geografia fotografa Deus e a pátria revela Macunaíma.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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Categoria(s): Artigo
quinta-feira - 04/05/2017 - 23:20h
Sei...

Ciço Cão casou a filha

Por François Silvestre

Foi uma festa com o abate de três bodes, dois patos, um galo e um porco. Cachaça da Malhada Vermelha, rabo de galo e conhaque da alcatrão. Gente muita, que encheu o alpendre. Ciço Cão esnoba a riqueza que tem.

“Se esse casamento não durar eu faço outro. Tem sempre um rapaz sobrando e precisado, que a menina Petronila pode comprar”. E riu, para ser fotografado por Evaristo Bunitim, o fotógrafo oficial da Fazenda Bestocê.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
segunda-feira - 01/05/2017 - 23:20h
Só alegria

Miserável povo, inescrupulosos líderes

Por François Silvestre

A cobertura sobre o casamento da filha de Silvio Santos com o deputado Fábio Faria (PSD) foi um festival de ostentação. Antes que algum assalariado de direita faça a defesa de que o dinheiro é deles e não é da conta de ninguém, eu também reconheço isso.

Beto Rosado e esposa Anne Catherine prestigiam Fábio e Patrícia Abravanel em casamento (Foto: redes sociais)

Porém, entretanto mas porém, a festa não é tão privada assim não. O dono da casa e do SBT possui uma concessão pública de televisão. O que o obriga a respeitar a miséria do povo que paga sua televisão e seu baú.

O genro do dono da concessão é deputado federal e filho de um governador de Estado.

Obrigado a respeitar a miséria financeira do Estado que representa, mergulhado na insegurança pública sem controle, nos salários fatiados dos servidores, na saúde inexistente e na educação sucateada.

Ostentar, numa hora dessas, pode até não ser desonesto. Mas é um escárnio.

O povo sofrido e desrespeitado banca a festa pomposa.

Pelas concessões públicas e pelos cargos eletivos. Miserável povo, inescrupulosos líderes.

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Categoria(s): Opinião / Política
domingo - 30/04/2017 - 09:00h

A “federação” de capitanias

Por François Silvestre

O Brasil não foi e não é uma federação.  O que é uma Federação? É uma União política, republicana, formada por membros autônomos, que possuem Constituição própria e legislação específica. Cuja vigência e eficácia, no seu território, tem prevalência sobre as leis gerais da União, à exceção da Constituição Federal.

Qual desses conceitos se aplica, na prática, ao Brasil? Nenhum. E todos, só que teoricamente acanalhados.

E qual órgão “constitucionalmente” instituído deve cuidar da existência da federação, zelar por sua manutenção e eficácia? O Senado Federal. A falsidade nasce na não existência da federação e se consolida na inutilidade do órgão protetor.

O Senado era uma nobiliarquia imperial formada por sustentadores do Império. Ricos que mantinham a família real e sustentavam os influentes protegidos da Casa de Bragança.

Os senadores eram eleitos pelas províncias, mas só assumiam o posto, vitalício, por acatamento do imperador. Casos houve em que a província elegia o senador e não era nomeado pelo imperador. Um exemplo: José de Alencar, eleito pela província do Ceará, não foi nomeado, sob a desculpa de ser jovem. Exatamente por quem foi imperador aos quinze anos.

Com a república, o Senado sobreviveu. Era preciso salvar os ex-próceres da Coroa, republicanos novos. De vitalício, virou quase. A mesma pompa e a mesma inutilidade.

A aristocracia rural e a atividade comercial urbana, sustentáculos do império, tomaram as rédeas do novo regime.

Rui Barbosa, Campos Sales, Bernardino de Campos, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Prudente de Morais, Deodoro da Fonseca, Francisco Glicério eram todos próceres do império. Eles e mais outros. E quem ficou fora das rédeas executivas foi arquivado no Senado.

É essa instituição, caríssima e inútil, que guarda a inexistente federação. Tudo de faz de conta.

São Paulo e Minas dominaram a “federação” após o golpe republicano, durante quatro décadas.

Com o golpe de 1930, falsamente chamado de revolução, morreu a república velha. Nasceu a federação? Coisa nenhuma. O Estado Novo sepultou o morto-vivo. Ou natimorto. Getúlio queimou as bandeiras dos Estados e aboliu seus hinos. Era a declaração oficial de que “essa merda nunca existiu”.

A ordem constitucional nascida em 1946 começou a preparar o amadurecimento institucional.

Com todos os defeitos da nossa formação, foi o único período da nossa história que mostrou a cara brasileira do seu povo. E caiu pelos seus méritos e não pelos defeitos.

O golpe de 64 acampou a “federação” nos quartéis. Igual ao império, só sobreviveram os obedientes ao poder dos coturnos.

E quando caiu, fê-lo em conluio com os que assumiram o poder e o repassaram aos seus descendentes. São as atuais capitanias.

E não há federação entre feudos saqueados e falidos.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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sábado - 29/04/2017 - 21:25h
Constituinte Exclusiva

A simplicidade do complexo

Por François Silvestre

A proposta de uma Assembleia Nacional Constituinte não tem nada de heroico, complexo ou pomposo.

O fato de que a Constituinte de 88 promulgou artigos não votados ou modificados não desmerece uma Constituinte a ser convocada; apenas confirma que é preciso uma Constituinte escoimada desses defeitos.

Daí que a sugestão informa sobre uma Assembleia Originária e Exclusiva.

Vou desenhar.

Originária: que não deve vassalagem à “ordem” atual. Preservando o Estado Democrático de Direito, que pode ter formas diferentes, sem mexer nos pilares da soberania nacional, na dignidade da pessoa humana, nas liberdades fundamentais, na independência dos poderes. O resto, todo, é mexível.

Pode ser presidencialista ou parlamentarista, bicameral ou unicameral. Exclusiva: Aí reside o pulo do gato. Após a promulgação, a Assembleia se auto-dissolve. E seus membros não poderão disputar as próximas eleições. (quarentena).

Com candidaturas avulsas, sem prejuízo das candidaturas partidárias. Permite a politização e reduz a politicação. Não há heroísmo, pompa ou circunstância.

É uma sugestão que, no mínimo, merece discussão. Sem o pomposo ranço ideológico, que acompanha algumas pessoas por conta de rótulos que alguns têm dificuldades de arrancar.

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domingo - 16/04/2017 - 16:34h

Ainda o Regimento de Obuses

Por François Silvestre

Domingo passado tratei de alguns fatos dos tempos do Serviço Militar. Tentei não servir, estava errado.

Mesmo negando o militarismo, abominando as ditaduras, rindo da ordem-unida, vejo o serviço militar como elemento agregador do civismo. Desde que voluntário e não intervencionista. O serviço militar obrigatório foi bandeira do poeta Olavo Bilac, do qual é patrono.

Eu morava na Casa do Estudante e já estava engajado no Movimento Estudantil, quando fui prestar o serviço militar. Com a prisão de Emmanuel Bezerra, Presidente da Casa, assumiu o vice-presidente. Eu era Diretor de Cultura.

Aberto o processo sucessório, fui indicado para disputar as eleições. A direita fugiu da disputa e eu fui candidato único.

Eleições no Domingo. No Sábado, eu estava de serviço, no Quartel. Pela manhã, troquei a farda de serviço pela de passeio e saí do alojamento em busca da Casa do Estudante, para votar e tornar-me Presidente daquela inesquecível instituição.

Quando ia passando pelo Corpo da Guarda, sou chamado pelo comandante do dia. Era o Tenente Pollari, da Bateria de Serviço. “Onde você estava”? Respondi que estava de serviço e de saída.

Ele disse: “Você num vai pra canto nenhum. Por ordem do QG, mandei agora mesmo uma patrulha buscá-lo na Casa do Estudante”. Argumentei: “Mas Tenente, tem eleição lá e eu sou o candidato”. Ele respondeu: “Tem eleição coisa nenhuma. O General já mandou suspender tudo e prender você”.

Pollari era um R-2, boa praça. Mandou que eu voltasse para o alojamento e de lá não saísse. Não me prenderia no Corpo da Guarda. Os outros comandantes, nos dias seguintes, fizeram o mesmo. Fiquei preso no alojamento, sem prestar serviço ou usar armas, até que houvesse nova eleição na Casa.

Fizeram nova eleição de gambiarra e foi eleito um presidente palatável ao QG, do general H. Duque Estrada. Após isso, me liberaram. De “perigoso” para presidir a Casa, voltei a ser recruta. Inclusive usando armas.

Tempo de licenciamento. Ocorre que tramitava, na Auditoria do Exército, em Recife, um processo contra vários estudantes, inclusive contra mim. Meu licenciamento foi adiado.

No Gabinete do Comandante do Regimento, Coronel T. Bertold Castelo Branco, fui ver a incineração da minha Carteira de Reservista, por conta da data nela contida. Tudo em posição de sentido.

Dezoito dias depois, fui licenciado. Ia saindo do quartel, quando vejo defronte do Cassino de Oficiais o Cap. Ibiapina. Batia com um bastão, que usava regularmente, no bico do coturno. Chamou-me. “Conselho e água só se dá a quem pede. Você não gosta do verde-oliva e ficou mais tempo do que seus companheiros. Vá cuidar da sua vida. Você não vai mudar nada, mas poderá estragá-la”.

Agradeci, cumprimentamo-nos e despedi-me.  Nunca mais o vi. Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 09/04/2017 - 10:52h

A continência de Bolsonaro

Por François Silvestre

Prestei serviço militar no Regimento de Obuses, ali no Bairro de Santos Reis. Cinco Baterias. Três de artilharia, uma de Comando e uma de Serviços. Fiquei na de serviços. A menos importante de todas.

A hierarquia se dá também pelo número. A bateria de Serviços era a última numerada. E eu tinha o último número. Soldado 930. Portanto, eu só assumiria o comando do Quartel se todos morressem.

Na minha bateria também ficaram alguns amigos. Rilke Santos, Jaime Aquino, Isaías Almeida, Carlos Caju, Eduardo Lamartine, Noronha, Pedro Araújo, Justino. Era tempo da Ditadura, fui recruta e preso político lá mesmo. Domingo contarei isso.

Um rapaz das Rocas, Soldado Costa, que fez concurso de Cabo e continuou no exército, era fotógrafo. Tenho em Cajuais da Serra uma foto dele comigo, que ele tirou armando a máquina numa pedra.

No dia que recebemos a farda, fomos à primeira formatura. Três fileiras de soldados. O tenente Campelo ordenou “direita volver” e ficamos de frente para o Comandante da Bateria, o Capitão Ibiapina. Um bigode enorme e carranca fechada. Recebeu o comando, fez uma preleção sobre o serviço militar e perguntou: “Algum de vocês não quer servir no Exército? Se houver que dê um passo à frente”.

Eu estava na primeira fila. Tinha ouvido, no alojamento, todo mundo dizer que não queria ficar no Exército. Pensei que todo mundo iria dar esse passo. E dei. Só eu.

O capitão perguntou meu nome e número. Depois, mandou que eu saísse da formatura e fosse esperá-lo na Sala do Comando. Quando ele entrou, eu fiquei todo empertigado, posição de sentido, morrendo de medo.

Ele disse: “Descansar. Você diz que não quer ficar e agora posa de soldado”. Riu e sentou-se. O medo diminuiu. Passou bom tempo explicando as vantagens do serviço militar. Conhecimento da disciplina, armamentos, educação cívica. Não falou de política. Nem eu.

Eu disse acreditar, mas precisava estudar, vinha de família pobre, de região carente. Ele respondeu que admirava minha sinceridade, mas não haveria dispensa. Esse episódio fez com que aquele homem temido passasse a me tratar com certa cordialidade.

Permitiu minha a frequência à faculdade, pela manhã, quando eu passei no vestibular, ainda no Exército.

Esse enchimento de linguiça foi para comentar a continência que Bolsonaro prestou ao Juiz Sérgio Moro. A continência é um cumprimento entre militares. Iniciativa do subalterno, com a mesma resposta do superior. Só se bate continência estando devidamente uniformizado. Se o superior estiver em trajes civis, responde com um aceno da cabeça.

Não se bate continência sem cobertura, quepe ou gorro. É uma saudação regrada, de natureza regimental. Todo militar sabe disso. Menos Bolsonaro, que não é civil nem militar. É apenas boçal. Boçalnário.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 02/04/2017 - 08:02h

O catador no monturo de esterco

Por François Silvestre

Uma obra que põe na boca de um adolescente imaginário inúmeras diatribes, injúrias e gozações, sobre tudo e quase nada, foi denominada por seu autor “O apanhador no campo de centeio”.

Não há campo, nem centeio, nem apanhador. J. D. Salinger não era mais adolescente, quando voltou à adolescência para escarrar na cara da hipocrisia. E como tal não precisou do campo posto no título. Nem do centeio, nem do apanhador.

Tudo no estuário exclusivo da reflexão. Numa fonte de jorrar imagens, aparentemente sem nexo. O mundo e suas paisagens, tendo o homem no centro delas, na visão pura e crítica de um jovem sem qualquer compromisso ou filiações.

A alienação intuitiva, desalienando para iluminar. Ou apagar luminosidades opacas.

Foi um tempo ingênuo, em que o autor cuspiu no prato da bonança. Imagine se fosse hoje. A ingenuidade cedeu lugar à pilantragem. A Inteligência foi vencida pela esperteza.

A depressão ocupou o espaço da melancolia. E a saudade foi desancada pela nostalgia. Tempos de burrice humana, com o pensamento substituído pela programação.

Basta programar no computador e não perder tempo no pensar. E se o computador não souber descobrir as veredas do existencial ou explicar a trilha, tropeça-se na ignorância.

Pra que pesquisar se tudo está devidamente inexplicável? Ou pensar, se o pensamento custa o gasto do tempo à desnecessidade de refletir? Aposenta-se a mente, aprisiona-se a razão e entrega-se a chave do cárcere à primeira mentira que passar.

A estupidez semeia no meio do monturo. E a colheita do esterco oferece-se ante a luminosidade do eletrônico. A rima com histriônico não será mera coincidência.

Teria dito, mais ou menos assim, o personagem adolescente de Salinger: “Até achei bom o invento da bomba atômica. Se houver outra guerra, juro por Deus que sentarei o rabo sobre a bomba… e tudo”.

O adolescente de hoje, imitaria: “foi bom terem inventado essas bombas, vou amarrá-las em torno de mim e explodir pessoas… e nada”.

O personagem de Salinger: “As pessoas estão sempre batendo palmas para o erro… e tudo”. O de hoje: “Preciso errar muito para ser aplaudido… e nada”.

O personagem de Salinger: “Fico imaginado um bando de crianças brincando num campo de centeio, só eu de adulto, para salvá-los do abismo… Apanhando cada um que vai cair, pois sou apenas um apanhador no campo de centeio… e tudo”.

O personagem de hoje: “Se eu soubesse imaginar, o que é imaginar? Pensaria num bando de garotos e garotas no esterco de um monturo, com todos caindo no lambuzar-se do excremento… Eu ficaria onde estava ou me lambuzaria junto, rindo deles e de mim, jogando mais esterco na cara deles… e tudo”.

“Sou o maior mentiroso do mundo”. Diz o de Salinger.  O de hoje: “Eu não minto. Sou burro assim mesmo”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 19/03/2017 - 08:32h

Aos setenta

Por François Silvestre

A década dos anos Sessenta começava; início da adolescência, inocência e sonhos. O caminhão de mangaio de seu Tonheiro, apanhado em Olho d’água, levando-me para a primeira janela que o mundo me oferecia, cujos olhos alcançavam, até então, as estepes humildes de Viçosa. E a Serra do Martins, meus Andes possíveis.

A me perguntar, sobre a duração da vida, naquela época, eu me responderia não chegar aos Cinquenta. Dos meus dois pais, o de mesmo e o adotivo, nenhum chegou a essa idade. O que viveu mais, contou quarenta e nove. O outro, quarenta e três.

A primeira janela para o desconhecido foi o alumbramento. Na carroceria do velho mangaieiro, atravessamos a ponte do rio Barra Nova, recepção à entrada de Caicó.

Destino? O Ginásio Diocesano Seridoense, depois denominado Colégio, nome ainda hoje preservado. No GDS a experiência primeira de dormir de cama, ainda hoje prefiro rede. O bebedouro coletivo, com torneiras saindo de uma parede. Ainda hoje prefiro copos. E banho de chuveiro, substituindo a cuia e o tanque. Neste caso, sem saudade dos tanques. Viva o chuveiro.

Cinco anos de internato, onde fiz amizades preservadas até hoje. Muitos desses amigos vejo raramente. Mas estão sempre, vez outra, aboletando-se nos cômodos da memória.

Professores e colegas. Padres e leigos. Um Colégio dirigido por religiosos democratas. E estudiosos. Ali comecei a cultivar o agnosticismo, talvez pelo motivo dessa relação não opressiva. Guardávamos o direito ao livre pensar. Mantenho por aqueles padres e pelos professores leigos, alguns já falecidos, a deferência suave da gratidão.

Uma casa de estudos, orações e descobertas. Um claustro sem paredes e sem grades. A liberdade posta com restrições sem muros.

Depois, foi a Casa do Estudante, em Natal. Tudo completamente diferente, sem muita diferença. Cada um naquele pardieiro era dono dos seus limites. Sob a sombra frondosa de generosas árvores da pequenina Praça, meia ladeira do Paço da Pátria.

E depois o mundo. A luta do movimento estudantil, que a generosidade dos moços cobra e oferece a oportunidade de ser útil. A utilidade de ser contra. Inesgotável capacidade humana de ser humano. Tendo como justificativa a bandeira da liberdade. E quem não se arrisca ao sonho dela, não merece ser livre. Ou será livre devendo uma conta à história. Seja por ter colaborado com a sombra ou por não ter acendido uma chama.

Chego, pois, aos setenta anos. Nunca pensei ser possível. Mas aqui estou e acho muito pouco tempo. Quero mais. Muito mais. Quero ver os amigos envelhecerem comigo. Ver os netos crescerem. Perturbar o sossego das mulecas.

Viver a exuberante geografia do Brasil. A beleza de sua cultura popular. E essa democracia beiçola de tabaco, estabelecida, que se desestabeleça. Por outra Democracia, nunca por outra ditadura.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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domingo - 12/03/2017 - 09:10h

Qual regime?

Por François Silvestre

O Brasil é capitalista? É socialista? Ou é tico-tico no fubá? Dezenas de partidos, inúteis e desnecessários na grande maioria, esbanjam denominações a todos os gostos. Tem nome pra tudo. E “programas” que nem os filiados conhecem. Nem os eleitos, dos partidos chamados grandes, conhecem os programas dos seus partidos.

Não conhecem nem têm preocupação no cumprimento desses programas. São estatutos de letras mortas. Ou melhor, natimortas. Já nasceram pra não serem lidas.

Vejamos. São princípios basilares do capitalismo a valorização do indivíduo, a livre iniciativa, o direito à propriedade, o direito à privacidade, a segurança pessoal, a inviolabilidade da moradia e do patrimônio.

Pergunto. Esses princípios são preservados e efetivados no Brasil? Se a resposta é negativa, não somos capitalistas.

Outro lado. São princípios basilares do socialismo a igualdade de acesso aos bens públicos, valorização e prevalência do coletivo sobre o individual, a inexistência de exploração do trabalhador, a representatividade social sob controle da justiça econômica, e o Estado como árbitro das relações em sociedade no apaziguamento de conflitos e na redução do acúmulo de riquezas entre poucos, diminuindo as distâncias entre remunerações gigantescas e salários de miséria.

Pergunto. Esses parâmetros são observados no Brasil? Se a resposta é negativa, não somos socialistas.

São defeitos sistêmicos do capitalismo a exploração do trabalho do hipossuficiente, a distância remuneratória entre castas e trabalhadores não corporativados, a ganância que atrofia a emulação entre os fracos, protegendo os fortes, a prevalência do egoísmo sobre a solidariedade.

Essas condições se aplicam ao Brasil? Se a resposta for positiva, nós somos capitalistas.

São defeitos históricos do socialismo o atrofiamento do indivíduo diante de um Estado impessoal e tirano, da despersonalização individual diante de uma abstração chamada povo, que nunca se materializa na figura da pessoa, pois ela só existe para justificar o Estado.

Isso ocorre no Brasil? Se a resposta for positiva, nós somos socialistas.

Finalmente o que nós somos? Não somos capitalistas no que há de bom no capitalismo nem somos socialistas no que há de louvável no socialismo.

Somos capitalistas no que há de mais cruel no capitalismo e socialistas no que o socialismo tem de mais execrável.

Híbrido na ruindade. Hermafrodita econômico, com dois sexos servindo a um monstro eunuco. Em que a reprodução é nula nos benefícios e fecunda nos malefícios.

Seria essa constatação uma adesão ao pessimismo? Uma pá de adubo na cova da depressão? Não.

É apenas e tão somente a imagem que um surrado daguerreótipo consegue registrar no meio do tumulto.

Ou o Brasil se refaz ou sangra. Só a refeitura estancará a sangria.

Té mais.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 05/03/2017 - 09:32h

A nostalgia da direita no velório da esquerda

Por François Silvestre

O Brasil foi laboratório de uma experiência excepcional. Tão estranha quanto previsível. Posto que no Pindorama dos Tupis todo o inexplicável se explica. E o devidamente explicado repousa na bacia do que não tem explicação.

Não no tempo dos silvícolas. Porém,  nos tempos seguintes após a chegada da corte portuguesa, esquerda e direita cumpriam regras náuticas. Posto que a circunavegação é anterior à classificação de direita e esquerda, na limitação política. Quando muito, de cada caravela a boreste ou a bombordo. Boreste substituiu o estibordo, para evitar confusão de sonoridade, ao grito de comando, ainda na guerra náutica do Paraguai.

Esquerda e Direita ganharam forma de conceituações ideológicas a partir das posições tomadas pelas bancadas na Assembleia Nacional da França, quando os conservadores se postavam à direita da Mesa e os revolucionários ou progressistas tomavam assento à sua esquerda.

Ao correr do tempo, como as nuvens, mudaram posições políticas e sentidos semânticos. Inúmeras configurações e variados matizes de natureza ideológica se postaram entre as duas denominações.

Tudo ao sabor do oportunismo ou do discurso farsante que costuma modelar o comportamento dos que buscam ou abiscoitam o poder.

Das posições moderadas ao extremismo mais brutal, tudo já se viu dando feição ou adjetivando partidos, movimentos e até revoluções. Não há limites ao embuste, quando o fim é o domínio.

A Alemanha Oriental, soviética, chamava-se democrática, sem democracia. O Nazismo chamava-se Nacional Socialismo, sem ser socialista.

Lacerda, que fora comunista e virara símbolo do anticomunismo, disse no seu Depoimento, em livro, que a Esquerda para ele era o lado generoso da política. Mas acentuou que rompera com o Comunismo porque essa doutrina, na prática, traíra o compromisso histórico.

Ao ajudar no aniquilamento do getulismo, Lacerda cavou a própria cova. Ele só interessava aos milicos politicados e à direita empresarial enquanto os sucessores de Getúlio estivessem no poder. Aniquilados Juscelino e Jango, a direita descartou Lacerda.

Agora, há um fenômeno parecido. A direita só tinha discurso com a esquerda no poder. Destruir o petismo foi o erro lacerdiano da direita, no Brasil atual. Perdeu a razão de ser. E já começa a choramingar a perda irreparável.

Nenhum governo da nossa historia foi tão generoso com a direita quanto o petismo. Nenhum.

O governo da esquerda foi bondoso com os desvalidos distribuindo prebendas, que os retiraram temporariamente do estuário da miséria. Mas foi generosíssimo com a direita empresarial; empreiteiros, banqueiros e publicidade.

Nunca tantos ricos ficaram tão ricos. Dinheiro muito, independentemente da licitude ou não. Resta à Direita, nostalgicamente, carpideirar no velório da Esquerda.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 19/02/2017 - 08:54h

Necessidade da origem

Por François Silvestre

Deslocar um objeto para trás, no passado, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. E seguidas tão longe quanto possível, na busca das suas origens, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo.

A assertiva de Teilhard de Chardin vai muito além das fronteiras da biologia ou da antropologia. Há uma necessidade de procurar, perquirir e saber quem somos. E nessa busca, se possível, atingir o “de onde viemos”.

Deixando de lado a questão maior, da evolução ou criação, quero tratar do mais simples. Da origem que cada pessoa na busca de si mesma, da sua genealogia. Como se fosse a procura de uma casa ou abrigo no ontem de cada um.

Daí que há sempre, felizmente, quem busca informações sobre a própria genealogia. Isso não é pedantismo ou orgulho étnico. Muito pelo contrário, é uma necessidade pessoal. Uma vaidade sadia.

E quanto mais longe, no passado, viaja essa busca maior a chance de aproximar-se dos seus elementos mais simples. Do seu estofo pessoal. Dos laços mais longínquos que sustentam as primeiras e últimas fibras do seu umbigo.

Esteja esse cordão umbilical perdido num monturo de maternidade, na cidade grande, ou ao pé de um morão de um antigo e abandonado curral. Numa fazenda que só pastora lembranças.

Necessário pra quê? A resposta é que deu Ernst Fischer sobre a necessidade da arte. É necessária; não sei pra que, mas é.

Ele conta sobre um costume dos índios do Xingu. O indígena pinta a panela de barro, com belos desenhos. Ao levá-la à primeira fervura, o fogo desmancha a pintura. E fica só a mancha preta no barro. Ele sabe disso, mas não põe a panela na trempe sem pintá-la.

Não há explicação pra essa necessidade. É necessário e só. Como a necessidade da navegação dos aventureiros fenícios, que pela escassez de tempo à reflexão e pressa na comunicação inventaram as consoantes. Mesmo com o genial invento, navegar para eles era mais necessário do que juntar símbolos gráficos na evolução da linguagem.

Viveram do necessário, sem o saber, e inventaram o fundamental, sabendo muito bem. A linguagem nunca mais foi a mesma, no mundo ocidental. De sua sabedoria os poetas repetiram os versos que navegam a poesia. “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Porém, não se confunda necessidade da origem com a origem da necessidade. Dessa hereditariedade consagrada na nossa capitania.

Para saber a origem de alguns encargos, nos cargos dos diversos escalões, basta ver o sobrenome. Entre eleitos ou nomeados. Nós que elegemos sabemos da nossa origem deserdada.

Os eleitos, de origem nobiliárquica, repetem Giovanni Lorenzo di Médici, o Papa Leão X: “Deus nos deu o papado, vamos aproveitar”. Convocou os nepotes.

Aqui, de Santa Luzia ao Sal, o Papa Leão é o Diário Oficial.

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* Texto originalmente publicado no Novo Jornal hoje.

François Silvestre é escritor

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terça-feira - 14/02/2017 - 12:25h
Chuvas e assoreamento

Boa notícia? Nem tanto

Por François Silvestre

Chove e muito por aqui. De forma irregular, pois não se tem confiança na continuação com regularidade. Mas choveu bem, nos dois últimos dias.

Vários açudes sangraram. É boa notícia? Nem tanto.

Muitos sangraram rapidamente porque estão assoreados. Aterrados. Com o porão rente à base da parede. Cinco anos de seca nas nuvens e nas ações do poder público. E no descaso de fazendeiros, se é que ainda exita esse bicho.

Ninguém teve a preocupação de refazer os porões dos açudes, apesar da cobrança. Cavação com trator, jogando o material retirado para o lado a jusante da parede.

Refazia a capacidade de armazenamento e reforçaria a parede. Simples assim.

Isso foi cobrado insistentemente, mas em vão. Estão enchendo e secarão logo.

Fazer o quê? A deseducação é a mãe da burrice.

Nota do Blog Carlos Santos – Conversava hoje pela manhã com amigos, justamente sobre isso. Atentávamos para o detalhe de que muitos reservatórios logo tinham sangrado, justamente pelo assoreamento e não porque as chuvas tenham sido desmedidas.

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domingo - 12/02/2017 - 08:22h

Queto do Anacleto

Por François Silvestre

Passado nos anos, está quase cego. Mas vê distante. Principalmente com os olhos da memória, que não se embaçam nem se perdem nas águas inexistentes da catarata.

Seu nome repete o nome do pai. O que se fez resumir pelo som mais próximo. Anacleto virou Queto, pela dificuldade que tinha sua avó na pronúncia do “éle” depois da consoante. O que seria Cleto é Queto.

E assim ficou: Queto de Anacleto de Silecina. Carregava, portando, no próprio nome, os nomes agregados do pai e da avó.

Mora numa casa quase perdida entre o riacho dos Dormentes e a serra do Bonsucesso. De alvenaria, apenas o quarto de dormir e a cozinha. Corredor e sala, de taipa; latada coberta com palmas de carnaúba.

Fui visitá-lo num Domingo de tarde modorrenta, a esperar as chuvas prometidas pelos meteorologistas. O caminho quase desapareceu. O carro foi deixado na subida da ladeira de Portalegre, no antigo sítio de Rodolfo Mafaldo.

Queto estava quieto, sentado num tôco de quixabeira sob a sombra de sua latada. Usa óculos borrados, mais por hábito do que por serventia.

“Chegue-se mais perto, de longe só vejo pelos ouvidos”. Ao me apresentar, ele levantou-se. “Ora, ora. És vosmicê mermo”? Queto só fala “errado” quando quer. Teve instrução média e leitura boa, por conta de sua convivência com Padre Mário, velho pároco de Portalegre. Anos Cinquenta e Sessenta.

Naquela Matriz Queto era um faz tudo. De manutenção a ajudante de missas. Que ele ainda recita em latim.

Passou a mão no meu rosto e explicou: “Quero ver se ainda usa barba”. Depois, sentou e mandou que eu fizesse o mesmo.

Apoiava-se na bengala alisada pelo tempo, uma vergôntea de mofumbo. Conversamos sobre as “novidades”, que ele ignora. “Nem sei quem é o prefeito, Vosmicê sabe”?

Perguntei sobre a saúde. Ele riu: “A minha ou a do povo”? Quis saber dele. A do povo, ora, que saúde? Ele começou pela idade. “Preste tento. Véi num tem saúde, tem mantença. Ajeita daqui, remenda dali, pra continuar a ilusão da vida”.

Descobri que ele não vai à farmácia. Mantém o mesmo hábito do seu avô materno, que foi “médico” popular. Para problemas de respiração, chá de raiz da ipepaconha. Fortalece os ossos com mastruz no leite. Leite da cria de suas cabras. Quando a urina escasseia, toma infusão de velame com raiz de quebra-pedra.

Na agitação, chá de capim-santo; calmante, que ajuda a dormir. Afina o sangue com a batata de purgar. E chá de canela para controle da pressão. Quando o esôfago se irrita, ao tomar umas biritas, tira a ressaca com chá de fedegoso. Escova os dentes com raspa de juá. Na febre, infusão de eucalipto. Ao ferir-se, tintura de jucá.

Pergunto sobre o tempo. Ele tira os óculos, como se servissem para alguma coisa, e responde: “Meu filho, parece que até as plantas e os bichos se esqueceram do que sabiam”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
quarta-feira - 08/02/2017 - 14:18h
Inflação

Foguetões para a mentira

Por François Silvestre

O governo federal comemora com foguetões e fanfarra a “inflação” baixa de janeiro.

Patifes.

Como haver inflação na recessão? Desemprego crescente, consumo declinante, inflação de quê?

Custo de vida Altíssimo. Tudo caro, mas a “inflação” é medida com artimanhas e números mentirosos.

Terminou o “progresso” da esmola, com o PT  e os aliados de ontem que tomaram o poder, e começou o “desenvolvimento” da mentira.

No meio dessa merda, a população, que não é petista nem tucana/peemedebista, é apenas sofrida e roubada por esses cretinos e pelas castas que fiscalizam também de mentira.

Tudo rico, no assalto aos cofres públicos, seja pela corrupção ou pelos contracheques desavergonhadamente inchados de mumunhas e privilégios.

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terça-feira - 07/02/2017 - 22:21h
Articulista

Paulo Linhares no Blog Carlos Santos

Paulo: no time

O advogado Paulo Linhares vai passar a compor nosso timaço de articulistas dominicais.

Escreverá sobre que assunto?

Qualquer coisa que for pertinente à sua massa cinzenta privilegiada.

Outros reforços virão ainda se juntar a Honório de Medeiros, Carlos Duarte, Marcos Pinto, Francisco Edilson Leite Pinto Júnior (que está em falta e será chamado aos ‘carreteis’), Gutemberg Dias, François Silvestre, David Leite etc.

Aguarde.

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