domingo - 15/03/2026 - 03:18h

Drama antigo

Por Marcos Ferreira 

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Certo dia, isto há mais ou menos um mês ou um pouco além, tive a infelicidade de ver um desses vídeos que se propagam na internet, tornam-se “virais”, eis a palavra da moda e também a mais apropriada. Com um aparelho celular, vejam só, alguém gravou de dentro de um carro uma pessoa (não sei até que ponto posso dizer que se trata de ser humano) que acabara de abandonar um cão à margem de uma estrada.

O sujeito pegou o seu automóvel e partiu sem a menor piedade, sem compaixão alguma. Pura malvadeza! O pobre do animal, aflito, usando todas as suas forças, saiu na carreira tentando alcançar aquele elemento insensível, mau-caráter.

Fiquei arrasado com aquela imagem, o cachorro correndo desesperadamente, perseguindo o veículo de seu desalmado dono durante não sei quanto tempo. Não me agrada ver ou tomar conhecimento de ações desse tipo. Prefiro não saber. É que dói no coração, sabe? Um sentimento de impotência me machuca demais o espírito. Desvio a vista, por exemplo, quando no meu caminho me deparo com um animalzinho atropelado em algum ponto deste município, sobretudo gatos.

Houve um certo tempo em que muitas coisas me comoviam menos. Hoje em dia está tudo mudado. Tornei-me, como se costuma dizer, um tipo de manteiga. É isso, me derreto fácil perante ocorrências dessa espécie e de várias outras. No passado, repito, aquelas imagens naturalmente me tocavam, entretanto não como agora. Sinto bastante pena dos excluídos, de gente ou bichos, que vagam por esta urbe sem a proteção de ninguém, ao léu, desnorteados, no mais das vezes com fome e sede.

Está cada vez mais difícil fazer de conta que não temos nada a ver com isso. O número de animais de rua, de homens e mulheres rifados em toda parte é imenso.

Tenho a impressão, falando de modo realmente amplo, de que tivemos um coração melhor, menos frio, mais empático. Nos tempos atuais, apesar da carestia não ser tão abrangente como antes, quase toda a gente lava as mãos para a desgraça alheia; a ruína de nossos semelhantes e animais abandonados mundo afora. É mesmo uma pena que sejam tão poucos os que pratiquem a caridade.

Não é a primeira vez que escrevo acerca dessas coisas lamentáveis. Decerto há elementos que não gostam disso, acham que estou aqui sendo demagogo ou hipócrita. Querem (não todos) apenas historinhas felizes. Sim, um bom número de cidadãos não curte essa temática, espera-se ler unicamente um conteúdo positivo, deseja-se acessar o blogue no domingo e se deparar com textos ricos em otimismo e narrativas brandas. Nada de queixumes, nada de cenas tristes do dia a dia. Essas almas empedernidas, tão calorosas quanto uma pedra de mármore, estão mais a fim é de, volto a dizer, amenidades, relatos edificantes, sem notícias melancólicas.

Não vou me alongar nesta temática soturna, incômoda. No entanto fico na torcida, na esperança de que aquele cachorro rejeitado tenha descoberto em algum lugar um tutor sensível, pessoa de coração gentil, caridosa. E que São Francisco de Assis, santo padroeiro dos animais e da natureza, oferte alguma proteção a esses bichinhos desamparados, sem acolhida, que vivem ao deus-dará.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 08/03/2026 - 03:50h

Pequeno manual para se escrever uma crônica

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Agora vejo que a semana expirou. A labirintite, um tanto de esquecimento e outro de preguiça findaram por prejudicar o envio de meu texto para o BCSBlog Carlos Santos. Não bastasse, nocauteado pelos antipsicóticos, hoje só me acordei às nove e quinze da madrugada. É dia 6 de março. Noite veloz. Há pouco eu estava no mercado fazendo umas compras, gêneros alimentícios, quando súbito ouço um bipe. Peguei o telefone. Meu editor (lacônico) havia deixado uma mensagem no WhatsApp me cobrando a fatura.

Foi só aí que esta tarefa me veio à lembrança. “Mais tarde eu mando”, respondi também de modo telegráfico. Sendo franco, não tenho muita convicção disso: tirar da cartola algo dessa ordem assim, em cima da hora. Às sextas, tipo uma poção mágica, é o dia que tacitamente estabelecemos como prazo. Meu laboratório de escrita possui umas fórmulas pouco criativas quanto surradas.

Não tenho, ao contrário de Otto Lara Resende, redação fluente. Escrevo deveras a custo; inicio um parágrafo e por vezes fico sem o que dizer no período seguinte. Quem sabe este pequeno manual para se escrever uma crônica seja útil a alguém. Vou me afundando no lugar-comum, e a necessidade de produzir literatura de qualidade ao menos razoável descamba para o brejo. Estou às voltas com um exercício autopunitivo e sigo tocando esta barca furada a duras penas.

Nem tudo, entretanto, é só engodo e fracasso. É possível, embora apresentando um recurso batido, repisado, avançar no manejo desta sopa de letrinhas. O sabor é de fato ruim, todavia o caldo pode se tornar nutritivo. Claro que ninguém é forçado ou manipulado a consumir este miojo pouco substancial, inapetente. No que se refere ao improviso, contudo, desconfio de que o resultado será exitoso.

Porque uma narrativa deste naipe pode ser elaborada com boa quantidade de rodeios e delongas. Indivíduos de alto coturno no universo das letras passaram e passam por esse tipo de aperto e quase todos, para não faltarem aos seus espaços culturais, optaram por esta velha receita de escrever sobre a falta do que escrever. Então, conforme mencionei algumas linhas atrás, essa malandragem inócua vai devagarinho ganhando peso.

Estou, podem crer no que lhes digo, resignado para receber uma chuva de canivetes. Dou a cara à tapa sem ressentimento algum. Fico imaginando o semblante do solene editor deste blogue diante da minha artimanha palavrosa. O que dirão (ou tão só farão vista grossa) determinados habitantes deste ilustrado recinto de opinião e cultura? Tenho para mim que, no mínimo, devem exibir um ar de decepção. Não lhes condeno os resmungos ou apenas o silêncio. Fazer o quê?! Depois de todo este circunlóquio, após um nariz de cera sem tamanho, posso assegurar que já escrevi algumas coisas bem piores. O que sempre me incomoda é requentar o pão.

Entrementes, assim maculando a pureza desta página, noto que sobrevivi à complexidade da missão: fugir da guilhotina. Meus colegas de blogue (alguns nunca vi mais gordos) podem perfeitamente concluir que sou um escriba de menor estatura, de cabedal nitidamente limitado. Não reúno, por exemplo, o misto de erudição e didática do escritor e causídico Marcos Araújo, meu xará, que é mais difícil de se ver do que um político reeleito.

Existe também, entre outros, a mansuetude cativante do cronista Odemirton Filho. Quanto ao meu tiquinho de leitores, cujos nomes prefiro não citar, de modo a não cometer o pecado da omissão, conto com a tolerância e o carinho deles. Isso não é pouca coisa. Classifico esse tratamento ou indulgência para comigo como um grande privilégio, um voto de confiança de especial nobreza.

De resto, para aqueles que padecem com a falta de assunto, de inspiração, recomendo que não se desesperem. Tomem um gole de café e, por que não, façam uso deste pequeno manual para se escrever uma crônica. Não têm nada a perder. Talvez isto dê certo e lhes salve o pescoço da guilhotina.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 01/03/2026 - 06:48h

Lições de vida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Acredito que se passaram três semanas, senão um mês ou mais, que uma passarinha colorida começou a construir um ninho com pequenos ramos de mato seco no recanto de duas linhas de madeira apoiadas sobre uma coluna de minha área de serviço. Achei que fosse desistir da empreitada, o mato estava caindo com frequência. Mas, graças aos recursos da natureza, ela superou as dificuldades e o ninho ficou pronto. Ali depositou três ovinhos.

Desde então, toda vez que olho para o local, lá está a pequena ave fiel ao seu propósito de chocar os ovos. Não sei como faz para adquirir meios para manter a si própria, como adquirir comida e água. Porque sempre a vejo acomodada em seu ninho, empenhada em sua obstinação materna.

Daí para cá tenho evitado movimentos bruscos no terraço, a fim de não assustar a avezinha e fazer com que ela saia momentaneamente do local. Porque isso já aconteceu algumas vezes, na fase de construção da estrutura. À noite, quando necessário, acendo a luz da área de serviço durante o menor tempo possível, isso para que a claridade não incomode esta que em breve terá filhotes.

Admito que me preocupo com a chegada dos rebentos que estão (quem sabe) prestes a quebrar a casquinha dos ovos. Temo que algum desabe enquanto a mãe estiver fora, em busca de alimento para si e as suas crias. Receio ainda que, no caso de algum cair, Juju abocanhe o recém-nascido, mesmo que não tenha a intenção de comer o passarinho implume. Juju ainda é uma cadelinha muito nova, cheia de infantilidade e desastrada. Receio que machuque ou mate a ave. Seria uma fatalidade ante a qual me vejo impotente, sem meios de evitar a queda e os dentinhos de Juju. Torço para que nenhum dos seres alados despenque de sua morada provisória.

Considero admirável demais a tenacidade e zelo com que a passarinha se mantém ali cuidando da minúscula e precária habitação por ela construída de forma intuitiva, instintiva. Deduzo que seja esta a primeira vez que se empenhou nesse desafio, possivelmente se alimentando mal e também passando sede. É muita pureza de instinto, amor desmedido dessa mãe à espera de seus filhos.

Isso tudo me recorda uma história por demais triste e dramática que ouvi narrada por uma de minhas vizinhas na calçada onde nos reunimos com cadeiras para falar um pouco da vida alheia do final da tarde até certo horário da noite. Sim, tratamos um pouco sobre a vida de terceiros, que ninguém é de ferro. Não recordo a fonte de onde a senhora Cilene Freitas (eis o nome da vizinha) obteve esta informação: uma jovem mãe, com aproximadamente catorze ou quinze anos, vendeu o filho com apenas três meses de idade em uma boca de fumo. Corajosa, a avó interveio, enfrentou os marginais e recuperou o neto. Maldito vício (precisamente o crack) que faz com que uma dependente química troque sua criancinha por esse tipo de droga.

Enquanto isso, com amor, pertinácia, e sem dependência em nenhuma espécie de substância, a ave que se aninhou no meu terraço aguarda pacientemente a chegada dos seus nascituros. É admirável o quanto esses seres ditos irracionais nos dão certas lições de vida. Fico aqui esperando os filhotes. De alguma maneira me sinto responsável pela segurança e o bem-estar dessas criaturinhas.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 22/02/2026 - 05:24h

Confortável quietude

Por Marcos Ferreira

Local de escrita (Foto elaborada pelo autor da crônica)

Local de escrita (Foto elaborada pelo autor da crônica)

Agora dou início a esta página exatamente no dia 21 de fevereiro deste beligerante 2026. São quinze horas e vinte e dois minutos de um sábado com o maior jeitão de domingo. É o que eu acho. Quase não se escuta um veículo cruzando esta periférica Euclides Deocleciano, aqui no Conjunto Walfredo Gurgel. Alguém há de dizer, e está coberto de razão, que falo demais acerca de meu endereço nestas surradas crônicas que apresento dominicalmente neste espaço de opinião e cultura. O leitor e escritor Luiz Soares Filho, por exemplo, já me alertou sobre esse detalhe.

Há pouco, embora sofrendo com a coluna e convalescendo de uma forte crise de labirintite, concluí a faxina deste domicílio. Uma sensação por demais amena. Vejo-me curtindo um ócio criativo; o banho afugentou quase a totalidade da fadiga. Usufruo do bem-estar de me ver nesta casa limpinha. Banalidade que me propicia ânimo para tocar esta página cujo rumo ainda não sei qual será. Imagino que, de um modo ou de outro, algo de interessante restará. Embora com o corpo meio cansado, repito, desfruto de um agradável estado de espírito. Não preciso de nada de muito valor (como uma vultosa quantia na conta-corrente) para me sentir à vontade, em paz e, como se pode perceber, motivado para produzir, aos pouquinhos, estas linhas um tanto prolixas. Trata-se, a meu ver, de uma receitinha tipicamente caseira.

Acho que é isto. Falo tão somente com meus botões, de mim para comigo. É como pretendo que seja a minha narrativa: serena, pacífica. Nenhuma vírgula acerca de política. Um texto leve e escorreito como uma crônica de Odemirton Filho. Pois é, a escrita de Odemirton é uma seda. Deixemos, enfim, a política de lado. E reparem que têm surgido, há mais ou menos duas semanas, certas novidades nesse mundaréu dos homens e mulheres públicos. Em especial no tocante às diatribes do senhor Trump. Mas nada que o tempo não se encarregue de resolver. Ele, assim como os outros, passará. Não desejo, portanto, me ocupar com os assuntos da hora e da moda. Fico com este relato tão quente e revoltoso quanto uma pedra de gelo. Não me disponho a cutucar os engravatados. Há muita gente versada, pronta e afoita para tal expediente.

Gosto dessa confortável quietude, do remanso que permeia este meu recinto. Juju, após se divertir com seus brinquedos de borracha e correr à beça para um lado e outro, encontra-se tirando um cochilo no meio da sala. Estou satisfeito com a felicidade que Juju expõe nesses instantes de lazer e energia. Às vezes, cheia de autoridade, ela se põe a latir quando avista um felino cruzando o muro.

Neste minuto a paz reina absoluta. Ouço mais claramente apenas o barulhinho do teclado. Pedaço de tarde bem tranquilo, quieto como se fora meia-noite, madrugada. Algo assim raro. Silêncio (nesses caminhos velozes e agônicos que percorremos) não é nada comum. Isso me recorda o meu livrinho de versos “A Hora Azul do Silêncio”, trabalho que, em grande parte, foi gestado a horas mortas, nas propícias quietudes daqueles remotos meses do ano de 2005. Nossa! Lá se foram vinte e um anos. Por falar nisso, instigado por alguns amigos, talvez eu traga a lume até dezembro próximo uma de minhas obras de ficção confinadas nas entranhas do computador. Pois é. Não lanço uma obra há décadas. É que autopublicação custa uma grana alta.

Neste minuto, enfim, dou esta conversa por concluída. Suponho que cumpri o desafio de produzir mais um relato pretensamente literário neste blogue. Ao menos no meu universo, que vem a ser o País de Mossoró. Aqui, com raras exceções, encontra-se reunida minha dúzia ou um pouco mais de leitores.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 15/02/2026 - 04:16h

Quando menos esperamos

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Transitória. Fugaz. Assim é a vida. Então é preciso viver cada dia com a maior intensidade. Como se diz popularmente, não deixemos para amanhã (ou depois de amanhã) o que podemos fazer hoje. De repente, quando menos esperamos, a gente se depara com a notícia de alguém que, de maneira natural ou trágica, despediu-se deste plano físico, terreno. Pois é. Nunca sabemos, não fazemos ideia de qual será o dia de cerrarmos os olhos para sempre. Aproveitemos o agora ao máximo. Ainda que esse máximo signifique boas horas de simples repouso, ou ócio criativo. Mas abracemos aquele amigo (decerto no plural) enquanto podemos. Não aprontamos as malas, entretanto, como é de praxe, o nosso passaporte já está carimbado.

Sei, e isto é uma grande obviedade, que estou chovendo no molhado. Não há nada de novo na minha advertência, nesta página carregada de uma saudade recorrente. Todos temos ciência disso. Espero que minhas palavras tenham ao menos o valor de um lembrete, de um carinhoso puxãozinho de orelha. Recordo-me de que outro dia meu xará Marcos Araújo escreveu acerca da frieza contida nessas figurinhas abreviadoras do WhatsApp. Ou seja, eliminamos até as palavras, uma mensagem de texto concisa, curtinha. Estamos sempre tão apressados, tão cheios de afazeres, de compromissos, sem tempo para abraçar familiares e indivíduos que estimamos. Vamos nos contentando só com os aplicativos das redes sociais. Sem calor humano.

Tenho amigos que vez por outra me dizem algo desse tipo: “Hoje eu vou tomar aquele cafezinho com você.” Depois de alguns minutos ou horas, porém, enviam uma mensagem de áudio ou texto desmarcando o encontro. Porque, segundo justificam, surgiu um imprevisto, qualquer coisa mais importante, urgente, certa situação impeditiva. Aí me sinto um tanto frustrado. Pois não raro dou uma arrumada na casa, mesmo às pressas. Removo a poeira fininha da mesa, deixo-a limpa; preparo as xícaras e canecas para receber a visita muito bem-vinda. Há ocasiões em que mais de um amigo se compromete para comparecer a esta Casa Branca da Euclides Deocleciano, 32, aqui no periférico Walfredo Gurgel. Todavia, por motivo justo, não vêm.

Assim, por uma razão ou por outra, postergamos o abraço afetuoso, o bate-papo leve, descontraído. Apesar disso, da ausência de pessoas às quais quero bem, tenho plena certeza de que estamos conectados, embora à distância. Sei que a nossa amizade é sólida e benéfica não só de corpo presente. É verdadeira, edificante. Contudo, volto a dizer, nossa existência é imprevisível. Vivemos sob a ameaça da Moça da Foice. Está à espreita, de tocaia. Súbito, implacável, sem pena, sem dó, a Indesejada nos alcança, põe termo aos nossos planos, intenções, projetos, sonhos. Vou ficando por aqui. A reflexão está exposta. Torço que nos reencontremos em breve. Antes que a cortina do palco da vida desabe, desça em definitivo. Aí será tarde demais.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 08/02/2026 - 03:30h

Fim da Linha

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Passaram-se mais de dez anos, talvez uns quinze, sem que me veja acometido por uma clássica dor de cotovelos. Dor de amor, roedeira, se me faço entender. Sim. Às vezes a mulher, ou o homem, chega para o outro ou a outra e diz solenemente, com aquela cara de que não se trata de coisa boa: “Precisamos ter uma conversa.” Aí bate logo um gelo, um friozinho na barriga. O sangue nos foge das faces. Em seguida, conforme desconfiamos, o assunto é mesmo de alta gravidade.

A pessoa nos olha com expressão de pena, as palavras custam a sair, mas enfim desembucha, põe tudo às claras. Não dá. Decidiu que o relacionamento não tem mais sentido algum, que é preciso colocar um ponto final. Acabou o amor. Pede desculpas, mas sustenta que é melhor assim. O olhar se desvia com frequência. Exibe dificuldade de nos encarar. Trata-se de algo muito difícil para se dizer e também de se ouvir. O cara ou a fulana desmorona intimamente. Perde-se o chão. A partir desse instante a pessoa rejeitada já começa a viver um luto devastador.

Não faz tempo escrevi a respeito dessa tragédia chamada separação. Volto a bater na mesma tecla porque tenho a desconfiança de que deixei de abordar certos pontos. Há alguns meses três casais com quem tenho afinidade romperam a relação. E nos três casos foram as mulheres que decidiram terminar.

Não é mole. Principalmente quando o lado excluído da vida de quem rompe nutre absoluto amor por quem optou pelo desquite, divórcio, etc. O coração fica em frangalhos. Não tem jeito. Nenhum argumento é acatado pela criatura que está nos largando. Pior ainda quando a pessoa vítima do desamor precisa juntar o que lhe pertence, os objetos pessoais, e deixar a residência. É isso. Na maioria dos casos é o homem que tem que pegar a porta da rua. O tipo, emocionalmente falando, fica ao rés do chão. Sente-se desimportante como o cocô do cavalo do bandido.

Em nenhum dos três casos o sujeito foi trocado por outro. Não. As mulheres apenas chegaram para os ex-maridos e comunicaram que o motivo do rompimento foi simplesmente porque não gostam mais deles.

De um modo ou de outro, digo com propriedade, a rejeição machuca, fere o peito e a alma. Isso me lembra uma música do Chico Buarque chamada “Atrás da porta”. Como diz a letra, o camarada fica sem acreditar. Insiste na argumentação, rasteja, pede que ela não se precipite, que lhe dê uma chance. Não há remédio. A bem-amada está resoluta. Só resta ao elemento juntar suas coisas, seus pertences, e partir. A mulher, como se se livrasse de um fardo, respira fundo, feliz consigo.

Ainda jovem, com a beleza preservada, ela sabe que qualquer dia encontrará um outro homem e se apaixonar de novo. Por enquanto, sobretudo se o casal tem filhos, ela ficará quietinha, dedicar-se-á (perdoem a mesóclise) à criança ou crianças. Compreende, no entanto, que mais cedo ou mais um estranho vai olhá-la dos pés à cabeça, sorrir de um jeito encantador e lhe dirá algo decisivo.

Nessas situações, feito me ocorreu, não há o que se possa fazer. Exceto viver um luto que vai durar por tempo indefinido. É o fim da linha para o casal outrora tão apaixonado. Como diria o saudoso humorista Espanta, tenho mais experiência em ser descartado do que a Caixa Econômica com poupança.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 01/02/2026 - 04:14h

Recordações da casa da fome

Por Marcos Ferreira

O sapateiro, de Ayala Gurgel — Óleo sobre tela

O sapateiro, de Ayala Gurgel — Óleo sobre tela

Vários autores, à falta de assunto melhor, escrevem acerca de suas próprias recordações. Assim o resultado desse artifício não raro finda descambando para a pieguice ou sentimentalismo. O passado, todavia, abriga um acervo existencial bastante vasto, senão inesgotável. Acontece, entrementes, que há escritores que transformam essas memórias em textos bons. Dito isto, conforme procedo neste instante, talvez não haja tanto problema em aqui e acolá usarmos essa receitinha introspectiva. Contarei, pois, mais um bocado de minha vida pregressa. São acontecimentos de fato melancólicos vinculados a um período que marcou meu coração e meu espírito.

Estudei pouco. Tive uma vida escolar muito breve. Minha presença em sala de aula foi curta, porém inestimável. Aquela educação formal, embora fragmentada, cultivou em mim a semente da leitura. Descobri que podia ler e daí por diante, ainda que fora da escola, segui lendo com máximo encanto. Debrucei-me sobre autores e obras com uma fome ancestral. É isso, li com extrema voracidade. Apesar dos pesares, adquiri acesso a clássicos importantes da literatura brasileira quanto estrangeira. Daí a pouco eu já não era tão só um leitor, mas um estudioso da produção intelectual que chegou ao meu alcance. Estudei, sobretudo, poetas parnasianos e suas regras fixas: esquemas rimários, metrificação, cesura, hemistíquio, diérese, sinérese e sílabas tônicas e pós-tônicas. Como autodidata, assimilei e fiz uso dessas técnicas. Não vou expor uma lista de títulos e autores que fizeram minha cabeça. Isso é enfadonho.

Não posso reclamar de nada a esta altura da vida. Tive sorte por sair do analfabetismo. Foi por um triz. Cheguei ao colégio para desasnar (analfabeto de pai e mãe) com onze anos de idade. A merenda escolar, admito, foi um incentivo de grande importância. Tempos bicudos, difíceis. Passamos graves dificuldades nas décadas de setenta, oitenta e meados de noventa. Não faltava escassez. Sapateiro, meu pai precisava realizar um contorcionismo financeiro enorme para alimentar nove filhos esfaimados. Éramos onze. Ocorreu que Hugo e Márcia (sou o primogênito) demoraram pouco naquele mundo sovina.  Hoje os dois habitam o campo-santo. O restante, nove magricelos, escapou fedendo. Àquela época um pão dormido era um tipo de item, uma iguaria nem sempre acessível na casa dos Ferreiras. Os vizinhos mais próximos sabiam que no 3521 da Avenida Alberto Maranhão havia uma família em insegurança alimentar. A senhora Branca, minha mãe, que não sabia assinar o próprio nome, era doutora em fazer render os víveres que o senhor Vicente trazia para casa adquiridos, no mais das vezes, na Cobal e no então pujante Beco das Frutas. Certas coisas, a exemplo do charque, ovos, mortadela e cereais, costumavam vir do Mercado Novo, no Bom Jardim.

Naquela quadra de minha existência não havia essa história de Bolsa-Família ou algo semelhante. Vivíamos sob a vergasta dos generais. Os militares governavam o país com mão de ferro e sede de sangue. Uma imensa parte da população estava sob o cabresto, contando com migalhas. O salário mínimo fazia rigorosamente jus à denominação de mínimo. A carestia causava um estrago medonho em inúmeros lares brasileiros. Sei que isso não é assunto agradável para submeter aos leitores, mas nem só de amenidades se constitui a literatura. Façamos de conta, portanto, que estou aqui com os meus botões, de papo comigo mesmo. Trago hoje recordações da casa da fome. Cada um relata o passado que vivenciou. Sobretudo memórias da infância.

Agora, ao contrário de antanho, encontro-me resignado com os tostões que pingam na minha conta-corrente a cada fim do mês. Olho à volta e posso dizer que, se compararmos à era de minha meninice e adolescência, usufruo de uma condição confortável. Diferentemente de agora, não mais escrevo a bico de caneta em cadernos ordinários. Não. Componho estas notas em um computador.

Possuo outros elementares bens materiais, todavia são objetos absolutamente impensáveis nas décadas de meu universo pueril. No tempo da casa da fome, permitam-me a repetição, a gente nem sonhava ter, por exemplo, uma geladeira. Sequer um fogão a gás. Íamos ver televisão à noite na praça do bairro. Tínhamos na cozinha de nossa moradia de pau-a-pique um fogão a lenha que revestia as paredes com uma tisna de um preto retinto. Lembro-me de que não possuíamos nem mesmo uma mesa de madeira onde pudéssemos fazer nossas refeições. Em vez disso, quando se fazia necessário, a senhora Branca dispunha no piso de chão batido da cozinha uma esteira de palha sobre a qual sentávamos ao redor e era servido o que houvesse para comer. Em especial no tocante ao almoço, quando panelas de barro e algumas de alumínio ficavam em cima da referida esteira. Mas isso não era uma situação cotidiana. Certos dias a comida nos faltava e precisávamos nos contentar com um café com farinha, entre outras improvisações alimentares que minha mãe nos oferecia como almoço ou jantar.

Bem cedo meus irmãos e eu começamos a buscar determinados serviços, pequenos trabalhos que nos rendiam algumas patacas. Limpávamos o mato de quintais nas imediações de nossa residência, casa alugada e que nos primeiros anos não contava com luz elétrica nem água encanada. O proprietário não tinha muito interesse em fazer melhorias no imóvel. Pertencia a um cidadão de nome Nelito Apolinário. Ganhávamos uns trocados juntando peças de ferro, alumínio, garrafas e litros de vidro que vendíamos em um ferro-velho que existia, se não me engano, nos Paredões. Além disso, sem nunca termos sido apanhados, subtraíamos frutas do quintal do senhor José Pereira, nosso vizinho. Especialmente goiabas, bananas e mangas. Retirar as cinzas, limpar o forno da Panificadora Canindé, entre outras atividades, nos rendia boa quantidade de pães e bolachas. Embora esses produtos fossem do dia anterior.

Hoje me pego revirando estas memórias desagradáveis, cenas de um passado remoto. As pessoas não gostam de saber de histórias tristes, penosas. Querem relatos positivos, algo que lhes desperte otimismo, alto-astral, bem-estar. Não lhes tiro a razão. Basta, enfim, de recordações da casa da fome.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 25/01/2026 - 04:30h

Domingo produtivo

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Amanheceu. Levantei-me a fim de urinar e não encontrei mais sono para retornar à cama. A preguiça me largou, desapareceu. São precisamente quatro e quarenta e sete aqui na telinha do computador. O efeito dos psicofármacos teve fim bem antes do corriqueiro. Os remédios me deixam fora de combate até por volta das nove. Às vezes mais que isso. Chega fácil às dez ou às onze.

Ontem não escrevi. Sentia-me desmotivado, sem ânimo para a redação. Há pouco fiz café, deixei a cafeteira trabalhando e fui cuidar das minhas abluções. A temperatura está amena. O dia se mostra deliciosamente nublado. Não digo que há (ao menos por enquanto) indícios de chuva. As nuvens não estão cheias, com aquele aspecto carregado, exibindo um cinza uniforme. Mesmo com a quantidade de nuvens, o céu se encontra azul. Penso que não seria nada mau se caísse uma tranquila, ampla e duradoura garoa. Quem me conhece, ou tem o hábito de ler certas coisas que escrevo, sabe que tenho preferência por dias chuvosos ou tão somente frios.

Eis que súbito o vento se intensificou. A aragem traz um cheirinho bom. Será que vem água por aí? Indago a mim próprio. O domingo fica interessante. Ainda não comi nada, todavia estou aqui bebericando um cafezinho. Sinto-me confortável usando camisa de algodão de mangas compridas e uma surrada e macia bermuda jeans. Ainda não enviei o meu texto dominical para o BCS — Blog Carlos Santos. Quem sabe esta metade de página prospere e finde em uma crônica.

Este é o último domingo de janeiro, dia 25. Imagino que desta feita me darei bem na escrita. Os pequenos cães da vizinha da esquerda se puseram a latir não sei por qual motivo. Minha cachorrinha, que agora está com um ano e dois meses de idade, também começa a ladrar. Suponho que não viu coisa alguma, contudo acompanha os cachorros vizinhos. Parece-me tão só camaradagem.

Juju é de raça absolutamente pura: uma legítima vira-lata. Trata-se de uma criaturinha cativante e manhosa, carente em excesso. Enquanto escrevo estas linhas, ela ronda a cadeira no intuito de pular no meu colo. Aqui e acolá abandono o teclado para atender aos seus anseios. De igual forma é quando estou na rede na sala vendo tevê à noite, ou à mesa da cozinha fazendo alguma refeição. Abana a cauda e fica me fitando com um ar irresistível, os olhos como se lacrimosos.

Esqueçamos Juju. Abri a porta da frente e a de trás. O vento se intensifica, continua trazendo um agradável perfume de chuva. Vejo que o céu está tomado por nuvens cinza. Contudo não pinga uma gota d’água. Fui ao muro frontal conferir isso. De repente, “não mais do que de repente”, um trovão ribombou ao longe. Mais outro (pelo que me pareceu) explodiu sobre este domicílio. Fico logo animado com a possibilidade de uma precipitação pluviométrica. Noto que os cãezinhos da vizinha emudeceram. Percebo que minha cadela acompanha essa quietude.

Dou mais uma olhada no relógio e constato que passam trinta e dois minutos das seis horas. Deixei a cadeira do computador e fui comer um pão francês com manteiga e café. A ventania açoita a mangueira da moradora aos fundos desta residência. Decorridos alguns minutos, enfim, começou a garoar. Entretanto não passou disso. De qualquer modo, apesar dos pesares, ganhei o meu dia. A crônica está pronta. É o momento de enviar este escrito para o e-mail do meu editor.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 18/01/2026 - 07:22h

Bem-vindo à Papudinha

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Verdade seja dita. Não vales o que os gatos ocultam dentro de minúsculas covinhas, aquelas que eles logo cobrem com um pouco de terra. És podre, mau, execrável. Existe uma cambada de políticos talvez tão escrotos quanto o senhor, malandro que hoje se diz debilitado, precisando de cuidados médicos desde a prisão domiciliar na sua portentosa mansão cinco estrelas, lá no bem-bom. Ainda ontem, cheio de audácia, atrevimento e vigor, ocupavas palanques com discursos ferozes contra a democracia, instigado e aplaudido por um sem-número de alienados bajuladores.

Num passado bastante recente, portanto, participavas de motociatas em diversas capitais, além de se exibir sobre motos aquáticas, mais conhecidas como jet-ski.

Hoje, depois de muito aprontar pelos quatro cantos do Brasil, de agredir jornalistas verbalmente, de cuspir para cima e fazer pouco-caso até de famílias enlutadas, gente que perdeu entes queridos na pandemia, estás no lugar onde deverias estar há bastante tempo: na Papudinha. Assim mesmo estás no lucro. Deverias cumprir tua pena na própria Papuda ou no completo penitenciário de Bangu 8.

De qualquer jeito, ainda que gozando de mordomia, pois ora ocupas uma cela que mais parece um apartamento todo equipado e mobiliado, sentimos um gostinho de vitória, aquele sentimento de que a justiça foi feita, uma agradável sensação de que não ficaste impune por tantos crimes cometidos e outros notoriamente arquitetados. Ah, senhor Percevejo, a casa caiu para ti, que te achavas imbatível e intocável, acima de tudo e de todos. Cadê aqueles teus patriotas, a caterva de vândalos fidelíssimos e raivosos que apoiavam o pseudo-mito?

Ninguém saiu às ruas para protestar contra o teu encarceramento. Todo mundo está em suas casas cuidando da própria vida. Tu que te fodeste, estrepado de verde e amarelo. Cadê o malandro que se queixava de possuir histórico de atleta, que se gabava dizendo que, se contraísse o vírus, sentiria tão só um resfriadinho, uma gripezinha, porém tomaste a vacina às escondidas? É bom que peças a Deus para que Adélio Bispo, o ninja, não seja transferido para a Papudinha. Aí o senhor Bispo vai cancelar teu CPF, pois, segundo tu, bandido bom é bandido morto.

Não te queixes, não maldigas tua sorte. Embora no xilindró, desfrutas de regalias que noventa e nove por cento dos presidiários deste país não experimentam. É melhor ires te acostumando. Onde está o cara arrochado? Cadê o valentão que, segundo tu, não teme nada? Cadê, senhor Percevejo, o soldado cuja especialidade é matar? Nos últimos tempos tens chorado lágrimas de crocodilo. És um réptil soluçante, um saco de estrume, uma pústula escancarada. O Nove-Dedos puxou cadeia durante quinhentos e oitenta dias sem derramar uma lágrima. Chega de mi-mi-mi! Mais pareces um bebê chorão. Curta o teu novo endereço. Bem-vindo à Papudinha.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 11/01/2026 - 04:24h

Livros e leituras

Por Marcos Ferreira

Foto e edição do autor do texto

Foto e edição do autor do texto

Hoje acordei me sentindo leve. Melhor dizendo, de bem com a vida, feliz com os amigos que tenho e com certas conquistas materiais. Acordei motivado, disposto a exibir, expor o bem-estar que me envolve. Talvez isso tenha a ver com os quatro livros que li nas duas últimas semanas. Consumi um pedaço de dezembro e uma pontinha deste janeiro debruçado sobre as obras que revelarei logo a seguir.

Essas leituras interromperam um longo hiato de minha falta de interesse para conhecer o trabalho de outros autores. Pois é, o desânimo, a preguiça e o fastio me dominaram por quase um ano. Pode ser, como sou péssimo para memorizar datas, seguir o relógio e o calendário como se deve, existe a possibilidade de que o intervalo sem abrir um livro e ler seja maior. Porque, afora os contratempos, afora a dedicação aos meus próprios escritos, parece até que 2025 passou ligeiro feito assim um rastilho de pólvora. 

Acho adequado usar a ordem de chegada. Começo, então, com Au Revoir, Mon Ami! — O Auto da Boa Morte, de autoria do poeta e prosador Júlio Rosado. Temos aqui um romance (quiçá uma novela) de fôlego e engenhosidade. O bom humor, a crítica corrosiva e a tragicomédia neste auto da boa morte são a tônica, a espinha dorsal da narrativa, cuja quantidade de personagens representa um desafio a mais para o ficcionista estreante. Não é coisa fácil caracterizar, movimentar (como em um tabuleiro de xadrez) tantos tipos marcantes e caricatos. Contudo Júlio conduziu todo esse elenco com pulso firme e notável mestria. Não vou, como está na moda dizer, dar spoiler. Nem acerca desta obra nem no tocante aos outros três títulos. O leitor que adquira esses trabalhos, saboreie as folhas e tire as conclusões que julgar apropriadas. 

Seguindo o critério da chegada, em uma visita que me fez em uma tarde de que não lembro a data, rolou um cafezinho e fui presenteado pelo poeta, artista plástico e músico Airton Cilon com uma nova reunião de seus poemas. Com pouco mais de sessenta páginas, Inverno é uma seleta para maiores de dezoito amores. Sensível, versejador inveterado de uma paixão característica e plural, Cilon não nega a sua veia doce e transborda neste opúsculo toda a sua alma de bardo profundamente romântico.

Sem rimas e muito menos métrica, os versos de Inverno são por completo livres e ratificam a temática que o autor produz e publica desde os tempos dos cadernos de cultura dos jornais impressos, sobretudo no jornal O Mossoroense. Vejamos este exemplo do poema Amor e Contradição: “Sempre fui um/ romântico incurável, /um poeta errante/ passível de contradições, /um reincidente na arte/ de amar errado.” Novamente proponho ao leitor que encontre e constate todo o romantismo de Airton Cilon. 

Faço uma pausa para um banho e um café. A tarde se arrasta nublada, abafadiça e cheia de poeticidade como um soneto do vate parnasiano Olavo Bilac. Bem, vou preparar a cafeteira. Daqui a pouco estarei de volta à escrevinhação. Restam dois livros sobre os quais desejo produzir algumas linhas. Ressalto, entretanto, que este relato não pode ser classificado como resenha e ainda menos um ensaio. Estou a anos-luz de um crítico literário. Isto é meramente um registro superficial. Suponho, porém, que nem é necessário fazer esta advertência. Até daqui a pouco. 

Pronto, já regressei do banho e do cafezinho. Mantenho à mesa, à direita da escrivaninha, uma pequena caneca de café que vou bebericando aqui e acolá. O livro da vez é Mais Perto de Você: Notas de Amor e Cura, espécie de catarse da lavra de Carlos Oliveira, jovem e talentoso autor que faz a sua estreia no universo da literatura. O rapaz também é mossoroense, profissional do ramo de marketing. Reside fora do Brasil há vários anos. É, pelo que consta em seu livro, um cidadão do mundo. Mais Perto de Você: Notas de Amor e Cura, trabalho publicado primeiramente em inglês nos formatos impresso e digital pela Amazon, é uma longa viagem que o autor realizou pelos sinuosos e por vezes sombrios caminhos de sua mente.

Carlos faz um mergulho nas próprias entranhas psíquicas para encontrar a si mesmo e também interagir (por meio de sua escrita amena e com uma sintaxe de se tirar o chapéu) com um número expressivo de pessoas. O resultado dessa viagem, entrementes, é uma densa, didática e fraterna relação com todos que orbitam o mundo de Carlos Oliveira. 

Vejam (quebro o trato e exponho um spoiler) o seguinte fragmento: “A Parte Dolorosa de Encontrar a Si Mesmo: A parte dolorosa de encontrar a si mesmo é a luta para traçar nosso próprio caminho enquanto buscamos conforto em um lugar onde já não pertencemos. É nessa busca por pertencimento que corremos o risco de nos perder.” Mais Perto de Você: Notas de Amor e Cura, sejamos corretos, não pode ser meramente definido como um livro de autoajuda. Nada contra o referido gênero. Vai muito além disso. Ao longo destas páginas o autor consegue transcender tal modalidade literária e tocar, com ternura e competência, o coração do leitor. 

O quarto e último livro é Compassos Autobiográficos — Trajetória de Vida e Trabalho, conteúdo (como o próprio título informa) autobiográfico assinado pelo escritor e jornalista Passos Júnior. O autor é jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Possui vasta experiência em rádio, televisão, jornal impresso e assessoria de imprensa. É especialista em educação sexual e estudos afro-brasileiros, além de mestre em gestão de processos institucionais pela UFRN. No decorrer de mais de quatro décadas, atuou na Rádio 96 FM, na Rádio e TV Tropical, no jornal Tribuna do Norte, nas assessorias de comunicação da Secretaria de Saúde e de Comunicação Social da Prefeitura do Natal, no jornal Correio da Tarde e na assessoria de comunicação do governo do estado do Rio Grande do Norte. 

Desde de 2010, em Mossoró, através de concurso público, é jornalista da Universidade Federal Rural do Semi-Àrido (UFERSA). Desenvolveu projetos que entrelaçam história e imagem, sempre marcados pelo compromisso com a memória, a cultura e a educação. Com vigor narrativo e um olhar atento à escuta, Passos Júnior utiliza o audiovisual e a literatura como ferramentas para preservar memórias, valorizar o conhecimento e contribuir para a construção de novos saberes. Passos, enfim, com uma escrita afiada e direta, contribui com a história da comunicação social do Rio Grande do Norte e alhures. Eis, portanto, minhas leituras mais recentes. 

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 04/01/2026 - 04:00h

Curral dos Porcos – Capítulo 1

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Consultou o reloginho de aço que ganhou de presente do falecido marido no Natal do ano passado. Eram nove horas e cinco minutos da manhã. Ainda não havia parado de chover por inteiro. Caía uma garoa em meio a um vento frio. O sol permanecia oculto. Alguns postes da rede elétrica continuavam acesos desde a noite anterior. Era possível que o mau tempo voltasse a qualquer instante. Apesar disso Matilde colocou sua máscara, pegou o velho guarda-chuva, afagou a cabeça das meninas e disse que não abrissem a porta para ninguém. Exceto se fosse Das Neves, única irmã de Euclides, ou a antipática senhora Esmeralda, mãe do morto. Incomodava-a o fato de se ver obrigada a deixar as filhas sozinhas.

Naquele momento, porém, não tinha opção. No armário da comida restara apenas massa de milho, um pouco de açúcar e um pacote de café. Apreensiva, olhos tristonhos, seguiu para o armazém do senhor Euzébio Suassuna, uma das vendas mais sortidas do pequeno município de Curral dos Porcos.

O bairro de Boa Vista se encontrava quase deserto. Poças d’água e lama logo atingiram as sandálias de Matilde, sujando seus dedos e calcanhares. O bairro não tinha pavimentação, contudo se encontrava distante das áreas inundadas. Pendurada no ombro direito, para a eventualidade de que o comerciante lhe confiasse a compra dos mantimentos, conduzia uma bolsa de palha de tamanho médio.

Ruas quase desertas. Aqui e acolá, debaixo dos seus guarda-chuvas e usando máscaras de proteção contra o vírus, alguns moradores se aventuravam na garoa. Decerto por força das circunstâncias. É evidente que não estariam ali por espontânea vontade; vultos em meio à neblina. Ninguém parava para conversar com ninguém àquele instante. Outros simplesmente observavam o mínimo movimento com os cotovelos apoiados sobre o parapeito de suas janelas. Pássaros dispersos riscavam o céu escurecido. O vento foi ficando mais forte, sibilando nos fios do posteamento.

Indiferente às condições climáticas, a jovem mulher seguiu seu rumo exposta à possibilidade de a chuva cair de vez e alcançá-la no meio do trajeto. Quando dobrou na esquina da farmácia, Matilde empalideceu. A mercearia do senhor Euzébio estava de portas fechadas. Ocorreu-lhe chamá-lo na casa contígua ao comércio, residência do homem, e explicar-lhe o momento de sufoco em que se encontrava. Considerou, entretanto, que seria audácia importunar alguém naquelas condições para comprar sob promessa de pagamento. Com os pés enlameados e roupas enxovalhadas, deu meia-volta levando a bolsa de palha. Não tinha outro lugar onde pudesse conseguir crédito. Recordou-se de que era sábado e que talvez o senhor Euzébio tivesse resolvido não abrir por causa disso. Aquelas chuvaradas representavam um motivo a mais.

Parou sob a marquise da farmácia e se pôs a refletir.

— E agora, meu Deus? — murmurou.

Precisava engolir o orgulho e pedir ajuda a quem ela não gostaria. Embora não fosse muito bem-vinda ali, restava-lhe a casa da sogra, com a qual nunca tivera boa relação. E os problemas pioraram após a morte de Euclides. A senhora Esmeralda, como é comum entre as famílias do interior, desejava que o filho namorasse e se casasse com uma certa prima. Contudo ele se encantou por Matilde desde quando a conheceu trabalhando em casa do senhor prefeito Gilberto Pedrosa. Ela fora recomendada à família do político por uma irmã deste, a senhora Albertina, residente em Aroeira Santa e patroa dos pais de Matilde. Os genitores da moça haviam morrido num desastre com um ônibus na estrada de Aroeira Santa para a capital, Belo Jardim.

Não tardou e Euclides e Matilde começaram a namorar. Ele tinha à época seus vinte e oito anos e ela contava apenas vinte e três. Após dezoito meses de relacionamento, contrariando todos os cuidados, ela engravidou e deu à luz a primeira filha, batizada com o nome Vanda. Na metade da gravidez Matilde precisou deixar o trabalho na casa do prefeito. Depois do parto, dispondo da ajuda de Das Neves, dedicou-se a cuidar da filha e da casa.

O imóvel foi adquirido graças à generosidade do patrão, que lhes vendeu o terreno por uma pechincha e deu baixa na carteira de Euclides, de maneira que este pudesse fazer uso da verba rescisória. Pouco depois o senhor Gilberto o readmitiu no serviço da olaria. Euclides, apesar da contrariedade da mãe, foi ajudado pela própria senhora Esmeralda e pelo pai, o senhor Adonias, funcionário aposentado da Receita, morto também no ano passado em decorrência de um enfarto.

Claro que a saída de Matilde da residência do senhor Gilberto causou frustração. O prefeito nutria expectativas de ter um caso com a moça. Esta, contudo, sempre se esquivou das indiretas e diretas do empregador.

Do modesto lar de Euclides e Matilde, entretanto, foi concluída tão só a parte estrutural, algo que consideravam uma grande vitória. Pois, ao contrário de muita gente, não estavam no cabresto do aluguel nem morando com os pais de Euclides, suportando os humores da senhora Esmeralda. “Vamos fazendo o restante aos poucos”, dizia o oleiro. Assim passaram a residir na modesta casa dispondo do básico. Estavam felizes com essa nova fase de suas vidas, em particular pela chegada de Vanda. O piso, o reboco, revestimento do banheiro, entre outras pendências, planejavam fazer mais adiante com as economias que pudessem manter em uma caderneta de poupança. Mas veio Ritinha (segunda filha) e as melhorias do domicílio emperraram.

Quase dez horas. A ventania açoitava o guarda-chuva com mais força. Matilde chegou à casa da sogra e esta a recebeu de cenho trancado. A velha já supunha que a moça estava ali por necessidade. Do contrário não teria saído de casa naquelas condições. Logo pôde concluir, para aumentar-lhe o ranço gratuito, que outra vez a nora deixara suas netas sozinhas. Demorou alguns segundos para abrir a porta.

— O que faz aqui, com esse tempo? — resmungou.

— Vim lhes pedir ajuda. Estamos sem comida. O dinheiro acabou e não disponho de nada para dar às meninas de hoje para amanhã.

— Podemos ajudar — antecipou-se Das Neves, sua cunhada.

— Agradeço. Só me abalei até aqui por causa disso.

— Claro que vamos ajudar — confirmou a sogra. — Não vou deixar as minhas netas com fome. Não sou tão cruel como você pensa. Bata os pés no capacho e pode entrar. Sinta-se em casa — disse com alguma ironia.

— Eu nunca falei que a senhora é cruel.

— Pelo seu olhar, é como se imaginasse.

— Que olhar? Está enganada. Sou muito grata a vocês.

— Chega dessa conversa — interveio Das Neves. — Venha, Matilde, vamos à cozinha. Podemos lhe arrumar algumas coisas. Não é muito, mas irá lhe socorrer até que consiga dinheiro para fazer umas compras.

— Fui ao comércio do senhor Euzébio Suassuna, mas estava fechado. Eu queria saber se ele me venderia algumas mercadorias no fiado.

A senhora Esmeralda transferira a entrega dos víveres para a filha. Continuou na sala, na cadeira de balanço, manejando as agulhas de tricô. Apesar da cara trancada de costume, sentia que precisava ajudar a nora e, sobretudo, as netinhas. No íntimo, como de outras vezes, gostava que Das Neves tomasse a iniciativa de ir à despensa e arranjar alguns alimentos para aquelas pobres necessitadas.

Das Neves encheu a bolsa de palha com gêneros alimentícios, inclusive leite em pó, e a entregou sorridente. A outra parecia ter os olhos marejados. Quando passou pela sala, a viuvinha disse “obrigada” à sogra. A velha fez de conta que não ouviu. Matilde deu um abraço em Das Neves e voltou para casa. Ao abrir a porta encontrou as meninas no sofá, diante da televisão, que ela deixara ligada.

As crianças notaram que a mãe trazia a bolsa cheia de mantimentos, todavia não imaginavam a origem das coisas. Matilde já havia batido os pés na calçada, de modo que a terra caísse das sandálias, mas ainda assim deixou os calçados perto da porta, pois os recolocaria somente após tomar um banho.

Pendurou o guarda-chuva em um armador de rede da sala, retirou a máscara de proteção e começou a distribuir o conteúdo da bolsa sobre a mesa da cozinha. Em seguida, ao respirar fundo, foi guardando os gêneros no armário de metal fixado na parede, entre a geladeira e o fogão. Sentia-se aliviada com o fato de que teria alimento para si e para as filhas por mais três ou quatro dias.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 28/12/2025 - 08:30h

Malandragem inofensiva

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Penso aqui com os meus botões (como diz aquele adágio) no que terão escrito os demais colaboradores deste prestigioso BCS — Blog Carlos Santos. É possível que algum ou outro, assim como eu, se encontre a esta hora quebrando a cabeça para honrar nosso compromisso dominical. Sim. O pensamento que tenho é este, o de que determinados escribas só conseguem enviar as suas produções literárias em cima da hora, já no próprio domingo. Isto a julgar pelo horário que nosso Editor libera as respectivas páginas desses meritórios manejadores do nosso alfabeto.

Tal detalhe, entretanto, não é nada da minha conta. O que importa é que são quinze horas e vinte e oito minutos deste sábado, 27 de dezembro de 2025, e eu (embora sendo uma coisa rara de ocorrer) não estou com minha crônica pronta. Encontra-se tão só em curso e, como se percebe, este sapateiro das letras vai descambando para a velha receita de escrever sobre as dificuldades com que volta e meia nos deparamos. Pois não existe ou existiu nenhum literato que não tenha recorrido a essa estratégia.

Mesmo os melhores entre os melhores se valeram deste recurso. Citando apenas dois cronistas de nossa freguesia, estou convicto de que os saudosos mestres José Nicodemos e Dorian Jorge Freire também lançaram mão desse artifício no intuito de construir uma página para os órgãos de imprensa com os quais colaboravam.

Especialmente José Nicodemos, que heroicamente sustentou a peteca de produzir uma crônica para o também heroico Jornal de Fato todo santo dia. Pois é. O Jornal de Fato, dando a César o que é de César, embora com uma tiragem mínima, deveras simbólica, é o único veículo deste município, quiçá do nosso estado, que ainda põe nas ruas uma edição impressa. Por último, Dorian era cronista dominical da Gazeta do Oeste. Claro que não ouso insinuar que estou ao nível desses dois beletristas. Nem na capacidade de criação nem na estilística.

Vamos em frente. No momento quem está em apuros sou eu. O Editor, há mais ou menos uma hora e meia, cobrou-me o envio desta sensaboria pelo WhatsApp: “Vai enviar texto?”, escreveu laconicamente.

O polígrafo Carlos Santos, além de jornalista, é um cronista meritório, um escritor de fôlego. O rapaz escreve diariamente, chova ou faça sol. Não raro fico basbaque com o poder de realização desse homem de imprensa e literato. Nunca me vi em maus lençóis, então não sei se eu conseguiria produzir uma crônica sem falhar uma só vez. Tenho para mim que não dou conta de tamanho desafio.

Difícil, contudo, é dar à luz uma crônica que caia no gosto de Natália Maia, minha sortuda noiva. Aqui no blogue, a propósito, o cronista preferido dela é o talentoso Odemirton Filho, autor de uma escrita leve e sintonizada com os temas do momento, ainda que escreva com regularidade acerca de acontecimentos pretéritos, memórias do arco-da-velha.

Imagino que é bom eu ficar por aqui. Afinal de contas, bem ou mal, estou chegando bem pertinho de uma página e meia com essa tática de redigir, na maior parte do tempo, sobre o próprio ato de escrever. Acho que o meu Editor e os pacientes leitores perdoarão esta malandragem inofensiva.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 21/12/2025 - 05:24h

Quando o amor vai embora

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Tudo se reveste de fascinação e magia quando ele nos aparece (homem ou mulher) e uma voz diz assim bem no fundo do nosso coração: “Essa aí é a pessoa certa para você, é o grande amor que você sempre buscou. Agarre, cuide e ame com todas as suas forças! O resto foi apenas experiências, etapas do seu amadurecimento. Essa, no entanto, é aquela companhia para o fim dos seus dias, vai estar ao seu lado nos momentos alegres e também nos mais difíceis que vierem. Pode crer, sua cara-metade chegou. É sua alma gêmea, seu porto seguro”, diz a voz dentro da gente.

Ficamos de quatro, bobos, arriados. Enfim a felicidade bateu à nossa porta. As coisas mais triviais, mais simplórias, comuns, esses momentos se enchem de significado e satisfação. Qualquer lugar ou instante se torna memorável, precioso, pois o fato de estarmos juntinhos de quem amamos, geralmente de mãos dadas, é aquilo que de fato importa, conta. Compromissos outros nos separam momentaneamente, todavia contamos as horas para estamos com nossa bem-amada. Ou bem-amado. Enfim chega a noite e nos vemos na cama com esse ser maravilhoso, absoluta e insubstituível razão de nosso contentamento. Dormimos e acordamos colados com tal criatura cheia de virtudes e amor recíproco; os dias ficam cheios de encanto.

Fazemos planos em comunhão, gozamos de um relacionamento sem estresse, desgaste. A concórdia é completa. Uma vez ou outra nos ocorre beliscarmos a nós mesmos para descobrirmos se não estamos apenas sonhando. Mas não, nenhum delírio, nenhuma fantasia. A verdade e inegável e cristalina.

Então aquela mulher, ou aquele homem, torna-se nosso prumo, o centro de equilíbrio. Sentimo-nos firmes diante dos desafios que surgem. O cotidiano, por mais adversidades que nos traga, está sob controle. A saúde se fortalece. Não existe um problema para o qual não encontremos uma solução. Só porque sabemos que não mais nos encontramos sozinhos no mundo. A gente irradia felicidade, transborda bem-estar e otimismo. Cuidamos, além do espírito, do corpo; frequentamos uma academia de musculação; queremos estar bonitos para o outro ou outra.

Um dia, entretanto, somos pegos de surpresa. Uma profunda angústia tem início, o caos nos abocanha, o desespero nos domina. A cara-metade se põe diante de nós e, sem dó nem piedade, diz com frieza que não dá, que aquele amor abundante e inabalável simplesmente acabou, morreu, chegou ao fim. Pois é. E realmente nos abandona. Aí desabamos a chorar, ficamos sem chão. Nossa alma, há pouco radiante, cheia de certezas e confiança, planos e sonhos, agora está de joelhos; daí começa a rastejar, humilhar-se, implorar. Em vão, assim como um náufrago que se afoga nas próprias lágrimas, tentamos nos agarrar a frágeis argumentos, insistimos que ela (ou ele) pense melhor, que nos dê uma chance, que não se precipite, que não vá embora, que não nos vire as costas pelo amor de Deus! É inútil. A outra pessoa está decidida.

Não tem conserto. Nosso lindo castelo de amor e ternura tornou-se escombros. Aquele ser encantador, que superestimamos e divinizamos além da conta, talvez já tenha encontrado um outro alguém e não podemos fazer coisa alguma quanto a isso. De repente, então, tudo perde completamente a graça. O prazer e a importância de um monte de coisas súbito se anulam. Não existe uma só mensagem de ânimo, conselho de amigos, o carinho de familiares, nenhum tipo de reza que nos alegre ou conforte o espírito devastado. Afundamos num abismo existencial de onde não temos forças para sair. Fomos arrastados pelo caos violento de nossa mente e coração.

Nenhuma comida nos dá apetite. Perdemos inteiramente o gosto de saborear certos pratos. Sentimos vergonha de reencontrar determinados indivíduos e nos perguntarem por quem se foi. Há aqueles que se entregam à bebida, enchem a cara todo dia. Outros vão a psicólogos ou psiquiatras. As noites são um tormento. A insônia prevalece. Então vêm os remédios para dormir um sono ruim.

Após um longo tempo, contudo, nosso instinto de sobrevivência começa a reagir. Saímos da penumbra do quarto e fazemos as pazes com a luz do sol. Até que em uma inesperada saída (para um supermercado ou shopping center, por exemplo) nosso olhar esbarra em outro olhar. Então, embora com natural receio, começa tudo de novo. Agora é torcer que dessa vez seja para sempre.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Pensando bem...
domingo - 14/12/2025 - 03:38h

Retrato antigo

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Começo a escrever esta página às sete e onze da noite. É precisamente o dia 10 de dezembro deste restinho de 2025. Domingo passado, como raras vezes acontece, fui com Natália a um evento cultural. Cada vez mais a vida em sociedade (lugares cheios e com música alta) me desgosta. Não me sinto à vontade. Tenho a desagradável sensação de que vou topar com determinado indivíduo peçonhento, ou me envolver em algum tipo de situação embaraçosa. Ainda assim botei a cara fora e rumei para a referida programação.

Era por volta das vinte horas. Não descreverei o mencionado ensejo, cuja atração musical fez valer a pena colocar uma roupa melhorzinha e quebrar a rotina. Roupas comuns, devo destacar. Nada de coisa chique ou sofisticada: apenas uma calça jeans seminova, camiseta marrom de algodão e uns tênis baratos já com certa quilometragem. Ao contrário de mim, posso dizer que Natália estava graciosa, deveras bonita em um vestido preto bem-conformado, calçando sandálias de couro rutilante e com uma bolsa a tiracolo. Lógico que nesse dia ela foi a um salão dar uma arrumada no cabelo, algo com que não preciso me preocupar tendo estes escassos e grisalhos fios.

Apesar do introito, meu objetivo aqui não é relatar nada mais do passeio noturno de que usufruímos entre o Memorial da Resistência e a Estação das Artes Elizeu Ventania. O que de fato despertou minha atenção (tanto na ida quanto na volta) foi a lástima em que vive um expressivo número de indivíduos miseráveis que à noite podemos encontrar dormindo, deitados sob marquises de lojas no Centro, usando por cama somente pedaços de papelão e, quando muito, um cobertor velho e sujo com que se enrolam. Então, como fiz outras vezes, trago novamente este assunto para o BCS — Blog Carlos Santos. Sim, a miséria daquelas pessoas sempre me toca.

Fico agora a imaginar o que eles fazem, como se viram na rua para realizar coisas que, ao menos para nós, são tão banais, tão fáceis. Pois é, penso nessas pessoas diante da simples necessidade, por exemplo, de urinar ou defecar em algum ponto desta urbe. Podem crer. Esses infelizes devem enfrentar todo tipo de obstáculos quando são apertados por tais necessidades fisiológicas. Trata-se, repito, de figuras sem-teto, aos deus-dará. Não é difícil, a julgar pelo aspecto de alguns, deduzir que passam longo tempo sem tomar um banho, escovar os dentes, cortar o cabelo, fazer a barba. E as mulheres?

Como fazem, vivendo na sarjeta, para lidar com a menstruação, adquirir um absorvente? Suponho que são, entre os mendigos, as que mais sofrem. Miseráveis de várias idades ocupam nossas ruas, avenidas e praças. Entre esses estão crianças e idosos. Quanto a isso, porém, todo mundo tem conhecimento. O problema é que a grande maioria dos cidadãos abastados (é claro que há exceções) não dá qualquer importância; dizem para si mesmos que isso não é da conta deles, que é responsabilidade dos governos, dos homens e mulheres públicos. Muitos desses políticos também se fingem de cegos, olham tão só para o próprio umbigo. O Altíssimo, se quiser, que faça algo.

Mossoró, igual a outros municípios potiguares, brasileiros e do mundo, não dá a mínima para esses desvalidos, espantalhos urbanos que determinadas pessoas fazem de conta que não sabem de nada. Mas os “invisíveis” não podem ser ignorados por completo. Uma hora ou outra um deles nos atravanca o caminho, agarra um braço nosso e suplicam por caridade: algumas moedas, algo para comer. Há aqueles cristãos que se condoem, apiedam-se dos coitados, e lhes oferecem uma esmola, um prato de comida, um suco ou copo d’água. Cada um de nós, se tiver boa vontade, pode ajudar de acordo com suas condições. Basta ter amor ao próximo.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 07/12/2025 - 07:30h

Missão cumprida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Como era de se esperar, estou de volta à crônica, esse tipo de escrita ainda marginalizado ou depreciado perante as demais categorias literárias. De um modo geral, e isto não é novidade, o romance, o conto e a poesia têm maior público. Exatamente nesta ordem. Porém, ao que me parece, aqui a crônica possui certa firmeza junto aos seus adeptos e amantes. Pois é, tenho essa impressão. Neste município, e decerto em nosso estado, a produção dos cronistas faz algum sucesso. Conforme declarei, então, estou outra vez na pequena área tentando cavar um pênalti. Quem sabe assim, ao contrário das tentativas anteriores, eu consiga marcar um golzinho.

Publiquei neste blogue, até o domingo passado, ao longo de vinte e sete semanas ininterruptas, um romance denominado “O Efeito Casulo”. Do ponto de vista do ibope, entre outros, foi um grande fiasco. É isso aí. Apenas uns oito ou dez leitores, se não estou sendo otimista demais, acompanharam e emitiram suas impressões a cada capítulo. Eu já esperava pelo desinteresse da maior parte dos leitores. Alguns entendem tanto de romance quanto de engenharia atômica.

Outros, embora familiarizados com o gênero, optaram friamente pelo silêncio e indiferença. Esses (não todos, obviamente) são os que talvez não gostem deste autor e torceram, de modo secreto, que me faltasse fôlego para a empreitada de verter tal obra à maneira de folhetim.

Nada de extraordinário, nada de incomum. A arte, lançando mão de um termo mais abrangente, padece de inanição, de falta de prestígio ou audiência desde o tempo das pinturas, dos hieróglifos e desenhos em paredes de cavernas. O artista, independente da modalidade artística, sempre foi e permanece um animal ameaçado de extinção.

Todavia esse mesmo animal se mostra um tipo de fênix que prossegue renascendo das próprias cinzas, como na história da ave mitológica. Porque o que deveras rende cliques no universo virtual de hoje em dia são duas coisas díspares e insuperáveis: celebridades e tragédias. Sangue ainda vende jornais. Os veículos impressos foram quase todos aniquilados pelo imparável advento da Internet, no entanto os telejornais, blogues, sites e portais continuam com notável êxito financeiro.

Não imaginem que esta retomada da crônica tem o intuito de resmungar devido à pífia repercussão de “O Efeito Casulo”, que vem a ser o segundo romance que publico no BCS — Blog Carlos Santos. O primeiro foi “A Cidade que Nunca Leu um Livro”, cuja receptividade teve melhor resultado. Estou de bem comigo e vacinado contra melindres ou queixumes em relação ao leitor deste espaço. Totalmente longe do sentimento de que ofereci (ou ofereço) pérolas aos porcos.

A sensação que guardo, apesar do registro de malogro editorial, é que cumpri a missão que reservei para mim próprio. Quanto ao resto, sem nenhum rancor ou falsa modéstia, digo que valeu a pena cada página, cada capítulo gestado. Sou um escritor obscuro, por mais que os amigos digam o contrário, entrementes realizo com pleno amor e paixão este honroso sacerdócio da literatura.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 30/11/2025 - 07:44h

O Efeito Casulo – Dia 27 – FIM

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Tenho uma notícia simplesmente fantástica para comunicar. Uma reviravolta que jamais imaginei que pudesse me acontecer. Mas acalmei o êxtase que me domina. Então relatemos as ocorrências desta quinta-feira especial sem atropelar as coisas. Vamos pelo começo. Nada de colocar, conforme o velho ditado, o carro na frente dos bois. Em breve chegarei ao ponto que impactará a todos.

Olho neste momento o reloginho no canto inferior direito do computador e constato que são precisamente dezenove horas e cinquenta e sete minutos. Pois é, estou exultante. Confio que esta noite dormirei muito bem. Aliás, nem sei se vou conseguir de fato, tamanha é a minha euforia neste momento da noite. Antes, contudo, repito que preciso fazer esses registros iniciais. Depois disso vou explicar o motivo de meu imensurável contentamento. Não há como ser de outra maneira. Ainda que se trate da desgraça de outra criatura, um estranho para mim que, na prática, me deu outra vida. Bem, vamos adiante. Tentarei descrever, de um modo sucinto, como transcorreu este dia maravilhoso. Destaco que não vou me prender a delongas. Como eu frisei, entrementes, exibirei o que julgo digno nestas primeiras linhas.

“Foi Deus!”, penso aqui sozinho com os meus botões. Hoje, como de costume, dei mais uma olhada nas minhas obras confinadas neste velho computador. Aliás, retoquei um dos meus livros, ajustei, arrumei certos detalhes que me pareceram um tanto incoerentes; cortei pontas soltas. Pois é, foi um dos meus quatro romances. Não informarei o título para não perder o efeito do ineditismo. Amanhã continuarei com essa atividade. Pretendo fazer isso com todos os títulos que enviarei para Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo, esses gentis mecenas.

É quinta-feira, 27 de novembro deste turbulento 2025, ao menos no que me diz respeito. Levantei-me cedo e, após as minhas abluções, tomei o meu rotineiro café, comi um pão com manteiga e uma fatia de queijo de coalho. Em seguida me sentei à escrivaninha para dar início à revisão e retoques do original. Esse serviço arrastado me tomou a maior parte do dia. Por volta das dezessete horas, contudo, já satisfeito com o trabalho de copidesque, que enfim dei por concluído, eis que o telefone tocou. Fiquei espantado. Era o doutor Epitácio Coelho. Atendi e ele, por demais empolgado, declarou-me que tinha algo extraordinário para compartilhar, uma novidade que me deixaria feliz por absoluto. Fiquei extremamente curioso, perguntei sobre o que se tratava, entretanto ele afirmou que precisava que a conversa fosse cara a cara:

— Pode ser ainda hoje? — inquiri.

— Sim! Terei que sair mais tarde.

Tomei um banho rápido, peguei a bicicleta e disparei para a clínica. Algo no meu âmago, lá no fundo do meu peito, dizia que a minha vida sofreria uma reviravolta. De outro modo, porém, busquei não me animar tanto para não me frustrar depois. Esta rua se encontrava repleta de vizinhos com suas cadeiras nas calçadas. Segui pela Pedro Velho até sair dos limites do bairro Santo Antônio. Na sequência peguei a Juvenal Lamartine na altura da Casa de Saúde Tancredo Rosado. Cortei todos os sinais vermelhos que surgiram no meu caminho. Passei diante do Cemitério São Sebastião e entrei à direita na Frei Miguelinho. Meu coração estava aos pulos.

— Vim falar com o doutor Epitácio — disse à atendente, que desconhecia o porquê de minha presença ali, tendo em vista que eu não havia agendado consulta alguma. Ela pediu que me sentasse e aguardasse, pois restavam duas pessoas para serem atendidas. Essa espera representou um tempo interminável. Não tinha jeito. O remédio era ter um tanto de paciência e esperar a minha vez.

O relógio parecia não sair do canto. Minha ansiedade aumentava a cada minuto. Cerca de uma hora e meia depois, quando enfim o último indivíduo saiu, a moça da recepção interfonou para o médico informando que alguém de nome João Fernando Soares Barros o aguardava. Ela me olhou de um modo simpático e, sem demora, falou que eu podia entrar, pois Epitácio já me aguardava. Minhas pernas me pareceram ligeiramente bambas. O coração continuava acelerado. Atravessei o longo corredor com rutilante piso de porcelanato até alcançar o consultório do doutor, cuja sala era a penúltima. Dei três batidinhas na porta com os nós dos dedos e entrei. Ao me ver, o oncologista depressa se levantou da cadeira giratória e veio me dar um inesperado abraço. Isso nunca acontecera. O doutor Epitácio Coelho é, além de bem-conceituado, uma figura contida e um tanto quanto fria perante os seus pacientes.

Sem rodeios, depois de haver retornado à sua cadeira e eu me acomodar no pequeno sofá diante do birô, o oncologista me deu a notícia mais importante e redentora de toda a minha vida. O exame de imagem, que atestara o meu suposto câncer de pâncreas metastático, não me pertencia. Minha análise clínica fora trocada pela de outro elemento cujo nome parecia demais com o meu.

Admito que não olhei direito para a folha translúcida com a identificação, onde se encontrava o laudo de (reparem bem na semelhança) João Fernando Silvério Barros em vez de João Fernando Soares Barros, este o meu nome inteiro. Só depois de vários dias foi que o outro Fernando se deu conta de que aquele laudo não era o dele, que pertencia a um quase homônimo. O exame que recebera acusou tão só uma hepatite aguda. Tive um ímpeto de dar um beijo na careca do doutor Epitácio Coelho quando ele acabou de me explicar a monstruosa confusão dos exames. Ou seja, eu não estava com um pé na cova, como o bendito laudo me fez crer.

— Você ainda tem muita vida pela frente, meu prezado Fernando — acrescentou o médico com um sorriso continental. — Tudo não passou de um terrível engano. A outra pessoa, porém, que possui um nome praticamente igual ao seu, é que está em situação muito difícil. Como sócio desta clínica, só posso lhe pedir mil desculpas pelo equívoco. Sua enfermidade é algo tratável e curável.

— Imagine você, doutor, que durante esses dias, desde o momento em que recebi a sentença de câncer metastático, eu já imaginei diversas formas de me suicidar. Bom, isso tudo são águas passadas. Vou me tratar, ficar curado e seguir com a minha vida. Por bem pouco não cometi um ato tresloucado.

O médico balançou a cabeça afirmativamente, inclinou-se na cadeira e deu dois tapinhas no meu ombro esquerdo. Deixei a clínica me sentindo renascido. O tempo agora corre a meu favor. Muita coisa se passou ao longo desse período. Por exemplo, o fim que dei àqueles dois canalhas que me espancaram aqui em casa. Amanhã vou aguar novamente os pequenos ramos que brotaram das sementinhas de jacarandá que plantei no fundo do terreno, justamente no local onde estão enterrados em uma cova apenas. Torço que a polícia nunca descubra o duplo homicídio que pratiquei. Sem querer me gabar, penso que sou autor de um crime perfeito.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 20

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 21

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 22

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 23

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 24

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 25

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 26

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 23/11/2025 - 05:36h

O Efeito Casulo – Dia 26

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Durante as primeiras horas da manhã, depois que tomei os remédios, comecei a sentir fortes cólicas e ânsia de vômito. Resultado: findei vomitando uma água esverdeada. Como não bastasse, fui ao banheiro e constatei que minhas fezes estavam esbranquiçadas; o que já ocorreu umas quinze vezes, mesmo antes de eu receber o diagnóstico. Embora evacuando em dois momentos, num intervalo de cerca de meia hora, as cólicas não cessaram. Assim, no intuito de interromper esse mal-estar, tomei quarenta gotas de Buscopan. Em curto tempo a escopolamina foi eliminando as dores e a náusea, até findarem por completo.

Tomei um banho e escovei os dentes. A seguir preparei o café, junto com o qual comi um pão francês com manteiga e uma fatia de queijo de coalho. Felizmente, repito, os desconfortos sumiram. Apesar da melhora não me senti disposto a ligar o computador e redigir nada. Fiquei deitado na rede armada no quarto. Por volta do meio-dia fiz ovos mexidos com rodelas de banana. Este foi o meu almoço. Só agora, às quatro e onze da tarde, venho compor esta narrativa.

Não recordo direito o que abordei no capítulo passado. Deixo aos leitores (ainda me restam alguns) a tarefa de fazer esse tipo de conferência, acaso lhes falte a memória do que expus no último domingo. É isso. Não estou a fim, indisposto para abrir o arquivo e rever os pormenores, verificar se é o caso de concatenar o assunto de agora com o anterior. Acho que por hoje vou seguir um rumo indireto, sem vínculo com o enredo pretérito. Sinto que me alonguei no texto pregresso. Alguém já me disse que eu deveria escrever capítulos mais curtos. Esse alguém foi o saudoso Inácio Augusto de Almeida.

Parece-me que a trama de agora não vai sobreviver ao meu fastio, à minha desmotivação. Certas vezes nos perdemos no caminho, acabamos tomando uma direção desconexa. Dessa forma, com ou sem a indulgência do leitor, exporei uns assuntos, umas histórias desinteressantes. Nem as ostras produzem somente pérolas. Gravei isto em alguma página de que não tenho nenhuma lembrança em qual foi.

Perdoem o lugar-comum, mas, como diria Jack, o Estripador, vamos por partes. Penso que sequer o próprio Jack (nos infernos onde possa se encontrar) perdoará esta minha falta de criatividade, de algo melhor para ser dito. Neste momento, embora sem a menor intenção, acabo de me lembrar do que tratei no último relato. Contudo, ao menos por enquanto, não vou requentar aquela conversa com as pessoas que recebi no fim da tarde de ontem. Bom, falei que vamos por partes. Quem sabe dessa forma eu adquira um norte para esta narração ferida de mortal esterilidade. Pois é. Estiveram aqui, finalmente, os homens de letras Carlos Santos (jornalista), Marcos Araújo (advogado e professor) e Clauder Arcanjo (engenheiro civil e petroleiro).

Entretanto, conforme alertei, não quero retomar este assunto. Tenho a sensação de que já esgotei o bate-papo na referida ocasião. É certo que voltarei a falar a respeito dessa conversa noutra oportunidade. Neste minuto meu foco é outro. De repente me vejo pensando no vizinho à esquerda de minha casa. Aliás, para ser exato, penso na vizinha, aquela que foi brutalmente espancada por seu companheiro há mais ou menos três semanas. Todo castigo para quem agride física e covardemente uma mulher daquela maneira é pouco. Na verdade, como falei no ensejo em que discorri acerca do caso, não se bate em mulher nem com uma flor. O caule pode conter espinhos.

Agorinha, por coincidência, verifiquei uma movimentação no referido endereço. Olhei a rua por cima do muro e avistei dois homens em companhia da mulher agredida. Ela estava abandonando de vez aquela pequena moradia e, se possível, também as memórias traumáticas que, suponho, estão incrustadas naquelas paredes. Retiravam os móveis e os colocavam (especialmente os objetos maiores) na carroceria de um caminhão de médio porte. Havia uma outra jovem entre eles; esta ajudava a transportar coisas menores, que eram levadas para a caçamba de uma picape branca estacionada a uns cinco metros do caminhão. Decerto era uma amiga, quiçá uma prima ou irmã. Decorrido todo esse tempo da brutal surra sofrida por aquela criatura franzina, só hoje retornou ao domicílio para recolher o que lhe pertencia. O imóvel era alugado. Melhor analisando, três homens retiravam as coisas, colocando-as em cima do caminhão. Um deles era um rapazinho com algo em torno de vinte e dois anos. Seus traços fisionômicos pareciam com os da espancada. Considerei que pudesse ser irmão dela.

Outros vizinhos, uns dez ou mais, sem demonstrarem discrição, saíram para as calçadas e acompanhavam a retirada dos troços e utensílios. Duas mulheres da casa diante desta, a senhora Das Neves e a filha Magnólia, decerto por possuírem alguma intimidade junto à vítima, não perderam tempo e foram conversar com essa que agora é ex-moradora da Pedro Velho. O mais provável é que o agressor continue em poder da polícia. O caso teve ampla repercussão; foi veiculado e repudiado nos principais programas televisivos deste país, nas redes sociais e nos telejornais.

Acho que vou, pelo menos neste ensejo, ser breve e colocar um ponto final nesta página, seguindo o conselho do falecido Inácio Augusto de Almeida. Pois é. Inácio era um assíduo, um infalível colaborador e crítico do Blog Carlos Santos (BCS). Todos os dias ele tinha algumas opiniões sobres as postagens. Havia iniciado, quando se encontrava com a saúde favorável para isso, a publicação de um romance folhetim no BCS. Os capítulos, como me propusera, eram de fato curtinhos. Entrementes a saúde de Inácio foi se complicando, e o romance ficou sem desfecho. Suponho até que não atingiu a metade do que ele pretendia tornar público. Inácio baixava o pau em gregos e troianos. Especialmente em tudo que dissesse respeito ao atual inquilino do Palácio da Alvorada e Granja do Torto.

Como ninguém é perfeito, era um defensor mórbido do bolsonarismo. Batia com muito mais força no, conforme denominava, Nove-Dedos, o qual, entre outros afagos, chamava de cachaceiro e ladrão. Se vivo ele continuasse, estaria hoje colocando fogo pelas ventas em virtude da condenação (pelo STF) do Percevejo Supremo. Seja como for, o senhor Inácio Augusto está fazendo falta.

Espero amanhã estar me sentindo bem, livre de náuseas e cólicas, para então elaborar algo menos emaranhado. Tenho agora a sensação de que entrei em um oito e não consegui encontrar a saída. Todos que rabiscam correm esse risco. Porque esta atividade não tem receita pronta, está longe (bastante longe) de ser uma ciência exata. Quem disser que escrever é fácil é porque não é escritor, segundo Luis Fernando Verissimo, morto em agosto deste ano. Estou de acordo com ele.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 20

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 21

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 22

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 23

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 24

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 25

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 16/11/2025 - 03:34h

O Efeito Casulo – Dia 25

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Saíram há pouco. Combinamos de nos encontrar aqui às dezessete horas, isto após enfim eu quebrar o silêncio à noite de ontem e entrar em contato com eles via telefone. Achei que demorassem a chegar. Os três, porém, compareceram quase a um só tempo. O primeiro foi Carlos Santos. Marcos Araújo chegou logo depois e, após uns dois minutos, surgiu Clauder Arcanjo. Recebi-os com um abraço e lhes apertei a mãoainda na calçada. Retribuíram os abraços de modo enérgico. Como de outras vezes, a cafeteira já estava pronta. Entraram e fomos para a mesa da cozinha. Liguei a maquininha e esta começou a processar a rubiácea. O cheiro do moca ocupou o recinto. Notei que examinavam a casa com o rabo do olho, um tanto de esguelha.

Estou há uns dez dias sem fazer uma faxina. Tem poeira por todo lado e é possível de se notar o discreto rendilhado das teias de aranha nos recantos dos móveis, no teto e reentrâncias das paredes. A mesa, no entanto, eu havia limpado direito, sobre a qual coloquei em espera quatro pequenas canecas.

Descreverei agora o que se passou na visita que recebi por volta das dezessete horas, ocasião em que vieram aqui meus prováveis editores Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo. Um ar apreensivo estava estampado naqueles rostos. Esperavam que eu lhes contasse o quanto antes detalhes de minha doença, coisa que divulguei no blogue há quase um mês. Arcanjo me pareceu o mais ansioso. Tinha, repito, o cenho tenso e volta e meia lambia o lábio inferior, exibindo as sobrancelhas mais arqueadas do que de costume. Os outros dois não tinham um aspecto menos preocupado. A veia bem-humorada de Marcos Araújo sumira. A angústia era visível. Carlos Santos falou qualquer coisa sobre eu já lhe ter enviado capítulos com antecedência; e aproveitei a deixa para, enquanto lhes servia o cafezinho, por tudo às claras:

— Muito bem. Acredito que vocês têm ciência de que esse quadro de saúde (doenças, na verdade) é grave e incurável. Já me encontro com metástase. Estou tranquilo, resignado com o destino que se apresentou para mim. Apesar do impacto que sofri no dia em que o doutor Epitácio Coelho (o oncologista) me comunicou tal coisa, não demorei muito e comecei a enviar para o blogue do Carlos Santos essa história irreversível, sem possibilidade de cirurgia. É este o drama.

Clauder, engenheiro da Petrobras e também escritor, a exemplo de Marcos Araújo e de Carlos Santos, é cearense da remota e pequenina Santana do Acaraú. Nos últimos tempos ele mantém um pé em Mossoró e o outro em Fortaleza. Tomou a palavra e destacou que deveríamos ouvir a opinião de outro médico. Carlos Santos balançou a cabeça e soltou um “exatamente”. Percebi que Clauder, além da fisionomiaentristecida, falava com a voz um tanto quanto embargada. Solícito, fraterno, ele me comunicou que eu contaria com todo o suporte necessário para essa viagem e consulta em um hospital especializado e particular daquele estado, berço de tantos grandes talentos na literatura e nas artes como um todo. Pois é, foi-me oferecida a opção de ouvir o parecer de outro doutor, além de contar com ajuda financeira para essa finalidade na capital alencarina. Os demais prontamente aprovaram a proposta de Clauder:

— É isso, Fernando. Concordo com a ideia de Clauder. Podemos ir a Fortaleza o quanto antes fazer novos exames e consultar outro oncologista. Quem sabe esse tumor seja maligno, mas operável, sem metástase. Tentar não lhe fará mal. Outra coisa que você não deveria desprezar é o tratamento por meio de radioterapia e quimioterapia.Não entregue os pontos tão depressa, sem lutar. Fortaleza é um centro mais avançado que Mossoró em vários aspectos — destacou Araújo.

Comecei a servir-lhes o café, que desta vez não obteve o sucesso como da maneira que ocorreu nas ocasiões em que estávamos aqui envoltos pelo puro prazer de nos reunirmos para bater papo, jogar conversar fora. Sentei-me à mesa com minha caneca e expus um ponto de vista acerca do meu próprio caso:

Considero isso, senhores, algo inútil. A terra de Rachel de Queiroz não será minha salvação. Aliás, não há salvação para mim em parte alguma. Estou condenado e resignado com o que me espera em um tempo demasiado curto. Chamei-lhes aqui meramente para discutirmos o que será feito dos livros inéditos. Espero contar com a colaboração de vocês para não deixar os originais confinados no computador tantoquanto no e-mail. Hoje eu lhes informarei a senha. A esta altura dos fatos não desejo outra coisa. Já contratei até um plano funerário. Torço não morrer antes do período de carência para a cobertura dos procedimentos mortuários. Não adianta mais a gente recorrer a Fortaleza ou qualquer centro clínico deste país. Minha situação é um caso defavas contadas. O tempo que me resta é por demais exíguo. Então, estimados amigos, tenho pleno interesse de que fiquem com esta casa, o único bem material que possuo, além dessa bicicleta que estão vendo aí escorada no muro. Cuidarei, de maneira formal, para que tenham direito ao espólio. Não disponho de herdeiro algum. Depois podem vender este imóvel para custear a publicação de minhas obras. Sobretudo cinco romances e um livro de contos, isto sem falar na grande quantidade de poemas.

O jornalista Carlos Santos insistiu um pouco, tentou se agarrar à ideia de Clauder, entretanto acho que, lá no fundo, compreendeu que não há escapatória nenhuma para mim. Cada um tomou o primeiro gole do café e se conservaram em silêncio por cerca de um minuto. Mostravam-se impactados com a notícia do câncer e do destaque que dei ao detalhe da metástase. Carlos Santos, depois de soltar dois pigarros, falou sem me olhar diretamente, os olhos voltados para a caneca:

— Acho difícil acreditar no que está acontecendo. Desde os primeiros capítulos que você me enviou para publicar no blogue, o modo como se isolou até agora, isso me deixou angustiado. Você não merece tal coisa, meu caro. Ainda é jovem, com muita estrada para percorrer no universo das letras. Não é fácil, portanto, processar uma informação desta. Afligi-me esses dias todos recebendo os textos informando, sobretudo, seu estado crítico. Reconheço que não há nenhuma saída, contudo a parte de nos tornarmos herdeiros não me agrada. Sinto-me desconfortável. Será que você não tem por aí algum parente, ainda que distante? Claro que a venda de sua residência cobre tranquilamente os custos da publicação, mas de qualquer modo iríamos nos organizar para trazer esses livros a lume. É isso, prezado Fernando, a gente não se sente nada bem passando à condição de seus herdeiros. Tenho certeza de que Clauder Arcanjo e Marcos Araújo pensam igual a mim. Eu me sentiria muito melhor se tivesse alguém a quem deixar sua casa. Essa doença maldita, no estágio em que o tumor se encontra, não costuma perdoar ninguém. Quanto tempo, aproximadamente, o médico lhe deu? Você pode, ao contrário de nos fornecer a senha de seu e-mail, mandar os arquivos que deseja publicar para nós. Todos anexados em um só documento. Acho melhor assim.

— Está certo. Não atinei para essa opção. Juntarei os arquivos num só documento e mandarei para vocês, tudo no formato Word. A Clauder, principalmente, confio a supervisão dos originais (também conhecidos como bonecas) que a gráfica vai oferecer para conferência, antes de começar o trabalho de impressão. Não vou indicar ninguém, no entanto peço que encontrem um bom designer para conceber o projeto gráfico. Esses são detalhes que eu considero muito relevantes.

— Não se preocupe — interveio Marcos Araújo. — Dedicaremos absoluta atenção para que suas produções literárias sejam impressas com a máxima qualidade, sem qualquer falha. Também ajudarei Clauder nessa etapa do serviço. Pode confiar que os títulos ficarão bonitos e bem-acabados. Quem sabe ainda dê tempo de você mesmo constatar isso. Vamos antecipar a organização, encontrar alguém para cuidar do projeto gráfico e fazer umas capas bem bacanas. Mudando agora de assunto, destaco o quanto é desagradável falarmos a seu respeito como se você não estivesse entre nós. Isso dóisobremaneira nos nossos corações, amigo.

— Agradeço por tanta sensibilidade.

A conversa com meus futuros herdeiros durou aproximadamente três horas. Discutimos os pormenores da publicação dos livros e eles foram embora muito abatidos com a comprovação de minha doença sem jeito.

 Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 20

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 21

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 22

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 23

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 24

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 09/11/2025 - 07:50h

O Efeito Casulo – Dia 24

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imaginei que hoje não me colocaria, como se diz bem-humoradamente, entre a cadeira e o teclado. Minha falta de motivação, a exemplo do que ocorreu durante o tempo quase inteiro, era o principal motivo (senão o único) para quebrar a sequência de relatos que venho sustentando e expondo há quase um mês. Esta periodicidade, sendo agora mais preciso, alcança hoje vinte e quatro capítulos consecutivos. É verdade, devo reconhecer, que ao longo desse curso deixei de cumprir essa proposta uma ou duas vezes. No entanto, como o leitor mais atento e rigoroso pode verificar, expus estes relatos com a sequência e números diários sem prejuízo para o ambicionado projeto. Neste instante, que me limitarei a citar que se trata apenas de uma sexta-feira de outubro, toco em frente esta espécie de diário lastimoso, pessimista. Isto, em particular, porque atravessei uma noite por demais horripilante de ontem para hoje. Sonhos conturbados todo mundo os tem, mas o que tive há algumas horas foi algo sobrenatural.

Refiro-me a um sonho absurdamente chocante. Um pesadelo dentro de outro pesadelo. No primeiro, em plena madrugada, eu estava sentado num banco diante do Cemitério São Sebastião. Fazia um frio incomum e uma fina neblina se formara naquele trecho em específico. Daí a pouco avistei nitidamente, olhando-me da porta do campo-santo, uma mulher descalça, talvez na faixa dos quarenta anos, bonita, de vestido vermelho, olhos e cabelos negros e pele muito alva. Sim, a distância entre mim e ela era pequena; o banco onde eu estava ficava próximo do portão. Então veio até mim. Antes de ela chegar, caminhando com passos lentos sobre a grama orvalhada, levantei-me. Senti que o corpo inteiro se arrepiara. Contudo, embora com angústia, permaneci ao lado do banco.

Como se tivesse conhecimento de meu câncer, foi dizendo com voz suave e enternecida: “Vamos lá, Fernando. Chegou a sua vez. Peço que me acompanhe. Sua permanência nesta dimensão terrena já expirou. Não tenha medo”. Acordei de súbito, trêmulo, suado, de olhos arregalados. Foi aí que me dei conta de que estava deitado em um caixão na minha sala, o corpo rodeado de pequenas flores cor-de-rosa e brancas. Minhas mãos se achavam cruzadas sobre o peito. Tentei me mexer, descruzar os dedos e sair do esquife, todavia não consegui mover um dedo sequer. É como falei: aquela dúzia de pessoas estava ao redor com semblantes graves, carrancudos.

Entre os circunstantes, mesmo um tanto de soslaio, reconheci Paulo Soares, meu ex-patrão, e alguns amigos da loja de peças de automóveis, onde trabalhei. Além desses, para piorar o estarrecimento, achavam-se perfilados à minha direita, para perto dos pés, Ricardo Gurgel, Leopoldo Nunes e Roberto, aquele amigo de Leopoldo e seu colega de trabalho como caixa do supermercado. Vi-me cheio de pânico. Tive um ímpeto de soltar um grito, mas, além de imóvel, estava emudecido. Aquilo era impossível. Esses três últimos indivíduos foram mortos e enterrados. Não poderiam, então, me velar naquele féretro, na sala de minha casa. Pois bem. Não conseguia me mexer nem proferir uma só palavra. Esse momento foi mais assustador do que me deparar com a desconhecida diante do São Sebastião. Após alguns minutos, felizmente, despertei. Era pouco menos de três e meia. Não mais consegui retomar o sono. Passei a manhã e a tarde desanimado, sem motivação para nada. Neste início de noite, enfim, ponho-me a relatar os minutos aterradores que passei em meio às brumas do sono.

Dessa maneira, portanto, como se isto pudesse extrair de minha cabeça a memória, os instantes de terror da noite passada, decidi escrever, verbalizar ocorrência tão desesperadora, deixar por escrito o registro do tormento da minha morte sonhada. Quem sabe até um sinal de que posso estar bastante próximo de ser deveras levado à cidade dos pés juntos. Felizmente, por mais que aquilo tenha me parecido tão real, ainda não foi desta vez que fui de fato parar na sepultura. Neste exato momento, devo admitir, sinto-me aliviado. Narro o funesto episódio (dois, na verdade) com o coração apaziguado, sem o horror, sem a possibilidade de ser enterrado ainda vivo. Isso mesmo! Embora estirado no caixão, cingido de flores, eu me encontrava bem vivo. Aos demais indivíduos que estavam à minha volta, entretanto, não duvido de que tivessem plena certeza de meu óbito. Aqui redijo, reporto semelhante agonia, entrementes estou cônscio de que preciso tirar esses minutos terrificantes do pensamento.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 20

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 21

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 22

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 23

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 02/11/2025 - 06:30h

O Efeito Casulo – Dia 23

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Passei o dia quase todo no fundo de uma rede armada lá no quarto. Às vezes não me sinto muito confortável na cama e faço uso dessa opção. Sobretudo no período da manhã e da tarde. O quarto não é quente, embora forrado com gesso. Ligo o ventilador e coloco uma cadeira perto de mim. Em cima da cadeira, ao alcance do meu braço, ponho os óculos e o telefone. Vez em quando (quase que um vício) dou uma olhada no celular e confiro um monte de questões e polêmicas que transbordam da internet. Vi, por exemplo, que a famigerada “PEC da bandidagem” foi enterrada no Senado. Uma vez na vida e outra na morte, felizmente, os políticos brasileiros nos surpreendem de forma positiva. Pois é, jogaram uma pá de cal naquela proposição mais que vergonhosa. O povo saiu às ruas em todo o Brasil, e a manifestação surtiu efeito.

Mudando de assunto, agora me encontro a tocar esta narrativa tão pífia quanto mal-alinhavada. Saí da rede por volta das quinze horas, deixei a cafeteira processando o moca e fui tomar um banho. Depois, enquanto o café terminava de pingar na jarra, liguei a torneira do quintal, desenrolei a mangueira e comecei a aguar aquele pedaço de terra onde plantei algumas sementes de jacarandá.

Parentes, salvo exceções, às vezes só nos trazem problemas, dor de cabeça. Hoje, ironicamente, sinto falta de ao menos um familiar; um tio, tia ou primos. Sozinho no mundo, sem um herdeiro consanguíneo, vejo-me nesta situação de não ter a quem deixar o pouco que adquiri no decorrer de vários anos; à custa de muito trabalho. Compreendo que o tempo é curto para conquistar alguém, arrumar uma pessoa com a qual eu consiga estabelecer um relacionamento amoroso. Devo, entre os bons amigos que possuo, providenciar os papéis e deixar meu espólio a algum deles. Seria uma forma de viabilizar a publicação dos meus livros ainda inéditos.

Posso, pensando melhor, dividir a herança entre o causídico Marcos Araújo, o engenheiro Clauder Arcanjo e o jornalista Carlos Santos, editor do blogue onde venho publicando aos domingos, pedaço por pedaço, esta narrativa agônica, nua e crua. Trabalhando em equipe, esses três confrades terão meios de lançar minhas obras, em especial os romances e o meu único livro de contos.

Os originais de poesia (cinco ao todo) podem esperar um pouco mais. Tenho preferência pelo lançamento dos quatro romances e os contos. Isto sem incluir este relato ao qual talvez eu não consiga fornecer um desfecho. Minha poesia é o gênero em que tive uma única obra publicada há mais de vinte anos em virtude de ela haver conquistado um prêmio em São Paulo. Uma grande parte foi exposta no Facebook e no Instagram.

Nos últimos dias fiz um apanhado desses textos avulsos, dividi em cinco volumes com títulos pretensamente atrativos e salvei os arquivos no meu e-mail. Com antecedência, claro, revelarei a senha aos meus prováveis editores. Se não estou equivocado, já se passaram quase duas semanas que não falo com esses três, ignorando os telefonemas e as mensagens que me têm enviado pelo WhatsApp.

Meu contato se limita ao editor do blogue, o qual persiste em puxar conversa, sempre tentando obter alguma notícia, entretanto eu o deixo sem respostas, sem informação alguma. Limito-me tão somente a destinar os capítulos desta história de saúde debilitada assim como eu próprio. Saio tão somente para fazer algumas compras inevitáveis. Sobretudo itens com os quais abasteço a geladeira. Não faço “comida de verdade”, a exemplo de feijão, arroz, cuscuz ou legumes. Quando a preguiça permite, preparo um macarrão com molho de tomate e sardinhas enlatadas. Aqui e acolá faço carne assada no air fryer. Afora isto, conforme tenho revelado diversas vezes, há o café. Consumo algumas frutas, a exemplo de abacate, banana e mamão, que passo no liquidificador com leite. Ia me esquecendo: também faço ovos mexidos.

Quanto a este silêncio, tenho absoluta consciência que terei que quebrá-lo. Preciso dar notícias aos hipotéticos editores, discutir o assunto das publicações póstumas de meus trabalhos literários e (repito) informar a senha do e-mail. Certa feita, há mais ou menos dez dias, um desses cavalheiros bateu no portão e me chamou umas três ou quatro vezes. Reconheci a voz um pouco rouquenha: era o prezado Marcos Araújo. Nesse domingo (recordo bem a data) ele já havia telefonado e enviado algumas mensagens de áudio pelo WhatsApp. Fiquei calado e ele foi-se embora.

Senti um certo arrependimento por não tê-lo recebido. Seria uma oportunidade de, enfim, revelar a minha condição de enfermo com um câncer inoperável. Essa ideia de torná-los meus herdeiros, o que financeiramente poderá cobrir com sobras os custos de publicação de minhas narrativas, está se fortalecendo aqui no meu bestunto. A menos que, por mais incerto que pareça, eu descubra alguém que se afeiçoe a mim e com quem me relacione; um indivíduo que apresente um bom caráter e que esteja disposto, livre para uma relação homoafetiva.

O que não sei, entretanto, é se disponho de tempo hábil para me deparar, conhecer e me envolver com sincera reciprocidade. A cada dia que se passa bate um grande desânimo, uma angústia e desesperança de encontrar, assim às pressas, um tipo no qual valha a pena investir, dedicar os poucos meses que me restam. Sei perfeitamente que agora o relógio está contra mim.

De qualquer jeito, bem lá no fundo do meu coração, existe uma fagulha de otimismo que sugere um improvável final feliz. Isto ocorrendo, espero estar com a saúde um tanto quanto estabilizada. Porque nenhum homem, por mais sensível e bem-intencionado que seja, não vai querer um morto-vivo.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 20

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 21

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 22

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • Repet
domingo - 26/10/2025 - 06:26h

O Efeito Casulo – Dia 22

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Levantei-me antes das sete horas. Fui para o banho e deixei a cafeteira funcionando. Ao sair do banheiro, senti-me disposto e vim para a escrivaninha com uma caneca de café puro. Aqui me encontro escrevinhando estas primeiras linhas, que espero resultem num capítulo. Não tenho ideia de onde isto vai parar. Rabisco sem rumo; não vislumbro nenhum roteiro, ainda menos um desfecho.

Nas últimas vinte e quatro horas tive um sono tranquilo. Sinto-me equilibrado do ponto de vista psicológico. Continuo evitando os relacionamentos, as interações sociais. Nunca participei de grupos de WhatsApp. Há cerca de um mês fechei as minhas contas no Facebook e no Instagram. Também nunca tive Twitter. Faço jejum intermitente há bastante tempo. Estou em falta com as atividades físicas. Quanto ao cérebro, malho quase todos os dias com um pouco de leitura e o exercício da escrita. Não fosse pelo câncer, ousaria dizer que tenho uma saúde de ferro.

Contudo a realidade é outra muito diversa. Torço que os medicamentos promovam o meu bem-estar por um bom período. Depois daquela injeção de morfina, os mal-estares me deram uma trégua. Hoje, por felicidade, me encontro sem dores nas costas, ânsias de vômito nem outros desconfortos. O dia segue normal. Em razão disso, como se pode concluir, tenho ânimo suficiente para escrever.

Conduzo agora a redação para outro destino. Ao dar uma rápida olhada no Google por meio do telefone, deparei-me com o assunto da condenação, pelo Supremo Tribunal Federa (STF), do filho da puta que assolou este país desde que foi eleito presidente da República naquele nefasto 2018. Durante e após o mandato, o grande percevejo social não fez outra coisa além apodrecer esta pátria que esteve à beira da ditadura, na iminência de um golpe de Estado cujo mentor do plano de abolição violenta da democracia era justamente o energúmeno. Por uma questão de higiene psicológica, embora não seja necessário, não citarei o nome do parasita maior.

Não quero, entretanto, me ater a este assunto. Felizmente a condenação ocorreu e decerto em breve o pulha será confinado em alguma instituição prisional. Torço que seja na Papuda ou em Bangu 8. Ao menos é o que desejo, apesar de o traste possivelmente ser confinado em uma sala da Polícia Federal (PF) ou em algum quartel do Exército e, para minha total frustração, em prisão domiciliar.

Chega! Este tipo de assunto abala meus nervos. Neste relato não desejo me envenenar, nem praticar voduísmo contra quem quer que seja. Mesmo em se tratando de insetos peçonhentos como esse a que fiz alusão. Nesta metade de uma manhã um tanto nublada, pois venho pelejando com esta narrativa há quase duas horas, aproveito o bem-estar de que ora usufruo para concentrar meu gênio criador em algo de fato literário. Tenho a sensação de que estou descambando para uma redação confusa, prolixa. Pois é, eu poderia produzir algo brando, ameno, conciliador. As pessoas gostam de ler coisas suaves e atuais. Por exemplo, como está na moda, discorrer acerca de futebol ou reality shows, alguma dessas tantas lavagens cerebrais que alcançam sucesso mundo afora e que são encontráveis nos streamings, alguns até gratuitos. Pronto, vou deixar para trás a indignação e o ódio que dedico aos tipos escrotos.

Melhor compor uma página mais ou menos recreativa. É essa natureza de texto à qual as pessoas dão mais importância. No futebol, por exemplo, o Flamengo ganhou mais uma perante o Botafogo. E, para o meu regozijo, que me perdoe meu vizinho, o Vasco da Gama tomou uma goleada do Fluminense. Aí está. Eis um tema de amplo interesse. No tocante ao meu drama, deixo-o para depois.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 20

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 21

 

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 19/10/2025 - 07:50h

O Efeito Casulo – Dia 21

Por  Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Despertei com fortes dores no abdome e uma sensação de vômito que não pude segurar por muito tempo. Sim, vomitei. Esse desconforto me tirou da cama pouco depois das seis horas. Todo aquele esforço físico para abrir a cova no fundo do quintal, além de arrastar e enterrar os corpos de Leopoldo Nunes e de Roberto, amigo dele, decerto foi a razão do mal-estar. Tomei os remédios que o doutor Epitácio Coelho me receitou e neste momento me encontro de certo modo bem.

Este é mais um capítulo (o segundo) que não devo publicar no blogue do jornalista Carlos Santos no próximo domingo. Preciso escrever um outro falando de algo que não revele o duplo homicídio que pratiquei no começo da noite de ontem. Como eu destaquei anteriormente, nenhuma residência nas imediações de minha casa possui câmeras de segurança. Isto, obviamente, é um ponto a meu favor. Esqueci de mencionar que os canalhas vieram parar aqui em carro de aplicativo. Será muito azar se a polícia chegar até mim em pouco tempo. Torço que não. De tal maneira a continuidade deste relato se tornaria inviável. A narrativa seria interrompida em definitivo.

Os leitores do blogue ficariam a ver navios, sem saber por que motivo empacou (se não estou enganado) mais ou menos no capítulo 14. O simples fato de eu haver mencionado o nome de Leopoldo anteriormente pode significar uma ponta solta, um pequeno acesso (se ocorrer uma investigação aprofundada) para que a polícia venha me fazer perguntas. Assim é possível que me classifiquem como suspeito pelo sumiço de ambos.

Se baterem à minha porta, segundo mencionei, será por um tremendo azar, considerando que os celulares tiveram os chips removidos e destruídos. Os aparelhos, volto a dizer, foram sepultados com os defuntos. Considero improvável que a dupla de cretinos tenha comentado com alguém que viria à minha casa. Acho, então, que as autoridades, acaso relacionem os desaparecidos a mim, só chegarão a essa linha de raciocínio depois que eu também já estiver morto e enterrado.

Quanto à minha herança, meu espólio, voltei à estaca zero. Mais uma vez dei com os burros n’água ao considerar a possibilidade de firmar um relacionamento homoafetivo com um sujeito digno de ser meu herdeiro. A frágil chance que vislumbrei junto a Leopoldo foi uma mancada. Como diz o provérbio, caí do cavalo. E, além da queda, recebi o coice. Tomei uma surra e tanto.

Depois, no maior descaramento, Leopoldo quis justificar o comportamento abominável dele e do amigo Roberto com o fato de terem cheirado cocaína antes de virem para cá. Por uma questão de justiça, devo admitir que o maconheiro Ricardo Gurgel nunca levantou um dedo sequer contra mim. Era um malandro, um michê sem pudores, no entanto era pacato e sabia me foder direitinho. Apesar dos pesares, agora lamento que Ricardo não esteja mais em minha companhia. Esse não me maltratava nem me abandonaria ao saber do meu câncer.

Embora com todos os seus defeitos (o estilo sanguessuga, a malandragem incurável, o desinteresse de arrumar trabalho e possuir uma renda própria, uma grana não oriunda unicamente dos meus recursos), foi o único indivíduo que tinha tudo para hoje ser meu herdeiro. Entretanto se encontra debaixo de sete palmos de chão. Às vezes imagino que fui duro, rigoroso demais. Nosso vínculo, cheio de altos e baixos, ingratidões e um tanto tóxico, representava uma exploração classicamente financeira, quase nada além disso. Porém a gente findava se entendendo. Até o dia em que me trocou por outro. Se era ruim com Ricardo Gurgel, pior sem ele.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 20

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.