Por Marcos Ferreira
Certo dia, isto há mais ou menos um mês ou um pouco além, tive a infelicidade de ver um desses vídeos que se propagam na internet, tornam-se “virais”, eis a palavra da moda e também a mais apropriada. Com um aparelho celular, vejam só, alguém gravou de dentro de um carro uma pessoa (não sei até que ponto posso dizer que se trata de ser humano) que acabara de abandonar um cão à margem de uma estrada.
O sujeito pegou o seu automóvel e partiu sem a menor piedade, sem compaixão alguma. Pura malvadeza! O pobre do animal, aflito, usando todas as suas forças, saiu na carreira tentando alcançar aquele elemento insensível, mau-caráter.
Fiquei arrasado com aquela imagem, o cachorro correndo desesperadamente, perseguindo o veículo de seu desalmado dono durante não sei quanto tempo. Não me agrada ver ou tomar conhecimento de ações desse tipo. Prefiro não saber. É que dói no coração, sabe? Um sentimento de impotência me machuca demais o espírito. Desvio a vista, por exemplo, quando no meu caminho me deparo com um animalzinho atropelado em algum ponto deste município, sobretudo gatos.
Houve um certo tempo em que muitas coisas me comoviam menos. Hoje em dia está tudo mudado. Tornei-me, como se costuma dizer, um tipo de manteiga. É isso, me derreto fácil perante ocorrências dessa espécie e de várias outras. No passado, repito, aquelas imagens naturalmente me tocavam, entretanto não como agora. Sinto bastante pena dos excluídos, de gente ou bichos, que vagam por esta urbe sem a proteção de ninguém, ao léu, desnorteados, no mais das vezes com fome e sede.
Está cada vez mais difícil fazer de conta que não temos nada a ver com isso. O número de animais de rua, de homens e mulheres rifados em toda parte é imenso.
Tenho a impressão, falando de modo realmente amplo, de que já tivemos um coração melhor, menos frio, mais empático. Nos tempos atuais, apesar da carestia não ser tão abrangente como antes, quase toda a gente lava as mãos para a desgraça alheia; a ruína de nossos semelhantes e animais abandonados mundo afora. É mesmo uma pena que sejam tão poucos os que pratiquem a caridade.
Não é a primeira vez que escrevo acerca dessas coisas lamentáveis. Decerto há elementos que não gostam disso, acham que estou aqui sendo demagogo ou hipócrita. Querem (não todos) apenas historinhas felizes. Sim, um bom número de cidadãos não curte essa temática, espera-se ler unicamente um conteúdo positivo, deseja-se acessar o blogue no domingo e se deparar com textos ricos em otimismo e narrativas brandas. Nada de queixumes, nada de cenas tristes do dia a dia. Essas almas empedernidas, tão calorosas quanto uma pedra de mármore, estão mais a fim é de, volto a dizer, amenidades, relatos edificantes, sem notícias melancólicas.
Não vou me alongar nesta temática soturna, incômoda. No entanto fico na torcida, na esperança de que aquele cachorro rejeitado tenha descoberto em algum lugar um tutor sensível, pessoa de coração gentil, caridosa. E que São Francisco de Assis, santo padroeiro dos animais e da natureza, oferte alguma proteção a esses bichinhos desamparados, sem acolhida, que vivem ao deus-dará.
Marcos Ferreira é escritor















































